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Venezuela sem antirretrovirais

A ANAIDS – Articulação Nacional de Luta contra a Aids, manifesta o seu apoio aos cidadãos e às cidadãs da Venezuela em virtude da crise humanitária que esse país vem passando e pede ao governo medidas para o acolhimento dessas pessoas.

A carta foi dirigida às instituições listadas abaixo:

UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids;
OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde;
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados;
GNP+ Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV/Aids;
Ministério da Saúde do Brasil – Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais; e
Governo de Roraima.


 

Prezados Senhores e Senhoras,

A ANAIDS, Articulação Nacional de Luta Contra a Aids, colegiado que reúne os Fóruns de ONGs/AIDS dos Estados do Brasil, Redes e Movimentos de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, está extremamente preocupada com a situação da República da Venezuela, notadamente no que se refere ao acesso à saúde e em especial à assistência e prevenção do HIV/Aids.

Além das notícias publicadas cotidianamente, chama-nos a atenção a quantidade de refugiados venezuelanos que cruzam a fronteira, em especial no estado de Roraima, demonstrando a grave situação que atravessam os venezuelanos em geral, pressionando o sistema de saúde, assistência social, e de educação das cidades brasileiras da Região Norte.

Por tratar-se de uma crise sabidamente humanitária precisamos dedicar maior seriedade, já que as demandas do capital têm produzido pobreza, doença e miséria não apenas na Venezuela mais em todo o mundo. Os refugiados são pessoas que estão migrando para o Brasil, não por desejo próprio, mas sim em função de diversos e complexos motivos ligados a questões de crise política e econômica em seu País.

Sendo este, um fato já de conhecimento global, cabe a nós a preocupação em especial sobre a interrupção dos tratamentos com antirretrovirais junto à população soropositiva. O cessar desta política acarretará uma rápida deterioração da saúde das pessoas que dela necessitam. Estima-se atualmente haver mais de 80.000 pessoas vivendo com HIV/aids (PVHAs) na Venezuela, o que nos remete a entender que a situação das PVHAs, não se trata de uma questão isolada, mas está diretamente introduzida num quadro de enfraquecimento geral da saúde pública no País, onde 80% desta população não estão sendo tratadas, o que coloca o país entre os piores do mundo para soropositivos.

Diante do exposto acima, solicitamos ao Poder Executivo do Brasil e aos governos dos Estados brasileiros, em especial o de Roraima, que façam todos os esforços possíveis para acolher estes refugiados e prover suas necessidades, incluindo as de saúde, já que a maior parte das famílias recém-chegadas estão vivendo em situações precárias, compreendendo questões relacionadas à segurança física, falta de documentação, violência sexual e de gênero, exploração de trabalho, abusos de autoridade, falta de moradia, configurando por consequência, uma total inacessibilidade a direitos e serviços básicos de uma forma geral. É, neste sentido, que nos posicionamos e questionamos quais medidas e encaminhamentos o Brasil tem adotado acerca do assunto, garantindo respeito integral aos direitos humanos dos migrantes e seu pleno acesso aos serviços.

O povo brasileiro é acolhedor e formado por várias ondas históricas de imigrantes e certamente apoiará as iniciativas, com a certeza de que as medidas adotadas tenham caráter igualitário e não ameacem o direito da população brasileira no que tange ao acesso a serviços sociais e de saúde dos quais necessitam.

Por fim, ressaltamos que a ANAIDS coordena um movimento pautado pela solidariedade como premissa geral para combater o HIV/aids. As populações vulneráveis ao HIV/aids e as pessoas com HIV/aids sabem o que é sofrer estigma e discriminação. Não podemos permitir que à penosa situação que atravessam nossos vizinhos, devido a postura do Governo venezuelano em resposta as sanções econômicas capitaneadas pelos Norte-americanos, seja acrescentada a discriminação por procurar em outro país, o bem-estar que infelizmente não conseguem encontrar na sua nação.

Certos de que a crise venezuelana passa a ser desta maneira nossa também, colocamo-nos à disposição para colaborar no que estiver ao nosso alcance.

Assinam a carta:

Carla Diana e Carla Almeida
Secretaria Política

Georgina Machado e Fábio Dayan
Secretaria Executiva

Thania Arruda
Secretaria de Comunicação

 

ANAIDS – Articulação Nacional de Luta Contra a Aids
articulacao.nacional@gmail.com
(18) 98102-4787


Fonte: Gestos em 16 de fevereiro de 2018
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Temos nosso próprio tempo

Me lembro daquela música da banda Legião Urbana, que escutei tanto durante a adolescência, com um refrão que dizia: “temos nosso próprio tempo”. Talvez, tenhamos mesmo. Tempo Perdido é uma música que fala sobre as diferentes perspectivas de tempo, e do tempo que se perdeu. Desde o meu próprio diagnóstico, que se deu em 2010, me pergunto se Renato Russo, que faleceu em 1996 em decorrência de complicações relacionadas à aids, não teria composto essa música depois de seu próprio diagnóstico, ciente que o tempo com HIV poderia ser diferente — em seu caso, foi mais curto. Mas como estaria ele hoje se ainda estivesse vivo e vivendo com HIV?

Aparentemente, a maioria das más perspectivas que ainda recaem sobre a saúde de quem vive hoje com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, pesa sobre aqueles que foram diagnosticados há mais tempo, nos primeiros anos da epidemia e durante o advento dos primeiros antirretrovirais — os antigos antirretrovirais.

Um estudo canadense observou pessoas com HIV com mais de 50 anos e concluiu que elas são mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 se iniciaram o tratamento antirretroviral antes de 1999 ou se tiveram uma exposição mais longa aos medicamentos antirretrovirais mais antigos, como Estavudina (d4T) ou inibidores de protease de primeira geração, como Nelfinavir ou Indinavir. O diabetes tipo 2 é uma doença mais comum em pessoas obesas e se torna mais comum com a idade. Nesse estudo, o início do diabetes se mostrou muito menos provável em pessoas com idade igual ou superior a 50 anos que iniciaram o tratamento a partir de 2010, ou que iniciaram o tratamento com uma contagem de células CD4 mais elevada. Foram observadas 1065 pessoas com idade igual ou superior a 50 anos de idade ao longo de 13 anos —  89% eram homens, 83% eram brancos e com alta prevalência de coinfecção por hepatite C. Uma das conclusões prováveis é que o tratamento moderno contra HIV ofereça pouco risco de promover o desenvolvimento de diabetes em pessoas com HIV.

Um outro estudo, conduzido em Malawi, na África Oriental, encontrou níveis elevados de colesterol LDL e diabetes em pessoas que vivem com HIV e há muitos anos sob tratamento antirretroviral, especialmente em pessoas com mais de 60 anos, em comparação com seus pares soronegativos. O estudo recrutou 379 pessoas com HIV e 356 sem HIV. 73% eram mulheres. A maioria das pessoas fazia tratamento com Tenofovir, Lamivudina e Efavirenz, depois de terem iniciado o tratamento com Estavudina, Lamivudina e Nevirapina, ao longo de mais de 11 anos. A conclusão do estudo é que as pessoas com HIV com mais de 60 anos são muito mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 e a ter níveis elevados de colesterol LDL.

Mas quando se fala de envelhecimento e HIV não se fala apenas diabetes. Vários tipos de câncer são mais comuns em pessoas mais velhas que vivem com HIV, de acordo com relatório publicado na Clinical Infectious Diseases, nos Estados Unidos. Indivíduos soropositivos de 50 anos ou mais mostraram uma incidência significativamente maior de vários tipos de câncer, incluindo aqueles que não são normalmente considerados relacionados ao HIV. O risco de câncer de pulmão, anal, fígado e oral se mostrou maior à medida que as pessoas com HIV envelhecem.

Entretanto, estes mesmos pesquisadores descobriram que o envelhecimento em si não se comprovou responsável pelo maior aumento no risco de câncer nas pessoas com HIV, em comparação com a população em geral: a prevalência de fatores de risco, como tabagismo, consumo de álcool e infecções virais causadoras de câncer é que são responsáveis pelo aumento do risco de alguns tipos de câncer em pessoas idosas com HIV. De fato, fumar causa um em cada cinco tipos de câncer entre pessoas com HIV na América do Norte, de acordo com uma pesquisa publicada no jornal Aids. Por alguma razão, parece que o pulmão das pessoas fumantes que vivem com HIV  é mais susceptível ao câncer e outras complicações respiratórias do que das pessoas sem HIV: de acordo com pesquisadores franceses, a infecção pelo HIV está associada à obstrução das vias aéreas, incluindo enfisema.

Por sua vez, a prevalência de doenças vasculares cerebrais silenciosas — precursoras de condições neurocognitivas mais graves — é significativamente maior entre as pessoas soropositivas de meia idade, em comparação com a população em geral, de acordo com uma pesquisa francesa publicada na Clinical Infectious Diseases. Esse estudo incluiu 456 pessoas com HIV e 156 sem HIV, observadas entre 2013 e 2016. Aproximadamente dois terços da amostra soropositiva foram diagnosticados antes do advento do tratamento antirretroviral, em 1996. O número médio de células CD4 foi de 196 entre as pessoas com HIV e 665 células/mm³ entre as pessoas sem HIV.

Todas, complicações observadas mais comumente em pessoas que vivem com HIV há mais tempo e que passaram pelos primeiros antirretrovirais, tão tóxicos. Aos jovens soropositivos, ao que tudo indica, cada vez menos complicações a longo prazo. É como se experimentássemos a vida com o vírus de maneira diferente, em tempos diferentes. Perece mesmo que temos nossos próprios tempos.

Tratamento contra câncer de pulmão pode reduzir reservatório de HIV

Nivolumab, um medicamento para tratamento de câncer de pulmão, pode induzir o esgotamento do reservatório de HIV, de acordo com uma carta publicada nos Anais de Oncologia e noticiada no Infectious Disease Advisor.

A Dra. Amélie Guihot, do Hôpital Pitié Salpêtrière, em Paris, e colegas descreveram o caso de um fumante de 51 anos, que vive com HIV desde 1995 e que foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio IIIa em maio de 2015. Menos de seis meses após o término da quimioterapia, o paciente sofreu uma recaída e foi tratado com Nivolumab, como segunda linha de tratamento contra o câncer, em dezembro de 2016. Sua carga viral sanguínea do HIV já era indetectável, sob Emtricitabina, Tenofovir e Dolutegravir.

Os autores observaram então um aumento progressivo e modesto da carga viral do HIV, até 101 cópias/mL, no 45º dia, seguido de uma diminuição para 31 cópias/mL, no 120º dia. Também observaram um leve aumento na ativação das células T, entre o 14º e 15º dias, com diminuições foram observadas nas células T PD1 + CD4 e CD8 no 30º dia. Um aumento acentuado foi observado nas frequências de células T CD8 e RT, específicas contra o HIV, entro 0 30º ao 120º dias. Uma diminuição drástica e persistente foi então observada no DNA do HIV associado às células. “Este primeiro relatório de uma redução bem sucedida dos reservatórios de HIV e abre novas perspectivas terapêuticas para a cura do HIV”, escreveram os autores.

São Paulo tem tratamento inédito para prevenção do HIV

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo iniciou na semana passada a distribuição do medicamento Truvada no SUS (Sistema Único de Saúde). O item passa a ser fornecido como terapia pré-exposição (PrEP) para prevenção do HIV às pessoas com maior chance de exposição. A iniciativa prevê, nos dois meses iniciais, a oferta do Truvada a 1.110 pessoas em 14 serviços municipais e estaduais (confira abaixo), localizados nas cidades de São Paulo, São Bernardo, Campinas, Santos, Piracicaba, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.

Esses locais foram definidos em conjunto com o Ministério da Saúde, e a expectativa é que a medida seja ampliada gradativamente para demais localidades do Estado. O medicamento é indicado a homens que fazem sexo com homens, mulheres transexuais, travestis, profissionais do sexo que tenham tido relações sexuais sem uso de preservativo nos últimos seis meses e/ou episódios recorrentes de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e/ ou tenham usado repetidamente medicamentos de profilaxia pós-exposição (PEP).

Também poderão receber o remédio casais sorodiscordantes para o HIV (quando um parceiro tem o vírus e outro, não) que mantêm ou tenham tido relações sexuais sem uso de preservativos. Para recebimento, o interessado deve comparecer à unidade de referência de seu município e passar por avaliação para critérios de elegibilidade, incluindo a realização de teste/diagnóstico rápido de HIV. Caso o resultado do exame seja negativo, e o paciente se encaixe nos critérios estabelecidos para recebimento do tratamento, será indicado a receber a PrEP. Em caso de positividade, o paciente será encaminhado para tratamento e acompanhamento da infecção pelo HIV, como já prevê o fluxo da rede.

O Truvada é contraindicado para pessoas com doença renal, porém os locais de referência farão avaliações médicas em todos que procurarem pelo tratamento. O medicamento pode ter efeito colateral leve, como dores de cabeça, náuseas e inchaço. Aos pacientes que aderirem à terapia, é recomendado o uso de preservativo durante as relações sexuais, pois a PrEP não protege contra outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, o medicamento começa a fazer afeito a partir do sétimo dia para exposição por relação anal e a partir do vigésimo dia para exposição por relação vaginal.

Durante o tratamento, os usuários serão acompanhados pelo serviço de referência. Após o início do tratamento, haverá retorno num período de 30 dias e, depois, a cada três meses. A Secretaria desenvolve um trabalho permanente de conscientização, prevenção, diagnóstico e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, por meio do Programa Estadual DST/AIDS, com apoio dos municípios.

A distribuição do Truvada na rede pública de saúde é um novo passo do ponto de vista preventivo, mas é fundamental que as pessoas continuem utilizando preservativos para proteger a si mesmas e seus parceiros. Confira abaixo a relação de serviços que oferecem a PrEP.

Capital:

  • Centro de Referência e Treinamento DST/Aids.
  • Ambulatório de Infectologia da Unifesp
  • Casa da Aids
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) DST/Aids Butantã
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) Fidélis Ribeiro
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) Ceci
  • CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) Pirituba
  • CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) Santo Amaro

Outros municípios:

  • São Bernardo do Campo – Policlínica Centro
  • Santos – Serviço de Atenção Especializada-Adultos
  • Campinas – Centro de Referência em IST/Aids
  • Ribeirão Preto – Centro de Referência em Especialidades Central
  • Piracicaba – Centro de Doenças Infecto Contagiosas (CEDIC)
  • São José do Rio Preto – Ambulatório de Doenças Crônicas Transmissíveis

Fonte: Portal do Governo, em 22 de janeiro de 2018

Febre Amarela

Tive que atravessar um monte de pessoas no posto de saúde onde retiro meus medicamentos. A fila era longa e até já deixava de ser fila, com todos circundando o segurança para ouvi-lo falar.

“— A quota de hoje acabou!”, gritou ele.

“— Mas não era até às 18h?”, perguntou um homem.

“— Era, sim. Mas vocês têm que entender: a demanda tem sido muito alta. Hoje, as vacinas acabaram às 15:00h. Agora, só amanhã”, concluiu o segurança, impedindo a entrada das pessoas.

“— Eu vou na farmácia”, anunciei.

O segurança me deixou passar e indicou o caminho que eu já sabia seguir, em direção ao fundo, contornando o prédio, passando a porta à direita. Embora a fila na entrada do posto de saúde estivesse cheia de pessoas, na espera da farmácia não havia ninguém.

A febre amarela é uma doença hemorrágica viral grave transmitida por mosquitos. Não há tratamento antiviral. No entanto, existe uma vacina altamente eficaz, que começou a ser indicada, em outubro do ano passado, pelo Governo de São Paulo, em três bairros da zona norte da capital: Casa Verde, Tremembé e Vila Nova Cachoeirinha. Isso aconteceu depois que cinco macacos, que viviam na região do Horto Florestal, morreram infectados com febre amarela. Aquele pode ter sido o epicentro — ou um dos epicentros — de uma doença que acabou se espalhando por todo o Estado. Em um ano, foram confirmadas 21 mortes pela doença e, nessa terça-feira, dia 16 de janeiro de 2018, Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a considerar todo o estado de São Paulo como área de risco de febre amarela.

Com esse alerta da OMS, a vacina passa a ser recomendada para viajantes internacionais que venham a São Paulo — e também para os estados das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, bem como para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Maranhão, além de partes dos estados da região Sul, Bahia e Piauí. A vacinação deve ser feita ao menos dez dias antes da viagem. A decisão da OMS de classificar a cidade de São Paulo como área de risco não quer dizer que haja perigo de contágio na capital. Como as autoridades de outros países não podem saber para qual área de São Paulo cada viajante visitará, é praxe a OMS incluir todo o estado, mesmo em áreas em que não haja foco da doença — mesmo assim, a recomendação da OMS inclui a capital paulista.

A entidade aconselha também quem vai viajar para o Estado a adotar medidas para evitar picadas de mosquitos, com o uso de repelentes, por exemplo, e a estar atento aos sintomas da doença. As primeiras manifestações da doença são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar (até dois dias), quando podem ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), manifestações hemorrágicas e cansaço intenso. A maioria dos infectados se recupera bem e adquire imunização permanente contra a febre amarela.

Em resposta, ainda nessa terça-feira, dia 16, o Governo de São Paulo anunciou que a vacinação fracionada contra a febre amarela em 54 municípios do estado será antecipada para o dia 29 de janeiro. Anteriormente, o Governo havia anunciado que a aplicação das doses seria realizada a partir do dia 3 de fevereiro. Enquanto isso, o Ministério da Saúde anunciou uma campanha de vacinação, em conjunto com os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O objetivo é vacinar 19,7 milhões de pessoas de 76 municípios e evitar a circulação e expansão do vírus.

A febre amarela tem esse nome por conta da icterícia apresentada por alguns pacientes. O vírus da febre amarela é transmitido pela picada dos mosquitos transmissores infectados. A doença não é passada de pessoa a pessoa. A vacina é a principal ferramenta de prevenção e controle da doença. Existem dois diferentes ciclos epidemiológicos de transmissão: o silvestre e o urbano. Mas a doença tem as mesmas características sob o ponto de vista etiológico, clínico, imunológico e fisiopatológico.

No ciclo silvestre, os primatas não humanos (macacos) são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus e os vetores são mosquitos com hábitos estritamente silvestres, sendo os gêneros Haemagogus e Sabethes os mais importantes na América Latina. Nesse ciclo, o homem participa como um hospedeiro acidental ao adentrar áreas de mata. No ciclo urbano, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. A pessoa apresenta os sintomas iniciais 3 a 6 dias após ter sido infectada.

A última notícia do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde data de 23 de março de 2017. Ela afirma que, de acordo com a Nota Informativa nº 26, da Secretaria de Vigilância em Saúde, os adultos e adolescentes que vivem com HIV não têm restrições para se vacinar contra a febre amarela, desde que não apresentem imunodeficiência grave.

A Nota, que estabelece recomendações sobre a vacinação contra a febre amarela em pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA), recomenda também que a administração das vacinas em pacientes sintomáticos ou com imunodeficiência grave seja adiada até que a reconstituição imune seja obtida com uso da terapia antirretroviral. Para fins de vacinação, poderá ser utilizado o último exame de contagem de CD4, independentemente da data, desde que a carga viral atual (menos de seis meses) se mantenha indetectável.

Cientistas suíços dizem que a carga viral indetectável é um fator importante no momento dessa vacinação. Eles descobriram que todas as pessoas com uma carga viral indetectável no momento da primeira vacinação contra a febre amarela continuaram a ter uma resposta protetora dez anos após a vacinação.

Os cientistas observaram dados de pacientes da África subsaariana que vivem com HIV. No momento da vacinação, 82% deles estavam tomando terapia antirretroviral, 83% suprimiram carga viral menor que 400 cópias/ml e sua contagem mediana de células CD4  de 536 células/mm³. Os pesquisadores acreditam que suas descobertas têm implicações para as estratégias de vacinação.

“Pacientes infectados pelo HIV montam uma resposta imune protetora de longa data contra a febre amarela até pelo menos dez anos, se forem vacinados enquanto estiverem em terapia antirretroviral.” Eles continuam: “Até mais dados estejam disponíveis, um único reforço após dez anos parece ser adequado para estimular a resposta da vacina no caso de uma nova viagem a uma área endêmica de febre amarela.”

Os autores recomendam que os pacientes com HIV devem ser vacinados contra a febre amarela uma vez que sua carga viral for suprimida e que eles devem receber um reforço após dez anos tratamento antirretroviral supressivo. No entanto, os pacientes que foram vacinados enquanto a carga viral era detectável deveriam ter sua resposta imune à vacina medida ou receber uma vacinação de reforço, independentemente do tempo desde a primeira vacinação contra a febre amarela.

Para pessoas sem HIV, uma dose da vacina é suficiente para garantir imunidade e proteção ao longo da vida. Efeitos secundários graves são extremamente raros. Os viajantes com contraindicações para a vacina de febre amarela — crianças com menos de nove meses de idade, mulheres grávidas ou amamentando, pessoas com hipersensibilidade grave à proteína do ovo e imunodeficiência grave — ou com mais de 60 anos devem consultar seu profissional de saúde para a avaliação cuidadosa de risco-benefício. O mesmo vale para quem vive com HIV: se você tem dúvidas sobre a vacina da febre amarela para o seu caso, converse com seu infectologista.

120 Batimentos Por Minuto

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT.

O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e do público em vários países. 120 Batimentos Por Minuto estreia hoje, 4 de janeiro de 2018.

“Eu amei esse filme. Não tem como eu ama-lo mais. Eu me emocionei do início ao fim. Campillo contou uma história sobre heróis, que salvaram muitas vidas”, disse emocionado o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes.

Carta de um leitor: sobre amores e diagnóstico

 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

HIV & THC

Por muito tempo, fazer pesquisas científicas sobre os possíveis benefícios médicos da maconha era praticamente impossível. Ainda classificada pela Drug Enforcement Administration (DEA) dos Estados Unidos sob sua categoria mais restrita de substâncias controladas, a Schedule I — ao lado de drogas como heroína, ácido lisérgico (LSD), ecstasy e peyote –, a maconha vem sendo mantida longe das mãos de médicos e cientistas, por conta do difícil acesso ao financiamento e autorizações legais federais que para pesquisa, limitados justamente por conta dessa classificação. Mesmo nos estados americanos onde a maconha já foi legalizada para uso medicinal ou recreativo, os estudos com a planta ainda estão sujeitos à aprovação de vários órgãos e as amostras devem ser adquiridas no único laboratório aprovado pelo governo federal para dispensar maconha para pesquisa.

Mesmo com estes obstáculos, um crescente número de pesquisadores têm investigado as propriedades medicinais da cannabis, que já se mostrou promissora no tratamento de víciostranstorno de estresse pós-traumático, dores crônicas, doenças cerebrais e uma série de outras condições médicas — e, agora, há uma cautelosa expectativa de que a maconha também possa ser útil no tratamento do HIV, ajudando a bloquear a entrada do HIV nas células, reduzir a inflamação crônica e prevenir distúrbios neurocognitivos que podem ocorrer como resultado da infecção pelo HIV.

Robert L. Cook

Pelo menos, é isso o que diz uma reportagem da Vice, em uma entrevista com o pesquisador Robert L. Cook, professor de epidemiologia da Universidade da Flórida, que recentemente anunciou um estudo com 400 voluntários para examinar os efeitos da maconha em pessoas que vivem com o HIV. O estudo terá a duração de cinco anos, custará 3,2 milhões de dólares e provavelmente será o maior estudo sobre o assunto, não apenas avaliando o impacto da maconha nos cérebros dos pacientes soropositivos, mas também verificando se a droga é capaz de ajudar a suprimir o vírus. Além disso, o estudo vai precisar a quantidade de maconha consumida ou inalada pelos voluntários, bem como a quantidade de THC e cannabinoides presentes nestas doses.

Vice: Como você começou a se interessar pelo efeito da maconha nas pessoas que vivem com HIV?
Robert L Cook: Sou um médico e vejo pacientes com HIV o tempo todo. E estava pesquisando sobre o tipo de maconha que eu poderia recomendar: meus pacientes deveriam inalar, ingeri-la ou eu deveria sugerir um tipo específico da erva? Não há dados, por exemplo, sobre os motivos que levam um certo tipo de maconha a ter um melhor resultado para a saúde de alguém que vive com HIV do que outro, e é por isso que eu desenvolvi esse estudo. No estudo, poderemos comparar aqueles que usam diariamente a maconha com aqueles que a utilizam ocasionalmente. Vamos fazer testes de toxicologia de urina para tentar especificar exatamente a composição da maconha. Idealmente, até o final do estudo, poderemos dizer: “Uau! Parece que a maioria das pessoas que usam a maconha estão fazendo isso para tratar uma dor em comum ou por conta de outro determinado padrão”. Ou, quem sabe, porque a maioria das pessoas que estão usando maconha querem algo para ajudá-las contra o estresse e a estão utilizando seguindo certo padrão.

Ao mesmo tempo, você também está interessado nos efeitos do THC sobre o vírus e seus sintomas, certo?
Eu vi alguns dados muito interessantes que analisaram a quantidade de vírus no sangue das pessoas antes de serem tratadas com antirretrovirais. Essa pesquisa mostrou que aqueles que usavam maconha tinham uma quantidade menor de vírus em seu sangue em comparação com aqueles que não usavam maconha. Se de fato houver uma quantidade menor de vírus, isso é muito bom. Mas eu não vi nenhum estudo clínico que analisasse os efeitos diretos do THC sobre o HIV. Também não temos muitas pesquisas comparando o THC, sozinho, ou o THC junto com o canabidiol (CBD) em pessoas com HIV. Também vamos medir a resposta inflamatória à maconha de maneira muito mais cuidadosamente controlada do que em estudos anteriores. Medir a adesão aos medicamentos também é importante. Uma das razões pelas quais a maconha pode afetar o HIV é comportamental: o cenário estereotipado diz que alguém que usa maconha se torna menos motivado — sentam-se no sofá, assistem TV e não tomam os medicamentos quando deveriam. Não tenho certeza de que isso seja verdade, mas estaremos examinando isso também.

Você pode contar mais sobre como o THC, o composto químico da cannabis, funciona a nível celular?
O THC quase exclusivamente atinge receptores CB1, receptores canabinóides localizados em todo o corpo. Isso faz com que as pessoas sintam o efeito da droga, fiquem desequilibradas e tenham sua memória de curto prazo afetada. Além do cérebro, os receptores CB1 estão também em muitas das nossas células imunológicas. Existem 100 canabinóides diferentes na maconha, e aqueles que visam este receptor parecem reprimir a inflamação. Por isso, a indústria farmacêutica está buscando criar análogos sintéticos de THC ou CBD para atingir esses receptores. Entretanto, eu não vi pesquisas comparando diretamente o THC e o CBD nestes efeitos clínicos. Embora eu acredite que o THC seja provavelmente mais provável pelas experiências recreativas associadas à droga e o CB2 à reprimir a inflamação, é difícil saber o que isso representa em termos de alívio da dor. O que eu quero dizer é: se as pessoas se sentem melhor, é porque a dor delas é de fato diminuída ou porque estão se sentindo bem com a droga e não se importam tanto com a dor?

Algumas pessoas estão entusiasmadas com o fato de que os compostos da maconha são capazes de fazer algo que os antirretrovirais não conseguem: atravessar a barreira hematoencefálica — e, no caminho, ainda reduzir a inflamação crônica.
Apesar de conseguirmos controlar o vírus através dos antirretrovirais, as pessoas com HIV ainda envelhecem um pouco mais rapidamente, ainda sofrem com doença cardíaca quatro a cinco anos antes do soronegativos e muitas pessoas acreditam que tudo isso é decorrente da inflamação crônica. Portanto, um produto que ajuda a controlar a inflamação, certamente pode ajudar as pessoas a viver vidas mais longas e mais felizes.

O estudo de Robert L. Cook vem num momento em que o uso da maconha medicinal atinge seu máximo histórico nos Estados Unidos: mais de 70% dos americanos se dizem a favor do uso da cannabis para diminuir os efeitos de diversas condições médicas crônicas. Uma reportagem da HIV Plus Magazine afirma que muitos soropositivos usam a maconha com o intuito de aliviar sintomas decorrentes do HIV e efeitos colaterais associados ao tratamento antirretroviral, como náuseas, perda de apetite, depressão, perda de peso e dor neuropática — e também lembra que a cannabis pode ter efeito direto contra o vírus, como já teria sido documentado em estudos anteriores.

Uma pesquisa conduzida em macacos, financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde e pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estudos Unidos e publicado na Aids Research and Human Retroviruses, em 2014, sugere que o THC consiga diminuir o dano do HIV no intestino, o que acontece especialmente durante a fase da infecção aguda. Cinco meses depois, pesquisadores do Centro de Ciências de Saúde da Universidade Estadual da Louisiana descobriram que o THC produziu uma diminuição generalizada na carga viral e na inflamação tecidual nestes macacos, com subsequente aumento da produção de células T CD4 e CD8.

Outro estudo, de 2012, conduzido na Escola de Medicina Mount Sinai da cidade de Nova York, sugere que a cannabis é capaz de interagir com receptores localizados em diversas células, incluindo macrófagos e células CD4, inclusive bloqueando o processo de sinalização entre HIV o e a CXCR4, um dos principais tipos de receptores que permitem que o HIV entre e infecte uma célula. Outra descoberta se refere aos compostos antiinflamatórios do THC, capazes de reduzir a replicação viral e a inflamação no cérebro.

Nota Técnica “Indetectável = Intransmissível”

O Centro de Referência e Treinamento-DST/AIDS-SP (CRT-DST/AIDS) é uma unidade de referência normativa, de avaliação e de coordenação do Programa Estadual para Prevenção, Controle, Diagnóstico e Tratamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Estado de São Paulo.

A Secretaria de Estado da Saúde, por meio do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, lança nota técnica “Indetectável igual a Intransmissível”. A nota informa gestores, profissionais da saúde, sociedade civil e população geral, que as pessoas vivendo com HIV/aids com carga viral indetectável há pelo menos seis meses e boa adesão ao tratamento tem um risco insignificante de transmitir o vírus pela via sexual.

Esta afirmação se baseia em recentes estudos com resultados sólidos e conclusivos – HPTN 052, e Partner, de 2016, e Opposites Attract, de 2017 –, os quais têm levado à atualização da mensagem sobre transmissibilidade por parte de autoridades como o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Sociedade Internacional de Aids (IAS), da Suíça. Infecções sexualmente transmissíveis (IST) e possíveis pequenos aumentos transitórios na carga viral (conhecidos clinicamente como “blips”) não influenciam a transmissibilidade nestes casos, de acordo com os estudos. Considera-se carga viral indetectável a quantidade de vírus inferior a 40 cópias por ml de sangue.

“Pessoas que vivem com o HIV, se tomarem seus medicamentos e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”

Esta novidade traz impacto positivo na vida das pessoas vivendo com HIV/aids sob vários aspectos. “Pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”, declara Artur Kalichman, coordenador do Programa Estadual DST/Aids-SP. A notícia traz impacto positivo na adesão ao tratamento e, em especial, as pessoas vivendo com HIV/aids sorodiscordantes que desejam ter filhos. “Será possível também realizar planejamento familiar com mais tranquilidade”, comenta.

“Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem efeitos positivos sobre a sorofobia”

Para Maria Clara Gianna, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP, os profissionais de saúde e de comunicação em saúde devem fornecer orientação atualizada e acurada às pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) sobre o risco de transmissão neste cenário. “Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem potenciais efeitos positivos sobre a sorofobia (estigma) e sorofobia internalizada (autoestigma), direitos sexuais e reprodutivos, testagem, vinculação aos serviços de saúde e adesão ao tratamento”, observa.

As pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) devem receber também aconselhamento sobre fatores que influenciam a opção entre o uso deste método de prevenção ao HIV isoladamente ou a sua associação a outros métodos de gerenciamento de risco e de prevenção, como preservativo e uso de profilaxia pós-exposição (PEP) ou profilaxia pré-exposição (PrEP) pelo parceiro HIV-negativo. “Esses fatores incluem acordos de confiança do casal, adesão ao antirretroviral e decisões sobre o gerenciamento de risco para IST e gravidez.

Em qualquer situação, deve ser respeitada a autonomia da pessoa vivendo com HIV/aids e de seu(sua) parceiro(a) e deve ser garantido o acesso a diagnóstico e tratamento de IST, outros métodos de prevenção ao HIV, métodos anticoncepcionais e acompanhamento pré-natal”, comenta Rosa de Alencar, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP. Para as pessoas que, por qualquer razão, não estejam com a carga viral indetectável, deve ser reforçado que o preservativo é um método eficaz de prevenção e que estará em breve disponível a profilaxia pré-exposição (PrEP) para uso pelo parceiro HIV negativo.


*Nota Técnica 02/2017/CRT-PE-DST/AIDS/SES-SP. Informações adicionais: www.crt.saude.sp.gov.br | Disque DST/Aids: 0800 16 25 50