Dentre os principais candidatos à presidência, quase nenhum deles cita HIV ou aids em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Esse é o caso de Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede): nenhum deles menciona especificamente sobre a epidemia de HIV e aids no Brasil, seu controle, tratamento ou o atendimento às pessoas que vivem com HIV. A única exceção entre principais candidatos à presidência é Ciro Gomes (PDT).

Dentre os demais candidatos, com menor intenção de voto de acordo com as pesquisas, Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) também não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids e pessoas que vivem com HIV em seus planos de governo. O único candidato com menor intenção de voto que em seu plano de governo apresenta propostas específicas é Guilherme Boulos (PSOL).

Guilherme Boulos, da coligação Sem Medo de Mudar o Brasil, fala sobre HIV ou aids nas páginas 66, 73, 74 e 92 de seu plano de governo, ao mesmo tempo em que fala sobre a inclusão de pessoas trans:

As pessoas trans são as principais vítimas dos crimes de ódio (e o Brasil é o país onde mais são assassinadas a cada ano por sua identidade de gênero), constituem o grupo mais vulnerável à epidemia de HIV/aids, e também sofrem, como nenhum outro grupo social, a exclusão e a discriminação no acesso à educação, à saúde, ao emprego e à moradia. Todas essas formas de opressão são naturalizadas pela maioria da sociedade, que não as percebe, porque as próprias pessoas trans não são percebidas.

Boulos lembra da invisibilidade legal sofrida pelas pessoas trans: o Estado que não lhes reconhece oficialmente e, assim, lhes nega o direito de ser quem são. Nomeadamente, a impossibilidade de usar legalmente o nome pelo qual são chamadas, que identifica as pessoas trans, e de ter seu gênero registrado nos documentos, produz constrangimento, problemas na vida quotidiana, negação de direitos fundamentais e constante humilhação. Ademais, a identidade de gênero das pessoas trans ainda é tratada como doença ou patologia, tal como aconteceu no passado com a homossexualidade.

Diante dessa realidade, o governo de Boulos e Sônia propõe:

  • apoiar a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-5002/2013 (Lei João Nery), dos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF), que despatologiza a transexualidade e reconhece o direito das pessoas trans à identidade de gênero e à autonomia para decidir sobre seus corpos.
  • desenvolver uma política nacional para prevenir a discriminação e o preconceito contra as pessoas trans na infância e na adolescência, com ênfase na educação formal e em campanhas de difusão dirigidas às famílias;
  • criar um programa de acolhimento, moradia e inclusão social para as pessoas trans expulsas do lar familiar e/ou em situação de rua;
  • promover a inclusão de mulheres trans na lei 13.104/2015 (Lei do Feminicídio) e desenvolver uma política nacional de prevenção da violência e dos crimes de ódio contra a população LGBTI;
  • reestruturar o processo transexualizador, em adequação ao CID-11, garantindo o cuidado das pessoas trans numa perspectiva não patologizante e de saúde integral, em sintonia com o projeto de Lei João Nery;
  • ampliar o número de ambulatórios voltados para a população trans, garantindo sua presença em todas as cidades com mais de 300 mil habitantes, com disponibilidade de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para pessoas que residem em municípios que ainda não contem com o serviço;
  • articular uma rede de atenção e cuidado à população intersexual, garantindo sua autonomia para tomar decisões sobre seus corpos, orientação das famílias e proteção dos seus direitos.

Em relação aos serviços do SUS, Boulos alerta que as políticas de prevenção da epidemia de HIV e aids focadas na população LGBTI foram em muitos casos desmanteladas, segundo ele, por pressão dos fundamentalistas religiosos, o que teve um impacto direto nas estatísticas de transmissão do vírus, cuja incidência na população mais pobre e na população LGBTI cresceu. Boulos também reconhece que existem dificuldades na provisão dos medicamentos antirretrovirais. Além disso, aponta inúmeros problemas enfrentados por pessoas trans e homossexuais no SUS, para os quais ele propõe:

  • criar uma linha de cuidado à saúde integral das mulheres lésbicas e bissexuais e trabalhar junto às universidades para promover uma melhor formação dos profissionais da saúde nessa área, enfrentando também a violência ginecológica e obstétrica sofrida por mulheres lésbicas ou bissexuais e homens trans;
  • implementar uma política de atenção integral à saúde de trabalhadores/as sexuais;
  • Realizar campanhas de prevenção ao suicídio de pessoas LGBTI e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS);
  • promover a completa despatologização das identidades LGBTI, assim como o fim das “comunidades terapêuticas” e da pseudociência, das intervenções corporais indevidas em pessoas intersexo, das internações forçadas e dos tratamentos anticientíficos para a mal chamada “cura gay”;
  • criar plano de políticas públicas e metas para redução da transmissão do vírus do HIV, recuperando e reforçando campanhas e políticas específicas para a população LGBTI, negra, campesina e indígena, e da mortalidade por aids e coinfecções como tuberculose e pneumonia;
  • acabar com a proibição de doar sangue para os homens que fazem sexo com homens, apoiando a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-6297/2016, do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Para enfrentarmos esse cenário, Boulos defende que o Estado atue na melhoria das condições de vida da população, na garantia do direito à saúde e na consolidação do SUS enquanto um sistema de saúde público, universal e gratuito. Ele alerta que os recursos destinados à saúde pública, no Brasil, representam metade da média do gasto em países com sistemas universais semelhantes. Boulos é contra a privatização da gestão, que não resolveu o problema da eficiência na utilização dos recursos públicos.

Ciro Gomes, em seu plano de governo, fala sobre HIV na página 36, subitem 6.8, em que afirma que o programa de controle de HIV/aids no Brasil é um caso de sucesso que deve ser mantido, e também na página 51, quando fala da maior vulnerabilidade das pessoas LGBTI à epidemia de HIV.

Em relação à saúde como um todo, Ciro defende aprimorar o SUS para melhorar o atendimento na saúde:

Ao completar 30 anos de sua criação, o SUS precisa ser fortalecido
 e aperfeiçoado, em busca de melhores resultados para a população brasileira. É necessário aprimorar a organização, supervisão, avaliação e controle do Sistema, eliminando também, como na Educação, o subfinanciamento causado pela Emenda
 do Teto de Gastos. Só assim será possível ampliar a qualidade e a resolutividade
da atenção primária, que ainda hoje é objeto de insatisfação da população.

Ciro defende a redução da espera para os atendimentos ambulatoriais, consultas especializadas e realização de exames, bem como a diminuição da espera para as cirurgias eletivas. Para isso, segundo ele, é necessário investir na rede de atendimento, nas campanhas de prevenção e de vacinação, na formação de médicos generalistas, na melhoria dos sistemas de informação, na coordenação entre as diversas esferas de atendimento, incluindo o pacto federativo, e na premiação do bom desempenho. Além disso, planeja criar o “Registro Eletrônico de Saúde”, que registrará o histórico do paciente e facilitará o atendimento do paciente em todas as esferas do SUS.

Além disso, o plano de Ciro inclui:

  • recuperar a cobertura vacinal, atentando para a necessidade premente de evitar uma epidemia de sarampo;
  • criar o “Comitê Nacional de Políticas Públicas LGBT”, com representantes estaduais, assim como uma “Secretaria Nacional de Políticas Públicas para a
    Cidadania da população LGBTI”, incluindo o amparo à seguridade de trabalho, emprego e renda à população LGBT e de ações afirmativas de combate à discriminação institucional de empresas e no ambiente de trabalho;
  • implementar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBTI;
  • respeitar o Termo de Compromisso com a Aliança Nacional LGBTI+ e parceiras, tentando cumprir com máximo esforço suas propostas;
  • criar meios para coibir ou obstar os crimes LGBTIfóbicos, definindo suas características, equiparando aos crimes por racismo, injúria e feminicídio, cada qual com sua especificidade;
  • reestruturar, ampliar e fortalecer o Disk Direitos Humanos (Disk 100);
  • combater toda forma de preconceito, seja ele por raça, etnia, sexo, orientação sexual e/ou identidade de gênero no Plano Nacional de Educação;
  • desenvolver plano de ações e metas para diminuir a discriminação nas escolas e a evasão escolar;
  • garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para
que atendam às necessidades especiais da população LGBT no SUS e suas especificidades, assim como o acolhimento dessa população acima dos 60 anos;
  • considerar as transversalidades da população LGBTI e suas vulnerabilidades, tais como: situação de refúgio, conviventes com HIV/aids, LGBTIs negros e negras, em situação de rua, dentre outras, fomentando a ampliação das políticas públicas existentes e criação de políticas públicas de proteção e acolhimento à essas especificidades;
  • fomentar a aprovação de Projetos de Lei em tramitação que visam à equiparação do casamento civil igualitário, assim como a Lei de Identidade de Gênero conhecida como Lei João W. Nery em consonância com as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) de número 4277 e 4275, respectivamente, votadas pelo pleno Supremo Tribunal Federal.

Além de Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT), nenhum outro candidato à presidência fala sobre HIV e aids em seu plano de governo. Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids em seus planos de governo.

Vale registrar que o plano de governo de Lula, registrado no TSE antes da negação de sua candidatura, também não apresenta qualquer proposta específica para quem vive com HIV ou para controlar a epidemia no Brasil.

O Diário de um Jovem Soropositivo entrou em contato com todos os candidatos, suas equipes ou partidos, perguntando sobre as políticas públicas de cada um para as pessoas que vivem com HIV e para o controle da epidemia de HIV no País. Até a publicação desse texto, nenhum candidato respondeu aos questionamentos.

Apesar do silêncio de todos estes candidatos, nenhum deles se posicionou publicamente contra as pessoas que vivem com HIV ou contra a oferta universal e gratuita de tratamento antirretroviral — exceto um: Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Jair Bolsonaro fala pouco sobre saúde em seu plano de governo, citando genericamente sobre o tema nas páginas, 10, 12, 22, 34, 36, 37, 39, 40, 41 e 80.

Abandonando qualquer questão ideológica, chega-se facilmente à conclusão que a população brasileira deveria ter um atendimento melhor, tendo em vista o montante de recursos destinados à Saúde. Quando analisamos os números em termos relativos, o Brasil apresenta gastos compatíveis com a média da OCDE, grupo composto pelos países mais desenvolvidos. Mesmo quando observamos apenas os gastos do setor público, os números ainda seriam compatíveis com um nível de bem estar muito superior ao que vemos na rede pública. É possível fazer muito mais com os atuais recursos!
 Esse é o nosso compromisso!

Bolsonaro propõe “libertar nossos irmãos cubanos” do Mais Médicos: “suas famílias poderão imigrar para o Brasil”. E, também, mudar o conteúdo e o método de ensino nas escolas, com mais matemática, ciências e português e “sem doutrinação e sexualização precoce”. Não existe plano específico para a população LGBTI no plano de governo de Bolsonaro, entretanto, publicamente, o candidato já afirmou que “filho gay é falta de porrada”.

Em relação ao tratamento universal e gratuito para quem vive com HIV, Bolsonaro já disse em entrevista que quem viveu a “vida mundana”, e daí contraiu uma doença, não pode vir cobrar do poder público por seu tratamento de saúde. Em outras palavras, Bolsonaro é contra o acesso gratuito ao tratamento antirretroviral contra o HIV.

É importante lembrar que uma política semelhante já foi adotada na Rússia, sob o governo de Vladimir Putin. Por conta disso, e epidemia russa de HIV tem crescido 10% ao ano, forçando as pessoas que vivem com HIV no país a organizarem clubes de compras de antirretrovirais, tal como no filme Clube de Compras Dallas (2013). A política discriminatória russa também tem criminalizado a transmissão do HIV, especialmente contra mulheres, mesmo sem qualquer comprovação da transmissão ou da origem da infecção.

Considerando as propostas dos candidatos e, também, suas afirmações e declarações públicas para além de seus planos de governo, minha convicção pessoal é votar contra o candidato do PSL, Jair Bolsonaro — em outras palavras, votar em qualquer outro candidato com alguma chance real de vencê-lo, de acordo com as pesquisa de inteção de voto.

Os incontáveis discursos de Bolsonaro homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência ou o uso de armas são suficientes para meu repúdio à sua candidatura, para não falar da sua defesa ao regime militar, da falta de evidência de sua competência, com apenas dois projetos aprovados em 26 anos de Congresso, e, por fim, da sua evidente limitação em se aprofundar em diversos assuntos que julgo essenciais para um presidente, como economia, saúde e salário mínimo, entre outros, tópicos que Bolsonaro, ao meu ver, sempre se mostra incapaz de responder (talvez, até incapaz de compreender a pergunta) nas entrevistas e sabatinas que participou durante a campanha.

Seu plano de governo é carente de propostas claras, não apresenta um plano prático de como “mudar isso aí”, tal como o candidato tanto gosta de falar. Em seus discursos, suas propostas ocasionalmente apresentadas são geralmente confusas, por exemplo: apesar de se apresentar como um liberal, Bolsonaro indica em suas atitudes ser contra a privatização de estatais e se absteve de votar no ano passado no Projeto de Lei da Terceirização (PL 4330/04). Além disso, já defendeu barreiras alfandegárias, tal como fez Dilma Rousseff em seu mandato, e se manifestou a favor de barreiras migratórias. A visão de mundo de Bolsonaro é militarizada, retrógrada e enviesada.

Bolsonaro parece representar um ódio coletivo contra a insatisfação de muitos brasileiros, a qual para parece vir dos últimos governos do PT e, também, do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso. Sendo isso verdade, é natural almejar agora por um presidente de outro partido, diferente da dicotomia que experimentamos há tantos anos, dividindo o Brasil em dois e rivalizando entre “coxinhas” e “mortadelas”, petistas e tucanos. Entendo que é importante a troca de poder e que é saudável que este vá para as mãos de alguém hábil em unir estes lados díspares na sociedade brasileira atual. Contudo, é muito claro que este alguém não é Bolsonaro — e, se fosse, o preço a se pagar por isso, com ele no poder, presumindo-se a partir de todo o discurso do próprio candidato, seria mais terrível do que qualquer outra situação que já experimentamos, com exceção à ditadura.

Votar contra Bolsonaro é votar de acordo com as  pesquisa de intenção de voto, as quais hoje indicam que qualquer um dos demais candidatos com maior intenção é capaz de derrotá-lo no segundo turno. Nesse sentido, votemos em que se alinha às nossas convicções. Para mim, vejo que esse candidato é Ciro Gomes (PDT): é ele que terá o meu voto! E você, em quem vai votar?

 

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No próximo dia 22 de setembro de 2018, das 13h às 18h, acontece o evento “Suicídio: Saber, Agir & Prevenir”, organizado pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, a RNAJVHA, na Escola Superior de Ciências da Saúde, em Manaus.

A RNAJVHA é um coletivo de pessoas que atua como movimento social, reivindicando direitos e funcionando como um espaço de acolhimento para adolescentes e jovens com sorologia positiva para o HIV. É uma rede nacional que possui bases em vários estados do Brasil. Em Manaus, a RNAJVHA – Amazonas realiza encontros mensais, no segundo domingo de cada mês, buscando fortalecer a juventude que vive com HIV/Aids por meio da informação entre pares, incentivando a adesão ao tratamento, promoção de direitos e quebra do estigma e discriminação, trazendo um novo olhar para a vida da juventude após a descoberta do diagnóstico. E trabalhamos com políticas públicas e controle social da juventude vivendo com HIV/Aids no Estado.

A ideia do evento foi de Felipe Medeiros, um dos coordenadores da RNAJVHA – Amazonas, que movimentou muita coisa pra que isso acontecesse. Na verdade, não existe nenhum estudo que relacione diretamente o suicídio ao diagnóstico positivo para o HIV, mas vimos neste setembro amarelo uma oportunidade de desmistificar o tema e falar sobre a importância do cuidado com a saúde mental. Existem alguns estudos que mostram que uma parcela significativa das pessoas que vivem com HIV possuem algum tipo de transtorno psiquiátrico, diagnosticado ou não. Por isso, hoje em dia, fala-se em atendimento biopsicossocial da pessoa que vive com HIV: uma forma de encarar o tratamento para além de apenas tomar a medicação. Ou seja, oferecendo suporte para cuidado com a saúde mental e meios para que aqueles que não possuem dinheiro possam dar continuidade ao tratamento desta enfermidade.

Neste evento, haverá dois palestrantes de Manaus: Um é um psicólogo que conhece muito bem o tema, o Clovis Coelho. Outra é a Consuelena Lopes. Ela é psicóloga com doutorado em Antropologia Social e já atuou por muito tempo no atendimento de pessoas que vivem com HIV aqui em Manaus, em uma policlínica. Também teremos uma psicóloga da Fiocruz Brasília que vem pra cá apenas pra este evento, a Karine Dutra. Ela já trabalhou muito na construção de políticas públicas diretamente no ministério da saúde.

Hoje em dia existem outras formas de se prevenir o HIV além da camisinha, como a PEP e a PREP, e também existem estudos internacionais que comprovam que pessoas com carga viral indetectável há pelo menos seis meses, e sem nenhuma ist não transmite o vírus do HIV mesmo em relações sexuais desprotegidas. Por isso, para além da camisinha podemos considerar a adesão ao tratamento uma forma eficaz de prevenção ao HIV.

Sobre o HIV e o suicídio, eu penso que ambos os assuntos são envolvidos por tabus. Ainda existem pessoas que, mesmo nos dias de hoje, encaram o HIV como um diagnóstico de morte. Além disso muita gente não sabe exatamente como ocorre a transmissão, imaginando que só de compartilhar talheres, beijar ou abraçar pode se infectar, pois a nossa sociedade não fala abertamente sobre sexo. Da mesma forma, o suicídio envolve alguns temas delicados: evita-se falar de morte, pois achamos que isso pode atrair coisas ruins. As vezes a pessoa com ideação suicida é vista como alguém dramático, fraco, inconveniente. Tudo isto impede um diálogo aberto sobre o tema. E como você mesmo falou, é um tema que precisa da nossa atenção pois é uma das principais causas de morte entre jovens.

Se o suicídio passar a ser encarado como um problema de saúde pública e se forem pensadas estratégias para combatê-lo a partir de estudos sérios, penso que essa triste situação pode ser revertida. Mas pra isso, é preciso que as pessoas lancem um novo olhar sobre o suicídio e os transtornos associados a ele. É isso que buscamos com esse evento.

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RNAJVHA – Amazonas | Coordenadores: Bruno Cortez, Felipe Medeiros, Hadassa Brasil | E-mail para contato: jovenspositivosam@gmail.com

Pesquisadores desenvolveram uma nova maneira de datar as cepas de HIV que estão “hibernando”, o que representa um avanço para a pesquisa de cura do HIV e confirma que as cepas latentes do HIV podem persistir no corpo por décadas.

“Sem identificá-lo, não podemos curá-lo”, disse a Dr. Zabrina Brumme, diretora do laboratório BC Centre for Excellence in HIV/Aids, o BC-CfE, e principal autora do estudo. “Há muito tempo os cientistas sabem que cepas de HIV podem permanecer em hibernação no organismo de um indivíduo vivendo com HIV, reativando muitos anos depois. Nosso estudo confirma que o reservatório latente do HIV é geneticamente diverso e pode conter cepas virais que remontam à transmissão.”

Além do BC-CfE, o estudo foi conduzido junto da Universidade Simon Fraser (SFU), em parceria com a Universidade da Columbia Britânica (UBC) e a Western University. “O BC-CfE tem sido consistentemente um líder nacional e global em pesquisa sobre o HIV e na implementação de estratégias de tratamento como prevenção.

“Ao criar árvores genealógicas de vírus, usando uma técnica chamada filogenética molecular, podemos reconstruir a história evolutiva do HIV dentro de uma pessoa”, disse Brad Jones, um Ph.D. estudante com UBC no BC-CfE e o primeiro autor do estudo. “Em essência, criamos uma ‘máquina do tempo’ altamente calibrada que nos dá um marco de tempo específico para quando cada cepa do HIV dormente apareceu originalmente em uma pessoa.”

As cepas de HIV inativas, que integraram seu DNA ao das células do corpo, podem persistir por anos e são inacessíveis pelos tratamentos antirretrovirais atuais e pelo sistema imunológico. Entretanto, essas cepas podem reativar a qualquer momento e é por isso que, para evitar essa reativação, o tratamento do HIV precisa ser mantido por toda a vida.

“Pesquisas anteriores já haviam revelado que o reservatório do HIV era geneticamente complexo. Com nosso método, podemos agora entender essa complexidade com maior granularidade, identificando exatamente quando cada cepa original do HIV apareceu originalmente em uma pessoa”, disse o Dr. Jeffrey Joy, pesquisador no BC-CfE e coautor do estudo.

“A fim de erradicar o HIV do corpo de uma pessoa, você primeiro precisa conhecer as características do HIV no reservatório latente”, disse o Dr. Art Poon, professor assistente em Patologia e Medicina Laboratorial na Western University e também coautor do estudo. “Estamos fornecendo um método para medir melhor a linha do tempo da latência e evolução do vírus dentro de um indivíduo que vive com o HIV”.

Para “datar” cepas de HIV inativas no reservatório viral, os pesquisadores precisaram comparar essas cepas com aquelas que evoluíram dentro de um indivíduo vivendo com HIV durante toda a história de sua infecção. O BC-CfE é uma das poucas instituições em todo o mundo capazes de tal pesquisa, graças à manutenção de um repositório histórico de amostras de sangue de indivíduos diagnosticados com HIV no BC. Esses espécimes datam de 1996 e foram originalmente coletados para testes de carga viral e resistência a drogas.

Lembra da coorte Visconti? Foi um estudo conduzido em diversas clínicas de saúde na França, publicado em 2013, sobre 14 pessoas, dez homens e quatro mulheres, que iniciaram a terapia antirretroviral logo após o diagnóstico, mas, depois, interromperam o tratamento. E foi aí que veio a surpresa! Ao invés do esperado retorno da carga viral, estes 14 pacientes mantiveram seu controle da carga viral, mesmo na ausência dos antirretrovirais. Isso quer dizer que eles controlaram a carga viral após o tratamento — daí o nome do estudo Virological and Immunological Studies in CONtrollers after Treatment Interruption, Visconti, algo como Estudos Virológicos e Imunológicos em Controladores pós Tratamento.

Uma das conclusões do Viconti foi a de que uma em cada seis pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral menos de seis meses após a infecção poderiam ser capaz de controlar suas cargas virais por pelo menos um ano após a interrupção do tratamento. Pessoas assim receberam o nome de “controladores pós-tratamento”.

Contudo, desde o Visconti, pouco avançou-se no estudo de controladores pós-tratamento. Até agora. Um novo estudo, uma colaboração dos Estados Unidos, reuniu dados de 14 estudos científicos contendo, no total, observações sobre mais 600 pessoas soropositivas e descobriu que 67 delas foram capazes de manter ou restabelecer uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml por pelo menos 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Este é o primeiro grande estudo, desde a coorte Visconti, em 2013, a estimar a proporção de pessoas que poderiam ser controladores pós-tratamento. Chamado de Champ, acrônimo de Control of HIV after Antiretroviral Medication Pause, analisou dez ensaios clínicos randomizados e quatro estudos de coorte realizados nos Estados Unidos e  Canadá, com resultados publicados de 2000 a 2017.

A maioria destes estudos foi de interrupção do tratamento, por si só, ou de vacinação terapêutica ou outro tratamento imunológico. Três dos quatro estudos de coorte foram de pessoas tratadas em infecção precoce, enquanto o último estudo de coorte foi com pessoas já sabidamente controladoras virais.

A idade média dos participantes foi de 41 anos, sem diferença entre os tratados em infecção precoce ou crônica. 19% eram mulheres. 69% eram brancos e 25% negros. A definição usada pelo Champ para definir um controlador de pós-tratamento foi a de que a pessoa tinha que ter uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml ao longo de, pelo menos, dois terços do tempo e, pelo menos, por 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Seguindo essa definição, os pesquisadores descobriram que 13% das pessoas que iniciaram o tratamento antirretroviral logo após a infecção foram capazes de alcançar o controle viral pós-tratamento. Esta é uma estimativa muito próxima daquela dos pesquisadores do Visconti, que disseram que 15% das pessoas tratadas na infecção precoce poderiam ser controladoras pós-tratamento.

Mas o Champ não parou por aí. O estudo também procurou por controladores pós-tratamento que não iniciaram a terapia antirretroviral até que estivessem em infecção crônica — e encontrou 25 deles, representando 4% das pessoas que iniciaram o tratamento na fase de infecção crônica. Esta é a primeira vez que um estudo apresenta uma estimativa para a proporção de pessoas que iniciam o tratamento na infecção crônica pelo HIV e que podem vir a ser controladores pós-tratamento.

O tempo médio que as pessoas estavam em terapia antirretroviral antes de interromperem o tratamento foi 89 semanas, equivalente a um ano e nove meses. 75% das pessoas mantiveram controle por pelo menos um ano, 22% destas chegaram a cinco anos. Dois indivíduos tratados precocemente estão controlando sua carga viral há mais de dez anos, sem antirretrovirais. Todos os controladores pós-tratamento observados geralmente mantiveram suas contagens médias de CD4, com apenas um leve declínio de 32 células/mm³ por ano, em média, em comparação uma queda de 221 células/mm³ entre os não-controladores.

Há um detalhe interessante: 42% dos controladores de pós-tratamento que iniciaram a terapia antirretroviral já na infecção crônica vieram de um único estudo, o ACTG 5068. 10% das pessoas neste estudo foram identificadas controladoras pós-tratamento, em comparação com 3% em todos os outros estudos de pessoas iniciando tratamento em infecção crônica.

A característica distintiva deste estudo está no fato dele ter usado a chamada “interrupção de tratamento pulsada”. Isto significa que, depois de parar inicialmente a terapia antirretroviral, as pessoas foram colocadas em duas interrupções curtas de tratamento, de 4 a 6 semanas, com um período de tratamento entre elas, antes que este fosse descontinuado indefinidamente. O resultado foi que 15% tornaram-se controladoras pós-tratamento — uma proporção tão alta quanto aqueles que iniciaram o tratamento no início da infecção.

Esse é um detalhe que sugere (mas não confirma) que as interrupções pulsadas possam ter sido suficientes para permitir que pequenos surtos de carga viral levem, segundo os pesquisadores, ao que eles chamam de “autoimunização” contra o HIV. Mesmo assim, se esta teoria estive correta, o fato é autoimunização só ocorreu em apenas 15% das pessoas. A combinação de fatores que as levou a se tornarem controladoras pós-tratamento, enquanto a maioria das pessoas não, ainda é um mistério.

Enquanto isso, apenas uma pequena proporção de pessoas passará pelas interrupções estruturadas de tratamento, trazendo eventualmente algum luz sobre o assunto. Por enquanto, o fato é que este estudo americano nos confirma que o controle pós-tratamento não é um fenômeno especialmente raro.

“Quero compartilhar com vocês parte da minha história. Quero ajudar alguém que, assim como eu, se deparou com um diagnóstico tão desolador — não só pelo choque que qualquer doença séria e incurável traz ao indivíduo, mas sobretudo por um enfraquecido sistema imunológico, tal como o meu quando da descoberta.

Almejando ser mais didático, vou descrever minha trajetória separando as esferas pessoal e profissional, para tentar dimensionar e, assim, fazê-los compreender a real extensão de tudo o que senti ao ser diagnosticado positivo para o HIV. A exatidão desse sentimento que vem com o diagnóstico não se mensura apenas por aquilo que vivenciamos à época do resultado, mas por tudo aquilo que sempre acreditamos e perseguimos ao longo da nossa trajetória: o impacto (que imaginamos) daquele diagnóstico para o futuro de nossas vidas ou, ao menos, os efeitos dele projetados sobre o nosso futuro.

Inicialmente, friso que cresci em uma cidade pequena, pacata, do interior. Tive uma adolescência permeada de preconceitos e autopreconceitos, intrínsecos, próprios de todo ser humano que se cresce em comunidades pouco desenvolvidas e é educado no seio de uma família religiosa.

Para mim, essa não foi uma história que descreva como ruim, não foi!, mas posso dizer que me fez sofrer o bastante para aceitar a minha sexualidade. Tive que vencer muitos preconceitos próprios, ao ponto da minha primeira relação sexual com o gênero que me atrai ter acontecido somente aos meus 21 anos idade.

Foi a partir daí, registrando esse marco como libertador, que decidi seguir a minha vida assim: me tornado alguém que me fizesse feliz, liberto de todas as neuras, seguindo as minhas crenças pessoais e sempre me adaptando diante do dogma que ainda carregava, desde os tempos de igreja. Hoje, acredito que Deus me ama do jeito que sou, apenas me quer de coração puro, sem maldade, sem buscar o mal ao próximo, sendo uma pessoa justas, assim como ele. Essa é a minha forma de pensar e viver bem minha vida, sem perder a minha fé e com todo respeito à opiniões contrárias. Viva a liberdade de consciência e de crença!

Também segui buscando minha felicidade em outro aspecto importante para mim: o corpo, através daquilo que alguns chamam de ‘culto ao corpo’. Aos 23 anos, em 2008, me tornei um praticante esportista muito dedicado. Viciado: treinava três horas por dia. Tinha o sonho de chegar ao fisiculturismo e até fazia dietas consideradas por alguns como ‘extremas’.

Mas foi saindo da faculdade que recebi um convite de trabalho que muito me auxiliaria à realização do meu sonho profissional, em termos de experiência na carreira que desejava seguir. Não pensei duas vezes e, ao longo de um ano, suspendi a musculação e me concentrei neste outro projeto. Durante esse período, confesso, comecei a me sentir mal por ficar muito magro, de músculos murchos, e com uma barriguinha que nunca antes me acompanhara. Senti a queda na autoestima. E foi exatamente nesse momento que veio o diagnóstico positivo para o HIV.

O diagnóstico me fez pensar em desistir de tudo, como se todos os meus sonhos caíssem por água abaixo. Fiquei desolado, extremamente arrasado. E temeroso diante do futuro do relacionamento que acabava de se iniciar.

Tudo começou em 2016, quando viajei para a praia, em outro Estado. Lá, conheci alguém que me encantou. Ele era incrível! Me cativava com seu jeito de tratar, me olhar… Regressei de viagem com uma daquelas paixonites, sabe? Era como se tivesse retornado à adolescência: continuamos a nos comunicar via WhatsApp e sempre mantendo diálogo como se namorássemos a sério, como se, no dia seguinte, ou a qualquer hora, pudéssemos nos encontrar. Tivemos crises de ciúmes, brigas, discussões de relacionamento — tudo à distância.

Foi em abril de 2017 que combinamos de nos reencontrar pessoalmente. Nessa mesma viagem, noivamos, com direito à aliança em jantar e a oficialização da seriedade da nossa relação. Estava decidido: casaríamos em agosto! Mas começava aí a necessidade de organizar o evento, a vida e o relacionamento e, dentre estes assuntos, o plano de fazermos todos os exames de infecções sexualmente transmissíveis. Foi então que, em meados de 2017, fui até um laboratório na minha cidade e solicitei o tal teste de HIV.

Certo de que não havia nada de errado comigo, com um histórico de apenas dois curtos relacionamentos anteriores, ainda pedi que minha sobrinha buscasse o resultado dos exames para mim. Ocupado com o trabalho, segui meu dia normalmente, até o momento em que recebi a ligação do laboratório: não era possível que entregassem os resultados a qualquer pessoa que não fosse eu, pois a doutora precisava conversar comigo. Disseram que algo estava errado e era preciso repetir o exame.

Abri o computador e descrevi a situação para o Google. Não demorou para descobrir que o argumento do laboratório era um provável indicativo de que o teste de HIV tinha vindo com resultado positivo e, por isso, era preciso confirmá-lo com uma nova amostra de sangue. Era isso, sem dúvida: um resultado positivo.

Passaram-se três dias, inundados de choro, até que eu criasse coragem para repetir o teste de HIV. E não o fiz por conta própria, mas por apoio de minha mãe, que se aproximou e perguntou o que é que se passava. Em meio à lágrimas e choro, contei que precisava refazer um exame e que havia grande chances de eu ser soropositivo.

‘– Filho, se o resultado vier positivo, nós vamos enfrentá-lo e pronto!’, disse ela.

Foi num ambiente reservado do laboratório, para onde fui levado por um atencioso profissional que percebeu a minha aflição, que repeti o teste de HIV. Alguns dias depois, veio a  confirmação: reagente para HIV.

Um susto, sim, mas já começava a suportar a ideia de conviver com o vírus, até então impossível de aceitar. Atribuo isso ao fato de que, naqueles dias entre a última coleta de sangue e o resultado, li bastante, o máximo que consegui, sobre o HIV — grande parte deste conteúdo, sim, aqui no Diário de um Jovem Soropositivo. Talvez, mal saiba seu autor que seu trabalho neste blog salva vidas. A ele, sou eternamente grato. Foi através desta iniciativa que compreendi melhor a vida de um soropositivo e num momento em que tudo era desconhecido. Percebi o quanto somos ignorantes a respeito do assunto! Li relatos fantásticos que muito me confortaram e percebi  também como faltam campanhas educativas acerca do tema em nosso país.

Ao que me parece, a maior dificuldade da vida com HIV é vencer o preconceito, decorrente da falta de conhecimento da população em geral. E falo por experiência própria, momentos em que eu mesmo tive preconceito. Lembro que, certa vez, conversava no trabalho com um rapaz soropositivo assumido e, enquanto ele me relatava um assunto qualquer, a única coisa que se passava pela minha cabeça era: Como que esse cara fez isso consigo mesmo? Como que ele deixou isso acontecer com ele? Por que ele não se cuidou? Era a minha ignorância, decorrente do fato de eu nada saber sobre o HIV.

Agora, saberia meu noivo tudo o que era preciso sobre o HIV? Essa era uma pergunta que eu temia responder e, descobria eu, deveria inclusive ser postergada. Meus exames subsequentes mostram que minha saúde requisitava muita atenção: meu CD4 estava em 76, quando o mínimo esperado é 500.

Reduzi a intensidade de meus treinos na academia. Suspendi as dietas. Continuei sem fumar, sem beber, sem ir à balada. E iniciei imediatamente o tratamento antirretroviral com Dolutegravir, Tenofovir e Lamivudina, além de Bactrim, para evitar infecções e doenças oportunistas. Aqui, noto que praticamente não tive efeitos colaterais — a não ser os psicológicos: todas as noites acordava às 4 horas da manhã, com aquele turbilhão de coisas na mente.

Em novembro de 2017 minha contagem do CD4 subiu para 291. Em Março de 2018 chegou a 325. E, agora, em agosto de 2018, meu CD4 está em 451. Deus é muito bom! Tenho certeza que, em breve, meu CD4 estará muito acima de 500. Tenho fé! Sei que a vida pode sim voltar ao normal.

Mas e o casamento? O teste de HIV dele veio negativo. E o meu positivo, disse ele, jamais seria empecilho. Nosso amor é muito maior, percebo hoje, casado há um ano.

Sou muito feliz no meu casamento. Amo meu parceiro e ele a mim. Temos um casamento muito transparente, sem segredos e, principalmente, com muito respeito. Somos pelo nosso casamento, sempre apoiando um ao outro. Meu marido me estimula e encoraja a retomar minhas metas profissionais. Assim, voltei a estudar para concursos. Tenho uma rotina diária de estudos, com muita dedicação.

Essa é minha nova vida. Nela, percebo que o vírus não pode nos anular. Temos que juntar forças e seguir com nossos projetos e sonhos, ainda que por caminhos diversos daqueles idealizados outrora. É assim! E, para quem acredita, com fé em Deus e a bênção dele nas nossas vidas.”

Em 2016 tivemos uma notícia animadora sobre a pesquisa da cura do HIV: falava de um anticorpo “fascinante”, “impressionante” e “incrível demais para ser real” que tinha levado oito macacos à beira da cura do SIV, o vírus da imunodeficiência símia — vírus que é primo do HIV.

Naquela altura, uma equipe liderada pelo imunologista Aftab Ansari, da Emory University School of Medicine, em Atlanta, infectou oito macacos com SIV e então tratou-os com antirretrovirais. Em seguida, aplicou neles um anticorpo semelhante a um medicamento aprovado para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa, o qual se dirige ao receptor da superfície das células imunes conhecido como α4ß7. Esse receptor celular é encontrado na superfície das células brancas CD4, o alvo favorito do HIV.

Mais de 9 meses depois dos tratamentos antirretrovirais e com anticorpos serem interrompidos, todos os oito animais tinham níveis baixos ou indetectáveis de SIV no sangue. Os sete animais infectados com SIV que receberam um anticorpo placebo, tiveram recuperação de níveis elevados do vírus, dentro de 2 semanas a partir da interrupção do tratamento antirretroviral. “Os resultados nos surpreenderam, eles são muito impressionantes”, disse o coautor do estudo Anthony Fauci, imunologista que dirige o U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), em Bethesda, Maryland. O estudo em macacos foi tão animador que seguiu-se para os testes em humaos.

Macaco infectado com SIV mostra ter menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).

No estudo em humanos, Fauci e colaboradores recrutaram 18 pessoas, todas sob tratamento antirretroviral e com e níveis indetectáveis ​​de HIV no sangue, durante pelo menos dois anos.

Ao longo de mais de 30 semanas, os participantes receberam nove infusões de Vedolizumab, um anticorpo monoclonal um pouco diferente do anticorpo daquele administrado nos macacos, mas que também se liga à α4β7 e está no mercado para tratar a doença de Crohn e colite ulcerativa.

Se as pessoas reagissem como macacos ao tratamento com anticorpos, assim que o Vedolizumab bloqueasse a α4β7, os pacientes poderiam interromper os medicamentos antirretrovirais e o HIV que inevitavelmente começaria a se multiplicar, mas com dificuldades em infectar células e criar novos vírus. Entretanto, não foi esse o caso.

Fauci explicou que, em duas das 18 pessoas, o HIV voltou assim que pararam os antirretrovirais. Surpresos com o resultado desanimador, uma outra equipe de pesquisadores, não envolvidos com o estudo original com macacos, tentou repetir o estudo em outro grupo de primatas, também sem sucesso. Tudo isso fez crer que resultados originais nos macacos de 2016, segundo Fauci, “podem ser um acaso”.

Com isso, o Vedolizumab se junta a uma longa lista de outras estratégias potenciais de cura para o HIV que geraram resultados iniciais empolgantes, mas, uma vez colocado em um teste do mundo real, não deram certo.

“A chance de qualquer pessoa soropositiva com carga viral indetectável transmitir o HIV a um parceiro sexual é cientificamente equivalente a zero”

É isso o que disseram hoje, 24 de julho, pesquisadores na 22ª Conferência Internacional de Aids, a Aids 2018, em Amsterdã, acompanhando a divulgação dos resultados finais do estudo Partner, apresentados nesta manhã. A fase atual do estudo, chamada de Partner 2, recrutou apenas casais de homens gays e, tal como no Partner 1, não identificou um único caso de transmissão sexual do HIV a partir de soropositivos que fazem tratamento antirretroviral e mantém a carga viral indetectável, mesmo sem uso da camisinha em 77 mil atos sexuais. Os resultados indicam, nas palavras dos pesquisadores, “uma taxa precisa de transmissão dentro da casa do zero”, tanto para homens gays como para heterossexuais.

O estudo Partner recrutou casais sorodiscordantes, quando um parceiro é positivo para o HIV e outro é negativo, em 75 clínicas espalhadas por 14 países europeus. Os parceiros soronegativos fizeram testes de HIV a cada seis ou 12 meses, enquanto os parceiros soropositivos fizeram testes de carga viral. Ambos os parceiros também completaram pesquisas comportamentais. Nos casos de infecção por HIV nos parceiros negativos, o HIV presente naquela infecção foi geneticamente analisado para verificar sua origem. O estudo não encontrou uma única transmissão entre casais gays em que o parceiro soropositivo tinha uma carga viral inferior a 200 cópias/ml, mesmo depois de um total de 77 mil atos de sexo sem preservativo entre eles.

Claro, esse risco “zero” precisa de uma explicação. Em 2014, quando Alison Rodger, pesquisadora principal do Partner, anunciou os resultados da primeira fase do estudo, o Partner 1, ela falou sobre o risco de transmissão a partir de um parceiro indetectável: “nossa melhor estimativa é zero”. Por “estimativa”, Alison quis dizer que é impossível provar que algo nunca acontecerá. Nesse sentido, os pesquisadores usam aquilo que se chama de “intervalos de confiança”, que definem o quão precisas são as descobertas. Em resumo, falando cientificamente, é impossível dizer que algo nunca vai acontecer, mas podemos saber qual o tamanho confiança de que podemos ter sobre determinadas observações.

No estudo Partner essa confiança tem se mostrado muito alta. Além do mais, trata-se de uma confiança estendida por outros estudos, como HPTN 052 e Opposites Attract, que também não observaram um único caso de transmissão sexual do HIV a partir de soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável, corroborando com a Declaração Suíça, feita há uma década.

Anthony S. Fauci

Essa confiança nas observações é suficiente para Anthony S. Fauci, imunologista pesquisador do HIV e diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, o NIAID,  parte do National Institutes of Health, o NIH (órgão que financia e já financiou inúmeros estudos sobre HIV e aids, incluindo o HPTN 052), nos Estados Unidos, que recentemente reconheceu publicamente que quem vive com HIV sob tratamento antirretroviral e mantém carga viral indetectável não transmite o HIV. Fauci fez estas declarações no dia 22 de julho, pouco antes da Aids 2018. A nota publicada no página do NIAID afirma explicitamente:

“O corpo de evidências científicas até hoje estabeleceu que efetivamente não existe risco de transmissão sexual do HIV quando o parceiro que vive com HIV tem uma carga viral indetectável, validando a mensagem ‘indetectável = intransmissível’.”

Essa principal mensagem do tratamento como prevenção, ou TasP do inglês treatment as prevention — que entende que o tratamento antirretroviral, que serve para cuidar da saúde de quem vive com HIV, também é capaz de prevenir sua transmissão — não está mais restrita a um grupo de pesquisadores ou autoridades médicas de determinados países. “Indetectable = Intransmisible” (I=I) na Guatemala, “Niet meetbaar = Niet overdraagbaar” (N=N) na Holanda, “Belirlenemeyen = Bulaştırmayan” (B=B) na Turquia, “Undetectable = Untransmittable” (U=U) em inglês ou “Indetectável = Intransmissível” (I=I) em português — o mundo todo já começa a falar sobre isso.

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“I=I é um fato que toda pessoa com HIV, de qualquer lugar do mundo, precisa saber”, disse Jesús Aguais, da Aid for Aids International, uma organização que trabalha em seis países latino-americanos. “As pessoas têm o direito de serem informadas e é nossa responsabilidade divulgar essas informações.”

“Não acredito que esta informação é conhecida há dez anos e eu só ouvi falar nos últimos seis meses”, comentou Lucy Wanjiku-Njenga da Positive Young Women’s Voices. Ela disse que muitos de seus colegas no Quênia não sabem o que I=I significa. Aqueles que sabem sobre o assunto ouviram de um amigo ou em mídias sociais, em vez de um médico ou outro profissional de saúde.

Por isso, para ampliar ainda mais a divulgação dessa informação, I=I é a mensagem do novo Unaids Explainer, que visa informar seus leitores sobre questões chave ou emergentes na resposta à aids e trazer recomendações para gerentes de programas sobre HIV e aids:

“Com 20 anos de evidências demonstrando que o tratamento do HIV é altamente eficaz na redução da transmissão do HIV, a evidência de que as pessoas vivendo com HIV com  carga viral indetectável não podem transmitir o HIV sexualmente agora é clara.

Para muitas pessoas que vivem com o HIV, a notícia de que não podem mais transmitir o HIV sexualmente é uma mudança de vida. Além de poderem optar por ter relações sexuais sem preservativo, muitas pessoas que vivem com o HIV que são suprimidas virologicamente sentem-se libertadas do estigma associado à convivência com o vírus.

A consciência de que não podem mais transmitir o HIV sexualmente pode fornecer às pessoas que vivem com o HIV um forte senso de serem agentes de prevenção em sua abordagem a relacionamentos, novos ou existentes.”

A transmissão vertical do HIV, da mãe para seu bebê, pode acontecer durante a gestação e no parto. Aliás, o mesmo pode acontecer também com sífilis e hepatite B. Por isso, as gestantes devem realizar os testes para HIV, sífilis e hepatites durante o pré-natal e no parto. A recomendação atual do Ministério da Saúde é que os testes para essas doenças sejam feitos da seguinte forma:

  • Nos três primeiros meses de gestação: HIV, sífilis e hepatites
  • Nos três últimos meses de gestação: HIV e sífilis
  • Em caso de exposição de risco e/ou violência sexual: HIV, sífilis e hepatites
  • Em caso de aborto: sífilis

Os testes para HIV e para sífilis também devem ser feitos no momento do parto, independentemente do resultado de exames anteriores. O teste de hepatite B também deve ser realizado no momento do parto, caso a gestante não tenha recebido a vacina.

Se o teste de HIV tiver resultado positivo, a gestante tem indicação para iniciar imediatamente o tratamento com os medicamentos antirretrovirais durante toda gestação e, se orientado pelo médico, também no parto. Esse tratamento previne a transmissão vertical do HIV, da mãe para a criança. (Atualmente, sabemos que o Dolutegravir deve ser evitado por mulheres que pretendem engravidar, depois de alguns casos documentados de má formação em bebês cujas mães tomavam esse remédio, e, também, o Darunavir, que se mostrou incapaz de evitar a transmissão vertical do HIV.) Seguindo essas orientações, as chances de transmissão vertical são mínimas: o risco é de menos de 1%. Nos últimos dez anos, observou-se uma queda de 42,7% na taxa média de transmissão vertical do HIV.

Depois do parto, o recém-nascido deve então receber o medicamento antirretroviral, na forma de xarope, e deve ser acompanhado no serviço de saúde. Entretanto, sabemos que não é no parto que termina a troca de fluídos entre a mãe e seu bebê. Após o nascimento, há ainda um possível longo período de aleitamento materno.

Será que uma mãe que vive com HIV pode amamentar seu bebê? A recomendação atual é que não: uma mulher soropositiva não deve amamentar seu bebê com seu leite materno. Uma vez que o HIV também pode ser transmitido a partir do leite materno, essa é uma maneira eficaz de evitar transmissão do HIV.

A recomendação da não amamentação para mães com HIV acompanha aquilo que vem sendo feito desde o começo da epidemia, passando pelo advento dos antirretrovirais. Todavia, com a evolução desses remédios e as repetidas observações que nos trouxeram ao consenso a respeito da intransmissibilidade do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e mantém a carga viral indetectável, surge uma pergunta bastante natural: será que lactantes com carga viral indetectável não poderiam amamentar seus bebês?

Por enquanto, a resposta ainda é: não sabemos! Pesquisas são urgentemente necessárias para fornecer recomendações claras e atualizadas sobre a amamentação para mães com HIV, em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável. É isso o que disse um grupo de pesquisadores na revista The Lancet HIV. “As evidências são insuficientes para afirmar que indetectável é intransmissível no contexto da amamentação”. Embora o risco de transmissão seja provavelmente pequeno se uma mulher tiver suprimido sua carga viral, os autores destacam uma série de questões de pesquisa que ainda precisam ser abordadas para que o aconselhamento seja baseado em evidências.

Em contextos de recursos limitados, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, recomenda que mulheres com HIV amamentem seus bebês, com o próprio leite materno, se a fórmula alimentar não for segura e viável para elas e desde que as mães estejam sob terapia antirretroviral e seus bebês sob profilaxia antirretroviral.

Em países de alta renda, as diretrizes em geral desestimulam o aleitamento materno por mulheres em tratamento antirretroviral. No entanto, atualizações recentes das diretrizes da British HIV Association, da European Aids Clinical Society e do US Department of Health and Human Services reconhecem que mulheres com carga viral indetectável ​​podem optar por amamentar, desde que monitorem sua carga viral e mantenham adesão aos medicamentos antirretrovirais.

Mesmo assim, os autores do estudo publicado no The Lancet HIV afirmam que ainda faltam de evidências para determinar como as mulheres que amamentam devem ser monitoradas e quais os riscos que podem eventualmente permanecer apesar da carga viral indetectável. Uma notícia publicada pelo Aidsmap enumera três pontos principais que faltam ser respondidos:

Será que existe uma determinada quantidade de HIV no plasma sanguíneo ou no leite materno abaixo da qual o vírus não pode ser transmitido?

Vários estudos demonstraram que mulheres podem ter o HIV detectável no leite materno, mesmo quando têm o HIV indetectável no plasma sanguíneo. Pesquisadores do estudo Amamentação, Antirretrovirais e Nutrição (BAN, do inglês Breastfeeding, Antiretrovirals and Nutrition) concluíram que manter uma carga viral abaixo de 100 cópias/ml pode prevenir a transmissão do HIV através do leite materno. Eles concluíram isso com base na observação, ao longo do estudo, de que todas as mães que transmitiram HIV durante a amamentação tiveram pelo menos uma medição de carga viral acima de 100 cópias/ml.

No entanto, outro estudo, o Mma Bana, conduzido em Botsuana, identificou dois casos de transmissão que provavelmente ocorreram durante o período de amamentação, quando cada mãe teve uma carga viral abaixo de 50 cópias/ml, em um mês e em três meses após o parto. Em um dos casos, a mãe relatou dificuldades de adesão aos medicamentos.

Também foi documentado um caso no Malawi em que o HIV foi transmitido através da amamentação, embora a mãe tivesse uma carga viral indetectável, com menos de 37 cópias/ml) no plasma sanguíneo e no leite materno.

Um exercício de modelagem matemática liderado pelo Unaids, com base em todos os dados disponíveis de estudos clínicos e coortes observacionais até 2012, estimou que haveria um risco de 0,16% (aproximadamente um a cada 750) de transmissão do HIV para cada mês de amamentação se a mãe já estivesse sob tratamento antirretroviral antes do parto.

Esses resultados mostram que o risco de transmissão é pequeno, mas não pode ser descartado. Os pesquisadores recomendam o estabelecimento de um registro internacional para registrar os resultados de todos os bebês amamentados de mães com HIV. Além de observar a segurança dos medicamentos em bebês, um registro como esse forneceria informações detalhadas sobre quaisquer casos de transmissão que pudessem ocorrer e melhoraria as estimativas sobre o risco de transmissão.

Os medicamentos antirretrovirais são suficientes para evitar a transmissão do HIV através do leite materno?

Especialistas concluíram que o risco persistente de transmissão do HIV através do leite materno, apesar da supressão viral, é provavelmente uma consequência do vírus associado à células no leite materno.

O HIV pode estar fora ou dentro de uma célula, isto é, contido dentro de uma célula do sistema imune tal como um linfócito CD4, na forma de DNA viral. O leite materno contém vários tipos de células potencialmente infectadas pelo HIV. Estas células incluem células CD4 infectadas latentemente e de longa duração contendo DNA viral que não se replica e por isso não é susceptível aos fármacos antirretrovirais.

Os pesquisadores dizem que mais pesquisas são necessárias para determinar se o tratamento antirretroviral de longo prazo antes da amamentação é capaz de reduzir os níveis de vírus associados à células no leite materno.

Que tipo de monitoramento virológico as mulheres que amamentam devem receber?

A British HIV Association recomenda que as mulheres que estão amamentando durante o tratamento antirretroviral façam um teste de carga viral, para si e para seu bebê, uma vez por mês, ao longo da amamentação. As diretrizes dos Estados Unidos indicam testes a cada um ou dois meses.

Embora as diretrizes preliminares da British HIV Association recomendem contra a amamentação, elas reconhecem que algumas mulheres escolherão fazê-lo e que é melhor que as mulheres possam ter esta liberdade de escolha e que recebam apoio para minimizar o risco de transmissão vertical do HIV. O esboço das diretrizes britânicas recomenda uma abordagem de redução de danos: minimizar a quantidade de tempo em que a amamentação ocorre, interromper a amamentação se a criança tiver algum sintoma gastrointestinal, se a mãe tiver mastite ou infecção de mama. As diretrizes britânicas enfatizam que “mulheres que amamentam com carga viral detectável devem ser encaminhadas para cuidados sociais, pois estão colocando o bebê em risco significativo de infecção pelo HIV.”

A Organização Mundial da Saúde, OMS, publicou uma nota em que reconhece que quem vive com HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transite o HIV.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lidera a resposta do setor da saúde ao HIV como parte do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. A OMS trabalha para aumentar o acesso ao teste de HIV, à terapia antirretroviral e ao monitoramento da carga viral, para melhorar o manejo clínico do HIV como uma prioridade urgente de saúde pública para prevenir a morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV.

A ciência relacionada ao uso da terapia antirretroviral como uma ferramenta adicional de prevenção é clara: não há evidências de que os indivíduos que conseguiram e mantiveram com êxito a supressão viral através da terapia antirretroviral transmitam o vírus sexualmente para seus parceiros negativos para o HIV. Os benefícios preventivos da terapia antirretroviral devem ser adequadamente enfatizados nos programas de tratamento e prevenção ao HIV.

A OMS reconhece que a conscientização sobre os benefícios de tratamento e prevenção da terapia antirretroviral deve ser promovida, a fim de incentivar a adesão ao teste de HIV e para apoiar as pessoas a terem acesso e aderirem à terapia antirretroviral o mais cedo possível.

A orientação da OMS para o HIV promove a equidade em saúde, igualdade de gênero e direitos humanos. Continua a pressionar por maiores esforços no fornecimento de prevenção primária e na abordagem das barreiras estruturais que aumentam a vulnerabilidade de pessoas e comunidades ao HIV.

 

Antirretrovirais, supressão viral e transmissão do HIV: as evidências

Há vários anos, há evidências de que a terapia antirretroviral previne a morbidade e a mortalidade das pessoas com HIV e também tem claros benefícios na prevenção do HIV. Vários estudos de coorte confirmaram os benefícios de prevenção do HIV da terapia antirretroviral. Ensaios clínicos randomizados  são o melhor padrão para evidências científicas e, em 2011, um estudo feito em diversos países, o HPTN 052, mostrou redução na transmissão do HIV em casais sorodiscordantes (algumas vezes referidos como sorodiferentes), onde o parceiro com HIV e um contagem de CD4 entre 350 e 550 células/µL iniciou a terapia antirretroviral. Isso levou a OMS a recomendar no início de 20127que:

  • pessoas com HIV em um relacionamento sorodiscordante devem ser informadas de que a terapia antirretroviral também é recomendada para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado; e
  • parceiros soropositivos com uma contagem de CD4 acima de 350 células/µL em relacionamento sorodiscordante devem receber a terapia antirretroviral para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado.

Essas recomendações, reconhecendo os benefícios preventivos da terapia antirretroviral, foram feitas quando as recomendações globais foram para iniciação da terapia antirretroviral em contagens abaixo de 350 células CD4/µL, antes da evidência disponível  apoiar os benefícios clínicos da terapia antirretroviral imediata, recomendada pela OMS recomendou em setembro de 2015.

Evidências adicionais, de que a terapia antirretroviral bem sucedida com supressão viral impede a transmissão do HIV para parceiros sexuais, confirmaram os achados do HPTN 052. O estudo Partner e Opposites Attract não relataram nenhuma transmissão quando a carga viral era indetectável, abaixo de 200 cópias/mL.

Esses dados levaram a um consenso crescente de que as pessoas que alcançaram e mantiveram carga viral indetectável não podem transmitir o HIV sexualmente para seus parceiros.

Esforço necessário para aumentar o acesso a testes, terapia antirretroviral, monitoramento de carga viral e cuidados de saúde

O principal objetivo da terapia antirretroviral é proporcionar benefícios clínicos para as pessoas que vivem com o HIV. O aumento da terapia antirretroviral, particularmente em países de baixa e média renda, resultou em ganhos significativos na saúde, bem como reduções na morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV. Recomenda-se que as pessoas com HIV iniciem a terapia antirretroviral logo que são diagnosticados, para sua própria saúde. Também deve ser enfatizado que o início da terapia antirretroviral e a supressão viral impedem a transmissão sexual do HIV.

Um progresso significativo foi alcançado com a meta 90-90-90 das Nações Unidas. No entanto, existem lacunas significativas e desafios remanescentes. A OMS recomenda o monitoramento da carga viral para garantir que a supressão da carga viral seja alcançada e mantida, mas ainda permanecem grandes lacunas no acesso global, particularmente em países de baixa e média renda e em áreas rurais.

A maioria das infecções por HIV ocorre em transmissão a partir de alguém que não sabe que tem HIV. Há um risco maior de transmissão do HIV a partir de pessoas recém infectadas e isso geralmente ocorre bem antes de as pessoas procurarem o teste. A transmissão do HIV também ocorre quando alguém com HIV não está em tratamento ou está em tratamento e não tem o vírus suprimido (porque não está em tratamento antirretroviral há tempo suficiente, toma os antirretroviraiss de modo não ideal, ou está falhando devido a fatores como resistência aos medicamentos). Os dados da cascata de cuidados para o HIV de vários países indicam que 19% (nem intervalo de incerteza de 5 a 40%) das pessoas em tratamento que foram submetidas a testes de carga viral não são suprimidas por vírus. Isso exige ênfase contínua em: aumento do acesso aos testes e vinculação à terapia antirretroviral; monitorar e responder à resistência aos medicamentos; apoiar a adesão à terapia antirretroviral; melhorar a conscientização sobre a condição sorológica dos parceiros de pessoas com HIV; e acesso ao monitoramento da carga viral para apoiar o tratamento eficaz e orientar as decisões sobre a prevenção do HIV e escolhas de concepção mais seguras.

Ainda é necessária uma resposta abrangente ao HIV

Embora a incidência do HIV continue a diminuir, particularmente em países de alta renda, 1,8 milhão de pessoas foram infectadas em 2016 e, fora da África subsaariana, alguns países continuam a experimentar um número crescente de novas infecções pelo HIV. A continuação da transmissão do HIV também está sendo relatada em áreas com alta cobertura de terapia antirretroviral. Portanto, testes de HIV, antirretrovirais e monitoramento da carga viral são necessários, juntamente com a combinação primária de prevenção do HIV (preservativos masculinos e femininos, redução de danos para pessoas que injetam drogas, circuncisão masculina voluntária e profilaxia pré-exposição).

Os preservativos continuam sendo um componente essencial na resposta ao HIV. O apoio ao acesso e uso do preservativo proporciona uma prevenção eficaz do HIV para milhões de pessoas nas situações descritas acima. Também permite que as pessoas se protejam de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo as hepatites B e C, e previne gravidezes indesejadas.

Entretanto, a nociva dinâmica de desigualdade de gênero, a violência interpessoal e o uso de substâncias podem minar a negociação de preservativos e, por isso, pesquisas sobre comportamento sexual estão em andamento e devem ser incentivadas. Além de garantir que a gama de opções de prevenção esteja disponível, o apoio ao conhecimento mais amplo dos benefícios preventivos da terapia antirretroviral pode reduzir o estigma e permitir que pessoas que têm carga viral indetectável pela terapia antirretroviral façam escolhas informadas em suas vidas sexuais.

Fonte
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