Em 2016 tivemos uma notícia animadora sobre a pesquisa da cura do HIV: falava de um anticorpo “fascinante”, “impressionante” e “incrível demais para ser real” que tinha levado oito macacos à beira da cura do SIV, o vírus da imunodeficiência símia — vírus que é primo do HIV.

Naquela altura, uma equipe liderada pelo imunologista Aftab Ansari, da Emory University School of Medicine, em Atlanta, infectou oito macacos com SIV e então tratou-os com antirretrovirais. Em seguida, aplicou neles um anticorpo semelhante a um medicamento aprovado para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa, o qual se dirige ao receptor da superfície das células imunes conhecido como α4ß7. Esse receptor celular é encontrado na superfície das células brancas CD4, o alvo favorito do HIV.

Mais de 9 meses depois dos tratamentos antirretrovirais e com anticorpos serem interrompidos, todos os oito animais tinham níveis baixos ou indetectáveis de SIV no sangue. Os sete animais infectados com SIV que receberam um anticorpo placebo, tiveram recuperação de níveis elevados do vírus, dentro de 2 semanas a partir da interrupção do tratamento antirretroviral. “Os resultados nos surpreenderam, eles são muito impressionantes”, disse o coautor do estudo Anthony Fauci, imunologista que dirige o U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), em Bethesda, Maryland. O estudo em macacos foi tão animador que seguiu-se para os testes em humaos.

Macaco infectado com SIV mostra ter menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).

No estudo em humanos, Fauci e colaboradores recrutaram 18 pessoas, todas sob tratamento antirretroviral e com e níveis indetectáveis ​​de HIV no sangue, durante pelo menos dois anos.

Ao longo de mais de 30 semanas, os participantes receberam nove infusões de Vedolizumab, um anticorpo monoclonal um pouco diferente do anticorpo daquele administrado nos macacos, mas que também se liga à α4β7 e está no mercado para tratar a doença de Crohn e colite ulcerativa.

Se as pessoas reagissem como macacos ao tratamento com anticorpos, assim que o Vedolizumab bloqueasse a α4β7, os pacientes poderiam interromper os medicamentos antirretrovirais e o HIV que inevitavelmente começaria a se multiplicar, mas com dificuldades em infectar células e criar novos vírus. Entretanto, não foi esse o caso.

Fauci explicou que, em duas das 18 pessoas, o HIV voltou assim que pararam os antirretrovirais. Surpresos com o resultado desanimador, uma outra equipe de pesquisadores, não envolvidos com o estudo original com macacos, tentou repetir o estudo em outro grupo de primatas, também sem sucesso. Tudo isso fez crer que resultados originais nos macacos de 2016, segundo Fauci, “podem ser um acaso”.

Com isso, o Vedolizumab se junta a uma longa lista de outras estratégias potenciais de cura para o HIV que geraram resultados iniciais empolgantes, mas, uma vez colocado em um teste do mundo real, não deram certo.

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“Fascinante.” “Impressionante.” “Pioneiro.”  “Incrível demais para ser real.” Essas são algumas das reações que os pesquisadores estão tendo diante de um provocativo e surpreendente estudo realizado em macacos, que sugere que um anticorpo monoclonal utilizado para tratar uma doença inflamatória do intestino em humanos pode levar a uma cura “funcional” da infecção pelo vírus da aids.

As terapias de tratamento para o HIV melhoraram a ponto das combinações de medicamentos antirretrovirais rotineiramente derrubarem o vírus de forma tão eficaz que os testes comuns não são capazes de detectá-lo no sangue. Há algum tempo os  pesquisadores têm buscado estratégias que permitam que as pessoas parem de tomar seus antirretrovirais sem deixar o vírus se recuperar — o que seria uma cura funcional, em vez de uma cura completa, uma vez que os pacientes ainda abrigariam o vírus, que integra seus genes no DNA das células do hospedeiro. No entanto, salvo algumas notáveis exceções, quase todo mundo que para de tomar os antirretrovirais sofre com o retorno do vírus, de volta para níveis elevados dentro de apenas algumas semanas. Por isso, para manter o vírus sob controle, as pessoas infectadas pelo HIV devem tomar antirretrovirais por toda a vida.

Partículas de HIV (em rosa) brotando de uma célula imunológica (em azul).

“Os resultados são muito impressionantes”

Uma equipe liderada pelo imunologista Aftab Ansari da Emory University School of Medicine, em Atlanta, contou a Science que infectou oito macacos com SIV, a versão símia do HIV, tratou-os com antirretrovirais e, em seguida, aplicou neles um anticorpo semelhante a um medicamento aprovado para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa, o qual se dirige ao receptor da superfície das células imunes conhecido como α4ß7. Mais de 9 meses depois dos tratamentos antirretrovirais e com anticorpos serem interrompidos, todos os oito animais tinham níveis baixos ou indetectáveis de SIV no sangue. Em sete animais infectados com SIV que receberam um anticorpo placebo, o vírus voltou para níveis elevados dentro de 2 semanas da interrupção do tratamento antirretroviral. “Os resultados nos surpreenderam, eles são muito impressionantes”, diz o coautor do estudo Anthony Fauci, imunologista que dirige o U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), em Bethesda, Maryland.

Ansari salienta que os animais tratados com anti-α4ß7 permanecem infectados. “Eles não estão curados — longe disso”, diz Ansari. Além disso, ele e Fauci não sabem como o tratamento funcionou. “Nos fez pensar sem parar: ‘Que diabos está acontecendo?'”, conta Ansari. “É de fato um quebra-cabeça.”

Ele, Fauci e outros pesquisadores da aids se interessaram pela α4ß7 porque ela se encontra na superfície das células CD4, as células do sistema imunológico que são o alvo principal do HIV. A proteína ajuda as células CD4 a se alojarem no intestino, onde se reúnem em grande número. Infelizmente, a α4ß7 também liga-se à proteína de superfície do HIV, o que torna as células CD4 muito mais susceptíveis à infecção e explica porque o vírus destrói estas células no intestino no início da infecção. Ansari e Fauci também ficaram interessados pelos resultados de um estudo anterior que eles conduziram em macacos, o qual mostrou que o anticorpo α4ß7 poderia impedir a infecção pelo SIV. Eles propuseram um mecanismo simples de proteção: o anticorpo reduzia a tendência das células CD4 se acumularem no intestino, diminuindo o número de alvos para qualquer vírus da aids que estivesse por lá.

Estranhamente, os macacos do novo experimento tinham níveis mais elevados de células CD4 cravejadas de α4ß7 em suas entranhas. Uma nova tomografia computadorizada de emissão de pósitrons, que é capaz de mostrar o vírus nos macacos, revelou que os animais tratados com anti-α4ß7 tinham níveis mais elevados de SIV em algumas partes do corpo, tal como o intestino delgado, do que os animais de controle. Os macacos tratados de fato mostraram sinais de respostas imunes que poderiam ter ajudado a controlar o SIV, mas nenhum destes sinais foi particularmente forte.

Este macaco infectado com SIV mostra muito menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).
Este macaco infectado com SIV mostra muito menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).

“Tudo o que deveria acontecer não aconteceu, mas o que aconteceu foi interessante”

“Tudo o que deveria acontecer não aconteceu, mas o que aconteceu foi interessante”, diz Steven Deeks, médico que realiza estudos para a cura do HIV na Universidade da Califórnia, em São Francisco. “O sistema imunológico é incognoscível, dinâmico, complicado e sempre nos surpreende.”

Apesar da falta de conhecimento sobre o mecanismo, o imunologista Rafick-Pierre Sekaly, da Case Western Reserve University, em Cleveland, Ohio, prediz que o sucesso do estudo irá desencadear um bando de novos estudos. “Esse estudo vai orientar a pesquisa em uma direção completamente nova”, diz ele. Sharon Lewin, uma das principais pesquisadoras da cura do HIV no Peter Doherty Institute for Infection and Immunity, em Melbourne, na Austrália, diz que o trabalho “tem dados muito convincentes” e que é “uma descoberta realmente impressionante”. Mas Lewin acrescenta uma palavra de cautela ecoada por muitos, incluindo os autores do estudo: “Não sabemos se é uma peculiaridade dos macacos”, diz ela.

É possível, também, que o anti-α4ß7 tenha funcionado porque o projeto experimental fez pender a balança em direção ao sucesso, de uma forma que não reflete uma infecção típica pelo HIV. Ansari e a equipe de Fauci iniciaram os macacos nos antirretrovirais 5 semanas após a infecção, o que é muito mais cedo do que a maioria das pessoas iniciam o tratamento. Louis Picker, imunologista que desenvolve vacinas contra a aids na Oregon Health & Science University, em Beaverton, também se pergunta se o SIV utilizado pode ter sido enfraquecido, uma vez que suas próprias experiências com a mesma estirpe produziram níveis mais elevados de vírus no sangue nos animais não tratados.

Picker suspeita que alguma resposta imune ainda indefinida explique o controle viral. “O que esta experiência parece estar fazendo é cutucando o equilíbrio viral e imunológico em favor do hospedeiro, em vez do vírus”, diz ele. “Suspeito que se você tomasse um anticorpo para o CD4 e fizesse a mesma experiência, você veria a mesma coisa.”

“Em breve nós vamos descobrir se tudo isso é um monte de bobagens ou se realmente funciona”

Mas Picker admite que nenhum outro grupo ainda publicou resultados semelhantes. E, talvez o mais importante, ao contrário do anticorpo monoclonal do CD4, o α4ß7 já tem uma versão humana, chamada Vedolizumab, e já aprovada para utilização clínica. De fato, o NIAID já iniciou estudos em pessoas infectadas pelo HIV, há 3 semanas. O estudo, que espera inscrever 20 pessoas, é uma avaliação de segurança, na qual os participantes vão interromper os antirretrovirais e, em seguida, os pesquisadores vão monitorar de perto para ver se os seus níveis de HIV aumentam ou permanecem suprimidos. “Muito em breve nós vamos descobrir se tudo isso é um monte de bobagens ou se realmente funciona”, diz Fauci.

Por Jon Cohen em 13 de outubro de 2016 para Science