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Meus dez anos com HIV

Foi em maio de 2011 que escrevi, pela primeira vez, sobre Timothy Ray Brown, então conhecido tão somente como o “Paciente de Berlim”. Naquela altura, fazia pouco tempo de sua cura, e pouco tempo de meu diagnóstico.

Me ocorreu, por muitos anos, que a cura de Timothy viesse a ser a nossa cura, também. Me ocorreu que isso ocorreria em seu tempo de vida. O mesmo pensamento ocorrera a Timothy, sei disso, pois o próprio me confessara tal coisa durante nossos breves encontros em Lisboa, em janeiro de 2016, quando o conheci. Disse ele que era coisa da “culpa do sobrevivente” que carregava: uma vontade de que todos pudessem experimentar o livramento alcançado por ele, que todos tivessem o HIV extirpado de seus corpos, na inegavelmente mais desejosa cura esterilizante, até então unicamente experimentada por Timothy Ray Brown.

Mas Timothy se foi, recentemente falecido, e não estamos próximos à cura esterilizante do HIV. Timothy não a viu ser difundida, como ele tanto desejava e, por isso, generosamente entregava repetidamente seu corpo à ciência, ainda em vida, permitindo que dissecassem seus órgãos e tecidos, em intervenções incômodas e dolorosas em busca do derradeiro vírus, certamente escondido nalgum reservatório viral ainda misterioso — o qual nunca foi encontrado.

No meio de tantos exames em busca do HIV em seu corpo, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu parte da visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Não foi difícil identificá-lo no meio ao saguão da conferência sobre HIV em que nos encontramos pela primeira vez: um homem magro e alto, que caminhava com os ombros contraídos e flexionava os joelhos com certa dificuldade. Olhei mais atentamente e não tive dúvidas: era Timothy Ray Brown. As marcas de sua epopeia contra o vírus, a árdua cura, eram notáveis. Não parecia ser fácil ser o Paciente de Berlim.

A História de Timothy Ray Brown

Timothy livrou-se do HIV depois de uma série de tratamentos contra outra doença que o acometeu, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda. Ele morava em Berlim, em 2006, quando foi diagnosticado com este particular tipo de câncer.

Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Mas sugiram complicações: Timothy teve pneumonia e a quimio foi interrompida em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração. Timothy sobreviveu.

Sua leucemia deu sinais de remissão, até 2007. Novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas. Um transplante de medula óssea passou a ser última opção.

Gero Hütter teve então uma ideia: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador da mutação genética CCR5delta32, comum em 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer sua infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue adentrar nas células, e as pessoas com esta mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse tal característica não só curasse a leucemia de Timothy, como também o tornasse imune ao HIV.

O doador foi encontrado. Três meses depois do procedimento, Timothy não tinha mais HIV. Para comprová-lo, extensos testes foram feitos. Examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e “qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido”, me contou Timothy, ainda em Lisboa.

O mesmo, porém, não poderia ser dito de sua leucemia, que retornou em 2008. O mesmo anônimo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. “Tive um doador muito generoso”, me contou Timothy. Sua chance de sobrevivência beirava os 5%, e ele obteve sucesso.

Outros pacientes com HIV e leucemia receberam o mesmo tratamento, mas não tiveram a mesma sorte. Alguns simplesmente não foram curados do HIV. Outros falecerem durante os extenuantes procedimentos. Eric Blue, um jovem soropositivo de Louisiana, corajosamente concordou em se submeter a um transplante de células-tronco semelhante ao de Timothy — em seu caso, usando o sangue do cordão umbilical —, foi um dos que perderam a vida.

Foi cedo que a cura de Timothy Ray Brown mostrou-se irreproduzível em larga escala. Mas a esperança de alguma outra cura dela se desenrolasse, permaneceu.

“Pessoas do mundo inteiro me dizem que a minha história é uma história de esperança”, me disse Timothy, entre uma tragadela e outra de seu cigarro — sob olhares de reprovação de seu companheiro Tim –, depois de um típico jantar português e mais algumas cervejas.

“— Você fala bastante sobre esperança”, retruquei, pouco antes de nos despedirmos, já depois de horas e horas de conversas naquele antigo bar de Lisboa. Foi quando Timothy parou um instante.

Ali, na porta do restaurante, vestiu vagarosamente seu casaco, como se refletisse profundamente sobre o que acabara de escutar. Em seguida, virou-se para mim. Tinha o olhar de alguém ávido por uma opinião sincera. Então, perguntou, bastante seriamente:

“— Jovem, você acha que é falsa esperança?”

Me lembro de sentir um leve frio na espinha. Percebia ali que o próprio Paciente de Berlim, o único homem do mundo curado do HIV — e, por isso, a mais alta prova de que a cura para todos os soropositivos é uma possibilidade real —, tinha lá uma discreta dúvida. Discreta, sim, mas havia. Se não era uma dúvida, no mínimo era uma leve hesitação, suficiente para por em cheque todo meu próprio sentimento de esperança, nutrida desde o meu diagnóstico, em outubro de 2010.

Contudo, o frio que senti na espinha não aumentou, não cresceu em nada. Tampouco se transformou em medo. O que se deu foi que, naquele exato instante, me dei conta de que estava diante de um homem como qualquer outro, com seus medos e anseios, assim como todos nós. Então, a cura me pareceu ainda mais próxima. Afinal, se ela foi possível para alguém tão semelhante, tão comum e tão humano, pensei, ela certamente será possível para todos nós, em algum dia que não deve tardar. Foi com isso em mente, que respondi:

“— Não. Não acho que é falsa esperança. Acho que veremos a cura em nosso tempo de vida.”

Timothy sorriu, me deu um forte abraço, um beijo na bochecha e disse:

“— Que bom! Eu acho isso também!”

poucos meses após meu próprio diagnóstico, que se deu há exatos dez anos, em 18 de outubro de 2010.

Descanse em paz, Timothy

Ontem, 30 de setembro, foi-se embora Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”, o primeiro e por muito tempo único homem curado do HIV no mundo. Conheci Timothy em Lisboa, em 2016, onde nos encontramos por dois dias, para um jantar e, depois, uma cerveja. Seu marido o acompanhava e foi ele que, ontem, enviou por WhatsApp a última imagem de Timothy: magro, fraco e muito sorridente, abraçado com um boneco do personagem Yoda.

A leucemia que, por fim, o levou à cura — graças à perspicácia do Dr. Gero Hütter, que transplantou sua medula com um doador naturalmente imune ao HIV — foi a mesma que levou sua vida, ao retornar no começo deste ano, de forma bastante agressiva. Nesse ínterim, Timothy cedeu sua vida e seu corpo à ciência, para que pudéssemos nós, soropositivos, nos beneficiarmos de todo o aprendizado que seu caso oferecia e, quem sabe, também alcançarmos a cura.

Obrigado, Timothy. Descanse em paz.

Paralelos entre a gravidez, o parto e a vida com HIV

Não é curioso o quanto o HIV e o parto, o próprio nascimento, estão tão próximos da medicina, dos remédios e dos médicos, como os grandes salvadores? Me pergunto se é assim noutras áreas, também. À parte ao começo do meu tratamento antirretroviral, quando visitava médicos com considerável frequência e, também, do início do meu acompanhamento com o Dr. Esper Kallás e na altura da troca de medicamentos sugerida por ele, nunca visitei consultórios médicos com tanta frequência quanto nos últimos nove meses e, mais ainda, nas últimas semanas. Agora, seguia para o hospital, em uma situação de emergência, com a recomendação da médica obstetra.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011, e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Eu seguia para hospital sem qualquer ânimo. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde então eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar; mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera desse hospital, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam. Foi quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com a sua lamúria. E me ocorreu ali que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia pós-exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia algo parecido com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando a gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, embora possam ser vistas semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares. Sem compreender bem o sistema reprodutor humano, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que diz o último livro que repousa ao lado da cabeceira de minha cama.)

O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo desprotegido, sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez. Pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Entretanto, se as maternidades continuam cheias não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, provavelmente mais, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Em outras palavras, parece não haver mais pecado no sexo para ter filhos, mas parece haver culpa no sexo sem camisinha com quem vive com HIV — mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível.

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tanto pano daqueles que lhes apontariam o dedo, clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica daqueles que apontariam o dedo para dentro do quarto daquele hotel, no meio de uma ilha no Atlântico, não tão longe da costa marroquina.

Era nossa primeira noite ali, quando J., soronegativa, levantou-se da cama e foi até o banheiro, de onde eu ainda podia espreitar todo o seu corpo nu. Era possível ver meu sêmen escorrendo por entre suas pernas, gotejando pelo chão. Seus cabelos ruivos, desajeitados. Foi quando ela sorriu para mim. Mais tarde, me diria ela, o filho ali concebido vinha com o desejo de que fosse nascido tal como a mim, com a sua certeza de que o meu nascimento me fez, pelo menos em parte, ser quem eu sou.

Eu nasci em julho de 1984, num pequeno apartamento que ficava no alto de uma montanha da cidade, na Praça do Por do Sol, famosa por sua ampla vista de São Paulo. Por opção de meus pais, recém saídos da sua juventude em meio ao movimento hippie, meu parto se deu em casa, com acompanhamento de um médico obstetra — por acaso, um discípulo de Osho Rajneesh, místico oriental bastante conhecido no começo dos anos 80.

Assim que vim ao mundo, eles contam que apagaram as luzes para que a minha chegada, a transição para fora do útero de minha mãe, fosse a mais tranquila ou a menos traumática possível. Dizem que não chorei. Que nasci sereno e silencioso. O obstetra, quando me agarrou nos braços e deitou os olhos sobre mim, teria dito em voz alta que nascia ali mais um médico. Então, voltado-se para meus pais, profetizou: “Este menino tem a cura nas mãos!”

Mas, é claro, eu não me recordo de nada disso. (Tampouco tenho a cura nas mãos.) Minha primeira memória se deu na praia, algures do litoral norte do estado de São Paulo, para onde meus pais decidiram que nos mudaríamos pouco depois de meu nascimento. Era uma pequena casa térrea, com aquele típico piso feito de lajotas de cerâmica partida, vermelhas, amarelas e pretas. A arquitetura ainda tinha alguns traços coloniais. Ao redor do quintal não havia muro, mas uma cerca viva que nos separava da rua de terra, a qual sempre alagava com as chuvas de verão. O jardim tinha a atmosfera típica do litoral paulista, com um gramado úmido, contornado por largas folhas de quase todas as variedades de verde, tendendo para o mais escuro, que fazia tudo aquilo mais parecer uma floresta. Quando chovia, um cheiro forte de terra molhada.

Me lembro que passava horas a brincar com os arbustos de Dormideira, aquela planta que fecha sozinha suas pequenas folhas diante do mínimo relar dos dedos, como se fosse mágica. Também me divertia espremendo os brotos das flores Maria-sem-Vergonha, num canteiro que circundava a varanda, fazendo suas sementes saltarem para fora, como pequenas molas. Foi nesse canteiro que meu carrinho de rolimã um dia caiu e, depois de agarrá-lo, virei-me para trás e avistei meu pai e minha mãe, abraçados e sorridentes, olhando orgulhosamente para seu único filho — eu ainda não sabia, mas esta seria a única imagem que teria dos dois juntos.

Nos dias de calor, meu pai montava a piscina de lona azul com estampa de peixes e a enchia de água e de brinquedos; quando a desarmávamos, era fácil encontrar ali debaixo pequenos tatus-bola, correndo de volta para seus esconderijos. À noite, os adultos sentavam-se na sala diante da televisão, que ficava sobre um móvel feito de bambu e palha, com tampo de vidro. Me lembro quando o apresentador do telejornal, de cabelos brancos, disse ser certo que a Terra um dia iria acabar, definitivamente engolida pelo sol. Era a morte certa. Também foi ali que escutei, pela primeira vez, vez as palavras “drogas” e “aids” embora ainda não soubesse nada sobre os seus significados. Só muito depois eu aprenderia que, naquela altura, por volta 1986, a doença estava começando a tomar a forma consistente de uma pandemia que começava a preocupar todos os países do mundo. O gráfico já mostrava que a maioria das pessoas que eram diagnosticadas, morriam. Mal se sabia que esse gráfico ainda ia crescer muito, acumulando 39 milhões de mortes e 78 milhões de infectados — e que eu estaria entre eles.

Durante o dia, quase sempre íamos à praia, em uma Brasília marrom, curva a curva pela rodovia Rio Santos. Meu pai já não nos acompanhava. Lembro apenas de ver os cabelos de minha mãe remexendo ao vento enquanto ela conduzia o veículo, cantarolando as letras de música popular brasileira que tocavam nas fitas cassetes, as quais eu poderia recitar de cor até hoje. Vez em quando, ela virava-se rapidamente para trás, somente para me ver, ou então me observava pelo retrovisor central. Tinha sempre tanta maternidade em seus olhos, tanto amor, que uma gota a mais talvez fosse demasiado; mas não era.

Por alguma razão, todo esse cenário da época na praia incorporou-se em mim como o único lugar que eu gostaria de estar quando as coisas vão mal, ou mesmo quando estão bem. “É só fechar os olhos e imaginar que está praia”, explicou meu avô, hoje falecido, enquanto nos ajudava com a mudança, carregando as caixas pela calçada da cidade. Ele apontou para o alto, à copa daquela árvore que remexia com o vento na rua. “Ouça”, sugeriu ele, “não é igual ao barulho do mar?”

Segui seu conselho, mas, quando abri os olhos, não vi nada além de prédios acinzentados no horizonte, por detrás da enorme janela de vidro. A nova casa era um apartamento, que ficava num pequeno e antigo edifício num bairro central de São Paulo. Não havia mais jardim, nem cheiro de terra úmida. Mas meu pai estava lá, de volta, embora muito diferente — mais gordo e chamava por outro nome. Era ele quem me levava para passear pelo centro da cidade, depois de me advertir para ter cuidado com a antiga porta de grade do elevador, tão velho. Ao meu lado, ele quase sempre falava do futuro: dizia que era importante viajar, conhecer lugares, falar outras línguas e tocar algum instrumento musical. Dizia que eu poderia ser o que quisesse, ter sucesso em qualquer profissão que viesse a escolher. Dizia tudo isso com tanta convicção que quase me convencia que eu poderia me tornar rei, assim como na novela que assistíamos todos juntos, logo depois do jantar. (Foi logo depois do término dessa novela, aliás, que Cazuza faleceu, aos 32 anos de idade, por conta de um choque séptico causado pela aids. Houve notícia no telejornal. Um ano depois, foi a vez de Freddie Mercury, vocalista da banda britânica Queen, morto em virtude de uma pneumonia decorrente da aids — “Ele morreu em paz”, disse um amigo próximo em entrevista à televisão.)

Foi em algum momento por volta dessa época, ou talvez mais tarde, que eu fechei os olhos, possivelmente tentando voltar à praia, em meio ao meu crescimento, da infância à adolescência. O tempo começou a passar doutra maneira e, quando mal me dei conta, acabei por esquecer de abrir os olhos novamente. Talvez, seja coisa da juventude, da escola, das festas, do álcool e do primeiro cigarro de maconha. Coisa de desobedecer aos pais, de ir mal na escola por uma causa rebelde qualquer. Quem sabe, culpa da crise financeira, que assolou o país em meio ao governo do então presidente Fernando Collor e atingiu minha família exatamente quando minha irmã acabara de nascer. Ficamos totalmente sem dinheiro e, meu pai, o novo pai, cada vez mais impaciente, cada vez mais bravo. Tantas broncas, castigos e palmadas que faziam saltar imensas lágrimas dos olhos azuis da minha irmã e, às vezes, dos meus. Quando desmedido, levou-a a se esconder por horas debaixo da cama, cheia de medo. Quando excessivo, levou-me a fugir de casa, correndo pela avenida movimentada no meio daquela noite de chuva torrencial de verão. Fui para casa de meu primeiro pai, aquele da praia, que disse preferir que eu não o tivesse feito. “Sua casa não é aqui”, disse ele.

Trainspotting, 1996.

É possível que eu nunca mais tenha voltado de fato. Se voltei, não me recordo ao certo. Acho que voltei em parte. O que sei é que, quando dei conta de mim, guiava aquele carro prateado na rodovia Rio-Santos, saindo de alguma festa de música eletrônica em São Paulo. Longe de casa, longe dos planos que um dia meus pais tiveram e especialmente longe do futuro que meu novo pai um dia vislumbrou par mim.

Girei o botão do volume, mas não era possível aumentá-lo mais. Mirei meu reflexo no retrovisor, e percebi minhas olheiras como as de Renton, o protagonista de Trainspotting, filme que marcou a minha geração. Sorri. E fechei os olhos por mais um breve instante. Aspirei o ar das redondezas da primeira casa onde morei, relembrando tudo o que se passara até ali. Do recente passeio pelos coffee shops de Amsterdã, adentrando pelo Distrito da Luz Vermelha, onde a jovem prostituta do leste europeu dizia-me para relaxar. Das festas que duravam dias, sempre escondidas no interior do Estado, em uma espécie de transe coletivo, ao som de música eletrônica com gotas de produtos ilegais. Os finais de semana no porão da casa de C., a colega de faculdade, com ela, sempre sem camisinha. O ménage à trois e as outras mulheres que eu não saberia o nome. Noites a fio, pelos clubes noturnos de São Paulo, onde eu era conhecido por dançar, sempre de olhos fechados. Sempre.

A curva que o carro adentrava começava a perder o rumo, desalinhando-se do eixo central do para-brisas e fugindo do meu campo de visão. Pisei nos freios, e as rodas imediatamente travaram, enquanto carro continuava a deslizar. Tentei corrigir a direção, sem sucesso. A lâmina de água que escorria por cima do asfalto, oriunda da umidade que perspirava da floresta que circundava a rodovia, fez o carro girar sem controle. Uma volta, duas voltas. Então, a roda traseira chocou-se contra guard rail, fazendo enorme estrondo. O veículo capotou uma, duas, três vezes, rolando ribanceira abaixo, até a beirada da densa mata tropical. Finalmente, o carro parou, amortecido pelo lamaceiro do brejo, talvez um mangue, tombado no acostamento da rodovia, com os pneus virados para as estrelas e uma das rodas partida ao meio.

Não tenho certeza quando é que abri os olhos. Talvez, tenha aberto um bocado na altura do diagnóstico, mas, assim como as grávidas em trabalho de parto, a verdade é que não consigo mais me recordar com total precisão daquele momento. É dito que a dor ajuda a apagar a memória e é bem possível que isso seja mesmo verdade. Talvez, tenha aberto mais os olhos durante a viagem à Índia, mas não no templo de Osho, onde o teste de HIV é compulsório e as pessoas com HIV não podem entrar. Talvez tenha aberto os olhos em alguns outros momentos, pontuais, mas aquele em que tenho certeza de ter os olhos abertos, bem abertos, foi quando J. sentou-se diante de mim, semanas depois da volta da viagem àquela ilha do Atlântico.

“— Estou grávida”, disse ela, fazendo-me crer que nada do que escrevi até aqui é sequer importante. “E quero que o parto do nosso bebê seja como foi o seu.”

É surpreendente o quanto a questão do nascimento está regulada pela medicina. O que antes era parto, passou a chamar-se parto normal, natural e, hoje, humanizado. Não é incomum, especialmente no Brasil, onde as taxas de cesáreas bate recorde mundial, chegando a mais de 80% na rede privada em São Paulo e, em alguns hospitais, a 99%, que presuma-se pela cesárea como a alternativa obviamente preferida pela mãe. “Tragam as máquinas!”, grita o médico do hospital em O Milagre do Parto, um sketch humorístico do grupo britânico Monty Python, parte do filme O Sentido da Vida (1983), como se a tecnologia médica fosse a única e venerável salvação para o parto — se é justo que seja venerável, ainda assim precisa ser a única? Será que não existem alternativas de parto, menos tecnocráticas e que podem servir melhor à mãe, ao bebê e ao pai?

Questionada pela comunidade internacional, as autoridades médicas brasileiras sempre se defendeu dizendo que as mulheres brasileiras preferem cesarianas, com data e hora marcada para o nascimento. Entretanto, um estudo de 2001 mostrou que essa informação não estava correta. Entre 1.136 mulheres entrevistadas em todo o Brasil, 70 a 80% disseram que prefeririam o parto vaginal e não houve diferença significativa nas preferências entre pacientes do sistema público e privado. Enquanto isso, a maioria dos hospitais brasileiros ainda não permite que os pais participem dos partos ou entrem nas salas de parto. A depilação compulsória nas mulheres é comum, bem como a episiotomia, um procedimento que implica num corte de bisturi entre a vagina e o ânus, com o suposto objetivo preventivo contra laceração, e a aplicação de oxitocina sintética, para acelerar ou iniciar as contrações e, assim, induzir mais rapidamente ao trabalho de parto.

Da mesma forma, a nossa vida como soropositivos, do nascimento da nossa nova identidade no momento do diagnóstico, até o fim de nossos dias, parece estar totalmente regulada pelos médicos. Assim que diagnosticados, recebemos  a recomendação de iniciar imediatamente o tratamento antirretroviral. Temos visitas ao consultório médico prevista a cada três, quatro ou, no máximo, seis meses, acompanhada de exames laboratoriais de CD4, CD8 e carga viral. Temos protocolos que regulam o tratamento antirretroviral a novos diagnosticados, crianças, adultos ou idosos, mulheres gestantes ou não.

Quanto mais cedo iniciado o tratamento, melhor.

Em estudos prospectivos, muitos desses procedimentos se mostraram desnecessários e até prejudiciais para a maioria das situações. Com mais tempo para o parto ocorrer em seu tempo, a dilatação acontece e não resulta em laceração, o que descarta a necessidade da episiotomia para ev

Nesse cenário, o ritual do parto e o seu simbolismo, para mãe, para o bebê e para o pai, parecem perder espaço para o ritual médico, que ganha os centro das atenções.

 

Davis-Floyd, Robbie E.. Birth as an American Rite of Passage: Second Edition, With a New Preface (p. xix). University of California Press. Edição do Kindle.

 

Como podemos ter certeza que, em relação ao HIV, não estamos sendo induzidos a algo equivalente à cesárea?

“É medicina baseada em evidências”, disse a obstetra, fazendo-me relembrar das consultas com o Dr. Esper. “Sabemos hoje que o parto normal, natural, é mais saudável para mãe e para o bebê, e que o ideal é que a cesárea siga a recomendação da OMS e seja feita somente quando necessária, geralmente em 15% dos casos.

Era com essa fala em mente, que seguíamos para consultório da obstetriz. A complicação anunciada pela médica, depois de repetidos testes feitos em casa com um aparelho de medição de glicemia, desenhava o padrão de uma diabetes gestacional grave, para a qual a única saída, nessas circunstâncias, seria a indução ao parto. Os meses de preparo para um parto normal, natural, tal como fora o meu, terminavam agora de forma abrupta, num susto, na inesperada intervenção médica, contrária ao desejo da mãe e à própria vontade do bebê, que conta nas luas o seu tempo de vir ao mundo.

“— O bebê está ótimo: cheio de vitalidade!”, disse a obstetriz, depois de examinar. “Também não há sinal de aumento no líquido amniótico, um sintoma típico da diabetes gestacional”, prosseguiu ela. “Isso quer dizer que podemos esperar mais um ou dois dias”, concluiu”, arrancado nossos suspiros de alívio, enquanto preenchia os pedidos para exames complementares: todos eles para

“— O bebê está ótimo: cheio de vitalidade!”, disse a obstetriz, depois de examinar. “Também não há sinal de aumento no líquido amniótico, um sintoma típico da diabetes gestacional.”

Se o nosso nascimento, o modo como vimos ao mundo determinam tanto as nossas vidas, isso quer dizer que meu filho terá

fazendo nascer em mim o imediato sentimento e o reconhecimento de que toda essa história, tudo o que escrevi até aqui e por todo o blog, pouquíssimo importa

Venezuela sem antirretrovirais

A ANAIDS – Articulação Nacional de Luta contra a Aids, manifesta o seu apoio aos cidadãos e às cidadãs da Venezuela em virtude da crise humanitária que esse país vem passando e pede ao governo medidas para o acolhimento dessas pessoas.

A carta foi dirigida às instituições listadas abaixo:

UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids;
OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde;
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados;
GNP+ Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV/Aids;
Ministério da Saúde do Brasil – Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais; e
Governo de Roraima.


 

Prezados Senhores e Senhoras,

A ANAIDS, Articulação Nacional de Luta Contra a Aids, colegiado que reúne os Fóruns de ONGs/AIDS dos Estados do Brasil, Redes e Movimentos de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, está extremamente preocupada com a situação da República da Venezuela, notadamente no que se refere ao acesso à saúde e em especial à assistência e prevenção do HIV/Aids.

Além das notícias publicadas cotidianamente, chama-nos a atenção a quantidade de refugiados venezuelanos que cruzam a fronteira, em especial no estado de Roraima, demonstrando a grave situação que atravessam os venezuelanos em geral, pressionando o sistema de saúde, assistência social, e de educação das cidades brasileiras da Região Norte.

Por tratar-se de uma crise sabidamente humanitária precisamos dedicar maior seriedade, já que as demandas do capital têm produzido pobreza, doença e miséria não apenas na Venezuela mais em todo o mundo. Os refugiados são pessoas que estão migrando para o Brasil, não por desejo próprio, mas sim em função de diversos e complexos motivos ligados a questões de crise política e econômica em seu País.

Sendo este, um fato já de conhecimento global, cabe a nós a preocupação em especial sobre a interrupção dos tratamentos com antirretrovirais junto à população soropositiva. O cessar desta política acarretará uma rápida deterioração da saúde das pessoas que dela necessitam. Estima-se atualmente haver mais de 80.000 pessoas vivendo com HIV/aids (PVHAs) na Venezuela, o que nos remete a entender que a situação das PVHAs, não se trata de uma questão isolada, mas está diretamente introduzida num quadro de enfraquecimento geral da saúde pública no País, onde 80% desta população não estão sendo tratadas, o que coloca o país entre os piores do mundo para soropositivos.

Diante do exposto acima, solicitamos ao Poder Executivo do Brasil e aos governos dos Estados brasileiros, em especial o de Roraima, que façam todos os esforços possíveis para acolher estes refugiados e prover suas necessidades, incluindo as de saúde, já que a maior parte das famílias recém-chegadas estão vivendo em situações precárias, compreendendo questões relacionadas à segurança física, falta de documentação, violência sexual e de gênero, exploração de trabalho, abusos de autoridade, falta de moradia, configurando por consequência, uma total inacessibilidade a direitos e serviços básicos de uma forma geral. É, neste sentido, que nos posicionamos e questionamos quais medidas e encaminhamentos o Brasil tem adotado acerca do assunto, garantindo respeito integral aos direitos humanos dos migrantes e seu pleno acesso aos serviços.

O povo brasileiro é acolhedor e formado por várias ondas históricas de imigrantes e certamente apoiará as iniciativas, com a certeza de que as medidas adotadas tenham caráter igualitário e não ameacem o direito da população brasileira no que tange ao acesso a serviços sociais e de saúde dos quais necessitam.

Por fim, ressaltamos que a ANAIDS coordena um movimento pautado pela solidariedade como premissa geral para combater o HIV/aids. As populações vulneráveis ao HIV/aids e as pessoas com HIV/aids sabem o que é sofrer estigma e discriminação. Não podemos permitir que à penosa situação que atravessam nossos vizinhos, devido a postura do Governo venezuelano em resposta as sanções econômicas capitaneadas pelos Norte-americanos, seja acrescentada a discriminação por procurar em outro país, o bem-estar que infelizmente não conseguem encontrar na sua nação.

Certos de que a crise venezuelana passa a ser desta maneira nossa também, colocamo-nos à disposição para colaborar no que estiver ao nosso alcance.

Assinam a carta:

Carla Diana e Carla Almeida
Secretaria Política

Georgina Machado e Fábio Dayan
Secretaria Executiva

Thania Arruda
Secretaria de Comunicação

 

ANAIDS – Articulação Nacional de Luta Contra a Aids
articulacao.nacional@gmail.com
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Fonte: Gestos em 16 de fevereiro de 2018

Temos nosso próprio tempo

Me lembro daquela música da banda Legião Urbana, que escutei tanto durante a adolescência, com um refrão que dizia: “temos nosso próprio tempo”. Talvez, tenhamos mesmo. Tempo Perdido é uma música que fala sobre as diferentes perspectivas de tempo, e do tempo que se perdeu. Desde o meu próprio diagnóstico, que se deu em 2010, me pergunto se Renato Russo, que faleceu em 1996 em decorrência de complicações relacionadas à aids, não teria composto essa música depois de seu próprio diagnóstico, ciente que o tempo com HIV poderia ser diferente — em seu caso, foi mais curto. Mas como estaria ele hoje se ainda estivesse vivo e vivendo com HIV?

Aparentemente, a maioria das más perspectivas que ainda recaem sobre a saúde de quem vive hoje com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, pesa sobre aqueles que foram diagnosticados há mais tempo, nos primeiros anos da epidemia e durante o advento dos primeiros antirretrovirais — os antigos antirretrovirais.

Um estudo canadense observou pessoas com HIV com mais de 50 anos e concluiu que elas são mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 se iniciaram o tratamento antirretroviral antes de 1999 ou se tiveram uma exposição mais longa aos medicamentos antirretrovirais mais antigos, como Estavudina (d4T) ou inibidores de protease de primeira geração, como Nelfinavir ou Indinavir. O diabetes tipo 2 é uma doença mais comum em pessoas obesas e se torna mais comum com a idade. Nesse estudo, o início do diabetes se mostrou muito menos provável em pessoas com idade igual ou superior a 50 anos que iniciaram o tratamento a partir de 2010, ou que iniciaram o tratamento com uma contagem de células CD4 mais elevada. Foram observadas 1065 pessoas com idade igual ou superior a 50 anos de idade ao longo de 13 anos —  89% eram homens, 83% eram brancos e com alta prevalência de coinfecção por hepatite C. Uma das conclusões prováveis é que o tratamento moderno contra HIV ofereça pouco risco de promover o desenvolvimento de diabetes em pessoas com HIV.

Um outro estudo, conduzido em Malawi, na África Oriental, encontrou níveis elevados de colesterol LDL e diabetes em pessoas que vivem com HIV e há muitos anos sob tratamento antirretroviral, especialmente em pessoas com mais de 60 anos, em comparação com seus pares soronegativos. O estudo recrutou 379 pessoas com HIV e 356 sem HIV. 73% eram mulheres. A maioria das pessoas fazia tratamento com Tenofovir, Lamivudina e Efavirenz, depois de terem iniciado o tratamento com Estavudina, Lamivudina e Nevirapina, ao longo de mais de 11 anos. A conclusão do estudo é que as pessoas com HIV com mais de 60 anos são muito mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 e a ter níveis elevados de colesterol LDL.

Mas quando se fala de envelhecimento e HIV não se fala apenas diabetes. Vários tipos de câncer são mais comuns em pessoas mais velhas que vivem com HIV, de acordo com relatório publicado na Clinical Infectious Diseases, nos Estados Unidos. Indivíduos soropositivos de 50 anos ou mais mostraram uma incidência significativamente maior de vários tipos de câncer, incluindo aqueles que não são normalmente considerados relacionados ao HIV. O risco de câncer de pulmão, anal, fígado e oral se mostrou maior à medida que as pessoas com HIV envelhecem.

Entretanto, estes mesmos pesquisadores descobriram que o envelhecimento em si não se comprovou responsável pelo maior aumento no risco de câncer nas pessoas com HIV, em comparação com a população em geral: a prevalência de fatores de risco, como tabagismo, consumo de álcool e infecções virais causadoras de câncer é que são responsáveis pelo aumento do risco de alguns tipos de câncer em pessoas idosas com HIV. De fato, fumar causa um em cada cinco tipos de câncer entre pessoas com HIV na América do Norte, de acordo com uma pesquisa publicada no jornal Aids. Por alguma razão, parece que o pulmão das pessoas fumantes que vivem com HIV  é mais susceptível ao câncer e outras complicações respiratórias do que das pessoas sem HIV: de acordo com pesquisadores franceses, a infecção pelo HIV está associada à obstrução das vias aéreas, incluindo enfisema.

Por sua vez, a prevalência de doenças vasculares cerebrais silenciosas — precursoras de condições neurocognitivas mais graves — é significativamente maior entre as pessoas soropositivas de meia idade, em comparação com a população em geral, de acordo com uma pesquisa francesa publicada na Clinical Infectious Diseases. Esse estudo incluiu 456 pessoas com HIV e 156 sem HIV, observadas entre 2013 e 2016. Aproximadamente dois terços da amostra soropositiva foram diagnosticados antes do advento do tratamento antirretroviral, em 1996. O número médio de células CD4 foi de 196 entre as pessoas com HIV e 665 células/mm³ entre as pessoas sem HIV.

Todas, complicações observadas mais comumente em pessoas que vivem com HIV há mais tempo e que passaram pelos primeiros antirretrovirais, tão tóxicos. Aos jovens soropositivos, ao que tudo indica, cada vez menos complicações a longo prazo. É como se experimentássemos a vida com o vírus de maneira diferente, em tempos diferentes. Perece mesmo que temos nossos próprios tempos.

Tratamento contra câncer de pulmão pode reduzir reservatório de HIV

Nivolumab, um medicamento para tratamento de câncer de pulmão, pode induzir o esgotamento do reservatório de HIV, de acordo com uma carta publicada nos Anais de Oncologia e noticiada no Infectious Disease Advisor.

A Dra. Amélie Guihot, do Hôpital Pitié Salpêtrière, em Paris, e colegas descreveram o caso de um fumante de 51 anos, que vive com HIV desde 1995 e que foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio IIIa em maio de 2015. Menos de seis meses após o término da quimioterapia, o paciente sofreu uma recaída e foi tratado com Nivolumab, como segunda linha de tratamento contra o câncer, em dezembro de 2016. Sua carga viral sanguínea do HIV já era indetectável, sob Emtricitabina, Tenofovir e Dolutegravir.

Os autores observaram então um aumento progressivo e modesto da carga viral do HIV, até 101 cópias/mL, no 45º dia, seguido de uma diminuição para 31 cópias/mL, no 120º dia. Também observaram um leve aumento na ativação das células T, entre o 14º e 15º dias, com diminuições foram observadas nas células T PD1 + CD4 e CD8 no 30º dia. Um aumento acentuado foi observado nas frequências de células T CD8 e RT, específicas contra o HIV, entro 0 30º ao 120º dias. Uma diminuição drástica e persistente foi então observada no DNA do HIV associado às células. “Este primeiro relatório de uma redução bem sucedida dos reservatórios de HIV e abre novas perspectivas terapêuticas para a cura do HIV”, escreveram os autores.

São Paulo tem tratamento inédito para prevenção do HIV

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo iniciou na semana passada a distribuição do medicamento Truvada no SUS (Sistema Único de Saúde). O item passa a ser fornecido como terapia pré-exposição (PrEP) para prevenção do HIV às pessoas com maior chance de exposição. A iniciativa prevê, nos dois meses iniciais, a oferta do Truvada a 1.110 pessoas em 14 serviços municipais e estaduais (confira abaixo), localizados nas cidades de São Paulo, São Bernardo, Campinas, Santos, Piracicaba, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.

Esses locais foram definidos em conjunto com o Ministério da Saúde, e a expectativa é que a medida seja ampliada gradativamente para demais localidades do Estado. O medicamento é indicado a homens que fazem sexo com homens, mulheres transexuais, travestis, profissionais do sexo que tenham tido relações sexuais sem uso de preservativo nos últimos seis meses e/ou episódios recorrentes de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e/ ou tenham usado repetidamente medicamentos de profilaxia pós-exposição (PEP).

Também poderão receber o remédio casais sorodiscordantes para o HIV (quando um parceiro tem o vírus e outro, não) que mantêm ou tenham tido relações sexuais sem uso de preservativos. Para recebimento, o interessado deve comparecer à unidade de referência de seu município e passar por avaliação para critérios de elegibilidade, incluindo a realização de teste/diagnóstico rápido de HIV. Caso o resultado do exame seja negativo, e o paciente se encaixe nos critérios estabelecidos para recebimento do tratamento, será indicado a receber a PrEP. Em caso de positividade, o paciente será encaminhado para tratamento e acompanhamento da infecção pelo HIV, como já prevê o fluxo da rede.

O Truvada é contraindicado para pessoas com doença renal, porém os locais de referência farão avaliações médicas em todos que procurarem pelo tratamento. O medicamento pode ter efeito colateral leve, como dores de cabeça, náuseas e inchaço. Aos pacientes que aderirem à terapia, é recomendado o uso de preservativo durante as relações sexuais, pois a PrEP não protege contra outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, o medicamento começa a fazer afeito a partir do sétimo dia para exposição por relação anal e a partir do vigésimo dia para exposição por relação vaginal.

Durante o tratamento, os usuários serão acompanhados pelo serviço de referência. Após o início do tratamento, haverá retorno num período de 30 dias e, depois, a cada três meses. A Secretaria desenvolve um trabalho permanente de conscientização, prevenção, diagnóstico e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, por meio do Programa Estadual DST/AIDS, com apoio dos municípios.

A distribuição do Truvada na rede pública de saúde é um novo passo do ponto de vista preventivo, mas é fundamental que as pessoas continuem utilizando preservativos para proteger a si mesmas e seus parceiros. Confira abaixo a relação de serviços que oferecem a PrEP.

Capital:

  • Centro de Referência e Treinamento DST/Aids.
  • Ambulatório de Infectologia da Unifesp
  • Casa da Aids
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) DST/Aids Butantã
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) Fidélis Ribeiro
  • SAE (Serviço de Assistência Especializada) Ceci
  • CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) Pirituba
  • CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) Santo Amaro

Outros municípios:

  • São Bernardo do Campo – Policlínica Centro
  • Santos – Serviço de Atenção Especializada-Adultos
  • Campinas – Centro de Referência em IST/Aids
  • Ribeirão Preto – Centro de Referência em Especialidades Central
  • Piracicaba – Centro de Doenças Infecto Contagiosas (CEDIC)
  • São José do Rio Preto – Ambulatório de Doenças Crônicas Transmissíveis

Fonte: Portal do Governo, em 22 de janeiro de 2018

Febre Amarela

Tive que atravessar um monte de pessoas no posto de saúde onde retiro meus medicamentos. A fila era longa e até já deixava de ser fila, com todos circundando o segurança para ouvi-lo falar.

“— A quota de hoje acabou!”, gritou ele.

“— Mas não era até às 18h?”, perguntou um homem.

“— Era, sim. Mas vocês têm que entender: a demanda tem sido muito alta. Hoje, as vacinas acabaram às 15:00h. Agora, só amanhã”, concluiu o segurança, impedindo a entrada das pessoas.

“— Eu vou na farmácia”, anunciei.

O segurança me deixou passar e indicou o caminho que eu já sabia seguir, em direção ao fundo, contornando o prédio, passando a porta à direita. Embora a fila na entrada do posto de saúde estivesse cheia de pessoas, na espera da farmácia não havia ninguém.

A febre amarela é uma doença hemorrágica viral grave transmitida por mosquitos. Não há tratamento antiviral. No entanto, existe uma vacina altamente eficaz, que começou a ser indicada, em outubro do ano passado, pelo Governo de São Paulo, em três bairros da zona norte da capital: Casa Verde, Tremembé e Vila Nova Cachoeirinha. Isso aconteceu depois que cinco macacos, que viviam na região do Horto Florestal, morreram infectados com febre amarela. Aquele pode ter sido o epicentro — ou um dos epicentros — de uma doença que acabou se espalhando por todo o Estado. Em um ano, foram confirmadas 21 mortes pela doença e, nessa terça-feira, dia 16 de janeiro de 2018, Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a considerar todo o estado de São Paulo como área de risco de febre amarela.

Com esse alerta da OMS, a vacina passa a ser recomendada para viajantes internacionais que venham a São Paulo — e também para os estados das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, bem como para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Maranhão, além de partes dos estados da região Sul, Bahia e Piauí. A vacinação deve ser feita ao menos dez dias antes da viagem. A decisão da OMS de classificar a cidade de São Paulo como área de risco não quer dizer que haja perigo de contágio na capital. Como as autoridades de outros países não podem saber para qual área de São Paulo cada viajante visitará, é praxe a OMS incluir todo o estado, mesmo em áreas em que não haja foco da doença — mesmo assim, a recomendação da OMS inclui a capital paulista.

A entidade aconselha também quem vai viajar para o Estado a adotar medidas para evitar picadas de mosquitos, com o uso de repelentes, por exemplo, e a estar atento aos sintomas da doença. As primeiras manifestações da doença são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar (até dois dias), quando podem ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), manifestações hemorrágicas e cansaço intenso. A maioria dos infectados se recupera bem e adquire imunização permanente contra a febre amarela.

Em resposta, ainda nessa terça-feira, dia 16, o Governo de São Paulo anunciou que a vacinação fracionada contra a febre amarela em 54 municípios do estado será antecipada para o dia 29 de janeiro. Anteriormente, o Governo havia anunciado que a aplicação das doses seria realizada a partir do dia 3 de fevereiro. Enquanto isso, o Ministério da Saúde anunciou uma campanha de vacinação, em conjunto com os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O objetivo é vacinar 19,7 milhões de pessoas de 76 municípios e evitar a circulação e expansão do vírus.

A febre amarela tem esse nome por conta da icterícia apresentada por alguns pacientes. O vírus da febre amarela é transmitido pela picada dos mosquitos transmissores infectados. A doença não é passada de pessoa a pessoa. A vacina é a principal ferramenta de prevenção e controle da doença. Existem dois diferentes ciclos epidemiológicos de transmissão: o silvestre e o urbano. Mas a doença tem as mesmas características sob o ponto de vista etiológico, clínico, imunológico e fisiopatológico.

No ciclo silvestre, os primatas não humanos (macacos) são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus e os vetores são mosquitos com hábitos estritamente silvestres, sendo os gêneros Haemagogus e Sabethes os mais importantes na América Latina. Nesse ciclo, o homem participa como um hospedeiro acidental ao adentrar áreas de mata. No ciclo urbano, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. A pessoa apresenta os sintomas iniciais 3 a 6 dias após ter sido infectada.

A última notícia do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde data de 23 de março de 2017. Ela afirma que, de acordo com a Nota Informativa nº 26, da Secretaria de Vigilância em Saúde, os adultos e adolescentes que vivem com HIV não têm restrições para se vacinar contra a febre amarela, desde que não apresentem imunodeficiência grave.

A Nota, que estabelece recomendações sobre a vacinação contra a febre amarela em pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA), recomenda também que a administração das vacinas em pacientes sintomáticos ou com imunodeficiência grave seja adiada até que a reconstituição imune seja obtida com uso da terapia antirretroviral. Para fins de vacinação, poderá ser utilizado o último exame de contagem de CD4, independentemente da data, desde que a carga viral atual (menos de seis meses) se mantenha indetectável.

Cientistas suíços dizem que a carga viral indetectável é um fator importante no momento dessa vacinação. Eles descobriram que todas as pessoas com uma carga viral indetectável no momento da primeira vacinação contra a febre amarela continuaram a ter uma resposta protetora dez anos após a vacinação.

Os cientistas observaram dados de pacientes da África subsaariana que vivem com HIV. No momento da vacinação, 82% deles estavam tomando terapia antirretroviral, 83% suprimiram carga viral menor que 400 cópias/ml e sua contagem mediana de células CD4  de 536 células/mm³. Os pesquisadores acreditam que suas descobertas têm implicações para as estratégias de vacinação.

“Pacientes infectados pelo HIV montam uma resposta imune protetora de longa data contra a febre amarela até pelo menos dez anos, se forem vacinados enquanto estiverem em terapia antirretroviral.” Eles continuam: “Até mais dados estejam disponíveis, um único reforço após dez anos parece ser adequado para estimular a resposta da vacina no caso de uma nova viagem a uma área endêmica de febre amarela.”

Os autores recomendam que os pacientes com HIV devem ser vacinados contra a febre amarela uma vez que sua carga viral for suprimida e que eles devem receber um reforço após dez anos tratamento antirretroviral supressivo. No entanto, os pacientes que foram vacinados enquanto a carga viral era detectável deveriam ter sua resposta imune à vacina medida ou receber uma vacinação de reforço, independentemente do tempo desde a primeira vacinação contra a febre amarela.

Para pessoas sem HIV, uma dose da vacina é suficiente para garantir imunidade e proteção ao longo da vida. Efeitos secundários graves são extremamente raros. Os viajantes com contraindicações para a vacina de febre amarela — crianças com menos de nove meses de idade, mulheres grávidas ou amamentando, pessoas com hipersensibilidade grave à proteína do ovo e imunodeficiência grave — ou com mais de 60 anos devem consultar seu profissional de saúde para a avaliação cuidadosa de risco-benefício. O mesmo vale para quem vive com HIV: se você tem dúvidas sobre a vacina da febre amarela para o seu caso, converse com seu infectologista.

120 Batimentos Por Minuto

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT.

O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e do público em vários países. 120 Batimentos Por Minuto estreia hoje, 4 de janeiro de 2018.

“Eu amei esse filme. Não tem como eu ama-lo mais. Eu me emocionei do início ao fim. Campillo contou uma história sobre heróis, que salvaram muitas vidas”, disse emocionado o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes.