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Meus sete anos de diagnóstico

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

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Guia de terminologia

O Unaids Brasil lançou, durante o 11º Congresso de HIV/Aids, em Curitiba, a tradução adaptada de seu Guia de Terminologia, um documento com recomendações sobre o uso de palavras cientificamente precisas e que promovem direitos humanos universais e a dignidade do indivíduo. Um dos objetivos do guia é também o de facilitar a compreensão dos principais temas relacionados ao HIV e à aids, bem como ao estigma e à discriminação.

“A linguagem não é neutra. E no contexto do HIV, essa afirmação nunca foi tão verdadeira”, explica Georgiana Braga-Orillard, Diretora do Unaids no Brasil. “As palavras que escolhemos e a forma como comunicamos nossos pensamentos e opiniões têm um efeito profundo na compreensão das mensagens. A escolha cuidadosa da linguagem, portanto, desempenha um papel importante na sustentação e no fortalecimento da resposta ao HIV, para que ela seja construída sobre uma base livre de estigma e de discriminação.”

Expressões como “pessoa vivendo com HIV” estão gradualmente substituindo outros termos, como “vítima de aids”, ou termos correlatos. “Termos como ‘vítima da aids’ implicam que o indivíduo é impotente, sem controle sobre sua vida”, disse Alistair Craik, que coordena o Guia de Terminologia do Unaids original, elaborado em inglês. “Por isso, é preferível usar ‘pessoas vivendo com HIV’”, acrescentou.

Neste caso, como explica o Guia de Terminologia do Unaids, e expressão “pessoa vivendo com HIV” tem o objetivo de evidenciar o protagonismo que a pessoa que vive com HIV tem diante de sua vida, na busca por saúde, dignidade e plenitude no exercício de seus direitos. O termo atual relega, portanto, ao HIV apenas um papel de coadjuvante nesse processo. Da mesma forma, expressões de conotação bélica, como “luta contra a aids” e “combate à aids” perdem espaço para termos mais inclusivos, mais abrangentes e menos bélicos, como “resposta à aids”.

Segundo o Unaids, as diretrizes de terminologia têm como objetivo promover o uso de palavras que respeitem e empoderem os indivíduos. Elas também fornecem conselhos aos escritores e jornalistas para evitar erros comuns. Por exemplo, “vírus da aids” não deve ser escrito porque é cientificamente errado. “Não há ‘vírus da aids’”, explica o Guia. “Aids, a síndrome de imunodeficiência adquirida, é uma síndrome de infecções oportunistas e doenças que, em última instância, é causada pelo HIV”.

O documento também ressalta um erro comum, no uso da expressão “pessoas infectadas com a aids”, uma vez que a aids não é o fator infectante, e sim o vírus, conhecido como HIV. Além disso, o Guia explica que, uma vez que a palavra “HIV” vem do inglês human immunodeficiency virus, cujo significado em português é “vírus da imunodeficiência humana”, é incorreto escrever o “vírus HIV” ou “vírus do HIV”, por se tratar de uma redundância.

Estes exemplos mostram um pouco do que os leitores vão encontrar no Guia de Terminologia do Unaids. Trata-se de um breve conjunto de recomendações visa promover uma linguagem sensível ao gênero, não discriminatória, culturalmente apropriada e que promova os direitos humanos universais. O Unaids enfatiza que suas recomendações terminológicas devem ser consideradas um trabalho contínuo, à medida que novas questões e dinâmicas emergem frequentemente.

Clube de Compras Moscou

“Hoje meu marido foi à clínica e eles disseram que não têm remédio e que não estão recebendo nenhum”, diz uma postagem no site russo Pereboi.ru, onde há uma sala de bate-papo para soropositivos. “Me sinto muito mal e, mesmo assim, não recebo tratamento. Eles disseram que está faltando antirretroviral e que os remédios vão apenas para os casos mais terríveis”, escreveu Marina, de Tomsk, na Sibéria. “Tenho uma criança para criar e não quero morrer.”

“No início do ano 2000, não havia nenhum tratamento”

Os problemas com a distribuição de medicamentos contra o HIV/aids já são endêmicos na Rússia, forçando os pacientes a procurar soluções tal como no filme Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), cujo enredo se passa na década de 1980, nos Estados Unidos. Ao invés de Ron Woodroof, personagem vivido pelo ator Matthew McConaughey, um dos protagonistas russos chama-se Aleksei Yaskovich: em 2010, ele criou a Aptechka, uma organização não-governamental para distribuição de antirretrovirais em Kursk, cidade próxima ao lado europeu do país. “Quando fui diagnosticado com HIV, no início do ano 2000, não havia nenhum tratamento”, explica Yaskovich. “Meu médico me disse: ‘Se você viver três anos, terá sorte’. Naquela época, era realmente assustador. Agora, sabemos que os remédios existem e que não estamos recebendo eles por causa de alguns bloqueios burocráticos.”

“As pessoas estavam morrendo”

Há sete anos, Yaskovich notou que o sistema do Ministério da Saúde russo usado na distribuição de medicamentos vitais para o tratamento do HIV produzia frequentes situações de esgotamento de estoque, geralmente na metade de cada ano, deixando os pacientes com HIV com lacunas fatais no tratamento. “As pessoas estavam morrendo”, diz Yaskovich. “Eles tiravam os remédios de alguns pacientes e os entregavam a outros. Mulheres grávidas e crianças tinham prioridade.”

Foi então que as pessoas que vivem com HIV na Rússia começaram a se organizar. Pacientes cujo regime de tratamento tinha sido trocado enviavam seus medicamentos excedentes e antigos para Yaskovich, que cuidava da sua redistribuição. No início, Yaskovich os guardava na geladeira de sua casa. “Estava cheio de pílulas, caixas e potes de comprimidos”, lembra. “Minha mãe estava ficando incomodada! Eu ainda tinha metade de uma mala cheia de comprimidos de Kaletra.”

“Recebíamos doações de medicamentos das mães daqueles que morriam”

Nem sempre as doações vinham diretamente de pessoas com HIV. “Recebíamos doações de medicamentos das mães daqueles que morriam”, diz Svetlana Prosvirina, diretora da organização Kaliningrad e coordenadora local da Aptechka. “Lembro-me da primeira vez: um amigo meu morreu de uma overdose e sua mãe nos deu vários frascos de antirretrovirais. Aparentemente, o rapaz havia se metido seriamente nas drogas e esqueceu do tratamento. Foi assim que, pela primeira vez, preenchemos o estoque da nossa pequena farmácia.”

Um protesto contra a falta de medicamentos antirretrovirais, em Moscou, em dezembro de 2011. “O que aconteceu em 2011 está acontecendo novamente agora, em 2017”, diz um ativista.

Noutras vezes, os medicamentos vêm diretamente dos fabricantes, através de pessoas que simpatizam com a causa. “Tudo é feito através de contatos pessoais”, diz Ivan, que pediu para não ser identificado por trabalhar em uma clínica estatal. “Um amigo me chama e diz: ‘Temos algumas caixas que podemos compartilhar. Traga um carro.’ Como eu não tenho carro, vou com duas mochilas e um carrinho de compras. Em seguida, enviamos os medicamentos para Biisk, Rubtsovsk e Barnaul.”

A Rússia é praticamente o único país desenvolvido onde o número de novas infecções por HIV e o número de mortes relacionadas à aids continuam a aumentar. Segundo uma matéria do New York Times, publicada em 2016, os casos de HIV/aids já ultrapassam um milhão de pessoas. Para efeitos de comparação, o Brasil  tem 830 mil pessoas vivendo com HIV/aids e o Unaids estima que o número de mortes relacionadas à aids no País foi de 14.000, em 2016. Em contraste, na Rússia, os números do governo mostram que 1.529 pessoas morreram de aids em 2005, 10.611 em 2013 e, no ano passado, 18.577. Neste ano, os ativistas russos acreditam que o número de mortes provavelmente será superior a 20 mil.

“Esta já pode ser considerada uma ameaça para toda a nação”

Esses números podem ser ainda maiores, uma vez que os dados oficiais não são compartilhados com órgãos internacionais, como o Unaids, e nem sempre podem ser confirmados. Há disparidades entre as informações disponíveis. A Avert.org, por exemplo, traz uma estimativa diferente: segundo eles, o número de mortes relacionadas à aids, em 2014, na Rússia, foi de 24 mil pessoas.

Uma das únicas referências oficiais do real tamanho da epidemia russa parece vir de Vadim Pokrovsky, antigo chefe do Centro Federal contra a Aids, com sede em Moscou: segundo ele, há cerca de 850 mil russos vivendo com HIV e um total de 220 mil mortes decorrentes da aids desde o final da década de 1980. Pokrovsky estima que pelo menos outros 500 mil casos de HIV ainda não foram diagnosticados. A soma desses números representa aproximadamente 1% da população russa, de 143 milhões de pessoas, o que é suficiente para ser considerado uma epidemia. “Esta já pode ser considerada uma ameaça para toda a nação”, diz Pokrovsky, observando que o número de casos está aumentando cerca de 10% ao ano. Em 2016, estimaram-se 100 mil novas infecções, cerca de 275 por dia. Trata-se da maior epidemia de HIV/aids da Europa e uma das maiores taxas de infecção do mundo.

“É difícil dizer quantas pessoas estamos ajudando”

“É difícil dizer exatamente quantas pessoas estamos ajudando”, diz Yulia Vereshchagina, da ONG Pacientes no Controle, a Pereboi.ru, de São Petersburgo. “Muitos dos pacotes de medicamentos vão para mais de uma pessoa. Às vezes, um pacote serve para até cinco pessoas.” Segundo o Ministério da Saúde russo, a provisão de gastos com antirretrovirais em 2017 foi de 17 bilhões de rublos (cerca de US$ 296 milhões), que serviram para comprar tratamento para 235 mil soropositivos. Os ativistas estimam que isto cobriu cerca de um terço da demanda e, em setembro, o governo adicionou mais 4 bilhões de rublos.

Com a escassez, a Aptechka tem trabalhado ativamente. “Nós não estamos apenas ajudando com medicamentos, mas também estamos encorajando as pessoas a escrever queixas à [agência estatal de proteção ao consumidor] Rospotrebnadzor”, diz Ivan. “Nós lhes dizemos para não esperar. Em Barnaul, quando as pessoas começaram a escrever, houve algum avanço.”

“Nada vai melhorar. O que aconteceu em 2011 está acontecendo de novo em 2017”

Yaskovich continua a procurar soluções, mas ele não vê o futuro com otimismo. “Penso em criar algum mecanismo on-line onde os gerentes de todas as farmácias no país possam publicar em tempo real as informações sobre quais medicamentos eles têm, quando expiram e assim por diante”, disse ele em uma entrevista à RFE. “Muitos acreditam que, com a substituição de importações [resultado das sanções ocidentais contra a Rússia e as imposições de Moscou], começaremos a produzir nós mesmos os antirretrovirais e, assim, tudo vai melhorar. Isso é uma ilusão. Nada vai melhorar! Não vejo nenhuma melhoria na situação. O que aconteceu em 2011 está acontecendo de novo, agora, em 2017.”

Protestos contra o presidente Vladimir Putin, em Londres.

De fato, o problema na distribuição de antirretrovirais na Rússia não parece ser decorrente das sanções internacionais, mas do próprio presidente russo, Vladimir Putin, que permanece em silêncio diante da epidemia de HIV/aids. Segundo ativistas, sua postura é de indiferença com as vítimas, austeridade financeira com a oferta de tratamento e hostilidade aos fundos estrangeiros — em 2016, o Ministério da Justiça investigou diversas ONGs envolvidas na luta contra a aids, simplesmente porque receberam apoios vindos do exterior.

Apesar da epidemia russa também afetar consideravelmente heterossexuais, principalmente os usuários de drogas injetáveis, os soropositivos russos ainda enfrentam um estigma comum na década de 1980. Autoridades de saúde pública e a própria Igreja Ortodoxa Russa entoam “valores familiares” como a solução para a epidemia de HIV/aids. Cirilo I, patriarca da igreja, exortou a “educação moral”, enfatizando que o “estabelecimento de valores familiares, ideais de castidade e fidelidade conjugal” devem estar na vanguarda da contenção do vírus. Tanto o governo quanto a igreja se opõem à educação sexual para crianças. Um alto funcionário do governo chegou a afirmar que a literatura clássica era a melhor professora. Além disso, o Estado também é inflexível ao uso de metadona no tratamento de toxicodependentes, classificando este medicamento como uma solução “narcoliberal” — em outros países, a metadona é normalmente utilizada para tratar e monitorar pacientes infectados pelo compartilhamento de seringas.

“As pessoas precisam entender que só conseguirão lutar contra o HIV se estiverem do mesmo lado que Putin”

É sob este mesmo espírito que a homossexualidade é fortemente oprimida na Rússia. Anton Krasovsky, apresentador de um talk show de televisão, foi demitido em janeiro de 2013, depois de publicamente se assumir homossexual. “Como não estamos falando sobre a luta contra Putin, mas de uma luta contra um vírus, as pessoas precisam entender que só conseguirão lutar contra o HIV se estiverem do mesmo lado que Putin”, disse Krasovsky. “É impossível mudar a situação sem chegar a algum tipo de acordo.”

Tatiana Vinogradova e seu marido Andrei Skvortsov, soropositivo, usaram seu casamento para ajudar a quebrar a imagem do HIV como intratável.

Enquanto isso, em São Petersburgo, o casal Tatiana Vinogradova e Andrei Skvortsov pressionam o governo para enfrentar a epidemia. Vinogradova é uma ativista da terceira geração de soropositivos: sua avó, especialista em doenças infecciosas, tratou um dos primeiros pacientes com HIV em São Petersburgo, no final da década de 1980, e pressionou as autoridades da cidade para criar um centro de apoio às pessoas com aids. Skvortsov, por sua vez, é ex-viciado em drogas, ex-condenado e soropositivo. Juntos, eles criaram a Pacientes no Controle, em 2010, com o objetivo de persuadir, pressionar e envergonhar o governo federal e os governos locais para que ofereçam o tratamento antirretroviral.

“Reconhecer que isto é uma epidemia é admitir que o governo deixou o problema sair do controle nos últimos 30 anos”

O casal também tenta usar seu próprio casamento para ajudar a quebrar o estigma de que o HIV é uma praga incurável e restrita a toxicodependentes, gays e outras minorias. Uma das estratégias do casal é sempre se referir à situação usando o termo “epidemia”, contrariando a interpretação oficial do governo. “Reconhecer que isto é uma epidemia é admitir que o governo deixou o problema sair do controle nos últimos 30 anos”, explica Vinogradova. “A Rússia é assim: para funcionar, as coisas têm de vir do alto escalão para baixo” — algo que, em relação ao HIV/aids na Rússia, parece nunca acontecer.

“Os programas de prevenção não funcionam e a cobertura não é suficiente para frear a epidemia”

Ativistas e especialistas sempre voltam à falta de apoio governamental como a principal origem do problema. De acordo com as recomendações do Unaids, para reduzir a propagação do HIV, pelo menos 90% dos soropositivos diagnosticados devem receber tratamento antirretroviral. Na Rússia, pouco mais de 37% recebem esses remédios. “Os programas de prevenção não funcionam e a cobertura não é suficiente para frear a epidemia”, explica Vinay P. Saldanha, diretor regional do Unaids na Europa Oriental e Ásia Central. A Rússia é um dos cinco países que representam quase metade das novas infecções mundiais, ao lado da África do Sul, Nigéria, Índia e Uganda.

Cartaz com Vinogradova e Skvortsov, em São Petersburgo, encorajando as pessoas a fazerem o teste de HIV.

Um dos pequenos avanços na prevenção do HIV na Rússia parece estar nas campanhas de testagem de HIV. Uma destas publicidades é apoiada por Svetlana Medvedeva, esposa do ex-presidente russo Dmitri Medvedev. Outras são feitas por Vinogradova e Skvortsov — o casal é surpreendentemente aberto sobre a sua vida sexual, enfatizando que o fato de ele estar sob tratamento antirretroviral significa que ela permanece soronegativa, mesmo sem o uso de preservativos. No cartaz, eles encaram um ao outro. “Eu sei que não há barreiras para o amor”, diz o texto. “HIV não é um obstáculo para a criação de uma família. É possível viver uma vida longa com HIV.”

A primeira vacina global contra o HIV

Em julho de 2015, publiquei uma notícia sobre a pesquisa de uma vacina contra o HIV que, naquela altura, protegeu 50% dos doze macacos rhesus da infecção pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV). Os macacos em que essa vacina funcionou totalmente ganharam a chamada “imunidade esterilizante”, capaz de prevenir completamente a infecção. Outros dois macacos ganharam a mais limitada “imunidade funcional”, onde a infecção ainda acontece, mas é inofensiva: eles tornaram-se “controladores de elite”, mantendo a carga viral indetectável no sangue. Essa pesquisa era apoiada pela Janssen Infectious Diseases, uma filial da gigante farmacêutica Johnson & Johnson, que desde então prosseguiu com os estudos.

Agora, durante o Global Citizen Festival deste ano, que levou mais mais de 60 mil pessoas para o Central Park de Nova York, a farmacêutica aproveitou para divulgar “a primeira vacina global contra o HIV”, o que significa que protege contra todas as cepas de HIV. De acordo com uma resumida notícia divulgada pela HIV Plus Magazine, a Johnson & Johnson anunciou seu compromisso de acelerar a vacina contra o HIV que, pela primeira vez, está entrando entrando na fase final dos estudos clínicos em humanos. Segundo uma declaração da Global Citizen, a vacina revelou-se 100% eficiente.

“Como cientista e médico, estou animado e entusiasmos com esse progresso”, disse Paul Stoffels, diretor científico da Johnson & Johnson, durante o evento. “Esperamos levar esta vacina para a próxima fase. Todos sabemos que a ciência é imprevisível. Mas esses resultados me deixam mais otimistas do que nunca, para que possamos obter uma vacina ainda em nosso tempo de vida e prevenir para sempre as pessoas contra o HIV.” Os cientistas esperam alcançar uma taxa de eficácia de 90%, mas observam que, mesmo que a taxa seja de apenas 50%, a vacina ainda seria capaz de reduzir os diagnósticos de HIV em 35% em todo o mundo. “Vocês têm a minha promessa de que todos nós na Johnson & Johnson não descansaremos até que vencemos o HIV”, concluiu Stoffels.

Em 24 de julho de 2017, a Johnson & Johnson divulgou os dados clínicos do primeiro estudo em humanos para a vacina contra o HIV-1, em desenvolvimento pela Janssen Pharmaceutical. Em uma apresentação do estudo APPROACH, durante a 9th IAS Conference on HIV Science (IAS 2017), a companhia explicou que o regime de vacinas mostrou-se bem tolerado e provocou respostas de anticorpos contra o HIV-1 em 100% dos 393 voluntários saudáveis.

O estudo APPROACH (HIV-V-A004/NCT02315703) é um estudo multicêntrico, randomizado, controlado por placebo, duplo-cego em fase 1/2a que está em andamento, com 393 adultos saudáveis ​​HIV não-infectados nos Estados Unidos, Ruanda, Uganda, Sul África e Tailândia, e está avaliando a segurança, tolerabilidade e imunogenicidade de vários regimes de vacinas com base em mosaico contra o HIV-1. Estes regimes de vacina contêm duas doses primárias do vetor viral Ad26.Mos.HIV e dois impulsos das doses c0m Ad26.Mos.HIV, MVA-Mosaic e/ou outros diferentes da proteína solúvel Clade C gp140 adjuvante com fosfato de alumínio. O cronograma de vacinação foi concluídos em todos os participantes do estudo e foi feito um acompanhamento de 12 meses após a 4ª dose ter sido concluída. Efeitos adversos incluíram dor no local da injeção, dor de cabeça e fadiga. A análise primária após 3ª vacinação mostrou que a vacina provocou respostas de anticorpos em 100% dos participantes do estudo. Após a 4ª vacinação, as respostas humorais e celulares aumentaram ainda mais.

Dan Barouch, professor da Harvard Medical School, diretor do Centro de Pesquisas em Virologia e Vacinas no Beth Israel Deaconess Medical Center e principal colaborador do estudo APPROACH.

“Encontrar uma vacina preventiva provou ser um dos maiores desafios científicos nesta busca de 35 anos para acabar com a pandemia do HIV. Uma vacina preventiva bem sucedida para o HIV precisará fornecer ampla proteção contra uma ampla variedade de cepas virais “, disse Dan Barouch, professor da Harvard Medical School e principal colaborador do estudo APPROACH. “Esses resultados promissores e em estágio inicial sugerem que essas vacinas em mosaico que utilizam imunogênios devem ser ainda mais avaliadas pela capacidade potencial de atingir esse objetivo histórico.”

As vacinas em mosaico baseadas em imunogênios contêm imunogênios criados usando genes de diferentes subtipos de HIV, responsáveis ​​pelas infecções de HIV-1 em todo o mundo. Estes imunogênios são entregues através de vetores virais, incluindo a tecnologia AdVac® da Janssen, com base no adenovírus serotipo 26 (Ad26). Os vetores virais são combinados com outros componentes, tais como proteínas solúveis, para formar regimes de vacinas em mosaico que primeiro imunizam e depois impulsionam o sistema imunológico, com o objetivo de produzir imunidade mais forte e duradoura contra o HIV.

Paul Stoffels, diretor científico da Johnson & Johnson.

“Nos últimos anos, surgiu um novo otimismo de que vamos encontrar uma vacina eficaz contra o HIV em nossas vidas. Os resultados deste estudo aumentam essa crença e aguardamos avançar para o próximo estágio de desenvolvimento clínico o mais rápido possível”, disse Paul Stoffels. Em estudos pré-clínicos, os regimes que incorporaram vacinas em mosaico demonstraram proteção contra a infecção com um vírus parecido ao HIV. Este regime reduziu o risco de infecção em 94% e resultou em 66% de proteção completa após seis exposições.

Com base nas respostas imunológicas observadas no APPROACH, bem como na proteção observada em estudos pré-clínicos, o esquema de vacina de HIV-1, que inclui o candidato o Ad26 e a proteína solúvel de Clade C gp140, foi selecionado como base para uma avaliação posterior em um estudo de eficácia de fase 2b. Se esse estudo avançar, a Janssen e seus parceiros globais anteciparão o início da próxima fase para o final de 2017 ou início de 2018.

A carta do CDC

Desde 2016, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano publicam a “Dear Colleague Letters”, em apoio ao Dia Nacional de Conscientização sobre HIV/Aids entre Gays nos Estados Unidos. Estas cartas são enviadas por e-mail para parceiros da comunidade e postadas no site do CDC.

Neste ano, o CDC divulgou uma carta que destacou as últimas estatísticas relacionadas especialmente ao HIV entre homens gays e bissexuais. Mas também incluiu uma nota que diz respeito a todas as pessoas afetadas pela epidemia: o reconhecimento mais veemente do CDC, até hoje, da campanha: “Indetectável = Intransmissível”. Este é o endosso mais forte de uma das maiores autoridades de saúde pública do mundo em relação a não transmissibilidade sexual do HIV a partir das pessoas que vivem com vírus, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral indetectável.

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Caro colega,

Hoje [27 de setembro] é o Dia Nacional de Conscientização sobre HIV/Aids entre Gays. Neste dia, nos juntamos para tomar medidas de prevenção contra o HIV entre homens gays e bissexuais e garantir que todos os homens gays e bissexuais que vivem com HIV recebam os cuidados necessários para se manterem saudáveis. Homens gays e bissexuais são severamente afetados pelo HIV. Mais de 26.000 homens gays e bissexuais receberam diagnóstico positivo para o HIV em 2015, o que representa dois terços de todos os novos diagnósticos nos Estados Unidos. Os diagnósticos aumentaram entre homens homossexuais e bissexuais hispânicos e latinos de 2010 a 2014.

No entanto, tendências recentes sugerem que os esforços de prevenção estão diminuindo a propagação do HIV entre alguns homens gays e bissexuais. Entre 2010 a 2014, os diagnósticos de HIV caíram entre homens gays e bissexuais brancos e permaneceram estáveis ​​entre homens gays e bissexuais afro-americanos, depois de anos de crescimento da epidemia entre estes grupos.

Os avanços científicos mostram que a terapia antirretroviral preserva a saúde das pessoas que vivem com HIV. Também temos fortes evidências da eficácia de prevenção da terapia antirretroviral. Quando o tratamento antirretroviral resulta em supressão viral, definida como menos de 200 cópias/ml ou níveis indetectáveis, evita-se a transmissão sexual do HIV. Através de três estudos diferentes, incluindo milhares de casais e milhares de atos de sexo sem preservativo ou profilaxia pré-exposição (PrEP), não foram observadas transmissões do HIV para um parceiro soronegativo quando a pessoa soropositiva tinha carga viral suprimida. Isso significa que as pessoas que tomam antirretrovirais diariamente, como prescrito, e conseguem manter sua carga viral indetectável não apresentam risco efetivo de transmissão sexual do vírus para um parceiro soronegativo.

No entanto, de acordo com o recente Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade, muitos homens gays e bissexuais que vivem com HIV não estão recebendo os cuidados e o tratamento de que precisam. Entre homens gays e bissexuais que vivem com HIV, 61% alcançaram a supressão viral, o que é mais do que nos anos anteriores, mas ainda bem abaixo de onde queremos chegar. É necessário mais trabalho para fechar essa lacuna e superar as barreiras que dificultam a obtenção de cuidado de saúde e tratamento contra o HIV entre alguns homens gays e bissexuais, incluindo homens afro-americanos, hispânicos e latinos. Por exemplo, fatores socioeconômicos, como menores níveis de renda e educação, e fatores culturais, como o estigma e a discriminação, podem dificultar o acesso de alguns homens gays e bissexuais que procuram receber serviços de prevenção e tratamento contra o HIV.

Algumas das atividades do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) para reduzir as novas infecções pelo HIV entre homens gays e bissexuais, aumentar os testes, melhorar os resultados do tratamento e reduzir as disparidades relacionadas ao HIV incluem:

  • Financiar departamentos de saúde e organizações comunitárias para apoiar os serviços de prevenção do HIV para homens gays e bissexuais. Por exemplo, nos acordos de cooperação atuais, o CDC concedeu pelo menos US$ 330 milhões anuais para os departamentos de saúde para a prevenção do HIV entre as populações mais afetadas e está concedendo cerca de US$ 11 milhões por ano às organizações comunitárias para fornecer testes de HIV para jovens homens gays e bissexuais negros e jovens negros transgêneros.
  • Apoiar abordagens biomédicas para a prevenção do HIV, como a PrEP e profilaxia pós-exposição (PEP).
  • Apoiar projetos para identificar estratégias de prevenção promissoras, como Project PrIDE, que está ajudando os departamentos de saúde a implementar projetos de demonstração PrEP, e o Data to Care para homens negros gays e bissexuais.
  • Levar mensagens de prevenção e tratamento do HIV aos homens gays e bissexuais através da Act Against Aids. Por exemplo, a campanha Doing It, que incentiva todos os adultos a fazerem o teste de HIV, inclui muita informação específica para homens gays e bissexuais. Start Talking. Stop HIV é outra campanha que ajuda os homens gays e bissexuais a se comunicar sobre a prevenção do HIV e sobre o tratamento do HIV. A HIV Treatment Works, por sua vez, fornece recursos para ajudar as pessoas a viverem bem com o HIV.

O CDC encoraja as partes públicas e privadas interessadas a implementar intervenções que aumentem a retenção no tratamento do HIV e na supressão da carga viral. Além disso, parceiros, como departamentos de saúde, organizações comunitárias e outros, podem ajudar a diminuir o estigma e a discriminação — usando os recursos da campanha Let’s Stop HIV Together, da Act Against Aids, por exemplo — e ampliar o alcance de seus serviços de prevenção e testagem do HIV entre homens gays e bissexuais. Saiba mais sobre como o CDC pode ajudar seu programa de prevenção.

Agradecemos as suas contribuições para os esforços de prevenção do HIV para homens gays e bissexuais. Com a sua ajuda, demos grandes passos ao longo das últimas décadas. Embora ainda haja muito trabalho a fazer, hoje temos poderosas ferramentas de prevenção e tratamento que podem reduzir drasticamente as infecções pelo HIV entre homens gays e bissexuais e nos aproximar de um futuro sem HIV.

Atenciosamente,

Dra. Eugene McCray
Diretora
Divisão de Prevenção do HIV/Aids
National Center for HIV/Aids, Viral Hepatitis, STD, and TB Prevention
Centros de Controle e Prevenção de Doenças

&

Dr. Jonathan H. Mermin
Diretor
National Center for HIV/AIDS, Viral Hepatitis, STD, and TB Prevention
Centros de Controle e Prevenção de Doenças


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Dolutegravir para todos


Todas as pessoas que vivem com HIV e aids no Brasil terão acesso ao Dolutergravir, medicamento mais moderno e eficaz. O anúncio da expansão deste tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) foi feito nesta sexta-feira (29) pelo Ministro da Saúde, Ricardo Barros, no encerramento do Congresso 11º Congresso de HIV/Aids e 4º Congresso de Hepatites Virais (HepAids 2017), em Curitiba/PR.

O evento reuniu desde terça-feira (26), cerca de 4 mil participantes, entre ativistas, cientistas, gestores e profissionais de saúde de todo o Brasil, além de especialistas internacionais. O tema do congresso é “Prevenção Combinada: multiplicando escolhas”. Atualmente, o Dolutegravir é usado por 100 mil pessoas, mas com a expansão do tratamento no SUS, mais de 300 pessoas vivendo com HIV e aids, terão acesso ao medicamento até o final de 2018.

“Tenho certeza que todos ficaram satisfeitos com essa ampliação do melhor medicamento do mundo para todos os portadores de HIV”

O aumento da oferta é mais um resultado do compromisso de otimizar os recursos. Considerado um dos melhores tratamento para a aids do mundo, o medicamento apresenta uma série de vantagens como alta potência; nível muito baixo de eventos adversos; comodidade para o paciente (uma vez ao dia); tratamento eficaz por mais tempo e menor resistência. A incorporação do Dolutegravir não altera o orçamento atual do Ministério da Saúde para a aquisição de antirretrovirais, que é de R$ 1,1 bilhão. “Essa ampliação decorre dessa nossa prática de economizar e reaplicar essa economia nos serviços de saúde e melhorar a qualidade de vida de todos os brasileiros. Tenho certeza que todos ficaram satisfeitos com essa ampliação do melhor medicamento do mundo para todos os portadores de HIV, além dos aplicativos que ajudarão profissionais e população”, enfatizou o ministro Ricardo Barros.

TRANSMISSÃO VERTICAL – Durante a cerimônia de enceramento do evento, o ministro Ricardo Barros recebeu o processo de solicitação da Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical (TV) do HIV do município de Curitiba. A capital do Paraná é um dos primeiros municípios a aderir à certificação de eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho) do HIV. Com o objetivo de incentivar o engajamento dos municípios no combate à transmissão vertical, o Ministério da Saúde lançou no 1º de dezembro do ano passado, com os estados, um selo de Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical de HIV e/ou Sífilis no Brasil.

“Esperamos que o Brasil todo avance para que possamos ser reconhecidos como mais um pais que eliminou essa transmissão”

“Recebemos vários municípios que estão certificados da transmissão vertical do HIV e esperamos que o Brasil todo avance nesse sentido para que possamos na assembleia da ONU do ano que vem ser reconhecidos como mais um pais que eliminou essa transmissão, que é uma tarefa difícil, mas possível de ser eliminada. Tenho certeza que várias cidades saem do Congresso estimulados a fazerem a lição de casa”, ressaltou o ministro.

Tendo como base uma adaptação de critérios já estabelecidos pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a certificação será concedida a municípios cujas taxas de detecção de aids em menores de 5 anos sejam iguais ou inferiores que 0,3 para cada mil crianças nascidas vivas e proporção menor ou igual a 2% de crianças com até 18 meses. Serão certificados, prioritariamente, os municípios com mais de 100 mil habitantes. A certificação será emitida por um Comitê Nacional, em parceria com estados, que fará a verificação local dos parâmetros. Os municípios receberão certificação no Dia Mundial de Luta contra Aids. A estratégia conta com o apoio da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância); Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids no Brasil) e Opas.

PREP – Outro destaque do Congresso foi o lançamento do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV. A medida de prevenção reduz o risco da infecção pelo HIV antes da exposição, por meio da utilização de medicamentos antirretrovirais (Tenofovir associado à Entricitabina) em pessoas não infectadas e que mantêm relações de risco com maior frequência. Entre o público-alvo da medida estão homens que fazem sexo com homens, gays, travestis, transexuais, profissionais do sexo e casais soro diferentes.

O documento traz as orientações para utilização dessa nova estratégia de prevenção dentro do SUS. Entre outros temas, o protocolo ressalta que o fato de fazer parte desses grupos não é suficiente para caracterizar indivíduos com exposição frequente ao HIV. Além disso, o protocolo orienta aos profissionais de saúde observar as práticas sexuais, as parcerias sexuais e os contextos específicos associados a um maior risco de infecção. Na entrevista inicial, profissionais de saúde irão orientar os pacientes sobre o procedimento e realizar uma série de exames como HIV, sífilis, hepatite B e C, função renal e hepática. O documento explica ainda que a incorporação da PrEP não desestimula o uso do preservativo. Ou seja, a profilaxia não previne outras infecções sexualmente transmissíveis.

O Brasil é o primeiro país da América Latina a oferecer a PrEP no sistema público de saúde. A implantação ocorrerá de forma gradual, a partir de dezembro deste ano, em 22 cidades de todo o país: Manaus (AM), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Juiz de Fora (MG), Uberaba (MG), Passos (MG), Recife (PE), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Niterói (RJ), Duque de Caxias (RJ), Florianópolis (SC), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), São Bernardo do Campo (SP), Ribeirão Preto (SP), São Jose Rio Preto (SP), Campinas (SP), Santos (SP), Piracicaba (SP). Segundo dados do Boletim Epidemiológico, as taxas de prevalência de HIV são mais elevadas nestes subgrupos populacionais, quando comparadas às taxas observadas na população geral (0,4%). Nas mulheres profissionais de sexo é de 4,9%. Entre gays e homens que fazem sexo com outros homens (HSH), a taxa de prevalência por HIV é de 10,5%. Entre pessoas trans a prevalência chega a 31,2%.

APLICATIVOS – No encerramento do Congresso também foram lançados aplicativos para ajudar profissionais de saúde e cidadãos na atenção à saúde das pessoas vivendo com HIV e aids. Os aplicativos estarão disponíveis a partir deste sábado (30). Para os cidadãos que vivem com HIV/aids, estará disponível o aplicativo Viva Bem funcionará como um diário para o cidadão que vive com HIV/aids. Nele, é possível inserir lembretes de medicamentos, acompanhar exames, tirar dúvidas sobre esquemas dos medicamentos e monitorar CD4 e carga viral.

Serão quatro aplicativos para profissionais de saúde, para consulta e atendimento em locais remotos – sem conexão com internet. Os aplicativos permitem o acesso simples e rápido aos documentos na forma de guia de bolso: Protocolo Clínicos e Diretrizes Terapêuticas de PrEP, Protocolo Clínicos e Diretrizes Terapêuticas para HIV em Crianças e Adolescentes, Protocolo Clínicos e Diretrizes Terapêuticas para prevenção da transmissão Vertical do HIV, sífilis e Hepatites Virais e Protocolo Clínicos e Diretrizes Terapêuticas para HIV – Adultos.


Por Nivaldo Coelho, da Assessoria de Comunicação do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais.

Novos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas


Seis protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas (PCDTs) e duas publicações sobre Prevenção Combinada foram lançados pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) durante o 11º Congresso de HIV/Aids e 4º Congresso de Hepatites (HepAids 2017), em Curitiba, nesta quarta-feira (27/09).

Os seis PCDTs lançados são: Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos; Profilaxia Pré-Exposição ao HIV; Profilaxia Pós-Exposição ao HIV; Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes; Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites; e Hepatites Virais. Já as duas publicações sobre Prevenção Combinada são: Coletânea HIV/Aids na Atenção Básica: Material para Profissionais de Saúde e Gestores e o sumário executivo da Prevenção Combinada do HIV. As publicações estão disponíveis para download aqui.

Durante o lançamento, realizado no Espaço Comunicação do HepAids2017, a diretora do DIAHV, Adele Benzaken, destacou o envolvimento de técnicos na elaboração das publicações, especialmente dos protocolos. “Lançar seis PCDTs em um Congresso como este foi um esforço muito grande – não só do Departamento, mas de um conjunto de especialistas, pesquisadores e sociedade civil”.

Os PCDTs são documentos oficiais que estabelecem parâmetros para o diagnóstico, assistência e tratamento de uma determinada doença ou agravo. Os protocolos orientam os profissionais de saúde e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) para garantir o melhor cuidado de saúde possível aos pacientes. A elaboração ou atualização de um PCDT se baseia em evidências científicas, e segue diversas etapas – que vão da elaboração à aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e à consulta pública da sociedade, antes de sua deliberação final e publicação.

PCDT HIV ADULTOS – O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos (PCDT HIV Adultos) traz atualizações nas recomendações para o cuidado das pessoas vivendo com HIV (PVHIV) e novas orientações para melhor organizar a rede de assistência. As principais mudanças no PCDT se referem à terapia antirretroviral (TARV). Entre elas destacam-se a introdução de inibidores de integrase (medicamento que inibe a replicação do vírus no corpo) como primeira oferta de terapia, inclusive para pacientes graves coinfectados com tuberculose (TB). Novas tecnologias – como o uso do teste de HLA-B*5701, que dá maior segurança da prescrição do abacavir, um dos medicamentos da terapia antirretroviral – também foram incorporadas.

PCDT PrEP – O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PEP) de Risco ao HIV traz as orientações para utilização dessa nova estratégia de prevenção. A PrEP consiste no uso preventivo dos medicamentos antirretrovirais (ARV) orais tenofovir e entricitabina combinados num único comprimido, por pessoas que não sejam portadoras do vírus e tenham maior risco de adquirir a infecção pelo HIV. Entre outros temas, o PCDT traz as populações indicadas para receber a profilaxia – gays e homens que fazem sexo com outros homens, profissionais do sexo; travestis; trans e casais sorodiferentes, quando um vive com o vírus e o outro não – critérios e avaliação da indicação.

O Brasil é o primeiro país da América Latina a oferecer a PrEP no sistema público de saúde. A implantação ocorrerá de forma gradual a partir de dezembro de 2017 em 12 cidades: Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Recife (PE), Manaus (AM), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Salvador (BA) e Ribeirão Preto (SP).

PCDT PEP – O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP) à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais tem como objetivo atualizar as recomendações para a PEP, incluindo também a abordagem às IST e às hepatites virais, além da PEP para o HIV, que já está disponível no SUS desde 1999. A PEP consiste na prescrição de antirretrovirais após o contato da pessoa com um desses vírus; atualmente, é uma tecnologia inserida no conjunto de estratégias da prevenção combinada. O PCDT reforça ainda a ampliação do uso dessa intervenção além daquelas situações em que a PEP já é classicamente indicada, como violência sexual e acidente ocupacional, recomendando o uso dessa intervenção também para exposições sexuais consentidas que representem risco de infecção.

PCDT HIV CRIANÇAS E ADOLESCENTES – Já a atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes inova a terapia antirretroviral para crianças acima de dois anos de idade, tornando o tratamento mais confortável, principalmente na fase inicial, por desincorporar medicamentos tóxicos e incluir inibidores da enzima integrase (que inibe a replicação do vírus no corpo). Essa medida representa um grande avanço na área de pediatria, considerando que são limitadas as apresentações de medicamentos para esta faixa etária.

Esse PCDT traz ainda recomendações sobre o melhor cuidado de saúde possível a crianças e adolescentes vivendo com HIV. Por isso, além das indicações medicamentosas e laboratoriais, o novo PCDT amplia os aspectos ligados ao cuidado, destacando a importância da assistência integral ao abordar temas como a capacidade de diagnóstico; como e quando iniciar a terapia; as dificuldades de adesão ao tratamento; e possíveis falhas na terapia antirretroviral.

PCDT TRANSMISSÃO VERTICAL – O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais tem por objetivo orientar o manejo das mulheres e suas parcerias sexuais quanto às infecções sexualmente transmissíveis (IST) de potencial transmissão vertical. A transmissão vertical do HIV ocorre pela passagem do vírus para a criança durante a gestação, o parto ou a amamentação – e pode ser reduzida a menos de 2% com a adoção de medidas de prevenção.

O PCDT aborda a saúde sexual e reprodutiva para a população vivendo com HIV, do uso de antirretrovirais e demais agentes anti-infecciosos para prevenção e tratamento das IST, especialmente da sífilis, das hepatites virais (B e C) e da infecção pelo HIV, nas mulheres gestantes e crianças expostas. Entre as novidades, propõe novo esquema de tratamento antirretroviral para as gestantes que vivem com HIV com incorporação da classe de inibidor de integrase como escolha para compor o esquema preferencial inicial, em queda rápida de carga viral, boa transferência transplacentária e ótimo perfil de tolerabilidade.

PCDT HEPATITES VIRAIS – O novo PCDT para Hepatite C e Coinfecções amplia o acesso ao tratamento dos pacientes com hepatite C crônica com METAVIR F2 (grau de comprometimento hepático), independentemente do tempo do diagnóstico, assim como para os pacientes portadores de hepatite auto-imune, hemofilia e outras coagulopatias hereditárias, hemoglobinopatias e anemias hemolíticas e coinfecção hepatite B e C. As diretrizes do novo protocolo ampliam também o tempo de tratamento com os medicamentos sofosbuvir e daclatasvir de 12 para 24 semanas em pacientes com diagnóstico de hepatite C crônica genótipo 3 com cirrose; inclui o tratamento para crianças e para pacientes portadores de genótipos 5 e 6; indica o uso da associação medicamentosa composta por veruprevir, ritonavir, ombitasvir e dasabuvir, conhecida como esquema de tratamento 3D, para os pacientes portadores de hepatite C genótipo 1.

OUTRAS PUBLICAÇÕES – O sumário executivo da Prevenção Combinada do HIV – que foi lançado e incluído na pasta dos congressistas – traduz os objetivos e as formas de implantação e implementação da estratégia. A ideia é informar os gestores e trabalhadores de saúde sobre o conjunto de tecnologias preventivas disponíveis.

Já a coletânea HIV/Aids na Atenção Básica: Material para Profissionais de Saúde e Gestores, também distribuída no HepAids 2017, é composta por seis fascículos temáticos que fornecem orientações gerais e técnicas, na forma de cinco passos, para a elaboração e implementação da linha de cuidado para as pessoas vivendo com HIV/aids, da Prevenção Combinada do HIV/aids; de ações de vigilância e informações epidemiológicas e ações de monitoramento e avaliação. Embora possam ser consultados de forma independente, os fascículos dialogam entre si, tendo como fio condutor a Educação Permanente em Saúde – tema que é abordado em um dos fascículos.


Pela Assessoria de Comunicação do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais.

Anticorpos atacam 99% das cepas de HIV em macacos

Um estudo publicado na Science, em 20 de setembro de 2017, descreve o resultado do desenvolvimento de um anticorpo amplamente neutralizante (ou bnAb, do inglês broadly neutralizing antibody), que mostrou-se capaz de atacar 99% das cepas de HIV e de prevenir a infecção em macacos. Esse anticorpo é “trispecífico”, o que quer dizer que uma única molécula interage com três pontos importantes do HIV-1: o local de ligação ao CD4, a região externa próxima da membrana, o local de glicano V1V2.

Anticorpo amplamente neutralizante.

Esses anticorpos são originalmente vistos em algumas pessoas com HIV, que os desenvolvem naturalmente. Mesmo assim, os anticorpos naturais são capazes de agir contra 90% das cepas de HIV. Por isso, a ideia dos cientistas é desenvolvê-los artificialmente, mais fortes, para tratar ou prevenir a infecção pelo HIV. “Eles são mais potentes e têm uma amplitude maior do que qualquer anticorpo natural que tenha sido descoberto”, disse Gary Nabel, diretor científico da Sanofi e um dos autores do estudo, à BBC. “Estamos conseguindo proteção de 99% e com concentrações muito baixas do anticorpo.”

O experimento foi feito em 24 macacos: nenhum dos animais que recebeu o anticorpo desenvolveu a infecção quando o vírus SHIV (uma mistura de HIV com seu equivalente símio, o SIV) foi posteriormente injetado. “Foi um grau impressionante de proteção”, disse Nabel. O trabalho é uma colaboração entre os National Institutes of Health americano e a empresa farmacêutica Sanofi, e incluiu cientistas da Harvard Medical School, do Scripps Research Institute e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Os estudos em humanos começarão em 2018.

Segundo a BBC, a professora Linda-Gail Bekkera, da International Aids Society, disse que este é um “avanço emocionante”. “Esses anticorpos superdesenvolvidos parecem ir além do natural e podem ter mais aplicações do que imaginamos até agora”, acrescenta ela. “É cedo ainda e, como cientista, espero que os primeiros ensaios sejam iniciados em 2018”, continua. “Como médica na África, sinto a urgência de confirmar essas descobertas em humanos o mais rápido possível”.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, diz tratar-se de uma abordagem intrigante. “As combinações de anticorpos que atacam uma parte específica do HIV podem superar as defesas do vírus na tentativa de conseguir um tratamento e prevenção efetivos baseados”, disse ele.

Uma trepadeira contra o HIV

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, em parceria com a Universidade da Louisiana, nos Estados Unidos, usaram contra o HIV uma substância que ainda não havia sido testada com essa finalidade. Os cientistas extraíram das sementes de uma espécie de trepadeira de nome científico Abrus pulchellus tenuiflorus, encontrada na região Nordeste do Brasil, uma proteína chamada puchelina. Nos testes in vitro, em laboratório, ela matou 90% das células infectadas pelo HIV. O estudo foi divulgado na Nature, em 8 de agosto de 2017.

Abrus pulchellus tenuiflorus.

“Parece contraditório, mas essa grande toxidade é que traz um benefício. O fato dela matar é que está sendo usado de forma benéfica”

A Profa. Dra. Ana Paula Ulian de Araújo, do Grupo de Biofísica Molecular “Sérgio Mascarenhas” do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), explicou que as sementes desta espécie de trepadeira são tóxicas e, se ingeridas, podem matar. “Parece contraditório, mas essa grande toxidade é que traz um benefício. O fato dela matar é que está sendo usado de forma benéfica”, disse ela, em notícia publicada pelo G1. Para usar a proteína pulchellina, presente nas sementes da trepadeira, os pesquisadores a conjugaram-na junto com a ação de anticorpos usados especificamente na detecção do HIV, formando aquilo que se chama de imunotoxina. Os anticorpos utilizados foram MAb 924 anti-gp120 e MAb 7B2 anti-gp41, dois diferentes anticorpos monoclonais conhecidos por agir contra o HIV.

Prof. Guimarães e Sadraeian

Essa conjugação dos anticorpos com a pulchellina e os estudos com as células infectadas com HIV foram executados por Mohammad Sadraeian, doutorando do Grupo de Óptica do IFSC, em parceria com o Health Sciences Center da Universidade da Louisiana, nos Estados Unidos.

Os anticorpos foram cedidos pelo Aids Research and Reference Reagent Program do National Institutes of Health americano, enquanto a linhagem de células infectadas foi doada por Bing Chen, docente do Departamento de Pediatria da Harvard Medical School, também nos Estados Unidos. No estudo, assim que a pulchellina foi conjugada aos anticorpos, estes a guiaram para dentro dos glóbulos brancos infectados, combatendo estes mesmos glóbulos graças à ação tóxica da proteína.

“A gente percebeu que esse composto age diretamente nas células onde os vírus estão, praticamente, dormindo ali.”

Essa técnica pode ser eficaz em alcançar as células do reservatório de HIV, os locais dentro do nosso organismo onde o vírus fica escondido do sistema imunológico e fora do alcance dos antirretrovirais. “A gente percebeu que esse composto age diretamente nas células onde os vírus estão, praticamente, dormindo ali. Muitas vezes essas células estão localizadas no sistema linfático, de difícil acesso, e a gente espera também que no futuro essa substância seja aplicada com o mínimo de efeito colateral”, explicou Guimarães.

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Segundo o Portal USP São Carlos, antes desse estudo ser iniciado, Guimarães, já estudava a pulchellina em colaboração com Ana Paula. Por sua vez, Sadraeian trabalhava com imunoterapia — tratamento fundamentado na aplicação de anticorpos —, no mestrado que desenvolveu na Universidade de Teerã, no Irã. Guimarães diz que a ideia de associar a proteína a uma tentativa de combate ao HIV foi uma intuição aparentemente certeira, através da qual Sadraeian iniciará um pós-doutorado no IFSC, visando à avaliação dessa estratégia de combate em escala in vivo, a partir de uma parceria que envolverá o IFSC e a Universidade da Louisiana, através de uma colaboração com o docente Seth H. Pincus.

“É o começo muito positivo que pode trazer, a partir de estudos então posteriores, quem sabe a tão desejada cura da aids.”

Em outras palavras, o próximo passo é testar a substância em macacos e, depois, em humanos. “É o começo muito positivo que pode trazer, a partir de estudos então posteriores, quem sabe a tão desejada cura da aids. É claro que a gente não pode dizer isso agora, mas o potencial existe e é muito promissor”, disse Ana Paula. Por sua vez, o doutorado de Sadraeian culminará na abertura de uma nova linha de pesquisa no Grupo de Óptica, que passará a estudar estratégias para tentar combater o HIV/aids e outras complicações, como o câncer, associando anticorpos à terapia fotodinâmica (TFD), uma técnica que se baseia no uso de luz. O intuito dos pesquisadores de São Carlos, segundo o Guimarães, é combater o HIV no próprio sangue: a proposta é retirar o sangue infectado do paciente, tratar esse material com anticorpos e aplicação de luz e, então, inserir o sangue tratado no organismo.