A transmissão vertical do HIV, da mãe para seu bebê, pode acontecer durante a gestação e no parto. Aliás, o mesmo pode acontecer também com sífilis e hepatite B. Por isso, as gestantes devem realizar os testes para HIV, sífilis e hepatites durante o pré-natal e no parto. A recomendação atual do Ministério da Saúde é que os testes para essas doenças sejam feitos da seguinte forma:

  • Nos três primeiros meses de gestação: HIV, sífilis e hepatites
  • Nos três últimos meses de gestação: HIV e sífilis
  • Em caso de exposição de risco e/ou violência sexual: HIV, sífilis e hepatites
  • Em caso de aborto: sífilis

Os testes para HIV e para sífilis também devem ser feitos no momento do parto, independentemente do resultado de exames anteriores. O teste de hepatite B também deve ser realizado no momento do parto, caso a gestante não tenha recebido a vacina.

Se o teste de HIV tiver resultado positivo, a gestante tem indicação para iniciar imediatamente o tratamento com os medicamentos antirretrovirais durante toda gestação e, se orientado pelo médico, também no parto. Esse tratamento previne a transmissão vertical do HIV, da mãe para a criança. (Atualmente, sabemos que o Dolutegravir deve ser evitado por mulheres que pretendem engravidar, depois de alguns casos documentados de má formação em bebês cujas mães tomavam esse remédio, e, também, o Darunavir, que se mostrou incapaz de evitar a transmissão vertical do HIV.) Seguindo essas orientações, as chances de transmissão vertical são mínimas: o risco é de menos de 1%. Nos últimos dez anos, observou-se uma queda de 42,7% na taxa média de transmissão vertical do HIV.

Depois do parto, o recém-nascido deve então receber o medicamento antirretroviral, na forma de xarope, e deve ser acompanhado no serviço de saúde. Entretanto, sabemos que não é no parto que termina a troca de fluídos entre a mãe e seu bebê. Após o nascimento, há ainda um possível longo período de aleitamento materno.

Será que uma mãe que vive com HIV pode amamentar seu bebê? A recomendação atual é que não: uma mulher soropositiva não deve amamentar seu bebê com seu leite materno. Uma vez que o HIV também pode ser transmitido a partir do leite materno, essa é uma maneira eficaz de evitar transmissão do HIV.

A recomendação da não amamentação para mães com HIV acompanha aquilo que vem sendo feito desde o começo da epidemia, passando pelo advento dos antirretrovirais. Todavia, com a evolução desses remédios e as repetidas observações que nos trouxeram ao consenso a respeito da intransmissibilidade do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e mantém a carga viral indetectável, surge uma pergunta bastante natural: será que lactantes com carga viral indetectável não poderiam amamentar seus bebês?

Por enquanto, a resposta ainda é: não sabemos! Pesquisas são urgentemente necessárias para fornecer recomendações claras e atualizadas sobre a amamentação para mães com HIV, em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável. É isso o que disse um grupo de pesquisadores na revista The Lancet HIV. “As evidências são insuficientes para afirmar que indetectável é intransmissível no contexto da amamentação”. Embora o risco de transmissão seja provavelmente pequeno se uma mulher tiver suprimido sua carga viral, os autores destacam uma série de questões de pesquisa que ainda precisam ser abordadas para que o aconselhamento seja baseado em evidências.

Em contextos de recursos limitados, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, recomenda que mulheres com HIV amamentem seus bebês, com o próprio leite materno, se a fórmula alimentar não for segura e viável para elas e desde que as mães estejam sob terapia antirretroviral e seus bebês sob profilaxia antirretroviral.

Em países de alta renda, as diretrizes em geral desestimulam o aleitamento materno por mulheres em tratamento antirretroviral. No entanto, atualizações recentes das diretrizes da British HIV Association, da European Aids Clinical Society e do US Department of Health and Human Services reconhecem que mulheres com carga viral indetectável ​​podem optar por amamentar, desde que monitorem sua carga viral e mantenham adesão aos medicamentos antirretrovirais.

Mesmo assim, os autores do estudo publicado no The Lancet HIV afirmam que ainda faltam de evidências para determinar como as mulheres que amamentam devem ser monitoradas e quais os riscos que podem eventualmente permanecer apesar da carga viral indetectável. Uma notícia publicada pelo Aidsmap enumera três pontos principais que faltam ser respondidos:

Será que existe uma determinada quantidade de HIV no plasma sanguíneo ou no leite materno abaixo da qual o vírus não pode ser transmitido?

Vários estudos demonstraram que mulheres podem ter o HIV detectável no leite materno, mesmo quando têm o HIV indetectável no plasma sanguíneo. Pesquisadores do estudo Amamentação, Antirretrovirais e Nutrição (BAN, do inglês Breastfeeding, Antiretrovirals and Nutrition) concluíram que manter uma carga viral abaixo de 100 cópias/ml pode prevenir a transmissão do HIV através do leite materno. Eles concluíram isso com base na observação, ao longo do estudo, de que todas as mães que transmitiram HIV durante a amamentação tiveram pelo menos uma medição de carga viral acima de 100 cópias/ml.

No entanto, outro estudo, o Mma Bana, conduzido em Botsuana, identificou dois casos de transmissão que provavelmente ocorreram durante o período de amamentação, quando cada mãe teve uma carga viral abaixo de 50 cópias/ml, em um mês e em três meses após o parto. Em um dos casos, a mãe relatou dificuldades de adesão aos medicamentos.

Também foi documentado um caso no Malawi em que o HIV foi transmitido através da amamentação, embora a mãe tivesse uma carga viral indetectável, com menos de 37 cópias/ml) no plasma sanguíneo e no leite materno.

Um exercício de modelagem matemática liderado pelo Unaids, com base em todos os dados disponíveis de estudos clínicos e coortes observacionais até 2012, estimou que haveria um risco de 0,16% (aproximadamente um a cada 750) de transmissão do HIV para cada mês de amamentação se a mãe já estivesse sob tratamento antirretroviral antes do parto.

Esses resultados mostram que o risco de transmissão é pequeno, mas não pode ser descartado. Os pesquisadores recomendam o estabelecimento de um registro internacional para registrar os resultados de todos os bebês amamentados de mães com HIV. Além de observar a segurança dos medicamentos em bebês, um registro como esse forneceria informações detalhadas sobre quaisquer casos de transmissão que pudessem ocorrer e melhoraria as estimativas sobre o risco de transmissão.

Os medicamentos antirretrovirais são suficientes para evitar a transmissão do HIV através do leite materno?

Especialistas concluíram que o risco persistente de transmissão do HIV através do leite materno, apesar da supressão viral, é provavelmente uma consequência do vírus associado à células no leite materno.

O HIV pode estar fora ou dentro de uma célula, isto é, contido dentro de uma célula do sistema imune tal como um linfócito CD4, na forma de DNA viral. O leite materno contém vários tipos de células potencialmente infectadas pelo HIV. Estas células incluem células CD4 infectadas latentemente e de longa duração contendo DNA viral que não se replica e por isso não é susceptível aos fármacos antirretrovirais.

Os pesquisadores dizem que mais pesquisas são necessárias para determinar se o tratamento antirretroviral de longo prazo antes da amamentação é capaz de reduzir os níveis de vírus associados à células no leite materno.

Que tipo de monitoramento virológico as mulheres que amamentam devem receber?

A British HIV Association recomenda que as mulheres que estão amamentando durante o tratamento antirretroviral façam um teste de carga viral, para si e para seu bebê, uma vez por mês, ao longo da amamentação. As diretrizes dos Estados Unidos indicam testes a cada um ou dois meses.

Embora as diretrizes preliminares da British HIV Association recomendem contra a amamentação, elas reconhecem que algumas mulheres escolherão fazê-lo e que é melhor que as mulheres possam ter esta liberdade de escolha e que recebam apoio para minimizar o risco de transmissão vertical do HIV. O esboço das diretrizes britânicas recomenda uma abordagem de redução de danos: minimizar a quantidade de tempo em que a amamentação ocorre, interromper a amamentação se a criança tiver algum sintoma gastrointestinal, se a mãe tiver mastite ou infecção de mama. As diretrizes britânicas enfatizam que “mulheres que amamentam com carga viral detectável devem ser encaminhadas para cuidados sociais, pois estão colocando o bebê em risco significativo de infecção pelo HIV.”

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A Organização Mundial da Saúde, OMS, publicou uma nota em que reconhece que quem vive com HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transite o HIV.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lidera a resposta do setor da saúde ao HIV como parte do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. A OMS trabalha para aumentar o acesso ao teste de HIV, à terapia antirretroviral e ao monitoramento da carga viral, para melhorar o manejo clínico do HIV como uma prioridade urgente de saúde pública para prevenir a morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV.

A ciência relacionada ao uso da terapia antirretroviral como uma ferramenta adicional de prevenção é clara: não há evidências de que os indivíduos que conseguiram e mantiveram com êxito a supressão viral através da terapia antirretroviral transmitam o vírus sexualmente para seus parceiros negativos para o HIV. Os benefícios preventivos da terapia antirretroviral devem ser adequadamente enfatizados nos programas de tratamento e prevenção ao HIV.

A OMS reconhece que a conscientização sobre os benefícios de tratamento e prevenção da terapia antirretroviral deve ser promovida, a fim de incentivar a adesão ao teste de HIV e para apoiar as pessoas a terem acesso e aderirem à terapia antirretroviral o mais cedo possível.

A orientação da OMS para o HIV promove a equidade em saúde, igualdade de gênero e direitos humanos. Continua a pressionar por maiores esforços no fornecimento de prevenção primária e na abordagem das barreiras estruturais que aumentam a vulnerabilidade de pessoas e comunidades ao HIV.

 

Antirretrovirais, supressão viral e transmissão do HIV: as evidências

Há vários anos, há evidências de que a terapia antirretroviral previne a morbidade e a mortalidade das pessoas com HIV e também tem claros benefícios na prevenção do HIV. Vários estudos de coorte confirmaram os benefícios de prevenção do HIV da terapia antirretroviral. Ensaios clínicos randomizados  são o melhor padrão para evidências científicas e, em 2011, um estudo feito em diversos países, o HPTN 052, mostrou redução na transmissão do HIV em casais sorodiscordantes (algumas vezes referidos como sorodiferentes), onde o parceiro com HIV e um contagem de CD4 entre 350 e 550 células/µL iniciou a terapia antirretroviral. Isso levou a OMS a recomendar no início de 20127que:

  • pessoas com HIV em um relacionamento sorodiscordante devem ser informadas de que a terapia antirretroviral também é recomendada para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado; e
  • parceiros soropositivos com uma contagem de CD4 acima de 350 células/µL em relacionamento sorodiscordante devem receber a terapia antirretroviral para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado.

Essas recomendações, reconhecendo os benefícios preventivos da terapia antirretroviral, foram feitas quando as recomendações globais foram para iniciação da terapia antirretroviral em contagens abaixo de 350 células CD4/µL, antes da evidência disponível  apoiar os benefícios clínicos da terapia antirretroviral imediata, recomendada pela OMS recomendou em setembro de 2015.

Evidências adicionais, de que a terapia antirretroviral bem sucedida com supressão viral impede a transmissão do HIV para parceiros sexuais, confirmaram os achados do HPTN 052. O estudo Partner e Opposites Attract não relataram nenhuma transmissão quando a carga viral era indetectável, abaixo de 200 cópias/mL.

Esses dados levaram a um consenso crescente de que as pessoas que alcançaram e mantiveram carga viral indetectável não podem transmitir o HIV sexualmente para seus parceiros.

Esforço necessário para aumentar o acesso a testes, terapia antirretroviral, monitoramento de carga viral e cuidados de saúde

O principal objetivo da terapia antirretroviral é proporcionar benefícios clínicos para as pessoas que vivem com o HIV. O aumento da terapia antirretroviral, particularmente em países de baixa e média renda, resultou em ganhos significativos na saúde, bem como reduções na morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV. Recomenda-se que as pessoas com HIV iniciem a terapia antirretroviral logo que são diagnosticados, para sua própria saúde. Também deve ser enfatizado que o início da terapia antirretroviral e a supressão viral impedem a transmissão sexual do HIV.

Um progresso significativo foi alcançado com a meta 90-90-90 das Nações Unidas. No entanto, existem lacunas significativas e desafios remanescentes. A OMS recomenda o monitoramento da carga viral para garantir que a supressão da carga viral seja alcançada e mantida, mas ainda permanecem grandes lacunas no acesso global, particularmente em países de baixa e média renda e em áreas rurais.

A maioria das infecções por HIV ocorre em transmissão a partir de alguém que não sabe que tem HIV. Há um risco maior de transmissão do HIV a partir de pessoas recém infectadas e isso geralmente ocorre bem antes de as pessoas procurarem o teste. A transmissão do HIV também ocorre quando alguém com HIV não está em tratamento ou está em tratamento e não tem o vírus suprimido (porque não está em tratamento antirretroviral há tempo suficiente, toma os antirretroviraiss de modo não ideal, ou está falhando devido a fatores como resistência aos medicamentos). Os dados da cascata de cuidados para o HIV de vários países indicam que 19% (nem intervalo de incerteza de 5 a 40%) das pessoas em tratamento que foram submetidas a testes de carga viral não são suprimidas por vírus. Isso exige ênfase contínua em: aumento do acesso aos testes e vinculação à terapia antirretroviral; monitorar e responder à resistência aos medicamentos; apoiar a adesão à terapia antirretroviral; melhorar a conscientização sobre a condição sorológica dos parceiros de pessoas com HIV; e acesso ao monitoramento da carga viral para apoiar o tratamento eficaz e orientar as decisões sobre a prevenção do HIV e escolhas de concepção mais seguras.

Ainda é necessária uma resposta abrangente ao HIV

Embora a incidência do HIV continue a diminuir, particularmente em países de alta renda, 1,8 milhão de pessoas foram infectadas em 2016 e, fora da África subsaariana, alguns países continuam a experimentar um número crescente de novas infecções pelo HIV. A continuação da transmissão do HIV também está sendo relatada em áreas com alta cobertura de terapia antirretroviral. Portanto, testes de HIV, antirretrovirais e monitoramento da carga viral são necessários, juntamente com a combinação primária de prevenção do HIV (preservativos masculinos e femininos, redução de danos para pessoas que injetam drogas, circuncisão masculina voluntária e profilaxia pré-exposição).

Os preservativos continuam sendo um componente essencial na resposta ao HIV. O apoio ao acesso e uso do preservativo proporciona uma prevenção eficaz do HIV para milhões de pessoas nas situações descritas acima. Também permite que as pessoas se protejam de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo as hepatites B e C, e previne gravidezes indesejadas.

Entretanto, a nociva dinâmica de desigualdade de gênero, a violência interpessoal e o uso de substâncias podem minar a negociação de preservativos e, por isso, pesquisas sobre comportamento sexual estão em andamento e devem ser incentivadas. Além de garantir que a gama de opções de prevenção esteja disponível, o apoio ao conhecimento mais amplo dos benefícios preventivos da terapia antirretroviral pode reduzir o estigma e permitir que pessoas que têm carga viral indetectável pela terapia antirretroviral façam escolhas informadas em suas vidas sexuais.

Fonte
Fonte:
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Lendo aquela notícia, publicada nos últimos dias, que fala sobre o baixo índice de vacinação no Brasil, o pior dos últimos 16 anos, me veio à cabeça o seguinte pensamento: será que no futuro, talvez distante, talvez próximo, quando existir uma vacina eficaz contra o HIV, existirão também aqueles vão preferir não tomá-la?

Nos vejo, aqui, torcendo para o desenvolvimento de uma vacina que ainda não existe, enquanto parece que há quem torça para acabar com as vacinas que já existem — não é curioso? São chamados “negacionistas das vacinas”, grupo para o qual a Organização Mundial da Saúde, a OMS, já chegou a organizar seminários para treinar a combater o seu discurso anti-vacinação. Eles são uma espécie de derivação dos negacionistas do HIV: enquanto uns negam a validade das vacinas, outros chegam a negar a existência do HIV ou do seu impacto sobre a saúde — mesmo décadas depois do surgimento da terapia antirretroviral e de seu incontestável sucesso em evitar milhares de mortes decorrentes da doença. Teorias da conspiração sustentam ambos os discursos negacionistas; e documentários já foram feitos dando argumentos, factíveis ou não, sobre todo este assunto.

Dr. Andrew Wakefield

No que diz respeito à negação das vacinas, fala-se do documentário Vaxxed (2017), que inspira sua narrativa num estudo liderado pelo Dr. Andrew Wakefield, publicado em 1998 no jornal científico britânico The Lancet. O estudo Wakefield, como ficou conhecido, afirma ter investigado o caso de doze crianças encaminhadas ao Royal Free Hospital and School of Medicine com enterocolite crônica e transtorno regressivo de desenvolvimento. Os autores relataram que os pais de oito das doze crianças associaram a perda das habilidades adquiridas de seus filhos, incluindo a linguagem, à vacinação com a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba.

Os autores do estudo concordaram com os pais, concluindo que haveria “possíveis gatilhos ambientais”, causadores da doença gastrointestinal e da regressão do desenvolvimento, e que este agente seria a vacina. Em resumo, a partir da observação destas doze crianças, os autores concluíram que a vacina é a causa do autismo.

“Revelado: escândalo da vacina tríplice viral”

Passaram-se alguns anos até que se descobrisse que o estudo Wakefield fora conduzido de maneira fraudulenta. Para começar, as crianças estudadas não haviam sido escolhidas randomicamente: ao contrário, elas  foram cuidadosamente selecionadas, para que estivessem dentro os requisitos que levariam ao resultado desejado. Além disso, o estudo foi financiado por advogados que atuavam em favor dos pais envolvidos em ações judiciais contra as fabricantes de vacinas. Era interessante para os advogados, financiadores do estudo, que o resultado do estudo favorecesse a ação judicial.

Enfim, um bom exemplo daquilo que é chamado de “viés de confirmação”, que nada mais é que a tendência de buscar e enxergar apenas os indícios daquilo que nós — ou o nosso grupo — acreditamos ou preferimos acreditar. O viés de confirmação vai na completa contramão do método científico. Em Ciência, para alcançar uma conclusão, é preciso controlar o experimento, de maneira a descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. Em outras palavras, é preciso verificar e confirmar que a causa do resultado obtido é mesmo aquela que observamos, que eventualmente já havíamos pressuposto, garantindo que este resultado não é decorrente de outro agente que não estaria sendo considerado. Um resultado obtido em um estudo controlado deve então ser testado novamente, por outros cientistas em outro local e momento — essa é uma maneira importante de verificar aquilo que foi concluído.

Robert De Niro no Tribeca Film Festival

Nada disso foi feito no estudo Wakefield. Por isso, em uma reavaliação publicada 12 anos depois, o The Lancet publicou uma retratação e reconheceu as diversas falhas no estudo. Andrew teve sua conduta sentenciada como “antiética” pelo General Medical Council e sua licença médica  foi revogada, por sua falha em revelar conflitos financeiros de interesses e violações de ética. E o documentário Vaxxed, dirigido pelo próprio Andrew, foi banido do Tribeca Film Festival em 2015. “Minha intenção ao exibir este filme seria dar oportunidade para conversar sobre um assunto que é profundamente pessoal para mim e minha família”, disse o ator e fundador do festival, Robert De Niro, que aproveitou o assunto para revelar que seu filho sofre de autismo. “Mas, depois de revê-lo nos últimos dias, com a equipe do Festival de Cinema de Tribeca e membros da comunidade científica, não acreditamos que isso contribua ou amplie a discussão que eu esperava.”

O Dr. William Schaffner, professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt, é possivelmente um dos motivadores da retirada de Vaxxed do catálogo do Tribeca Film Festival. “Toda a diretoria do festival e o Sr. De Niro aprenderam muito nos últimos dias. Tiro meu chapéu para eles por terem escutado e pensado sobre isso, discutindo e respondendo.” Mas Schaffner também disse que é alarmante o fato de um filme repleto de ideias totalmente refutadas chegar tão perto de uma exibição tão prestigiosa. Como é possível que uma conclusão mergulhada em viés de confirmação chame tanta atenção e até seja considerada como plausível?

Minha teoria, pessoal, é que isso é natural, em tempos em que o viés de confirmação faz parte do nosso dia a dia. O melhor exemplo está nas redes sociais, com as amizades que se encerram e grupos que se fecham a cada postagem de conteúdos que refletem opiniões divergentes. O resultado é um conjunto de pessoas que compartilha entre si informações que corroboram sempre com a opinião que já é uníssono entre aquele grupo. Os de esquerda sempre postarão conteúdos de esquerda, lidos e comentados por pessoas de esquerda. Os conservadores de direita, os “coxinhas”, a mesma coisa — provavelmente também falando mal dos pensamentos de esquerda. Os vegetarianos postarão sobre os benefícios da dieta sem carne e receberão likes de outros vegetarianos. Os místicos falarão sobre as últimas da física quântica. E assim por diante.

Para piorar, adicione ao viés de confirmação a epidemia de fake news, notícias falsas propagadas pelos algoritmos do Google e Facebook, sem qualquer discernimento de controle e verificação da sua veracidade. Nos dias de hoje, é fácil fabricar fatos e conclusões. Talvez, por isso, a descrença nas vacinas ainda continue. “Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta”, escrevia uma reportagem da National Geographic, de abril de 2015. “Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

O artigo também lembra que foi seguindo este raciocínio que, no filme Interestelar, a Nasa do futuro é mostrada como uma organização obrigada a trabalhar na clandestinidade: ninguém nem sabe que ela existe. O mundo passou a ser um lugar reinado pelas crenças leigas, incrédulas do conhecimento científico, incluindo total descrédito, por exemplo, pela viagem do homem à Lua. É oculta no subsolo que a Nasa modifica geneticamente as plantas para que resistam às pragas cada vez mais combativas, que aniquilam nossas últimas fontes de alimento, e constrói foguetes para nos levar, longe da morredoura Terra, para algum lugar habitável no espaço.

Mas não é fácil subir até as estrelas. Antes, é preciso vencer a gravidade, a força que gruda nossos pés no chão e que, como consequência, nos impede de perceber o mundo tal como ele é de verdade: uma esfera. Por milhares de anos, nosso planeta foi tido como plano, e não esférico. Contava-se histórias de que monstros marinhos habitavam nas beiradas do desconhecido e engoliam os desbravadores que ousassem chegar até lá. Aparentemente, foi só com a experiência do navegador português Fernão de Magalhães, que fez a primeira viagem de circum-navegação ao globo de que se tem notícia, entre 1519 e 1522, que a teoria de um mundo plano foi por água abaixo. O medo dos monstros que habitariam na linha do horizonte mostrou-se imaginário, e não real. (A primeira observação direta de que a Terra é redonda só viria muito depois, com o astronauta russo Yuri Gagarin, que em 12 de abril de 1961 foi o primeiro homem a ir para o espaço e dizer: “A Terra é azul”.)

Surpreendentemente, apesar de tantas observações documentadas ao longo da história, o negacionismo da terra esférica ainda é uma tendência real — e, talvez, uma das melhores soluções tenha sido dada por um usuário da plataforma Reddit: “Como terminamos o debate da Terra Plana de uma vez por todas? Vamos fazer um reality show, no qual os competidores que acreditam na Terra Plana sejam enviados em uma expedição para tentar descobrir a borda do mundo!” Afinal, não há nada de errado em experimentar e tirar suas próprias conclusões, certo?

Quem sabe, uma das melhores citações a esse respeito vem de um texto que circula pelas redes sociais, por acaso, uma fake news, falsamente atribuído a Buda: “Não acredite simplesmente porque você escutou. Não acredite simplesmente porque está escrito. Não acredite meramente nas autoridade, professores e anciãos. Não acredite nas tradições só porque elas foram transmitidas ao longo de muitas gerações. Mas acredite depois de observar e analisar. Quando encontrar algo com que concorda com razão e é favorável ao bem e ao benefício de todos, então, aceite-o e viva de acordo com isso.”

Mas quão longe podemos ir com essa desconfiança? Será que podemos testar e experimentar tudo e, então, tirar nossas próprias conclusões? “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o médico infectologista Dr. Esper Kallás. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

Isso quer dizer que assuntos como este não deveriam nunca ser questionados? “Todo mundo deveria questionar”, opina Marcia McNutt, editora da revista Science, em entrevista à National Geographic. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Afinal, existem questionamentos que são sabidamente irredutíveis. “A evolução aconteceu mesmo. O clima está mudando. As vacinas salvam vidas. Faz diferença ter razão — e a tribo dos cientistas tem um alentado histórico de ter, afinal, entendido o que estava ocorrendo.”

E é importante acrescentar e lembrar: os cientistas não são a imprensa. No caso da vacinação, por exemplo, alguns veículos de imprensa noticiaram mal que a queda na cobertura da vacinação traz o risco de doenças erradicadas voltarem a fazer vítimas. O fato é que doenças erradicadas por vacinação nunca antes voltaram a atacar. “Veja o exemplo de doenças preveníveis  com vacinação. Só há dois exemplos de sucesso na erradicação de doenças: varíola e pólio 2 e 3”, comentou comigo o Dr. Esper. A poliomielite que voltou a assolar o planeta não é nenhuma dessas: trata-se da pólio do tipo 1, que tem prevalecido em áreas de conflito, como Síria, Nigéria e Paquistão. O sarampo, por sua vez, está de volta no Brasil, é verdade, graças à falta de vacinação; entretanto esta era uma doença considerada quase erradicada, ainda não totalmente erradicada.

Ainda assim, o sucesso das vacinas na prevenção de doenças é incontestável. “O sarampo mata aproximadamente 40 mil crianças ao ano. Se não existisse a vacina, seriam de 6 a 13 milhões!”, lembrou o Dr. Esper. “Além disso há um importante componente social: não se vacina apenas para si, mas pelo coletivo. Exceto aqueles com contraindicações formais, todos devem ser vacinados. Ao não se vacinar, prejudica-se a imunidade de toda uma população.”

Por tudo isso, sou a favor das vacinas. E que venha também a vacina contra o HIV.

A Abivax, uma empresa de biotecnologia que pesquisa o sistema imunológico para desenvolver uma cura funcional para o HIV e outros tratamentos para doenças inflamatórias, autoimunes e câncer, anunciou agora, em 3 de julho de 2018, os resultados da segunda coorte do estudo ABX464-005, em fase 2A, sobre infecção pelo HIV.

O estudo ABX464-005 visa estudar os efeitos do ABX464 no DNA do HIV, bem como seu reservatório viral no organismo humano, no sangue e no tecido retal em pacientes com HIV e carga viral indetectável. O estudo foi realizado no Hospital Universitário Germans Trias i Pujol em Badalona, Barcelona, ​​Espanha. Nessa primeira coorte, nove pacientes foram tratados com 150mg de ABX464 por dia ao longo de 28 dias. Oito dos nove pacientes mostraram uma diminuição do DNA do HIV entre o dia 0 e o 28º dia nas células T CD4 do sangue periférico (até 52%).

Na segunda coorte, uma dose de 50mg por dia foi administrada ao longo de três meses em doze pacientes, a fim de avaliar o potencial desta dosagem em reduzir o reservatório de HIV no sangue e nos tecidos. A partir dos dados disponíveis da 12ª semana, a qual oito pacientes completaram a duração total do estudo nesta fase, quatro pacientes mostraram uma redução no DNA total do HIV nas células T CD4 do sangue periférico, variando de 2% a 85%, enquanto os outros quatro pacientes tiveram um aumento no DNA do HIV, de 5% a 36%.

Também foram coletados dados a partir de biópsias do tecido retal. Especificamente, nas células T CD45 do tecido retal, quatro pacientes tiveram uma redução no DNA do HIV, de 16% para 71%, e quatro pacientes tiveram um aumento no DNA do HIV, de 14% para 123%. Dados completos desta coorte serão submetidos às próximas conferências científicas.

“Estas descobertas mostram, pela primeira vez, que o ABX464 tem a capacidade de reduzir o DNA do HIV em reservatórios de sangue e tecido retal”, disse o Dr. Jean-Marc Steens, Diretor Médico da ABIVAX. “A duração mais longa de 12 semanas de tratamento com ABX464 foi segura e geralmente bem tolerada e suporta a dosagem prolongada.”

“Os dados da segunda coorte de pacientes no estudo ABX464-005 são importantes e encorajadores”, disse Ian McGowan, professor de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh e presidente do Conselho Científico da ABIVAX. “Os resultados do estudo demonstram que alguns pacientes infectados pelo HIV que receberam 50mg de ABX464 tiveram uma queda relevante no reservatório de DNA do HIV. Estudos futuros identificarão as características dos pacientes com maior probabilidade de se beneficiar do ABX464 em diferentes regimes posológicos, isoladamente ou em combinação com outras estratégias de cura do HIV.”

Hartmut Ehrlich, CEO da ABIVAX, comentou: “É gratificante ver a justificativa científica para a ABX464 se traduzir nesses dados, que apoiam os planos da Empresa para estudos da Fase 2b, trazendo-nos um passo para o avanço da terapia do HIV”. Espera-se que mais dados estejam disponíveis em meados do próximo semestre.

A ABX464 é uma molécula desenvolvida para induzir a cura funcional em pacientes com HIV. Ela inibe a replicação do HIV através de um mecanismo de ação inteiramente novo, possivelmente capaz de reduzir ou eliminar os reservatórios virais e, assim, potencialmente, proporcionar uma redução duradoura na carga viral em pacientes com HIV.

A ABX464 inibe a biogênese do RNA viral, necessário para a replicação do HIV — um mecanismo de ação ainda não explorado. Ao ligar-se em um ponto do vírus que codifica três proteínas estruturais do vírus, a ABX464 inibe a atividade de Rev, uma proteína chave do HIV, e, assim, inibe a replicação do HIV.

O mecanismo que induz ao controle de longo prazo do vírus peloa ABX464 ainda está sendo estudado. A hipótese atual é que a indução feita pela ABX464 gera pequenos fragmentos aberrantes de RNA do HIV, que são então traduzidos em pequenos peptídeos. Esses peptídeos, uma vez depositados na superfície externa das células imunes, “marcam” essas células com o antígeno do HIV e, assim, desencadeiam uma resposta imune que pode resultar na eliminação dessas células.

A discriminação relacionada ao HIV refere-se ao tratamento desigual, por ação ou omissão, contra uma pessoa com base em sua sorologia positiva para o HIV, bem como em virtude de preconceitos e estigmas relacionados ao vírus. Discriminações relacionadas ao HIV normalmente baseiam-se em atitudes e crenças estigmatizantes em relação a comportamentos, grupos, sexo, doenças e morte. Por exemplo:

  • quando o empregador exige testagem de HIV para ingresso no trabalho, seja no setor público ou privado;
  • quando as pessoas que vivem com HIV ou aids são pressionadas a revelar sua condição sorológica a terceiros, ou têm essa condição divulgada sem o seu consentimento;
  • quando há recusa ou atraso proposital no atendimento por serviços públicos ou privados a pessoas que vivem com HIV ou aids;
  • quando é proibido o ingresso, matrícula ou admissão em escolas, creches, eventos culturais, centros esportivos e cursos em razão da sorologia, entre outros;
  • toda e qualquer situação na qual a pessoa que vive com HIV ou aids recebe um tratamento inferior, degradante, desqualificado ou aquém daquele oferecido à generalidade das pessoas.

É para proteger as pessoas que vivem com HIV de atitudes discriminatórias como estas que foi sancionada, em 2002, no Estado de São Paulo, a Lei Estadual nº 11.199/02 e, no âmbito federal, a Lei nº 12.984, em 02 de junho de 2014, que criminaliza a discriminação contra pessoas vivendo com HIV ou aids.

P ara buscar a proteção dessa lei, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, no Brasil, publicou uma cartilha com orientações para ajudar quem foi discriminado.

A primeira orientação é procurar uma delegacia de polícia mais próxima do local em que ocorreram os fatos, indicando, na ocasião, todas as testemunhas que presenciaram o ocorrido, bem como todas as provas interessantes à apuração — incluindo, por exemplo, capturas de dela de aparelhos eletrônicos digitais (prints) quando se tratar de discriminação no ambiente virtual. Na delegacia, será registrado um Boletim de Ocorrência e você deverá receber uma cópia dele.

Além disso, você também poderá entrar em contato com o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, por telefone ou email, onde será realizado um atendimento multidisciplinar (jurídico, psicológico e social), individualizado e sigiloso, com análise da denúncia trazida e discussão sobre os possíveis encaminhamentos jurídicos, inclusive no que diz respeito à Lei 11.199/02. Não é necessário morar na cidade de São Paulo para poder entrar em contato com o Núcleo Especializa do de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial, via telefone ou email: qualquer Unidade da Defensoria Pública do Estado de São Paulo também pode receber a sua denúncia.

Onde denunciar?

Em São Paulo:

NÚCLEO ESPECIALIZADO DE DEFESA DA DIVERSIDADE E DA IGUALDADE RACIAL
Rua Boa Vista, 103, 1º andar – Centro
com atendimento de segunda a sexta, das 9h às 17h.
Telefone: (11) 3101-0155 R: 137
E-mail: nucleo.discriminacao@defensoria.sp.gov.br
www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/discriminacao

GRUPO DE INCENTIVO À VIDA
Rua Capitão Cavalcante, 145 – Vila Mariana
com atendimento de segunda a sexta, das 14h às 22h.
Telefone: (11) 5084-0255
E-mail: giv@giv.org.br
www.giv.org.br

CENTRO DE REFERÊNCIA E TREINAMENTO DST/AIDS-SP
Rua Santa Cruz, 81 – Vila Mariana – SP
Tel: (11) 5087-9911
E-mail: contato@crt.saude.sp.gov.br

DELEGACIA DE CRIMES RACIAIS E DELITOS DE INTOLERÂNCIA (DECRADI)
Rua Brigadeiro Tobias, 527, 3º andar – Luz – SP
Tel: (11) 3311-3557 / 3311-3558

REDES DE PESSOAS VIVENDO COM HIV E AIDS NO BRASIL
REDE NACIONAL DE PESSOAS VIVENDO COM HIV E AIDS
www.rnpvha.org.br

REDE NACIONAL DE ADOLESCENTES E JOVENS VIVENDO COM HIV/AIDS
www.jovenspositivos.org.br

MOVIMENTO NACIONAL DE CIDADÃS POSITIVAS
www.facebook.com/cidadasposithivas

Um canal de televisão argentino teve este anúncio contra a homofobia vetado na Copa do Mundo da Rússia’18. A rede TycSports teve a ideia de se concentrar num assunto um tanto quanto polêmico na Rússia: o fato do país de Putin não admitir manifestações de afeto e amor entre homens. Uma legislação que condena qualquer pessoa que promova ou promova a homossexualidade diante de menores de idade foi aprovada em junho de 2013. O descumprimento é punível com multas e sentenças de prisão.

O anúncio não agradou o governo russo, que enviou uma queixa formal ao TycSports, por meio de uma carta apresentada na embaixada da Rússia em Buenos Aires. “Uma produção de qualidade duvidosa e mensagem confusa”, dizia a carta, acrescentando que o canal usou de maneira não autorizada a imagem de Vladimir Putin, com interesses comerciais. Diante da pressão recebida, o canal retirou o anúncio do ar — depois dele já ter viralizado na internet.

Uma equipe de pesquisadores de Hong Kong afirma ter desenvolvido e testado em camundongos um novo anticorpo contra o HIV, que pode ser usado na prevenção ou em tratamento, oferecendo a “cura funcional”.

A descoberta, publicada no Journal of Clinical Investigation, ocorre no momento em que a China enfrenta uma epidemia crescente entre grupos de alta prevalência de HIV, como profissionais do sexo e homens que fazem sexo com homens. Cerca de 850.000 pessoas na China vivem com HIV.

A descoberta vem da equipe liderada pelo professor Chen Zhiwei, do Instituto de Aids da Universidade de Hong Kong. Sua descoberta, testada em camundongos, mostra que o novo anticorpo pode ajudar a controlar o vírus e eliminar as células infectadas. O anticorpo seria capaz de tratar todas as variedades de HIV. “Nosso anticorpo específico, recém-descoberto, funciona para todas as cepas”, disse Chen à Reuters.

Chen explicou que uma “cura funcional” significa que o nível do vírus seria tão baixo a ponto de ser indetectável no corpo, contanto que os pacientes continuem tomando injeções do anticorpo, talvez trimestralmente, ou com menor frequência. O novo anticorpo teria uma meia-vida significativamente mais longa do que os tratamentos atuais e poderia, por exemplo, ser administrado trimestralmente. Chen e sua equipe dizem que pretendem levar o anticorpo para testes clínicos em humanos dentro de três a cinco anos.

Andrew Chidgey, executivo-chefe do grupo Aids Concern em Hong Kong, lembra que resultados promissores não significam que o novo tratamento estaria prontamente disponível em breve.

Há cinquenta anos, um jovem negro de 15 anos chegou assustado ao hospital de St. Louis, cidade que fica no estado americano do Missouri. Ele sofria sintomas incomuns, que intrigaram os médicos. Suas pernas estavam inchadas e, em seguida, seu corpo inteiro. Nenhum tratamento parecia funcionar, nem mesmo sete semanas de antibióticos.

Robert Rayford ( * 3 de fevereiro de 1953 † 15 de maio de 1969 )

Ao longo de seis meses seu estado de saúde continuou a se deteriorar, até que, em maio de 1969, o tímido adolescente perdeu a vida para uma doença que confundia toda a equipe médica. Seu nome era Robert Rayford e ele é a primeira pessoa de que se tem notícia a morrer em decorrência do HIV nos Estados Unidos.

Sua morte se deu apenas um mês antes da Rebelião de Stonewall, em junho de 1969, que começou no bar LGBT Stonewall Inn, em Nova York. Os frequentadores do bar eram principalmente adolescentes periféricos do Queens, Long Island e New Jersey, incluindo jovens drag queens e sem-teto que ocupavam casas abandonadas no Lower East Side — provavelmente, no espírito dos bares retratados no premiado documentário Paris Is Burning (1990), disponível no Netflix. Foi nesse bar que uma batida policial foi iniciada na noite de 27 de junho, seguindo ordens da State Liquor Authority, autoridade responsável pelas licenças para venda de álcool na cidade e que, recentemente, proibira a venda de bebidas alcoólicas em bares que atendiam clientes abertamente homossexuais.

Do outro lado da rua, uma multidão de aproximadamente cem pessoas assistia à polícia fichar e prender os funcionários e clientes do bar. Antes de serem presos, os jovens sorriam e acenavam para a multidão. Irritados pela irônica reação, os policiais começaram a empurrá-los violentamente com seus cassetetes. A multidão começou a gritar para que a polícia parasse; e os oficiais responderam, dizendo-lhes para saírem da rua. Alguém começou a lançar pedras e a balançar o camburão da polícia. Da parte de trás da multidão, latas de cerveja e garrafas voaram pelo ar. Depois, detritos de rua, o que fez com que os oficiais recuassem para dentro do bar, trancando as portas, encurralados pela multidão.

Multidão revoltada enfrenta a polícia em frente ao bar Stonewall.

Pedras voavam. Um jornal em chamas atravessou a janela quebrada do bar, iniciando um pequeno incêndio. Dentro do bar, os policiais se salvaram graças à uma mangueira de incêndio, a qual eles passaram a usar para jogar água contra a multidão. Foram seis dias de confronto. E o resto virou história.

Vários anos mais passaram antes que bares abertamente gay fossem licenciados, como o Ballroom em West Broadway e o Reno Sweeney na West 13th Street. Foram-se ainda mais alguns anos até que figuras políticas de Nova York se posicionassem a favor de leis antidiscriminação. Tudo isso, marcado pela Revolta de Stonewall: o momento da virada do movimento pelos direitos homossexuais nos Estados Unidos e, possivelmente, em todo o mundo. Por isso, 28 de junho, a data da Revolta de Stonewall, é considerada o Dia do Orgulho LGBT.

Jovem sendo preso pela polícia durante a Revolta de Stonewall.

Naquela época, ninguém sabia ainda o que era o HIV — doze anos se passariam antes que os Centros para Controle e Prevenção de Doenças americano, o CDC, reportassem sobre uma misteriosa pneumonia e imunodeficiência que afligia “cinco homens jovens homossexuais”. As mortes decorrentes mesma misteriosa doença começaram a aumentar a partir de 1981, mas o HIV não foi identificado pelos cientistas até 1984.

Gaëtan Dugas, o “Paciente Zero”.

Foi somente em 1987 que o HIV foi encontrado nas amostras de tecido de Rayford. Mesmo assim, poucos notaram sua história. Ao invés disso, a origem da epidemia de HIV e aids foi atribuída a Gaëtan Dugas, um comissário de bordo canadense, branco, responsabilizado por disseminar o HIV por todo o continente norte-americano e apelidado, à época, pelo CDC e pela imprensa, como o “Paciente Zero”. Isso se deu depois de uma extensa busca das autoridades médicas, a partir de informações das ligações sexuais entre homens gays e bissexuais na Califórnia, Nova York e alguns outros estados. Dugas era o marco zero entre vários parceiros.

Capa do New York Post em 6 de outubro de 1987.

Em 1987, uma matéria do New York Post que tinha como manchete “O homem que nos trouxe a aids” contou sua história: a cada cidade em que pousava, o comissário aproveitava para transar com quantos homens pudesse, mesmo ciente de que sua condição pudesse ser transmissível a outras pessoas. Depois de fazer sexo, conta-se que era comum que Dugas apontasse para as lesões em sua pele, provavelmente oriundas de Sarcoma de Kaposi e outras manifestações de doenças oportunistas típicas da aids, e então dissesse para seus parceiros: “agora você também tem!”

Tudo isso é contado em detalhes no livro And the Band Played On, do jornalista Randy Shilts, publicado também em 1987, o qual fala do conturbado início da epidemia, retratando Dugas como um sociopata promíscuo que espalhou o vírus pelo país. Logo após terminar de escrevê-lo, Shilts foi diagnosticado positivo para o HIV. Em agosto de 1993, o livro virou filme, ao qual o jornalista assistiu pouco antes de sua morte, aos 42 anos, em decorrência de uma pneumonia. Nesse sentido, Shilts foi vítima de Dugas.

Gaëtan Dugas.

Acontece que atribuir a responsabilidade pela origem da epidemia ao comissário de bordo canadense é impreciso e incorreto. Dugas não foi o primeiro infectado e a história de Robert Rayford é prova disso.

Quando o caso de Rayford foi identificado, uma narrativa diferente sobre quem estava morrendo de HIV já estava em curso: ao que parece, concentrava-se em homens gays brancos. O relatório de 1981 do CDC trazia a informação genérica dos cinco jovens gays com pneumonia, sem indicar a sua etnia — algo que, à época, nos Estados Unidos, seria um indicativo de que todos eles eram brancos. Dois outros casos, um afro-americano homossexual e um haitiano heterossexual, não foram sequer mencionados pelo CDC. Michael Gottlieb, médico responsável pelo relatório, disse ao New York Times: “Até recentemente, eu não teria pensado que isso tinha importância”.

Reconhecer apenas Dugas negligencia a trágica experiência de Rayford e o fato de que ele não é a única pessoa negra a perder a vida para o HIV. Ao invés disso, ele foi a primeira vítima documentada daquilo que se tornaria uma tendência na epidemia de HIV: o impacto devastador e desproporcional do HIV sobre as comunidades negras. Desde que o vírus foi descoberto, negros representam 43% das mortes por HIV nos Estados Unidos. Homens negros gays e bissexuais representaram 26% de todas as novas infecções por HIV em 2016, apesar de representarem menos de 2% da população total dos Estados Unidos. Dentre 1,1 milhão de americanos que vivem com o HIV hoje, quase 475.000 deles são negros e quase 150.000 deles são homens negros gays e bissexuais.

No Brasil não é tão diferente. De acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, a epidemia de HIV afeta desproporcionalmente a população afrodescendente do País. Dados do Boletim Epidemiológico de 2016 do Ministério da Saúde mostram que, entre os casos de infecção por HIV registrados de 2007 a 2015, 44% são entre brancos e 54,8% são entre negros e pardos. A diferença ainda é maior entre mulheres: 39,2% dos casos são entre brancas e 59,6% entre negras e pardas. Em 2015, a maior proporção dos falecimentos ocorreu entre pardos (44,2%), seguidos por brancos (41,4%) e negros (14%), o que significa que a população negra representou um total de 58,2% desses óbitos. Na cidade de São Paulo, também em 2015, enquanto a taxa de mortalidade por causas relacionadas à aids entre brancos foi de 5,4 por 100 mil habitantes, entre negros foi de 10,9 por 10 mil habitantes.

Gaëtan Dugas nunca teve a chance de se defender das acusações feitas contra si. Ele morreu antes disso, em março de 1984, em decorrência de complicações da aids. Foi só a dois anos atrás que sua história foi reescrita, quando Michael Denneny, editor do livro And the Band Played On, confessou que o perfil do personagem de Dugas foi propositalmente deturpado: “Nós nos rebaixamos ao sensacionalismo. Meu agente disse: ‘Sexo, morte, glamour e — o melhor de tudo — ele é um estrangeiro!’ Essa foi a única maneira que encontramos para chamar a atenção.”

A alegação de que Dugas foi a primeira pessoa a trazer o HIV para os Estados Unidos foi refutada por pesquisadores em novembro de 2016, por meio de testes genéticos. Ele nunca foi de fato o primeiro portador do vírus, mas apenas um dos primeiros a receber o diagnóstico. Além disso, nenhuma das atitudes e decisões de seu personagem descritas no livro de Randy Shilts podem ser confirmadas. O próprio autor do livro, que virou best seller, teria inicialmente relutado em desenhar o perfil de vilão para Dugas. Ele teria cedido depois de muita insistência de seu editor. Talvez, sua confissão tenha vindo cifrada, numa declaração feita antes de sua morte: “O HIV me fez ver todas as coisas superficiais às quais nos apegamos, como ego e vaidade.” — Enquanto isso, a história de Rayford foi mantida em silêncio.

Campanha da organização ActUp: “Silêncio = Morte”

O HIV não veio de Dugas e nem de Rayford. Uma equipe internacional de cientistas, liderada pelas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Leuven, na Bélgica, reconstruiu a história da pandemia de HIV por meio de registros históricos e amostras de DNA do vírus, os quais remontam ao final dos anos 1950. O DNA permitiu a elaboração de uma árvore genealógica do vírus, que traçou sua ascendência através do tempo e do espaço. Usando modelos estatísticos, cientistas voltaram ainda mais para trás no tempo e, finalmente, localizaram a origem da pandemia: no ano de 1920, em Kinshasa.

Foi ali, na capital do que é hoje a República Democrática do Congo, onde tudo começou. Embora o vírus provavelmente tenha cruzado de chimpanzés para os seres humanos em anos anteriores, na região do sul de Camarões, o HIV manteve-se uma infecção regional até entrar em Kinshasa.

Mapa da República Democrática do Congo.

Quando o vírus surgiu, esta era uma cidade agitada. Foi o maior e mais rápido crescimento de uma cidade na região, com ligações de transporte atingindo todo o país. O movimentado Rio Congo levava pessoas a mais de 600 quilômetros de distância. A ferrovia trazia dezenas de trabalhadores ao sudeste de Katanga, província de mineração que depende de trabalho imigrante, e para Lubumbashi, a mais de 900 quilômetros.

A partir dos anos 1920 até 1960, a cepa pandêmica do HIV — outras cepas anteriores fracassaram  se propagou de Kinshasa, atravessou fronteiras para outros países e, então, desembarcou em outros continentes, infectando quase 75 milhões de pessoas em todo o mundo. Dentre elas, você, eu, Dugas e Rayford, vítimas do HIV.

Em São Paulo, homens que fazem sexo com homens (HSH), com 18 anos de idade ou mais, podem agora participar do estudo A Hora é Agora, para avaliar a logística de distribuição do autoteste para HIV.

O autoteste é um novo teste de triagem para HIV. Esse teste é feito e interpretado de maneira simples e rápida, pela própria pessoa, na hora e lugar em que desejar, sem a necessidade de um laboratório e nem da presença um profissional da saúde. Um dos objetivos da implementação do autoteste é ampliar significativamente a cobertura de testagem para o HIV, principalmente em populações que não têm acesso à testagem convencional.

O autoteste detecta anticorpos contra o HIV presentes em secreções da boca, o chamado fluido oral. Esses anticorpos geralmente passam a ser detectados entre 25 a 30 dias após a infecção pelo HIV, a chamada janela imunológica — isso significa que, antes deste período, algumas pessoas podem estar infectadas pelo HIV e ter o resultado do autoteste não reagente ou negativo. O médico infectologista Ricardo Vasconcelos explica que “a bula do autoteste indica uma janela imunológica de 30 dias, com raros casos de alguns indivíduos que podem levar até 90 dias para positivar o autoteste”. Depois desse período, o autoteste é bastante eficiente na identificação de pessoas que vivem com HIV. para terem anticorpos detectáveis.

Nesse estudo, serão distribuídos kits de autotestagem para homens que fazem sexo com outros homens, residentes de São Paulo e com 18 anos ou mais. Para participar do estudo, acesse www.ahoraeagora.org e responda a algumas perguntas. Após finalizar o preenchimento do questionário, você deverá escolher o local de retirada do seu kit, que já inclui o autoteste. Após a retirada do kit, você poderá então realizar o autoteste quando e onde preferir. Depois de realizar o teste, você deverá informar a conclusão no site e, assim, receber as orientações correspondentes a cada um dos possíveis resultados — positivo, negativo ou inconclusivo.

Quero fazer o autoteste para HIV!

Se o resultado do seu autoteste for não reagente ou negativo, a sua participação no estudo será considerada encerrada. Caso seu resultado seja reagente ou positivo no autoteste, você deverá comparecer a um dos serviços de saúde indicados para realizar um teste confirmatório, o qual é feito com algumas gotas de sangue coletados por punção no seu dedo. Somente se o teste confirmatório resultar reagente ou positivo estará confirmada a infecção pelo HIV e, nesse caso, a indicação de acompanhamento clínico adequado, oferecido gratuitamente pelo SUS.

Nessa pesquisa está garantido o seu direito de confidencialidade. As informações que você vier a fornecer aos pesquisadores serão analisadas em conjunto com as de outros pacientes, não sendo divulgada a identificação de nenhum deles. Você ainda pode recusar-se, a qualquer momento, a participar do estudo, sem prejuízo. A participação do estudo não inclui qualquer compensação financeira.