Como o HIV, vírus causador da aids, está presente no sangue, sêmen, secreção vaginal e leite materno, a doença pode ser transmitida de várias formas: sexo sem camisinha – pode ser vaginal, anal ou oral; de mãe infectada para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação – também chamado de transmissão vertical; uso da mesma seringa ou agulha contaminada por mais de uma pessoa; transfusão de sangue contaminado com o HIV; instrumentos que furam ou cortam, não esterilizados.

Evitar a doença não é difícil. Basta usar camisinha em todas as relações sexuais e não compartilhar seringa, agulha e outro objeto cortante com outras pessoas. O preservativo está disponível na rede pública de saúde. Caso não saiba onde retirar a camisinha, ligue para o Disque Saúde (136).”

Foi por estes dias que aconteceu o acidente. A casa de minha mãe, agora em obras, foi a casa onde cresci — pelo menos, por boa parte da minha vida. A poucas quadras dali fica o laboratório de exames, que acabou por ser aquele em que fiz tantos exames desde do diagnóstico, como carga viral e contagem de CD4.

“— Acho que seus livros estão ali”, apontou minha mãe.

Avistei meu nome na lateral de uma das caixas de papelão marrom, empilhadas ali, na garagem, sob o eco das marteladas dos pedreiros no andar de cima. Entre as caixas, restos oriundos da reforma, como dois vidros do antigo box do banheiro — para alcançar a minha caixa, era preciso tirá-los dali. Então, agarrei na lateral da primeira porta vidro: com seu peso, as veias de meu antebraço logo saltaram — e me lembrei que fora naquela casa, anos atrás, em 2011, pouco depois do meu diagnóstico, que acontecera aquela conversa com meu pai.

“— Fez exames?”, perguntou ele, logo depois de me cumprimentar, percebendo o pequeno band-aid arredondado colado sobre a veia do meu antebraço.

“— Sim, acabei de sair daquele laboratório próximo daqui”, respondi.

“— E você avisou que tem HIV para a enfermeira que foi coletar o seu sangue?”

“— Não avisei. Não é preciso avisar”, respondi, seguindo o que acabara de aprender com meu novo médico infectologista.

Naquela altura, em 2011, eu acabava de deixar de me consultar com o Dr. O., o primeiro infectologista que visitei logo depois do diagnóstico e quem, por acaso, me deu a instrução de que era importante manter luvas de borracha ou cirúrgicas na casa, para em caso de qualquer acidente perfurocortante comigo, um soropositivo, a pessoa que fizesse o meu curativo pudesse estar protegida. Mas foi meu novo médico, o Dr. Esper Kallás, quem disse que isso não era necessário: um acidente caseiro, pequeno, não costuma trazer risco de transmissão, enquanto um acidente mais grave, com mais sangue, naturalmente implicaria na procura por um serviço de emergência médica, com profissionais habilitados e preparados para evitar a infecção.

“— Quem disse que não?”, questionou meu pai.

“— Meu novo médico infectologista, o Dr. Esper.”

“— E qual a justificativa dele para não precisar avisar?”

“— Todo profissional de saúde deve estar preparado para seguir os protocolos que são suficientes para evitar a transmissão”, expliquei.

“— Mas e no caso de um acidente? Por exemplo, se você desmaia, cai e a seringa com seu sangue fere o profissional. Se você não avisa antes, a culpa é sua”, argumentou ele, como bom advogado que é.

“— Nesse caso, o enfermeiro faria aquilo que se chama profilaxia pós-exposição, a PEP”, respondi.

“— E é 100% seguro que a PEP funciona?”, retrucou meu pai.

“— Em Ciência, nada é 100%. Nem camisinha”, respondi, parafraseando aquilo que acabara de aprender com o doutor.

“— Eu sei. É por isso que você também deve avisar às mulheres com quem sair”, respondeu meu pai. “E também aos enfermeiros que atenderem você.”

“— Meu médico diz que avisar é uma opção e não uma obrigação.”

“— Seu médico está errado!”, enfatizou meu pai, elevando o tom de voz. “Se um acidente acontece, as consequências são graves. Você sempre precisa avisar que tem HIV, para quem quer que seja!”

“— Não entendo…”, questionei. “Como é que posso sempre avisar?”

“— Se você sofre um acidente em casa, com sangue, quem estiver do seu lado precisa estar avisado que você tem HIV.”

“— Mas que acidente tão grave pode acontecer em casa?”

Eu relembrava dessa conversa quando terminei de apoiar a primeira porta de vidro do box, do outro lado da garagem; faltava ainda mais uma. Agarrei-a, percebendo que esta parecia ser ainda mais pesada que a anterior.

“— Além de um acidente em casa, pode acontecer um acidente na rua”, continuou meu pai, ainda naquela conversa no ano de 2011. “Atropelado, por exemplo…”

“— Mas então o que é que você está sugerindo?”, interrompi, percebendo um simultâneo esboço de protesto de minha mãe. “Acha que devo usar um aviso no braço, como aquela braçadeira que os judeus eram obrigados a usar durante o nazismo?”

Os olhos de meu pai se arregalaram, num susto. Ele então olhou para os lados, depois para baixo. Desconversou. E nós nunca mais voltamos a falar sobre isso. Tampouco sofri eu um acidente que suscitasse novamente esse assunto — até agora. Acontece que o vidro temperado, utilizado na fabricação das portas de box de chuveiro, não deve ser acomodado contra uma parede, ou com um apoio na sua parte inferior e superior, tal como estava naquela garagem. O transporte também não deveria ser feito tal como eu fazia, ali, sem luvas e sem proteção em torno de toda a vidraça. Foi sem cumprir estas recomendações que  escutei aquele estrondo.

BOOOM!, como se fosse um explosão.

O ruído das marteladas no andar de cima foi interrompido. Com o silêncio, percebi um zunido no ouvido esquerdo. Quando abri os olhos, avistei os pedreiros à minha frente, de olhos arregalados.

“— Você se cortou? Você se cortou?”, perguntava minha mãe, assustada.

“— Não sei!”, respondi, com os sentidos ainda anestesiados pela adrenalina.

Olhei para minhas mãos, ainda fechadas, com a musculatura travada com força, ainda tentando agarrar algo que não estava mais ali. Precisei de um pouco de força para abri-las, lentamente, enquanto mais restos de vidro escorriam um a um para o chão. Olhei para os lados e percebi que, apesar dos cacos mais concentrados à minha volta, a explosão também levara estilhaços por toda a garagem.

“— Você está bem?”, perguntei para minha mãe, que estava atrás de mim.

“— Sim, estou. E você?! Se cortou?”

Virei as palmas das mãos para cima e notei dois pequenos cortes, por onde uma gota de sangue escorria a partir de um deles e, no outro, o pequeno estilhaço preso na pele estancava o sangue. Procurei mais e avistei outro pequeno corte, igualmente com pouco sangue. E senti um incômodo na parte das costas, próximo às omoplatas, para onde era impossível eu mesmo olhar.

“— Acho que só um pouco”, respondi.

Foi então que meu pai chegou. De olhos arregalados ao lado dos pedreiros, veio em minha direção e me ajudou a tirar a blusa — um procedimento que, aprendi ali, seria a recomendação inicial para acidentes com vidro. Sem a camiseta, percebi mais um pequeno estilhaço preso em minha pele na altura do ombro.

“— Vamos para o banheiro”, disse meu pai, me ajudando a caminhar por cima dos cacos.

“— Você teve sorte!”, disse um pedreiro. “Teve poucos e pequenos cortes. Um colega saiu dessa com oitenta pontos no braço!”

Com a ajuda de meus pais, subi as escadas. Minha mãe agarrou a caixa de primeiros socorros e uma pinça. Com a mão esquerda ainda trêmula, consegui tirar o primeiro caco, pequeno, do centro da palma direita. Logo depois, mais outro, na altura do pulso e, por fim, aquele que estava no braço.

“— Ainda sinto alguma coisa nas costas”, reclamei.

Foi então que, sem luvas, meu pai agarrou um punhado de algodão, embebeu-o no álcool e limpou a ferida. Em seguida, arremessou o algodão com um dos lados avermelhado pelo sangue na pia à minha frente. Com a ajuda de minha mãe, tirou dali o último estilhaço de vidro, preso nas costas. Sempre sem luvas.

“— Agora é bom você tomar uma ducha”, sugeriu ele.

Virei-me de costas, terminando de me despir antes de entrar no chuveiro, quando escutei-o dizer para minha mãe:

“— Venha, vamos desinfetar as mãos com álcool.”

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A Folha de S.Paulo publicou neste sábado, 11 de novembro de 2017, uma notícia sobre a epidemia de HIV entre mulheres na República Democrática do Congo. Na versão impressa do jornal, a notícia tem como manchete a fala da entrevistada: “‘Meu marido não me contou que tinha Aids'”, enquanto na versão online: “Maioria entre pessoas com HIV em país africano, mulheres esperam cura”.

Na versão impressa, o lead (aquele texto logo abaixo da manchete que responde resumidamente às principais questões da notícia) é parecido com a manchete da versão online: “Maioria entre infectados, mulheres da Rep. Democrática do Congo sonham com a cura do vírus HIV contra estigmatização”. A versão online não tem o mesmo tem lead na página da notícia: este aparece no link do álbum de fotos, com sete fotografias, intitulado: “Aids na República Democrática do Congo”.

Página A19 da Folha de S.Paulo em 11 de novembro de 2017.

Apesar destas diferenças, o conteúdo da notícia em ambas as versões, impressa e online, é o mesmo: começa com a história de Madeleine Mwiza, uma congolesa cujos três filhos morreram de aids, antes que ela própria viesse a receber seu diagnóstico positivo para o HIV. Quando isso aconteceu, em 2003, Mwiza foi espancada e expulsa de casa pelo marido — quem, conforme ela descobriu depois, também era soropositivo e por anos não revelara sua condição para a esposa. Mwiza pediu então apoio do pastor da igreja adventista de sua comunidade, para que este pudesse convencer seu marido a aceitá-la de volta. Na sua fé, o casamento é algo para a vida inteira.

A história de Mwiza é a mesma de muitas outras mulheres da República Democrática do Congo. Segundo a notícia, a prevalência do HIV nas mulheres congolesas é o dobro daquela observada entre os homens, com mais mortes decorrentes do vírus entre as mulheres soropositivas do que entre homens. A matéria ainda faz referência aos dados do Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, que estima haver 210 mil mulheres com HIV no país, num total de 290 a 450 mil soropositivos.

Apesar dessa referência ao Unaids, o jornal não seguiu as recomendações que constam no constam em seu Guia de Terminologia, publicado neste ano, durante o durante o 11º Congresso de HIV/Aids, em Curitiba, e que tem o objetivo encorajar o uso de palavras cientificamente precisas e que promovam direitos humanos universais e a dignidade do indivíduo. O lead da notícia na versão impressa do jornal, por exemplo, inclui o termo “vírus HIV”, que é redundante, uma vez que a sigla HIV já inclui a palavra vírus — para quem não sabe, HIV quer dizer vírus da imunodeficiência humana. Mais grave, há ainda o termo “vírus da aids”, que é incorreto. Além disso, lê-se “coquetel” por duas vezes ao longo da notícia, muito embora o Unaids indique o desuso dessa nomenclatura. Por diversas vezes, a palavra “aids” é utilizada erroneamente como sinônimo de infecção pelo HIV — de fato, a própria entrevistada, Mwiza, se refere à aids dessa forma, mas não seria interessante que o jornal explicasse a diferença?

Mas não são essas as imprecisões que mais incomodam. “É muito comum que uma pessoa, fora da vivência de uma pessoa que vive com HIV ou que é vulnerável ao HIV, faça interpretações superficiais sobre determinada situação que envolva este vírus”, comentou Ricardo Vasconcelos, coordenador do SEAP HIV, um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV. “Algo como: ‘é só usar camisinha que a pessoa estará protegida do HIV’ — quando sabemos que não é bem assim.”

A notícia diz que o maior choque de Mwiza foi “descobrir que contraíra o vírus da Aids de seu primeiro e único parceiro sexual. O marido escondia os medicamentos e havia quatro anos tomava os antirretrovirais secretamente.” Apesar de apontar o marido como a origem da infecção da entrevistada, a reportagem não esclarece ao certo como esta conclusão foi alcançada. Cientificamente, a única maneira de se comprovar a origem de uma infecção pelo HIV é através do sequenciamento genético do vírus, neste caso, do HIV que está no corpo de Mwiza e também daquele que está no corpo do marido. Uma vez que esse tipo de análise científica costuma ser restrita a estudos científicos, é improvável que este tenha sido o caso da entrevistada. Então, é possível que a conclusão a respeito da origem dessa transmissão seja pessoal de Mwiza, a partir do conhecimento que somente ela pode ter, a respeito de sua própria vida sexual e das possíveis exposições de risco ao HIV que ela possa ter sofrido — se é esse o caso, infelizmente nesse ponto a notícia carece de aspas.

Diante do cenário de abuso de seu marido, em meio à uma sociedade patriarcal que traz graves prejuízos às mulheres, especialmente às soropositivas, podemos sim presumir e até ter convicção de que a infecção de Mwiza veio de seu marido. Entretanto, diante deste mesmo cenário social, não seria justo também indagar à entrevistada se por acaso ela foi violentada, estuprada por algum outro homem além de seu marido, antes de apontá-lo como culpado? Essa pergunta parece não ter sido feita à entrevistada e, se foi, não parece ter interessado a jornalista em publicá-la. Entretanto, trata-se de uma pergunta que se torna um pouco mais importante, quando levamos em consideração outra informação que temos a respeito do marido: a de que ele faz tratamento antirretroviral — afinal, ele mantém adesão à esta terapia e tem carga viral indetectável?

Perguntas assim podem parecer irrelevantes dentro do contexto geral da história de Mwiza, que, no fim das contas, foi infectada dentro de uma situação social de abuso, violência e machismo, seja este oriundo do marido, da sociedade na qual ela está inserida ou dos dois. Mesmo assim, surge aí uma imprecisão que pode ser perigosa. Primeiro, porque não esclarece a respeito de uma transmissão que supostamente ocorreu sob tratamento antirretroviral a partir de uma pessoa que vive com HIV, fato que, por si só, seria cientificamente digno de nota e de análise mais detalhada. Em segundo, porque pode servir de argumento contra outra mulher, tal como Mwiza, soropositiva e oprimida pelo marido, mas que opta por não revelar sua condição ao seu parceiro, por receio da violência que possa vir a sofrer diante dessa revelação. Supondo que esta mulher faça tratamento antirretroviral e mantenha sua carga viral indetectável, ela estará cuidando da sua saúde e não estará expondo seu marido ao risco de infecção pelo HIV, tampouco aos filhos que os dois possam vir a ter. Com o tratamento antirretroviral adequado, a transmissão vertical, da mãe para o feto, pode ser totalmente evitada, além da transmissão por via sexual entre parceiros. Quem tem HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transmite o HIV — uma afirmativa que recentemente também foi endossada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC.

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É muito comum que mulheres em situação como a de Mwiza não tenham controle sobre a decisão a respeito da gestação, com falta de acesso à alternativas anticoncepcionais e dificuldade na negociação a respeito do uso da camisinha com seu parceiro. (Pela reportagem da Folha, não sabemos ao certo se este é caso dela, mas podemos presumir que sim, uma vez que, com 21 anos de idade, Mwiza já era mãe de cinco.)

Uma situação de uso do preservativo que depende apenas da decisão do homem, sem levar em consideração a vontade da mulher nesta relação, aumenta muito a vulnerabilidade à infecção pelo HIV. Isso é terrível e é um claro cenário de opressão. “Nos seus 36 anos de existência, a epidemia de HIV sempre caminhou pelos círculos da exclusão e da opressão”, explicou Ricardo Vasconcelos. “Essa matéria mostra um aspecto da epidemia africana, onde o vírus se entranhou entre mulheres heterossexuais por causa da dinâmica social baseada em relações de poder entre homens e mulheres. Algo semelhante acontece no Brasil também: a exclusão dos gays, pessoas trans, negros e periféricos os colocou na trilha do vírus, tornando-os mais susceptíveis à novas infecções.”

É importante mostrar a realidade dessas pessoas, tal como a Folha de S.Paulo fez ao contar a história de Mwiza. Mas também é interessante informar sobre as alternativas que já existem e que já poderiam estar trabalhando na redução da vulnerabilidade destas pessoas, possivelmente evitando totalmente a infecção pelo HIV, neste caso, em milhares de mulheres congolesas.

A primeira destas alternativas é a própria terapia antirretroviral: ao evitar a transmissão do HIV, ela permite total sigilo a respeito da condição sorológica e, por isso, pode também servir como proteção contra o estigma que a revelação dessa condição possa vir a trazer. Este sigilo pode proteger alguém do abuso e da violência, senão salvar uma vida, especialmente dentro do cenário social como este em que Mwiza está inserida. Há relatos, por exemplo, de mulheres com HIV que mantém segredo sobre sua condição sorológica para poder amamentar seu bebê. Nesse sentido, associar o sigilo do soropositivo unicamente à responsabilidade pela transmissão do HIV, tal como sugere a manchete do jornal, é tratar o assunto de maneira incompleta. Além de não mencionar a possibilidade do tratamento como prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention), a notícia da Folha de S.Paulo sequer fala sobre a principal alternativa de prevenção: a camisinha! Afinal, por que Mwiza e seu marido não usavam o preservativo? No contexto de vida da entrevistada, qual é o seu poder de negociação do uso dessa estratégia de prevenção? Essa é uma questão importante que não foi levantada pela reportagem.

Não é de surpreender que o jornal não tenha abordado também outras estratégias, como a profilaxia pós-exposição (PEP), os microbicidas anti-HIV anais ou vaginais que têm sido estudados em diversos países africanos e a profilaxia pré-exposição (PrEP), recém aprovada no Brasil. Por acaso, a PrEP não parece ser ainda uma alternativa disponível na República Democrática do Congo — pelo menos, o site PrEPWatch.org não traz qualquer informação a respeito de estudos ou da oferta de PrEP nesse país. Mas ela tem sido avaliada ou já está disponível em outros países do mesmo continente, como Nigéria, Uganda, Quênia, Zâmbia, Malawi, Namíbia, Botswana, Zimbábue, África do Sul e Lesoto. Diferentemente da cura do HIV, a PrEP já existe — ela é real e não apenas um sonho distante. Por ser um advento recente, dos últimos anos, é improvável que a PrEP pudesse ter evitado a infecção de Mwiza, que se deu antes de 2003, mas trata-se de uma estratégia de prevenção que ainda pode evitar a infecção de milhares de outras mulheres, as quais também são assunto da notícia — nesse sentido, não seria interessante falar sobre a PrEP? 

É natural que Mwiza sonhe com a cura do HIV. Eu também sonho, mesmo sem sofrer com o vírus nada perto daquilo que ela conta sofrer. Mas entendo que existem alternativas que podem minimizar, bastante, o sofrimento e o incômodo que a vida com o HIV pode trazer e me questiono a razão destas alternativas já não estarem à disposição de pessoas mais vulneráveis, incluindo as mulheres como Mwiza. Não apresentá-las a estas alternativas é muito cruel — assim como também é cruel retratá-las no jornal como nada além de sonhadoras, aguardando a cura como se esta fosse a grande salvadora, sem sequer mencionar as tantas possibilidades que já existem e que poderiam lhes ajudar.

“Nesse exemplo, esperar pela cura é esperar pelo fim da exclusão e da opressão, como se fosse o vírus o causador delas”, disse Ricardo Vasconcelos, que também participou de importantes estudos sobre a PrEP, como o iPrEX e o PrEP Brasil. “Contra o vírus, já sabemos o que fazer. Mas, para essas questões sociais, insistimos em fingir que elas se resolverão quando não houver mais HIV.” As alternativas que já existem não resolvem o problema social e nem o estigma contra quem vive com HIV — elas não são a solução destes problemas —, mas podem sim ajudar muitas pessoas a experimentar uma vida com mais qualidade, enquanto aguardamos pela cura do HIV. Essas alternativas não são tão perfeitas quanto a cura poderá ser, mas elas têm as suas vantagens e podem nos ajudar hoje. Vamos aproveitá-las — e vamos falar mais sobre elas, Folha de S.Paulo.

Em comparação com os seus pares soronegativos, as pessoas com HIV ainda acreditam que vão morrer mais cedo e que são menos propensas a alcançar um relacionamento amoroso duradouro, de acordo com um estudo encomendado pela Gilead Sciences, conduzido em cinco países europeus. Os resultados foram anunciados na 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, e publicados no Aidsmap.

Nessa pesquisa, 54% das pessoas soropositivas consideraram que o HIV era uma barreira ao sexo, dos quais 87% disseram ter medo de transmitir o vírus para para outras pessoas. (Estes 87% representam 47% do grupo inteiro.) Esse medo poderia até ser visto como racional ou bem informado, uma vez que este grupo era um grupo relativamente novo de pessoas com HIV, com pouco menos de dois terços em terapia antirretroviral, dos quais menos da metade tinha carga viral indetectável. No entanto, as pessoas que tinham carga viral suprimida não apresentaram uma opinião muito diferente: 38% das pessoas com carga viral indetectável ainda temiam transmitir o vírus para outros.

O estudo HIV is: Expectations from Life foi conduzido entre novembro e dezembro de 2016 na França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido. Cerca de 20 mulheres soropositivas foram recrutadas em cada país, totalizando 102 mulheres, e 84 homens em cada país, num total de 420 homens. Destas 522 pessoas, 11% nunca tinham feito tratamento antirretroviral e outros 11% tinham feito tratamento, mas relataram tê-lo abandonado. Das 338 pessoas (65%) que estavam em tratamento, 229 pessoas (67% destas ou 44% de todo o grupo) disseram ter carga viral indetectável.

As 522 pessoas com HIV foram comparadas com 2723 pessoas soronegativas, equiparadas quanto à idade, gênero e orientação sexual. Os pesquisadores perguntaram a todos os entrevistados: você espera viver uma vida mais longa do que seus amigos, colegas e irmãos mais velhos? As pessoas com HIV se mostraram três vezes mais propensas a dizer que acreditavam que teriam vidas mais curtas: 35% disseram acreditar que morreriam mais cedo do que seus amigos, em comparação com 10% do grupo soronegativo. A supressão viral mudou pouco esse cenário, com 31% daqueles em tratamento e com carga viral indetectável ainda considerando ter uma expectativa de vida mais curta.

As pessoas que vivem com HIV também se mostraram mais propensas a priorizar o amor (37% contra 27%) e uma vida sexual saudável (28 contra 17 %) do que pessoas soronegativas. Mais da metade dos soropositivos considerou o HIV como uma barreira para o sexo e 38% consideraram que o HIV era uma barreira para namorar e conhecer possíveis parceiros sexuais. O obstáculo mais comumente citado como impeditivo para um namoro foi o medo de ter que revelar o sua condição sorológica para o HIV, com 59% dos soropositivos (ou 22% do grupo inteiro) dizendo que acreditavam que o HIV era uma barreira para namorar.

As pessoas com HIV apresentaram menor probabilidade de avaliar sua saúde atual como excelente, com 44% classificando sua saúde como boa ou excelente, em comparação com 69% dos entrevistados soronegativos. Há algumas diferenças interessantes entre os países: espanhóis e italianos sentem-se pior em relação à saúde. 71% das pessoas na Espanha contra 38% na Alemanha disseram que sua condição sorológica positiva para o HIV os tornava menos propensos a se envolver em atividades para apoiar a saúde e o bem-estar, como alimentação saudável e exercício físico, porque eles não acreditavam que isso poderia fazer alguma diferença, agora que tinham o HIV.

Por sua vez, os entrevistados britânicos se mostraram mais propensos ​​de temer a divulgação de sua condição sorológica e a dizer que o estigma contra soropositivos ainda prevalece. 68% dos entrevistados do Reino Unido, contra 50% dos espanhóis, temem divulgar seu status. 44% dos entrevistados do Reino Unido e apenas 12% dos italianos disseram que o estigma contra soropositivos é uma barreira para conseguir um relação amorosa.

E você, o que acha?

“Olá, Jovem.

Necessito dividir a minha história porque li poucos relatos de mulheres, porque preciso desabafar. Espero que possa me compreender e me ajudar. É difícil saber por onde começar.

“Já fazia dez dias que eu estava com os remédios em casa e não tinha coragem de começar a tomá-los.”

Acho que tudo começou há mais ou menos sete meses, quando conheci o seu blog. Eu estava desesperada, procurando informações relacionadas ao HIV. Tinha acabado de descobrir minha sorologia positiva, em 10 de maio de 2016, e foi através do seu blog que tirei muitas dúvidas no decorrer desses meses — e te agradeço por isso. Comecei a tomar a medicação ‘3 em 1’, no dia 1º de dezembro, quando por acaso vi uma reportagem sobre o dia Mundial de Luta Contra a Aids — este foi o empurrão que eu precisava, pois já fazia dez dias que eu estava com os remédios em casa e não tinha coragem de começar a tomá-los.

“Abriu em mim uma porta para a ilusão de que eu nunca teria HIV.”

Tenho 33 anos, sou do Rio Grande do Sul. Estava casada há dois anos, com um homem mais jovem. Nossa relação parecia ser respeitável e saudável — e, quando digo ‘saudável’, me refiro ao fato de que, logo nos dois primeiros meses de namoro, fizemos o teste de HIV e demais doenças sexualmente transmissíveis. Todos resultaram negativo. E acho que foi neste momento que me senti muito feliz, achando que estava imune a tudo. Abriu em mim uma porta para a ilusão de que eu nunca teria HIV, pois achava que tinha encontrado alguém em quem eu podia confiar e com quem eu não precisaria mais usar preservativos, uma vez que estávamos em um relacionamento sério e fiel e já falávamos sobre ter um filho. Acredito que muitos indivíduos passam por esta situação: confiar sua saúde à outra pessoa, não é mesmo?

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No decorrer do relacionamento tivemos briga e uma breve separação, por besteiras que envolvem qualquer casamento. Voltamos em seguida, como de fato acontece com qualquer um. Mas foi nos meses seguintes que comecei a desconfiar que ele estava me traindo. Procurando no computador, encontrei um site de sexo no histórico do navegador. Coloquei o e-mail dele e sua senha e, então, fui levada para uma página cheia de mensagens que ele trocara com pessoas com quem vinha fazendo sexo, com quem ele estava se relacionando durante todo o nosso casamento. Descobri que ele era bissexual.

Me desesperei quando li uma conversa na qual ele indagava sobre a suspeita da pessoa com quem ele estava saindo ter HIV. E não tinha como contar isso a ninguém. Liguei pra ele falando o que havia descoberto, mas ele negava tudo. Nos separamos. Ficamos sem nos falar por algum tempo. Esperei o período de janela imunológica e o convenci a ir fazer o teste.

“Ele ficou em silêncio, antes de desabar em choro, pedindo desculpas, até me contar do resultado positivo no teste de HIV.”

Foi o pior dia da minha vida quando vi a cara dele ao sair da sala. Ele ficou em silêncio, antes de desabar em choro, pedindo desculpas, até me contar do resultado positivo no teste de HIV. Enquanto ele chorava, saí correndo e fui fazer o meu teste, o qual também deu reagente. Meu mundo desabou. O que eu ia fazer agora? Eu queria morrer.

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Cheguei em casa e comecei a procurar na internet. Descobri o seu blog e, aos poucos, fui me acalmando. Percebi também que, por mais que não fosse alienada, eu era totalmente leiga no assunto. Consegui respirar com mais alívio, mas confesso que a dor, a culpa e a vergonha ainda me perseguem. Não tenho coragem de falar sobre isso com quase ninguém: as únicas pessoas que sabem são os médicos do SUS e meu ex. Sequer tive coragem de contar para meu médico do plano particular, pois toda minha família se consulta com ele — e tenho a certeza de que eles não entenderiam e me julgariam. Desde o meu diagnóstico, vivo nesta prisão interna. Não estou trabalhando. Fico quase 24 horas em casa sozinha. Me isolei totalmente.

Por outro lado, acho que consegui me manter racional. Convenci meu ex a fazer todos os exames necessários, a fim de saber quanto tínhamos de CD4 e carga viral. Meu primeiro exame deu 649 células/mm³ de sangue e 26 mil cópias do vírus. Esperei mais 3 meses e fiz novamente o exame de carga viral, que veio em 27 mil. Meu médico me convenceu que era melhor começar a fazer o tratamento antirretroviral. Eu sabia que quanto mais cedo, melhor.

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Peguei os frascos de remédio, decidida a aderir ao tratamento. Mas, quando cheguei em casa, perdi toda a coragem. O medo tomou conta de mim: tinha medo dos efeitos colaterais que eu poderia sentir, ainda mais sozinha e sem ter ninguém para recorrer. Como eu disse, tomei essa coragem no dia 1º de dezembro. Passadas algumas horas, senti tontura. Minha boca ficou molhada, mas os lábios estavam secos. Um gosto estranho. Minha barriga ficou inchada. Será que não me alimentei muito bem? Nos últimos dias a tontura já foi menor, embora minha barriga continue muito inchada. Tive vontade de vomitar. Acordei no meio da noite com muita sede.

“Enquanto não existe a cura, quero chegar ao indetectável.”

Peço desculpas se escrevi demais. A verdade é que queria deixar registrado aqui que nunca devemos depositar a nossa saúde nas mãos de outra pessoa, por mais que confiemos nela. Todos falhamos. Todos tempos nossos medos e segredos. Aprendi que devemos continuar nos prevenindo sempre e que, em caso de falha, sempre há uma saída — eu, agora, estou tentando encontrar a minha. Enquanto não existe a cura, quero chegar ao indetectável, para nunca sentir a culpa que vi nos olhos de meu ex, por ter transmitido esta doença para alguém, por ter descoberto que ele estava com HIV e que o passou para mim.

Obrigada por poder te escrever, Jovem. Já me sinto um pouco melhor em dividir a minha história.”


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Charlie Sheen revelou que seu HIV está completamente suprimido graças a uma injeção experimental parte de um estudo clínico. O ator, que participa do estudo para o medicamento chamado Pro 140 desde o começo de 2016, divulgou esta notícia na véspera do Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

Ao contrário da terapia antirretroviral tradicional, que envolve tomar medicamentos todos os dias, Sheen recebe uma injeção semanal que não tem efeitos colaterais. Na terça-feira, Sheen recebeu a notícia do diretor do estudo clínico dizendo que ele havia alcançado a supressão completa do vírus usando apenas este novo método. Em outras palavras: seu vírus não é mais detectável, fazendo do Pro 140 uma perspectiva promissora para pessoas com HIV/aids.

Faz pouco mais de um ano desde que Sheen, de 51 anos de idade, revelou publicamente seu diagnóstico positivo para o HIV, coincidindo com o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, quando as autoridades de saúde pública se unem para aumentar a conscientização a respeito da doença. Sheen disse que nunca se sentiu tão forte e confiante sobre sua condição. Ele espera que esta pesquisa resulte na aprovação deste novo tratamento e que ajude a desestigmatizar as pessoas que vivem com HIV.

Charlie Sheen, retratado em uma estréia na última quarta-feira, disse que não experimentou efeitos colaterais com a injeção de Pro 140.

“É incrível”, disse Sheen. “Lembro de como me senti naquele dia e de como me sinto hoje. Uau! Que transformação! Em um instante você está no caminho para a perdição e, no próximo, você está no caminho da providência. É incrível. Eu pensava que ficaria preso nesse coquetel antirretroviral para sempre, mas olhe para mim agora. Sou muito grato aos gênio da CytoDyn por desenvolverem isso e por terem me encontrado.”

Pro 140 é um “inibidor de entrada e de fusão” que é injetado semanalmente. É feito a partir de um anticorpo, ao invés de produtos químicos sintéticos. Os inibidores de entrada e de fusão protegem as células do sistema imunológico contra a infecção pelo HIV. Para isso, o fármaco se liga a um receptor de proteína na superfície da célula imunológica. Normalmente, o HIV usaria essa proteína como um porta de entrada para entrar e infectar uma célula. Estudos mostram que quando esta porta de entrada é bloqueada, o HIV não consegue entrar nessa célula. Esse processo impediria o vírus de se multiplicar e poderia também reduzir a quantidade de HIV no corpo.

A injeção não funciona para todas as cepas de HIV — apenas para a R5. No entanto, uma vez que os dados mostram que cerca de 70% das pessoas com HIV têm a cepa R5 e que 90% das novas infecções são R5, o Pro 140 ganhou a atenção dos cientistas e reguladores. Até hoje, os mesmos benefícios que este novo remédio oferece só foi conseguido com doses diárias de fármacos antirretrovirais. Mas uma série de estudos clínicos do Pro 140 feito pela CytoDyn espera trazer um tratamento emocionalmente e fisicamente menos oneroso.

Tomada diariamente, a terapia antirretroviral suprime o HIV. Porém, manter um regime de medicação diária pode ser difícil para alguns, especialmente aqueles que enfrentam barreiras sociais e estruturais, como o estigma do HIV, habitação instável, insegurança alimentar e problemas de saúde mental. Para algumas pessoas, os antirretrovirais são caros. Ou podem não ser capazes de tolerar os efeitos colaterais, que incluem náuseas, fadiga e problemas nervosos de curto prazo, além de resistência à insulina e outros problemas de longo do tempo.

Somente cerca de um terço dos pacientes americanos que tomam antirretrovirais consistentemente tem carga viral indetectável [No Brasil, 88% dos soropositivos que estão em tratamento têm carga viral indetectável.] “Vamos precisar de outras abordagens”, disse o Dr. Nelson Michael, diretor do U.S. Military HIV Research Program no Walter Reed Army Institute.

Oito meses depois do estudo, Charlie Sheen disse que não sentiu nenhum efeito colateral. “Você poderia imaginar que eu tenho esta doença e que estou fazendo um estudo e, por isso, estaria cheio de sequelas e tudo mais. Mas de modo algum! Eu não senti nada! Nada! A única coisa que notei foi que, no dia da injeção, senti um pouco de fadiga. Só um pouco. Mas o que isso importa? Eu mal podia notar isso e agora estou ótimo. É muito mais do que incrível.”

Mensagem de texto entre Charlie Sheen e o diretor do estudo clínico, Dr. Nader Pourhassan, dizendo a ele que sua carga viral estava completamente suprimida graças a injeção experimental Pro 140.

Na terça-feira, 29 de novembro, Sheen recebeu uma mensagem de texto do Dr. Nader Pourhassan, CEO da empresa farmacêutica CytoDyn, de Washington, a qual esta por trás do novo medicamento, dizendo que ele tinha acabado de receber os dois resultados de sua carga viral. Ambos estavam indetectáveis — isto é: supressão total.

Uma vez que este é um estudo de fase III, Sheen faz parte do último lote de voluntários humanos a experimentar o Pro 140 antes que de sua liberação. Faltam apenas alguns meses até que os resultados sejam estudados pela FDA, a qual vai avaliar se o medicamento pode ser distribuído comercialmente. A CytoDyn acredita que isto vai acontecer entre meados de 2017 ou início de 2018.

 

Indetectável = Intransmissível

Em novembro de 2015, Sheen falou que uma pessoa com uma “carga viral indetectável” tem “risco insignificante” de transmitir o vírus, na mesma época em que ele revelou seu diagnóstico. Uma pessoa com HIV torna-se “indetectável” quando a terapia antirretroviral suprime o vírus a um nível tão baixo no sangue que este não pode mais ser detectado.

Apesar da crescente onda de estudos científicos apoiando esta visão, Sheen foi criticado. No entanto, em agosto, uma coalizão internacional de médicos e autoridade de políticas de saúde assinaram a primeira declaração de consenso que reconhece que os estudos mostram que os medicamentos antirretrovirais tornam o risco de transmissão “insignificante” — tão baixo que não vale a pena ser considerado. Foi a primeira vez que um funcionário de saúde pública dos Estados Unidos apoiou publicamente esta ideia — neste caso, o Comissário Assistente da Saúde de Nova York.

Uma série de pesquisas, publicadas no Dia Mundial de Luta Contra a Aids, mostram que ainda há mal-entendidos a respeito do HIV, aids, as diferenças entre os dois e o que significa ser soropositivo em 2016. Uma pesquisa da YouGov descobriu que 20% das pessoas ainda acredita que o HIV pode ser transmitido através de beijo — algo que há décadas foi provado ser impossível. Quase um terço das pessoas, numa pesquisa de 2.000 pessoas, acredita que compartilhar uma escova de dentes pode transmitir o HIV, o que também é impossível, uma vez que o HIV — um patógeno incrivelmente fraco — não consegue sobreviver fora do corpo. Além disso, 61% das pessoas não sabiam que o vírus pode ser suprimido a um nível tão baixo que a transmissão é praticamente impossível.

O risco real de transmissão está entre as pessoas não testadas que podem espalhar o vírus sem saber que são portadoras dele. Pessoas que foram testadas, diagnosticadas com HIV, que receberam tratamento e alcançaram a supressão viral não podem transmitir o vírus. A supressão viral também pode proteger as pessoas com HIV de passar o vírus para seus filhos — o que foi novidade para 29% dos entrevistados pelo YouGov.

De acordo com o Dr. Carl Dieffenbach, Diretor da Divisão de Aids dos National Institutes of Health, este mal-entendido sobre a supressão viral é o maior obstáculo à conscientização pública em torno do HIV/aids atualmente. “Se você for virologicamente suprimido você não vai transmitir o HIV para o seu parceiro”, disse ele. “Vou dizer isso novamente: se a pessoa com HIV estiver virologicamente suprimida — o que significa que não há vírus em seu organismo — e estiver assim há vários meses, sua chance de transmitir o HIV é zero. Vamos ser claros sobre isso: ZERO.”

“Se, no dia seguinte, essa pessoa parar a terapia por duas semanas e tiver rebotes, sua chance sobe. É por isso que falamos sobre a supressão viral durável. Você é tão virologicamente suprimido quanto a sua adesão. Essa é a mensagem.”

 

Avanços de 2016 e o futuro

Décadas depois dos anos 80, o foco agora está em aumentar a conscientização sobre a supressão viral e apoiar a pesquisa do HIV. “Os avanços da medicina e da ciência estão mudando vidas de maneiras que nunca imaginamos ser possível”, disse Bruce Richman, diretor-executivo da Prevention Access Campaign.

Dr. Anthony Fauci elogiou pessoalmente um estudo feito em macacos de medicamentos contra o HIV — são raros os endossos pessoais para o que ele acredita estar mais próximo da “cura funcional”.

“Há vinte anos, aprendemos que um tratamento eficaz contra o HIV salvaria vidas. Agora sabemos que também previne a transmissão do HIV para outras pessoas. As pessoas que vivem com HIV podem agora ter confiança de que, se tiverem carga viral indetectável e tomarem os seus medicamentos regularmente, viverão vidas mais saudáveis e não transmitirão o HIV a outras pessoas. Isso tira um fardo tremendo das pessoas com HIV e de seus parceiros. Se nos concentrarmos nos fatos em vez do medo, temos oportunidades sem precedentes de acabar com o estigma do HIV e de acabar com a epidemia.”

De fato, em um poderoso editorial para a revista Time, o Dr. Oxiris Barbot, Primeiro Vice-Comissário de Saúde de Nova York, declarou que é possível acabar com a aids durante o nosso tempo de vida. Este ano, pela primeira vez desde o começo da epidemia, nenhum bebê nasceu com HIV em Nova York. “Com estratégias coordenadas para manter os pais sem HIV ou viralmente suprimidos, podemos acabar com a transmissão do HIV de mãe para filho não só na cidade de Nova York, mas em todo o país”, escreveu o Dr. Barbot.

O Dr. Demetre Daskalakis, comissário assistente da agência de HIV/aids da cidade, disse que o objetivo é combater a aids até 2020 — e ele acredita que essa é uma estimativa realista. “As lições que nos levaram ao fim desta importante parte da epidemia são as lições que nos levarão ao nosso objetivo de extinguir a aids até 2020”, disse ele. “A tecnologia biomédica e o envolvimento da comunidade se fundem em uma única estratégia para combater esta epidemia, com amor e respeito pelas comunidades mais afetadas por esta infecção. Juntos, vamos acabar com a divisão do HIV causada pelo estigma e veremos um progresso ainda mais rápido em nosso objetivo de uma geração livre da aids.”

Refletindo sobre o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, Charlie Sheen disse que o progresso é agridoce. “Quando você pensa nas incontáveis almas que pereceram, dizimadas na confusão dos anos oitenta… Eu sinto que estou aqui para aqueles indivíduos também. É agridoce. Mas eu sou muito grato por fazer do futuro e poder apoiar a pesquisa com este estudo clínico.”

Por Mia De Graaf em 1º de dezembro de 2016 para o DailyMail


idibell

Mais de 2 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) em 2015, sendo a transmissão sexual o principal canal de infecção. Pesquisadores do Grupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do Instituto de Pesquisa Biomédica de Bellvitge (IDIBELL), liderados pelo Dr. Daniel Podzamczer, avaliaram a velocidade com que um novo medicamento antirretroviral, o Dolutegravir, é capaz de reduzir a carga viral no sêmen, uma área do corpo considerada um reservatório do vírus e os medicamentos têm mais dificuldade em chegar. Os resultados, publicados no Journal of Infectious Diseases, mostram o potencial desses novos tratamentos em reduzir as chances de transmissão sexual do vírus.

“No caso de casais sorodiscordantes, enquanto a carga viral do parceiro diminui, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome profilaxia, além dos preservativos”

Os tratamentos antirretrovirais atuais são capazes de diminuir a carga viral do sangue e torná-la indetectável dentro de seis a nove meses do início do tratamento na maioria dos pacientes, embora se estime que cerca de 5 a 25% dos pacientes mantenham níveis detectáveis de vírus no sêmen após este período, devido a vários fatores que nem sempre são conhecidos. “Portanto, no caso de casais sorodiscordantes ,nos quais apenas um dos parceiros é portador do vírus, enquanto a carga viral do parceiro diminui tanto no sangue quanto nos reservatórios, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome medicamentos antirretrovirais como profilaxia, além dos preservativos”, diz o Dr. Podzamczer.

No entanto, existem novos fármacos, conhecidos como inibidores da integrase, que podem agir muito mais rapidamente. “Neste estudo, nos concentramos em avaliar a taxa de queda da carga viral em pacientes que receberam esses novos tratamentos, em especial o Dolutegravir”, explica o Dr. Arkaitz Imaz, primeiro autor do estudo. “Medimos a carga viral no sangue e no sêmen antes de iniciar o tratamento, aos 3 dias, aos 7, aos 14, no primeiro mês, no terceiro mês e no sexto mês. Sabemos que a carga viral cai rapidamente durante os primeiros dias e semanas. Adaptando um modelo matemático-estatístico complexo aos nossos dados e às características dos nossos pacientes, foi possível obter um modelo cinético específico da carga viral para cada fluído, sangue e sêmen, sob este regime de tratamento.”

dolutegravir

Os pesquisadores observaram que, embora a taxa de queda na carga viral seja significativamente maior no sangue do que no sêmen durante os primeiros dias, ela é é igual durante a segunda fase de queda. No entanto, apesar da diferença de velocidade, a carga viral se torna indetectável mais rapidamente no sêmen do que no sangue porque os valores de base são muito mais elevados no sangue, ou seja, há muitos mais vírus a eliminar. “Esses resultados sugerem a possibilidade de reduzir o tempo de profilaxia ao usar esses novos tratamentos”, observam os pesquisadores.

“A concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”

Por outro lado, o padrão de queda é muito mais homogêneo no sangue do que no sêmen. A heterogeneidade no sêmen demonstra a natureza diferencial e mais imprevisível deste fluído como reservatório do vírus. Nesse sentido, é interessante notar que não existe uma correlação clara entre a concentração de medicamento no sêmen e a diminuição da carga viral: “a concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”, explica o Dr. Podzamczer, “porque mesmo que apenas 7 a 8% do medicamento do sangue chegue ao sêmen, a proporção de medicamento ativo no sêmen é muito maior do que a observada no sangue. Isso era algo que não sabíamos até agora.”

“Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão”

Atualmente, inibidores de integrase são recomendados por todas as diretrizes clínicas como a primeira linha de tratamento. “Nosso estudo reforça essa decisão, especialmente à luz do cenário atual de transmissão do HIV. Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão, especialmente entre os grupos de alta prevalência do HIV”, argumenta o Dr. Imaz. No editorial que o Journal of Infectious Diseases dedica ao artigo, ressalta-se a necessidade de replicar este estudo com outros novos fármacos atualmente em desenvolvimento, tal como os antirretrovirais de longa duração, para avaliar o potencial destas novas terapias e sua atividade neste reservatório viral.

O trabalho foi realizado em colaboração com o Dr. Jordi Niubó, também membro doGrupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do IDIBELL, e com os grupos de pesquisa da Dra. Angela D. Kashuba, do Centro de Pesquisas sobre Aids da Carolina do Norte,  e o Dr. Javier Martínez-Picado, do IrsiCaixa Aids Research Institute.

Em 22 de novembro por IDIBELL

Fonte:  Imaz A, Martinez-Picado J, Niubó J, Kashuba AD, Ferrer E, Ouchi D, Sykes C, Rozas N, Acerete L, Curto J, Vila A, Podzamczer D. HIV-1-RNA Decay and Dolutegravir Concentrations in Semen of Patients Starting a First Antiretroviral Regimen. J Infect Dis. 201


Por Shaun Barcavage

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Com todas as notícias e pesquisas relacionadas à PrEP nos dias de hoje, não é difícil que homens homossexuais esqueçam a camisinha para prevenir o HIV. Por isso, estou aqui para lembrar: não vamos deixar de usar os preservativos! Eles ainda têm um papel a desempenhar na protecção da saúde sexual de homens gays — uma vez que eles são capazes de proteger contra várias DSTs, além do HIV.

Em testes de laboratório, preservativos usados perfeitamente de acordo com as instruções apresentam 99,5% de eficácia contra o HIV, com apenas as falha mecânicas (isto é, estourar a camisinha) resultando em infecções. Porém, uma vez que nós somos humanos e tendemos a não praticar relações sexuais em estilo laboratório, o quão bem eles realmente funcionam, no mundo real, para prevenir o HIV em homens homossexuais? Essa é uma pergunta que eu ouço de vez em quando em meu consultório e posso dizer que a eficácia é diferente para homens homossexuais do que para as pessoas que fazem sexo pênis-vaginal. Aqui está o que as pesquisas nos dizem.

Em primeiro lugar, uma nota rápida a respeito da origem dos dados apresentados neste artigo. Em 2015, o Dr. Dawn Smith e seus colegas nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças publicaram um artigo no JAIDS analisando os dados da eficácia dos preservativos para homens que fazem sexo com homens. Em sua amostra, eles incluíram dados de dois grandes estudos: VAX 004 (4.492 homens) e EXPLORE (3.233 homens). Estes estudos foram conduzidos no final dos anos 90 e início dos anos 2000 (ou seja: antes da PrEP). Ambos os estudos incluíram homens soronegativos que relataram ter relações sexuais com um parceiro soropositivo.

É importante notar que esta pesquisa tem suas limitações — por exemplo: os dados recolhidos frequentemente usaram de relatos dos próprios participantes a respeito da frequência e consistência do uso adequado dos preservativos.

Camisinha

Eficácia dos preservativos para homens que dizem “sempre” usar preservativos

A eficácia estimada de uso de preservativos para homens gays com parceiros soropositivos é de 70% — apenas para aqueles que reportam “sempre” usar preservativos. Esta é uma proteção contra o HIV muito boa (embora não seja perfeita) e certamente é uma proteção menos robusta do que a oferecida pela PrEP, quando tomada diariamente. Esta estimativa é ligeiramente menor do que a eficácia relatada para heterossexuais que sempre usam preservativos (80%).

 

Eficácia dos preservativos para homens que dizem “às vezes” usar preservativos

Aqui é que está a má notícia. Entre os milhares de homens dos dois estudos, apenas 16,4% relataram “sempre” fazer uso do preservativo com todos seus parceiros sexuais ao longo de um ano, ou mais, pelo tempo que durou o estudo. E isso é muito comum. Muitas vezes, as pessoas decidem usar ou não usar a camisinha com base em uma variedade de influências externas. Por exemplo: algumas pessoas decidem parar de usar preservativos com parceiros de longo prazo. Ou há momentos em que as pessoas simplesmente esquecem, não têm acesso aos preservativos ou não pensam sobre isso, se estão bêbadas ou drogadas.

Neste estudo, o uso inconsistente do preservativo (usar “às vezes”) com parceiros soropositivos ofereceu “proteção mínima ou nula” contra o HIV. As pessoas que participaram do estudo que relataram fazer sexo anal receptivo e insertivo “às vezes” usando preservativos tiveram uma taxa de eficácia estimada em 8%. Isso é muito baixo.

 

Mas e se eu sou apenas ativo ou apenas passivo?

Os pesquisadores consideraram isso em suas análises, uma vez que o risco de transmissão do HIV costuma ser maior para quem é passivo do que para quem é ativo. (Em outras palavras: se você é soronegativo, você está mais propenso a contrair o HIV se deixar um homem soropositivo gozar dentro de você do que se você gozar dentro de um homem soropositivo.)

Eficácia do preservativo se você for ativo:

  • Usando preservativo sempre: 72% de eficácia.
  • Usando preservativo às vezes: 8% de eficácia.

Eficácia do preservativo se você for passivo:

  • Usando preservativo sempre: 63% de eficácia.
  • Usando preservativo às vezes: não é maior do que nunca usar camisinha.

No fim das contas, a diferença na eficácia do preservativo para ativo e passivo (72% em comparação a 63%) não é estatisticamente significativa.

 

Risco de transmissão do HIV com uso do preservativo

Além de observar a “eficácia”, você também pode olhar para os dados sobre o risco de transmissão do HIV. Em outras palavras: sem levar em conta o relato do tipo de uso do preservativo e/ou o tipo de sexo, quão bem funcionam os preservativos?

Aqui estão as taxas de incidência do HIV (por 100 pessoas-ano). Você pode ver que “sempre” usar a camisinha vem com o menor risco de infecção pelo HIV para todos os tipos de sexo.

Risco para passivos:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 16,2 11,9
Às vezes usa camisinha 12,5 12,5
Sempre usa camisinha 2,3 4,4

Risco para ativos:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 7,1 6,0
Às vezes usa camisinha 7,7 6,5
Sempre usa camisinha 1,6 2,7

Risco para quem é ativo e passivo:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 9,6 6,7
Às vezes usa camisinha 7,4 7,3
Sempre usa camisinha 1,4 2.7

 

Conclusão

Embora a porcentagem média de protecção seja de 70%, os preservativos continuam a oferecer grande proteção contra o HIV. Se você usá-los — corretamente e estrategicamente — a porcentagem de protecção pode ser ainda maior. Para se ter uma ideia, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças afirma que a eficácia da vacina contra a gripe desta temporada é de 59%. Embora esta não seja a proteção perfeita, a vacinação para a proteção da saúde, especialmente para os grupos de risco, ainda é fortemente incentivada. Portanto, não devemos desistir dos preservativos tão facilmente. Eles têm nos servido muito bem há anos! E não é imprudente confiar em apenas uma fonte de proteção.

A camisinha é uma ferramenta fácil de encontrar, financeiramente acessível e que também oferecem o benefício adicional de reduzir o risco de outras DSTs. A PrEP nos oferece excelente proteção contra o HIV, mas, por sua vez, quando os preservativos são combinados com outros métodos de prevenção ao HIV — como a PrEP ou o tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) — eles funcionam ainda melhor.

 

Por Shaun Barcavage em 17 de outubro de 2016 para BETA
shaun-final-150x150Shaun Barcavage é enfermeiro especializado em saúde sexual dos homens homossexuais no Magnet, uma clínica de saúde sexual da San Francisco AIDS Foundation, em Strut. Leia mais artigos de Shaun no blog BETA.
Fonte: Smith D. K. and others. Condom effectiveness for HIV prevention by consistency of use among men who have sex with men in the United States. JAIDS, 2015.


Por Zachary Zane

The_Advocate_Magazine

“Isso não é mais uma sentença de morte” não foi o que me disseram durante a aula de educação sexual da sétima série. “É a pior doença sexualmente transmissível e você não vai quer contraí-la” — é o que me foi dito. Foi assim que começou o meu medo patológico de contrair o HIV. Mesmo antes de ter minha primeira relação sexual com um homem, eu já estava com medo do HIV.

Eu não acho que e exista outro médico na história da humanidade que teve de lidar com um obsessivo (e mal sexualmente ativo) jovem de 17 anos de idade. Quando pedi pelo meu quarto teste de HIV, o médico me disse que, uma vez que só tinha feito sexo vaginal sem proteção com uma única mulher, literalmente, as chances de eu ter HIV eram mínimas. Ele me disse que seria um caso diferente se eu tivesse feito sexo anal ou se estivesse tendo relações sexuais com homens.

Em seguida, aos 18 anos, comecei a ter relações sexuais com homens (depois de duas semanas na faculdade), mas só foi quase quatro anos mais tarde, na semana antes de me formar na faculdade, que eu tive a primeira relação sexual com penetração com um homem. Foi sem camisinha e eu estava bêbado. Só assim eu consegui transar com um homem. Isto foi em maio de 2013, antes mesmo de eu saber o que era PrEP.

Mais tarde, naquela mesma semana, eu tomei 20 miligramas de Zolpidem [fármaco hipnótico, do grupo das imidazopiridinas, não-benzodiazepínico, de rápida ação e curta meia-vida, utilizado para tratamento de insônia] e convidei o mesmo rapaz para vir até minha casa. Tivemos relações sexuais novamente. Mais uma vez, sem proteção. Durante o mês seguinte, eu me apavorei com medo de ser positivo. Então, finalmente fui fazer o teste. E o resultado veio negativo.

O pânico do HIV estava tomando conta da vida de Zachary Zane — até que ele tomou uma atitude.

“Eu não conseguia parar de pensar sobre HIV durante o sexo.”

Depois de me assumir como bissexual e abraçar totalmente este rótulo, comecei a usar preservativos. Mas a possibilidade de contrair HIV me parecia ainda mais real: quando abracei o rótulo bi, eu não conseguia mais parar de pensar sobre HIV durante o sexo e temia ser uma “ponte” de HIV para mulheres — uma ponte que é muito possivelmente um mito, ao qual fui condicionado a temer. Então, os preservativos pareciam ser a opção lógica.

Mas com os preservativos veio a disfunção erétil. Quase todas as vezes. Era frustrante, vergonhoso. Comecei a me odiar por ser incapaz de manter uma ereção. Isto levou a uma ciclo vicioso: eu não conseguia ter uma ereção com praticamente ninguém, pelo menos nas primeiras vezes que tentava ter relações sexuais.

Tentei de tudo para acabar com minha disfunção erétil. Terapia, respiração, exercícios de liberação de estresse, beta-bloqueadores para ajudar os nervos e até mesmo Viagra (100 miligramas, pois eu não estava de brincadeira). Nada funcionou. Isso me levou a assumir mais a posição de passivo, a qual, como todos sabemos, nos coloca em maior risco de contrair HIV. Foi aí que o meu medo de contrair o HIV atingiu seu pico.

Depois de uma consulta com meu terapeuta, solicitei ao meu médico que me prescrevesse PrEP. Porém, tornei-me obsessivo em tomar Truvada, sempre preocupado que tivesse perdido uma dose (mesmo que nunca tivesse perdido uma dose). Comprei aqueles recipientes plásticos de comprimido que os avós usam para se certificar de que tomaram seus remédios no dia correto. Eu os colocava lá dentro, para ter certeza de que não tinha perdido um único dia. Depois, comprei um recipiente de pílula portátil, que pode ser preso ao chaveiro, assim eu poderia carregar o Truvada comigo o tempo todo.

Os Centros de Controle de Doenças recomendam usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV.

“O CDC recomenda usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV.”

Exigia que homens soronegativos também em PrEP usassem preservativos. Eles ficavam confusos com a minha insistência, especialmente pelo fato de eu ser soronegativo e estar em PrEP, com adesão à minha medicação diária. Quando um homem não queria fazer sexo comigo porque eu queria que ele usasse camisinha, eu recusava. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomenda usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV. Sem transar, alguns parceiros ficavam decepcionados.

Eu também não transava com homens soropositivos mesmo se eles alegassem ser indetectáveis e usassem camisinha. Meu raciocínio: os preservativos poderiam romper, homens indetectáveis pode ter blips virais e o Truvada da PrEP garante apenas 90 a 99% de eficácia. Ah!, e o cara poderia estar mentindo. Apesar de saber que estava sendo neurótico, eu não conseguia parar, mesmo depois de ler toda a literatura acadêmica e aprender que é muito mais provável que eu fosse atingido por um raio durante o sexo do que adquirir o HIV de sexo com camisinha com um homem indetectável enquanto estou em PrEP.

Boston Night

Foi no Natal do ano passado, numa noite em que eu estava entediado, sem o ânimo de costume para pedir comida chinesa e assistir um filme, que fui para a casa de um cara que conheci no Grindr. Fiz minha pergunta habitual sobre condição sorológica e preservativos. Ele disse que era soronegativo e que poderíamos usar camisinha. Nós acabamos subindo para a cobertura de sua casa, que ficava na zona sul de Boston e, por um milagre, eu tive uma ereção. Mas eu não tinha levado os preservativos comigo e, uma vez que estávamos lá em cima quando tudo esquentou, decidi ceder e fazer sexo bareback, sem camisinha.

Fiz e foi incrível, até descobrir que na verdade ele era soropositivo. Eu estava sob PrEP, protegido. Mas, ainda assim, me apavorei. Falei com um especialista em doenças infecciosas do Massachusetts General Hospital. Fiz o teste de HIV exatamente 10 dias e 14 dias após a exposição. (Como diz a diretriz: espere 10 a 14 dias após a exposição).

“Embora eu soubesse que as chances de ter adquirido HIV fossem quase nulas, eu não conseguia afastar a ideia de que eu era soropositivo.”

Fiquei angustiado por duas semanas consecutivas. Não conseguia trabalhar. Não conseguia pensar. Estava furioso comigo mesmo. E, embora eu soubesse que, estatisticamente, as chances de ter adquirido HIV fossem quase nulas, eu não conseguia afastar a ideia de que eu era soropositivo. Embora eu soubesse que o HIV é administrável, que você pode viver uma vida saudável e normal com HIV, disse a mim mesmo que isso era o que os médicos diziam para os soropositivos só para fazê-los se sentirem melhor.

Claro, meus resultados deram negativo. O Truvada fez o que deveria fazer. Ou ele era indetectável. Ou talvez eu tive sorte.

nightclub

Oito meses se passaram e eu não tinha tido qualquer relação sexual desprotegida com um homem e nem com uma mulher. Também rejeitei homens soropositivos, mesmo se eles alegassem ser indetectáveis. Estava em Provincetown para o verão, onde há muitos homens e sexo por toda parte, quando recebi um diagnóstico de uma terrível candidíase oral. Meu médico, depois de pedir testes para HIV e outras DSTs (todos negativos), sugere que eu saia um pouco da PrEP para poder tratar a candidíase. (Após consulta com outros médicos, descobri que era improvável que o Truvada estivesse causando as minha aftas, mas, naquela altura, dei ouvidos ao meu médico).

O que aconteceu em seguida foi causado por algum karma. Os quatro homens seguintes que conheci em casas noturnas eram soropositivos. Uma vez que os conheci na vida real, não perguntei sobre suas condições sorológicas até estar com eles na cama. Todos foram honestos sobre isso, dizendo que eles eram soropositivos e indetectáveis.

“Por algum motivo, decidi: dane-se!”

Então, por algum motivo, que eu não sei exatamente qual, decidi: dane-se! Vou fazer sexo anal. Talvez eu estivesse cansado de ter a paranoia do HIV me consumindo. Talvez eu estivesse bêbado demais. Talvez eu estivesse pensando com a cabeça errada. Mas, por alguma razão, eu aceitei. Com o primeiro cara, usamos preservativos — e eu não consegui manter minha ereção. Na primeira vez, transamos por pouco tempo. Na segunda vez, consegui manter minha ereção por um pouco mais tempo. Na terceira e quarta, eu já não tinha problemas em manter a ereção durante todo o sexo com preservativo.

Os problemas de disfunção erétil que tive por anos pareciam estar indo embora para sempre. Também parecia ter superado meu medo de contrair HIV, curiosamente, através da terapia de exposição ao próprio vírus.

“Não podemos deixar que o medo do HIV arruine nossas vidas.”

O HIV não é mais uma sentença de morte. Isso é um fato. Devemos nos envolver em práticas de sexo seguro para diminuir nossas chances de propagação e contaminação pelo HIV — isso também é um fato. Mas não podemos deixar que o medo do HIV arruine nossas vidas. Meu medo patológico do HIV foi uma fonte insidiosa de estresse na minha vida e nos meus relacionamentos. Eu não saberia dizer quantas noites passei em claro, na cama, convencido de que eu tinha contraído HIV. Eu não poderia te dizer quantas vezes me arrependi de não ter feito sexo ou de quantas vezes perdi meu tesão por causa de pensamentos relacionados ao HIV. Eu não saberia dizer quantas vezes eu chorei porque estava irritado comigo mesmo por não conseguir ter uma ereção com um homem que realmente gostei.

O medo de contrair HIV em minha vida durou muito tempo e eu não quero mais sofrer com ele. Precisamos nos proteger, mas também precisamos viver nossas vidas, sem medo. Enfrentamos tanto estigma e perseguição por sermos homens gays e bi que não devemos acrescentar o HIV à esta lista. Vamos ser inteligentes, vamos controlar esse medo.

Por Zachary Zane em 22 de agosto de 2016 para Advocate


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Desde o início da epidemia de HIV/aids, há especulações a respeito da razão da doença ter se espalhado muito mais na África do que em outros países do mundo. Agora, cientistas do Centro Alemão de Pesquisas sobre Infecção, pela primeira vez, confirmaram uma razão para isso: em um estudo de coorte realizado na Tanzânia, descobriram que a infecção pelo nemátodo filarial Wuchereria bancrofti aumenta o risco de infecção pelo HIV em duas a três vezes. O estudo foi recentemente publicado no Lancet. “Os adolescentes e adultos jovens são particularmente mais afetados: eles apresentam um aumento de aproximadamente três vezes do risco de infecção pelo HIV quando já infectados pelo Wuchereria bancrofti”, explica o Dr. Inge Kroidl, do Departamento de Doenças Infecciosas e Medicina Tropical do Centro Médico da Universidade de Munique (LMU). Os pesquisadores conduziram este estudo de coorte ao longo de 5 anos, juntamente com cientistas do Hospital Universitário de Bonn, assim como com instituições parceiras africanas na Tanzânia.

Infecções com o verme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática. Para ver: a prole worms. Créditos: Achim Hoerauf/Uniklinik Bonn
Infecções peloo verme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática. Nesta foto: a prole dos vermes. Créditos: Achim Hoerauf/Uniklinik Bonn

 

Wuchereria bancrofti: um verme que causa graves consequências

Infecções com a lombriga filiforme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática, uma doença dos vasos linfáticos que, na pior das hipóteses, leva à elefantíase. Imagens de membros deformados parecidos com os elefantes não são incomuns nestas regiões endêmicas da África. As combinações de medicamentos usados para tratar essas infecções nas comunidades africanas só são eficazes contra microfilárias, uma prole vermes que entra na corrente sanguínea e de lá são transmitidos por mais vetores, mosquitos. Em contraste, os vermes adultos frequentemente residem no sistema linfático dos hospedeiros e podem sobreviver durante muitos anos. Infecções por lombriga filiforme nos participantes do estudo publicado no Lancet foram diagnosticados através de um teste de antígeno filarial.

 

Estudo confirma ligação entre a infecção filarial e o risco de infecção pelo HIV

Este estudo foi desenhado para identificar fatores de risco para a infecção pelo HIV na população comum do sudoeste da Tanzânia. Um subgrupo de 1.055 pessoas foi posteriormente testado para infecção por lombriga filiforme (filariose). Ao longo do período de estudo, foram descritos um total de 32 novas infecções pelo HIV. Pessoas com filariose, em comparação com aqueles que não têm filariose, apresentaram um risco aumentado 3,2 vezes maior de infecção pelo HIV, na faixa etária de 14 a 25 anos de idade, e um risco aumentado em 2,4 vezes, no grupo etário de 25 a 45 anos. Aqueles com mais de 45 anos mostraram um risco aumentado em 1,2 vez.

“Agora, depois desta teoria antiga ter sido confirmada, o trabalho é está apenas começando”, explica o Prof. Michael Hoelscher, diretor do Instituto Tropical em Munique e quem começou os estudos de coorte, em 2006. Outros estudos estão sendo planejados em conjunto com pesquisadores do Hospital Universitário de Bonn. “O que é importante agora é encontrar terapias que também eliminem rapidamente os vermes W. bancrofti adutos”, enfatiza o Prof. Achim Hoerauf, cuja carreira tem girado em torno de pesquisa sobre filariose e que se esforça para desenvolver novos medicamentos para tratar estes vermes.

“Os resultados deste estudo são interessantes, também do ponto de vista imunológico. Eles podem nos ajudar a compreender melhor os fatores que facilitam a infecção e, consequentemente, ajudar a encontrar abordagens preventivas e terapêuticas”, diz o professor Hans-Georg Kraeusslich, Director de Virologia na Universidade de Heidelberg e coordenador da área de pesquisa DZIF “HIV”.

 

Financiamento da pesquisa de longo prazo na África

O financiamento da Comissão Europeia tem tornado possíveis esses estudos. Há dez anos, juntamente com o Ministério da Saúde da Tanzânia, a Comissão Europeia iniciou reforços no potencial de pesquisa do sistema de saúde da Tanzânia. O Ministério Federal da Educação e Pesquisa (BMBF) também contribuiu para esta evolução, dedicando-se a reforçar ainda mais a pesquisa em saúde na África, em 2011. Entre outras coisas, cinco redes de pesquisa para inovação em saúde na África subsaariana têm um orçamento total de financiamento de cerca de € 50.000.000 a partir deste ano. TAKE-OFF, uma das cinco redes, é dedicada à pesquisa de filariose. Nesta rede, o Prof. Hoerauf e o Dr. Kroidl vão continuar a sua pesquisa na luta contra a filariose, com colaboradores em três países africanos. Klaus Rudischhauser, diretor-geral adjunto da Direção Geral para a Cooperação e Desenvolvimento Internacional compartilhou seu entusiasmo: “Este sucesso demonstrou claramente como o financiamento a longo prazo pode contribuir para o desenvolvimento de novas intervenções para doenças graves, como o HIV.”

Por German Center for Infection Research em em 3 de agosto de 2016 para EurekAlert!

Referência: Kroidl I, Saathof E, Maganga L, et al. Effect of Wuchereria bancrofti infection on HIV incidence in southwest Tanzania: a prospective cohort study. Lancet 2016; published online August 2, 2016. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31252-1