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Câncer & HIV

Nos últimos anos, a International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS, incluiu um simpósio especializado na pesquisa da cura do HIV, que sempre antecedeu o evento principal. E este ano não foi exceção, com apenas uma pequena mudança, a começar pelo nome: HIV Cure and Cancer Forum — isto é, um fórum sobre o câncer e a cura do HIV.

O título do evento parece reafirmar uma percepção atual entre muitos cientistas sobre aspectos comuns entre duas doenças distintas: o HIV e o câncer. Antes de falar das semelhanças entre elas, é importante ter em mente que estas são doenças distintas entre si porque há muitas diferenças entre elas. Foi isso o que bem lembrou Monsef Benkirane, do Instituto Francês de Genética Humana, na sua palestra de abertura. Enquanto o HIV é causado por uma infecção, o câncer é geralmente decorrente do mau comportamento espontâneo de algumas células. A exceção está apenas em alguns tipos específicos câncer, cujo mau comportamento das células pode mesmo ser provocado por infecções.

No entanto, no coração das células é que surge a semelhança entre estas duas doenças: tanto para o HIV quanto para o câncer, a questão parece ser a mesma: ambas células cancerosas e células infectadas pelo HIV possuem um material genético trapaceiro. No caso do câncer, este material genético leva as células a crescer incontrolavelmente. No caso do HIV, à derrubar o sistema imunológico. O fato de ambas estas doenças concentrarem-se em uma disfunção do núcleo celular é o que as torna difíceis de curar: basta uma célula infectada pelo HIV ou uma célula cancerígena para propagar a doença.

Não é por acaso que as mesmas ferramentas que agora estão levando à cura de alguns tipos de câncer e à maior remissão de outros tipos, incluindo medicamentos sofisticados capazes de direcionar marcadores biológicos específicos para agir contra células cancerosas, podem também ser usadas contra o HIV. Aliás, esta relação entre os medicamentos para câncer e para o HIV não vem de agora: o próprio AZT, a Zidovudina, o primeiro antirretroviral usado no tratamento de HIV/aids, foi inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade, conforme lembra uma matéria publicada pelo The New Yorker.

Foi em 1987 que a Food and Drug Administration americana aprovou o AZT para uso em pacientes com HIV, depois que seu estudo inicial já mostrava alguma habilidade da droga em controlar o vírus. Esse estudo começou como um “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que eles saibam quem é que está tomando o quê.

Então, os benefícios que começaram a ser observados em quem estava tomando o AZT foram tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento e, também, o restante das pessoas diagnosticadas com HIV. Não havia tempo a perder: naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam muito doentes ou morrendo. O desespero era enorme! Para salvar a própria vida, muita gente estava disposta a assumir o risco de tomar um medicamento promissor, mas que ainda não tinha completado formalmente todos os estudos habitualmente necessários e os rituais de aprovação e regulação pelas autoridades — você já assistiu Clube de Compras Dallas (2013)?

É verdade que, naquela época do começo da epidemia, qualquer semelhança entre o câncer e o HIV estava mais para um coincidência casual do que um resultado de uma observação meticulosa. O próprio apelido de “câncer gay”, que a aids recebeu antes de ser batizada de aids, em nada tem relação com a semelhança celular observada nos dias de hoje. Esse apelido nasceu por ignorância sobre a doença e por preconceito contra os homossexuais, junto com o fato do diagnóstico ser feito sem o teste de HIV, que ainda nem existia, mas com o aparecimento doenças oportunistas, incluindo cânceres típicos de sistemas imunológicos abalados.

Uma célula cancerígena.

Hoje sabemos que as células infectadas pelo HIV e pelo câncer compartilham um mesmo truque mortal: ambas conseguem se “des-diferenciar” quando estão sob ataque, seja por medicamentos ou pelo sistema imunológico. Ambas são capazes de retroceder para um estágio anterior de evolução celular, onde são invisíveis ao sistema imunológico.

No caso do HIV, as células imunes infectadas que produzem ativamente cópias de vírus se esgotam e morrem. Mas não todas. Uma parte delas retorna a um estado dormente, prontas para entrar em ação se a pressão da terapia antirretroviral for aliviada. Estas células dormentes, ou latentes, é que formam o famoso “reservatório de HIV”. O obstáculo atual da cura do HIV é exatamente este: a identificação e destruição destes reservatórios para uma cura completa ou, pelo menos, sua redução e contenção para uma remissão de longo prazo, conforme lembra uma matéria publicada recentemente pelo Aidsmap.

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Suazilândia: mais tratamento, menos transmissão

A Suazilândia, um pequeno reinado situado na África Austral que fica entre Moçambique e África do Sul, viu o número de novas infecções pelo HIV cair pela metade enquanto a proporção de pessoas em tratamento antirretroviral e com carga viral suprimida duplicou. Esta notícia foi apresentada na 9th International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS 2017, em Paris, e publicada no Aidsmap.

O Reino da Suazilândia tem uma das epidemias de HIV mais severas do mundo. Com uma população de 1,45 milhões de pessoas, pouco mais de um terço delas (32%) viviam com HIV em 2011, quando o país realizou sua primeira tentativa de oferecer testes de HIV porta-a-porta. Desde então, a Suazilândia aumentou o acesso ao teste de HIV e ao tratamento antirretroviral, oferecendo tratamento universal e capacitando os profissionais de saúde a iniciar pessoas em tratamento cedo. O número de testes de HIV realizados a cada ano quase se triplicou desde 2011 e o número de pessoas em tratamento antirretroviral passou de 72.402, em 2011, para 171.266 em 2016.

Uma pesquisa feita em 2011 avaliou 18.172 pessoas a partir de 15 anos de idade, e encontrou uma prevalência de HIV de 24,1% em homens e 38,8% em mulheres e descobriu que 1,8% dos homens e 3,16% das mulheres tinham adquirido o HIV nos 120 dias anteriores. Uma segunda pesquisa foi feita em 2016 e 2017 para verificar a incidência de HIV e observou uma redução significativa nas novas infecções pelo HIV. Nos homens, a incidência do HIV caiu 53%, de 1,83 para 0,86%. Nas mulheres, a incidência do HIV caiu 38%, de 3,16 para 1,95%. Em geral, a incidência do HIV caiu em 44%. Enquanto isso, a supressão da carga viral duplicou entre 2011 a 2016 e 2017, de 34,8% para 71,3%.

A redução das novas infecções diante do aumento da oferta de tratamento antirretroviral e de supressão da carga viral é mais uma evidência de sucesso do tratamento como prevenção — TasP, do inglês Treatment as Prevention.

Ministério da Saúde se pronuncia sobre a falta de antirretrovirais


O Ministério da Saúde adquire e distribui regularmente, para mais de 500 mil pessoas, 37 apresentações de medicamentos antirretrovirais que compõem o tratamento e a prevenção do HIV/aids. O orçamento destinado a manter os estoques é assegurado por lei. Atualmente, 87 insumos estratégicos são gerenciados pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV).

No decorrer do mês de julho, ocorreram algumas restrições na cadeia logística de cinco dos 37 medicamentos distribuídos no país. Mesmo assim, os envios asseguraram o abastecimento nos estados por até trinta dias. Nesse contexto, o DIAHV enviou, de forma transparente e periódica, aos coordenadores estaduais e aos responsáveis pela logística dos antirretrovirais lista com a data de chegada dos cinco medicamentos. Sendo eles: Zidovudina solução oral; Zidovudina 300mg + Lamivudina 150mg; Ritonavir solução oral; Tenofovir 300mg + Lamivudina 300mg + Efavirenz 600mg (3 em 1); Abacavir solução oral. A equipe do DIAHV trabalhou arduamente em parceria com outras áreas do Ministério da Saúde e coordenações estaduais e municipais, e não poupou esforços, para assegurar o abastecimento e a regularização desses medicamentos.

O Ministério da Saúde receberá 12,1 milhões de comprimidos antirretrovirais na composição “três em um” (Efavirenz + Tenofovir + Lamivudina), com previsão de entrega aos estados até 15 de agosto. Esse quantitativo, somado às 6,7 milhões de unidades do medicamento já distribuídas no mês de julho, completará o estoque para três meses, retomando assim o fluxo de distribuição. Nesse sentido, o DIAHV busca sanar e evitar quaisquer restrições relacionadas ao abastecimento ou suprimento dos medicamentos no país.

Já foi finalizada também pelo Ministério da Saúde a aquisição de uma nova compra de exames de carga viral para o HIV. O volume total do primeiro lote está previsto para chegar até o final da primeira quinzena de agosto e deve ser distribuído a todos os laboratórios até dia 18/08. O quantitativo vai atender a demanda nos estados. Até final do mês de agosto será recebida a segunda remessa, que, somada à primeira, completará quatro meses de abastecimento, normalizando assim o fluxo de distribuição. Por uma medida preventiva, o DIAHV emitiu nota em maio deste ano solicitando aos estados que priorizassem as gestantes e os recém-nascidos. Os testes de carga viral são realizados a cada seis meses em pessoas vivendo com o HIV, para monitorar a infecção. Em 2016, já foram realizados mais de 550 mil exames em todo o país.


Fonte: Assessoria de Comunicação do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais

Dia Nacional de Mobilização em Defesa da Política Brasileira de Aids


Na semana em que são lembrados os 20 anos da morte de Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), ativistas de todo o Brasil estarão nas ruas denunciando o descaso com que gestores dos três níveis (União, Estados e Municípios) têm tratado a epidemia de aids. A criação de uma falsa ideia de controle levou a um recrudescimento no número de mortes por aids no Brasil, hoje são duas a cada hora. Além de manifestações de rua, estão previstas ações nas redes sociais e atividades nas sedes das ONGs.

Assistimos ao crescimento da aids, principalmente entre jovens e nas populações vulneráveis, com o aumento de mortes e de casos, na contramão dos dados globais. Reconhecemos as conquistas obtidas nas últimas três décadas, fruto da mobilização social e da pressão política, mas não podemos fugir à atual realidade, em que estas mesmas conquistas estão, a cada dia, ameaçadas em função do retrocesso e da falta de comprometimento que se abate sobre as políticas de saúde em geral e do enfrentamento à epidemia de aids em específico.

As organizações comunitárias que trabalham com o tema sentem de perto esta realidade, recebendo cotidianamente em suas sedes pessoas que escapam muito dos perfis mostrados nas reportagens. São jovens, negros, pobres, muitos com coinfecções e outras doenças oportunistas e que aguardam nas filas dos serviços públicos pela oportunidade de tratamento, às vezes sem recursos mínimos para se deslocar até a unidade de saúde. Soma-se a isto a falta de financiamento de todas estas ações e a ameaça de final da destinação específica para aids, jogando os recursos num caixa único, sem definição de prioridades e ao gosto do gestor.

Em todo o Brasil a população vivendo com HIV passou de 700 mil para 830 mil entre 2010 e 2015, com 15 mil mortes de aids por ano, quase duas mortes por hora.

Em todo o Brasil a população vivendo com HIV passou de 700 mil para 830 mil entre 2010 e 2015, com 15 mil mortes de aids por ano, quase duas mortes por hora. Por outro lado, os recentes episódios em todo o país de falta dos medicamentos antirretrovirais, cujo acesso universal é garantido por lei e sinônimo dos bons resultados alcançados pela resposta à aids no Brasil, exigem uma reação da sociedade.

Preocupados com este quadro, ativistas ligados às ONG e a redes de pessoas vivendo com HIV/aids se mobilizam em todos os estados dia 09 de agosto para chamar a atenção da sociedade brasileira para o problema. É preciso combater o preconceito e a aidsfobia que ganham cada vez mais vulto no Brasil. Caso contrário, teremos um quadro extremamente negativo da atual realidade de quem vive com HIV e aids em nosso país.

O momento é de luta e mobilização e não de ufanismos. Não vivemos em nenhum “País das Maravilhas”

O momento é de luta e mobilização e não de ufanismos. Não vivemos em nenhum “País das Maravilhas”. Há muito o Brasil não se configura como exemplo de combate à epidemia e muito ainda precisa ser feito para garantir um mínimo de qualidade de vida e de respeito à legislação que assegura o acesso à saúde como “um direito de todos e um dever do Estado”.

(Movimentos do Ceará, Pernambuco, Maranhão e São Paulo já confirmaram atividades para a semana da mobilização. No Ceará, o Fórum de ONGs Aids do Estado fará uma manifestação em frente ao Hospital São José, nesta terça-feira, dia 8, às 9h. Em São Paulo, o ato será realizado na quinta-feira, dia 10, às 18h, em frente à sede da prefeitura. Do dia 10 ao dia 12, delegações de ONG dos Estados da região sudeste estarão reunidas no Encontro Regional Sudeste de ONG/Aids.)


Fonte: Articulação Nacional de Aids — Anaids. Texto elaborado a partir do Manifesto preparado pelo Fórum de ONGs Aids do Estado de São Paulo (Foaesp) e Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+).

Indetectável = Intransmissível

Nenhuma transmissão do HIV foi observada entre os 343 casais de homens gays sorodiscordantes, em que o parceiro soropositivo fazia tratamento antirretroviral e tinha carga viral indetectável, matriculados no estudo Opposites Attract, divulgado na 9th International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS 2017, em Paris. O Opposites Attract recrutou e acompanhou casais homossexuais em clínicas na Austrália, em Bangkok e Rio de Janeiro, que praticaram 16.889 atos de sexo anal sem camisinha enquanto acompanhados pelo estudo.

“Uma pessoa que vive com HIV e que tem carga viral indetectável não transmite o vírus aos seus parceiros.”

O Opposites Attract também não encontrou relação entre a transmissão do HIV e a presença de outra doença sexualmente transmissível (DST): 6% dos atos sexuais anais relatados foram feitos enquanto um dos parceiros tinha alguma outra DST. Um estudo anterior semelhante, o Partner, teve o mesmo resultado com uma taxa de 17,5% dos participantes com uma DST em algum momento do estudo. A preocupação de que a presença de outra DST pudesse aumentar o risco de transmissão do HIV a partir de parceiros com carga viral indetectável vem pelo menos desde a Declaração Suíça, de 2008.

Outra preocupação que rondava este assunto dizia respeito ao tipo de relação sexual, uma vez que, por muito tempo, o único grande estudo sobre transmissão do HIV a partir de parceiros soropositivos em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável foi o HPTN 052, que incluiu casais heterossexuais. O HPTN 052 não encontrou qualquer transmissão do HIV a partir destes parceiros, mas não era certo se seus participantes teriam praticado sexo anal desprotegido em frequência estatisticamente relevante, tal como um casal de homens gays faria. O estudo Partner, que também não observou qualquer transmissão do HIV entre seus participantes, ajudou parcialmente a responder esta pergunta, uma vez que incluiu alguns casais gays. O Opposites Attract, por sua vez, inscreveu apenas casais de homens homossexuais e, novamente, não observou uma única transmissão do HIV.

“Soropositivos em tratamento podem compartilhar muitas coisas. Mas não podem compartilhar o vírus.”

A única pergunta que resta diz respeito à posição sexual, uma vez que o risco de transmissão do HIV é mais alto quando o parceiro soropositivo homossexual é ativo, aquele que insere o pênis no ânus de seu parceiro. Entretanto, o fato é que no Opposites Attract isto não fez diferença alguma: a maioria dos parceiros soropositivos foram ativos em um terço das relações sexuais relatadas. Assim como no HPTN 052 e no Partner, o Opposites Attract também documentou transmissões do HIV, mas a análise genética mostrou que essas infecções vinham de um parceiro fora do relacionamento principal com o parceiro inscrito no estudo e que tinha carga viral suprimida.

Segundo o Aidsmap, este resultado reforça ainda mais o slogan “Indetectável = Intransmissível”, da campanha Prevention Access, cuja declaração de consenso foi assinada pelo Aidsmap e também pela International Aids Society, durante o congresso em Paris, e vem ao encontro dos mesmos resultados obtidos no estudo Partner, no HPTN 052 e do que é afirmado na Declaração Suíça, de 2008.

“Fato: pessoas em tratamento antirretroviral não conseguem transmitir o vírus.”

A campanha explica que a ciência é clara: “pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem  carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais. Indetectável = intransmissível.” A campanha acredita que esta mensagem encoraja as pessoas com HIV a começar e a permanecer em tratamento antirretroviral, para cuidar da própria saúde e para evitar a transmissão do vírus. “Quanto mais as pessoas vivendo com HIV que conhecem seu status estiverem em tratamento bem sucedido, mais saudáveis ​​serão e mais próximo chegaremos ao fim da epidemia”, afirma o texto. A campanha define uma carga viral indetectável como inferior à 40 cópias/ml de sangue, enquanto uma carga viral abaixo de 200 cópias/ml é considerada “viralmente suprimida” e, tal como o indetectável, não pode transmitir sexualmente o HIV. Em outras palavras, segundo a campanha, uma pessoa vivendo com HIV com uma carga viral consistente de 200 cópias/ml ou menos, não pode transmitir o HIV.

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Mais uma criança capaz de controlar o HIV

Uma criança sul-africana de nove anos de idade, que foi diagnosticada soropositiva já no primeiro mês de idade e que recebeu um tratamento anti-HIV ao longo de 40 semanas, mantém o vírus controlado sem a necessidade de antirretrovirais há oito anos e meio, de acordo com o que os cientistas relataram na 9th IAS Conference on HIV Science (IAS 2017), em Paris, e publicado no Aidsmap.

Esta criança sul-africana é agora o terceiro exemplo de uma criança que iniciou o tratamento do HIV logo após o nascimento, interrompeu o tratamento depois de meses ou anos e mostrou conseguir controlar a infecção pelo HIV por um período prolongado, sem a necessidade de medicamentos antirretrovirais.

A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses.

Os outros dois casos de crianças que atualmente estão controlando a infecção sem a necessidade de antirretrovirais são: uma criança francesa, diagnosticada aos três meses de idade e tratada por mais ou menos 5 ou 7 anos, e a “Bebê do Mississippi”, tal como ficou conhecida, que começou a receber tratamento 30 horas após o nascimento e nele permaneceu por 18 meses, antes de interrompê-lo. A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses, antes do reaparecimento do vírus.

A criança sul-africana apresentada na IAS 2017 foi tratada por um curto período após o nascimento, como participante do estudo CHER, que comparou duas estratégias de tratamento precoce para bebês com HIV na África austral. A criança foi diagnosticada no primeiro mês de idade e iniciou o tratamento aos dois meses de idade com Lopinavir, Ritonavir, Zidovudina (AZT) e Lamivudina por 40 semanas. Depois, interrompeu o tratamento no primeiro ano de idade. A criança tinha uma carga viral indetectável, abaixo de 20 cópias/ml, no momento da interrupção do tratamento.

Depois disso, a criança foi testada a cada três meses até seus quatro anos de idade, para verificar a sua contagem de células CD4. Análises das amostras de sangue armazenadas mostram que a criança manteve sua carga viral indetectável durante todo esse período. O teste feito aos 9 anos de idade mostram que o HIV ainda se mantém indetectável e que o número de células que contêm o DNA do HIV, o reservatório viral, não mudou desde a interrupção do tratamento.

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV, indicando que seu sistema imunológico é capaz de montar uma resposta contra o vírus, enquanto não possui resposta de células CD8 contra o HIV. Isso pode significar que níveis muito baixos de vírus estão presentes, mas não podem ser detectados pelos métodos atualmente disponíveis. Nenhum vírus competente de replicação foi isolado usando dois métodos diferentes para cultivar vírus de células potencialmente infectadas.

“Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”

Pesquisadores da África do Sul e dos Estados Unidos ainda estão tentando explicar como a criança é capaz de controlar o HIV. Eles são cautelosos em não descrever o caso como uma cura — em vez disso, dizem que a infecção pelo HIV na criança está em remissão, controlada por fatores que ainda precisam ser entendidos. “Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”, disse a Dra. Caroline Tiemessen do laboratório do Centro de HIV e DSTs do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis, em Joanesburgo, o qual está estudando o sistema imunológico desta criança.

Um grande estudo chamado IMPAACT P1115 está testando a hipótese de que a terapia antirretroviral em recém-nascidos infectados pelo HIV iniciada dentro de 48 horas do nascimento pode permitir o controle a longo prazo da replicação do HIV, mesmo após o tratamento ser interrompido, possivelmente levando à remissão do HIV. O IMPAACT P1115 começou em 2014 e inscreveu 42 crianças infectadas pelo HIV. As primeiras crianças podem tornar-se elegíveis para o tratamento antirretroviral no final de 2017.


Referência: Violari A et al. Viral and host characteristics of a child with perinatal HIV-1 following a prolonged period after ART cessation in the CHER trial. 9th IAS Conference on HIV Science, Paris, 23-26 July, 2017, abstract TuPDB0106.

Supercomputador revela como o HIV se move dentro do corpo

Um pequeno vislumbre de como o HIV viaja através do corpo foi simulado pela primeira vez em supercomputadores dos Estados Unidos. Depois de dois anos trabalhando, os supercomputadores da Universidade de Illinois conseguiram modelar o comportamento de 64 milhões de átomos do HIV e, enfim, capturar 1,2 microssegundos da vida de um capsídeo do vírus — uma pequena gaiola de proteína que transporta o HIV para dentro do núcleo de uma célula humana.

A simulação foi realizada no supercomputador Titan, do Departamento de Energia, enquanto a análise dos dados foi feita pelo supercomputador Blue Waters, no National Center for Supercomputing Applications. Este método de estudo de grandes sistemas biológicos com simulações de dinâmica molecular, chamado de “microscopia computacional”, foi desenvolvido e liderado por Juan Perilla e pelo falecido Klaus Schulten.

A simulação com o HIV revelou várias características do capsídeo, com diferentes partes da proteína que oscilam em diferentes frequências. Segundo Perilla, é provável que o capsídeo compartilhe informações com seus semelhantes, ajudando-os a navegar pelo seu ambiente. O estudo também descobriu que íons fluem dentro e fora dos poros do capsídeo e se mantêm em diferentes polos: negativo, no interior, e positivo, no exterior — isso é o que mantém a estrutura do capsídeo unida.

Estes segredos da estrutura da capsídeo podem ajudar a expor as suas vulnerabilidades. Por isso, os pesquisadores acreditam que a simulação ajudará os cientistas a descobrir uma maneira de quebrar essa estrutura do HIV, fazendo-a explodir antes que possa infectar uma célula humana e, assim, levando à cura. A pesquisa foi publicada na Nature Communications.

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Quanto tempo até sofrermos rebote viral?

Depois de analisar a carga viral de 16.101 pessoas ao longo de sete anos, pesquisadores ingleses concluíram que uma proporção substancial das pessoas que vivem com HIV e que estão fazendo tratamento antirretroviral não vão experimentar rebote viral durante suas vidas.

O estudo, U.K. Collaborative HIV Cohort, publicado no Lancet, incluiu participantes que iniciaram a terapia antirretroviral e que atingiram carga viral indetectável, definida por uma quantidade inferior à 50 cópias/mL de sangue, dentro de 9 meses após o início do tratamento. O rebote viral foi definido como a primeira carga viral única com mais de 200 cópias/mL ou pela interrupção do tratamento com mais de 1 mês de duração. O objetivo dos pesquisadores era calcular a média de tempo, após o início do tratamento antirretroviral, que os pacientes levam para sofrer o primeiro rebote viral. O estudo incluiu participantes que iniciaram o tratamento entre 1º de janeiro de 1998 a 31 de maio de 2013.

Durante o estudo, dentre os 16.101 participantes, 4.519 experimentaram rebote viral — dos quais 1.414 (31%) foram interrupções de tratamento e 3.105 (69%) foram rebotes virais únicos com mais de 200 cópias/mL. Destes 3.105 rebotes virais, 1.322 (29%) voltaram a ter carga viral inferior à 50 cópias/mL na medição seguinte, sem necessidade de troca de tratamento antirretroviral. Isto quer dizer que 29% dos rebotes virais são de fato elevações temporárias na carga viral.

Em outras palavras, as taxas de rebote viral foram geralmente baixas e, conforme descobriram os cientistas, elas diminuíram substancialmente ao longo de um período de sete anos. Entre homens que fazem sexo com homens com mais de 45 anos, a taxa estimada de rebote viral é de 1,4% ao ano. Esta porcentagem cai ainda mais quando combinada com o fato de que em 29% das pessoas o rebote viral é temporário.

Em entrevista ao Infectious Disease Special Edition, o Dr. Andrew Phillips, um dos autores do estudo e professor de epidemiologia do University College London, disse que “este trabalho sugere que uma proporção substancial de pessoas que fazem tratamento para o HIV e que são suficientemente aderentes aos medicamentos podem manter o vírus suprimido por toda suas vidas.”

O Dr. Phillips e seus colegas observaram que esses dados são promissores para pacientes com HIV que mantém adesão ao tratamento antirretroviral e que fazem os testes para acompanhamento do estado de saúde. “Nossas descobertas apoiam a estratégia de encorajar o teste de HIV em pessoas que podem ter adquirido o HIV e iniciar a terapia nas pessoas diagnosticadas com o vírus, para benefícios pessoais e de saúde pública”, disse o Dr. Phillips.

Como a cura da aids impactaria a sua vida?

Depois de inaugurar uma campanha pela cura da aids até 2020, a amfAR, Fundação para a Pesquisa da Aids, lança agora a websérie Vozes Épicas, que traz histórias pessoais e inspiracionais de soropositivos que explicam como o HIV impacta suas vidas e o que a cura significaria para eles. O objetivo dos vídeos é conscientizar a população de que os desafios para o fim do HIV/aids continuam e, ao mesmo tempo, inspirar a geração Millenium e a comunidade LGBT a apoiarem as pesquisas para a cura da aids.

Os vídeos trazem depoimentos de pessoas com diferentes perfis que vivem com HIV/aids: Hydeia Broadbent, ativista que nasceu com HIV/aids; Mykki Blanco, rapper e artista; Ken Williams, palestrante e fundador do blog Ken Like Barbie; Ongina (Ryan Palao), ator; Teo Drake, homem trans que vive com HIV há bastante tempo. Todos os vídeos (em inglês) estão disponíveis aqui.