A Teoria Dissidente ou Negacionista questiona se o HIV é o vírus causador da aids, ou mesmo se ele realmente existe.

Alguns dos sites que reúnem argumentos que embasam essa teoria são: virusmyth.com, HIV/AIDS Skepticism, e House of Numbers, que inclui um documentário produzido em 2009. Um dos principais símbolos desse movimento é o cientista Peter Duesberg, que refuta “a hipótese de que a AIDS seja causada por um vírus. Propõe como hipótese de trabalho que a AIDS é causada por abuso de drogas e comportamentos auto-degradativos, que leva o sistema imunológico ao colapso.”

Lendo aquela notícia, publicada nos últimos dias, que fala sobre o baixo índice de vacinação no Brasil, o pior dos últimos 16 anos, me veio à cabeça o seguinte pensamento: será que no futuro, talvez distante, talvez próximo, quando existir uma vacina eficaz contra o HIV, existirão também aqueles vão preferir não tomá-la?

Nos vejo, aqui, torcendo para o desenvolvimento de uma vacina que ainda não existe, enquanto parece que há quem torça para acabar com as vacinas que já existem — não é curioso? São chamados “negacionistas das vacinas”, grupo para o qual a Organização Mundial da Saúde, a OMS, já chegou a organizar seminários para treinar a combater o seu discurso anti-vacinação. Eles são uma espécie de derivação dos negacionistas do HIV: enquanto uns negam a validade das vacinas, outros chegam a negar a existência do HIV ou do seu impacto sobre a saúde — mesmo décadas depois do surgimento da terapia antirretroviral e de seu incontestável sucesso em evitar milhares de mortes decorrentes da doença. Teorias da conspiração sustentam ambos os discursos negacionistas; e documentários já foram feitos dando argumentos, factíveis ou não, sobre todo este assunto.

Dr. Andrew Wakefield

No que diz respeito à negação das vacinas, fala-se do documentário Vaxxed (2017), que inspira sua narrativa num estudo liderado pelo Dr. Andrew Wakefield, publicado em 1998 no jornal científico britânico The Lancet. O estudo Wakefield, como ficou conhecido, afirma ter investigado o caso de doze crianças encaminhadas ao Royal Free Hospital and School of Medicine com enterocolite crônica e transtorno regressivo de desenvolvimento. Os autores relataram que os pais de oito das doze crianças associaram a perda das habilidades adquiridas de seus filhos, incluindo a linguagem, à vacinação com a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba.

Os autores do estudo concordaram com os pais, concluindo que haveria “possíveis gatilhos ambientais”, causadores da doença gastrointestinal e da regressão do desenvolvimento, e que este agente seria a vacina. Em resumo, a partir da observação destas doze crianças, os autores concluíram que a vacina é a causa do autismo.

“Revelado: escândalo da vacina tríplice viral”

Passaram-se alguns anos até que se descobrisse que o estudo Wakefield fora conduzido de maneira fraudulenta. Para começar, as crianças estudadas não haviam sido escolhidas randomicamente: ao contrário, elas  foram cuidadosamente selecionadas, para que estivessem dentro os requisitos que levariam ao resultado desejado. Além disso, o estudo foi financiado por advogados que atuavam em favor dos pais envolvidos em ações judiciais contra as fabricantes de vacinas. Era interessante para os advogados, financiadores do estudo, que o resultado do estudo favorecesse a ação judicial.

Enfim, um bom exemplo daquilo que é chamado de “viés de confirmação”, que nada mais é que a tendência de buscar e enxergar apenas os indícios daquilo que nós — ou o nosso grupo — acreditamos ou preferimos acreditar. O viés de confirmação vai na completa contramão do método científico. Em Ciência, para alcançar uma conclusão, é preciso controlar o experimento, de maneira a descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. Em outras palavras, é preciso verificar e confirmar que a causa do resultado obtido é mesmo aquela que observamos, que eventualmente já havíamos pressuposto, garantindo que este resultado não é decorrente de outro agente que não estaria sendo considerado. Um resultado obtido em um estudo controlado deve então ser testado novamente, por outros cientistas em outro local e momento — essa é uma maneira importante de verificar aquilo que foi concluído.

Robert De Niro no Tribeca Film Festival

Nada disso foi feito no estudo Wakefield. Por isso, em uma reavaliação publicada 12 anos depois, o The Lancet publicou uma retratação e reconheceu as diversas falhas no estudo. Andrew teve sua conduta sentenciada como “antiética” pelo General Medical Council e sua licença médica  foi revogada, por sua falha em revelar conflitos financeiros de interesses e violações de ética. E o documentário Vaxxed, dirigido pelo próprio Andrew, foi banido do Tribeca Film Festival em 2015. “Minha intenção ao exibir este filme seria dar oportunidade para conversar sobre um assunto que é profundamente pessoal para mim e minha família”, disse o ator e fundador do festival, Robert De Niro, que aproveitou o assunto para revelar que seu filho sofre de autismo. “Mas, depois de revê-lo nos últimos dias, com a equipe do Festival de Cinema de Tribeca e membros da comunidade científica, não acreditamos que isso contribua ou amplie a discussão que eu esperava.”

O Dr. William Schaffner, professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt, é possivelmente um dos motivadores da retirada de Vaxxed do catálogo do Tribeca Film Festival. “Toda a diretoria do festival e o Sr. De Niro aprenderam muito nos últimos dias. Tiro meu chapéu para eles por terem escutado e pensado sobre isso, discutindo e respondendo.” Mas Schaffner também disse que é alarmante o fato de um filme repleto de ideias totalmente refutadas chegar tão perto de uma exibição tão prestigiosa. Como é possível que uma conclusão mergulhada em viés de confirmação chame tanta atenção e até seja considerada como plausível?

Minha teoria, pessoal, é que isso é natural, em tempos em que o viés de confirmação faz parte do nosso dia a dia. O melhor exemplo está nas redes sociais, com as amizades que se encerram e grupos que se fecham a cada postagem de conteúdos que refletem opiniões divergentes. O resultado é um conjunto de pessoas que compartilha entre si informações que corroboram sempre com a opinião que já é uníssono entre aquele grupo. Os de esquerda sempre postarão conteúdos de esquerda, lidos e comentados por pessoas de esquerda. Os conservadores de direita, os “coxinhas”, a mesma coisa — provavelmente também falando mal dos pensamentos de esquerda. Os vegetarianos postarão sobre os benefícios da dieta sem carne e receberão likes de outros vegetarianos. Os místicos falarão sobre as últimas da física quântica. E assim por diante.

Para piorar, adicione ao viés de confirmação a epidemia de fake news, notícias falsas propagadas pelos algoritmos do Google e Facebook, sem qualquer discernimento de controle e verificação da sua veracidade. Nos dias de hoje, é fácil fabricar fatos e conclusões. Talvez, por isso, a descrença nas vacinas ainda continue. “Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta”, escrevia uma reportagem da National Geographic, de abril de 2015. “Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

O artigo também lembra que foi seguindo este raciocínio que, no filme Interestelar, a Nasa do futuro é mostrada como uma organização obrigada a trabalhar na clandestinidade: ninguém nem sabe que ela existe. O mundo passou a ser um lugar reinado pelas crenças leigas, incrédulas do conhecimento científico, incluindo total descrédito, por exemplo, pela viagem do homem à Lua. É oculta no subsolo que a Nasa modifica geneticamente as plantas para que resistam às pragas cada vez mais combativas, que aniquilam nossas últimas fontes de alimento, e constrói foguetes para nos levar, longe da morredoura Terra, para algum lugar habitável no espaço.

Mas não é fácil subir até as estrelas. Antes, é preciso vencer a gravidade, a força que gruda nossos pés no chão e que, como consequência, nos impede de perceber o mundo tal como ele é de verdade: uma esfera. Por milhares de anos, nosso planeta foi tido como plano, e não esférico. Contava-se histórias de que monstros marinhos habitavam nas beiradas do desconhecido e engoliam os desbravadores que ousassem chegar até lá. Aparentemente, foi só com a experiência do navegador português Fernão de Magalhães, que fez a primeira viagem de circum-navegação ao globo de que se tem notícia, entre 1519 e 1522, que a teoria de um mundo plano foi por água abaixo. O medo dos monstros que habitariam na linha do horizonte mostrou-se imaginário, e não real. (A primeira observação direta de que a Terra é redonda só viria muito depois, com o astronauta russo Yuri Gagarin, que em 12 de abril de 1961 foi o primeiro homem a ir para o espaço e dizer: “A Terra é azul”.)

Surpreendentemente, apesar de tantas observações documentadas ao longo da história, o negacionismo da terra esférica ainda é uma tendência real — e, talvez, uma das melhores soluções tenha sido dada por um usuário da plataforma Reddit: “Como terminamos o debate da Terra Plana de uma vez por todas? Vamos fazer um reality show, no qual os competidores que acreditam na Terra Plana sejam enviados em uma expedição para tentar descobrir a borda do mundo!” Afinal, não há nada de errado em experimentar e tirar suas próprias conclusões, certo?

Quem sabe, uma das melhores citações a esse respeito vem de um texto que circula pelas redes sociais, por acaso, uma fake news, falsamente atribuído a Buda: “Não acredite simplesmente porque você escutou. Não acredite simplesmente porque está escrito. Não acredite meramente nas autoridade, professores e anciãos. Não acredite nas tradições só porque elas foram transmitidas ao longo de muitas gerações. Mas acredite depois de observar e analisar. Quando encontrar algo com que concorda com razão e é favorável ao bem e ao benefício de todos, então, aceite-o e viva de acordo com isso.”

Mas quão longe podemos ir com essa desconfiança? Será que podemos testar e experimentar tudo e, então, tirar nossas próprias conclusões? “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o médico infectologista Dr. Esper Kallás. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

Isso quer dizer que assuntos como este não deveriam nunca ser questionados? “Todo mundo deveria questionar”, opina Marcia McNutt, editora da revista Science, em entrevista à National Geographic. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Afinal, existem questionamentos que são sabidamente irredutíveis. “A evolução aconteceu mesmo. O clima está mudando. As vacinas salvam vidas. Faz diferença ter razão — e a tribo dos cientistas tem um alentado histórico de ter, afinal, entendido o que estava ocorrendo.”

E é importante acrescentar e lembrar: os cientistas não são a imprensa. No caso da vacinação, por exemplo, alguns veículos de imprensa noticiaram mal que a queda na cobertura da vacinação traz o risco de doenças erradicadas voltarem a fazer vítimas. O fato é que doenças erradicadas por vacinação nunca antes voltaram a atacar. “Veja o exemplo de doenças preveníveis  com vacinação. Só há dois exemplos de sucesso na erradicação de doenças: varíola e pólio 2 e 3”, comentou comigo o Dr. Esper. A poliomielite que voltou a assolar o planeta não é nenhuma dessas: trata-se da pólio do tipo 1, que tem prevalecido em áreas de conflito, como Síria, Nigéria e Paquistão. O sarampo, por sua vez, está de volta no Brasil, é verdade, graças à falta de vacinação; entretanto esta era uma doença considerada quase erradicada, ainda não totalmente erradicada.

Ainda assim, o sucesso das vacinas na prevenção de doenças é incontestável. “O sarampo mata aproximadamente 40 mil crianças ao ano. Se não existisse a vacina, seriam de 6 a 13 milhões!”, lembrou o Dr. Esper. “Além disso há um importante componente social: não se vacina apenas para si, mas pelo coletivo. Exceto aqueles com contraindicações formais, todos devem ser vacinados. Ao não se vacinar, prejudica-se a imunidade de toda uma população.”

Por tudo isso, sou a favor das vacinas. E que venha também a vacina contra o HIV.

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O regime de Kim Jong-un na Coreia do Norte anunciou recentemente ter desenvolvido uma cura para o HIV, câncer, diabetes e uma série de outros males e doenças graves. É bom demais para ser verdade?

Kim Jong-un, o líder supremo norte-coreano, aplaude durante a segunda reunião do Exército do Povo Coreano, em foto sem data liberada pela Agência de Notícias da Coreia do Norte.
Kim Jong-un, o líder supremo norte-coreano, aplaude durante a segunda reunião do Exército do Povo Coreano, em foto sem data liberada pela Agência de Notícias da Coreia do Norte.

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Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, fez uma surpreendente descoberta médica — ou pelo menos é o que diz a mídia estatal do país. Em uma tacada só, Kim venceu o HIV, ebola, diabetes, alguns tipos de câncer e toda uma série de outras condições médicas, com um novo medicamento revolucionário.

A injeção, chamada de Kumdang-2, é feita a partir de ginseng, infuso com metais de terras raras — embora os elementos exatos utilizados não tenham sido divulgados. Nas palavras do Dr. Jon Sung Hun, citado pela Agência de Notícias Central Coreana, “Os pesquisadores inseriram elementos de terras raras em ginseng, aplicando fertilizantes micro-elementares de metais terras raras nos campos de ginseng.”

Kumdang-2

A nova droga tem um site bem abrangente, disponível em inglês e russo, no qual cita um estudo realizado em pacientes com aids na África. De acordo com o estudo, depois de ter sido administrada a dose máxima de Kumdang-2, 56% dos pacientes foram completamente curados da aids e os outros 44% foram “consideravelmente curados”.

O ginseng, claro, tem sido usado medicinalmente há séculos, principalmente na Ásia. No entanto, faltam provas em torno da sua eficácia para o tratamento da disfunção erétil ou diabetes, para as quais a sua utilização é frequentemente indicada. A probabilidade de que o ginseng seja capaz de tratar condições tão diversas como artrite e a epilepsia é praticamente zero.

Elementos de terras raras, por sua vez, podem ser extremamente prejudiciais. O grupo de dezessete elementos, que na verdade não são tão raros, tem causado preocupação nos últimos anos, especialmente na China, devido à sua tendência de se acumular no sangue, cérebro e ossos daqueles que os ingerem. Um estudo de 2005 publicado no Journal of Rare Earths descobriu que altos níveis de elementos de terras raras estavam associados a uma diminuição da função hepática.

Surpreendentemente, o Kumdang-2 não está limitado ao reino eremita; o site anuncia um distribuidor europeu em Moscou e outro na Austrália. Mas esteja avisado: não apenas é um tratamento quase certamente inútil, como também não é barato. As instruções de dosagem são incrivelmente obtusas e discorrem em mais de 2.500 palavras, mas conseguimos deduzir que, teoricamente, para prevenir o HIV seria preciso algo entre 40 a 56 injeções — ao custo de US$ 50 por injeção. As injeções são um pouco mais baratas se adquiridas em embalagens de 3 ou 5 unidades.

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Os editores do Health24 tentaram entrar em contato com os fornecedores, sem sucesso, o que sugere que seu mercado na Europa ainda não está particularmente bem estabelecido.

Aqueles que não estão familiarizados com a Coreia do Norte podem achar este tipo de declaração bastante surpreendente, mas afirmações bizarras são comuns no curso da dinastia governante do país. Por exemplo, é comumente aceito que os três últimos líderes do regime, Kim Jong-un, Kim Jong-il e Kim Il-sung, nunca defecaram ou urinaram, uma vez que desenvolveram uma fisiologia superior.

O presidente anterior do país, Kim Jong-il, em particular, era propenso a algumas proclamações bastante incríveis, muitas das quais foram “comunicadas” pela mesma agência de notícias que divulgou a notícia da cura do HIV/aids. Algumas das melhores são:

  1. Kim Jong-il poderia controlar o tempo com seu humor.
  2. Apesar de nunca ter jogado golfe, Kim Jong-il um dia pegou um taco e alcançou um recorde mundial de 38 under-par, incluindo 11 hole in one. Em seguida, ele imediatamente se aposentou do golfe.
  3. Seu nascimento causou um arco-íris duplo e uma nova estrela foi criada no céu.
  4. Ele escreveu 1.500 livros durante seus três anos na universidade, bem como seis óperas.
Por Harry Phillips para o Health24 em 11 de setembro de 2015

Brasil Post

Uma professora na faculdade uma vez falava sobre o impacto das legendas nas fotografias publicadas nos jornais e revistas. Era uma aula de Semiótica, a ciência que nos ajuda “a compreender que o significado das mensagens fotográficas é culturalmente determinado e sua recepção necessita de códigos de leitura”, explicava a professora. Nos slides que ela apresentava, diferentes fotos eram mostradas com e sem legenda e nós, os alunos, percebíamos a influência do texto em direcionar o olhar sobre a imagem — e vice-versa.

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Dentre todos os slides apresentados pela professora, três se destacavam: uma foto aérea, uma imagem obtida a partir de microscopia eletrônica e uma foto tirada por uma sonda espacial, em algum planeta distante. Chamou a atenção como todas essas careciam muito de alguma explicação para que fossem compreensíveis, uma legenda que indicasse do que é que se tratava. A primeira, uma vista aérea do Afeganistão, tirada por um avião militar norte-americano em busca de alvos do Taleban. A segunda, uma imagem de um vírus infectando seu hospedeiro. Por último, o planeta em questão era Marte. E, sem uma legenda, era totalmente impossível para qualquer leigo nestes assuntos compreender sobre o que eram e onde foram tiradas essas fotografias.

A você e eu, leitores comuns, leigos em tantos assuntos, nos resta acreditar na grande maioria das coisas que lemos — ou duvidar, que é a semente de um mundo sem fim de questionamentos, da imaginação que nos leva para longe, das pesquisas no Google que nos levam à páginas e páginas repletas de explicações que parecem tão fundamentadas, das teorias da conspiração que, por que não?, podem ser plenamente verdadeiras, retratadas num sem-número de filmes de ficção que, quem sabe, podem ser profundamente reais. Afinal, como já disse Peter Brook:

“Quando tudo é simulação, o teatro é real.”

Parece que é por causa dessa premissa que tem circulado pelas redes sociais, nos últimos dias, um post de um blog com mais de 20 mil seguidores, chamado Segundo Sol, e intitulado: “Bomba! ‘O HIV é um vírus inofensivo e não transmite a aids’, afirma ganhador do Nobel”. O texto gira em torno de uma entrevista de Peter Duesberg, professor de biologia molecular da Universidade da Califórnia, à revista SuperInteressante e quem, diferentemente do que sugere o título do post, nunca foi ganhador de um prêmio Nobel. Duesberg concebeu a ideia de que o HIV seria inofensivo em 1987 e concedeu essa entrevista no ano 2000.

Mas de onde vem a ideia de negar que o HIV causa da aids? “Tudo surgiu, até certo ponto, legitimamente, no início da identificação da aids, no fim dos anos 70 ao início dos anos 80”, conta o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. “Naquela época, o conhecimento era muito restrito e carente de técnicas laboratoriais capazes de avaliar o sistema imune. A virologia era uma ciência nascente.”

Dallas Buyers Club

O decorrer da história também não ajudou. As incertezas sobre a nova doença e a disputa pela descoberta do HIV, entre Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland, prejudicavam o controle da epidemia, um momento bem retratado no filme E a Vida Continua (1993).  Em 1987, a Federal Drug Administration (FDA) aprovou, às pressas, o primeiro antirretroviral para tratar o HIV: o AZT, ou Zidovudina, um medicamento inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas que acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade. Num estudo “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que saibam quem está tomando o quê, os benefícios observados em quem estava tomando o AZT já se mostravam tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento. O AZT foi logo liberado. Afinal, naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam morrendo, aos milhares, e o desespero era enorme: qualquer medicamento era bem-vindo — tal e qual mostra o filme Clube de Compras Dallas (2013).

Entretanto, o preço do AZT ainda era exorbitantemente alto e, sem um estudo mais rigoroso, acabou sendo prescrito em altas toses, as quais vieram a se provar tóxicas, causando severos efeitos colaterais e, muitas vezes, sem conseguir evitar a morte das pessoas diagnosticadas positivas para o HIV àquela altura. A teoria negacionista se nutriu disso, afirmando que quem causa a aids seriam os próprios remédios.

Nesse período, surgiram muitas terapias alternativas de tratamento e os negacionistas começaram a suspender seu tratamento convencional com antirretrovirais. A fim de convocar cada vez mais soropositivos a fazê-lo também, lançaram a revista Continuum, em 1992. Em 1999, a americana Christine Maggiore, publicou o livro “E se tudo o que você ouviu sobre a aids estiver errado?”, influenciada por um encontro que teve com Peter Duesberg, quando parou de tomar seus medicamentos e assim seguiu, mesmo durante a gestação e amamentação de sua bebê. Naquele mesmo ano, o então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, aderiu à teoria dissidente, convocou Peter Duesberg para um encontro e reduziu o acesso aos antirretrovirais em seu país.

Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.
Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.

A iniciativa de Mbeki vinha dois anos depois da morte do músico nigeriano Fela Kuti, portador do HIV e um dos negacionistas de maior liderança na África. A autópsia mostrou que Fela morreu de complicações relacionadas à aids. Em 2001, ainda durante o governo de Mbeki, a revista Continuum teve de ser encerrada, porque todos seus editores haviam morrido: Karri Stokely, em 28 de abril de 2011, por conta de uma pneumonia grave; Scott Zanetti, em 6 de outubro de 2002, aos 52 anos; Tony Tompsett, aos 39 anos, em decorrência de Sarcoma de Kaposi, toxoplasmose e pneumonia; Huw Christie, de Sarcoma de Kaposi, em agosto de 2011, aos 41 anos de idade; e Jody Wells, fundadora da Continuum, em 1995. Todas, sem exceção, eram mortes decorrentes de doenças típicas da aids.

Em 2005, faleceu a filha de Christine Maggiore, aos quatro anos de idade. Em 2008, foi a vez da própria Christine, ainda negacionista, que morreu em decorrência de uma pneumonia. Nesse mesmo ano, um estudo de Harvard concluiu que a falta de acesso ao tratamento antirretroviral durante o governo de Mbeki resultou em 300 mil mortes decorrentes de aids, que poderiam ter sido evitadas com acesso aos medicamentos.

“Este é um debate extremamente perigoso”, lembra o Dr. Esper Kallás. “Os negacionistas da relação entre o HIV e a aids não fazem ideia da inconsequência de seus atos. Hoje, os que negam a relação entre o HIV e a aids se nutrem de uma teoria de conspiração. Vários vídeos na internet estimularam as fantasias de muitos e se aproveitam da ignorância de outros.” Entre estes vídeos está o documentário House of Numbers, do jovem diretor Brent W. Leung, lançado em 2009.

“Por que você acredita que o HIV causa a aids?”, pergunta o diretor a pessoas comuns. “Porque essa é a informação que eu recebi”, responde um deles, seguindo exatamente o mesmo argumento daquela aula de Semiótica: quando somos leigos em um assunto, nos resta acreditar naquilo que assistimos e lemos, ou questionar, abrindo espaço para o mundo de especulações.

“Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

A reportagem de capa da edição do mês de abril da revista National Geographic trata sobre esse assunto: o descrédito da ciência. “Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.” A matéria lembra que, ainda hoje, uma legião de pessoas é contra a vacinação, tem dúvidas a respeito da fluoretação da água, do aquecimento global, da viagem do homem à Lua e, no que diz respeito ao HIV/aids, questionam sua real existência. “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o Dr. Esper Kallás. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

“Todo mundo deveria questionar. Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.”

Isso quer dizer que, quando o assunto é esse, não deveríamos nunca questionar nada? “Todo mundo deveria questionar”, afirma Marcia McNutt, editora da revista Science. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Em relação à teoria dissidente, no entanto, há poucos cientistas que defendem essas ideias: entre os entrevistados no filme House of Numbers, Robert Gallo, Joseph Sonnabend, Robin Weiss, Niel Constantine e Daniel R. Kuritzkes reclamaram publicamente da edição das entrevistas, acusando o diretor de manipulação e distorção dos fatos. Em 2013, a mesma revista brasileira que publicou a entrevista com Duesberg divulgou uma nota de esclarecimento, na qual afirma:

“Em 2000, publicamos uma entrevista com o biólogo e químico Peter Duesberg, que defendia a tese de que a aids não era causada pelo vírus HIV. A entrevista foi conduzida por Flavio Dieguez, um dos maiores jornalistas científicos que já trabalhou conosco, e está fundamentalmente correta. Mas, ao longo dos últimos 13 anos, as teses de Duesberg caíram em descrédito e hoje temos muita clareza de que não deveríamos ter dado espaço a elas. Em parte esse descrédito se deve à tragédia de saúde pública que se abateu sobre a África do Sul, país que adotou as ideias de Duesberg em suas políticas de combate à aids. O resultado foi que o vírus se disseminou. Gostaríamos então de afirmar que, aqui na Super, não temos mais dúvidas de que a aids é causada pelo HIV e de que todo cuidado para evitar a transmissão desse vírus é fundamental para a saúde pública. Percebemos que esta entrevista foi redescoberta e está circulando nas redes sociais. Que fique claro que não concordamos com as ideias expressas nela.”

Mas existe algo que você e eu, leigos, podemos fazer para verificar a real existência do HIV e sua relação com a aids. Sem o aparato científico, podemos começar pela observação, pura e simples: o sucesso da terapia antirretroviral. Diga para alguém que descobriu ter HIV em decorrência de aids avançada, por exemplo, magro e debilitado na cama de um hospital, diagnosticado já com neurotoxoplasmose, uma doença oportunista da aids, que o HIV não é o responsável por sua condição de saúde. Faça a pergunta poucos meses depois do início do tratamento com antirretrovirais, quando pessoas assim recuperam a saúde, ganham peso e voltam a se sentir bem. Se o HIV não causa a aids, como dizem os negacionistas, como é possível que o remédio que combate vírus seja capaz de melhorar quem está doente, evitar mortes, manter a expectativa de vida quase igual a de soronegativos e de prevenir novas infecções?

Entre o AZT e o coquetel com três antirretrovirais houve um salto enorme no tratamento e na qualidade de vida. Os negacionistas parecem presos aos anos 80, tendenciosamente lembrando do que lhes convém e esquecendo do que experimentavam os pacientes bem no começo da epidemia. “Quando comecei a trabalhar com pacientes com aids, em 1989, fiquei chocado com uma brutal e triste realidade”, conta o Dr. Esper. “Vi pacientes morrerem quase todos os dias. Presenciei o sofrimento de muitos inocentes, homens, mulheres e crianças. Vi pacientes que se despediam de amigos soropositivos em leitos de morte, estes sabendo que pouco depois chegaria sua hora também. Famílias se esfacelaram. Mas nada chegou perto do que aconteceu em alguns lugares da África, onde comunidades inteiras foram dizimadas.”

“É impressionante a claríssima demonstração do benefício dos remédios que combatem o vírus. Desde o surgimento do ‘coquetel’, em 1996, a queda no número de pessoas que desenvolvem aids e que morrem da doença caíram dramaticamente.”

Hoje, basta um único comprimido por dia para tratar o HIV/aids, e com poucas chances de efeitos colaterais. “É impressionante a claríssima demonstração do benefício dos remédios que combatem o vírus. Desde o surgimento do ‘coquetel’, em 1996, a queda no número de pessoas que desenvolvem aids e que morrem da doença caíram dramaticamente. Os dados impressionam. A queda na mortalidade, inclusive no Brasil, foi uma das grandes conquistas da medicina recente. O mecanismo de cada uma dessas drogas foi claramente estabelecido, sempre interferindo com a capacidade do vírus se multiplicar em células alvo. Além dos dados impressionantes da recuperação de pessoas que vivem com o HIV, o uso dessas medicações poupou inúmeras crianças, filhas de mulheres que vivem com o vírus, de se contaminarem no momento do parto. Outra vez, os números são impressionantes: foi reduzida a transmissão do HIV de 30% para menos de 1% de mãe para filho. Enfim, com o tratamento antirretroviral, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou.”

“Quais as consequências das posturas negacionistas?”, questiona o Dr. Esper. “Provavelmente os que negam não fazem qualquer ideia. Ao negar que o HIV cause a aids, estimulam o comportamento de risco. Fazem com que pessoas que vivem com o HIV abandonem o tratamento. Facilitam a transmissão de mães para seus bebês. Contribuem para o avanço da epidemia que ainda mata milhões. Os negacionistas precisam levar isso em consideração e saber até que ponto podem destilar o veneno de sua irresponsabilidade.”

Atitude Abril

Brasil Post

Quando fui diagnosticado soropositivo para o HIV, em outubro de 2010, percebi que passei a fazer parte de um novo grupo, das pessoas que vivem com o vírus e, também, de alguns médicos, enfermeiros e cientistas que estão próximos de nós. Uma vez parte desse grupo e sendo impossível dele me separar até que descubram a cura, me pareceu natural procurar entender meu novo meio, compreender essa nova realidade à minha volta. Percebi que ela é muito sustentada e amparada pela ciência. Precisamos dela. A minha vida e a vida de todas as pessoas que vivem com HIV depende dela.

Cada novo medicamento, cada descoberta, cada passo em direção à sonhada cura, é acompanhado por muitos de nós. Com isso, aprendi um pouco sobre as pesquisas e a metodologia científica. Percebi o quão defasado era o meu conhecimento sobre HIV/aids antes do diagnóstico e que hoje, quatro anos depois de receber o resultado positivo, as coisas continuam assim para a maioria das pessoas soronegativas, aquelas que não vivem com HIV. Muitos não têm ideia dos avanços da ciência nessa área. Longe disso, até duvidam dela. E, por isso, a reportagem de capa da National Geographic deste mês de abril de 2015 veio a calhar.

“Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

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O artigo também lembra que foi seguindo este raciocínio que, no filme Interestelar, a Nasa do futuro é mostrada como uma organização obrigada a trabalhar na clandestinidade: ninguém nem sabe que ela existe. O mundo passou a ser um lugar reinado pelas crenças leigas, incrédulas do conhecimento científico, incluindo total descrédito, por exemplo, pela viagem do homem à Lua. É oculta no subsolo que a Nasa modifica geneticamente as plantas para que resistam às pragas cada vez mais combativas, que aniquilam nossas últimas fontes de alimento, e constrói foguetes para nos levar para longe da morredoura Terra a algum lugar habitável no espaço.

Mas não é fácil subir até as estrelas. Antes, é preciso vencer a gravidade, a força que gruda nossos pés no chão e que, como consequência, nos impede de perceber o mundo tal como ele é de verdade: uma esfera. Por milhares de anos, nosso planeta foi tido como plano e quadrado. Contava-se histórias de que monstros marinhos habitavam nas beiradas do desconhecido e engoliam os desbravadores que ousassem chegar até lá. Aparentemente, foi só com a experiência do navegador português Fernão de Magalhães, que fez a primeira viagem de circum-navegação ao globo de que se tem notícia, entre 1519 e 1522, que a teoria de um mundo plano foi por água abaixo. O medo dos monstros que habitariam na linha do horizonte mostrou-se imaginário, e não real. (A primeira observação direta de que a Terra é redonda só viria muito depois, com o astronauta russo Yuri Gagarin, que em 12 de abril de 1961 foi o primeiro homem a ir para o espaço e dizer: “A Terra é azul”.)

Flat Earth

Superada a teoria da Terra plana, uma coisa ainda permanecia indiscutível: nosso planeta era certamente o centro do universo. O mundo gira ao nosso redor, e não o contrário. Como poderia ser diferente? A observação direta comprova isso: vemos o Sol e Lua em movimento no céu, e uma Terra parada. É o senso comum.

“No princípio do século 17, ao sustentar que a Terra gira em seu próprio eixo e também ao redor do Sol, Galileu não estava apenas rejeitando a doutrina oficial da Igreja. Estava pedindo às pessoas que acreditassem em algo que não se encaixava no senso comum — afinal, as aparências, sem dúvida, mostram o Sol girando em torno da Terra e, além disso, não dá para sentir o planeta rodopiando em seu eixo.”

Dito isso, você deve se lembrar do que aconteceu com Galileu: quase foi levado à fogueira. 359 anos depois, a mesma igreja que o condenou reconheceu estar errada. Hoje, podemos até achar absurdos os questionamentos dos nossos antepassados a respeito das descobertas científicas de suas épocas. Quem sabe, até dar risada de suas ideias antiquadas. Mas podemos ter certeza que, diante das descobertas atuais, não continuamos fazendo exatamente a mesma coisa que nossos antepassados faziam?

Moon

Ainda hoje, uma legião de pessoas é contra a vacinação, tem dúvidas a respeito da fluoretação da água, do aquecimento global, da viagem do homem à Lua e, alguns, chegam a questionar a real existência do HIV ou negam a sua relação como agente causador da aids — mesmo décadas depois do surgimento da terapia antirretroviral e de seu incontestável sucesso em evitar milhares de mortes decorrentes da doença. “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

Isso quer dizer que assuntos como este não deveriam nunca ser questionados? “Todo mundo deveria questionar”, disse Marcia McNutt, editora da revista Science, para a National Geographic. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Afinal, existem questionamentos que são sabidamente irredutíveis. “A evolução aconteceu mesmo. O clima está mudando. As vacinas salvam vidas. Faz diferença ter razão — e a tribo dos cientistas tem um alentado histórico de ter, afinal, entendido o que estava ocorrendo.”

“O método científico nos leva a verdades pouco evidentes por si mesmas e que, muitas vezes, são de difícil aceitação.”

Antes de Fernão de Magalhães, muitos dos navegadores que partiam em busca do desconhecido de fato nunca mais voltavam, reforçando, através da observação pura e simples, a teoria dos monstros que habitavam nos extremos dos oceanos — e desacreditando os gregos, que séculos antes já haviam observado meticulosamente as estrelas e concebido, a partir delas, a ideia de que a Terra era redonda. Isso mostra, conforme lembra a revista, que “o método científico nos leva a verdades pouco evidentes por si mesmas e que, muitas vezes, são de difícil aceitação.” Hoje, a única diferença é que essas verdades são mais complexas que no passado — menos evidentes que a Terra esférica, a qual navios e aviões agora circundam todos os dias. E assuntos complexos, como sabemos, são temas de especialistas.

A convite do Dr. Esper Kallás, estive na última semana no X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Assisti a algumas palestras. (Afora as apresentações mais técnicas, como aquela que falava sobre o processo de transcrição do HIV, por exemplo, as demais eram possíveis de ser compreendidas por alguém, como eu, que não usa o jaleco branco no dia a dia.) Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, falou sobre a segurança oferecida pelo tratamento como prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention). “Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que, se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante — e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV.”

“Se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser.”

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe para proteger o bebê”, explicou Fábio. Ele se referia à transmissão vertical, o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto ou para o bebê, no momento do parto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser prevenida graças a esses medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento corretamente durante a gravidez. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe”, explicou Fábio, antes de concluir: “É mais poderoso que a camisinha.”

Quem subiu ao palco logo em seguida foi o Dr. Drauzio Varella, que começou sua fala concordando com a eficácia do tratamento como prevenção. “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Mas quanto uma afirmação dessas é capaz de reverberar na mente e no coração dos leigos e mudar suas concepções a respeito dos soropositivos e do HIV/aids? Será que explicar que quem tem HIV, faz tratamento e tem carga viral indetectável é um parceiro sexual seguro, com base em extensas evidências científicas que temos hoje, tira todo o medo que nós, que vivemos com HIV, percebemos na face das pessoas para quem contamos ter HIV?

“O quanto você acredita que o indetectável realmente funciona?”

Há algumas semanas, uma leitora do meu blog, a quem vou chamar de J., foi diagnosticada soropositiva. Quando contou para seus pais, estes separaram alguns dos talheres da casa só para ela usar, sem misturá-los com os demais. Deram bronca, dizendo que contraíra o vírus porque afastara-se de Deus. Quando avisou ex-namorados, estes disseram que sentiam muito e lembraram que ela ainda poderia se satisfazer sexualmente, se masturbando ou se relacionando com outros soropositivos. J. então explicou a eles que bastava usar camisinha e que, em breve, uma vez iniciado o tratamento, ela provavelmente se tornaria indetectável e não apresentaria mais risco consistente de transmitir o HIV. Mas a resposta que escutou foi clara: “J., o quanto você acredita que o indetectável realmente funciona?”

É curioso como, apesar de todo o avanço da ciência e da precisão da metodologia científica, resultados de estudos — ou mesmo de uma série de estudos que comprovam o mesmo resultado –, terminam o dia no mesmo lugar que a crença e o dogma religioso: não adianta explicar, é preciso acreditar. “A ciência faz um apelo à nossa racionalidade, mas as nossas crenças são motivadas sobretudo pela emoção — e a motivação mais forte é ficarmos juntos e sermos aceitos por nossos pares”, explica a National Geographic. “Continuamos na escola secundária”, diz Marcia McNutt. “As pessoas sentem a necessidade de fazer parte e isso é algo tão forte que os valores e as opiniões mais imediatas se sobrepõem às conclusões científicas, sobretudo quando não há desvantagem evidente em ignorar os dados científicos.”

Mesmo quando se leva em conta dados científicos, existe o problema daquilo que é chamado de “viés de confirmação”, que nada mais é que a tendência de buscar e enxergar apenas os indícios daquilo que nós — ou o nosso grupo — acreditamos. Você sabe do que eu estou falando. O melhor exemplo do viés de confirmação está nas redes sociais, com as amizades que se encerram e grupos que se fecham a cada postagem de conteúdos que refletem opiniões divergentes. O resultado é um conjunto de pessoas que compartilha entre si informações que corroboram sempre com a opinião que já é uníssono entre aquele grupo. Os petistas sempre postarão conteúdos petistas, lidos e comentados por petistas. Com os tucanos, sim, os “coxinhas”, a mesma coisa — provavelmente também falando mal de petistas. Os vegetarianos postarão sobre os benefícios da dieta sem carne, e receberão likes de outros vegetarianos. Os místicos falarão sobre as últimas da física quântica. E assim por diante.

Vivemos na era do viés de confirmação, algo que vai na completa contramão do método científico. Se queremos avançar a discussão e o nosso entendimento a respeito do mundo, precisamos romper essa bolha. Mas como vamos fazer isso? Como fazer para que informações novas e desdobramentos científicos sejam reconhecidos ou, ao menos, ouvidos com a justa atenção que merecem? Como convencer os céticos de que existe uma outra perspectiva apontada pela ciência?

“Os céticos precisam ouvir os fatos da boca de pessoas que confiam, e que partilham dos mesmos valores fundamentais.”

“Insistir em apresentar-lhes mais fatos de pouco adianta. Segundo Luz Neeley, da organização Compass, que ajuda a treinar cientistas para que se comuniquem melhor, o que os céticos precisam é ouvir os fatos da boca de pessoas que confiam, e que partilham dos mesmos valores fundamentais.” Por isso, ainda que restrita a um encontro entre especialistas, são de extrema importância falas sobre o tratamento como prevenção, com as de Fábio Mesquita e do Dr. Drauzio Varella, ou mesmo sua subsequente palestra a respeito do que a ciência sabe hoje a respeito das relações biológicas do sexo — na qual ele explica, baseado em uma revisão da revista Nature, que a definição de gênero entre homem e mulher, apenas, é simplória demais para o que se sabe hoje a respeito do assunto: biologicamente, a sexualidade é muito mais diversa do que se imagina. Também é valiosa sua última coluna na Carta Capital, onde escreveu sobre a profilaxia pré exposição (PrEP), numa matéria intitulada: Um comprimido promete fundar a era pós-camisinha da prevenção ao HIV.

Mas ainda é preciso mais. Assuntos científicos carecem de ser melhor divulgados pelas pessoas e imprensa em geral. Descobrimentos tão revolucionários, como a eficácia do tratamento para o HIV em uma pílula única, o TasP, a PrEP e a profilaxia pós exposição (PEP), as quais são capazes, respectivamente, de prevenir o HIV ou evitar a instalação da infecção do vírus após um acidente de risco, ainda sofrem com uma inexplicável reticência dos meios de comunicação. Essas notícias não são divulgadas com a mesma facilidade e destaque, por exemplo, que matérias a respeito do “clube do carimbo”, o grupo restrito de soropositivos que afirma transmitir intencionalmente o HIV.

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É romântica, mas é verdadeira a fala do protagonista de Interestelar, Cooper: “Costumávamos olhar para o céu e imaginar qual seria o nosso lugar nas estrelas, agora só olhamos para baixo e nos preocupamos com o nosso lugar na terra.” Ainda preferimos falar dos monstros no horizonte, ao invés de falar do mundo como ele é. Do que já aprendemos sobre ele. É como se fosse proibido dizer que o HIV, hoje, é diferente do que foi no passado. É como se fosse perigoso dizer que hoje o vírus pode ser tratado com uma única pílula por dia — e, em breve no Brasil, prevenível também sob uma única pílula por dia. É como se tivéssemos receio de dizer que, hoje, há algo mais seguro que a camisinha — mesmo podendo, com isso, evitar e prevenir mais infecções pelo HIV. Será que ainda temos medo dos monstros no horizonte ou, depois de falar sobre as últimas descobertas, de sermos lançados à fogueira, assim como Galileu? Bom, eu penso que não. Se aprendi alguma coisa com a matéria da National Geographic, é que é hora de aprendermos a nos comunicar melhor. Pelo menos, é o que eu acredito. Tá bom, o grupo a que pertenço acredita nisso também.

Atitude Abril