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Tratamento para o sistema imune desestabiliza reservatórios de HIV


Embora a terapia antirretroviral consiga reduzir a quantidade de HIV no sangue a um nível indetectável na maioria das pessoas cronicamente infectadas, ela não é capaz de eliminar os reservatórios de HIV que persistem em células do sistema imunológico infectadas de forma latente. Resultados apresentados na 21ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2016), em Durban, África do Sul, sugerem que a combinação de terapia antirretroviral com um tratamento imunológico de reforço pode desestabilizar os reservatórios virais em macacos infectados com o vírus da imunodeficiência símia (SIV), o equivalente ao HIV em macacos. O trabalho foi financiado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, parte dos National Institutes of Health, e liderado por Rama Amara, Ph.D., da Universidade de Emory.

O HIV infecta as células T CD4 do sistema imune. Outras células do sistema imunológico, chamadas células T CD8, ajudam a eliminar as células CD4 infectadas pelo HIV, mas sua capacidade de fazê-lo diminui ao longo do tempo. Estudos têm demonstrado que a perda da função das células T CD8 está associada a níveis elevados de uma proteína da superfície celular, denominada PD-1 e que os reservatórios de HIV se concentram em PD-1 e nas células CD4.

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Neste estudo, pesquisadores aplicaram 5 infusões de um anticorpo de bloqueio de PD-1 ou placebo em macacos infectados com SIV, 10 dias antes de iniciar os animais nos antirretrovirais. Os macacos que receberam o anticorpo anti-DP-1 produziram mais células CD8. Após o início da terapia antirretroviral, os níveis sanguíneos de SIV tornaram-se indetectáveis em uma média de 42 dias nos macacos tratados com anticorpo, em comparação com 140 dias naqueles que receberam placebo.

Oito meses após o início da terapia antirretroviral, os macacos receberam três infusões mensais de anti-DP-1 de anticorpos ou placebo. O bloqueador de PD-1 provocou aumentos transientes nos níveis sanguíneos de SIV, indicando que o tratamento pode ter desestabilizado os reservatórios latentes de SIV.

De acordo com os pesquisadores, estes resultados destacam o potencial do bloqueador de PD-1 para trabalhar em sinergia com os antirretrovirais e outros agentes terapêuticos, a fim de melhorar a função das células T CD8 e desestabilizar os reservatórios de HIV em humanos. Em última análise, tais estratégias potencialmente podem ser testada em pessoas, na tentativa de diminuir os reservatórios de HIV e reduzir a quantidade de HIV no corpo de uma pessoa, atéo ponto em que o sistema imune possa controlar a infecção sem a necessidade de medicamentos antirretrovirais.

Em 21 de julho de 2016 pelo National Institute of Allergy and Infectious Diseases

Zero: nenhuma transmissão do HIV entre participantes do estudo Partner


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Com resultados publicados para coincidir com a IAS 2016, conferência que começa em Durban na próxima semana, o estudo Partner mostrou que o impacto do tratamento antirretroviral contra o HIV na redução da transmissibilidade do vírus irá beneficiar milhões de pessoas no mundo. Os resultados invertem a suposição comum de que, por definição, algum nível de risco sempre existe quando um dos parceiros é soropositivo e reforçam a ideia de que a transmissão do HIV sob tratamento e carga viral indetectável não representa nada além de um risco teórico.

O estudo Partner traz boa evidência científica de que a carga viral indetectável pode ser um limiar sob o qual a transmissão sexual do HIV não ocorre. A importância do estudo Partner está no fato dele incluir casais homossexuais e heterossexuais, e mediu o risco em pessoas que não estavam usando preservativos para então estimaram os riscos absolutos.

Estudos anteriores se concentraram quase exclusivamente em pessoas heterossexuais que ainda relatavam altos índices de uso de preservativo. O estudo Partner fornece mais de três vezes a quantidade de tempo de acompanhamento de pessoas que não utilizam preservativos, em comparação a todos os estudos anteriores combinados. Isso representa 500 anos de acompanhamento de pessoas que fazem sexo anal sem preservativo.

 

Método

Entre setembro de 2010 e maio de 2014, o estudo Partner inscreveu prospectivamente 1.166 casais sorodiscordantes em 75 centros clínicos espalhados em 14 países europeus. Os critérios de inclusão determinavam que o parceiro positivo deveria ter carga viral indetectável em tratamento antirretroviral e que o casal não tivesse o hábito de sempre usar preservativos durante o sexo.

O acompanhamento incluiu controle de rotina da saúde sexual (incluindo teste de HIV para os parceiros soronegativos) e cada participante também preencheu questionários sobre o histórico sexual, a fim de avaliar o risco nas diferentes atividades. Os casais só foram incluídos na análise final quando a carga viral mais recente dos parceiros soropositivos era indetectável — definida como menor de 200 cópias/mL. O objetivo primário era analisar a taxa de transmissão entre os parceiros, determinada por análises filogenéticas do vírus para todos os casais em que o parceiro soronegativo se tornar soropositivo.

 

Resultados

De 1.166 casais inscritos, 1.004 casais foram à pelo menos uma visita de acompanhamento e 888 casais forneceram 1.238 anos de acompanhamento de casais (mediana de 1,3 anos por casal, IQR 0,8-2,0). Isto incluiu 548 casais heterossexuais e 340 casais gays masculinos. As principais razões para os dados não serem incluídos na análise de acompanhamento foram: não ir à primeira visita de acompanhamento (n=162), falta de teste de HIV (n=20), uso de PEP ou PrEP (n=9), nenhuma falta de uso de preservativo sexo (n=15), carga viral superior a 200 cópias/mL (n=55) e falta de resultado de exame de carga viral (n=17). Não houve diferença significativa entre os casais que contribuíram para os dados de acompanhamento  em comparação com aqueles que não o fizeram.

Embora 11 pessoas tenham se tornado soropositivas, nenhuma dessas transmissões estava geneticamente ligada ao parceiro que já era soropositivo inscrito no estudo, mesmo depois de pelo menos 58.000 vezes distintas em que os casais tiveram relações sexuais com penetração sem preservativo.

Dados demográficos iniciais foram relatados — como acontece com todos os resultados — por categorias de condição sorológica para o HIV, gênero e sexualidade, com algumas diferenças entre os grupos. Isso faz com que o resumo dos resultados seja complexo, mas a média de idade variou de 40 a 44 (com IQR geral variando de 31 a 50 anos). Homens gays e mulheres heterossexuais eram alguns anos mais jovens do que os homens heterossexuais. Aproximadamente 80% dos homens heterossexuais eram brancos, em comparação com 70% de mulheres e 90% dos homens homossexuais. A maior percentagem de homens homossexuais tinha nível superior de escolaridade em faculdade/universidade (cerca de 50%, em comparação com 19% a 35% para os heterossexuais). Embora algumas dessas diferenças sejam significativas, com exceção da falta de jovens adultos inscritos, elas refletem a diversidade das pessoas vivendo com HIV.

Parceiros soropositivos já estavam em tratamento antirretroviral por uma média de 10,6 anos (IQR: 4,3-15,6), 7,5 anos para os homens heterossexuais (IQR: 3,3-14,2) e 4,8 anos para as mulheres heterossexuais e gays (IQR: 1,9-11,4). No início do estudo, os casais relataram ter já manter relações sexuais sem preservativos durante uma média de 2 anos (IQR 0,5-6,3), com diferenças entre os grupos. Por exemplo: casais heterossexuais já mantinham relações sexuais sem preservativos há cerca de 3 anos (IQR 0,7 a 11 anos) em comparação com 1,5 anos para casais homossexuais (IQR 0,5 a 4 anos). Cerca de 23% dos casais estavam em relacionamentos novos/recentes (menos de 6 meses). A adesão ao tratamento (maior que 90%) foi semelhante nos três grupos. Todos os grupos tinham proporções similares de contagens de CD4 maior que 350 células/mm³ (85% a 91%).

Baseado em dados dos parceiros soronegativos, em geral, os casais relataram ter relações sexuais sem preservativo uma média de 37 vezes por ano (IQR 15 a 71), com casais homossexuais relatando um total de pelo menos 22.000 atos sexuais sem preservativo (mediana 41; IQR 17-75) e casais heterossexuais mais de 36.000 vezes (mediana 35; IQR 13 a 70). Estas eram estimativas aproximadas a partir dos relatos e os parceiros nem sempre relatavam os mesmos números. Alguns casais relataram sexo fora do relacionamento estável: 108 casais homossexuais (33%) e 34 casais heterossexuais (4%).

Nenhuma das 11 infecções pelo HIV em parceiros soronegativos (dez homossexuais e um heterossexual) estava geneticamente ligada ao parceiro soropositivo inscrito no estudo. A maioria das pessoas (8/11) relataram ter relações sexuais sem preservativo com pessoas de fora do relacionamento estável. Todas as amostras (n=22) foram sequenciadas geneticamente com sucesso para pol e 91% (n=20) foram sequenciadas para env.Nenhum dos sequenciamentos mostrou ligação com os parceiros já soropositivos inscritos no estudo e os resultados foram consistentes depois de usar vários métodos diferentes de análise. Detalhes adicionais para estas análises estão descritos no material suplementar do estudo.

Com zero transmissão, o limite superior do intervalo de confiança de 95% (IC 95%) para o estudo global foi de 0,3 por 100 casais-ano de acompanhamento. Cada categoria de riscos específicos, tinham diferentes limites superiores de 95%: por exemplo, 0,88 para o sexo heterossexuais em geral e 0,84 para o sexo gay em geral.

Isto significa que o intervalo de confiança superior de 95% para o sexo anal receptivo para os homens homossexuais (2,70 com ejaculação e 1,68 sem ejaculação) deve ser interpretado de acordo com o tamanho da amostra: havia menos casais-ano de acompanhamento, de modo que o limite superior é, por definição, maior. Enquanto este cálculo é feito para definir o intervalo potencial dentro da qual o verdadeiro risco pode estar, o intervalo de confiança de 95% não deve ser interpretado como um indicativo do risco que foi observado no estudo. Para ilustrar esta dificuldade, o maior risco estimado para o sexo anal heterossexual com intervalo de confiança superior de 95% foi de 12,71 e 8,14 (com e sem ejaculação, respectivamente) são sustentados por menos casais-ano de acompanhamento com este como o risco primário. Há de se notar, porém, que mais de 20% de casais heterossexuais relataram praticar sexo anal.

O estudo em curso Partner 2 continua a acompanhar casais gays do primeiro estudo e a recrutar casais homossexuais adicionais, a fim de produzir uma base de dados semelhante ao que já existe para casais heterossexuais, com acompanhamento até 2019. Também é digno de nota o fato de que, durante o estudo, 91 parceiros soropositivos relataram outras DSTs: 16 entre homens heterossexuais, 16 entre mulheres heterossexuais e 59 homens homossexuais — uma quantidade correspondente de DSTs a observada nos parceiros soronegativos, também sem qualquer aumento do risco de transmissão do HIV.

 

Comentários

Estes resultados são simples de entender: zero transmissão em mais de 58.000 vezes em que as pessoas tiveram relações sexuais sem preservativo. Estes números são impressionantes, especialmente pela complexidade da análise que foi necessária para provar que nenhum dos novos diagnósticos estava ligado à transmissões a partir de dentro dos casais inscritos no estudo.

Juntos, estes dados fornecem a estimativa mais forte sobre o risco real de transmissão do HIV quando uma pessoa soropositiva tem carga viral indetectável — e que esse risco é efetivamente zero. Embora nenhum estudo possa excluir a possibilidade de que o verdadeiro risco possa situar-se dentro do intervalo de confiança de 95%, nem mesmo que o valor real é de fato zero devido a algum mecanismo ainda não comprovado, o intervalo de confiança de 95% nunca pode ser zero, mas apenas se torna cada vez mais estreito. Nem a presença de DSTs nem as prováveis flutuações na carga viral entre os testes tiveram qualquer impacto em facilitar a transmissão.

Os resultados fornecem um conjunto de dados capazes de questionar se a transmissão com carga viral indetectável é realmente possível. Eles devem ajudar a normalizar o HIV e desafiar o estigma e a discriminação. Os resultados também desafiam as leis de criminalização que, em muitos países, incluindo os Estados Unidos, continuam a prender centenas de pessoas com base em premissas de risco que estes resultados refutam, mesmo quando os preservativos são usados e a carga viral é indetectável.

O ativista Sean Strub, do projeto SERO disse: “Centenas de pessoas vivendo com HIV nos Estados Unidos foram acusados de infracções penais para o risco percebido ou potencial de exposição ou transmissão do HIV. Alguns cumpriram ou estão cumprindo longas penas de prisão por cuspir, arranhar ou morder e outros por não serem capazes de provar que tinham divulgado seu status positivo para o HIV antes de ter contato sexual (mesmo na ausência de qualquer risco de transmissão do HIV). A criminalização HIV criou uma subclasse viral na lei, onerando ainda mais a comunidade marginalizada, colocando uma parcela desproporcional da responsabilidade partilhada da prevenção de infecções sexualmente transmissíveis em apenas uma das partes, desencorajando, assim, as pessoas em risco a fazer o teste diagnóstico de HIV.”

Os resultados também terão um impacto positivo na qualidade de vida, tanto para indivíduos soropositivos quanto para soronegativos que estão em relacionamentos sorodiscordantes, independentemente da opção de usar preservativos. O estudo Partner 2, em andamento, continua a acompanhar os casais homossexuais e ainda está recrutando novos casais para alcançar um poder estatístico semelhante para o sexo anal em comparação com o sexo vaginal.

Por Simon Collins para o TheBody em 12 de julho de 2016

Referências:
  1. Rodger AJ et al for the PARTNER study group. Sexual activity without condoms and risk of HIV transmission in serodifferent couples when the HIV-positive partner is using suppressive antiretroviral therapy. JAMA, 2016;316(2):1-11. DOI: 10.1001/jama.2016.5148. (12 July 2016). Full free access.
  2. Partner study, supplementary material. JAMA (16 July 2016).
  3. i-Base Q&A from the study.
  4. Partner 2 website.

Cura ou remissão sustentada do HIV estão no centro das atenções

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Dezesseis anos atrás, a histórica 13ª Conferência Internacional de Aids inspirou o novo paradigma de acesso ao tratamento contra o HIV que ajudou a mudar a trajetória da epidemia global de aids. Este ano, com o retorno de 18.000 cientistas, políticos, ativistas e pessoas que vivem com HIV para Durban, na África do Sul, a Aids 2016 irá destacar os últimas avanços e desafios em uma área de rápida evolução na pesquisa científica, a qual poucos poderiam ter imaginado na primeira conferência de Durban — a perspectiva do desenvolvimento de abordagens seguras, eficazes e globalmente escaláveis para curar ou alcançar a remissão sustentada da infecção pelo HIV.

“A pesquisa para alcançar a cura está em estágio de formação, mas avanços significativos estão sendo feitos.”

“A cura do HIV tem o potencial de alterar o futuro desta epidemia”, disse a Prêmio Nobel Françoise Barré-Sinoussi, copresidente do Iniciativa pela Cura do HIV da International Aids Society (IAS). “Com 37 milhões de pessoas vivendo atualmente com HIV em todo o mundo, e outras 2 milhões de novas infecções a cada ano, alcançar a remissão sustentada da infecção pelo HIV ou uma abordagem eficaz para a cura seria um avanço inovador na área da saúde global. A pesquisa para alcançar a cura está em estágio de formação, mas avanços significativos estão sendo feitos e serão explorada em Durban, no quinto Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV e com o lançamento da Estratégia Científica Global da IAS: Rumo à uma Cura do HIV.”

“A cura se tornou uma prioridade na pesquisa do HIV.”

“A pesquisa da cura do HIV tornou-se uma realidade científica com o lançamento da primeira Estratégia Científica Global da IAS, em 2012”, observou o presidente da IAS, Chris Beyrer. “Hoje, a cura do HIV se tornou uma prioridade na pesquisa do HIV, marcada por avanços significativos em nossa compreensão sobre os desafios científicos e oportunidades, mais colaborações de pesquisa com foco em cura, e um novo otimismo de que é viável uma cura ou a remissão sustentável do HIV.”

 

Os principais eventos sobre a cura do HIV na Aids 2016 são:

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Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV (dias 16 e 17 de julho): O quinto Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV ocorre imediatamente antes da Aids 2016, no Centro de Convenções Internacional de Durban. Copresidido por Françoise Barré-Sinoussi (Instituto Pasteur, Paris), Steven Deeks (Universidade da Califórnia, São Francisco) e Sharon Lewin (Instituto Doherty, da Universidade de Melbourne), o simpósio inclui palestras sobre os mais recentes avanços científicos na pesquisa da cura do HIV, juntamente com oportunidades de diálogo entre cientistas, pesquisadores clínicos, representante de agências de financiamento e a comunidade envolvida na pesquisa do HIV em todo o mundo, através de sessões, apresentações e mesas-redondas.

Os principais palestrantes no simpósio incluem algumas das figuras líderes mundiais na pesquisa da cura do HIV, incluindo Anthony Fauci do National Institutes of Health americano; Andrew Phillips da University College de Londres; Elizabeth Connick da University of Arizona; Thumbi Ndung’u da Universidade de Kwazulu-Natal, África do Sul; e Olivier Lambotte do Hôpital Bicêtre. Entre os destaques de pesquisa a serem apresentados estão:

  • Tráfego de células CCR5 editadas para tecidos de reservatórios virais e passam por seleção SHIV-dependente positiva em primatas não humanos: Christopher Peterson, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, EUA, apresenta uma estratégia de edição de gene em macacos que resulta em enxerto estável de CCR5-mutante e resistente ao SHIV HSPCs e seus descendentes, no sangue e nos tecidos conhecidos por servir como reservatórios virais.
  • Ativação celular IL-15 heterodimérica induz à ativação de células efetoras e o tráfego para os centros germinativos de macacos infectados com SIV: George Pavlakis do National Cancer Institute e National Institutes of Health, nos EUA, discute o papel da hetIL-15 no aumento do número de células T efetoras CD8, células NK ativadas e tráfego para os centros germinais de macacos infectados com SIV.
  • Não há evidência de replicação contínua em compartimentos de tecido sob a terapia antirretroviral combinada: Barbara Felber do National Cancer Institute e National Institutes of Health, nos EUA, apresenta este pequeno e importante estudo, sugerindo que os antirretrovirais bloqueiam a replicação do HIV ativo, incluindo em tecidos. Este estudo inclui pacientes em tratamento por longo prazo.
  • Efeito do Vorinostat, Hidroxicloroquina e Maraviroc em viremia após a interrupção do tratamento em indivíduos que iniciam ART durante a infecção aguda pelo HIV: Jintanat Ananworanich, do Centro de Pesquisas de Aids da Cruz Vermelha Tailandesa, apresenta este estudo randomizado, no qual os participantes de um dos braços do estudo foram tratados com Vorinostat, Hidroxicloroquina e Maraviroc, seguido por interrupção do tratamento. Todos os participantes tiveram relapso viral após a interrupção do tratamento, independentemente do tratamento.
  • Consórcio EpiStem — transplante alogênico em HIV-1 indivíduos infectados: Annemarie Wensing do Centro Médico da Universidade de Utrecht, Holanda, descreve uma coorte europeia que inclui 13 pacientes transplantados, quatro deles com um doador CCR5 delta 3, um com um heterozigoto e oito com um CCR5 tipo selvagem. A análise preliminar dos dados virológicos e imunológicos a partir das amostras de sangue e tecidos mostram uma redução sistemática dos reservatórios de HIV-1 para níveis muito baixos.
  • Persistência do SIV em macacos rhesus tratados com antirretrovirais: Ann Chahroudi, da Universidade de Emory. traz relatórios sobre a primeira demonstração de supressão persistente de viremia abaixo do limite de detecção em macacos rhesus infantis infectados com SIV e tratados com antirretrovirais.
Em 16 de julho de 2016 pela assessoria de imprensa da Aids 2016

 

A incrível jornada dos soropositivos mais velhos da Índia


Indian Express

“22 de julho de 1987. Como posso esquecer esta data? Esse foi o dia em que me disseram que eu tinha HIV e que eu teria só mais um ano de vida”, conta Noori Saleem, ativista transgênero de 66 anos, de Chennai.

Nascido com o nome de Noor Mohammed, em Ramanathapuram, Tamil Nadu, fugiu de casa quando tinha 13 anos de idade, cansado de ser intimidado por conta de seu jeito feminino e pelos espancamentos frequentes de seu pai. “Eu estava empregado por uma família da casta Chettiar, em Chennai. Ganhava a vida lavando louça e roupas. Foi nessa época que eu descobri a menina em mim”, diz Noori. Ele tinha 18 anos quando seu pai morreu, e voltou para casa prestar sua homenagem.

“Como era difícil pagar as contas, continuei o trabalho sexual.”

Quando percebeu que seria forçado a se casar com uma mulher, fugiu novamente — desta vez para Mumbai. “Conheci Pattama, um transgênero, e fiquei em sua casa. Eu fazia apresentações em casamentos, dançando e cantando em cerimônias de nascimento. Mas logo entrei para o trabalho sexual. Foi quando conheci meu parceiro, que era de Beed, Maharashtra. Ele me amava por quem eu era e não se incomodava por eu ser transexual ou hijra [pessoas transgêneros e intersexuais de homem para mulher na Índia, Paquistão e Bangladesh]. Fomos para Chennai, mas como era difícil pagar as contas, continuei o trabalho sexual”, diz ela.

Fazia quatro anos desde que o vírus da imunodeficiência humana (HIV) tinha sido identificado por cientistas nos EUA e na França, em 1983. Na Índia circulavam rumores de uma terrível doença, incurável, que perseguia os profissionais do sexo. “Havia conversas sobre HIV. Junto com outras pessoas, também me ofereci para fazer o teste no meu sangue”, diz Noori.

Noori foi diagnosticada em 1987.

Noori foi diagnosticada em 1987.

Em maio de 1986, a Dra. Suniti Solomon, uma microbiologista de 47 anos de idade da Faculdade de Medicina de Madras, estava à frente de uma equipe de pesquisadores que estudavam o HIV. Treinada em patologia nos EUA e no Reino Unido, ela tinha uma forte suspeita de que o vírus já tinha feito incursões na Índia.

Como parte do projeto, a equipe de Solomon coletou 100 amostras de sangue de um grupo de prostitutas de Bombaim, que tinham sido detidas pela polícia e confinadas em uma casa em Madras, como prisão preventiva. Destas, seis testaram positivo para o HIV. Solomon enviou as amostras dos testes para a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA. Os diagnósticos foram confirmados. Em poucos meses, um segundo grupo de profissionais do sexo de Mylapore foi testado — Noori era uma delas.

“Por ser transgênero, eu nem sequer recebi tratamento.”

“Foi uma época insana. Estávamos com muito medo de tudo. Por ser transgênero, eu nem sequer recebi tratamento. No hospital, eles se recusaram a me deixar ficar na fila das mulheres e os homens se opuseram quando fui para a deles. Me olhavam com desgosto e ódio, mas eu estava determinada a cuidar da minha saúde”, diz ela. Solomon, no entanto, garantiu que ela fosse tratada. “Aos poucos, ela me convenceu a desistir do trabalho sexual”, diz Noori.

“O estigma continua a ser um dos maiores problemas.”

Solomon, que faleceu no ano passado, ajudou a criar o primeiro centro de aconselhamento e testagem voluntária de HIV na Índia, na Faculdade de Medicina de Madras. Ela também criou o YR Gaitonde Centre for Aids Research and Education (YRG CARE), em 1989, agora liderado por seu filho, Dr. Sunil. “Imagine o choque e pânico, especialmente para as pessoas que eram gays e tinham que dizer que eram HIV positivo. O estigma continua a ser um dos maiores problemas, especialmente para grupos de alto risco, incluindo a crescente comunidade de usuários de drogas injetáveis”, diz ela.

***

“Se você voltar aqui de novo, vou matá-lo. Em seguida, cuspiu no meu rosto e foi embora”, lembra Shyamala Natarajan. Em Setembro de 1988, Natarajan era uma jornalista de 28 anos de idade. Ela se aproximou do governo de Tamil Nadu, pedindo-lhes para deixá-la visitar uma casa de prisão preventiva, onde as mulheres profissionais do sexo que tinham testado positivo para o HIV desde 1986 eram mantidos para que não “contaminassem” outras pessoas.

Elas tinham sido preso por terem sido diagnosticadas com HIV.

Originalmente detidas sob a Lei de Prevenção da Imoralidade e condenadas a até três anos de prisão em uma casa de detenção preventiva, elas não foram liberadas, mesmo quando tinham cumprido a pena. Na verdade, elas tinham sido preso por terem sido diagnosticadas com HIV. “Não tive absolutamente nenhum acesso a qualquer uma das profissionais do sexo. Me disseram para ir para casa e cuidar do meu filho e do meu marido. Então, decidi visitar a casa de prisão preventiva como assistente social”, conta ela.

Mulheres entre 20 e 25 anos estavam confinadas.

Em um edifício em ruínas, mulheres entre 20 e 25 anos estavam confinadas, sem qualquer conhecimento sobre a doença que tinham contraído e sobre o que estava por vir. Elas eram chamadas de “poços de infecção”, sem levar em conta os homens que as haviam infectado e estavam livres, sem diagnóstico. “Eles não disseram nada e apenas as largaram em uma casa de detenção preventiva. Uma menina com lágrimas escorrendo pelo rosto veio até mim e disse que tinha um filho de um ano e meio de idade no hospital. “Ninguém vem me visitar. Eu não sei o que aconteceu com o meu filho. Vá embora e não escreva nossas histórias”, Natarajan relembra suas palavras.

Selvi, que estava no primeiro lote de trabalhadoras do sexo confinadas, sabia que algo estava errado com seu sangue, mas lhe foi negada qualquer informação. “Não havia nenhuma lei que dissesse um quem tinha HIV deveria ser preso. Foi quando eu impetrei um mandado no Supremo Tribunal de Madras. Um comissário independente foi nomeado para analisar a questão. Eles reconheceram a validade do pedido e liberaram as mulheres. Em seguida, me demiti do jornalismo e criei o South India Aids Action Programme (SIAAP). Em 1993, Selvi começou a trabalhar na organização”, conta Natarajan. Em 1990, a Suprema Corte de Madras ordenou a libertação das mulheres da casa de prisão preventiva.

Natarajan relembra sua missão em 1989. “Era simples: prevenção da propagação do HIV. Os direitos das pessoas identificadas como ‘grupos de alto risco’ ou infectados com HIV eram rotineiramente abusados. Mesmo a idéia de aconselhamento para prevenção de HIV era inexistente. O sentimento público era hostil, a participação de ONGs era quase nula e o dinheiro dos doadores era escasso”, conta ela.

***

O primeiro Programa Nacional de Controle da Aids foi lançado em 1992, para controlar a propagação da infecção. Sob ela, mais de 500 clínicas de DST foram criadas para fornecer tratamento para doenças sexualmente transmissíveis em hospitais distritais e faculdades de medicina. Mais de 600 novos bancos de sangue foram criados.

Até 31 de outubro de 1993, um total de 494 casos de aids avançada foram notificados ao Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar, com os estados de Tamil Nadu e Maharashtra contribuindo com o maior número. Nos anos 1980 e 1990, o medo e a paranóia sobre o HIV não diminuíram. Os infectados com o vírus eram rejeitados por suas famílias e amigos. Havia informações inexatas, muito pouco conhecimento sobre o teste para HIV e, em geral, sem garantia dada aos pacientes.

“Ninguém queria tocar em uma pessoa infectada pelo HIV.”

“Era um silêncio sinistro. No começo, não sabíamos o que esperar. Logo, a notícia dos primeiros casos de mortes por aids deu uma indicação do quão terrível era batalha à nossa frente. As pessoas se recolhiam quando percebiam que o HIV era uma sentença de morte. Havia choque, medo e pânico. Ninguém queria tocar em uma pessoa infectada pelo HIV. Era pior do que ser um verme”, conta Rama Pandian, que era técnico de laboratório em um hospital de Chennai.

B Sekar e Rama Pandian (à direira) tinham 20 anos quando se infectaram com o HIV.

B. Sekar e Rama Pandian (à direita) tinham 20 anos quando se infectaram com o HIV.

Em 1992, Pandian, 24 anos, contraiu o HIV durante o manuseio de uma amostra de sangue. “Mesmo antes do resultado de confirmação do teste de HIV ser dado a mim, me disseram para sair. Era uma época terrível. Não havia centros de apoio ou aconselhamento, nem havia qualquer medicamento”, diz Pandian, que inaugurou a Rede Tamilnad de Pessoas Positivas, em 1994, para apoiar a crescente população de soropositivos. “Muitas pessoas morreram. Tive a sorte de sobreviver, pois me assegurei que comeria bem e faria exercício regularmente. Até me casei com uma mulher soropositiva, em 1999. Tivemos uma menina em 2002”, conta ele. A criança não tem HIV.

“Minha família me colocou para fora da casa.”

Em 1992, B. Sekar era um atleta de 27 anos de idade, de Chennai, graduado em História e ansioso por uma carreira como policial. Ele era gay, sem que seus pais soubessem. Cancelou a inscrição do teste para se juntar à polícia quando um exame médico frustrou suas esperanças. Ele havia testado positivo para o HIV. “Eu estava ciente da minha preferência sexual desde os 16 anos de idade e tudo veio à tona quando o teste mostrou HIV positivo. Minha família me colocou para fora da casa”, diz ele. “Minha mãe continuou perto de mim, mas o resto da família me abandonou. Foi só o meu querido amigo, Dr. Raj Kumar (que agora também é meu parceiro), que me apoiou.”

“Minha família e amigos ficaram envergonhados quando comecei a falar publicamente sobre ser gay e soropositivo.”

Confrontado com uma crise existencial, Sekar optou por não ceder ao ostracismo, e resolveu falar sobre o HIV. “Procurei meus amigos gays em parques, onde falei sobre esta nova doença. Entrei para uma ONG, encontrei amigos da comunidade gay e falei sobre o que aconteceu comigo. Disse-lhes que tinham que tomar cuidado. Minha família e amigos ficaram envergonhados quando comecei a falar publicamente sobre ser gay e soropositivo”, conta ele.

Com apoio da OMS, em 1997, Sekar e seus amigos criaram uma rede de ação comunitária chamada Social Welfare Association for Men (SWAM). “Não havia nenhum tratamento. Mas eu queria ajudar minha comunidade. Queríamos promover o comportamento sexual seguro e saudável, distribuir preservativos e alcançar os gays em Chennai”, diz ele. Sekar está hoje na segunda linha de medicamentos para o tratamento do HIV.

***

Hoje, a Índia tem um número estimado de 2,1 milhões de pessoas que vivem com HIV, com as crianças representando cerca de 7% deste total. Estima-se que tenha havido cerca de 86.000 novas infecções pelo HIV em 2015, um declínio de 66% das novas infecções desde o ano 2000 e de 32% desde 2007, o ano em que começou o Programa Nacional de Controle da Aids.

“Desde os primeiros dias da epidemia, quando não havia esperança e as intervenções eram poucas, estes três décadas fizeram uma enorme diferença, uma vez que hoje as pessoas podem viver uma vida quase completamente normal. Agora, precisamos consolidar estes ganhos e intensificar as intervenções de prevenção, especialmente entre as subpopulações que estão sob maior risco. Quem sabe, isso pode nos dar uma oportunidade de eliminar esta infecção viral crônica, que ainda não tem uma vacina ou uma cura”, diz o Dr. R Gangakhedkar, diretor do National Aids Research Institute (INIA), em Pune.

Manoj Pardeshi, secretário geral da Coalizão Nacional de Pessoas Vivendo com HIV, admitiu que o maior desafio hoje é garantir que as pessoas mantenham adesão ao tratamento. Enquanto o governo está lançando a terceira linha de medicamentos para pessoas que falharam o primeiro e o segundo regime de antirretrovirais, Pardeshi queixa-se do fornecimento inconstante de remédios.

Olhando para o passado, Noori conta as perdas. Entre eles, seu amigo Selvi, que foi um dos primeiros a ser diagnostico positivo para o HIV positivo. “Na época, o HIV estava se espalhando em um ritmo alarmante e não havia qualquer apoio — seja econômico, médico ou psicossocial. Era importante dizer às pessoas soropositivas que elas podiam viver com liberdade e dignidade”, lembra ela. Trinta anos depois, Noori viajou mais de 25 países, abordando campanhas de conscientização sobre a aids e, agora, está planejando criar um lar para órfãos infectados com HIV.

Por Anuradha Mascarenhas em 10 de julho de 2016 para o Indian Express

Está faltando antirretroviral no Brasil?

HuffPost Brasil

No final do mês de junho recebi uma mensagem de uma leitora de meu blog. Por e-mail, ela contava ser soropositiva, assim como seu marido e seu filho, um menino de três anos de idade: todos com HIV. Moradora de Belo Horizonte, ela falava sobre a falta de medicamentos antirretrovirais na farmácia pública. “O governo não está mandando”, disse ela. “Às vezes, faltava o medicamento do meu menino: especificamente a Nevirapina.”

A mensagem dessa leitora não era diferente de dezenas de outras mensagens que recebi nos últimos meses, de diferentes leitores, de outras cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Todos reclamando da falta de medicamentos antirretrovirais em seus postos de saúde. É importante dizer que as reclamações desses leitores não foram verificadas. São relatos de pessoas que, sob o direito ao sigilo a respeito de sua condição sorológica para o HIV, preferem manter o anonimato e não fizeram referência à localização específica dos postos onde retiram seus medicamentos. Todavia, todas essas mensagens a respeito da falta de medicamentos vieram mais ou menos no mesmo período, nos últimos meses, seguindo o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, o início do governo de Michel Temer e o subsequente pedido de exoneração de Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

“Considerado um dos maiores especialistas do país em HIV/aids, Mesquita estava à frente do departamento há três anos. Ele diz que programas de saúde importantes, como o que garante o acesso universal aos medicamentos de aids — uma referência internacional —, estão seriamente ameaçados no ministério comandado pelo engenheiro Ricardo Barros, do PP”, resumiu a Carta Capital a respeito da entrevista com Fábio Mesquita, feita logo após a sua renúncia.

A preocupação de Fábio com o futuro do sistema público de saúde no Brasil se sustenta, entre outros pontos, no próprio programa de governo do presidente interino Michel Temer, intitulado “Uma Ponte para o Futuro”, um texto de 18 páginas onde se diz que: “Vamos precisar aprovar leis e emendas constitucionais que, preservando as conquistas autenticamente civilizatórias expressas em nossa ordem legal, aproveite os mais de 25 anos de experiência decorridos após a promulgação da Carta Magna, para corrigir suas disfuncionalidades e reordenar com mais justiça e racionalidade os termos dos conflitos distributivos arbitrados pelos processos legislativos e as ações dos governos.” Mais adiante, o mesmo texto diz que: “Para isso é necessário em primeiro lugar acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação.”

Em outras palavras, o governo interino deixa claro que tem a intenção de mudar a constituição para, assim, poder reduzir — ou, quem sabe, cortar — os gastos obrigatórios nela estabelecidos, como saúde e educação. O texto do governo interino não afirma, especificamente, que vai cortar o programa brasileiro de acesso universal aos antirretrovirais contra o HIV. Porém, diante do discurso de Fábio Mesquita e dos relatos pontuais sobre a falta de medicamentos antirretrovirais — gratuitos à população e pagos pelo governo —, é natural a preocupação daqueles que, como eu, vivem com HIV. Grupos de ativistas no Rio de Janeiro já fizeram protesto em defesa do SUS.

É importante lembrar o que acontece em situações de redução, falta de acesso ou corte aos medicamentos contra o HIV. Rússia e Venezuela são os dois exemplos mais recentes. Enquanto a Rússia tem sido acusada de atacar deliberadamente ONGs de prevenção à aids e ativistas, além de cortar o financiamento para o tratamento antirretroviral, provavelmente por motivos políticos, a Venezuela experimenta a falta de medicamentos em decorrência de sua crise financeira, e recusa ajuda humanitária internacional. “Como o sistema de saúde pública está desmoronando e o fornecimento de medicamentos foi interrompido, cerca de 4.000 pacientes com HIV que dependem desses medicamentos estão sem tratamento, de acordo com grupos de defesa locais.”

Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.

Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.

Outro exemplo se deu na África do Sul em 2002. Naquela altura, o então presidente Thabo Mbeki aderiu à teoria “dissidente” ou “negacionista”, a qual nega que o HIV seja o causador da aids ou até mesmo que esse vírus de fato exista. Depois de um encontro com Peter Duesberg, principal símbolo dos dissidentes, Mbeki cortou o fornecimento de antirretrovirais no país, apenas dois anos depois da morte do músico nigeriano Fela Kuti, portador do HIV e um dos negacionistas de maior liderança na África. A autópsia mostrou que Fela morreu de complicações relacionadas à aids. Estima-se que a política de Mbeki levou 300 mil sul-africanos à morte e 35 mil bebês contaminados por transmissão vertical, da mãe portadora do vírus para o bebê, além de outros milhares que foram contaminados pelo HIV naquele país.

O aumento das transmissões se deu porque quem é diagnosticado com HIV e começa o tratamento antirretroviral logo atinge a carga viral indetectável, o que quer dizer que a quantidade de vírus no sangue é tão baixa que não pode mais sequer ser detectada nos exames mais precisos de laboratório. A quantidade de vírus em outros fluídos corporais, como sêmen e líquido pré-ejaculatório, também cai, muitas vezes também até níveis indetectáveis.

Em extensos estudos, como o HPTN 052 e Partner, ou mesmo outros estudos similares, onde, até agora, já foram acompanhados mais de 9 mil casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV), a amostragem de transmissão a partir dos parceiros em tratamento antirretroviral e indetectáveis foi, literalmente, zero. De fato, desde o começo da epidemia de HIV/aids, nos anos 80, nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Por isso, desde 2008 as autoridades médicas suíças afirmam que soropositivos nessas condições apresentam “risco negligenciável de transmissão”, enquanto consensos médicos americano, britânico, canadensesueco, entre outros, reconhecem os efeitos do tratamento antirretroviral na redução do risco de transmissão do HIV. Para melhorar, o tratamento antirretroviral já recebeu até uma “bênção” do Vaticano, que quer oferecê-lo em seus orfanatos e hospitais em todo o mundo. Em níveis populacionais, os antirretrovirais já mostraram benefícios no controle da epidemia na África do Sul e na Dinamarca. Em outras palavras: além de salvar a vida de quem tem HIV, os antirretrovirais evitam que quem não tem o vírus venha a contraí-lo. Por isso, ganhou o nome de “tratamento como prevenção” — ou TasP, do inglês treatment as prevention.

“Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que, se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa, com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante — e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV.” Essa foi a fala de Fábio Mesquita, quando ainda diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, em 2015, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

Fabio Mesquita

Fabio Mesquita

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê. Impedir a transmissão vertical”, explicou Fábio. A transmissão vertical é o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser impedida graças aos medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento durante a gravidez. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

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Dr. Drauzio Varella

O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois de Fábio, concordou com a eficácia comprovada do tratamento como prevenção: “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico, aproximadamente 88% das pessoas que vivem com HIV e que fazem tratamento antirretroviral no Brasil têm carga viral indetectável. Contudo, somente 52% infectados no Brasil fazem tratamento antirretroviral — um número muito baixo, levando em conta a expectativa do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, que estabeleceu a meta 90-90-90, onde “90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu status, 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral e 90% das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral suprimida e não mais possam transmitir o vírus.”

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Para que o tratamento funcione para quem tem HIV e também para prevenir a epidemia de continuar a crescer, é preciso que a oferta a seu acesso a seja contínua e que aqueles que dependem destes remédios mantenham a adesão — o que hoje não é tão difícil, uma vez que basta um comprimido por dia.

Com a falta de acesso ao tratamento, o jornal Moscow Times alerta que “a taxa de infecção pelo HIV vai continuar a crescer em toda a Rússia, uma vez que até mesmo interrupções curtas no tratamento podem provocar a mutação do vírus, que se adapta rapidamente às medicações e se desenvolve mais rápido.” Na Venezuela, estima-se que pelos menos mil pessoas com HIV já morreram em decorrência da falta de antirretrovirais, enquanto a inflação naquele país chegou a fazer um pacote de camisinhas custar mais de 2 mil reais, segundo O Globo.

Mas e o Brasil? É estranho que as reclamações a respeito da falta de medicamentos tenham aumentado logo depois do afastamento de Dilma Rousseff, uma vez que o governo interino de Michel Temer ainda não tomou qualquer medida efetiva contra a determinação constitucional de acesso à saúde, tampouco sobre a Lei 9.313, de 13 de novembro de 1996, que rege a distribuição de antirretrovirais em todo o País. Nessas condições, responsabilizar o governo federal também é entranho, ainda mais quando aprendemos sobre o funcionamento da distribuição de medicamentos no País:

Como disse Grabriel Estrëla, aqui no Brasil não está faltando medicamento antirretroviral. Ainda bem! Isso quer dizer que nossos líderes, afastados e interinos, devem estar cientes da importância da manutenção do programa brasileiro de resposta à epidemia de HIV/aids. Acabar com o acesso universal aos antirretrovirais seria um golpe contra a saúde brasileira e, também, contra o controle da epidemia no mundo. Essa consciência deve se estender do governo federal aos estados e municípios, bem como à cada unidade dispensadora de medicamentos. Por isso, se faltar antirretroviral na sua farmácia, reclame e proteste. É seu direito!

Grindr quer saber se deve filtrar usuários por sorologia para o HIV

Grindr, um aplicativo de relaciomantos gay, está fazendo uma pesquisa com alguns usuários sobre um filtro para identificar os usuários soropositivos.

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Médicos devem recomendar testes para todos

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Esta resolução do Conselho Federal de Medicina recomenda que todos os médicos ofereçam a solicitação de testes sorológicos para HIV aos seus pacientes.

“Art. 1º O médico verificará nas consultas se seus pacientes realizaram testes sorológicos para sífilis, HIV, hepatites B e C, e vacinação, no caso da hepatite B.
Parágrafo único. Caso os testes, ou a vacinação, não tenham sido realizados, o médico orientará o paciente, conforme o caso, sobre a necessidade, a oportunidade ou a conveniência de sua execução.
Art. 2º Quanto aos testes sorológicos para sífilis, HIV, hepatites B e C, deve o médico, especificamente:
I – Sugerir a realização dos testes sorológicos, incluindo esclarecimento e
aconselhamento pré-teste, em ambiente adequado, respeitando e garantindo, sempre, a privacidade, o sigilo e a confidencialidade.
II – Solicitar os testes somente se o paciente e/ou seu representante/assistente legal concordar livremente com sua realização, após adequado esclarecimento.
Art. 3º Em nenhuma circunstância os exames serão compulsórios.
Art. 4º O médico, diante dos resultados, aconselhará sobre prevenção e
encaminhará para tratamento, quando indicado.”

Se o mundo tentar, a aids pode acabar


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O mundo fez tanto progresso na redução da propagação da aids e no tratamento de pessoas com HIV que a epidemia tem recuado dos holofotes. No entanto, por quaisquer medidas, a doença continua a ser uma grande ameaça — 1,1 milhão de pessoas morreram no ano passado devido à causas relacionadas com a aids e 2,1 milhões de pessoas foram infectadas com o vírus. Embora as mortes estejam em queda ao longo dos últimos cinco anos, o número de novas infecções tem, essencialmente, atingido um patamar.

A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou uma meta na semana passada de acabar com a propagação da doença até 2030. Este é um objetivo louvável e ambicioso, alcançável apenas se as nações individuais fizeram campanha vigorosa para tratar a todos os que tem o vírus e limitar as novas infecções.

Os medicamentos e o conhecimento já existem, mas, em muitos países, o dinheiro e a vontade política não. Além de voltar o holofote sobre a doença, é crucial que países ricos, como os Estados Unidos, continuem a desembolsar quantias generosas para reforçar o que deveria ser empenho global. Doadores e países de baixa e média renda precisam aumentar os gastos para US$ 26 bilhões por ano até 2020, de acordo com a ONU, acima dos US$ 19,2 bilhões em 2014.

ONU aids

Embora ainda elevadas, as mortes atribuíveis à aids caíram 36% desde 2010. Em grande parte, isso se deu porque muitas pessoas estão recebendo medicamentos antirretrovirais — 17 milhões de pessoas em 2015, em comparação com 7,5 milhões cinco anos antes. Estes medicamentos permitem que as pessoas vivam vidas quase normais e reduzem o risco de transmissão do vírus para outras pessoas.

Alguns países, como África do Sul (antes uma zona de calamidade) e Quênia, têm feito enorme progresso em aumentar o tratamento, mas muitas pessoas que precisam da terapia salva-vidas não têm acesso a ela. Apenas 28% das pessoas infectadas na África ocidental e central estavam sendo tratados em 2015, de acordo com um recente relatório da ONU. Os números eram ainda mais baixos no Oriente Médio e no norte da África (17%), Europa oriental e da Ásia central (21%). Segundo Sharonann Lynch, assessor de políticas para o HIV dos Médicos Sem Fronteiras, em alguns países, as pessoas que recebem um diagnóstico positivo para o HIV recebem a instrução de voltar ao médico só quando ficarem doentes, devido à restrições orçamentárias. Muitos nunca mais voltam.

Em outros lugares, pode ser difícil chegar até as pessoas que precisam de medicamentos por causa de guerra ou por falta de um sistema público de saúde funcional. E muitos dos que precisam de ajuda não estão dispostos a pedi-la, porque temem ser condenados ao ostracismo ou, pior, porque são gays, usuários de drogas ou estão envolvidos em trabalho sexual. Leis e atitudes discriminatórias em países como Nigéria, Rússia e Uganda provavelmente forçaram dezenas de milhares de pessoas que precisam de ajuda a se esconder.

Em alguns países, as infecções têm de fato aumentado, o que ajuda a explicar por que o avanço no controle da epidemia atingiu um patamar. Na Europa oriental e na Ásia central, por exemplo, 190.000 pessoas foram infectadas no ano passado, contra 120.000 em 2010. Enquanto o número de mortes tem se mantido muito baixo, o número de novas infecções se manteve estável ou modestamente baixo, nos últimos cinco anos. Isso é verdade para os Estados Unidos, onde estima-se que 44.073 pessoas foram diagnosticadas em 2014, o ano mais recente para o qual os Centros de Controle e Prevenção de Doenças têm dados publicados, abaixo de 44.940 em 2010.

Esses números não abrem espaço para complacência, mas para campanhas de saúde pública mais vigorosas, mais acesso a preservativos, agulhas limpas para usuários de drogas e prescrições de medicamentos pré-exposição. Ainda não há cura para a aids. Mas há muitas maneiras de minimizar suas consequências mortais.

Pelo Conselho Editorial do New York Times em 13 de junho de 2016

Quem está sob maior risco de declínio neurocognitivo?


Aidsmap

Uma combinação de simples exames de sangue de rotina pode ser capaz de prever quais as pessoas que vivem com o HIV que estão especialmente mais vulneráveis ao declínio neurocognitivo, de acordo com pesquisa americana publicada no Clinical Infectious Diseases. Pessoas com pontuação elevada no Índice VACS* (Veterans Aging Cohort) têm risco aumentado de sofrer declínio na função cognitiva e também se mostraram significativamente mais propensas a desenvolver novos problemas cognitivos.

“Mudanças no Índice VACS representaram alterações na função cognitiva ao longo do tempo em uma coorte, grande e bem caracterizada, de pessoas infectadas pelo HIV”, escrevem os autores. Apesar dos grandes avanços no tratamento e cuidado de saúde, a deficiência neurocognitiva (NCI) continua a ser comum em pessoas com HIV, ocorrendo em 30% a 50% dos indivíduos. Na maioria das pessoas com HIV ela é leve. No entanto, mesmo as formas mais leves de deficiência podem ter um impacto negativo no dia-a-dia.

Por conseguinte, é importante identificar as pessoas que já estão sob risco de desenvolver deficiência cognitiva e também aqueles que estão no limiar de desenvolvê-la e com inclinação a aumento desse risco. O Índice VACS foi desenvolvido como um marcador da gravidade da doença em pessoas vivendo com HIV. Ele se baseia nos resultados de análises do sangue que são executadas como parte do tratamento de rotina, tais como a contagem de CD4, carga viral, função renal e do fígado, anemia e detecção da hepatite C. Uma maior pontuação do índice VACS tem sido consistentemente associada a um risco aumentado de morte em pacientes, hospitalização e também doenças normalmente associadas à idade mais avançada, como a fragilidade, fraturas e força muscular baixa.

Agora, pesquisadores buscaram determinar se a pontuação do Índice VACS poderia prever as alterações neurocognitivas e incidentes de deficiência neurocognitiva. Assim, desenharam um estudo envolvendo 655 adultos que vivem com HIV e que recebem cuidados na Universidade da Califórnia, San Diego. Os participantes do estudo foram acompanhados por até seis anos.

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Três possibilidades de desfecho foram pesquisadas:

  • A associação entre a linha de base da pontuação do Índice VACS e as subsequentes alterações neurocognitivas.
  • Se mudanças nas pontuações do Índice VACS ao longo do tempo estavam correlacionadas com alterações na função cognitiva.
  • Se a pontuação do Índice VACS poderia prever o momento do incidente de deficiência neurocognitiva em pessoas com função neurocognitiva normais na linha de base.

Participantes com graves transtornos psiquiátricos ou lesão cerebral foram excluídos do recrutamento. A função neurocognitiva foi avaliada utilizando uma bateria completa de testes. Contagens dos exames foram convertidas em pontuação ajustadas à idade, escolaridade, sexo e raça. A partir das pontuações ajustadas foi feito o cálculo para obter a pontuação média global.

Os participantes tinham uma idade média de 43 anos, 83% eram do sexo masculino, 60% eram brancos, com contagem média de células CD4 de 346 células/mm³, 67% tinha um diagnóstico de aids, 61% estavam sob tratamento antirretroviral e 51% tinham carga viral indetectável. Três quartos relataram histórico de abuso de substâncias. No início do estudo, 40% foram avaliados com disfunção cognitiva. A pontuação mediana no Índice VACS foi de 22. Participantes com e sem deficiência neurocognitiva foram comparados.

Não houve associação significativa entre uma pontuação baixa no Índice VACS e alterações neurocognitivas. No entanto, houve uma associação significativa entre maior Índice VACS e pior desempenho global de domínio neurocognitivo, mesmo após o ajuste para possíveis fatores de confusão (p<0,01). Um maior índice de VACS foi associado à pior pontuação de memória em pessoas que não tomam antirretrovirais (p<0,01), mas não em pessoas que fazem o tratamento.

Análise de 60% das pessoas sem deficiência neurocognitiva no início do estudo mostraram que pontuações mais altas do Índice VACS estavam associadas à maiores chances de desenvolver algum transtorno (p<0,01). Depois de controlar fatores como a contagem de células CD4 e depressão, esta associação deixou de ser significativa. Contudo, nas análises dependentes do tempo, maiores pontuações do Índice VACS estavam associadas a um risco significativamente aumentado de incidentes de deficiência neurocognitiva (HR, 1,17; 95% CI, 1,06-1,29, p<0,01).

Os participantes do estudo com maiores pontuações do Índice VACS se mostraram significativamente mais propensos a desenvolver disfunção cognitiva em comparação com aqueles com baixa ou moderada pontuação do Índice VACS. Além disso, as pessoas com pontuações mais altas do Índice VACS também se mostraram significativamente mais propensas a experimentar declínio neurocognitivo (p=0,02).

“No geral, uma pontuação baixa do Índice VACS pode não ser um bom indicador da mudança cognitiva a longo prazo. Alterações na pontuações do Índice VACS, no entanto, correspondem a mudanças na neurocognição”, concluem os autores. “Ter pontuação muito alta do Índice VACS pode indicar um aumento notável do risco de declínio neurocognitivo e incidentes correlacionados. Estes resultados usam o Índice VACS como uma ferramenta simples para a identificação de pacientes infectados pelo HIV que estão sob alto risco de declínio neurocognitivo e para justificar ainda mais acompanhamento neurocognitivo.”

Por Michael Carter em 4 de julho de 2016 para Aidsmap

*Calcule seu próprio Índice VACS na MD+Calchttp://www.mdcalc.com/veterans-aging-cohort-study-vacs-index/