Posts recentes

A revolução do Truvada

(com legendas disponíveis em Português)

Um medicamento chamado Truvada foi o primeiro a ser aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) americana para prevenir a infecção pelo HIV. Se uma pessoa soronegativa tomar a pílula todos os dias, ela estará 99% protegida contra o vírus. Com isso, a definição de sexo seguro e da prevenção do HIV mudaram radicalmente, especialmente na comunidade de homens gays, uma das populações mais atingidas pelo HIV. As implicações para a epidemia de aids são profundas. Nestes vídeos, a Vice explorou o futuro do Truvada e seu impacto revolucionário na luta contra o HIV/aids.

Anúncios

CD32a, a molécula que pode indicar onde o HIV está escondido

Pela primeira vez, cientistas encontraram um biomarcador que identifica algumas células latentemente infectadas com o HIV. A molécula, denominada CD32a, pode ser encontrada na superfície de cerca de metade das células T CD4 latentemente infectadas pelo HIV, mas não é encontrada em células não infectadas ou em células com uma infecção ativa de HIV. A descoberta é resultado de um estudo conduzido pelo Dr. Monsef Benkirane, PhD, do Instituto de Genética Humana de Montpellier, França, e seus colegas, publicado na Nature.

Esta descoberta abre uma nova porta na pesquisa da cura, especialmente para estudos que visam destruir os reservatórios de HIV — o conjunto de células latentemente infectadas, que permite que o vírus volte quando os medicamentos antirretrovirais são interrompidos. “Essa descoberta é quente e importante”, disse Sharon Lewin, uma das líderes da pesquisa da cura do HIV no Instituto Doherty, em Melbourne, na Austrália. “Ela precisará ser confirmada por outros, mas realmente parece ser um bom marcador de latência”, disse ela à MedPage Today. “Este trabalho abrirá diversas novas e importantes vias de trabalho.”

O estudo foi feito in vitro, utilizando células CD4 a partir de amostras de sangue de participantes soropositivos para o HIV-1 que estão sob terapia antirretroviral supressiva. Dentre estas amostras, foi identificada uma subpopulação de 0,012% de células T CD4 que expressava a molécula CD32a e hospedava até três cópias de DNA de HIV em cada célula.

Perspectiva de cura em três anos


Clique acima para ouvir a notícia.

Para o coordenador do Laboratório de Infectologia do Hospital das Clínicas, Max Banks, a perspectiva do pesquisador estrangeiro é otimista. Com o acúmulo de conhecimento na busca pela cura, a ideia é de que um horizonte, mesmo que distante, possa ser enxergado em três anos. O entrevistado explica questões a respeito da dificuldade de se encontrar a cura e como estratégias que propõem a cura têm aumentado. Banks também esclarece a respeito de avanços no tratamento e na prevenção da doença.

O Jornal da USP, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93,7, em Ribeirão Preto FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular.


 

Uma aula básica sobre os alimentos

(com legendas disponíveis em Português Brasileiro)

Carta de um leitor: sobre sintomas e sentimentos

“Tudo começou em outubro de 2016, com uma dor de garganta que insistia em permanecer. Creditei estes sintomas ao clima quente na rua e ao ar condicionado frio na sala do escritório onde trabalho, na qual eu passava longas horas do meu dia sob um forte estresse que vinha se agravando ao longo do ano. Ainda assim, eu pensava que tudo isso era mais um momento difícil — o qual, no final, seria totalmente superado. Mas não foi.

Percebi também que eu estava emagrecendo, talvez em demasiado, mas ponderava que talvez isso fosse resultado da nova dieta sugerida pelo nutricionista, naquela última (e cara) consulta. ‘Estava com os músculos definidos’, dizia a mim mesmo diante do espelho. Havia também uma dor no corpo que não melhorava, há cerca de três anos, mas que julgava ser emocional — a ansiedade dos perfeccionistas. Me automedicava e, no final, ‘ficava tudo bem’. Até que não ficou mais.

Vivia um relacionamento amoroso paralelo, que administrava com certa dificuldade (sim, já tinha sido ‘pego no flagra’ por meu companheiro, mas numa situação que depois foi ‘contornada’). Minha testosterona continuava a todo vapor. Era compulsivo por sexo, e sabia disso. Às vezes imaginava que um dia a conta chegaria, mas também refletia que uma vez que me cuidava (e era até meio neurótico com isso), no final, ‘tudo daria certo’. Mas não deu.

Decidi procurar um endocrinologista, julgando estar sofrendo de algum problema na tireoide. Fiz os exames receitados por ele, e todos estavam bons. Mas eu não melhorava. Me auto-diagnostiquei com candidíase oral. Depois, com gengivite. A dor de garganta continuava. Aftas surgiram na boca. Eu voltava ao médico e fazia todos os exames — menos o mais temido por mim: o teste de HIV.

Em janeiro de 2017, logo depois do réveillon, amanheci com diarreia. No médico, fui diagnosticado com gastroenterite. Fiz os exames, todos — menos o próprio. Já sentia suores noturnos, há cerca de um mês. Era hora de fazer o teste de HIV. Nunca passei por nada parecido: uma aflição, uma angústia, um medo que não consigo expressar com palavras e que durou o final de semana inteiro. Em visita ao infectologista, apenas solicitei um pedido para o teste de HIV. Fiz, sabendo que se o laboratório ligasse pedindo para refazê-lo, já teria ali o meu diagnóstico.

Recebi a ligação 15 minutos antes do prazo final da entrega do exame. Lembro-me bem: estava no meio de uma consulta com um psiquiatra. Naquela altura, 10 quilos mais magro. No trabalho, pedi licença por depressão. Agora, não me reconheço. Não sei mais quem sou. Tenho medo de morrer e de deixar as pessoas que dependem de mim em desamparo — não fosse isso, acho que já tinha dada por terminada a minha missão.

Em pouco tempo, perdi a forma física. Perdi a libido e, agora, tenho alternado entre períodos de aparente tranquilidade a momentos de grande desespero. Tenho a sensação de que já tenho a minha sentença de morte. Espero apenas que ela não seja lenta e dolorosa. Queria que fosse diferente. Queria acordar e constatar que tudo não passou de um pesadelo. Queria não precisar pensar: ‘Por que comigo?’, ‘Logo eu, que me cuidei tanto?’

Decidi não contar à minha família. Só meu companheiro e dois amigos sabem. Meu companheiro me deu todo apoio e nunca questionou como isso aconteceu. Sinceramente, não sei o que seria de mim sem ele! Tirei um grande peso dos ombros quando ele fez o teste de HIV: está saudável! Falta agora o teste do amante, que também tem muito medo do resultado.

Me preocupo que outras pessoas descubram que eu tenho HIV, que me depare com algum conhecido ao buscar a medicação. Mesmo assim, não demorei para retornar ao infectologista e pedir que ele receitasse a medicação. Queria começar o tratamento logo. De alguma forma, sentia que estava correndo contra o tempo. Antes mesmo do resultado confirmatório, que recebi dez dias depois, já estava em tratamento antirretroviral.

Meu médico disse que quanto menos eu souber a respeito do HIV, mais fácil será de encará-lo. Mas eu não segui seu conselho: não há o que eu não saiba sobre a doença. Voltei a fazer ginástica e tenho vivido um dia de cada vez. Em junho, volto ao médico para fazer análise da carga viral. Procuro não criar expectativas, mas, confesso que, se estiver indetectável, será um alívio!

Dizem que não há mal que dure para sempre e que todas as alegrias e tristezas são efêmeras. Assim espero. Embora ainda me sinta frágil e inseguro, vou em breve assumir um novo compromisso profissional. E vou seguindo a vida. Um dia de cada vez.”

As leis contra (quem vive com) HIV nos Estados Unidos

Em 43 estados americanos há leis específicas que punem as pessoas que vivem com HIV em caso de transmissão do vírus. Em 11 destes estados, é crime um soropositivo morder, cuspir ou compartilhar fluídos corporais com outra pessoa, mesmo que seja considerado impossível infectar alguém sob estas condições.

A maioria destas leis surgiu a mais de trinta anos atrás, no começo da epidemia de aids, quando ainda não se sabia muito a respeito da transmissão do HIV. Muita gente acreditava que a doença estava se espalhando por culpa dos soropositivos, que estariam colocando outros em risco de infecção. Segundo um artigo publicado pelo San Francisco Chronicle, foi neste clima que a Califórnia promulgou suas leis criminalizantes específicas contra o HIV — ou, talvez, contra as pessoas que vivem com HIV.

Na Califórnia, um dos primeiros projetos de lei contra o HIV foi a “Proposta 64”, de 1986, concebida por um grupo autodenominado “Pânico” para o Comitê de Iniciativa para Prevenção da Aids Now. A Proposta 64 sugeria que as pessoas com HIV/aids não fossem elegíveis a trabalhos em escolas ou cozinhas. Um dos partidários da Proposta 64, o político Lyndon LaRouche, chegou a comparar alguém com aids a “uma pessoa correndo com uma metralhadora”.

Ainda bem, os eleitores californianos derrubaram a Proposta 64 de 1986 —  e, curiosamente, aprovaram uma proposta de mesmo nome em 2016, que aprovou o uso recreativo de maconha. Mas, apesar da revogação da Proposta 64 de 1986, o medo da aids continuou generalizado. Histórias de soropositivos fazendo sexo com o objetivo de infectar outras pessoas foram sensacionalizadas pela mídia, muito embora estes costumem ser casos serem raros — lembra-se da história do “Clube do Carimbo”? O próprio Paciente Zero, tido por décadas como quase o único culpado pela epidemia de HIV/aids, foi inocentado somente no ano passado.

O fato é que, desde os anos 80, a epidemia mudou, o conhecimento sobre o HIV aumentou e o risco de transmissão diminuiu para quem faz uso consistente dos medicamentos antirretrovirais. Só as leis é que não mudaram. “Desde que essas leis foram promulgadas, o mundo mudou para quem vive com HIV”, disse Edward Machtinger, diretor do Programa de HIV para Mulheres da Universidade da Califórnia em São Francisco, ao San Francisco Chronicle. “Agora estas leis só servem para institucionalizar a desinformação e a discriminação. São a encarnação do estigma, codificado em lei.”

Foi então que, no mês passado, o senador estadual Scott Wiener e o deputado Todd Gloria, apresentaram um projeto de lei para rever ou até acabar com três das quatro leis da californianas que punem os soropositivos em caso de transmissão do HIV. A proposta dos senadores apenas não mudaria a quarta lei, que aumenta em três anos o tempo de prisão em casos de agressão sexual onde o perpetrador é soropositivo. As três outras leis, atualmente puníveis com pena de prisão de 16 meses a 8 anos, que criminalizam a prática de prostituição enquanto portador do HIV, relações sexuais consensuais com a intenção de transmitir o HIV e a doação de sangue, tecido, sêmen, leite materno ou órgãos quando sabidamente soropositivo, têm sugestões de mudanças pelos dois políticos. Afinal, conforme descrito pelo próprio artigo do San Francisco Chronicle, “as pessoas que estão em tratamento antirretroviral, e para quem o HIV está indetectável no sangue, apresentam chance perto de zero chance de transmitir o vírus.”

“Essas leis foram aprovadas no auge da epidemia de aids, quando havia muito medo e desinformação”, disse Wiener. “Mas é hora de assumir uma abordagem baseada na ciência, e não uma abordagem baseada no medo. Não há nenhuma razão para o HIV ser tratado de forma diferente do que outras doenças infecciosas.”

Esforços para revogar leis similares foram bem sucedidos nos estados do Colorado e Iowa, seguindo a sugestão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de 2014, que recomendou que todos os estados americanos eliminassem seus códigos criminais específicos contra o HIV, apenas com exceção para casos de estupro e quando o suspeito está ativamente tentando infectar outras pessoas.

Aqueles que intencionalmente transmitem o HIV a outras pessoas não ficarão impunes com a revogação das leis específicas contra soropositivos. Machtinger lembrou que estas pessoas podem ser processadas por outros crimes que punem as pessoas por transmitir intencionalmente outras doenças infecciosas, tal como a sífilis. O que a revogação dessas leis vai permitir é que pessoas mais vulneráveis e desprotegidas, em particular os profissionais do sexo, não sejam injusta ou desproporcionalmente condenados.

Dados compilados pela Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles mostram que dos 1.200 casos relacionados ao HIV na Califórnia, entre 1988 a 2014, mais de 93% caíram na lei da prostituição. Destes, apenas 33 casos envolviam exposição com a intenção de transmitir o HIV. Isso quer dizer que estas leis são usadas principalmente para transformar acusações simples de prostituição, que são delitos menores, em delitos graves, elevando à sentenças mais duras.

Em 2012, um homem foi condenado por prostituição e à deportação justamente porque era soropositivo. Mas o que torna o caso mais impressionante é o fato de que o homem não fez sexo! Ele foi preso por sugerir a um policial à paisana que praticassem sexo oral, um ato sexual onde a transmissão do HIV é extremamente improvável. “Ele passou 16 meses na cadeia por causa dessa condenação”, disse Scott Schoettes, da organização LGBT Lambda Legal. “Nós esclarecemos ao tribunal o quão baixo o risco era do sexo oral. Não fazia sentido classificar isso como um crime sério.” Depois disso, o tribunal de imigração suspendeu sua deportação.

Naina Khanna, diretora executiva da Rede de Mulheres Positivas de Oakland, um grupo de defesa de mulheres com HIV, disse ter ouvido falar de mulheres cujos parceiros ameaçaram ir à polícia e alegar que elas mentiram e esconderam sua condição positiva para o HIV. Naina conversou com mulheres que tinham medo de perder seus filhos, empregos e moradia se tivessem sua sorologia revelada. A ameaça, por si só, segundo Naina, causou tanta ansiedade que as impediu de procurar apoio.

De acordo com alguns especialistas em saúde pública, este é o maior perigo das leis criminalizantes do HIV: elas podem desencorajar as pessoas a fazer o teste de HIV e buscar tratamento antirretroviral em caso de diagnóstico positivo — muito embora o tratamento não só seja capaz de salvar suas vidas, como de impedir a transmissão do vírus para outras pessoas.

(In)evitáveis problemas cardíacos

new-croi-logo-2017-241x300

Priscilla Hsue, a mesma cientista que apresentou na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2017, um estudo animador sobre o anticorpo canakinumab, possivelmente eficaz contra a inflamação crônica — publicado aqui no blog — também apresentou um outro estudo, porém, que parece ter resultados não tão animadores sobre a saúde cardiovascular de soropositivos e a crescente preocupação de doenças cardiovasculares entre as pessoas que envelhecem com HIV.

Neste estudo, a infecção pelo HIV foi associada a um maior risco de infarto do miocárdio, o ataque cardíaco. O motivo para o HIV aumentar o risco de infarto ainda não está completamente compreendido. O que se sabe é que o HIV pode alterar a flora intestinal e, com isso, algumas pequenas moléculas que são metabolizadas ou produzidas por este microbioma intestinal também são alteradas. Entre elas, o n-óxido de trimetilamina, uma molécula já associada ao infarto entre adultos sem HIV, a carnitina e a betaína, associadas à espessura da artéria carótida em indivíduos infectados pelo HIV.

O objetivo do estudo era verificar a hipótese destas moléculas associadas à flora intestinal poderem de fato prever o risco de infarto em adultos infectados pelo HIV. O estudo incluiu indivíduos soropositivos com carga viral indetectável sob terapia antirretroviral que recebem tratamento em oito diferentes clínicas nos Estados Unidos e que tiveram infarto do miocárdio “tipo 1” entre 2001 a 2012. Estes casos foram comparados por amostragem de densidade de incidência para cada caso, por idade, sexo, raça, duração da supressão de carga viral e contagem de CD4. Os níveis plasmáticos de n-óxido de trimetilamina, betaína, carnitina e colina foram medidos em amostras de plasma sanguíneo coletadas antes do infarto. A associação entre as pequenas moléculas produzidas pela flora intestinal e o infarto foi então avaliada utilizando regressão logística condicional.

Esse estudo não foi muito abrangente — com apenas 36 casos e 69 controles, com idade mediana de 49 anos, variando entre 46 a 58, e 77% do sexo masculino –, mas serviu para concluir que, dentre as moléculas analisadas, a carnitina é que mais parece ser preditiva de infarto do miocárdio em indivíduos infectados com HIV, tratados com antirretrovirais e com carga viral indetectável. Esta descoberta sugere que o mecanismo de aterosclerose em soropositivos é diferente daquele que ocorre em indivíduos não infectados, os soronegativos. Se esta hipótese se confirmar na repetição deste estudo ou em estudos mais abrangentes, é possível que as intervenções médicas relativas à saúde cardiovascular das pessoas com HIV passem a ser diferentes das que são feitas em soronegativos.

Mas Priscilla Hsue não terminou por aí. Segundo o Betablog, ela apresentou outra pesquisa a respeito de infarto do miocárdio, morte cardíaca súbita, mortalidade associada à doenças cardiovasculares e outros problemas cardiovasculares num outro evento, mais recente, organizado pela San Francisco Aids Foundation.

Ela citou um estudo com milhares de pessoas que receberam cuidados através da Associação de Veteranos nos Estados Unidos. Esse estudo descobriu que as pessoas vivendo com HIV parecem ter um risco 50% maior de infarto do miocárdio (um ataque cardíaco ou um bloqueio agudo em um vaso cardíaco) do que as pessoas soronegativas. Este risco manteve-se igual mesmo quando as pessoas com HIV estavam sob tratamento antirretroviral e com carga viral suprimida. O texto publicado pelo Betablog não traz referências diretas para o estudo citado por Priscilla, mas tudo indica que trata-se de um estudo publicado em 2014, intitulado “Epidemiologia da Doença Coronariana em Pacientes com HIV”, o qual mostrou que, entre o período analisado, 1999 a 2013, o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou.

Priscilla também disse que a morte cardíaca súbita (quando uma pessoa morre subitamente de um problema cardíaco) é um problema significativo. Um estudo realizado entre 2001 e 2009 no Zuckerberg San Francisco General Hospital descobriu que a morte súbita cardíaca entre pessoas vivendo com HIV era mais de 4,5 vezes maior do que entre pessoas soronegativas. Um dos colegas de Priscilla está agora conduzindo um estudo de autópsia em pessoas vivendo com HIV que morreram de problemas cardíacos, a fim de tentar identificar a causa da morte. O objetivo, segundo Priscilla, é aprender a identificar as pessoas que estão sob alto risco, para que, assim, os médicos possam intervir mais cedo, evitando problemas cardíacos graves.

“Ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”

“Nós ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”, disse Priscilla. Atualmente, os médicos usam “calculadoras de risco”, que levam em conta fatores como sexo, colesterol e histórico de tabagismo para estimar o risco cardíaco. Contudo, é bem possível que estas calculadoras atuais subestimem o risco para as pessoas que vivem com o HIV.

Uma das variáveis que ainda não pode ser bem computada entre todos estes estudos é o tratamento precoce, iniciado logo depois do diagnóstico. Afinal, até agora, todos estes voluntários, em virtude de sua idade, certamente não começaram o tratamento imediatamente após o diagnóstico positivo para o HIV, tal como passou a ser recomendado desde há alguns anos. Por isso, os pesquisadores ainda não sabem qual é o risco de problemas cardiovasculares para pessoas que começaram a tomar medicamentos para o HIV logo após o diagnóstico de HIV.

Ainda assim, é inevitável não pensar que, uma vez que o estudo com os veteranos mostrou que entre 1999 a 2013 — isto é, recentemente — o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou, será que não seriam os medicamentos antirretrovirais os causadores destes problemas cardíacos?

“Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”

Os médicos já sabem alguma coisa sobre o efeito dos antirretrovirais sobre a saúde cardíaca. Alguns estudos de longo prazo de fato descobriram que a exposição a longo prazo a inibidores de protease — grupo que inclui Atazanavir, Darunavir, Fosamprenavir, Lopinavir, Ritonavir, Saquinavir e Tipranavir — podem aumentar o risco de ataque cardíaco. Alguns estudos — mas não todos — concluíram que o Abacavir aumenta bastante este risco. O risco oferecido pelos novos medicamentos, como os inibidores da integrase — grupo que inclui o Dolutegravir –, ainda não é conhecido. “Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”, disse Priscilla.

Mas há fortes evidências de que começar medicamentos antirretrovirais o mais cedo possível e manter boa adesão no tratamento é o melhor para a saúde do coração. A razão, segundo Priscilla, provavelmente está ligada ao efeito dos antirretrovirais sobre a famosa inflamação crônica — assunto daquele outro estudo de Priscilla divulgado na CROI.

Priscilla Hsue

Disso tudo, a pergunta que parece não querer calar é: será que os problemas cardíacos são inevitáveis em nós, soropositivos? “Eu acho que inevitável é uma palavra forte demais”, foi o que disse Priscilla, respondendo à plateia do evento em São Francisco. “Nada é inevitável.” É importante, ela enfatizou, que as pessoas mudem as coisas que estão ao seu alcance, sob seu controle — como, por exemplo, parar de fumar. “Estudos mostram que as pessoas que vivem com o HIV perdem mais anos por fumar do que pela própria doença.”

Reduzir a inflamação crônica e o colesterol parece ser um dos principais caminhos para diminuir o risco de problemas cardíacos entre pessoas com HIV. Segundo Priscilla, novos medicamentos para baixar o colesterol, que podem ser injetados uma vez por mês, estão sendo estudados. Um destes medicamentos baixou o colesterol em 60%. A terapia baseada no anticorpo canakinumab também está sendo estudada pela equipe de Priscilla, como uma alternativa para reduzir a inflamação crônica. Os resultados mostraram que este tratamento reduziu a inflamação nas artérias e na medula óssea.

É verdade, os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre o risco cardiovascular e a inflamação crônica em nós, soropositivos. Mas as pesquisas, como estas de Priscilla, seguem em andamento justamente para responder estas questões.

Um anticorpo contra a inflamação crônica

new-croi-logo-2017-241x300

Um estudo em fase inicial com dez voluntários, apresentado na CROI 2017, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, e publicado no Betablog, mostrou que o anticorpo monoclonal canakinumab pode ser a solução para a inflamação crônica — um dos problemas que pode persistir mesmo no organismo de soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável. Todos os participantes do estudo viviam com HIV há mais de 20 anos e tinham bom controle viral, ou seja, estavam em antirretrovirais e com carga viral indetectável.

O canakinumab bloqueia um receptor de IL-1β nas citocinas, moléculas que sinalizam às células e as conduzem a reagir à inflamação. Neste estudo, os dez participantes receberam uma dose única de 150 mg de canakinumab sob a pele. Exames de segurança foram feitos nas semanas 1, 2, 3, 4, 8 e 12. O canakinumab reduziu significativamente um marcador de inflamação, a interleucina-6 (IL-6), em 24%, após quatro semanas, e em 30%, após oito semanas. O tratamento também reduziu significativamente dois marcadores adicionais de inflamação: a proteína C-reativa — identificada em um exame comum que muitos infectologistas recomendam a seus pacientes — foi reduzida em 41%, após oito semanas, enquanto o marcador CD163 solúvel foi reduzido em 9% após oito semanas.

“O canakinumab teve um impacto significativo na inflamação arterial e na atividade da medula óssea”

Os cientistas também avaliaram a inflamação fazendo exame de varreduras na medula óssea e na paredes das artérias, antes e depois da terapia com o anticorpo. “O canakinumab teve um impacto significativo na inflamação arterial e na atividade da medula óssea”, disse Priscilla Hsue, uma das autoras do estudo. “Quantitativamente, houve uma redução de 10% na inflamação arterial entre as pessoas tratadas com canakinumab e uma redução de 11% na atividade metabólica da medula óssea.”

Canakinumab

Este estudo é um dos primeiros a mostrar que uma terapia imunológica pode reduzir profundamente os marcadores de inflamação em pessoas que vivem com HIV e, principalmente, em pessoas com HIV já bem controlado. O tratamento não apresentou nenhum efeito negativo no controle viral e na contagem de CD4 e foi bem tolerado pelas pessoas no estudo.

O canakinumab já é aprovado pela FDA como um tratamento para outras condições. Agora, mais pesquisas são necessárias para confirmar sua segurança e eficácia na redução da inflamação crônica em pessoas que vivem com HIV. Segundo Priscilla Hsue, este estudo já está em andamento, com 100 voluntários randomizados e controlado por placebo e terá duração total de 36 semanas.

Dez meses de supressão viral

new-croi-logo-2017-241x300

Foi divulgada na CROI 2017, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, no mês passado, em Seattle, mais um caso de prolongada remissão viral. Depois de um transplante de medula óssea para tratar um câncer, um paciente soropositivo ficou quase 10 meses — mais tempo do que os chamados “Pacientes de Boston” — sem carga viral detectável, mesmo após interromper a terapia antirretroviral. Apesar de sua carga viral ter voltado depois disso, seus reservatórios de HIV parecem ter sido reduzidos, conforme relata o Aidsmap.

O caso foi apresentado por Nathan Cummins, da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, e seus colegas. O paciente que recebeu este transplante foi um homem de 55 anos de idade, diagnosticado com HIV em 1990 e que começou a terapia antirretroviral em 1999 com uma contagem de CD4 de 300 células/mm³. Ele interrompeu o tratamento antirretroviral entre 2004 e 2009 por conta própria e, em seguida, reiniciou o tratamento com Ritonavir, Atazanavir, Tenofovir e Emtricitabina.

Em abril de 2013, foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda de células B. Em antecipação à quimioterapia, seu regime de antirretrovirais foi mudado para Raltegravir, Etravirina, Tenofovir e Emtricitabina. Em outubro de 2013, para tratar a leucemia, ele fez uma ablação de intensidade reduzida do sistema imune, seguida de um transplante de células-tronco de um doador com CCR5. Na altura do transplante, o homem tinha uma carga viral de HIV de 25 cópias/ml e uma contagem de CD4 de 288 células/mm³. Ele então seguiu em tratamento sem interrupção. Após o transplante, desenvolveu infecções oportunistas (septicemia por E. coli e pneumonia) e doença do enxerto contra hospedeiro — uma condição típica de transplantes de medula óssea em que as células T do doador atacam as células e tecidos do organismo receptor.

O homem continuou em tratamento antirretroviral por mais de dois anos após o transplante, com níveis detectáveis de carga viral plasmática. O DNA do HIV nas suas células sanguíneas ficou indetectável 56º dia e os procedimentos repetidos de leucaférese mostraram reduções significativas no tamanho do reservatório de RNA e DNA do HIV. Além disso, seus níveis de anticorpos contra o HIV diminuíram, indicado em bandas de Western blot mais fracas.

Depois de manter níveis de HIV tão baixos durante um período prolongado, o homem foi submetido a uma cuidadosa interrupção do tratamento antirretroviral. Os seus níveis plasmáticos de RNA do HIV foram testados a cada duas semanas durante as primeiras 12 semanas de interrupção do tratamento e, depois, a cada quatro semanas. No 288º dia — 9,6 meses após interromper os antirretrovirais — verificou-se que ele tinha uma baixa taxa de recuperação viral, com 60 cópias/ml. Sua carga viral depois aumentou para 1640 cópias/ml no 293º dia, exigindo que ele reiniciasse o tratamento contra o HIV. O homem não tinha evidência de resistência aos medicamentos e sua carga viral voltou a ser suprimida em um mês.

Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown

Até hoje, a única pessoa que parece ter sido curada do HIV foi Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”, com quem me encontrei no ano passado. Assim como o paciente relatado na CROI 2017, Timothy também interrompeu a terapia antirretroviral depois de receber dois transplantes de medula óssea para tratar uma leucemia. Há dez anos ele não tem vírus detectável. Porém, diferentemente deste último paciente, um dos transplantes que Timothy recebeu veio de um doador com uma dupla mutação CCR5-delta-32, o que significa as células CD4 do doador não tinham os receptores CCR5, a porta de entrada mais comum que o HIV usa para entrar nas células T. Os cientistas ainda não sabem, porém, se a remissão de Timothy é atribuível à mutação CCR5 do doador, à forte quimioterapia que ele recebeu para matar células sanguíneas cancerígenas, à uma forte reação de enxerto versus hospedeiro ou aos múltiplos fatores.