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As leis contra (quem vive com) HIV nos Estados Unidos

Em 43 estados americanos há leis específicas que punem as pessoas que vivem com HIV em caso de transmissão do vírus. Em 11 destes estados, é crime um soropositivo morder, cuspir ou compartilhar fluídos corporais com outra pessoa, mesmo que seja considerado impossível infectar alguém sob estas condições.

A maioria destas leis surgiu a mais de trinta anos atrás, no começo da epidemia de aids, quando ainda não se sabia muito a respeito da transmissão do HIV. Muita gente acreditava que a doença estava se espalhando por culpa dos soropositivos, que estariam colocando outros em risco de infecção. Segundo um artigo publicado pelo San Francisco Chronicle, foi neste clima que a Califórnia promulgou suas leis criminalizantes específicas contra o HIV — ou, talvez, contra as pessoas que vivem com HIV.

Na Califórnia, um dos primeiros projetos de lei contra o HIV foi a “Proposta 64”, de 1986, concebida por um grupo autodenominado “Pânico” para o Comitê de Iniciativa para Prevenção da Aids Now. A Proposta 64 sugeria que as pessoas com HIV/aids não fossem elegíveis a trabalhos em escolas ou cozinhas. Um dos partidários da Proposta 64, o político Lyndon LaRouche, chegou a comparar alguém com aids a “uma pessoa correndo com uma metralhadora”.

Ainda bem, os eleitores californianos derrubaram a Proposta 64 de 1986 —  e, curiosamente, aprovaram uma proposta de mesmo nome em 2016, que aprovou o uso recreativo de maconha. Mas, apesar da revogação da Proposta 64 de 1986, o medo da aids continuou generalizado. Histórias de soropositivos fazendo sexo com o objetivo de infectar outras pessoas foram sensacionalizadas pela mídia, muito embora estes costumem ser casos serem raros — lembra-se da história do “Clube do Carimbo”? O próprio Paciente Zero, tido por décadas como quase o único culpado pela epidemia de HIV/aids, foi inocentado somente no ano passado.

O fato é que, desde os anos 80, a epidemia mudou, o conhecimento sobre o HIV aumentou e o risco de transmissão diminuiu para quem faz uso consistente dos medicamentos antirretrovirais. Só as leis é que não mudaram. “Desde que essas leis foram promulgadas, o mundo mudou para quem vive com HIV”, disse Edward Machtinger, diretor do Programa de HIV para Mulheres da Universidade da Califórnia em São Francisco, ao San Francisco Chronicle. “Agora estas leis só servem para institucionalizar a desinformação e a discriminação. São a encarnação do estigma, codificado em lei.”

Foi então que, no mês passado, o senador estadual Scott Wiener e o deputado Todd Gloria, apresentaram um projeto de lei para rever ou até acabar com três das quatro leis da californianas que punem os soropositivos em caso de transmissão do HIV. A proposta dos senadores apenas não mudaria a quarta lei, que aumenta em três anos o tempo de prisão em casos de agressão sexual onde o perpetrador é soropositivo. As três outras leis, atualmente puníveis com pena de prisão de 16 meses a 8 anos, que criminalizam a prática de prostituição enquanto portador do HIV, relações sexuais consensuais com a intenção de transmitir o HIV e a doação de sangue, tecido, sêmen, leite materno ou órgãos quando sabidamente soropositivo, têm sugestões de mudanças pelos dois políticos. Afinal, conforme descrito pelo próprio artigo do San Francisco Chronicle, “as pessoas que estão em tratamento antirretroviral, e para quem o HIV está indetectável no sangue, apresentam chance perto de zero chance de transmitir o vírus.”

“Essas leis foram aprovadas no auge da epidemia de aids, quando havia muito medo e desinformação”, disse Wiener. “Mas é hora de assumir uma abordagem baseada na ciência, e não uma abordagem baseada no medo. Não há nenhuma razão para o HIV ser tratado de forma diferente do que outras doenças infecciosas.”

Esforços para revogar leis similares foram bem sucedidos nos estados do Colorado e Iowa, seguindo a sugestão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de 2014, que recomendou que todos os estados americanos eliminassem seus códigos criminais específicos contra o HIV, apenas com exceção para casos de estupro e quando o suspeito está ativamente tentando infectar outras pessoas.

Aqueles que intencionalmente transmitem o HIV a outras pessoas não ficarão impunes com a revogação das leis específicas contra soropositivos. Machtinger lembrou que estas pessoas podem ser processadas por outros crimes que punem as pessoas por transmitir intencionalmente outras doenças infecciosas, tal como a sífilis. O que a revogação dessas leis vai permitir é que pessoas mais vulneráveis e desprotegidas, em particular os profissionais do sexo, não sejam injusta ou desproporcionalmente condenados.

Dados compilados pela Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles mostram que dos 1.200 casos relacionados ao HIV na Califórnia, entre 1988 a 2014, mais de 93% caíram na lei da prostituição. Destes, apenas 33 casos envolviam exposição com a intenção de transmitir o HIV. Isso quer dizer que estas leis são usadas principalmente para transformar acusações simples de prostituição, que são delitos menores, em delitos graves, elevando à sentenças mais duras.

Em 2012, um homem foi condenado por prostituição e à deportação justamente porque era soropositivo. Mas o que torna o caso mais impressionante é o fato de que o homem não fez sexo! Ele foi preso por sugerir a um policial à paisana que praticassem sexo oral, um ato sexual onde a transmissão do HIV é extremamente improvável. “Ele passou 16 meses na cadeia por causa dessa condenação”, disse Scott Schoettes, da organização LGBT Lambda Legal. “Nós esclarecemos ao tribunal o quão baixo o risco era do sexo oral. Não fazia sentido classificar isso como um crime sério.” Depois disso, o tribunal de imigração suspendeu sua deportação.

Naina Khanna, diretora executiva da Rede de Mulheres Positivas de Oakland, um grupo de defesa de mulheres com HIV, disse ter ouvido falar de mulheres cujos parceiros ameaçaram ir à polícia e alegar que elas mentiram e esconderam sua condição positiva para o HIV. Naina conversou com mulheres que tinham medo de perder seus filhos, empregos e moradia se tivessem sua sorologia revelada. A ameaça, por si só, segundo Naina, causou tanta ansiedade que as impediu de procurar apoio.

De acordo com alguns especialistas em saúde pública, este é o maior perigo das leis criminalizantes do HIV: elas podem desencorajar as pessoas a fazer o teste de HIV e buscar tratamento antirretroviral em caso de diagnóstico positivo — muito embora o tratamento não só seja capaz de salvar suas vidas, como de impedir a transmissão do vírus para outras pessoas.

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(In)evitáveis problemas cardíacos

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Priscilla Hsue, a mesma cientista que apresentou na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2017, um estudo animador sobre o anticorpo canakinumab, possivelmente eficaz contra a inflamação crônica — publicado aqui no blog — também apresentou um outro estudo, porém, que parece ter resultados não tão animadores sobre a saúde cardiovascular de soropositivos e a crescente preocupação de doenças cardiovasculares entre as pessoas que envelhecem com HIV.

Neste estudo, a infecção pelo HIV foi associada a um maior risco de infarto do miocárdio, o ataque cardíaco. O motivo para o HIV aumentar o risco de infarto ainda não está completamente compreendido. O que se sabe é que o HIV pode alterar a flora intestinal e, com isso, algumas pequenas moléculas que são metabolizadas ou produzidas por este microbioma intestinal também são alteradas. Entre elas, o n-óxido de trimetilamina, uma molécula já associada ao infarto entre adultos sem HIV, a carnitina e a betaína, associadas à espessura da artéria carótida em indivíduos infectados pelo HIV.

O objetivo do estudo era verificar a hipótese destas moléculas associadas à flora intestinal poderem de fato prever o risco de infarto em adultos infectados pelo HIV. O estudo incluiu indivíduos soropositivos com carga viral indetectável sob terapia antirretroviral que recebem tratamento em oito diferentes clínicas nos Estados Unidos e que tiveram infarto do miocárdio “tipo 1” entre 2001 a 2012. Estes casos foram comparados por amostragem de densidade de incidência para cada caso, por idade, sexo, raça, duração da supressão de carga viral e contagem de CD4. Os níveis plasmáticos de n-óxido de trimetilamina, betaína, carnitina e colina foram medidos em amostras de plasma sanguíneo coletadas antes do infarto. A associação entre as pequenas moléculas produzidas pela flora intestinal e o infarto foi então avaliada utilizando regressão logística condicional.

Esse estudo não foi muito abrangente — com apenas 36 casos e 69 controles, com idade mediana de 49 anos, variando entre 46 a 58, e 77% do sexo masculino –, mas serviu para concluir que, dentre as moléculas analisadas, a carnitina é que mais parece ser preditiva de infarto do miocárdio em indivíduos infectados com HIV, tratados com antirretrovirais e com carga viral indetectável. Esta descoberta sugere que o mecanismo de aterosclerose em soropositivos é diferente daquele que ocorre em indivíduos não infectados, os soronegativos. Se esta hipótese se confirmar na repetição deste estudo ou em estudos mais abrangentes, é possível que as intervenções médicas relativas à saúde cardiovascular das pessoas com HIV passem a ser diferentes das que são feitas em soronegativos.

Mas Priscilla Hsue não terminou por aí. Segundo o Betablog, ela apresentou outra pesquisa a respeito de infarto do miocárdio, morte cardíaca súbita, mortalidade associada à doenças cardiovasculares e outros problemas cardiovasculares num outro evento, mais recente, organizado pela San Francisco Aids Foundation.

Ela citou um estudo com milhares de pessoas que receberam cuidados através da Associação de Veteranos nos Estados Unidos. Esse estudo descobriu que as pessoas vivendo com HIV parecem ter um risco 50% maior de infarto do miocárdio (um ataque cardíaco ou um bloqueio agudo em um vaso cardíaco) do que as pessoas soronegativas. Este risco manteve-se igual mesmo quando as pessoas com HIV estavam sob tratamento antirretroviral e com carga viral suprimida. O texto publicado pelo Betablog não traz referências diretas para o estudo citado por Priscilla, mas tudo indica que trata-se de um estudo publicado em 2014, intitulado “Epidemiologia da Doença Coronariana em Pacientes com HIV”, o qual mostrou que, entre o período analisado, 1999 a 2013, o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou.

Priscilla também disse que a morte cardíaca súbita (quando uma pessoa morre subitamente de um problema cardíaco) é um problema significativo. Um estudo realizado entre 2001 e 2009 no Zuckerberg San Francisco General Hospital descobriu que a morte súbita cardíaca entre pessoas vivendo com HIV era mais de 4,5 vezes maior do que entre pessoas soronegativas. Um dos colegas de Priscilla está agora conduzindo um estudo de autópsia em pessoas vivendo com HIV que morreram de problemas cardíacos, a fim de tentar identificar a causa da morte. O objetivo, segundo Priscilla, é aprender a identificar as pessoas que estão sob alto risco, para que, assim, os médicos possam intervir mais cedo, evitando problemas cardíacos graves.

“Ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”

“Nós ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”, disse Priscilla. Atualmente, os médicos usam “calculadoras de risco”, que levam em conta fatores como sexo, colesterol e histórico de tabagismo para estimar o risco cardíaco. Contudo, é bem possível que estas calculadoras atuais subestimem o risco para as pessoas que vivem com o HIV.

Uma das variáveis que ainda não pode ser bem computada entre todos estes estudos é o tratamento precoce, iniciado logo depois do diagnóstico. Afinal, até agora, todos estes voluntários, em virtude de sua idade, certamente não começaram o tratamento imediatamente após o diagnóstico positivo para o HIV, tal como passou a ser recomendado desde há alguns anos. Por isso, os pesquisadores ainda não sabem qual é o risco de problemas cardiovasculares para pessoas que começaram a tomar medicamentos para o HIV logo após o diagnóstico de HIV.

Ainda assim, é inevitável não pensar que, uma vez que o estudo com os veteranos mostrou que entre 1999 a 2013 — isto é, recentemente — o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou, será que não seriam os medicamentos antirretrovirais os causadores destes problemas cardíacos?

“Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”

Os médicos já sabem alguma coisa sobre o efeito dos antirretrovirais sobre a saúde cardíaca. Alguns estudos de longo prazo de fato descobriram que a exposição a longo prazo a inibidores de protease — grupo que inclui Atazanavir, Darunavir, Fosamprenavir, Lopinavir, Ritonavir, Saquinavir e Tipranavir — podem aumentar o risco de ataque cardíaco. Alguns estudos — mas não todos — concluíram que o Abacavir aumenta bastante este risco. O risco oferecido pelos novos medicamentos, como os inibidores da integrase — grupo que inclui o Dolutegravir –, ainda não é conhecido. “Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”, disse Priscilla.

Mas há fortes evidências de que começar medicamentos antirretrovirais o mais cedo possível e manter boa adesão no tratamento é o melhor para a saúde do coração. A razão, segundo Priscilla, provavelmente está ligada ao efeito dos antirretrovirais sobre a famosa inflamação crônica — assunto daquele outro estudo de Priscilla divulgado na CROI.

Priscilla Hsue

Disso tudo, a pergunta que parece não querer calar é: será que os problemas cardíacos são inevitáveis em nós, soropositivos? “Eu acho que inevitável é uma palavra forte demais”, foi o que disse Priscilla, respondendo à plateia do evento em São Francisco. “Nada é inevitável.” É importante, ela enfatizou, que as pessoas mudem as coisas que estão ao seu alcance, sob seu controle — como, por exemplo, parar de fumar. “Estudos mostram que as pessoas que vivem com o HIV perdem mais anos por fumar do que pela própria doença.”

Reduzir a inflamação crônica e o colesterol parece ser um dos principais caminhos para diminuir o risco de problemas cardíacos entre pessoas com HIV. Segundo Priscilla, novos medicamentos para baixar o colesterol, que podem ser injetados uma vez por mês, estão sendo estudados. Um destes medicamentos baixou o colesterol em 60%. A terapia baseada no anticorpo canakinumab também está sendo estudada pela equipe de Priscilla, como uma alternativa para reduzir a inflamação crônica. Os resultados mostraram que este tratamento reduziu a inflamação nas artérias e na medula óssea.

É verdade, os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre o risco cardiovascular e a inflamação crônica em nós, soropositivos. Mas as pesquisas, como estas de Priscilla, seguem em andamento justamente para responder estas questões.

Um anticorpo contra a inflamação crônica

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Um estudo em fase inicial com dez voluntários, apresentado na CROI 2017, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, e publicado no Betablog, mostrou que o anticorpo monoclonal canakinumab pode ser a solução para a inflamação crônica — um dos problemas que pode persistir mesmo no organismo de soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável. Todos os participantes do estudo viviam com HIV há mais de 20 anos e tinham bom controle viral, ou seja, estavam em antirretrovirais e com carga viral indetectável.

O canakinumab bloqueia um receptor de IL-1β nas citocinas, moléculas que sinalizam às células e as conduzem a reagir à inflamação. Neste estudo, os dez participantes receberam uma dose única de 150 mg de canakinumab sob a pele. Exames de segurança foram feitos nas semanas 1, 2, 3, 4, 8 e 12. O canakinumab reduziu significativamente um marcador de inflamação, a interleucina-6 (IL-6), em 24%, após quatro semanas, e em 30%, após oito semanas. O tratamento também reduziu significativamente dois marcadores adicionais de inflamação: a proteína C-reativa — identificada em um exame comum que muitos infectologistas recomendam a seus pacientes — foi reduzida em 41%, após oito semanas, enquanto o marcador CD163 solúvel foi reduzido em 9% após oito semanas.

“O canakinumab teve um impacto significativo na inflamação arterial e na atividade da medula óssea”

Os cientistas também avaliaram a inflamação fazendo exame de varreduras na medula óssea e na paredes das artérias, antes e depois da terapia com o anticorpo. “O canakinumab teve um impacto significativo na inflamação arterial e na atividade da medula óssea”, disse Priscilla Hsue, uma das autoras do estudo. “Quantitativamente, houve uma redução de 10% na inflamação arterial entre as pessoas tratadas com canakinumab e uma redução de 11% na atividade metabólica da medula óssea.”

Canakinumab

Este estudo é um dos primeiros a mostrar que uma terapia imunológica pode reduzir profundamente os marcadores de inflamação em pessoas que vivem com HIV e, principalmente, em pessoas com HIV já bem controlado. O tratamento não apresentou nenhum efeito negativo no controle viral e na contagem de CD4 e foi bem tolerado pelas pessoas no estudo.

O canakinumab já é aprovado pela FDA como um tratamento para outras condições. Agora, mais pesquisas são necessárias para confirmar sua segurança e eficácia na redução da inflamação crônica em pessoas que vivem com HIV. Segundo Priscilla Hsue, este estudo já está em andamento, com 100 voluntários randomizados e controlado por placebo e terá duração total de 36 semanas.

Dez meses de supressão viral

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Foi divulgada na CROI 2017, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, no mês passado, em Seattle, mais um caso de prolongada remissão viral. Depois de um transplante de medula óssea para tratar um câncer, um paciente soropositivo ficou quase 10 meses — mais tempo do que os chamados “Pacientes de Boston” — sem carga viral detectável, mesmo após interromper a terapia antirretroviral. Apesar de sua carga viral ter voltado depois disso, seus reservatórios de HIV parecem ter sido reduzidos, conforme relata o Aidsmap.

O caso foi apresentado por Nathan Cummins, da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, e seus colegas. O paciente que recebeu este transplante foi um homem de 55 anos de idade, diagnosticado com HIV em 1990 e que começou a terapia antirretroviral em 1999 com uma contagem de CD4 de 300 células/mm³. Ele interrompeu o tratamento antirretroviral entre 2004 e 2009 por conta própria e, em seguida, reiniciou o tratamento com Ritonavir, Atazanavir, Tenofovir e Emtricitabina.

Em abril de 2013, foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda de células B. Em antecipação à quimioterapia, seu regime de antirretrovirais foi mudado para Raltegravir, Etravirina, Tenofovir e Emtricitabina. Em outubro de 2013, para tratar a leucemia, ele fez uma ablação de intensidade reduzida do sistema imune, seguida de um transplante de células-tronco de um doador com CCR5. Na altura do transplante, o homem tinha uma carga viral de HIV de 25 cópias/ml e uma contagem de CD4 de 288 células/mm³. Ele então seguiu em tratamento sem interrupção. Após o transplante, desenvolveu infecções oportunistas (septicemia por E. coli e pneumonia) e doença do enxerto contra hospedeiro — uma condição típica de transplantes de medula óssea em que as células T do doador atacam as células e tecidos do organismo receptor.

O homem continuou em tratamento antirretroviral por mais de dois anos após o transplante, com níveis detectáveis de carga viral plasmática. O DNA do HIV nas suas células sanguíneas ficou indetectável 56º dia e os procedimentos repetidos de leucaférese mostraram reduções significativas no tamanho do reservatório de RNA e DNA do HIV. Além disso, seus níveis de anticorpos contra o HIV diminuíram, indicado em bandas de Western blot mais fracas.

Depois de manter níveis de HIV tão baixos durante um período prolongado, o homem foi submetido a uma cuidadosa interrupção do tratamento antirretroviral. Os seus níveis plasmáticos de RNA do HIV foram testados a cada duas semanas durante as primeiras 12 semanas de interrupção do tratamento e, depois, a cada quatro semanas. No 288º dia — 9,6 meses após interromper os antirretrovirais — verificou-se que ele tinha uma baixa taxa de recuperação viral, com 60 cópias/ml. Sua carga viral depois aumentou para 1640 cópias/ml no 293º dia, exigindo que ele reiniciasse o tratamento contra o HIV. O homem não tinha evidência de resistência aos medicamentos e sua carga viral voltou a ser suprimida em um mês.

Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown

Até hoje, a única pessoa que parece ter sido curada do HIV foi Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”, com quem me encontrei no ano passado. Assim como o paciente relatado na CROI 2017, Timothy também interrompeu a terapia antirretroviral depois de receber dois transplantes de medula óssea para tratar uma leucemia. Há dez anos ele não tem vírus detectável. Porém, diferentemente deste último paciente, um dos transplantes que Timothy recebeu veio de um doador com uma dupla mutação CCR5-delta-32, o que significa as células CD4 do doador não tinham os receptores CCR5, a porta de entrada mais comum que o HIV usa para entrar nas células T. Os cientistas ainda não sabem, porém, se a remissão de Timothy é atribuível à mutação CCR5 do doador, à forte quimioterapia que ele recebeu para matar células sanguíneas cancerígenas, à uma forte reação de enxerto versus hospedeiro ou aos múltiplos fatores.

Envelhecimento cerebral normal

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Um estudo europeu parte da colaboração COBRA, CO-morBidity in Relation to Aids, divulgado na CROI 2017, Conference on Retroviruses and Opportunistic Infectionsnão encontrou evidências de envelhecimento cerebral acelerado em pessoas soropositivas sob tratamento antirretroviral.

Neste estudo, cientistas reuniram imagens do cérebro obtidas por ressonância magnética e aplicaram testes cognitivos em 134 voluntários soropositivos sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, no Amsterdam Medical Centre e no Imperial College London. 79 pessoas soronegativas seviram de “grupo de controle”, isto é, foram usadas como comparação às pessoas soropositivas. A retenção ao longo do estudo foi boa, com resultados de acompanhamento disponíveis para 120 dos 134 participantes com HIV e para 76 dos 79 soronegativos ao longo de quase dois anos — mais precisamente: 1,9 ano.

A idade média no início do estudo era de 57 anos, com variação de mais ou menos sete anos entre os participantes. No grupo com HIV, a contagem média de CD4 no começo do estudo era de 646 células/mm³, com variação de 213 células/mm³ entre os participantes. O ponto médio mais baixo de CD4 ao longo do estudo foi de 185 células/mm³, com variação de mais ou menos 144 células/mm³ entre os participantes, refletindo uma história comum entre muitos idosos soropositivos. O estudo foi em grande parte composto por voluntários homens, com apenas nove mulheres soropositivas e seis mulheres soronegativas — porém, esta desigualdade refletia o equilíbrio de gênero da população com HIV em cada país.

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Algumas diferenças foram relatadas no começo do estudo: em comparação com o grupo soronegativo, soropositivos apresentaram volume de matéria cinzenta ligeiramente menor, microestruturas anormais de substância branca e pior desempenho cognitivo em 4 de 7 funções: atenção, velocidade de processamento, função motora e desempenho cognitivo global. Porém, estas diferenças não aumentaram significativamente ao longo do tempo e, quando aumentaram, foram associadas ao envelhecimento e não ao HIV.

Em ambos os grupos, o desempenho cognitivo também não diminuiu ao longo do tempo — chegando até a aumentar globalmente, sugerindo que os voluntários devem ter aprendido com a aplicação de testes repetidos.

COBRA (CO-morBidity in Relation to AIDS

Os pesquisadores concluíram que a análise feita não encontrou evidência de envelhecimento cerebral acelerado em pessoas soropositivas sob tratamento antirretroviral, em comparação com pessoas soronegativas. Mas uma nova análise está agora em andamento, buscando fatores de risco que possam explicar os resultados ligeiramente inferiores das pessoas com HIV no começo do estudo, possivelmente relacionados à duração da infecção, tempo antes do início da terapia antirretroviral, contagem de CD4 mais baixa e fatores de estilo de vida. Os resultados serão tão importantes quanto o estudo atual.

Ward 86

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Ward 86 foi uma das primeiras clínicas de tratamento de aids nos Estados Unidos, inaugurada em 1º de janeiro de 1983, quando a epidemia começava a se espalhar por São Francisco, antes de seguir para o resto daquele país e, depois, para todo o mundo. Ganhou este nome porque ficava no 6º andar do edifício 80, um prédio de tijolos vermelhos desbotados, no campus do San Francisco General Hospital.

Um dos responsáveis pela inauguração do Ward 86 foi o Dr. Paul Volberding, médico oncologista que atendeu o primeiro caso de aids em São Francisco, em 1º de julho de 1981 — um paciente que sofria com sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer típico de sistemas imunes muito deprimidos e que veio a se tornar uma das principais doenças associadas ao diagnóstico de aids.

Quando o Ward 86 abriu as portas, a maioria dos seus pacientes eram jovens homens gays que já estavam com aids. Muitos deles morreram. Mas alguns sobreviveram — e foi principalmente para estes que o Ward 86 inaugurou, recentemente, seu novo setor: uma clínica geriátrica. Os pacientes jovens que antes sofriam com doenças oportunistas típicas da aids, agora deram lugar a idosos soropositivos que sofrem de doenças típicas do envelhecimento natural.

Sonho de infância

Em algum dia logo depois do Ano Novo, sonhei que voltava à casa onde passei a minha infância, para uma breve visita. Precisava ir lá agora, já adulto, buscar uma carta que, por alguma razão desconhecida, havia sido endereçada para mim ainda naquele tão antigo endereço. Como é comum em muitos sonhos, pelo menos nos meus, não me recordo de tudo: não sei, por exemplo, quem é que escreveu a carta e muito menos como é que fiquei sabendo que esta carta estava lá — mas isto também não é o mais importante.

casa

O fato é que, quando me dei por mim, já caminhava naquela rua, próxima à praça arredondada que tinha a enorme figueira ao canto. Cumprimentei o mesmo guarda da rua, que não havia envelhecido em nada, e cheguei diante do portão da casa, o qual já não era mais o mesmo: em seu lugar havia uma recepção moderna, que mais parecia com a entrada de um escritório, com um balcão de pedra escura e, atrás dele, uma secretária, sentada diante da tela de um computador e com monitores de segurança que vigiavam a casa. Ela sorriu.

“– Vim buscar uma carta”, expliquei. “Eu morava aqui quando era pequeno e, não sei porquê, alguém ainda mantinha este como o meu endereço.”

“– Só um instante, por favor”, respondeu educadamente a secretária.

sonho

Enquanto aguardava, recuei do balcão. Queria observar a casa onde passei tanto tempo de minha vida. Sabia que era natural que ela estivesse diferente, reformada por seus donos subsequentes, mas a verdade é que a casa não estava tão mudada assim. Afora a recepção moderna e, percebia agora, as novas janelas, menores que as anteriores, tão grandes, tudo permanecia igual! As paredes continuavam das mesmas cores, o jardim permanecia o mesmo, como se as plantas sequer tivessem crescido. Lá atrás, a mesma árvore balançava com o vento. No segundo andar, o quarto de paredes de vidro — uma antiga varanda, que fora coberta por vidraças provavelmente ainda pelo donos anteriores aos meus pais — permanecia, tal e qual, ainda um quarto de brinquedos. De longe, pude perceber o vulto de duas crianças que saltitavam lá dentro, assim como eu fazia quando era pequeno, ao lado de meus irmãos.

bowie

Minha nostalgia foi interrompida pelo novo dono da casa, que veio à porta chamado pela recepcionista. Era um homem jovem, negro de cabelos rastafari e com uma tatuagem no rosto bastante parecida com a capa do disco Aladdin Sane, de David Bowie. O homem sorriu com simpatia, mas não me convidou para entrar na casa. Ele apenas me entregou a carta, me cumprimentou com um forte aperto de mãos e, então, disse:

“– A vida é assim, Jovem.”

Saí de lá sem saber ao certo ao que é que ele se referia — talvez, pensei, às coisas que sempre mudam. Quando dobrei a esquina da rua da antiga casa, acordei do sonho. De olhos abertos, ainda deitado na cama, pensei que 2016 foi o primeiro ano em que não me recordei do meu diagnóstico no dia de seu aniversário. No último ano, o dia 18 de outubro foi como qualquer outro dia. O primeiro dia, desde o meu diagnóstico, a seis anos atrás, em que não fiz as contas do tempo do meu diagnóstico.

Os hábitos da felicidade

O que é felicidade, e como podemos ter um pouco dela? Matthieu Ricard, um bioquímico que virou monge budista, diz que podemos treinar nossas mentes em hábitos de bem-estar para gerar um verdadeiro sentimento de serenidade e realização.

Matthieu Ricard
Monge, autor, fotógrafo
Às vezes chamado de “o homem mais feliz do mundo”, Matthieu Ricard é monge budista, autor e fotógrafo. Veja sua biografia completa.