Transplante de medula óssea (TMO) ou transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) é um procedimento médico da área da hematologia e oncologia que envolve o transplante de células tronco hematopoiéticas provenientes da medula óssea do doador.

Com doadores com mutação no gene CCR5, esse transplante já obteve casos de sucesso em estudos da cura do HIV em pacientes

Um dos destaques da Conferência de Outono da British HIV Association, a BHIVA, foi a possível segunda cura do HIV por esterilização, tal como aquela alcançada pelo “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown.

O caso envolve um homem soropositivo que foi submetido a um transplante bem sucedido de células estaminais alogênicas a partir de um dador não homozigoto para delta-32 de CCR5, a mutação genética natural que impede a infecção pelo HIV. Sua terapia antirretroviral foi interrompida 15 meses após o transplante, depois de aprovação ética, e, nos 12 meses seguintes, o HIV permaneceu indetectável em todos os métodos diagnósticos, incluindo análises de crescimento do DNA pro-viral e o DNA total e integrado do HIV nas células CD4. Mais detalhes serão apresentados a uma futura conferência médica. Por enquanto, isso é tudo o que sabemos!

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Nos últimos anos, a International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS, incluiu um simpósio especializado na pesquisa da cura do HIV, que sempre antecedeu o evento principal. E este ano não foi exceção, com apenas uma pequena mudança, a começar pelo nome: HIV Cure and Cancer Forum — isto é, um fórum sobre o câncer e a cura do HIV.

O título do evento parece reafirmar uma percepção atual entre muitos cientistas sobre aspectos comuns entre duas doenças distintas: o HIV e o câncer. Antes de falar das semelhanças entre elas, é importante ter em mente que estas são doenças distintas entre si porque há muitas diferenças entre elas. Foi isso o que bem lembrou Monsef Benkirane, do Instituto Francês de Genética Humana, na sua palestra de abertura. Enquanto o HIV é causado por uma infecção, o câncer é geralmente decorrente do mau comportamento espontâneo de algumas células. A exceção está apenas em alguns tipos específicos câncer, cujo mau comportamento das células pode mesmo ser provocado por infecções.

No entanto, no coração das células é que surge a semelhança entre estas duas doenças: tanto para o HIV quanto para o câncer, a questão parece ser a mesma: ambas células cancerosas e células infectadas pelo HIV possuem um material genético trapaceiro. No caso do câncer, este material genético leva as células a crescer incontrolavelmente. No caso do HIV, à derrubar o sistema imunológico. O fato de ambas estas doenças concentrarem-se em uma disfunção do núcleo celular é o que as torna difíceis de curar: basta uma célula infectada pelo HIV ou uma célula cancerígena para propagar a doença.

Não é por acaso que as mesmas ferramentas que agora estão levando à cura de alguns tipos de câncer e à maior remissão de outros tipos, incluindo medicamentos sofisticados capazes de direcionar marcadores biológicos específicos para agir contra células cancerosas, podem também ser usadas contra o HIV. Aliás, esta relação entre os medicamentos para câncer e para o HIV não vem de agora: o próprio AZT, a Zidovudina, o primeiro antirretroviral usado no tratamento de HIV/aids, foi inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade, conforme lembra uma matéria publicada pelo The New Yorker.

Foi em 1987 que a Food and Drug Administration americana aprovou o AZT para uso em pacientes com HIV, depois que seu estudo inicial já mostrava alguma habilidade da droga em controlar o vírus. Esse estudo começou como um “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que eles saibam quem é que está tomando o quê.

Então, os benefícios que começaram a ser observados em quem estava tomando o AZT foram tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento e, também, o restante das pessoas diagnosticadas com HIV. Não havia tempo a perder: naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam muito doentes ou morrendo. O desespero era enorme! Para salvar a própria vida, muita gente estava disposta a assumir o risco de tomar um medicamento promissor, mas que ainda não tinha completado formalmente todos os estudos habitualmente necessários e os rituais de aprovação e regulação pelas autoridades — você já assistiu Clube de Compras Dallas (2013)?

É verdade que, naquela época do começo da epidemia, qualquer semelhança entre o câncer e o HIV estava mais para um coincidência casual do que um resultado de uma observação meticulosa. O próprio apelido de “câncer gay”, que a aids recebeu antes de ser batizada de aids, em nada tem relação com a semelhança celular observada nos dias de hoje. Esse apelido nasceu por ignorância sobre a doença e por preconceito contra os homossexuais, junto com o fato do diagnóstico ser feito sem o teste de HIV, que ainda nem existia, mas com o aparecimento doenças oportunistas, incluindo cânceres típicos de sistemas imunológicos abalados.

Uma célula cancerígena.

Hoje sabemos que as células infectadas pelo HIV e pelo câncer compartilham um mesmo truque mortal: ambas conseguem se “des-diferenciar” quando estão sob ataque, seja por medicamentos ou pelo sistema imunológico. Ambas são capazes de retroceder para um estágio anterior de evolução celular, onde são invisíveis ao sistema imunológico.

No caso do HIV, as células imunes infectadas que produzem ativamente cópias de vírus se esgotam e morrem. Mas não todas. Uma parte delas retorna a um estado dormente, prontas para entrar em ação se a pressão da terapia antirretroviral for aliviada. Estas células dormentes, ou latentes, é que formam o famoso “reservatório de HIV”. O obstáculo atual da cura do HIV é exatamente este: a identificação e destruição destes reservatórios para uma cura completa ou, pelo menos, sua redução e contenção para uma remissão de longo prazo, conforme lembra uma matéria publicada recentemente pelo Aidsmap.

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Foi divulgada na CROI 2017, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, no mês passado, em Seattle, mais um caso de prolongada remissão viral. Depois de um transplante de medula óssea para tratar um câncer, um paciente soropositivo ficou quase 10 meses — mais tempo do que os chamados “Pacientes de Boston” — sem carga viral detectável, mesmo após interromper a terapia antirretroviral. Apesar de sua carga viral ter voltado depois disso, seus reservatórios de HIV parecem ter sido reduzidos, conforme relata o Aidsmap.

O caso foi apresentado por Nathan Cummins, da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, e seus colegas. O paciente que recebeu este transplante foi um homem de 55 anos de idade, diagnosticado com HIV em 1990 e que começou a terapia antirretroviral em 1999 com uma contagem de CD4 de 300 células/mm³. Ele interrompeu o tratamento antirretroviral entre 2004 e 2009 por conta própria e, em seguida, reiniciou o tratamento com Ritonavir, Atazanavir, Tenofovir e Emtricitabina.

Em abril de 2013, foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda de células B. Em antecipação à quimioterapia, seu regime de antirretrovirais foi mudado para Raltegravir, Etravirina, Tenofovir e Emtricitabina. Em outubro de 2013, para tratar a leucemia, ele fez uma ablação de intensidade reduzida do sistema imune, seguida de um transplante de células-tronco de um doador com CCR5. Na altura do transplante, o homem tinha uma carga viral de HIV de 25 cópias/ml e uma contagem de CD4 de 288 células/mm³. Ele então seguiu em tratamento sem interrupção. Após o transplante, desenvolveu infecções oportunistas (septicemia por E. coli e pneumonia) e doença do enxerto contra hospedeiro — uma condição típica de transplantes de medula óssea em que as células T do doador atacam as células e tecidos do organismo receptor.

O homem continuou em tratamento antirretroviral por mais de dois anos após o transplante, com níveis detectáveis de carga viral plasmática. O DNA do HIV nas suas células sanguíneas ficou indetectável 56º dia e os procedimentos repetidos de leucaférese mostraram reduções significativas no tamanho do reservatório de RNA e DNA do HIV. Além disso, seus níveis de anticorpos contra o HIV diminuíram, indicado em bandas de Western blot mais fracas.

Depois de manter níveis de HIV tão baixos durante um período prolongado, o homem foi submetido a uma cuidadosa interrupção do tratamento antirretroviral. Os seus níveis plasmáticos de RNA do HIV foram testados a cada duas semanas durante as primeiras 12 semanas de interrupção do tratamento e, depois, a cada quatro semanas. No 288º dia — 9,6 meses após interromper os antirretrovirais — verificou-se que ele tinha uma baixa taxa de recuperação viral, com 60 cópias/ml. Sua carga viral depois aumentou para 1640 cópias/ml no 293º dia, exigindo que ele reiniciasse o tratamento contra o HIV. O homem não tinha evidência de resistência aos medicamentos e sua carga viral voltou a ser suprimida em um mês.

Timothy Ray Brown
Timothy Ray Brown

Até hoje, a única pessoa que parece ter sido curada do HIV foi Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”, com quem me encontrei no ano passado. Assim como o paciente relatado na CROI 2017, Timothy também interrompeu a terapia antirretroviral depois de receber dois transplantes de medula óssea para tratar uma leucemia. Há dez anos ele não tem vírus detectável. Porém, diferentemente deste último paciente, um dos transplantes que Timothy recebeu veio de um doador com uma dupla mutação CCR5-delta-32, o que significa as células CD4 do doador não tinham os receptores CCR5, a porta de entrada mais comum que o HIV usa para entrar nas células T. Os cientistas ainda não sabem, porém, se a remissão de Timothy é atribuível à mutação CCR5 do doador, à forte quimioterapia que ele recebeu para matar células sanguíneas cancerígenas, à uma forte reação de enxerto versus hospedeiro ou aos múltiplos fatores.


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Pesquisadores e defensores da cura do HIV se encontraram no Fred Hutchinson Cancer Research Center, na semana passada, para debater se a imunoterapia — tratamento que utiliza o sistema imunológico para combater o câncer — pode desempenhar um papel na concretização de uma cura ou remissão de longo prazo para o HIV, o vírus que causa a aids.

“As células CAR-T têm o potencial de matar as células infectadas pelo HIV”, disse o Dr. Larry Corey, virologista do Fred Hutch e veterano há 35 anos na pesquisa do HIV, em seu discurso de apresentação para a terceira Conferência sobre Terapia Celular e Genética para a Cura do HIV. “Vinte anos atrás, testamos essas células para agir contra o HIV. Elas não funcionaram muito, mas agora sabemos como fazê-las melhorar.”

Dra. Rowena Johnston, vice-presidente e diretora de pesquisa na Foundation for Aids Research, participa da Conferência sobre Terapia Celular e Genética para a Cura do HIV no Fred Hutch. (Foto por Robert Hood / Fred Hutch News Service)

Corey estava se referindo a um tipo de imunoterapia ainda experimental, no qual as próprias células T dos pacientes — um tipo de glóbulo branco que procura e destrói os patógenos — são geneticamente reprogramadas, com receptores sintéticos chamados receptores de antígeno quiméricos, ou CARs, a fim de matar células cancerosas que carreguem um marcador específico. Hoje, existem dezenas de estudos clínicos em andamento no Fred Hutch, e em outros lugares, que analisam as células CAR-T para tratar leucemia e linfoma, com resultados preliminares promissores.

Anos atrás, segundo Corey, os cientistas experimentaram usar terapias de células T contra o HIV sem muito sucesso. Agora, com base nos avanços feitos contra o câncer e outras doenças, ele quer revisitar estas e outras abordagens que envolvem o sistema imunológico para ir atrás do HIV. DefeatHIV, o grupo de pesquisa da cura do HIV do Fred Hutch e que sediou conferência da semana passada, acaba de receber uma segunda rodada de cinco anos de financiamento federal para explorar as CAR-T e outras imunoterapias contra o HIV, incluindo impulsionar o sistema imunológico através de uma vacina terapêutica e geneticamente modificada para a produção de anticorpos amplamente neutralizantes sintéticos.

“Somos um grande centro para a terapia com CAR-T. Temos muita experiência aqui, usando essa tecnologia contra o câncer, especialmente leucemia e linfoma”, disse o codiretor do DefeatHIV, Dr. Hans-Peter Kiem, pesquisador de transplante de células-tronco e terapia genética no Fred Hutch. “Combinamos o conhecimento que adquirimos na terapia genética para melhorar a imunoterapia.” Como disse outro orador, Dr. James Riley, microbiólogo da Universidade da Pensilvânia: “Para curar o HIV, vamos precisar de um sistema imunológico melhor.”

 

Quando o corpo de bombeiros pega fogo

Dr. Larry Corey
Dr. Larry Corey

No início de sua carreira, o trabalho de Corey em criar o primeiro tratamento antiviral contra herpes abriu o caminho para as terapias contra o HIV que, em 1996, fizeram este vírus deixar de ser uma sentença de morte, para virar uma doença crônica. Contudo, embora que os medicamentos antirretrovirais baixem o nível de HIV para níveis indetectáveis, elas não são uma cura. O vírus persiste em um estado dormente nos “reservatórios” que estão em todo o corpo. Se a terapia é interrompida, o HIV volta. Um dos desafios para conseguir estimular o sistema imunológico para atacar esse reservatório HIV é o fato de que o HIV ataca o próprio sistema imunológico. Ele centra-se num tipo de célula T “auxiliar”, responsável pela iniciação de uma resposta imune.

“O HIV mata as células humanas que normalmente controlam as infecções”, explicou o Dr. Thor Wagner, da Universidade de Washington e do Hospital Infantil de Seattle, que, junto com Corey, está trabalhando no projeto de células CAR-T do DefeatHIV. “É como um quartel do corpo de bombeiros que pega fogo. É difícil vencer esse fogo — ou essa infecção.” Ainda assim, segundo Wagner, é viável projetar as células T, que são capazes de matar as células infectadas pelo HIV, a serem resistentes à infecção pelo HIV. Além disso, as tais células CAR-T, em combinação com outras estratégias, podem ajudar a atingir a remissão do HIV.

Os cientistas já tem a prova de que o sistema imunológico pode curar o HIV ou pelo menos dirigi-lo à remissão de longo prazo. O transplante de medula óssea já trouxe o primeiro exemplo definitivo do poder do sistema imunológico humano para domar — e até mesmo curar — o câncer, além de levar o primeiro — e até agora o único — homem a se tornar curado do HIV: Timothy Ray Brown.

Em 2007 e novamente em 2008, Brown, nascido em Seattle e então vivendo em Berlim, passou por dois transplantes completos de medula óssea para tratar uma leucemia mieloide aguda. Como ele também tinha HIV, seu médico alemão procurou um doador de células-tronco que possuísse duas cópias de uma mutação genética rara, que confere resistência natural ao vírus. Brown parou de tomar medicamentos antirretrovirais após o primeiro transplante, em 2007, e continua até hoje a não mostrar qualquer sinal do HIV.

Até agora, as tentativas para duplicar a cura de Brown em outras pessoas com HIV que também precisavam de um transplante de medula óssea para tratar câncer não foram bem sucedidas. A maioria dos pacientes estava muito doente e morreram em decorrência do câncer ou do transplante. Mas novas informações apresentadas nesta Conferência em Seattle e, no mês passado, na grande conferência sobre aids em Durban, na África do Sul, trouxeram esperança de que a cura de Brown pode ser repetida.

 

“Você transformou minha tristeza em orgulho”

Um transplante, que por si só é um procedimento de alto risco para pacientes com câncer, é ainda mais arriscado para as pessoas que também têm HIV, com taxas de mortalidade que se aproximam de 60%, de acordo com a Dra. Annemarie Wensing, virologista clínica no Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda .

É por isso que Wensing e outros, incluindo o Dr. Gero Hütter, oncologista que curou Brown, formaram um projeto colaborativo chamado EpiStem, a fim de orientar os médicos em toda a Europa a fazer transplantes de células-tronco em pessoas que têm ambos câncer e HIV.

O projeto também estuda o efeito do transplante de medula óssea sobre o HIV. Em Durban e novamente em Seattle, Wensing relatou que três pacientes que sobreviveram ao câncer e ao transplante. Agora, dois deles não mostram mais sinais do HIV, mesmo após extensos testes sensíveis, e um outro apresenta apenas traços do vírus. Uma vez que apenas um paciente teve um doador resistente ao HIV, Wensing sugere que a doença do enxerto contra hospedeiro possa ter ajudado a pelo menos reduzir o reservatório de HIV, da mesma forma que o efeito do enxerto contra a leucemia é fundamental para alcançar a cura ou remissão do câncer.

Embora o HIV dos três pacientes do EpiStem possa ter sido curado ou estar em remissão, a única maneira de saber com certeza é tirá-los de sua medicação antirretroviral, como foi o caso com Brown. Contudo, isso ainda não foi feito, em parte devido às lições aprendidas sobre os efeitos físicos e emocionais decorrentes da interrupção dos medicamentos anti-HIV.

Em março de 2013, como parte de um estudo de pesquisa cuidadosamente monitorizada no Boston’s Brigham and Women’s Hospital, Gary Steinkohl saiu da terapia antirretroviral três anos depois de receber um transplante de medula óssea para tratar um câncer. Sua esperança de se tornar a segunda pessoa no mundo curada do HIV, depois de Brown, foi frustrada, quando o vírus voltou, oito meses depois.

Timothy Henrich
Dr. Timothy Henrich, encarregado do estudo com os “Pacientes de Boston”. (Foto por Bo Jungmayer / Fred Hutch News Service)

“Quando o vírus voltou, fui para o fundo do poço”, contou Steinkohl, que participou da Conferência ao lado do cientista-chefe desse estudo, Dr. Tim Henrich, agora da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Henrich tinha se esforçado para não atiçar falsa esperança em Steinkohl e no outro participante do estudo, conhecido apenas como “Paciente A”. Ali, Henrich confessou a Steinkohl: “A coisa mais difícil que eu já tive de fazer em minha vida profissional foi dizer a você e ao Paciente A que seus vírus tinham voltado.” Steinkohl reconheceu que foi duro, mas disse: “Você disse que minha contribuição para a ciência foi inestimável. Você transformou minha tristeza em orgulho por ter ajudado você. Em ajudar você, eu estava nos ajudando”, disse ele, se referindo a todos com HIV.

 

O desafio de curar o HIV

Transplantes de células estaminais são algo muito arriscado e caro para ser considerado em grande escala para a cura do HIV. Mas, como Henrich assinalou, estudar pessoas como Steinkohl e os novos pacientes do EpiStem traz informações importantes sobre o papel do sistema imunológico, que podem ser aplicáveis a outras imunoterapias.

Uma das lições aprendidas foi como poucas células infectadas pelo HIV são necessárias para a infecção de voltar. “Nós fomos capazes de reduzir o seu reservatório a um ponto tão baixo que, quando ele voltou depois que você saiu do tratamento, parecia ter vindo de apenas 20 ou 40 células”, disse Henrich para Steinkohl. “Só precisou disso. É algo deprimente cientificamente, mas também altamente informativo.”

Não é de se admirar que, na conferência do mês passado, em Durban, a Dra. Françoise Barré-Sinoussi, uma das descobridoras do vírus, disse: “Alcançar a cura é um dos maiores desafios científicos a serem realizados.” Também em Durban, o Dr. Anthony Fauci, diretor de longa data do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, parte do National Institutes of Health americano, também falou sobre esse desafio: “Esta não é como qualquer outra infecção que temos enfrentado”, disse ele.

“Em praticamente todos os vírus que atacam o corpo, como a varíola, o corpo sempre mostra que, no fim das contas, é capaz de limpar o vírus e mostra imunidade sustentada contra o vírus. Com o HIV isso não acontece. Temos que fazer algo que a natureza nunca fez.” Acenando para Barré-Sinoussi e para outros especialistas em HIV que estavam na conferência, Fauci acrescentou: “Eu não acho que alguém nesta sala pode dizer que vamos ter uma cura para o HIV. Mas o que você está vendo neste palco é um compromisso de tentar este desafio.”

Os esforços para encontrar uma cura para o HIV, apesar dos imensos desafios, não passam despercebidos pelas pessoas a quem isso mais importa. “Você não receberam agradecimentos o suficiente por este trabalho árduo que estão fazendo”, disse Steinkohl aos pesquisadores reunidos em Seattle.

 

“Nós queremos mesmo escutar suas ideias”

Outras abordagens de imunoterapia discutidas na conferência em Durban incluíam o uso de inibidores de controle, que bloqueiam um mecanismo que as células cancerosas usam para desativar o sistema imunológico. Medicamentos desenvolvidos para “desbloquear” estes inibidores já foram licenciados para uso contra melanoma avançado. Vários estudos observacionais estão em andamento com pacientes com HIV e melanoma, que estão recebendo esses medicamentos, de acordo a Dra. Sharon Lewin, da Universidade de Melbourne, que co-presidiu o simpósio sobre a cura ao lado de Barré-Sinoussi.

Dr. Chris Peterson
Dr. Chris Peterson apresenta sua pesquisa na Aids 2016, em Durban, África do Sul. Uma foto de “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown, é projetada na tela atrás dele. (Foto por Robert Capa / Fred Hutch News Service)

Também em Durban e novamente em Seattle, o Dr. Chris Peterson, cientista no laboratório de Kiem, no Fred Hutch, falou sobre os esforços bem sucedidos em modelos pré-clínicos para modificar as células estaminais do sangue, usando uma técnica de edição genética que emprega moléculas chamadas “nucleases de dedos de zinco” e então devolve as células-tronco resistentes para repovoar o sistema imunológico do paciente. Seu trabalho é parte de um esforço de usar a cura de Brown como um modelo para o desenvolvimento de uma terapia menos tóxica, procurando criar resistência genética nas próprias células do sistema imunológico de uma pessoa infectada. “Estamos tentando tornar o caso de Timothy Ray Brown aplicável a mais pessoas”, disse Peterson.

Isso é o que a Dra. Rowena Johnston, vice-presidente da amfAR, queria ouvir. Ela disse aos participantes da conferência que seu grupo planeja gastar US$ 100 milhões nos próximos cinco anos para desenvolver uma base científica para a cura do HIV. A AmfAR, co-fundada pela atriz e ativista da aids Elizabeth Taylor, foi uma das primeiras financiadoras não-governamentais na pesquisa do HIV, a primeira a apreciar a importância de um painel científico, apresentado em uma conferência de 2008 e com pouca atenção de outros pesquisadores, revistas científicas e imprensa popular, sobre o primeiro relatório de Brown, até então conhecido apenas como o “Paciente de Berlim”.

“Meu objetivo é voltar a amfAR com pelo menos cinco ideias sólidas sobre as quais queremos trabalhar,” disse Johnston ao auditório repelto de cientistas, pós-doutorados e estudantes de pós-graduação. “Nós queremos mesmo escutar suas ideias.”

Por Mary Engel em 8 de agosto de 2016 para Fred Hutch News Service


Aidsmap

O “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown, já está há sete anos fora da terapia antirretroviral e sem nenhum sinal do HIV em seu corpo. Com o passar do tempo, sua posição de “pessoa curada do HIV” torna-se mais firme.

Médicos e pesquisadores estão documentando pacientes com HIV que receberam transplantes de células-tronco.

No simpósio A Caminho da Cura, realizado antes da conferência Aids 2016, no entanto, ouviu-se falar do trabalho de um consórcio de médicos e pesquisadores que estão procurando e documentando o destino de pacientes com HIV que, assim como Timothy Brown, receberam transplantes de células-tronco, em um esforço para tirar de Brown o título de única pessoa curada do HIV.

Houve decepções ao longo do caminho: em 2013, parecia que poderíamos ter mais dois receptores de transplante de células-tronco que estavam controlando o HIV sem tratamento, mas houve decepção em 2014, quando foi revelado que, em ambos os casos, a carga viral deles havia voltado.

O transplante de células-tronco nunca será uma opção de cura para a maioria das pessoas com HIV.

É quase certo que o transplante de células-tronco nunca será uma opção de cura para a maioria das pessoas com HIV. Em si, este é um procedimento de alto risco, uma vez que envolve eliminar totalmente ou parcialmente o sistema imunológico do paciente, através de radioterapia e quimioterapia. É apenas uma última opção em pacientes com câncer do sistema imune, como linfoma e leucemia. Brown quase morreu neste procedimento.

Com a ablação das células do sistema imunológico do paciente, as células estaminais doadas que as substituem são as progenitoras de todas as novas células do sistema imunológico. Estas células doadas podem vir a partir de células de medula óssea de doadores adultos ou a partir de células-tronco encontradas no sangue retirado do cordão umbilical de recém-nascidos, que as têm em abundância. A vantagem das células de sangue do cordão umbilical é que elas não têm de ser adaptadas geneticamente aos seus receptores, enquanto as células dos adultos devem ser adaptadas para evitar a rejeição.

Em alguns casos, incluindo o de Brown, as células do doador precisam vir dos 1% a 1,5% de pessoas do norte da Europa (e menos de 0,2% em outros lugares), as quais têm uma mutação chamada CCR5 delta 32, homozigoto, que confere resistência à infecção pelo HIV. Essas pessoas não têm o receptor CCR5 em suas células T, a qual a grande maioria dos vírus HIV usam para agarrar-se e infectar a célula. Algumas pessoas também podem ter a mutação em sua forma heterozigota, que não confere imunidade ao HIV, mas leva a uma taxa mais lenta de progressão da doença em pessoas com HIV não tratadas com antirretrovirais.

Não é certo que se esta é uma condição necessária para uma cura do HIV: outra teoria é que pode ser necessário um fenômeno chamado de doença do enxerto contra hospedeiro, na qual as células do enxerto destróem as células do hospedeiro, normalmente uma complicação indesejada dos transplantes.

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O consórcio EPISTEM reúne um grupo de pesquisadores europeus sediados em sete clínicas em cinco países. Annemaire Wensing, da Universidade de Utrecht, na Holanda, disse que o EPISTEM foi criado com quatro objectivos principais.

Em primeiro lugar, para orientar os médicos sobre os procedimentos clínicos para se aplicar nos receptores soropositivos de medula óssea, compartilhar os ensaios hipersensíveis utilizados na pesquisa da cura e explorar as questões éticas envolvidas em procedimentos que poderiam curar o HIV — porém, em situações muito arriscadas, executadas em pacientes muito doentes –, além de procurar os doadores e selecioná-los pela mutação CCR5 delta 32. Cerca de 30.000 unidades de sangue de cordão umbilical de vários bancos de sangue europeus e mais de 1.000.000 doadores adultos foram genotipados para o CCR5, afim de gerar um registro doadores disponíveis.

Outro objetivo é estudar pacientes que receberam ou estão a sendo considerados para o transplante de células-tronco, e então avaliar suas respostas virais. O EPISTEM identificou 24 pacientes até agora, 15 dos quais receberam transplantes. Eles são do Canadá, Reino Unido, Espanha, Holanda, Bélgica, Alemanha e Itália, com outros possíveis pacientes identificados no Brasil, Sérvia e Suécia.

Apenas 6 destes 15 pacientes continuam vivos.

Para sublinhar quão doentes esses pacientes estão e a gravidade da decisão de fazer um transplante: apenas 6 destes 15 pacientes continuam vivos. Oito morreram no prazo de quatro meses após a recepção do transplante e outro 2,5 anos depois. Os pacientes morreram diretamente em decorrência do câncer ou por descontrole das infecções oportunistas provocadas pela supressão imune pré e pós-transplante. Dos seis que não estão mortos, um está vivo há 5 meses, um há 14 meses, três há cerca de 3 anos e uma há 5 anos após o transplante. Todos eles mostram sinais muito baixos de DNA de HIV em suas células, assim como a maioria dos pacientes que não sobreviveram.

Pacientes soropositivos típicos vêem um declínio no DNA do HIV nos seus linfócitos do sangue (a classe de células que inclui as células T) assim que iniciam a terapia antirretroviral, de uma média de 900 a cerca de 400 cópias por milhão de células durante os primeiros anos, mas isso em breve nivela e deixa de declinar.

Em cada indivíduo há grande variabilidade natural na quantidade de DNA de HIV “semeado” nas células. Nos 15 pacientes do EPISTEM, a quantidade de RNA no primeiro dia variou de 2 a 2.000 cópias por milhão de células. No entanto, três meses após o transplante (a maioria ainda estava viva nesta altura), quase todos não tinha DNA de HIV mensurável em suas células (ou seja, menos do que uma cópia por milhão de células). Depois de 200 dias, houve apenas uma leitura detectável de DNA em um paciente. Apenas dois destes seis pacientes tiveram transplantes de células com a mutação CCR5 delta 32, enquanto os outros quatro eram “tipo selvagem”.

O Dr. Wensing reexaminou em detalhe cada um dos três pacientes sobreviventes há mais tempo, dois que sobreviveram há mais de três anos após o transplante e um há mais de cinco anos. Um deles recebeu células-tronco do sangue de cordão umbilical e dois de células da medula óssea de um doador compatível. Somente um deles recebeu células com a mutação CCR5 delta 32, enquanto os outros dois receberam do tipo selvagem. Os dois receptores de células de doador compatível, um deles com a mutação e um com células do tipo selvagem, têm DNA de HIV indetectável em todas as amostras.

Nenhum deles foi retirado da terapia antirretroviral.

No entanto, até agora, nenhum deles foi retirado da terapia antirretroviral. Assim como em outro estudo apresentado no simpósio da cura, sobre mulheres tratadas na infecção aguda, a retirada dos medicamentos será o momento crucial em que descobriremos se os pacientes podem controlar o HIV sem antirretrovirais ou mesmo se eles ainda têm HIV.

Evidentemente, nós esperamos outro Timothy Ray Brown. Seria ainda mais emocionante se o destinatário do tipo selvagem ficasse indetectável após a interrupção do tratamento. Contudo, os pesquisadores ainda não têm critérios definidos para determinar quando interromper o tratamento antirretroviral.

Por Gus Cairns em 1 de agosto de 2016 para o Aidsmap

Por Mary Engel para Fred Hutch News Service em 13 de agosto de 2015
Hope for a Cure
Na segunda Conferência sobre Células e Terapia Genética para a Cura do HIV que aconteceu no Fred Hutchinson Cancer Research Center, cientistas e ativistas tem um otimismo cauteloso diante da cura (de qualquer tipo) em um futuro não muito distante. (Ilustração de Kimberly Carney)

“Tome seus remédios e se cuide”, disse Jeff Sheehy — um experiente ativista do movimento civil LGBT de São Francisco — a um jovem de 23 anos de idade, que tinha acabado de receber seu diagnóstico positivo para o HIV. “Como um homem gay, você tem muitas possibilidades. Você pode ser casar. Pode ter uma família. Quando eu tinha sua idade, isso não era possível.” Ele também disse ao jovem: “Nós vamos poder curar você do HIV. Em seu tempo de vida, você será curado.”

Jeff Sheehy
Jeff Sheehy: ativista do movimento civil LGBT de São Francisco e de HIV/aids.

Sheehy, hoje com 58 anos de idade, não era tão esperançoso quando recebeu seu próprio diagnóstico, em março de 1997. “Naquela altura, eu torcia para que conseguisse sobreviver”, disse ele, durante uma entrevista por telefone, a partir de sua casa, em São Francisco, pouco antes de seguir para Seattle, onde participaria da Conferência sobre Terapia Celular e Genética para a Cura do HIV, que aconteceu nos dias 13 e 14 de agosto no Fred Hutchinson Cancer Research Center.

Seu diagnóstico se deu oito meses depois de estudos mostrarem que a combinação de antirretrovirais era capaz de controlar o HIV. O coquetel de medicamentos acabou por se tornar um dos maiores sucessos da medicina, transformando infecções como a de Sheehy, antes uma sentença de morte, em uma doença crônica e administrável.

A cura do HIV — que há menos de uma década era considerada tão improvável que sequer era candidata à pesquisas — hoje é o foco de uma conferência que atrai ativistas, estudantes e muitos dos principais cientistas que pesquisam o HIV. Entre eles, o Dr. David Baltimore, laureado Nobel que fez importantes contribuições para as pesquisas do câncer e do HIV e hoje trabalha no desenvolvimento de terapias de cura para ambos.

“Sendo realista: a cura vai demorar.”

Sheehy acredita que a cura pode chegar durante a vida do jovem recém diagnosticado. Mas ele é mais reticente quando se refere a si mesmo. “A ciência é animadora. O trabalho é gigantesco. A meta é viável”, ele diz. “Mas, sendo realista: a cura vai demorar.”

Timothy Ray Brown: a prova de que a cura é possível

B altimore, presidente emérito do Instituto de Tecnologia da Califórnia, abriu a conferência na última quarta-feira, 12 de agosto, à noite, com uma apresentação para uma plateia cheia de ativistas — entre eles, Timothy Ray Brown, que motivou diversas pesquisas depois te ter se tornado a única pessoa considerada curada do HIV.

Timothy Ray Brown
Timothy Ray Brown, a única pessoa considerada curada do HIV.

A primeira cura não foi fácil. Nascido em Seattle, Brown recebeu um transplante de células-tronco em Berlim, em 2007, para tratar leucemia mieloide aguda. Seu médico, o alemão Dr. Gero Hütter, decidiu tentar curar também a infecção pelo HIV de seu paciente, usando células de um doador que trazia duas cópias de uma mutação genética conhecida por oferecer resistência natural ao vírus. Desde o transplante, Brown não toma mais antirretrovirais.

As tentativas de replicar essa cura em dois pacientes soropositivos que sofriam de leucemia não chegaram aos mesmos resultados, em parte porque muitos dos pacientes morreram em decorrência do câncer ou do próprio transplante, antes que fosse possível determinar se o HIV havia desaparecido. Médicos concordam que o transplante de células tronco só é apropriado para pessoas portadoras do HIV que estão diante de um câncer que oferece risco de vida.

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Ainda assim, o caso de Brown, publicado no New England Journal of Medicine em 2009, mostrou que a cura é possível. Baltimore e outros cientistas, incluindo pesquisadores do consórcio defeatHIV, estão usando a cura de Brown como modelo para uma nova terapia que retira as células do próprio indivíduo infectado e então nocauteia ou desativa um gene, o CCR5, que funciona de porta para o HIV entrar nas células — imitando a genética daqueles que são naturalmente resistentes ao vírus –, antes de injetá-las de volta nos pacientes.

Times de cientistas estão pesquisando diferentes abordagens para alterar o CCR5. Alguns estão modificando as células T CD4 do sistema imune, que são alvo do HIV. Baltimore e o Dr. Hans-Peter Kiem, pesquisador de transplante de células tronco do Fred Hutch, estão trabalhando em modificar células tronco hematopoiéticas — as precursoras que geram todas as células especializadas do sangue e do sistema imune, incluindo as células T.

Kiem
Dr. Hans-Peter Kiem, oncologista e pesquisador de terapia celular e genética.

Kiem acaba de inaugurar um estudo clínico para pacientes que estão em quimioterapia para tratar linfoma relacionado à aids, um câncer comum em portadores do vírus que têm o sistema imune devastado em decorrência da infecção. Kiem vai coletar as células tronco dos pacientes, modificá-las para torná-las resistentes ao HIV para, então, injetá-las de volta, depois do último ciclo que de quimioterapia. O objetivo é fazer prosperar células resistentes ao HIV em número suficiente para montar uma resposta imune capaz de controlar o vírus sem a necessidade dos comprimidos diários.

Terapias celulares e genéticas já mostraram alguns benefícios intermediários. Um estudo clínico de 2010, feito em São Francisco, retirou, modificou e injetou novamente as células T num grupo de pessoas que eram capazes de controlar o vírus sem os medicamentos mas que estavam com o sistema imune enfraquecido. Como resultado, elas tiveram uma melhora duradoura, livrando-as de pneumonia e outras doenças oportunistas que os atormentavam regularmente. “Pode ser pouco, mas ainda vale”, observou Sheehy.

O que eles querem dizer quando falam em cura?

Quando a terapia antirretroviral foi introduzida, em 1996, muitos acreditavam que ela, sozinha, seria capaz de curar todo o mundo. Desde então, os cientistas aprenderam que os reservatórios latentes de células infectadas pelo HIV ainda se escondem no organismo, fora do alcance desses medicamentos. Basta interromper as pílulas diárias que o vírus volta com tudo.

Hoje, os cientistas falam em dois tipos de cura. A primeira — o Santo Graal das curas — é chamada de “cura esterilizante”, na qual o vírus é completamente erradicado do corpo. Acredita-se que este é o caso de Timothy Brown. Também fala-se da “cura funcional”, na qual o HIV latente continua no organismo, mas é mantido sob controle sem a necessidade medicamentos todos os dias.

Na última quarta-feira, durante a apresentação de Baltimore, Brown se levantou no meio da plateia para perguntar a posição do cientista diante da possibilidade de cura, e qual tipo de cura. “Eu gostaria de saber sua opinião: o HIV é curável?”, ele disse. “Eu acredito que você está curado”, respondeu Baltimore. No entanto, sobre a possibilidade da cura esterilizante ser aplicada mais amplamente, ele acrescentou: “Sou agnóstico.”

“A terapia genética pode ajudar a munir o sistema imune contra esse passageiro clandestino dentro do corpo e fazer voltar o relógio, para que o sistema imune fique tal como antes da infecção.”

Para a Dra. Paula Cannon, uma especialista em células tronco da Universidade do Sul da Califórnia que também se apresentou durante o evento, a cura funcional é suficiente, embora precise ir além da supressão do vírus sem a necessidade de uma pílula por dia. Segundo ela, a infecção pelo HIV é um ataque massivo contra o sistema imune e isso pode representar consequência ao longo da vida, mesmo sob antirretrovirais. “É isso o que a terapia celular e genética pode acrescentar”, ela disse. “Pode ajudar a munir o sistema imune contra esse passageiro clandestino dentro do corpo e fazer voltar o relógio, para que o sistema imune fique tal como antes da infecção. Podemos fazer isso com ou sem o vírus no organismo.”

Se você consegue curar o vírus, por que não fazê-lo?

Por que falar sobre a cura, qualquer que seja seu tipo, se a terapia antirretroviral é tão bem sucedida? Porque nem todos conseguem tolerar os medicamentos, nem todos têm acesso aos medicamentos ou a possibilidade de tomá-los regularmente. Mesmo nos Estados Unidos, menos de 40% das 1,2 milhão de pessoas infectadas pelo HIV estão sob tratamento antirretroviral e apenas 30% alcançaram a supressão viral, que leva à uma saúde melhor, vida mais longa e menos chance de transmissão do vírus, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Além disso, há o custo e o esforço de tratar pessoas com uma doença crônica para o resto de suas vidas. Por fim, mesmo aqueles com o HIV suprimido que estão, assim como Sheehy, sob antirretrovirais há anos, o vírus continua a causar danos, em decorrência da inflamação de base, que aumenta o risco de doença do coração e de câncer.



Por Liz Highleyman para o Beta em 11 de agosto de 2015

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Uma adolescente francesa com HIV que tem conseguido manter sua carga viral indetectável há 12 anos sem tratamento antirretroviral foi o principal assunto durante a 8ª Conferência Internacional da Aids Society, que aconteceu no mês passado, em Vancouver. Embora ninguém esteja se referindo ao seu caso como uma cura, ele certamente levanta questões interessantes sobre o “controle pós-tratamento” e pode oferecer pistas a respeito da cura funcional e da remissão do HIV a longo prazo.

Asier Saez-Cirion
Asier Saez-Cirion

Asier Saez-Cirion, do Instituto Pasteur de Paris, descreveu o caso durante uma coletiva de imprensa que aconteceu antes da conferência, no simpósio “A Caminho da Cura”. A jovem, que agora tem 18 anos de idade, foi infectada pelo HIV durante ou antes do parto. Sua mãe, que recebeu os primeiros cuidados médicos somente no final da gravidez, apresentava carga viral alta no momento do parto e, por isso, a bebê recebeu preventivamente doses de Zidovudina (AZT) logo após o nascimento. Depois de seis semanas sob AZT, sua carga viral aumentou a um nível alto, comprovando que ela de fato estava infectada. O tratamento com a terapia antirretroviral foi então iniciado, aos três meses de idade.

Com aproximadamente seis anos idade, a criança foi retirada do acompanhamento médico e do tratamento. Quando retornou, um ano depois, a carga viral em seu sangue estava indetectável, apesar da criança não estar sob terapia antirretroviral. Assim, ela foi mantida sem tratamento. Aos 12 anos de idade ela apresentou um “blip” significativo de replicação viral, que alcançou 500 cópias/ml, e então novamente retornou a níveis indetectáveis.

Hoje, a jovem contabiliza 12 anos sem tratamento e com carga viral indetectável no plasma sanguíneo, de acordo com testes ultrassensíveis, capazes de medir 4 cópias/ml. Sua contagem de células T CD4 se mantém alta e estável. Contudo, os pesquisadores conseguem detectar o DNA do HIV (o material genético viral) em suas células — e células isoladas podem ser reativadas e produzir vírus em laboratório –, mostrando que ela não foi curada.

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional.”

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional”, alertou Saez-Cirion durante a coletiva. “A maioria dos pacientes soropositivos, crianças ou adultos, perdem o controle da infecção sempre que interrompem o tratamento, mesmo que este tenha sido iniciado cedo.”

“Esta jovem continua infectada pelo HIV e é impossível prever como seu estado de saúde se comportará com o passar do tempo”, explicou Jean-François Delfraissy, diretor da Agence Nationale de Recherche sur le Sida (ANRS). “O caso dela, contudo, constitui mais um forte argumento a favor do início imediato da terapia antirretroviral em todas as crianças nascidas de mães soropositivas.”

O que esse caso nos diz?

No ano passado, nós tivemos notícias decepcionantes na busca pela cura do HIV. Em julho de 2014, cientistas anunciaram que a “Bebê do Mississippi” — uma criança que muitos especialistas acreditavam estar curada do HIV — ainda tinha o vírus. Além disso, dois pacientes em Boston que receberam transplantes de medula óssea e que não mostravam qualquer sinal do HIV em seu sangue e nas células brancas, tiveram um rebote alguns meses depois da interrupção do tratamento antirretroviral.

Com isso, Timothy Brown, o “Paciente de Berlim”, continua a ser a única pessoa aparentemente curada do HIV. Quase há uma década, Brown recebeu transplantes de medula óssea para tratar leucemia, usando as células de um doador com uma mutação natural (CCR5-delta-32) que protege as células T da infecção pelo HIV. Embora Brown tenha interrompido o tratamento antirretroviral, o HIV não voltou. Depois de mais de sete anos de testes, os cientistas não foram capazes de detectar vírus competente a replicação em seu plasma sanguíneo, nas células do sangue periférico ou em qualquer outro lugar pesquisado.

A jovem francesa não entra para o rol das pessoas curadas pelo HIV, mas faz parte de um pequeno grupo chamado de “controladores pós-tratamento”, (assim como os franceses da Coorte Visconti) os quais aparentam ser capazes de controlar o vírus mesmo depois de interromper o tratamento antirretroviral.


Leia o artigo completo em BETAblog.org


A aids pode ser curada?

Cientistas cada vez mais perto de vencer o assassino.

Por em 22 de dezembro de 2014
A pesquisa atual tem como alvo a capacidade do HIV de ficar dormente nas células T de memória. Ilustração por Harry Campbell.

Era uma manhã de inverno, em 1981, e minha esposa acabara de voltar para casa, depois de seu turno no centro médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), quando me contou de um novo e desconcertante caso. Queenie era um garoto de programa de 18 anos de idade, com cabelos tingidos de acaju. Ele chegou ao pronto-socorro com febre alta e tosse, sintomas de uma pneumonia comum, para a qual foi tratado com antibióticos. Mas os médicos identificaram um micróbio em seus pulmões, chamado Pneumocystis carinii. Este micróbio é conhecido por causar uma rara infecção por fungos, vista em crianças sob severa desnutrição ou em adultos que passam por transplantes de órgãos e quimioterapia.

Diversos especialistas do hospital foram designados para compreender a razão de sua infecção. Queenie tinha uma contagem de plaquetas criticamente baixa, a qual o deixou susceptível à hemorragia e eu fui chamado para examiná-lo. Ele estava deitado de lado e respirava com dificuldade. Seus lençóis estavam encharcados de suor. Uma infecção de herpes tinha feito tantas bolhas sobre sua pele que os cirurgiões tiveram que cortar segmentos necrosados de suas coxas. Seus pulmões começaram a falhar e ele foi colocado num respirador. Pouco depois, Queenie faleceu, por insuficiência respiratória.

Ele era um dos muitos casos desta mesma e rara pneumonia que vinham sendo vistos por todo os Estados Unidos. Michael Gottlieb, imunologista da UCLA, estudou o sangue de alguns destes pacientes e fez uma importante observação: todos eles tinham perdido quase todas suas células T auxiliadoras, as quais protegem contra infecções e cânceres. Em junho de 1981, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) publicaram os casos de Gottlieb no Relatório Semanal sobre Morbidez e Mortalidade e, em julho, o Dr. Alvin Friedman-Kien, da Universidade de Nova York, reportou que 26 homens homossexuais em Nova York e na Califórnia tinham recebido diagnóstico de sarcoma da Kaposi, um câncer dos linfonodos e vasos sanguíneos. Estes casos também eram estranhos: o sarcoma de Kaposi afetava tipicamente homens idosos do leste europeu, de ancestrais judeus e mediterrâneos.

Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

Acabei cuidando dos pacientes com sarcoma de Kaposi. Eu era o mais jovem da equipe e não tinha qualquer expertise sobre o tumor. Entretanto, nenhum dos professores seniores queria este trabalho. Meu primeiro paciente, um bombeiro de meia-idade apelidado de Bud, era um homossexual que não “saíra do armário” e vivia em Los Angeles. Pouco antes de chegar ao hospital, ele encontrara tumores em suas pernas que mais pareciam cerejas maduras. Depois, também apareceram em seu tronco, em seu rosto e em sua boca. Apesar das fortes doses de quimioterapia, tratamento padrão para o sarcoma de Kaposi avançado, seus tumores cresciam, deixando-o desfigurado antes de matá-lo, em menos de um ano. Em 1982, homens com linfomas altamente agressivos começaram a chegar ao hospital. Eles também não respondiam à quimioterapia. Os pacientes morriam por uma variedade de doenças que venciam seus sistemas imunes devastados. Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

No ano seguinte, dois times de cientistas — um liderado por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e outro liderado por Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland — publicaram artigos na revista Science que descreviam um novo retrovírus nos nódulos linfáticos e nas células do sangue dos pacientes com aids. Este retrovírus tinha um jeito pernicioso de se reproduzir: inserindo permanentemente cópias de DNA do seu genoma dentro do núcleo da célula de seu hospedeiro, sequestrando o maquinário da célula para seu próprio propósito. Quando o retrovírus sofre mutação, o que frequentemente acontece, sua prole é mais difícil de ser afugentada pelo corpo ou por vacinas. Era amplamente aceito que doenças causadas por retrovírus fossem incuráveis. Em maio de 1986, depois de muita disputa sobre os créditos da descoberta (os franceses finalmente levaram o Nobel em 2008), um comitê internacional de cientistas concordou no nome HIV, ou vírus da imunodeficiência humana. Ao final daquele ano, cerca de 25 mil dos quase 29 mil casos de aids entre americanos haviam morrido.

O HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna.

Desde então, o HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna. Em 1987, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o AZT, uma droga desenvolvida para tratar câncer e que acabou nunca indo para o mercado, para uso em pacientes com HIV. No começo, seu preço era exorbitantemente alto e era prescrito em altas toses, as quais se provaram tóxicas e geraram protestos na comunidade gay. Ainda assim, o AZT mostrou-se capaz de adentrar no DNA do vírus assim que este se formava e por isso continuou a ser usado, mas em doses menores. Hoje os cientistas já desenvolveram mais de 30 remédios antirretrovirais que impedem o HIV de se reproduzir nas células T auxiliadoras.

A ideia de combinar os medicamentos num “coquetel” veio em meados dos anos 90, espelhando como os oncologistas tratavam o câncer. Células cancerígenas, assim como partículas de HIV, podem mutar rápido o suficiente para escapar de medicamentos que têm um único alvo. O regime de tratamento — TARV, de terapia altamente eficaz com antirretrovirais — foi colocado em estudos clínicos por cientistas proeminentes, como David Ho, do Instituto Aaron Diamond, em Nova York. Eu prescrevi o coquetel para um de meus pacientes, David Sanford, e menos de um mês depois de iniciá-lo sua febre cessou, suas infecções desapareceram, sua energia voltou e ele começou a ganhar peso. O HIV em sua corrente sanguínea despencou para um nível indetectável, e ali ficou. Mais tarde, em um artigo vencedor do Pulitzer, Sanford escreveu: “É mais provável que eu morra atropelado por um caminhão do que de aids” — uma máxima que hoje é válida para a maioria das pessoas que vivem com HIV nos Estados Unidos. Nos últimos cinco anos, dentre as dezenas de pacientes com HIV que eu trato, nenhum deles morreu da doença.

Ainda há obstáculos enormes. 35 milhões de pessoas no mundo estão vivendo com o vírus. Na África subsaariana, onde são reportados a maioria dos novos casos, 63% das pessoas elegíveis ao tratamento não o recebem; e aqueles que recebem frequentemente não o recebem por completo. Nos Estados Unidos, um ano de TARV custa milhares de dólares por paciente e os efeitos colaterais a longo prazo podem ser debilitantes.

Hoje, os cientistas têm falado cada vez mais sobre a cura. Sabemos sobre o HIV tanto o quanto sabemos sobre alguns cânceres: seus genes foram sequenciados, seu método de infiltrar nas células do hospedeiro foi decifrado e suas proteínas foram mapeadas tridimensionalmente. Uma importante descoberta foi alcançada em 1997: o vírus consegue permanecer dormente em células de vida longa, intocável pelos medicamentos atuais. Se conseguirmos de maneira segura e financeiramente acessível eliminar este reservatório viral, nós finalmente conseguiremos derrotar o HIV.

Ward 86, o primeiro ambulatório de aids americano, foi aberto no San Francisco General Hospital em 1º de janeiro de 1983. Recentemente, fui até lá para encontrar Steven Deeks, um expert em ativação imune crônica e inflamação decorrente do HIV. Deeks, um professor da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), também é coordenador de estudo SCOPE, que acompanha um grupo de 2 mil homens e mulheres HIV positivos, nos quais ele mede os efeitos de longo prazo de viver com o vírus. A cada ano, amostras de sangue são enviadas para laboratórios de todo o mundo. A missão de Deeks é catalogar os danos que o HIV faz nos tecidos e testar novas drogas que podem ajudar.

“Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”

Sua ala ocupa o sexto andar de um prédio art déco que fica na parte norte do campus da UCSF. Encontrei Deeks em seu escritório, vestindo uma camisa de flanela e tênis New Balance. Ele explicou suas preocupações sobre o coquetel. “Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”, ele disse. Mas não permitem que muitos pacientes se recuperem por completo. O sistema imune se recupera o suficiente para prevenir a aids, mas, uma vez que o vírus persiste, o sistema imune precisa manter uma resposta discreta porém constante. Isso cria inflamações crônicas, as quais danificam os tecidos.

A inflamação é exacerbada pelos efeitos colaterais dos medicamentos. Os primeiros tratamentos causavam anemia, danos nos nervos e lipodistrofia — o emagrecimento dos membros e da face e depósitos de gordura em volta da barriga. A lipodistrofia ainda é um problema sério. Deeks observou que muitos pacientes do estudo SCOPE têm altos níveis de colesterol e triglicérides, o que pode levar a danos nos órgãos. Uma consequência séria são as doença cardíacas, as quais parecem ser causadas pela inflamação das paredes das artérias. Deeks também viu em seus pacientes cânceres no pulmão, no fígado e na pele. Num eco dos primeiros dias da epidemia, ele notou que muitos pacientes de meia-idade desenvolvem doenças associadas com a velhice: doenças nos ossos e nos rins e possíveis efeitos neurocognitivos. Uma melhor definição para aids, segundo Deeks, seria “doença da inflamação adquirida”.

Ele me apresentou para um de seus pacientes, a quem vou chamar de Gordon. Um homem alto, cordial e com óculos sem aro levantou-se para apertar a minha mão e eu percebi sua barriga protuberante. Ele é HIV positivo há quase 40 anos e se disse sortudo por estar vivo: “Meu parceiro de dez anos, que tinha a mesma cepa de HIV, que comia a mesma comida, visitava os mesmos médicos e tomou os mesmos remédios do começo da epidemia, morreu em junho de 1990, quase 25 anos atrás.”

Ele me disse: “Não estou mais preocupado com o vírus. Estou mais preocupado com meu organismo e com o envelhecimento precoce.” Em 1999, aos cinquenta anos de idade, ele descobriu que os depósitos de gordura tinham constrito significativamente a circulação sanguínea de uma importante artéria que alimenta o ventrículo esquerdo de seu coração. Ele começou a experimentar dores incapacitantes ao andar, pois o suprimento de sangue para seu tecido ósseo tinha diminuído — uma condição chamada de necrose avascular. Em 2002, fez sua primeira cirurgia para colocar uma prótese no quadril e, em 2010, fez a segunda. Seus músculos diminuíram e manter-se sentado pode ser desconfortável; para isso ele usa cuecas acolchoadas com espuma. A cada dois anos, recebe injeções de ácido poliláctico no rosto, o qual substitui a perda de conexão dos tecidos.

A longevidade de Gordon e as dezenas de medicamentos que ele tomou para ficar vivo exemplificam a experiência de milhões de pacientes infectados com aids. Seu tratamento custa quase 100 mil dólares por ano. Embora seja coberto por asseguradoras e pelo Estado da Califórnia, ele chama a isso de “preço do resgate: seu dinheiro ou sua vida.” Para Deeks, a pergunta é: “Será que o mundo pode encontrar recursos para criar um sistema que ofereça, diariamente, medicamentos antirretrovirais para 35 milhões de pessoas, muitas das quais em regiões muito pobres?” Ele duvida. E é por isso que está concentrado em encontrar a cura. “Nossa filosofia é que, para alcançar a cura do HIV, precisamos descobrir onde e por que o vírus persiste”, disse.

Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez?

Em 1997, em meio à euforia decorrente da TARV, as pessoas começaram a pensar seriamente sobre a cura. Mais cedo ou mais tarde, todas as células infectadas morrem por conta própria. Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez? Naquele ano, David Ho publicou um artigo na revista Nature, no qual ele previa matematicamente que um paciente sob regime de TARV poderia vencer o vírus detectável em 28 à 37 semanas. Nesta mesma edição da revista havia um artigo de opinião bastante diferente, escrito por Robert Siliciano, hoje pesquisador na Johns Hopkins School of Medicine. Usando um teste incomum e extremamente sensível, Siliciano localizou o HIV num tipo de célula T auxiliadora que provê memória para nossos sistemas imunes e que pode viver por décadas. Células T de memória são de importância ímpar: elas reconhecem os antígenos nas infecções e orquestram respostas rápidas. Mas o vírus provou ser ainda mais esperto. Ele permanece dormente nas cadeias de DNA do hospedeiro, intocado pelo coquetel de medicamentos, e, se este for interrompido, ele pula de volta à vida, degradando então o sistema imunológico.

Aos 62 anos de idade, esguio e discreto, Siliciano é muito conceituado na pequena comunidade de pesquisadores de HIV. Ele conheceu sua esposa e colaboradora, Janet, nos anos 70, quando ela ainda era estudante de graduação na Johns Hopkins, onde estudava as proteínas que as células T soltam quando se deparam com micróbios. Hoje com 59 anos de idade, cabelos ruivos cacheados e um sotaque de New Jersey, Janet se juntou ao laboratório de Bob quando seu artigo foi publicado na Nature. Ela disse que a ideia do artigo foi dele, mas Bob disse que foi Janet quem desenvolveu a ideia ao longo de sete anos, acompanhando os níveis de vírus dormente em pacientes tratados consistentemente com TARV. Os dados que ela coletou confirmaram a tese: o vírus pode sobreviver por tempo quase indeterminado. “Nós calculamos que demoraria 70 anos de TARV contínua para que todas as células T de memória morressem”, ela disse.

Siliciano me contou sobre a primeira vez em que viu um vírus latente emergir de uma célula T de memória de um paciente com HIV e em TARV. O paciente achava que estava curado. “Ele havia sido biopsiado em todos os lugares imagináveis e ninguém conseguia encontrar qualquer vírus”, disse Siliciano. Os pesquisadores colheram vinte tubos de sangue do paciente, isolaram as células T e separaram-nas em vários compartimentos. O espécime foi então misturado com células de pacientes não infectados. Se as células T saudáveis fossem infectadas, o vírus se reproduziria e seria expelido. A detecção do vírus seria sinalizada pela mudança da cor do tubo de ensaio para azul. Siliciano se lembra de estar sentado em sua mesa, conversando com um visitante, quando um estudante entrou em sua sala, num pulo: “Os tubos estão ficando azuis!” Ele disse que “foi um momento muito estranho, porque era a confirmação de uma hipótese — o que é empolgante — mas também era um desastre. Todo mundo chegou à mesma conclusão: as células persistiram infectadas apesar da terapia antirretroviral.”

O laboratório de Siliciano ocupa o oitavo andar do Miller Research Building, na Johns Hopkins School of Medicine. O time de 26 pesquisadores — entre técnicos, estudantes, colegas e professores — trabalha num espaço amplo e arejado, numa instalação de Nível 3 de Biossegurança, na ala norte do edifício. Lá, eles manipulam espécimes de seus pacientes HIV positivos e de muitos outros. Num ambiente com pressão do ar negativa, os pesquisadores colhem amostras de sangue de uma incubadora e as colocam numa capela de fluxo laminar, a qual cria uma corrente de ar. Nada sai do edifício sem ser duplamente ensacado e esterilizado.

Grande parte da pesquisa atual sobre aids parte da descoberta fundamental dos Silicianos, a respeito dos reservatórios de HIV. O mesmo acontece com o trabalho deles hoje em dia. Usando químicos potentes, os Silicianos foram capazes de atrair o HIV para fora de seu esconderijo nas células T de memória, avaliar o alcance do vírus dentro do corpo e começar a mapear onde mais ele poderia estar escondido.

Alguns anos atrás, começaram a prestar atenção aos “blips”, pequenos e repentinos aumentos na carga viral que podem acontecer de vez em quando no sangue de pacientes em TARV. Os médicos estavam preocupados que os blips pudessem ser partículas de vírus que se tornaram resistentes à TARV e assim escaparam das células. Os Silicianos pensavam diferente: as partículas virais teriam sido soltas por células infectadas de maneira latente e que agora foram ativadas. Eles analisaram o sangue de pacientes com blips a cada dois ou três dias ao longo de três ou quatro meses. Sua hipótese mostrou-se correta: o vírus não tinha se tornado resistente aos medicamentos, apenas estava dormente nos reservatórios das células T de memória. Ele poderia ser liberado do reservatório de maneira intermitente, mesmo quando o paciente tomava remédios antirretrovirais.

Embora os cientistas tenham sido castigados pela descoberta de que o regime de medicamentos sozinho não seria capaz de levar à cura, eles recentemente descobriram três casos fora do comum que os encorajaram a continuar tentando. O primeiro caso foi Timothy Ray Brown.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune.

Brown é conhecido como o Paciente de Berlim, uma vez que foi nesta cidade que ele se tornou a única pessoa a ser curada do HIV. Em 2006, mais de uma década depois que descobriu ser HIV positivo, ele recebeu um diagnóstico, não relacionado com o vírus, de leucemia mielóide aguda, um câncer de medula óssea. Depois do tratamento inicial, sua leucemia voltou. Brown precisava de um transplante de medula óssea. Seu hematologista, Gero Huetter, teve a criativa ideia de usar um doador com uma mutação genética que desliga a proteína CCR5, uma porta de entrada do HIV nas células T auxiliadoras. Em 7 de fevereiro de 2007, Brown recebeu o transplante. Um ano depois, ele repetiu o procedimento. Em 2009, as biópsias de seu cérebro, nódulos linfáticos e intestino mostraram que o vírus não tinha voltado e que sua contagem de células T estava de volta ao normal.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune duas vezes, com células de medula óssea transplantadas. Foi muito perigoso e dispendioso. Os pesquisadores se perguntaram se poderiam produzir uma versão simplificada deste procedimento. Em 2013, médicos do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, reportaram o resultado de um estudo no qual dois pacientes HIV positivos sob TARV receberam transplantes de medula óssea para tratar seus linfomas. Seus doadores, diferentemente do doador de Brown, não tinham a mutação do CCR5 e a quimioterapia a que foram submetidos foi menos intensa. A TARV foi interrompida alguns anos depois dos transplantes e o vírus permaneceu indetectável por meses, para então ressurgir.

Em julho último, vieram os resultados de um terceiro caso. Em 2010, uma menina conhecida como a Bebê do Mississippi nasceu de uma mãe HIV positiva que não tomou antirretrovirais. A bebê tinha o vírus no sangue. 30 horas após o parto, a recém-nascida foi colocada sob terapia antirretroviral. Em algumas semanas, sua carga viral caiu para abaixo do limite de detecção. A bebê tinha 18 meses de idade quando o tratamento foi então interrompido, contra recomendação médica. Por dois anos, o sangue da menina não apresentou qualquer sinal do vírus e os pesquisadores especularam que o tratamento precoce com TARV poderia ter prevenido o HIV de formar um reservatório dormente. No entanto, 27 meses depois da interrupção dos medicamentos, a criança testou positivo para o vírus. Embora os pesquisadores tenham ficado impressionados que a intervenção precoce tenha banido temporariamente o HIV, ela não foi curada.

Em agosto, Janet e Robert Siliciano escreveram sobre os pacientes de Boston e a Bebê do Mississippi na revista Science, afirmando que os casos confirmavam que os pesquisadores estão no caminho certo no combate à infecção latente. O Paciente de Berlim era um exemplo ainda mais complexo. Karl Salzwedel, chefe de patogênese e pesquisa básica na Divisão de Aids do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, me contou que, até o caso de Timothy Brown, “não estava claro como é que nós iríamos nos livrar dos últimos pedaços de vírus que permanecem nos reservatórios.” O caso de Brown trouxe “uma prova de conceito: é possível erradicar o HIV latente do corpo, ainda que seja a partir de um método arriscado e tóxico. Ainda assim, é uma prova de conceito.”

A nova peça central no esforço americano de curar o HIV está no Martin Delaney Collaboratories. Financiado pelos Natiotal Institutes of Health (NIH) em 2011, esses laboratórios colaborativos foram formulados para ligar laboratórios clínicos, centros de pesquisa e empresas farmacêuticas. O apoio federal é de 70 milhões de dólares pelos primeiros cinco anos, sob a premissa de cooperação e comunicação aberta entre todas as partes. Salzwedel me contou que o NIH financiou três pedidos e que “cada um deles estava abordando uma estratégia de erradicar o HIV de maneira diferente”, melhorando o sistema imune dos pacientes, manipulando geneticamente o gene CCR5 e destruindo os reservatórios. Estas representam diferentes respostas à tese de Siliciano e das lições aprendidas com Timothy Brown.

Mike McCune, chefe da Divisão de Medicina Experimental da UCSF, pesquisa meios através dos quais o HIV pode ser erradicado do corpo pelo próprio sistema imune. Ele foi atraído por uma observação feita nos primeiros dias da epidemia: bebês nascidos de mães com HIV eram infectados no útero apenas em 5 a 10% das vezes, mesmo embora eles sejam expostos ao vírus ao longo da gestação. Mais recentemente, McCune e seus colegas observaram que o sistema imune fetal, em desenvolvimento, não reage contra as células da mãe, as quais podem facilmente atravessar a placenta e alcançar os tecidos fetais. Ao invés disso, o feto produz células T especializadas que suprimem respostas inflamatórias contra a mãe e podem também prevenir respostas inflamatórias contra o HIV, bloqueando assim o avanço rápido do vírus no útero e poupando a criança.

“Há um yin e yang no sistema imune.”

McCune trabalhou por muitos anos com Steven Deeks e o estudo SCOPE. Quando conversei com ele em São Francisco, ele disse: “Há um yin e yang no sistema imune. Estamos tentando recapitular o balanço orquestrado encontrado no feto.” McCune agora está trabalhando em intervenções que podem vir a prevenir a inflamação contra o HIV em adultos, numa tentativa de imitar parcialmente o equilíbrio encontrado no útero. Ele também está desenvolvendo métodos que podem vir a permitir que o sistema imune reconheça melhor e destrua o vírus, assim que este se manifestar. Estes estudos estão sendo conduzidos em primatas, não humanos, e podem chegar a testes em humanos entre um a dois anos.

Em Seattle, um grupo liderado por Hans-Peter Kiem e Keith Jerome está adotando uma abordagem mais futurista. Usando uma enzima chamada Dedo de Zinco, eles estão alterando geneticamente o sangue e as células da medula óssea a fim de desativar o CCR5, a porta de entrada do HIV nas células T. Os pesquisadores vão modificar as células fora do corpo e, assim, quando forem devolvidas, parte das células da corrente sanguínea serão resistentes à infecção pelo HIV. Com o tempo, eles esperam, estas células vão se propagar e o paciente vai aos poucos construir um sistema imune que é resistente ao vírus. Estes pacientes podem ainda ter um pequeno reservatório de HIV, mas seus corpos serão capazes de regular a infecção.

O maior laboratório colaborativo, com mais de 20 membros, é liderado por David Margolis, da Universidade da Carolina do Norte. Margolis, um expert em doenças infecciosas, tem como alvo os reservatórios. Sua estratégia, a qual passou a ser conhecida como “chutar e matar”, é de reativar os vírus dormentes, desmascarando as células que os carregam para que possam ser destruídas. Em 2012, ele publicou os resultados de um estudo clínico com a droga Vorinostat, a qual foi originalmente desenvolvida para tratar cânceres nas células T, agora testada no tratamento de choque contra o HIV. Em outubro último, a ideia de “chutar e matar” estava sendo amplamente discutida quando o time de colaboradores se reuniram no NIH, ao lado de centenas de outros pesquisadores, diversos acadêmicos e leigos interessados. Margolis e sua equipe falaram de novos meios de expulsar o vírus para fora da dormência.

A fase de matança é mais desafiadora, uma vez que as células que receberam o “chute” trazem poucos antígenos contra o HIV, que são as bandeiras tóxicas hasteadas por partículas patogênicas antes do ataque. Uma das abordagens da estratégia de matança vem de um tipo pouco comum de HIV positivo, que pode carregar o vírus por décadas sem ser incomodado por ele. Chamados “controladores de elite”, possuem células T citotóxicas, ou células NK, de natural killer, que atacam as células produtoras de vírus. O objetivo é tornar todos os pacientes HIV positivos em controladores de elite através de “vacinação terapêutica”, a qual poderia permitir que os pacientes produzissem suas próprias células T citotóxicas.

Os cientistas também estão tentando desligar uma molécula chamada PD-1, a qual o corpo usa para restringir o sistema imune. Desativar a PD-1 tem funcionado em estudos clínicos em pacientes com melanoma e câncer de pulmão. Um paciente parece ter sido curado de hepatite C com uma única injeção de um bloqueador de PD-1 produzido pela Bristol-Myers Squibb.

Grupos fora destes laboratórios colaborativos e que também estão testando meios de alcançar a cura da aids compartilham seus resultados com as equipes do NIH. Em paralelo com o grupo de Seattle, Carl June, diretor de pesquisa translacional do Centro de Câncer de Abramson, na Universidade da Pensilvânia, e seus colegas têm usado engenharia genética para fechar a porta do CCR5. Na edição de março último do New England Journal of Medicine, eles reportaram sobre seu estudo clínico mais recente, o qual mostrou que células T modificadas podem sobreviver por anos em pessoas com HIV. Um trabalho similar em desligar o CCR5 está sendo feito pela Calimmune, uma empresa sediada na Califórnia devotada à busca da cura da aids. (Um de seus fundadores é David Baltimore, que recebeu o prêmio Nobel pela descoberta transcriptase reversa, uma enzima crucial na reprodução retroviral.) Grupos na Dinamarca e na Espanha também tiveram progresso e, em 2012, pesquisadores na França analisaram o estudo Visconti, o qual pôs a intervenção precoce recebida pela Bebê do Mississippi num estudo formal. Um pequeno grupo de 14 pacientes HIV positivos foi logo tratado, semanas após a infecção, e então a TARV foi interrompida. Eles permaneceram livres do vírus por vários anos.

Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Hoje, é curável em 9 de 10 casos.

A luta contra a aids está seguindo uma trajetória similar à luta contra vários cânceres. Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Finalmente, foram desenvolvidos medicamentos capazes de levar o câncer à remissão, em meses ou anos. Mas o câncer sempre voltava. Nos anos 70, cientistas descobriram que células leucêmicas permaneciam dormentes no sistema nervoso central e, com isso, desenvolveram tratamentos direcionados, capazes de eliminar estas células. Hoje, a leucemia infantil é curável em 9 de 10 casos.

Em julho último, na 20ª Conferência Internacional de Aids, em Melbourne, na Austrália, Sharon Lewin, um expert em doenças infecciosas da Universidade Monash, disse: “Neste momento, nós provavelmente estamos diante de alcançar remissão a longo prazo.” Muitos especialistas concordam que a remissão é factível e que, em algum momento, nós seremos capazes de desmamar nossos pacientes da atual terapia vitalícia.

Até mesmo os cientistas mais céticos a respeito da aids acreditam que a remissão é o próximo passo, que precede a cura. Robert Siliciano me disse que “O primeiro objetivo é reduzir o reservatório. E isso não apenas pelo indivíduo mas em prol da saúde pública.” Quando uma pessoa puder ficar fora da TARV, os recursos de seu tratamento poderão ser alocados para pacientes que ainda precisam de tratamento.

David Margolis acredita que sua estratégia de “chutar e matar” vai funcionar, embora possa levar 10 a 20 anos. Os Silicianos concordam que é preciso pesquisar mais. “Chutar e matar”, segundo eles, vai precisar de mais do que uma única droga, como o Vorinostat. O regime ideal não pode ser identificado até que fique claro qual o tamanho dos reservatórios de vírus latente. E os Silicianos ainda não desenvolveram um método de medição preciso para isso. Até agora, o único jeito de determinar se uma cura foi alcançada tem sido acompanhar pacientes que estão fora do tratamento por anos. “Quanto mais aprendemos, mais perguntas temos”, disse Janet.

Ainda assim, as perguntas que têm sido respondidas têm surpreendido os cientistas. Na UCLA, durante os primeiros e brutais anos da epidemia, eu nunca teria imaginado que, no futuro, os pacientes chegariam aos seus 80 anos de idade. Uma doença fatal foi domada e hoje é uma doença crônica. O próximo passo é encontrar a cura. Os cientistas são inatamente cautelosos, pois, ao longo dos anos, aprenderam com a aids que é preciso ter humildade. A ciência atua em torno de um núcleo de incertezas, no qual se encontram contratempos, mas também a esperança.

Jerome Groopman, escritor da equipe desde 1998, escreve principalmente sobre medicina e biologia.


Brasil Post

Joep Lange (Merlijn Doomernik/Hollandse Hoogte/eyevine)

O virologista holandês Joep Lange, um dos 298 mortos na tragédia do voo da Malaysia Airlines em 17 de julho, dizia: “Por que é que estamos sempre falando sobre o problema da distribuição de medicamentos, quando não há praticamente nenhum lugar na África onde não se pode tomar uma cerveja ou uma Coca-Cola gelada?”

Desde 1990, Lange lutava pela distribuição de medicamentos antirretrovirais em países de baixa renda. Ele também foi um dos responsáveis por estudar a segurança e eficácia da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel” com múltiplos medicamentos, que hoje é o padrão de tratamento para HIV/aids. Estudou a resistência do HIV a medicamentos e o papel do tratamento como prevenção (TasP), incluindo a prevenção na transmissão vertical, de mãe para filho. Foi consultor de antirretrovirais para várias empresas farmacêuticas, cofundador do jornal Antiviral Therapy e da HIV Netherlands Australia Thailand Research Collaboration (HIV-NAT), uma rede responsável por 68 estudos clínicos que testaram a viabilidade de fornecimento de medicamentos antirretrovirais para pacientes em países de baixa renda.

No ano 2000, ajudou a lançar a organização sem fins lucrativos PharmAccess Foundation, que começou a levar antirretrovirais para a África subsaariana. Esse projeto começou restrito, mas inovador, distribuindo tratamento para os funcionários de uma fábrica da Heineken, marca holandesa de cervejas que foi uma um das primeiras apoiadoras do PharmAccess, e seus dependentes. O projeto se expandiu, com um fundo que subsidiava planos de saúde que pagavam pelos antirretrovirais para 100 mil pessoas na Nigéria, Tanzânia e Quênia. Entre 2002 e 2004, Lange foi presidente da International Aids Society (IAS).

Charles Boucher, virologista do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, contou à revista Nature: “Trabalhei com Lange por 30 anos. Eu o conheço desde a faculdade de medicina. Ele estava um ano à minha frente. Fiz meu doutorado com ele. Eu o vi crescer, de um médico que cuidava de pacientes no início de 1980 para um líder nacional que liderou o nosso país na Europa com o desenvolvimento de novos medicamentos, avaliação de novas drogas e mudando os paradigmas de estudos clínicos. De lá, ele foi para a pesquisa internacional, para a África, onde tornou-se conhecido.”

Além de Joep Lange, a morte de outros cinco passageiros do voo MH17 que participariam de conferência Aids 2014, na Austrália, foi confirmada:

  • Jacqueline van Tongeren, colega de Lange e membro da ArtAids;
  • Glenn Thomas, coordenador de relações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, Suíça;
  • Lucie van Mens, pioneira na defesa do acesso das mulheres a preservativos femininos e diretora de desenvolvimento da Female Health Company, que fabrica, comercializa e vende estes preservativos;
  • Martine de Schutter, gerente do programa Bridging the Gaps na Aids Fonds, onde trabalhou para tornar o tratamento e a prevenção do HIV acessível a todos;
  • Pim de Kuijer, escritor, ativista político, militante e defensor da organização Stop Aids Now!, empenhada em aumentar a contribuição holandesa na luta contra aids em países em desenvolvimento.

Em 19 de julho, Malaysia Airlines divulgou a lista de passageiros completa. A empresa diz que 192 dos passageiros eram da Holanda, 44 da Malásia, 27 da Austrália, 12 da Indonésia, 10 do Reino Unido, 4 da Bélgica, 4 da Alemanha, 3 das Filipinas, 1 do Canadá e 1 Nova Zelândia.

Em um comunicado, a IAS disse que “continua a trabalhar com as autoridades para esclarecer o impacto da tragédia do voo MH17 da Malaysia Airlines nos participantes da conferência, parceiros de conferência e em nossa comunidade como um todo”. A sociedade também disse que a conferência continua. “Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/aids, a conferência irá adiante, conforme o planejado, e vai incluir oportunidades de reflexão para lembrar aqueles que perdemos.” A conferência começou com todos os participantes de pé, em um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do voo MH17.

Um minuto de silêncio na cerimônia de abertura da Aids 2014.

Um dia depois do acidente, foram apresentados na conferência dois casos de pacientes australianos que não apresentam mais sinais do HIV, depois de um transplante de medula óssea para tratar câncer. Eles continuam sob tratamento antirretroviral “por precaução”, segundo o Dr. David Cooper, diretor do Kirby Institute da University of New South Wales em Sidney.

Depois de ouvir falar sobre o caso dos “pacientes de Boston”, dois homens que permaneceram por um longo tempo sem sinais do vírus após um tratamento similar, Cooper conduziu uma pesquisa nos arquivos de um dos maiores centros de transplante de medula óssea da Austrália, a fim de verificar se, por acaso, algum portador do HIV teria feito o transplante nos últimos anos. Encontrou dois casos: o primeiro havia recebido transplante para tratar um linfoma não-Hodgkin, em 2011, e o segundo para leucemia, em 2012.

Assim como no caso dos “pacientes de Boston”, é possível que os dois australianos voltem a apresentar sinais do vírus se interromperem a terapia antirretroviral. Por isso, eles não estão sendo considerados casos de cura e continuam sob a terapia antirretroviral. Entretanto, os resultados atuais mostram que existe uma clara relação entre o transplante de medula óssea e os “reservatórios de HIV”, o lugar onde o vírus se esconde no organismo. “Se conseguirmos entender como isso acontece, vamos acelerar o campo de pesquisa da cura”, afirma Cooper.

Até agora, o único caso de cura do HIV continua sendo o de Timothy Brown, o “paciente de Berlim”, que também fez um transplante de medula, no entanto, a partir de células de um doador naturalmente resistente ao HIV. Ele está há seis anos sem tomar antirretrovirais e não apresenta sinais do vírus. O transplante de medula óssea não é um tratamento viável para se tornar rotina na cura do HIV porque o procedimento apresenta alto risco de mortalidade, em 10%.

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