Vorinostat é um medicamento inibidor de histona deacetilase usado no tratamento de linfoma de células T cutâneas. Ele está em estudo para comprovar sua eficácia em fazer expressar o HIV latente.


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No último domingo, o Sunday Times noticiou que o HIV ficou indetectável no sangue de um homem que faz parte do River, um estudo sobre um regime de tratamento intensivo, destinado a testar se é possível reduzir os níveis de células infectadas pelo HIV no corpo das pessoas recentemente infectadas com HIV. Os pesquisadores esperam que o tratamento possa erradicar por completo a infecção pelo HIV.

O Sunday Times disse que os cientistas britânicos estão na “beira da cura do HIV”. Na verdade, o estudo está em seus estágios iniciais e ainda não é capaz de descrever os participantes como “curados” até que extensos acompanhamentos sejam concluídos. A professora Sarah Fidler, pesquisadora do Imperial College, em Londres, disse ao Sunday Times que os participantes do estudo serão acompanhados durante cinco anos.

 

Sobre o estudo River

O estudo River significa “Research in Viral Eradication of HIV Reservoirs” — ou Estudo sobre a Erradicação dos Reservatórios Virais, em tradução livre. O estudo está sendo realizado pela colaboração CHERUB, um consórcio de equipes de pesquisa no Imperial College, King’s College, Oxford University e Cambridge University, financiado pelo National Institute for Health (NIH).

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O estudo recrutou pessoas que foram recentemente infectadas com o HIV — a chamada “infecção recente”. Nessas condições, é provável que o HIV tenha infectado menos células no corpo e, por isso, em teoria, pode ser mais fácil de erradicar o HIV neste grupo de pessoas e interromper a terapia antirretroviral sem causar retorno nos níveis de HIV.

Os participantes do estudo recebem uma combinação de quatro medicamentos de antirretrovirais, incluindo o Raltegravir, que é capaz de reduzir os níveis de HIV no sangue mais rapidamente do que outros antirretrovirais. O tratamento antirretroviral iniciado durante a infecção primária demonstrou permitir que o tratamento seja interrompido por completo, sem rebote viral, em cerca de 15% das pessoas em um estudo da coorte francesa Visconti.

Após 22 semanas de tratamento antirretroviral, os participantes do estudo são distribuídos aleatoriamente para continuar a receber o regime antirretroviral de quatro medicamentos ou para receber o regime antirretroviral em combinação com uma vacinação destinada a melhorar as respostas imunes contra as células infectadas pelo HIV. Os participantes deste braço do estudo também recebem dez doses de Vorinostat, um medicamento que ativa as células infectadas pelo HIV.

Se o regime experimental for mesmo eficaz, o Vorinostat deve “chutar” as células latentes infectadas, fazendo-as produzir o próprio HIV. O aumento na produção de vírus como resultado da ativação deve então ser suprimido pela combinação dos antirretrovirais. As células infectadas devem ser detectadas pelo sistema imunológico acordado pela vacinação, a qual deve melhorar a capacidade do sistema imunológico de procurar e matar as células infectadas. Esta estratégia de “chutar e matar” — dez rodadas de Vorinostat ao longo de mais de 28 dias — é projetada para eliminar as células infectadas e matá-las, deixando pouco ou nenhum DNA do HIV no corpo.

O estudo foi concebido para testar se a abordagem de fato é capaz de reduzir os níveis de DNA do HIV nas células ou mesmo de erradicar a infecção por completo. O estudo deve medir os níveis de DNA de HIV entre 40 e 42 semanas depois do início do tratamento, mas não deve testar se o tratamento pode ser interrompido por completo após 42 semanas. O estudo River pretende recrutar 52 pessoas diagnosticadas com infecção recente pelo HIV. O recrutamento acontece em clínicas em Londres e Brighton.

 

O que o estudo relatou?

O Sunday Times informou que um dos participantes do estudo não tem HIV detectável depois de completar o regime do estudo. Este participante continua a tomar terapia antirretroviral. Neste momento, este participante ainda não foi curado da infecção pelo HIV: o acompanhamento prolongado é necessário para determinar se o vírus foi erradicado completamente pelo tratamento experimental.

A professora Sarah Fidler, do Imperial College, disse ao Sunday Times: “Vamos continuar com os exames médicos ao longo dos próximos cinco anos e, no momento, não estamos recomendando interromper o tratamento antirretroviral, mas, no futuro, dependendo dos resultados dos testes, podemos explorar isso.”

O estudo River não deve terminar os testes em todos os participantes antes de dezembro de 2017. Por isso, o mais provável é que qualquer resultado do estudo esteja disponível somente no primeiro semestre de 2018. Nessa fase, os pesquisadores serão capazes de dizer se o regime experimental eliminou todos os vestígios de DNA do HIV nos participantes do estudo. Ainda assim, o verdadeiro teste para este regime de erradicação será ver o que acontece quando o tratamento antirretroviral é interrompido.

Até agora, a única pessoa que parece ter sido curada da infecção pelo HIV é Timothy Ray Brown, o famoso “Paciente de Berlim”, que perdeu todos os sinais de uma infecção pelo HIV após um transplante de medula óssea. Um estudo mais recente entre receptores de transplante de medula óssea também com HIV identificou que tinham carga viral indetectável e nenhum DNA do HIV detectável em suas células. No entanto, eles experimentaram rebote viral após o tratamento ser interrompido — às vezes, depois de um longo intervalo. O acompanhamento de longo prazo é essencial para qualquer um que interrompe o tratamento, a fim de determinar se o HIV foi realmente erradicado do corpo.

Se os participantes vão mesmo interromper o tratamento antirretroviral após o término do estudo — assumindo que o regime de erradicação seja bem sucedido em fazer o DNA do HIV cair para um nível indetectável — é uma questão que deve ser discutida entre os pesquisadores e os participantes do estudo e vai depender da melhor informação disponível no momento a respeito das consequências da interrupção do tratamento. Em outras palavras, é muito cedo para reportar um avanço na pesquisa da cura do HIV.

Por Keith Alcorn em 3 de outubro de 2016 para o Aidsmap

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O National Health Service (NHS) avançou na busca de uma cura para o HIV, depois que um homem britânico que passou por um novo tratamento surpreendeu os médicos por seu progresso notável. Os cientistas que cuidaram do homem de 44 anos estão esperançosos com o avanço, que foi descrito como “uma das primeiras tentativas sérias de uma cura completa para o HIV”. O homem, que permanece anônimo, é o primeiro de 50 pessoas a completar um estudo que usou um ataque de duas etapas contra o vírus mortal. A pesquisa está sendo realizada por uma colaboração entre as cinco das melhores universidades da Grã-Bretanha e organizada pelo NHS.

Mark Samuels, diretor do National Institute for Health Research Office for Clinical Research Infrastructure, disse ao Sunday Times: “Esta é uma das primeiras tentativas sérias de uma cura completa para o HIV. Estamos explorando a possibilidade real de uma cura do HIV. Este é um desafio enorme e ainda é cedo, mas o progresso que fizemos foi notável.”

O homem foi o primeiro entre 50 pessoas a completar um estudo que usou de ataque de dois estágios contra o vírus.

O paciente do estudo disse ao jornal que seus exames de sangue recentes mostraram que nenhum vírus HIV detectável estava presente, embora fosse muito cedo para confirmar que o tratamento tinha mesmo funcionado. Essa nova terapia visa superar uma barreira importante para limpar o vírus do corpo de um paciente — o que tem desafiado os pesquisadores por décadas.

Os métodos atuais de tratamento utilizam terapias antirretrovirais e ficam aquém de livrar os pacientes do HIV, uma vez que o vírus consegue se esconder, fora do alcance dos medicamentos, dentro das células T do sistema imunológico. Se os antirretrovirais param de funcionar, o vírus consegue usar estas células para produzir milhares de cópias de si mesmo.

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Os cientistas que trataram o paciente de 44 anos estão esperançosos com o avanço.

A pesquisa das universidades de Oxford e Cambridge, Imperial College London, University College London e King’s College London está testando uma técnica chamada de “chutar e matar” para primeiro expor e depois destruir o vírus. Primeiro, uma vacina ajuda o corpo a encontrar as células T infectadas. Isto é então seguido por uma dose de Vorinostat, um medicamento que desperta as células T dormentes, que então começam a produzir proteínas de HIV que atuam como um sinal de localização para o sistema imunológico.

A Professora Sarah Fidler, consultora médica do Imperial College London, disse que o tratamento funcionou em laboratório e que há “boas evidências” de que vai funcionar em pacientes. No entanto, ela acrescentou: “Devemos destacar ainda estamos muito longe de qualquer terapia real.”

Em 2 de outubro de 2016 pelo Mirror

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Dezesseis anos atrás, a histórica 13ª Conferência Internacional de Aids inspirou o novo paradigma de acesso ao tratamento contra o HIV que ajudou a mudar a trajetória da epidemia global de aids. Este ano, com o retorno de 18.000 cientistas, políticos, ativistas e pessoas que vivem com HIV para Durban, na África do Sul, a Aids 2016 irá destacar os últimas avanços e desafios em uma área de rápida evolução na pesquisa científica, a qual poucos poderiam ter imaginado na primeira conferência de Durban — a perspectiva do desenvolvimento de abordagens seguras, eficazes e globalmente escaláveis para curar ou alcançar a remissão sustentada da infecção pelo HIV.

“A pesquisa para alcançar a cura está em estágio de formação, mas avanços significativos estão sendo feitos.”

“A cura do HIV tem o potencial de alterar o futuro desta epidemia”, disse a Prêmio Nobel Françoise Barré-Sinoussi, copresidente do Iniciativa pela Cura do HIV da International Aids Society (IAS). “Com 37 milhões de pessoas vivendo atualmente com HIV em todo o mundo, e outras 2 milhões de novas infecções a cada ano, alcançar a remissão sustentada da infecção pelo HIV ou uma abordagem eficaz para a cura seria um avanço inovador na área da saúde global. A pesquisa para alcançar a cura está em estágio de formação, mas avanços significativos estão sendo feitos e serão explorada em Durban, no quinto Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV e com o lançamento da Estratégia Científica Global da IAS: Rumo à uma Cura do HIV.”

“A cura se tornou uma prioridade na pesquisa do HIV.”

“A pesquisa da cura do HIV tornou-se uma realidade científica com o lançamento da primeira Estratégia Científica Global da IAS, em 2012”, observou o presidente da IAS, Chris Beyrer. “Hoje, a cura do HIV se tornou uma prioridade na pesquisa do HIV, marcada por avanços significativos em nossa compreensão sobre os desafios científicos e oportunidades, mais colaborações de pesquisa com foco em cura, e um novo otimismo de que é viável uma cura ou a remissão sustentável do HIV.”

 

Os principais eventos sobre a cura do HIV na Aids 2016 são:

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Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV (dias 16 e 17 de julho): O quinto Simpósio Anual Rumo à Cura do HIV ocorre imediatamente antes da Aids 2016, no Centro de Convenções Internacional de Durban. Copresidido por Françoise Barré-Sinoussi (Instituto Pasteur, Paris), Steven Deeks (Universidade da Califórnia, São Francisco) e Sharon Lewin (Instituto Doherty, da Universidade de Melbourne), o simpósio inclui palestras sobre os mais recentes avanços científicos na pesquisa da cura do HIV, juntamente com oportunidades de diálogo entre cientistas, pesquisadores clínicos, representante de agências de financiamento e a comunidade envolvida na pesquisa do HIV em todo o mundo, através de sessões, apresentações e mesas-redondas.

Os principais palestrantes no simpósio incluem algumas das figuras líderes mundiais na pesquisa da cura do HIV, incluindo Anthony Fauci do National Institutes of Health americano; Andrew Phillips da University College de Londres; Elizabeth Connick da University of Arizona; Thumbi Ndung’u da Universidade de Kwazulu-Natal, África do Sul; e Olivier Lambotte do Hôpital Bicêtre. Entre os destaques de pesquisa a serem apresentados estão:

  • Tráfego de células CCR5 editadas para tecidos de reservatórios virais e passam por seleção SHIV-dependente positiva em primatas não humanos: Christopher Peterson, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, EUA, apresenta uma estratégia de edição de gene em macacos que resulta em enxerto estável de CCR5-mutante e resistente ao SHIV HSPCs e seus descendentes, no sangue e nos tecidos conhecidos por servir como reservatórios virais.
  • Ativação celular IL-15 heterodimérica induz à ativação de células efetoras e o tráfego para os centros germinativos de macacos infectados com SIV: George Pavlakis do National Cancer Institute e National Institutes of Health, nos EUA, discute o papel da hetIL-15 no aumento do número de células T efetoras CD8, células NK ativadas e tráfego para os centros germinais de macacos infectados com SIV.
  • Não há evidência de replicação contínua em compartimentos de tecido sob a terapia antirretroviral combinada: Barbara Felber do National Cancer Institute e National Institutes of Health, nos EUA, apresenta este pequeno e importante estudo, sugerindo que os antirretrovirais bloqueiam a replicação do HIV ativo, incluindo em tecidos. Este estudo inclui pacientes em tratamento por longo prazo.
  • Efeito do Vorinostat, Hidroxicloroquina e Maraviroc em viremia após a interrupção do tratamento em indivíduos que iniciam ART durante a infecção aguda pelo HIV: Jintanat Ananworanich, do Centro de Pesquisas de Aids da Cruz Vermelha Tailandesa, apresenta este estudo randomizado, no qual os participantes de um dos braços do estudo foram tratados com Vorinostat, Hidroxicloroquina e Maraviroc, seguido por interrupção do tratamento. Todos os participantes tiveram relapso viral após a interrupção do tratamento, independentemente do tratamento.
  • Consórcio EpiStem — transplante alogênico em HIV-1 indivíduos infectados: Annemarie Wensing do Centro Médico da Universidade de Utrecht, Holanda, descreve uma coorte europeia que inclui 13 pacientes transplantados, quatro deles com um doador CCR5 delta 3, um com um heterozigoto e oito com um CCR5 tipo selvagem. A análise preliminar dos dados virológicos e imunológicos a partir das amostras de sangue e tecidos mostram uma redução sistemática dos reservatórios de HIV-1 para níveis muito baixos.
  • Persistência do SIV em macacos rhesus tratados com antirretrovirais: Ann Chahroudi, da Universidade de Emory. traz relatórios sobre a primeira demonstração de supressão persistente de viremia abaixo do limite de detecção em macacos rhesus infantis infectados com SIV e tratados com antirretrovirais.
Em 16 de julho de 2016 pela assessoria de imprensa da Aids 2016

 


Por Liz Highleyman para o Aidsmap em 8 de setembro de 2015

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Receptores de estrogênio sobre as células podem desempenhar um papel na latência e na reativação do HIV. Drogas que alvejam estes receptores podem potencialmente ser usadas tanto para promover a reativação de genes virais integrados como também mantê-los em silêncio, de acordo com a pesquisa apresentada na 8ª Conferência Internacional de Aids em Patogênese, Tratamento e Prevenção do HIV (IAS 2015) e no simpósio Rumo à Cura do HIV, que precedeu a conferência, em julho, em Vancouver.

O HIV integra o seu material genético (conhecido como provírus) em células T CD4 e outras células hospedeiras humanas, onde pode permanecer dormente por décadas. Este “reservatório” de células infectadas de forma latente em repouso torna o HIV muito difícil de curar: enquanto a terapia antirretroviral pode manter o vírus sob controle a longo prazo, mesmo uma pequena quantidade restante de células infectadas pode reacender a replicação viral se o tratamento for interrompido.

Os pesquisadores têm explorado uma ampla variedade de estratégias para curar o HIV, algo que a maioria dos especialistas agora acredita que virá a ser mais como uma remissão a longo prazo, ao invés vez da erradicação completa do vírus. Algumas dessas abordagens envolvem, antes de mais nada, prevenir o HIV de estabelecer sua latência ou de manter sua latência de forma permanente, enquanto outras envolvem a inversão da latência ou a reativação as células dos reservatórios, a fim de expulsar o vírus e torná-lo suscetível ao sistema imune ou às drogas antirretrovirais.

Jonathan Karn, da Case Western Reserve University School of Medicine, apresentou os resultados de um estudo de laboratório que explorou os efeitos do estrogênio e de agonistas do receptor de estrogênio (ativadores) e antagonistas (inibidores) em provírus de HIV em vários tipos de células.

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Jonathan Karn na IAS 2015. Foto de Marcus Rose/IAS 2015.

A pesquisa foi motivada pelo rastreio de uma biblioteca de sequências de ganchos de RNA — moléculas de RNA artificiais que podem ser utilizadas para desligar ou silenciar a expressão de um gene — procurando aqueles que parecem desempenhar um papel na manutenção da latência em promover a transcrição do HIV.

Um dos mais promissores era o receptor de estrogênio ESR-1, o que levou os pesquisadores a avaliar como os antagonistas de ESR-1, tais como o tamoxifeno e o dietilestilbestrol, afetam a latência e os reservatórios de HIV, em um estudo de laboratório.

Eles descobriram que os antagonistas de ESR-1, tais como Tamoxifeno e Fulvestrant, dois medicamentos contra o câncer de mama, discretamente reforçavam a reativação do provírus quando usado por si mesmos. Estes agentes também sensibilizavam células infectadas de forma latente para responder a doses mais baixas de ativadores de provírus conhecidos, incluindo o Vorinostat, um inibidor de HDAC. Gossipol, um composto de plantas de algodão modulador de SRC-3 e que bloqueia o ESR-1 também induziu expressão de provírus latente.

Quando células T em repouso obtidas de pessoas soropositivas em tratamento antirretroviral supressivo foram tratadas apenas com Tamoxifeno ou Fulvestrant, houve um aumento modesto na expressão do HIV. Adicionar Vorinostat sinergicamente a estes antagonistas de ESR-1  aumentou a reativação proviral.

Em contraste, os agonistas de ESR-1, tal como Dietilestilbestrol, inibiram a reativação de provírus de HIV em células latentes. Expor as células T de repouso a concentrações normais fisiológicas de estradiol — uma forma natural de estrogênio — inibiu a reativação de provírus em mulheres, mas não em homens.

“O estradiol em níveis de pico do ciclo menstrual é um potente inibidor da reativação viral.”

“Antagonistas de ESR são medicamentos bem estabelecidos e podem ser considerados como componentes de estudos clínicos com o objetivo de induzir a reativação proviral”, concluíram os pesquisadores. “O estradiol em níveis de pico do ciclo menstrual é um potente inibidor da reativação viral, sugerindo diferenças importantes entre homens e mulheres na replicação viral e nos tamanhos dos reservatórios”, disseram eles. “O projeto de regimes para a reativação proviral precisa levar em conta o estrogênio, e talvez outros hormônios, como fatores de confusão que afetam sua potência.”

Estes resultados podem ajudar a explicar algumas diferenças já observadas relacionadas ao gênero, como no estudo francês publicado na edição de 24 de agosto da revista Aids, que mostrou que os níveis de DNA de HIV intracelulares — uma medida do reservatório viral — são significativamente mais baixos em mulheres, comparados aos homens em tratamento antirretroviral supressivo de longo prazo.

Um estudo patrocinado pela amfAR está observando as diferenças específicas de gênero nos tamanhos dos reservatório de HIV, a reativação viral e inflamação residual entre homens e mulheres com supressão viral completa sob antirretroviral, que irá informar a inclusão das mulheres nos estudos de estratégias de cura e erradicação do HIV.


Referêncais:
Karn J et al. Estrogen blocks HIV re-emergence from latency and points to gender-specific differences in HIV reservoirs. 8th International AIDS Society Conference on HIV Pathogenesis, Treatment, and Prevention (IAS 2015), Vancouver, abstract TUAA0205LB, 2015.
Cuzin L et al. Levels of intracellular HIV-DNA in patients with suppressive antiretroviral therapy. AIDS 29:1665-1671, August 24, 2015.


A aids pode ser curada?

Cientistas cada vez mais perto de vencer o assassino.

Por em 22 de dezembro de 2014
A pesquisa atual tem como alvo a capacidade do HIV de ficar dormente nas células T de memória. Ilustração por Harry Campbell.

Era uma manhã de inverno, em 1981, e minha esposa acabara de voltar para casa, depois de seu turno no centro médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), quando me contou de um novo e desconcertante caso. Queenie era um garoto de programa de 18 anos de idade, com cabelos tingidos de acaju. Ele chegou ao pronto-socorro com febre alta e tosse, sintomas de uma pneumonia comum, para a qual foi tratado com antibióticos. Mas os médicos identificaram um micróbio em seus pulmões, chamado Pneumocystis carinii. Este micróbio é conhecido por causar uma rara infecção por fungos, vista em crianças sob severa desnutrição ou em adultos que passam por transplantes de órgãos e quimioterapia.

Diversos especialistas do hospital foram designados para compreender a razão de sua infecção. Queenie tinha uma contagem de plaquetas criticamente baixa, a qual o deixou susceptível à hemorragia e eu fui chamado para examiná-lo. Ele estava deitado de lado e respirava com dificuldade. Seus lençóis estavam encharcados de suor. Uma infecção de herpes tinha feito tantas bolhas sobre sua pele que os cirurgiões tiveram que cortar segmentos necrosados de suas coxas. Seus pulmões começaram a falhar e ele foi colocado num respirador. Pouco depois, Queenie faleceu, por insuficiência respiratória.

Ele era um dos muitos casos desta mesma e rara pneumonia que vinham sendo vistos por todo os Estados Unidos. Michael Gottlieb, imunologista da UCLA, estudou o sangue de alguns destes pacientes e fez uma importante observação: todos eles tinham perdido quase todas suas células T auxiliadoras, as quais protegem contra infecções e cânceres. Em junho de 1981, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) publicaram os casos de Gottlieb no Relatório Semanal sobre Morbidez e Mortalidade e, em julho, o Dr. Alvin Friedman-Kien, da Universidade de Nova York, reportou que 26 homens homossexuais em Nova York e na Califórnia tinham recebido diagnóstico de sarcoma da Kaposi, um câncer dos linfonodos e vasos sanguíneos. Estes casos também eram estranhos: o sarcoma de Kaposi afetava tipicamente homens idosos do leste europeu, de ancestrais judeus e mediterrâneos.

Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

Acabei cuidando dos pacientes com sarcoma de Kaposi. Eu era o mais jovem da equipe e não tinha qualquer expertise sobre o tumor. Entretanto, nenhum dos professores seniores queria este trabalho. Meu primeiro paciente, um bombeiro de meia-idade apelidado de Bud, era um homossexual que não “saíra do armário” e vivia em Los Angeles. Pouco antes de chegar ao hospital, ele encontrara tumores em suas pernas que mais pareciam cerejas maduras. Depois, também apareceram em seu tronco, em seu rosto e em sua boca. Apesar das fortes doses de quimioterapia, tratamento padrão para o sarcoma de Kaposi avançado, seus tumores cresciam, deixando-o desfigurado antes de matá-lo, em menos de um ano. Em 1982, homens com linfomas altamente agressivos começaram a chegar ao hospital. Eles também não respondiam à quimioterapia. Os pacientes morriam por uma variedade de doenças que venciam seus sistemas imunes devastados. Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

No ano seguinte, dois times de cientistas — um liderado por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e outro liderado por Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland — publicaram artigos na revista Science que descreviam um novo retrovírus nos nódulos linfáticos e nas células do sangue dos pacientes com aids. Este retrovírus tinha um jeito pernicioso de se reproduzir: inserindo permanentemente cópias de DNA do seu genoma dentro do núcleo da célula de seu hospedeiro, sequestrando o maquinário da célula para seu próprio propósito. Quando o retrovírus sofre mutação, o que frequentemente acontece, sua prole é mais difícil de ser afugentada pelo corpo ou por vacinas. Era amplamente aceito que doenças causadas por retrovírus fossem incuráveis. Em maio de 1986, depois de muita disputa sobre os créditos da descoberta (os franceses finalmente levaram o Nobel em 2008), um comitê internacional de cientistas concordou no nome HIV, ou vírus da imunodeficiência humana. Ao final daquele ano, cerca de 25 mil dos quase 29 mil casos de aids entre americanos haviam morrido.

O HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna.

Desde então, o HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna. Em 1987, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o AZT, uma droga desenvolvida para tratar câncer e que acabou nunca indo para o mercado, para uso em pacientes com HIV. No começo, seu preço era exorbitantemente alto e era prescrito em altas toses, as quais se provaram tóxicas e geraram protestos na comunidade gay. Ainda assim, o AZT mostrou-se capaz de adentrar no DNA do vírus assim que este se formava e por isso continuou a ser usado, mas em doses menores. Hoje os cientistas já desenvolveram mais de 30 remédios antirretrovirais que impedem o HIV de se reproduzir nas células T auxiliadoras.

A ideia de combinar os medicamentos num “coquetel” veio em meados dos anos 90, espelhando como os oncologistas tratavam o câncer. Células cancerígenas, assim como partículas de HIV, podem mutar rápido o suficiente para escapar de medicamentos que têm um único alvo. O regime de tratamento — TARV, de terapia altamente eficaz com antirretrovirais — foi colocado em estudos clínicos por cientistas proeminentes, como David Ho, do Instituto Aaron Diamond, em Nova York. Eu prescrevi o coquetel para um de meus pacientes, David Sanford, e menos de um mês depois de iniciá-lo sua febre cessou, suas infecções desapareceram, sua energia voltou e ele começou a ganhar peso. O HIV em sua corrente sanguínea despencou para um nível indetectável, e ali ficou. Mais tarde, em um artigo vencedor do Pulitzer, Sanford escreveu: “É mais provável que eu morra atropelado por um caminhão do que de aids” — uma máxima que hoje é válida para a maioria das pessoas que vivem com HIV nos Estados Unidos. Nos últimos cinco anos, dentre as dezenas de pacientes com HIV que eu trato, nenhum deles morreu da doença.

Ainda há obstáculos enormes. 35 milhões de pessoas no mundo estão vivendo com o vírus. Na África subsaariana, onde são reportados a maioria dos novos casos, 63% das pessoas elegíveis ao tratamento não o recebem; e aqueles que recebem frequentemente não o recebem por completo. Nos Estados Unidos, um ano de TARV custa milhares de dólares por paciente e os efeitos colaterais a longo prazo podem ser debilitantes.

Hoje, os cientistas têm falado cada vez mais sobre a cura. Sabemos sobre o HIV tanto o quanto sabemos sobre alguns cânceres: seus genes foram sequenciados, seu método de infiltrar nas células do hospedeiro foi decifrado e suas proteínas foram mapeadas tridimensionalmente. Uma importante descoberta foi alcançada em 1997: o vírus consegue permanecer dormente em células de vida longa, intocável pelos medicamentos atuais. Se conseguirmos de maneira segura e financeiramente acessível eliminar este reservatório viral, nós finalmente conseguiremos derrotar o HIV.

Ward 86, o primeiro ambulatório de aids americano, foi aberto no San Francisco General Hospital em 1º de janeiro de 1983. Recentemente, fui até lá para encontrar Steven Deeks, um expert em ativação imune crônica e inflamação decorrente do HIV. Deeks, um professor da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), também é coordenador de estudo SCOPE, que acompanha um grupo de 2 mil homens e mulheres HIV positivos, nos quais ele mede os efeitos de longo prazo de viver com o vírus. A cada ano, amostras de sangue são enviadas para laboratórios de todo o mundo. A missão de Deeks é catalogar os danos que o HIV faz nos tecidos e testar novas drogas que podem ajudar.

“Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”

Sua ala ocupa o sexto andar de um prédio art déco que fica na parte norte do campus da UCSF. Encontrei Deeks em seu escritório, vestindo uma camisa de flanela e tênis New Balance. Ele explicou suas preocupações sobre o coquetel. “Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”, ele disse. Mas não permitem que muitos pacientes se recuperem por completo. O sistema imune se recupera o suficiente para prevenir a aids, mas, uma vez que o vírus persiste, o sistema imune precisa manter uma resposta discreta porém constante. Isso cria inflamações crônicas, as quais danificam os tecidos.

A inflamação é exacerbada pelos efeitos colaterais dos medicamentos. Os primeiros tratamentos causavam anemia, danos nos nervos e lipodistrofia — o emagrecimento dos membros e da face e depósitos de gordura em volta da barriga. A lipodistrofia ainda é um problema sério. Deeks observou que muitos pacientes do estudo SCOPE têm altos níveis de colesterol e triglicérides, o que pode levar a danos nos órgãos. Uma consequência séria são as doença cardíacas, as quais parecem ser causadas pela inflamação das paredes das artérias. Deeks também viu em seus pacientes cânceres no pulmão, no fígado e na pele. Num eco dos primeiros dias da epidemia, ele notou que muitos pacientes de meia-idade desenvolvem doenças associadas com a velhice: doenças nos ossos e nos rins e possíveis efeitos neurocognitivos. Uma melhor definição para aids, segundo Deeks, seria “doença da inflamação adquirida”.

Ele me apresentou para um de seus pacientes, a quem vou chamar de Gordon. Um homem alto, cordial e com óculos sem aro levantou-se para apertar a minha mão e eu percebi sua barriga protuberante. Ele é HIV positivo há quase 40 anos e se disse sortudo por estar vivo: “Meu parceiro de dez anos, que tinha a mesma cepa de HIV, que comia a mesma comida, visitava os mesmos médicos e tomou os mesmos remédios do começo da epidemia, morreu em junho de 1990, quase 25 anos atrás.”

Ele me disse: “Não estou mais preocupado com o vírus. Estou mais preocupado com meu organismo e com o envelhecimento precoce.” Em 1999, aos cinquenta anos de idade, ele descobriu que os depósitos de gordura tinham constrito significativamente a circulação sanguínea de uma importante artéria que alimenta o ventrículo esquerdo de seu coração. Ele começou a experimentar dores incapacitantes ao andar, pois o suprimento de sangue para seu tecido ósseo tinha diminuído — uma condição chamada de necrose avascular. Em 2002, fez sua primeira cirurgia para colocar uma prótese no quadril e, em 2010, fez a segunda. Seus músculos diminuíram e manter-se sentado pode ser desconfortável; para isso ele usa cuecas acolchoadas com espuma. A cada dois anos, recebe injeções de ácido poliláctico no rosto, o qual substitui a perda de conexão dos tecidos.

A longevidade de Gordon e as dezenas de medicamentos que ele tomou para ficar vivo exemplificam a experiência de milhões de pacientes infectados com aids. Seu tratamento custa quase 100 mil dólares por ano. Embora seja coberto por asseguradoras e pelo Estado da Califórnia, ele chama a isso de “preço do resgate: seu dinheiro ou sua vida.” Para Deeks, a pergunta é: “Será que o mundo pode encontrar recursos para criar um sistema que ofereça, diariamente, medicamentos antirretrovirais para 35 milhões de pessoas, muitas das quais em regiões muito pobres?” Ele duvida. E é por isso que está concentrado em encontrar a cura. “Nossa filosofia é que, para alcançar a cura do HIV, precisamos descobrir onde e por que o vírus persiste”, disse.

Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez?

Em 1997, em meio à euforia decorrente da TARV, as pessoas começaram a pensar seriamente sobre a cura. Mais cedo ou mais tarde, todas as células infectadas morrem por conta própria. Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez? Naquele ano, David Ho publicou um artigo na revista Nature, no qual ele previa matematicamente que um paciente sob regime de TARV poderia vencer o vírus detectável em 28 à 37 semanas. Nesta mesma edição da revista havia um artigo de opinião bastante diferente, escrito por Robert Siliciano, hoje pesquisador na Johns Hopkins School of Medicine. Usando um teste incomum e extremamente sensível, Siliciano localizou o HIV num tipo de célula T auxiliadora que provê memória para nossos sistemas imunes e que pode viver por décadas. Células T de memória são de importância ímpar: elas reconhecem os antígenos nas infecções e orquestram respostas rápidas. Mas o vírus provou ser ainda mais esperto. Ele permanece dormente nas cadeias de DNA do hospedeiro, intocado pelo coquetel de medicamentos, e, se este for interrompido, ele pula de volta à vida, degradando então o sistema imunológico.

Aos 62 anos de idade, esguio e discreto, Siliciano é muito conceituado na pequena comunidade de pesquisadores de HIV. Ele conheceu sua esposa e colaboradora, Janet, nos anos 70, quando ela ainda era estudante de graduação na Johns Hopkins, onde estudava as proteínas que as células T soltam quando se deparam com micróbios. Hoje com 59 anos de idade, cabelos ruivos cacheados e um sotaque de New Jersey, Janet se juntou ao laboratório de Bob quando seu artigo foi publicado na Nature. Ela disse que a ideia do artigo foi dele, mas Bob disse que foi Janet quem desenvolveu a ideia ao longo de sete anos, acompanhando os níveis de vírus dormente em pacientes tratados consistentemente com TARV. Os dados que ela coletou confirmaram a tese: o vírus pode sobreviver por tempo quase indeterminado. “Nós calculamos que demoraria 70 anos de TARV contínua para que todas as células T de memória morressem”, ela disse.

Siliciano me contou sobre a primeira vez em que viu um vírus latente emergir de uma célula T de memória de um paciente com HIV e em TARV. O paciente achava que estava curado. “Ele havia sido biopsiado em todos os lugares imagináveis e ninguém conseguia encontrar qualquer vírus”, disse Siliciano. Os pesquisadores colheram vinte tubos de sangue do paciente, isolaram as células T e separaram-nas em vários compartimentos. O espécime foi então misturado com células de pacientes não infectados. Se as células T saudáveis fossem infectadas, o vírus se reproduziria e seria expelido. A detecção do vírus seria sinalizada pela mudança da cor do tubo de ensaio para azul. Siliciano se lembra de estar sentado em sua mesa, conversando com um visitante, quando um estudante entrou em sua sala, num pulo: “Os tubos estão ficando azuis!” Ele disse que “foi um momento muito estranho, porque era a confirmação de uma hipótese — o que é empolgante — mas também era um desastre. Todo mundo chegou à mesma conclusão: as células persistiram infectadas apesar da terapia antirretroviral.”

O laboratório de Siliciano ocupa o oitavo andar do Miller Research Building, na Johns Hopkins School of Medicine. O time de 26 pesquisadores — entre técnicos, estudantes, colegas e professores — trabalha num espaço amplo e arejado, numa instalação de Nível 3 de Biossegurança, na ala norte do edifício. Lá, eles manipulam espécimes de seus pacientes HIV positivos e de muitos outros. Num ambiente com pressão do ar negativa, os pesquisadores colhem amostras de sangue de uma incubadora e as colocam numa capela de fluxo laminar, a qual cria uma corrente de ar. Nada sai do edifício sem ser duplamente ensacado e esterilizado.

Grande parte da pesquisa atual sobre aids parte da descoberta fundamental dos Silicianos, a respeito dos reservatórios de HIV. O mesmo acontece com o trabalho deles hoje em dia. Usando químicos potentes, os Silicianos foram capazes de atrair o HIV para fora de seu esconderijo nas células T de memória, avaliar o alcance do vírus dentro do corpo e começar a mapear onde mais ele poderia estar escondido.

Alguns anos atrás, começaram a prestar atenção aos “blips”, pequenos e repentinos aumentos na carga viral que podem acontecer de vez em quando no sangue de pacientes em TARV. Os médicos estavam preocupados que os blips pudessem ser partículas de vírus que se tornaram resistentes à TARV e assim escaparam das células. Os Silicianos pensavam diferente: as partículas virais teriam sido soltas por células infectadas de maneira latente e que agora foram ativadas. Eles analisaram o sangue de pacientes com blips a cada dois ou três dias ao longo de três ou quatro meses. Sua hipótese mostrou-se correta: o vírus não tinha se tornado resistente aos medicamentos, apenas estava dormente nos reservatórios das células T de memória. Ele poderia ser liberado do reservatório de maneira intermitente, mesmo quando o paciente tomava remédios antirretrovirais.

Embora os cientistas tenham sido castigados pela descoberta de que o regime de medicamentos sozinho não seria capaz de levar à cura, eles recentemente descobriram três casos fora do comum que os encorajaram a continuar tentando. O primeiro caso foi Timothy Ray Brown.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune.

Brown é conhecido como o Paciente de Berlim, uma vez que foi nesta cidade que ele se tornou a única pessoa a ser curada do HIV. Em 2006, mais de uma década depois que descobriu ser HIV positivo, ele recebeu um diagnóstico, não relacionado com o vírus, de leucemia mielóide aguda, um câncer de medula óssea. Depois do tratamento inicial, sua leucemia voltou. Brown precisava de um transplante de medula óssea. Seu hematologista, Gero Huetter, teve a criativa ideia de usar um doador com uma mutação genética que desliga a proteína CCR5, uma porta de entrada do HIV nas células T auxiliadoras. Em 7 de fevereiro de 2007, Brown recebeu o transplante. Um ano depois, ele repetiu o procedimento. Em 2009, as biópsias de seu cérebro, nódulos linfáticos e intestino mostraram que o vírus não tinha voltado e que sua contagem de células T estava de volta ao normal.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune duas vezes, com células de medula óssea transplantadas. Foi muito perigoso e dispendioso. Os pesquisadores se perguntaram se poderiam produzir uma versão simplificada deste procedimento. Em 2013, médicos do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, reportaram o resultado de um estudo no qual dois pacientes HIV positivos sob TARV receberam transplantes de medula óssea para tratar seus linfomas. Seus doadores, diferentemente do doador de Brown, não tinham a mutação do CCR5 e a quimioterapia a que foram submetidos foi menos intensa. A TARV foi interrompida alguns anos depois dos transplantes e o vírus permaneceu indetectável por meses, para então ressurgir.

Em julho último, vieram os resultados de um terceiro caso. Em 2010, uma menina conhecida como a Bebê do Mississippi nasceu de uma mãe HIV positiva que não tomou antirretrovirais. A bebê tinha o vírus no sangue. 30 horas após o parto, a recém-nascida foi colocada sob terapia antirretroviral. Em algumas semanas, sua carga viral caiu para abaixo do limite de detecção. A bebê tinha 18 meses de idade quando o tratamento foi então interrompido, contra recomendação médica. Por dois anos, o sangue da menina não apresentou qualquer sinal do vírus e os pesquisadores especularam que o tratamento precoce com TARV poderia ter prevenido o HIV de formar um reservatório dormente. No entanto, 27 meses depois da interrupção dos medicamentos, a criança testou positivo para o vírus. Embora os pesquisadores tenham ficado impressionados que a intervenção precoce tenha banido temporariamente o HIV, ela não foi curada.

Em agosto, Janet e Robert Siliciano escreveram sobre os pacientes de Boston e a Bebê do Mississippi na revista Science, afirmando que os casos confirmavam que os pesquisadores estão no caminho certo no combate à infecção latente. O Paciente de Berlim era um exemplo ainda mais complexo. Karl Salzwedel, chefe de patogênese e pesquisa básica na Divisão de Aids do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, me contou que, até o caso de Timothy Brown, “não estava claro como é que nós iríamos nos livrar dos últimos pedaços de vírus que permanecem nos reservatórios.” O caso de Brown trouxe “uma prova de conceito: é possível erradicar o HIV latente do corpo, ainda que seja a partir de um método arriscado e tóxico. Ainda assim, é uma prova de conceito.”

A nova peça central no esforço americano de curar o HIV está no Martin Delaney Collaboratories. Financiado pelos Natiotal Institutes of Health (NIH) em 2011, esses laboratórios colaborativos foram formulados para ligar laboratórios clínicos, centros de pesquisa e empresas farmacêuticas. O apoio federal é de 70 milhões de dólares pelos primeiros cinco anos, sob a premissa de cooperação e comunicação aberta entre todas as partes. Salzwedel me contou que o NIH financiou três pedidos e que “cada um deles estava abordando uma estratégia de erradicar o HIV de maneira diferente”, melhorando o sistema imune dos pacientes, manipulando geneticamente o gene CCR5 e destruindo os reservatórios. Estas representam diferentes respostas à tese de Siliciano e das lições aprendidas com Timothy Brown.

Mike McCune, chefe da Divisão de Medicina Experimental da UCSF, pesquisa meios através dos quais o HIV pode ser erradicado do corpo pelo próprio sistema imune. Ele foi atraído por uma observação feita nos primeiros dias da epidemia: bebês nascidos de mães com HIV eram infectados no útero apenas em 5 a 10% das vezes, mesmo embora eles sejam expostos ao vírus ao longo da gestação. Mais recentemente, McCune e seus colegas observaram que o sistema imune fetal, em desenvolvimento, não reage contra as células da mãe, as quais podem facilmente atravessar a placenta e alcançar os tecidos fetais. Ao invés disso, o feto produz células T especializadas que suprimem respostas inflamatórias contra a mãe e podem também prevenir respostas inflamatórias contra o HIV, bloqueando assim o avanço rápido do vírus no útero e poupando a criança.

“Há um yin e yang no sistema imune.”

McCune trabalhou por muitos anos com Steven Deeks e o estudo SCOPE. Quando conversei com ele em São Francisco, ele disse: “Há um yin e yang no sistema imune. Estamos tentando recapitular o balanço orquestrado encontrado no feto.” McCune agora está trabalhando em intervenções que podem vir a prevenir a inflamação contra o HIV em adultos, numa tentativa de imitar parcialmente o equilíbrio encontrado no útero. Ele também está desenvolvendo métodos que podem vir a permitir que o sistema imune reconheça melhor e destrua o vírus, assim que este se manifestar. Estes estudos estão sendo conduzidos em primatas, não humanos, e podem chegar a testes em humanos entre um a dois anos.

Em Seattle, um grupo liderado por Hans-Peter Kiem e Keith Jerome está adotando uma abordagem mais futurista. Usando uma enzima chamada Dedo de Zinco, eles estão alterando geneticamente o sangue e as células da medula óssea a fim de desativar o CCR5, a porta de entrada do HIV nas células T. Os pesquisadores vão modificar as células fora do corpo e, assim, quando forem devolvidas, parte das células da corrente sanguínea serão resistentes à infecção pelo HIV. Com o tempo, eles esperam, estas células vão se propagar e o paciente vai aos poucos construir um sistema imune que é resistente ao vírus. Estes pacientes podem ainda ter um pequeno reservatório de HIV, mas seus corpos serão capazes de regular a infecção.

O maior laboratório colaborativo, com mais de 20 membros, é liderado por David Margolis, da Universidade da Carolina do Norte. Margolis, um expert em doenças infecciosas, tem como alvo os reservatórios. Sua estratégia, a qual passou a ser conhecida como “chutar e matar”, é de reativar os vírus dormentes, desmascarando as células que os carregam para que possam ser destruídas. Em 2012, ele publicou os resultados de um estudo clínico com a droga Vorinostat, a qual foi originalmente desenvolvida para tratar cânceres nas células T, agora testada no tratamento de choque contra o HIV. Em outubro último, a ideia de “chutar e matar” estava sendo amplamente discutida quando o time de colaboradores se reuniram no NIH, ao lado de centenas de outros pesquisadores, diversos acadêmicos e leigos interessados. Margolis e sua equipe falaram de novos meios de expulsar o vírus para fora da dormência.

A fase de matança é mais desafiadora, uma vez que as células que receberam o “chute” trazem poucos antígenos contra o HIV, que são as bandeiras tóxicas hasteadas por partículas patogênicas antes do ataque. Uma das abordagens da estratégia de matança vem de um tipo pouco comum de HIV positivo, que pode carregar o vírus por décadas sem ser incomodado por ele. Chamados “controladores de elite”, possuem células T citotóxicas, ou células NK, de natural killer, que atacam as células produtoras de vírus. O objetivo é tornar todos os pacientes HIV positivos em controladores de elite através de “vacinação terapêutica”, a qual poderia permitir que os pacientes produzissem suas próprias células T citotóxicas.

Os cientistas também estão tentando desligar uma molécula chamada PD-1, a qual o corpo usa para restringir o sistema imune. Desativar a PD-1 tem funcionado em estudos clínicos em pacientes com melanoma e câncer de pulmão. Um paciente parece ter sido curado de hepatite C com uma única injeção de um bloqueador de PD-1 produzido pela Bristol-Myers Squibb.

Grupos fora destes laboratórios colaborativos e que também estão testando meios de alcançar a cura da aids compartilham seus resultados com as equipes do NIH. Em paralelo com o grupo de Seattle, Carl June, diretor de pesquisa translacional do Centro de Câncer de Abramson, na Universidade da Pensilvânia, e seus colegas têm usado engenharia genética para fechar a porta do CCR5. Na edição de março último do New England Journal of Medicine, eles reportaram sobre seu estudo clínico mais recente, o qual mostrou que células T modificadas podem sobreviver por anos em pessoas com HIV. Um trabalho similar em desligar o CCR5 está sendo feito pela Calimmune, uma empresa sediada na Califórnia devotada à busca da cura da aids. (Um de seus fundadores é David Baltimore, que recebeu o prêmio Nobel pela descoberta transcriptase reversa, uma enzima crucial na reprodução retroviral.) Grupos na Dinamarca e na Espanha também tiveram progresso e, em 2012, pesquisadores na França analisaram o estudo Visconti, o qual pôs a intervenção precoce recebida pela Bebê do Mississippi num estudo formal. Um pequeno grupo de 14 pacientes HIV positivos foi logo tratado, semanas após a infecção, e então a TARV foi interrompida. Eles permaneceram livres do vírus por vários anos.

Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Hoje, é curável em 9 de 10 casos.

A luta contra a aids está seguindo uma trajetória similar à luta contra vários cânceres. Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Finalmente, foram desenvolvidos medicamentos capazes de levar o câncer à remissão, em meses ou anos. Mas o câncer sempre voltava. Nos anos 70, cientistas descobriram que células leucêmicas permaneciam dormentes no sistema nervoso central e, com isso, desenvolveram tratamentos direcionados, capazes de eliminar estas células. Hoje, a leucemia infantil é curável em 9 de 10 casos.

Em julho último, na 20ª Conferência Internacional de Aids, em Melbourne, na Austrália, Sharon Lewin, um expert em doenças infecciosas da Universidade Monash, disse: “Neste momento, nós provavelmente estamos diante de alcançar remissão a longo prazo.” Muitos especialistas concordam que a remissão é factível e que, em algum momento, nós seremos capazes de desmamar nossos pacientes da atual terapia vitalícia.

Até mesmo os cientistas mais céticos a respeito da aids acreditam que a remissão é o próximo passo, que precede a cura. Robert Siliciano me disse que “O primeiro objetivo é reduzir o reservatório. E isso não apenas pelo indivíduo mas em prol da saúde pública.” Quando uma pessoa puder ficar fora da TARV, os recursos de seu tratamento poderão ser alocados para pacientes que ainda precisam de tratamento.

David Margolis acredita que sua estratégia de “chutar e matar” vai funcionar, embora possa levar 10 a 20 anos. Os Silicianos concordam que é preciso pesquisar mais. “Chutar e matar”, segundo eles, vai precisar de mais do que uma única droga, como o Vorinostat. O regime ideal não pode ser identificado até que fique claro qual o tamanho dos reservatórios de vírus latente. E os Silicianos ainda não desenvolveram um método de medição preciso para isso. Até agora, o único jeito de determinar se uma cura foi alcançada tem sido acompanhar pacientes que estão fora do tratamento por anos. “Quanto mais aprendemos, mais perguntas temos”, disse Janet.

Ainda assim, as perguntas que têm sido respondidas têm surpreendido os cientistas. Na UCLA, durante os primeiros e brutais anos da epidemia, eu nunca teria imaginado que, no futuro, os pacientes chegariam aos seus 80 anos de idade. Uma doença fatal foi domada e hoje é uma doença crônica. O próximo passo é encontrar a cura. Os cientistas são inatamente cautelosos, pois, ao longo dos anos, aprenderam com a aids que é preciso ter humildade. A ciência atua em torno de um núcleo de incertezas, no qual se encontram contratempos, mas também a esperança.

Jerome Groopman, escritor da equipe desde 1998, escreve principalmente sobre medicina e biologia.


Em minha última visita ao Dr. Esper Kallás, como sempre, acabamos falando muito mais coisas além de meus exames. Antes de falar sobre o meu CD4, discutimos os avanços na pesquisa da cura e esclarecemos tudo o que você precisa saber a respeito dos testes de diagnóstico e a janela imunológica.

Eu acabara de tomar um delicioso café na Avenida Paulista, quando segui em direção ao consultório do doutor. Atravessei o saguão do prédio e entrei no elevador. Estava dez minutos adiantado. Na sala de espera, me dirigi ao balcão da secretária e logo me deparei com o Dr. Esper, que estava em pé diante da porta de sua sala.

“— Entre logo, Jovem!”, acenou o doutor.

“— Dessa vez parece até que faz mais de três meses”, disse eu. “Preciso confessar que senti sua falta, doutor!”

“— É bom te ver, Jovem!”

Em seguida, Dra. V. entrou na sala, trazendo uma lata de Coca-Cola e três copos.

“— Servido?”, ofereceu a doutora, enquanto se sentava conosco.

“— Sim, obrigado.”

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Parte I, a pesquisa da cura

“— E então, o que achou da Superinteressante de Agosto?”, perguntou o doutor, apontado para a capa da revista.

“— Nem li”, respondi. “Ando um pouco desinteressado pelas notícias, doutor.”

“— Ah! Faz bem! Na matéria, sabe qual medicamento eles sugerem que será o medicamento da cura?”

“— Qual?”

“— O Vorinostat!”

“— E ele não é promissor?”, perguntei, surpreso.

“— Na melhor das hipóteses, ele é prova de conceito, Jovem”, explicou a Dra. V. “Isso quer dizer que vai servir para fomentar o desenvolvimento de algum outro medicamento. Mas o Vorinostat certamente não será o remédio da cura.”

“— E por que não?”

“— Porque a taxa de transcrição que ele oferece, de sete vezes, é muito baixa em virologia. Se fosse em bactérias seria suficiente, mas não é o caso”, prosseguiu a doutora.

“— A transcrição é o processo que faz expressar o vírus latente?”

“— Exatamente. É o que faz o vírus escondido nos reservatórios sair. E essa taxa precisa ser muito mais alta que isso para ser significativa em virologia. Portanto, o que os estudos que utilizaram o Vorinostat mostraram é que é possível fazer expressar o vírus latente. Mas precisamos de algo mais potente”, completou o doutor.

“— O Panobinostat?”

“— Também não. A taxa de transcrição deste é apenas um pouco mais elevada que a do Vorinostat”, respondeu ele.

“— Então qual?”

“— Eu apostaria no brasileiro que está sendo testado em macacos“, disse o doutor.

“— Então, na melhor das hipóteses, ainda temos algo como 20 anos pela frente?”

“— Não, Jovem! Se tudo der certo, em 10 anos temos um medicamento que pode, quem sabe, fazer expressar grande parte do vírus latente.”

“— Que maravilha, doutor!”

“— Mas, claro, temos que aguardar os resultados de todos os estudos. E o que os seus leitores acharam da matéria da Superinteressante?”

“— A grande maioria não ficou entusiasmada com a matéria, não. Agora, com o blog colaborativo, eles estão ainda mais antenados nos estudos e já previam que aquela manchete era exagero para vender a revista”, respondi.

“— Eles acompanham os estudos de perto, né?”

“— Bastante! Um leitor, inclusive, foi assistir à palestra do Dr. Michael Lederman.”

“— Ah, sim! Mostrei o seu blog e o comentário daquele leitor para ele. Ficou contente por um lado e decepcionado por não ter uma palestra que possa ser compreendida por todos. Disse que cometemos a falha de não nos comunicarmos bem com a sociedade, algo que seu blog cumpre bem.”

“— Mas ainda há algumas coisas a serem esclarecidas doutor”, prossegui. “Precisamos de algo claro e definitivo a respeito de janela imunológica. Pois isso deixa os pacientes em diagnóstico loucos!”

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Parte II, testes e janela imunológica

“— A própria informação sobre janela imunológica apresentada no site do Ministério da Saúde está desatualizada e, portanto, errada. Já disse isso para eles e em breve deve ser corrigido. A janela imunológica não é de 120 dias. Com 30 dias, a contar da relação desprotegida, a janela imunológica vale para todos os testes de HIV”, disse o doutor.

“— O que é que varia entre os testes, então? E por que há tantos testes diagnósticos? Qual a diferença entre Teste Rápido, ELISA, Western blot e PCR? E por que existem dois PCRs: quantitativo e qualitativo?”

“— Cada um desses testes examina coisas diferentes:

Teste Rápido e ELISA (ou Sorologia para HIV) são testes de detecção anticorpos. Portanto, uma vez que examinam anticorpos, o organismo do paciente precisa já ter reagido à presença do HIV para que o teste dê positivo. A média desse tempo de reação é de 22 dias, e, quando isso acontece, dá-se o que chamamos de soroconversão. Hoje em dia, o ELISA disponível no Brasil é apenas o de 4ª geração. Portanto, os pacientes não precisam se preocupar com isso: se fizeram o teste ELISA no Brasil, ele é de 4ª geração.

Antígeno P24 é um teste que, no Brasil, sempre acompanha o teste ELISA, mesmo que o pedido médico não especifique isso. Como o próprio nome já diz, o P24 não examina anticorpos, mas o antígeno, que é um pedacinho do vírus. Assim, para que o P24 dê positivo, basta que este pedaço do vírus seja encontrado.

Western blot também é um exame de anticorpos. Ele é considerado um teste confirmatório do diagnóstico porque é mais preciso que o ELISA. Enquanto o Teste Rápido e o ELISA examinam o anticorpo contra o HIV como um todo, o Western blot consegue enxergar anticorpos específicos contra cada proteína que compõe o vírus.

PCR Quantitativo, por sua vez, é a mesma coisa que Carga Viral. Ele mede a quantidade de vírus no sangue, através da presença do seu RNA.

PCR Qualitativo também examina o RNA do HIV, mas, em virtude de sua metodologia, ele não é capaz de quantificar o vírus. Ao invés disso, ele apenas dá um resultado ‘positivo’ ou ‘negativo’ para a presença de RNA do HIV. Antigamente, o Qualitativo era mais preciso que Quantitativo, pois conseguia examinar até 25 cópias de vírus. Hoje, ambos costumam ter a mesma precisão, o que fez com que o PCR Qualitativo não fizesse mais tanto sentido e acabasse caindo em desuso.”

“— Se o Teste Rápido e o ELISA examinam anticorpos, por que não se usa apenas o Teste Rápido?”

“— Porque o ELISA é mais sensível e preciso e o Teste Rápido é oferecido apenas pela rede pública, nos CTAs, onde os profissionais são treinados para amparar o paciente de um eventual diagnóstico positivo. O Teste Rápido é usado porque muitos dos pacientes que faziam o ELISA nunca vinham buscar seu resultado. Com um resultado imediato esse cenário mudou, o que é um grande avanço em epidemiologia. De fato, é mais difícil que uma pessoa se disponha a passar pelo período de angústia que o tempo de espera pelo resultado do ELISA pode representar, quando um teste parecido pode dar essa resposta em minutos.”

“— E a janela imunológica é igual para todos os testes de diagnóstico?”, perguntei.

“— Deixe-me abrir um PDF que contém um gráfico que vai responder bem a esta pergunta”, respondeu o doutor, abrindo o documento na tela de seu computador.

Testes e Janela Imunológica

“— Veja”, prosseguiu ele. “O PCR é sensível à presença do vírus a partir de 10 dias da relação desprotegida; o Antígeno P24, a partir de 15 dias; o ELISA e o Teste Rápido são sensíveis à infecção a partir de 20 dias; e o Western blot, entre 25 a 28 dias. Com 30 dias da relação desprotegida, portanto, todos estes testes são sensíveis a um eventual diagnóstico positivo.”

“— Então por que o PCR não é sugerido logo?”

“— Porque, uma vez que o PCR detecta o RNA viral a partir de 25 ou 50 cópias, ele é dependente da quantidade de vírus no organismo e, por isso, pode não detectar casos em que o paciente é um controlador de elite.

Portanto, por mais sensível que um teste seja, não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito imediatamente após a relação desprotegida, porque a quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.”

“— A janela de 30 dias é a definitiva, então?”

“— Sim. Ela só é maior se o paciente fez profilaxia. Nesse caso, naturalmente, a referência não é mais a relação desprotegida: contam-se 30 dias a partir do término da profilaxia.”

“— E casos de falsos positivo e negativo? Existem? São comuns ou raros?”

“— São raros. Eles representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Parte III, o meu CD4

Nossa conversa foi interrompida por gritos que atravessavam o vidro da janela fechada.

“— Esses manifestantes!”, reclamou o doutor. “Fui às passeatas e estou de acordo com várias das revindicações, mas protestar em frente a um hospital é demais! Isso não se faz!”

Da janela de seu consultório, víamos a polícia, a imprensa e os manifestantes bloqueando a entrada do Hospital Sírio Libanês.

“— Vou fechar a cortina para que você não apareça nos jornais”, brincou o doutor, antes de medir minha pressão arterial e auscultar meu coração. “12 por oito. Tudo em ordem, Jovem! E os exames?”, perguntou, enquanto eu vestia a camisa e voltávamos para a mesa.

“— Fiz no mesmo laboratório, doutor.”

O Dr. Esper logo abriu os resultados na tela de seu computador.

“— Carga viral indetectável, colesterol bom, triglicérides ótimo, vitamina D melhorou…”

“— Troquei a suplementação. Estou tomando DePura.”

“— Então continue! Está tudo ótimo…”, prosseguiu ele, descendo até o resultado dos linfócitos. “A única coisinha é a sua contagem de CD4, em 330”, disse o doutor, batendo com a caneta sobre a tela do computador. “Mas, não é nada alarmante.”

“— Sim, já estou me acostumando com isso. Minha única dúvida quanto a esse assunto é bem objetiva: em outubro do ano passado, quando atingi o recorde de maior contagem de CD4 desde o diagnóstico, com 436 células, você me disse que era muito bom, pois isso me livrava da possibilidade de ser um não-respondedor imunológico, certo?”

“— Certo. E você agora nota que aquele resultado, de 436, parece ser um resultado de exceção, é isso?”, completou o doutor, olhando para mim.

“— Sim, é isso. Se aquele é um resultado de exceção, eu sou então um não-respondedor?”, perguntei.

“— Jovem, a sua contagem é de fato mais baixa, mas, note que isso também se passa com a sua contagem total de linfócitos, e não só de CD4. Enquanto isso, a sua porcentagem de CD4 é boa, em 29%”, disse o doutor.

“— E a relação CD4/CD8, estável em torno de 0,7, também é boa”, completou a Dra. V. “Acima de 0,5 já consideramos saudável.”

“— Muito bem! Então, nos vemos só daqui a três meses?”, disse eu, me despedindo dos dois.

“— Ou volte antes, e tomamos um café!”, respondeu o doutor, me cumprimentando já na porta de sua sala, diante do consultório todo vazio e já com algumas luzes apagadas.

“— Quero participar. Me avise, doutor!”, disse Dra. V. ao Dr. Esper, enquanto me acompanhava até a porta.

“— Então, nos vemos em breve!”, disse aos doutores.