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O uso prolongado de suplementos de ácidos graxos ômega-3 foi associado a níveis reduzidos de triglicérides e de proteína C reativa, um dos biomarcadores da inflamação em pessoas soropositivas com carga viral suprimida, de acordo com uma pesquisa apresentada na semana passada na IDWeek 2016 in New Orleans.

Com as pessoas com HIV vivendo mais tempo graças à terapia antirretroviral, doenças crônicas, como doenças cardiovasculares e câncer são uma preocupação crescente. Pesquisas sugerem que a inflamação crônica e a ativação imune excessiva contribuem para o aumento do risco de condições não-relacionadas à aids nessa população, mesmo quando se o tratamento antirretroviral é eficaz.

Gretchen Volpe da Tufts University School of Medicine e seus colegas realizaram um estudo randomizado, controlado por placebo — o mais longo feito até hoje — de alta dose de ácidos graxos ômega-3 em pessoas com HIV, avaliando seus efeitos a longo prazo sobre os níveis de lipídios no sangue, inflamação e função vascular. Ácidos graxos ômega-3 — encontrados no óleo de peixe — são muitas vezes tomados para reduzir os triglicérides.

O estudo incluiu 117 participantes em tratamento antirretroviral estável com triglicérides elevados (em jejum o nível estava entre 150 e 2500mg/dl ou em nível aleatório >200mg/dl). Cerca de 80% eram homens e a idade média era de 51 anos. A contagem média de CD4 foi de 648 células/mm³ e 95% apresentaram carga viral indetectável. Fatores metabólicos, tabagismo, uso de álcool, status do HIV, lipídios basais e função vascular foram semelhantes em ambos os grupos. Cerca de 30% em ambos os grupos usaram estatinas, mas as pessoas que já usavam regularmente óleo de peixe foram excluídas.

omega-3

Os participantes foram aleatoriamente designados para receber 4 gramas diárias de ácidos gordos ômega-3 ou placebo durante 24 meses. Eles usaram a formulação Lovaza, que contém uma combinação de ésteres etílicos de ácido ômega-3, principalmente ácido eicosapentaenóico e ácido docosahexaenóico (465mg e 375mg, respectivamente, por cápsula de 1 grama). A formulação é aprovada para reduzir os níveis de triglicérides em pessoas com hipertrigliceridemia grave. Todos os participantes também foram aconselhados a mudar para uma dieta com redução de lipídios e a manter um peso estável.

Após 33 pessoas perderem as consultas de acompanhamento (um número semelhante em ambos os braços), os pesquisadores analisaram 43 pessoas randomizadas do braço ômega-3 e 40 do braço do placebo. Os resultados primários foram alterações nos triglicérides, colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL) e marcador de inflamação proteína C reativa. Os pesquisadores também analisaram o colesterol total e a lipoproteína de baixa densidade (LDL), bem como indicadores de função vascular, incluindo a reatividade da artéria braquial e a rigidez arterial medida pela velocidade da onda de pulso.

Aos 24 meses, os níveis médios de triglicérides diminuíram significativamente mais no braço ômega-3 em comparação com o braço placebo (-68 contra -22mg/dl). Os triglicérides diminuíram ao longo de 12 meses em ambos os braços, mas continuaram a diminuir entre os meses 12 e 24 no braço ômega-3, enquanto atingiam um patamar no braço do placebo. A proteína C reativa diminuiu significativamente no braço ômega-3 por 24 meses, mas não no braço placebo (-0,3 vs +0,6 mg/l). Em ambos os braços, a proteína C reativa diminuiu nos primeiros 12 meses, mas depois aumentou entre os 12 e os 24 meses. A proteína C reativa permaneceu abaixo do nível basal no braço ômega-3, mas subiu acima do grupo placebo.

Não houve diferença significativa nos níveis de HDL entre os dois grupos de tratamento. Também não houve diferença significativa nos níveis de colesterol total ou LDL a qualquer momento, porém houve uma tendência para uma maior redução do colesterol total no grupo ômega-3 em 24 meses (-9,2 vs +3,9 mg/dl). A reatividade da artéria braquial não diferiu significativamente entre os dois grupos. Houve uma tendência para redução da rigidez arterial carótida-femoral durante 24 meses no braço ômega-3, mas a diferença não atingiu significância estatística (-46 vs +18 ms-1).

Os ácidos graxos ômega-3 se mostraram em geral seguros e bem tolerados, enquanto os eventos adversos graves não diferiram entre os dois grupos de tratamento, segundo Volpe. Verificou-se que a adesão foi “viável” durante o período de dois anos. A suplementação prolongada de ácidos graxos ômega-3 parece benéfica para as pessoas com HIV e sua eficácia pode aumentar ao longo do tempo, concluíram os pesquisadores.

Ácidos graxos ômega-3 “podem reduzir a inflamação, medida pela proteína C reativa, mesmo para aqueles cuja proteína C reativa está dentro da faixa normal na linha de base. Tendo em vista o nosso sucesso na gestão da infecção pelo HIV, estamos agora com o objetivo de otimizar a duração e a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/aids, para quem estas intervenções, como os ácidos gordos ômega-3, podem ser benéficas”, escreveram os autores.

Por Liz Highleyman em 9 de novembro para Aidsmap

Referência: Volpe G et al. A randomized controlled trial of omega-3 fatty acids in HIV: long term effects on lipids and vascular function. IDWeek, New Orleans, abstract 951, 2016.
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