Sou soropositivo, faço tratamento e estou indetectável. Então, sai do meu pé!

Por Dave. R. para o PositiveLite.com em 22 de agosto de 2014

Dave R. pergunta: “Você não faria sexo comigo porque eu tenho HIV? Eu ofereço menos risco do que você, meu amigo. Vá em frente, tente provar que estou errado!”

Estou oficialmente cansado de ser tratado como um pária (que no dicionário é definido como: “um termo de censura e abuso: uma pessoa inútil ou desprezível; um miserável, um vira-lata.”)!

De onde vem isso? Sou soropositivo, estou em tratamento e o vírus é indetectável no meu corpo. Ainda assim, sou visto como impuro, indigno de toque e pouco atraente. Por que isso? Porque é que o mundo, em geral, e, sim, os meus companheiros homossexuais, sempre empáticos, acham isso? Você sabe me explicar?

Apesar das últimas pesquisas e do fato de praticamente não haver casos conhecidos de uma pessoa como eu, com carga viral indetectável, infectar outra pessoa, por que eu não entro para o grupo de pessoas consideradas como parceiros sexuais seguros? Rejeições recentes, sutis e rudes, confirmaram o meu status como um pária social, mesmo dentro da minha própria comunidade.

Estou generalizando, é claro. Existem centenas de razões pelas quais as pessoas não me acham atraente, para não falar da minha idade cronológica. Tudo bem, não há problema quanto a isso. Está no olho de quem vê. No entanto, quando sou rejeitado por causa da sigla mais carregada de conotações e histórias antiquadas de todas, o HIV, isso me irrita.

Pessoas que vivem com HIV já passaram por 30 anos de infecção, sobrevivência, tratamento, melhora do tratamento, até tornarem-se saudáveis e indetectáveis, provando-se opções sexuais mais seguras do que alguém que não faz o teste. Ainda assim, somos vistos como “impuros”, que devem evitados e humilhados a todo custo.

Eu aceito que demore algum tempo para que a população em geral acompanhe as notícias e entenda que as pessoas indetectáveis ​​não transmitem o vírus. Mas me aborreço diante do fato de que ninguém está interessado em divulgar esta notícia. Também me irrito diante da covardia das organizações em prol dos soropositivos e dos meios de comunicação LGBT, que também são relutantes em publicar quaisquer descobertas que possam danificar a mensagem de sexo seguro, sempre qualificando qualquer declaração com ressalvas. Quem é que não está farto de ler “A pesquisa sugere …”?

Qual é o problema destas organizações? O problema delas está em recusar a aceitar que o Tratamento como Prevenção [TasP, do inglês Treatment as Prevention] vai derrubar a transmissão do HIV. Ao invés disso, gritam como se a liberdade pessoal estivesse sob ataque, sempre que se sugere que todo mundo deveria ser testado e, se necessário, tratado para o HIV. Não há lógica por trás disso e, ainda assim, as organizações LGBT em todo o mundo estão enterrando a cabeça na areia, se recusando a encarar os fatos.

Aquele idiota, [diretor da Aids Healthcare Foundation, Michael] Weinstein, que disse que o Truvada não é nada mais do que uma droga para festas capaz de nos levar às orgias em uma escala romana, tipifica este grupo de pessoas que, devemos concordar, estão desgostosas com a ideia de um pênis sem camisinha entrar num ânus. São tão arrogantes que não podem confiar que existem pessoas capazes de fazer escolhas sensatas e assumir a responsabilidade pela sua própria saúde. Ainda assim, este homem é chamado de líder dos soropositivos! Porém, não é disso o que precisamos mais. Temos os meios para reduzir o estigma do HIV, mas, mesmo assim, julgamentos morais ainda governam o dia.

Recentemente, tive a experiência pessoal de ser categorizado e rotulado a ponto de humilhação e desprezo. Depois de ter perdido uma relação de amizade, decidi me reerguer voltar ao mundo dos relacionamentos. No entanto, há muito tempo desisti da ideia de esconder o meu status sorológico e minha história — é tanto parte de quem sou, que é inútil tentar escondê-lo. Diferentemente de como fazia antes, em vez de ser passivo e esperar que as pessoas entrassem em contato comigo, decidi enviar mensagens exploratórias para aqueles com quem senti que poderia estar interessado. Não entrei em contato com jovens, ou mesmo com pessoas com menos de 40, pois me sinto atraído por pessoas maduras que já viram um pouco da vida. Minha ideia era falar abertamente da minha condição e não esconder os fatos.

Algumas reações foram francamente horripilantes. Demonstraram negação completa da minha existência e silêncio total a partir da minha revelação, ou até investidas contra minha moral, duvidando e sugerindo que eu tivesse praticado atos de depravação, me acusando de querer espalhar a minha “doença” entre os “inocentes”. Felizmente, nem todo mundo reagiu dessa forma. Houve aqueles que educadamente me disseram que não iriam nunca considerar ter relações sexuais com um cara positivo (o que não é bom para o ego, mas aceitável em nome da liberdade de escolha) e aqueles que francamente admitiram que estavam com medo de serem infectados. Ao meu ver, honestidade nunca é insulto.

Para muitas pessoas, é simplesmente impossível tentar apresentar os fatos. As campanhas de saúde pública dos anos 80 fizeram o seu trabalho muito bem, fazendo todos pensarem que estávamos morrendo — e, de fato, muitos morreram. Porém, agora já se passaram mais de 20 anos. Ainda assim, informar as pessoas sobre as últimas descobertas científicas não vem como crível: elas não estão lendo isso como prova científica e nos meios de comunicação adequados.

Informar as pessoas que soropositivos indetectáveis ​​e em tratamento são sexualmente mais seguros do que a maioria das pessoas seria uma boa notícia, digna de alarde por todos os meios. No entanto, há uma relutância tangível em dar às pessoas os fatos. Provavelmente, porque muito poucos escritores de manchete são capazes de resistir a frase que vem depois dela, como “… orgias sexuais ilimitadas inevitáveis!” Nós já estamos enfrentando o tsunami do uso do Truvada na prostituição, pois a prevenção também é vista como uma porta de entrada para a depravação.

O problema é que, para muita gente, a palavra “indetectável” significa muito pouco. A palavra não representa o que deveria: risco quase nulo de infecção. A palavra não está sendo usada lá fora e eu quero saber o porquê. Precisamos driblar os sites de organizações gays com um pensamento mais liberal e também precisamos — eu odeio dizer isso — que os meios de comunicação heterossexuais façam algum jornalismo sério, educando as pessoas.

Os detratores mais racionais dizem que é muito cedo e que as chances de erro, com todas suas possíveis consequências, são muito grandes. OK. Mas prove para mim que as pessoas indetectáveis ​​são, de algum modo, um perigo para os outros. E traga os fatos: quantas pessoas em tratamento, com um sistema imunológico forte e níveis indetectáveis ​​de HIV no sangue infectaram alguém? Você não pode dizer, porque não existe ninguém.

O argumento contra é o de que o HIV pode permanecer detectável em outros fluídos e órgãos do corpo e que ele é indetectável apenas nos métodos de ensaio atuais. Mesmo supondo que seja assim mesmo, os níveis “invisíveis” pelos exames atuais devem ser minúsculos, dado que a infecção cruzada simplesmente não está acontecendo. Caso contrário, haveria estatísticas de todo o mundo, com pessoas indetectáveis ainda infectando outras pessoas. Se você tem argumentos contra, eu imploro, refute o meu ponto de vista.

Só podemos concluir que, para além do sempre presente perigo de outras DSTs (sempre presente também para o resto da população, gostaria de lembrar), o meu estado presente significa que ninguém pode pegar HIV de mim, se eu fizer sexo seguro ou não. Não fosse verdade, os aumentos de infecção pelo HIV teriam sido inundados por milhões de novos casos, se espalhando como incêndios florestais em todo o mundo.

O ressurgimento do barebacking [sexo anal sem camisinha] (se é que já foi embora um dia) teria visto muitas infecções deste tipo. A cepa mais comum de HIV começou em um lugar e se espalhou em 10 anos por todo o mundo. Algo está impedindo que isso aconteça novamente e este algo é o tratamento antirretroviral eficaz. Sim, casos de novas infecções ainda estão acontecendo, mas eles são em sua maioria de pessoas que não sabem que estão infectadas porque ainda não fizeram o teste. Assim, agora que o pânico do HIV está mais brando, considerando o número de jovens (e idosos) que descartam os preservativos, por que é que não vemos o HIV fora de controle novamente? Porque o tratamento é danado de eficaz.

Pessoas com HIV e indetectáveis são parceiros sexuais seguros. Se você sabe de algo que eu não sei e tem evidência para sustentá-lo, prometo engolir minhas palavras. Enquanto isso, não há razão para não dizer ao mundo os fatos e definir as pessoas indetectáveis longe das algemas do estigma. O problema que temos é um problema de imagem. Nós já estamos contaminados; já estamos sujos demais para deixar esse conhecimento solto no mundo novamente.

Na busca por aceitação entre a sociedade cética, nossas próprias organizações se esqueceram de que o sexo é uma parte integrante da nossa identidade e preferem que não falemos sobre isso. Atrevo-me a dizer que a razão disso é para evitar que os patrocinadores não cortem seu apoio! Estão esperando que toda a primeira e segunda geração de soropositivos morra (de causas naturais) para, em seguida, com um novo tom rosado, as comunidades LGBT ilibadas tomarem o seu lugar na sociedade, imaculadas pela insinuação sexual do HIV.

Os homossexuais continuam a fazer sexo pela bunda — e sempre o farão — e a população hetero nunca vai se esquecer disso, não importa quantos buquês de noiva e casas com cercas brancas em volta apareçam por aí.


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Segundo estudo comparativo, HIV cresce entre gays em Londres por causa da falta de testagem

Por Gus Cairns, em 24 de julho de 2014 para o Aidsmap

Números sugerem que em São Francisco a testagem está aumentando a revelação da condição sorológica e a escolha dos parceiros com base na condição sorológica

Um estudo apresentado na 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), em Melbourne, comparou a epidemia de HIV entre homens gays em São Francisco, nos EUA, a Londres, no Reino Unido, e confirmou que, enquanto a incidência de novos casos de infecção pelo HIV em São Francisco está caindo, ela está estática e até mesmo subindo em Londres.

A razão principal parece disso ser o fato de que homens gays em Londres não só fazem testes de HIV com menos frequência do que em São Francisco, mas fazem menos testes do que dizem fazer. A diferença é gritante: na última pesquisa sobre saúde sexual masculina, em 2011, 58% dos homens gays pesquisados disseram ter feito teste de HIV no último ano, enquanto os números computados nos postos de saúde em Londres sugerem menos de 20% de todos os homens gays soronegativos da cidade (incluindo os que não frequentam postos de saúde) fazem testes todos anos. Essa taxa é 50% menor do que a taxa observada em São Francisco.

Evidentemente, a testagem sozinha não reduz o risco de transmissão de HIV. Mas as altas taxas de testagem em São Francisco parecem levar à taxas mais elevadas de revelação da condição sorológica entre homens gays e, como resultado, ainda mais altas taxas de escolha dos parceiros sexuais com base na real condição sorológica. A taxa de sexo desprotegido com parceiros de sorologia oposta ou desconhecida está em queda em São Francisco e estável em Londres.

Colin Brown, do Public Health England (PHE), afirma que, historicamente, a prevalência de HIV entre homens gays em São Francisco é alta, em 24%, mas decrescente. Por sua vez, em Londres ela aumentou de 10%, em 2009, para 13%, hoje. Por conta disso, ele sugere, tem havido uma cultura de revelação da condição sorológica em São Francisco. O desafio agora é sobre como encorajar mais revelação em Londres, uma cidade muito maior, mais diversa, com prevalência muito menor e onde há evidência de maior estigma anti-HIV.

Os números

Londres e São Francisco acabaram comparadas entre si porque as taxas de HIV em ambas são bem monitoradas. Em Londres, a taxa anual de novos diagnósticos de HIV entre (todos) os homens permaneceu estática, em 580 casos a cada 100.000 homens (um caso para cada 172, por ano), entre 2006 e 2013. O número de novos diagnósticos subiu de 1200 para 1400, mas em virtude de mais testagem.

Em São Francisco, a taxa de novos diagnósticos a cada 100.000 homens caiu de 690, em 2006, para próximo de 520 em 100. Números preliminares de 2013 sugerem uma queda acentuada para 435 casos a cada 100.000 (um caso a cada 230 homens, por ano). O número anual de novos diagnósticos em São Francisco, uma cidade menor do que Londres, caiu de 420 para 300.

A incidência real — a verdadeira taxa de novas infecções — é sempre mais difícil de ser estabelecida do que o diagnóstico, pois é confundida por mudanças nas taxas de diagnóstico. Assim, um indicador é a proporção das infecções diagnosticadas que são recentes (menos de 6 meses atrás). Em Londres, conforme estabelecido pelo estudo de incidência, a proporção de novas infecções diagnosticadas que são recentes se manteve entre 23-24% desde 2007, enquanto em São Francisco ela caiu de 18% para menos de 5% entre 2004 e 2011.

A proporção de homens gays vivendo com HIV que não fez diagnóstico e não sabe de sua condição sorológica caiu de 34% para 13% em Londres, entre 2004 e 2011. Em São Francisco, caiu de 22% para 4% no mesmo período. Estas quedas são, evidentemente, histórias de sucesso em ambas cidades e vêm acompanhadas da subida da média de contagem de CD4 no ato do diagnóstico, a qual subiu de aproximadamente 390 para 450 células/mm³ nas duas cidades. Todavia, as taxas de incidência permanecem teimosamente altas em Londres, enquanto decrescentes em São Francisco.

Por que? A diferença mais óbvia está na proporção de homens gays que sabem seu status para o HIV, em particular entre aqueles que fizeram o teste recentemente. De acordo com relatos feitos pela própria comunidade, a proporção de homens gays que fez o teste de HIV no ano passado subiu de 43% para 58% em Londres, entre 2004 e 2011, mas de 69% para 72% em São Francisco durante o mesmo período.

Mas a taxa de testagem real entre homens gays é surpreendentemente diferente. Em Londres, a grande maioria dos homens gays faz o teste de HIV em postos de saúde especializados em saúde sexual. Estima-se que a proporção de homens gays soronegativos que visitou estes postos para fazer o teste no ano anterior foi de apenas 17%, em 2011. Embora seja bem maior do que a estimativa de 12%, em 2009, é três vezes menor do que a proporção de homens que diz ter feito o teste no último ano.

Em São Francisco, estima-se que 29% dos homens soronegativos fizeram o teste em postos de saúde em 2011. No entanto, muitos outros fizeram o teste através de seus médicos ou de planos de saúde particulares. Portanto, essas taxas certamente são mais altas — provavelmente o dobro da taxa de Londres.

Escolha de parceiros com base da condição sorológica e DSTs

Isso não seria motivo de preocupação — em termos de transmissão — se todos usassem camisinha. Mas a razão que faz a testagem levar à taxas menores de incidência de HIV em São Francisco é, provavelmente, em virtude da escolha de parceiros sexuais com base na condição sorológica. Em Londres e São Francisco, quase a mesma proporção de homens gays relata praticar sexo anal sem camisinha — entre homens soropositivos, aproximadamente 60% em Londres e 55% em São Francisco; entre soronegativos, aproximadamente 55% em Londres e 45% em São Francisco. A proporção de homens soronegativos que nem sempre usa camisinha aumentou 15% nas duas cidades, desde 2004.

No entanto, a porcentagem de homens gays que faz sexo sem camisinha com um homem de sorologia desconhecida ou oposta — sexo sorodiscordante sem camisinha — permaneceu a mesma em Londres, em torno de 10% entre homens soronegativos e em torno de 26% entre homens soropositivos. Em contraste, a taxa em São Francisco, que era maior, decaiu de 20% para 12% entre homens soronegativos e de 37% para 20% entre homens soropositivos. Em outras palavras, em São Francisco os homens estão fazendo a mesma quantidade de sexo sem camsinha, porém, cada vez mais, restrito a parceiros da mesma condição sorológica para o HIV.

Dados objetivos reforçam essa prática no que diz respeito ao diagnóstico de outras DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). Em Londres, as taxas de gonorreia em homens gays são aproximadamente as mesmas entre homens soropositivos e soronegativos — em torno de 1,7 a 1,9 casos a cada 100 homens por ano. Em São Francisco, a taxa de gonorreia em soropositivos é aproximadamente a mesma da taxa em Londres — 1,6 a cada 100 — mas é muito menor entre homens soronegativos, em 0,45 a cada 100. Com sífilis, as taxas entre soronegativos são as mesmas em Londres e São Francisco — em torno de 0,3 a cada 100 por ano. Entre homens soropositivos em Londres, casos de sífilis são quase cinco vezes maiores — em torno de 1,3% ao ano. No entanto, em São Francisco a taxa de sífilis em homens soropositivos aumentou de 1,8% ao ano para 3% — dez vezes a taxa em soronegativos.

No seu conjunto, estes números sugerem que DSTs estão mais concentradas entre homens soropositivos em São Francisco porque o sexo sem camsinha entre soropositivos e soronegativos é mais raro. Mais homens gays em São Francisco escolhem seus parceiros com base na condição sorológica e se beneficiam de uma taxa de HIV em queda, enquanto as DSTs aumentam entre os soropositivos.

Há ainda outras diferenças entre Londres e São Francisco. Em Londres, 13,6% dos homens gays sexualmente ativos reportaram usar metanfetamina no último ano — um grande aumento nos últimos anos — enquanto em São Francisco 12% reportaram usar a droga, cujo uso tem decaído nos últimos anos. Em Londres, a taxa de reinfeção por hepatite C entre homens gays aumentou 25% em dois anos, enquanto em São Francisco se manteve estável.

A maior diferença entre as cidades está na taxa de exames de saúde para quem tem HIV. Aproximadamente 60% de toda a população soropositiva de cada cidade está tomando antirretrovirais e atingiu supressão viral. No entanto, em São Francisco, esta taxa só não é mais alta em virtude do abandono do tratamento entre os homens diagnosticados, enquanto, em Londres, é em virtude da proporção de pessoas não-diagnosticadas.

Campanhas de prevenção e os próximos passos

Recentes campanhas de saúde para homens gays em São Francisco se mantiveram concentradas não em desencorajar a escolha de parceiros com base na condição sorológica ou em encorajar homens gays que presumem ser soronegativos e se anunciar como tal, mas em encorajar aqueles que fizeram o teste de HIV e receberam resultado negativo a anunciar isto e discutir informações relevantes — tal como o tempo desde seu último teste, se fizeram sexo sem camisinha desde o último teste ou em que circunstâncias eles fariam sexo sem camisinha.

Enquanto a escolha de parceiros com base na condição sorológica pode funcionar, Colin Brown lembra que “o mito dessa escolha entre positivo/negativo precisa ser mudado”. Em outras palavras, é preciso mudar a ideia presunçosa de que aqueles que não revelam sua condição sorológica não tem HIV.

Brown disse também que há questões importantes para as autoridades de Londres. Como a cidade pode alcançar uma cultura de testagem e revelação do diagnóstico em larga escala, numa população de baixa prevalência? Qual foi a contribuição da imigração, oriunda de países de alta — ou baixa — prevalência para uma cidade na qual metade dos homens gays nasceu fora do Reino Unido? Qual a diferença entre a administração do tratamento, escolha de parceiros ou de tipo de ato sexual com base na carga viral e o aumento, formal ou informal, da profilaxia pré-exposição (PrEP)?

Entre os comentários do público, Lisa Power, ex-diretora do Terrence Higgins Trust, disse que São Francisco também se beneficiou de possuir uma autoridade de saúde centralizada, enquanto em Londres há “o mito de que o localismo é sempre bom”, o qual fez com que os serviços de saúde fossem fragmentados em 33 distritos. Outro comentarista, de Amsterdã, sugeriu que outras cidades europeias e americanas se beneficiariam de comparações com esta.

A mensagem, no entanto, parece ser bem simples: os homens homossexuais em Londres precisam fazer teste de HIV e divulgar sua sorologia com mais frequência — e não apenas dizer que fazem isso.

Referências

Brown CS et al. A divergent tale of two cities: why has HIV control in men who have sex with men (MSM) differed between London and San Francisco (SF) since 2006? 20th International AIDS Conference, Melbourne, abstract THAC0205LB, 2014.

Veja o resumo no site da conferência.



O resultado do estudo PARTNER é uma licença para transar sem camisinha?

Em 30 de junho de 2014 por Incidence.org

O resultado preliminar do estudo PARTNER foi uma das notícias mais comentadas na conferência CROI 2014, que aconteceu este ano em Boston. O estudo multicêntrico conduzido em 75 clínicas na Europa observou e continua observando o risco de transmissão do HIV entre casais em que há um parceiro soronegativo e outro soropositivo, o qual está em tratamento. Até agora, o estudo inscreveu mais de 1.000 casais que, com base em uma análise preliminar, praticaram 16.400 atos sexuais entre homossexuais e 28.000 entre heterossexuais. Nenhuma transmissão do HIV foi observada entre um soropositivo com carga viral inferior à 200 cópias/ml e seu parceiro soronegativo. (Leia o relatório do Aidsmap para mais detalhes e assista ao vídeo sobre o estudo).

Será que isso quer dizer que homens gays podem finalmente abandonar os preservativos com seus parceiros soropositivos em tratamento? Bom, isso não é tão simples. Precisamos entender que estes resultados do PARTNER são preliminares, mas também representam um novo passo em uma série de estudos, os quais têm demonstrado que o tratamento antirretroviral pode reduzir o risco de transmissão do HIV. A isto chamamos de “Tratamento como Prevenção” (TasP, do inglês Treatment as Prevention).

Antes do PARTNER, o estudo HPTN 052, conduzido entre casais heterossexuais na África subsaariana, já tinha mostrado uma redução de 96% no risco de transmissão. Outros estudos em KwaZulu Natal, na África do Sul, e em Malawi também mostraram risco reduzido de transmissão do HIV, mesmo em situações de recursos limitados. Antes disso, em 2008, o Swiss Statement já tinha indicado que, atendidas algumas condições, soropositivos poderiam ser considerados como não-infecciosos.

Como sempre, leva tempo para que os resultados científicos sejam difundidos da comunidade científica para o público. Quando isso acontece, pode ter certeza de que irá acionar todo o tipo de debate e discussão, muitas vezes com argumentos enraizados mais em crenças e preconceitos do que em fatos.

Um dos fatos principais do estudo PARTNER é que estar em tratamento não é o suficiente para prevenir a transmissão do HIV. A carga viral do soropositivo precisa ser inferior à 200 cópias/ml. A análise estatística excluiu pessoas com carga viral acima de 200 cópias/ml, assim como os casais em que os parceiros soronegativos tomaram PEP ou PrEP e também os casais que não frequentaram as consultas de acompanhamento. O estudo também mostrou que as infecções que ocorreram foram atribuídas às relações sexuais fora do relacionamento estável.

Considerados em conjunto, os resultados do estudo reforçam a afirmação que o Swiss Statement fez, cinco anos atrás. Então, o que podemos concluir? Enquanto a maior parte da comunidade gostou das notícias e seu potencial de afetar o curso da epidemia, outros adotaram um discurso mais crítico e prudente. Kristian Johns, representante da organização Gay Men Fighting Aids (GMFA), é um dos que acredita que estar em tratamento não é licença para transar sem camisinha:

“Rapazes, vamos controlar nossos pênis e parar de jogar as camisinhas na fogueira por um instante. O fato de nenhuma transmissão ter ocorrido não quer dizer que o risco de transmitir o HIV é zero. Só quer dizer que não ocorreram transmissões. Claro, é um resultado encorajador. Mas apenas tão encorajador quanto brincar de roleta russa com uma arma carregada e sair intacto depois de algumas tentativas. Ainda existe uma bala no revólver, meus amigos.”

Johns escreveu isso em sua coluna para a edição 141 da FS Magazine [traduzido abaixo]. Ele levantou uma questão válida: o fato de não ter sido observada nenhuma transmissão não quer dizer que não podem haver transmissões. Ele lembra que a carga viral precisa ser controlada e que algumas pessoas foram infectadas por pessoas fora do relacionamento estável, acrescentando que “até que tenhamos uma cura para o HIV, ou pelo menos uma vacina, não existe o ‘novo negativo’.”

Não existe. Mas existem soropositivos que estão muito próximos do “novo negativo” e alguns tipos de atos sexuais sem camisinha apresentam risco de transmissão tão próximo de zero quanto um ato com preservativo pode oferecer. Não são só os dados de estudos clínicos que provam isso, registros epidemiológicos também. O otimismo e a sua reação contrária (a qual é publicada em menor escala e, por isso, Kristian Johns deve ser reconhecido por representar a voz a esse respeito) indicam que os fatos precisam ser explicados para que homens gays possam tomar decisões substanciadas a respeito de abandonar ou não a camisinha. (…) A realidade é que, com um mínimo de educação e esforço, podemos tomar controle da nossa vida sexual e relaxar um pouco sobre a pregação a respeito da camisinha.

A mensagem do estudo PARTNER não é a de abandonar a camisinha, mas de mudar nossa compreensão e crenças sobre o risco de ser infectado pelo HIV. Enquanto a escolha de parceiros e práticas sexuais baseadas na condição sorológica falharam em mostrar sua eficácia, enquanto a PrEP não está disponível no Reino Unido e a PEP é subutilizada e enquanto o uso de camisinha está em declínio, o tratamento como prevenção tem se mostrado como um caminho de sucesso na redução da transmissão do HIV.

O estudo PARTNER deve nos fazer pensar nossa relação com a condição sorológica para o HIV. Deve nos fazer questionar nossas preferências sexuais por parceiros diagnosticados soropositivos ou soronegativos e nossa atitude discriminatória perante os soropositivos (até nos tornarmos um deles). PARTNER, HPTN 052 e outros estudos sobre tratamento como prevenção não deveriam nos fazer rebelar contra a possibilidade de uma geração livre do HIV, mas repensar nossas mensagens de prevenção e ir além das estratégias de prevenção do HIV. O estudo PARTNER não deve nos levar de volta a debates dualistas e ultrapassados sobre a prevenção do HIV.

A prevenção do HIV institucionalizada tende a ser monolítica. Por que se preocupar com ela se, conforme escreveu Kristian, “o sexo sem camisinha é gostoso e não há nenhuma campanha da saúde que convença aqueles que têm pênis do contrário?” A maioria das pessoas, gays ou não, permanecerá imune às mensagens de prevenção, incluindo aquelas sobre HIV, sempre que sentirem que não estão em risco. Veja o exemplo de Rachel Dilley, de 48 anos de idade, que se descobriu soropositiva e, antes disso, não pensava que poderia estar em risco porque acreditava o HIV só afetava os negros na África.

Para as organizações envolvidas na formulação de mensagens de prevenção, este é um sinal de que é preciso estar atualizado com a ciência e ser cauteloso em se envolver em debates unilaterais. É preciso construir um discurso baseado em evidências, engajado com pesquisas científicas desde seu início e trabalhar duro para traduzir as informações complexas em mensagens inteligíveis.

Não existe dúvida de que a transmissão do HIV pode ocorrer a partir de quem está em tratamento, com um carga viral indetectável perfeita, mesmo que não tenhamos observado isso. No entanto, dispensar essa observação de antemão não se justifica. Apenas mostra a inabilidade de seguir em frente, acompanhando os estudos clínicos. Priva os homens, particularmente aqueles que não usam preservativos, de uma opção de prevenção que poderia protegê-los de ser infectados, desde que compreendam as limitações do tratamento como prevenção. Estigmatiza gays soropositivos que não precisam ser mais lembrados de que eles ainda têm HIV, pois a(s) pílula(s) diária(s) já faz(em) isso para eles.

O tratamento como prevenção não é uma fórmula mágica. Até que haja uma vacina contra o HIV, não existe fórmula mágica. É roleta russa. No entanto, o tratamento como prevenção é a primeira intervenção de prevenção que pode fazer emperrar a arma.


Quando a Ciência encontra a prevenção, o prazer não fica para trás

Por Mathew Rodriguez para o

Com o auditório praticamente lotado durante a 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), um grupo de palestrantes liderados pelo escritor e ativista Sean Strub, abordaram as mudanças que estão no horizonte da prevenção do HIV — um horizonte que agora inclui camisinha, PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-expsoição), escolha de parceiros sexuais com base na condição sorológica [serosorting], escolha de práticas sexuais com base no risco [seropositioning] e provavelmente também microbicidas, entre outras intervenções.

Strub abriu a sessão apontando que a análise do risco inclui tanto o racional — dados científicos que mostram que a camisinha e outras opções de prevenção reduzem vertiginosamente o risco de transmissão do HIV — quanto o irracional, o qual inclui dois importantes componentes: desejo e prazer. Ele lembrou que os fatos que são considerados na análise de risco, a equação que precede o eventual encontro sexual, estão constantemente mudando em decorrência do avanço na sensibilidade oferecida pela camisinha, prevenções biomédicas, tratamento como prevenção (TasP), PrEP, PEP e microbicidas.

Udi Davidovich, pesquisador e professor na Universidade de Amsterdã, cujo trabalho é focado em determinantes sociais para comportamentos de risco diante do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, lembrou também que a ciência comportamental, embora envolvida com a epidemia de HIV desde seu início, fez pouco em incorporar questões a respeito do prazer nas pesquisas. De acordo com Davidovich, o fato da camisinha ser bastante utilizada por homens gays (estimado entre 60-70% de uso consistente) é um milagre, dado que seu uso antes da epidemia girava em torno de 20%.

Segundo Davidovich, agora a ciência comportamental deveria se dirigir aos 30-40% de homens gays que não fazem uso consistente da camisinha. Recebido com cumprimentos e palmas da plateia, Davidovich lembrou que a sociedade rotulou o sexo mais natural — sem camisinha — como “problemático” e que dedicamos milhares de dólares em pesquisas para entender porque as pessoas estão aderindo a este sexo mais natural disponível, sem camisinha. A ciência comportamental, ele disse, deveria se concentrar em ajudar as pessoas a fazer o sexo que lhe é mais natural. Para em torno de 12% dos homens que fazem sexo com homens (HSH), o uso de camisinha resulta em perda de ereção e inabilidade de terminar o ato de penetração sexual. Com as atuais alternativas de prevenção, Davidovich lembra que o elemento do prazer é “muito importante, pois o ignoramos ao longo dos últimos anos.”

Garrett Prestage, um sociólogo australiano, falou sobre as interpretações que os pesquisadores favorecem quando respondem às questões sobre porque homens gays não usam camisinha. Muitos são rápidos em responsabiliar traumas e auto-estima baixa, enquanto descartam a realidade do desejo e prazer sexual. Prestage disse que, em sua própria pesquisa, é evidente que muitas vezes são homens bem educados, que compreendem os riscos sexuais e suas consequências, que resolvem correr este risco em prol de mais prazer. “Quando confrontados com a oportunidade de sentir prazer, preferem ir em frente e aproveitar o prazer, ao invés de viver com um medo mórbido do sexo”, disse ele.

Sobre as diversas preocupações e críticas a respeito da PrEP, Prestage lembrou que não podemos abandonar a PrEP como estratégia de prevenção do HIV, assim como não abandonamos a camisinha mesmo diante dos eventuais problemas desta estratégia. Segundo ele, o fato de que qualquer intervenção pode apresentar falhas “diz mais a respeito de serviços de saúde e educação do que da capacidade dos homens gays de utilizar estas estratégias.” Ele guardou suas críticas mais duras para aqueles que usam o moralismo velado para demonizar aqueles que estão usando PrEP, especialmente porque aqueles que a utilizam fazem uso de uma opção de prevenção que mais se adequa ao seu desejo de ter um sexo prazeroso e se manter soronegativo. Prestage chamou este moralismo de “anti-científico, anti-sexual e anti-gay” e advertiu contra pesquisadores sociais que não conseguiram enxergar a PrEP como uma ferramenta libertadora para os homens gays que têm vivido com medo de sexo, ao invés de aproveitarem da biomedicalização como prevenção do HIV.

Quando Cecilia Chung, do Transgender Law Center, perguntou aos participantes quantos deles tinham recebido educação sexual trans-inclusiva, apenas cinco ou seis mãos foram levantadas, num auditório com centenas de pessoas. Chung lembrou que em sua cidade, São Francisco, há um tratamento quase universal com bons resultados para aqueles que vivem com HIV. No entanto, mulheres transexuais são comumente deixadas para trás nestes casos de sucesso. Apenas 65% das mulheres transexuais que vivem com HIV em São Francisco estão em tratamento antirretroviral, com apenas 40% de taxa de supressão viral, o que pode indicar que o tratamento não é prioridade na vida delas. Chung afirma que muitas mulheres transexuais que se inscreveram no estudo iPrex (o maior estudo sobre a eficácia da PrEP feito até o momento) abandonaram o estudo porque seus pesquisadores e médicos não estavam bem preparados para lidar com transexuais — que são uma das “populações vulneráveis”. Ela concluiu sua fala apontando que antes de podermos falar sobre prevenção e prazer entre mulheres transexuais, precisamos encorajá-las a falar sobre sexo.

Jessica Whitbread, uma artista e ativista canadense, atualmente Diretora Interina da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV (ICW, na sigla em inglês) preferiu lançar algumas perguntas instigantes a todos os presentes. Ela lembrou que, como uma mulher soropositiva, a ciência tem grande papel em sua vida sexual e “ajudou minha causa pelo prazer na cama.” No entanto, ela disse, “a ciência fez pouco para desafiar as disparidades de gênero no quarto” e ainda é muito difícil discutir sobre prazer entre mulheres, quando estas mulheres têm grande dificuldade em negociar o uso da camisinha com seus parceiros. Whitbread também pediu que a plateia ponderasse porque todas as práticas sexuais que não incluem pênis (tal como no sexo lésbico), têm recomendação de luvas e protetores bucais, enquanto a atividade sexual masculina é focada exclusivamente em preservativos. “É como se eles não tivessem mãos e bocas!”, disse. Ela terminou sua apresentação com uma pequena crítica à PrEP, reconhecendo seus méritos, mas querendo saber se, nessa encarnação, só vai fazer diferença para homens gays brancos de um certo status social na América do Norte.

A apresentação final foi feita por Sothembiso Promise Mthembu, uma feminista e ativista de direitos humanos da África do Sul, que falou sobre a prevenção do HIV e prazer sob o contexto de direitos humanos para mulheres. Uma vez que grande parte de seu trabalho é focado em direitos humanos, ela enfatizou que o direito ao prazer deve ser aproveitado pelas mulheres, mas isso tem sido negado à todas mulheres no mundo todo. Segundo Mthembu, quando discutimos prazer e sexualidade feminina, não podemos jamais divorciar este assunto das discussões sobre o poder em situações sociais e sexuais.

Num comentário que impressionou bastante o público, Mthembu lembrou que as mensagens de prevenção sobre uso da camisinha são quase sempre focadas no homem, enquanto as mulheres não podem “usar” a camisinha, mas apenas “negociar o seu uso.” Apesar das mulheres terem a opção da camisinha feminina — a qual Jessica Whitbread disse defender, mas, pessoalmente, a usou apenas “um punhado de vezes” –, esta estratégia de prevenção pode frequentemente trazer mais problemas, uma vez que pode sugerir ao homem que a mulher está no controle de seu próprio corpo, algo que muitas vezes é recebido com violência pelo parceiro sexual masculino. Mthembu comentou também sobre as vacinas para HPV como colaboradoras da prevenção do HIV, mas também advertiu contra qualquer abordagem à saúde sexual das mulheres e à prevenção do HIV que fosse “fragmentada”, focada em um único aspecto da saúde da mulher e da sexualidade. Ao invés disso, ela defende uma abordagem holística da saúde sexual e corporal.



O uso de profilaxia pré-exposição, práticas sexuais e incidência de HIV em homens e mulheres transexuais que fazem sexo com homens: um estudo de coorte

Prof Robert M Grant MD a b c Corresponding AuthorEmail Address, Prof Peter L Anderson PharmD d, Vanessa McMahan BSc a, Albert Liu MD b e, K Rivet Amico PhD f, Megha Mehrotra MPH a, Sybil Hosek PhD g, Carlos Mosquera MD h, Martin Casapia MD i, Orlando Montoya j, Susan Buchbinder MD b e, Valdilea G Veloso MD k, Prof Kenneth Mayer MD l, Prof Suwat Chariyalertsak MD m, Prof Linda-Gail Bekker PhD n, Esper G Kallas MD o, Prof Mauro Schechter MD p, Juan Guanira MD h, Lane Bushman BChem d, David N Burns MD q, James F Rooney MD r, Prof David V Glidden PhD b, for the iPrEx study team

Apresentação

O efeito da profilaxia pré-exposição (PrEP) para o HIV depende do uso, adesão e práticas sexuais. Nosso objetivo foi avaliar estes fatores em uma coorte de pessoas soronegativas sob risco de infecção.

Métodos

Em nosso estudo de coorte, os homens e mulheres transexuais que fazem sexo com homens anteriormente inscritos em estudos de PrEP (ATN 082, iPrEx e US Safety Study) foram incluídos numa extensão aberta de 72 semanas. Medimos concentrações da droga no plasma sanguíneo e em gotas de sangue seco em soroconversores a partir de uma amostra aleatória de participantes soronegativos. Avaliamos o uso da PrEP, adesão, práticas sexuais e incidência do HIV. Métodos estatísticos utilizados incluem os modelos de Poisson, a comparação de proporções e equações de etimativas generalizadas.

Descobertas

Foram incluídas 1.603 pessoas soronegativas, das quais 1.225 (76%) receberam PrEP. O uso foi maior entre aqueles que relataram fazer coito anal receptivo sem preservativo (416/519 [81%] vs 809/1084 [75%], p = 0,003) e com evidência sorológica de herpes (612/791 [77%] vs 613/812 [75%], p = 0,03). Dos que receberam PrEP, a incidência do HIV foi de 1,8 infecções por 100 pessoas-ano, em comparação com 2,6 infecções por 100 pessoas-ano naqueles que simultaneamente não escolheram tomar PrEP (HR 0,51, 95% CI 0,26 – 1,01, ajustado para comportamentos sexuais), e 3,9 infecções por 100 pessoas-ano no grupo de recebeu placebo na fase anterior, randomizada, (HR 0,49, 95% CI 0,31 -0,77). Entre aqueles que receberam PrEP, a incidência do HIV foi de 4,7 infecções por 100 pessoas-ano, se droga não foi detectada em gotas de sangue seco, 2,3 infecções por 100 pessoas-ano, se as concentrações de droga sugeria uso inferior a dois comprimidos por semana, 0,6 por 100 pessoas-ano para o uso de dois a três comprimidos por semana, e 0,0 por 100 pessoas-ano para o uso de quatro ou mais comprimidos por semana (p<0,0001). Concentrações da droga da PrEP foram maiores entre as pessoas de idade mais avançada, com maior escolaridade, que relataram não usar camisinha durante o coito anal receptivo, que tiveram mais parceiros sexuais e que tinham histórico de sífilis ou herpes.

Interpretação

O uso da PrEP foi elevado quando disponibilizada gratuitamente pelos provedores. O efeito da PrEP é aumentado por maior uso e adesão durante os períodos de maior risco. Concentrações da droga em gotas de sangue seco estão fortemente correlacionadas com benefício da proteção.

Financiamento

National Institutes of Health dos EUA.

[Para ler o artigo completo, em inglês, clique aqui.]


Ativistas lançaram um apelo demandando uma nova resposta à epidemia, baseada no direito de todo portador do vírus à carga viral indetectável. O apelo foi publicado no site da organização Treatment Action Campaign e dirigido às autoridades presentes na conferência Aids 2014, em Melbourne, Austrália.


Carga viral indetectável: uma oportunidade para todos em 2020!

Treatment Action Campaign • Treatment Action Group • HIV iBase • International Treatment Preparedness Coalition (ITPC) • Health GAP • AIDS and Rights Alliance of Southern Africa (ARASA) • Asian Network of People Living with HIV/AIDS (ANP+) • MSF Access Campaign • AfroCAB • International Community of Women Living with HIV/AIDS East Africa (ICW EA) • AIDS Law Project, Kenya • Housing Works • TASO Uganda • Zimbabwe Network of People Living with HIV/AIDS (ZNNP+) • Positive Generation Cameroon • International Civil Society Support • Thai AIDS Treatment Action Group (TTAG) • Thai Network of People Living with HIV (TNP+) • ACCESS Foundation Thailand • Delhi Network of People Living with HIV (DNP+) • National Network of Tanzanian Women with HIV/AIDS • Africa Young Positives (AY+) • Africa Japan Forum • Japan AIDS and Society Association (JASA) • Gays and Lesbians of Zimbabwe • Treatment Advocacy and Literacy Campaign (TALC), Zambia • Coalition for Health Promotion and Social Development (HEPS) Uganda • DRC National Grassroots Association of People Living with HIV • Zimbabwe HIV/AIDS Activist Union Community Trust (ZHAAUCT) • Ngibalulekile • Services for Health in Asian and African Regions (SHARE) • Rede Nacional de Asoociaçiões de Pessaoas Vivendo Com HIV/SIDA • National Association of People Living with HIV, Mozambique (ENSIDA) • Movement for Access to Treatment In Mozambique (MATRAM) • Mozambique Association of AIDS Service Organizations (MONASO) • Mozambique Network of NGOs working In Health and HIV/AIDS (NAIMA+)

Apelamos por uma meta ambiciosa de carga viral indetectável como centro das novas metas globais que estão sendo debatidas por governos e instituições da Organização das Nações Unidas e exigimos não apenas a promessa, mas o financiamento, opções de tratamento, leis e políticas necessárias para atingir este objetivo.

Para ter sucesso na luta contra a epidemia de HIV, relatórios e acompanhamento de testes e tratamento do HIV como indicadores de sucesso não são o suficiente. Precisamos saber quão bem, de fato, estão os soropositivos. Atualmente, alcançar e manter “carga viral indetectável” é o mais próximo que temos de uma cura para o HIV. A melhor forma de saber se o HIV está suprimido no organismo de uma pessoa é através do teste de carga viral. A supressão duradoura do HIV mantém as pessoas soropositivas vivas e saudáveis, além de prevenir a transmissão através de sexo, uso de drogas injetáveis, durante a gravidez, parto e amamentação.

Entretanto, a maioria da pessoas vivendo com HIV fora de países de alta renda não sabem sua carga viral. Muitas não têm o tratamento que precisam para controlar o vírus — muitas vezes porque sequer têm acesso ao teste diagnóstico de HIV. Esta é uma violação de direitos humanos básicos: toda a pessoa tem direito à informação, tratamento e suporte necessários para controlar e suprimir o vírus.

Assim, precisamos monitorar as taxas de supressão da carga viral para garantir que os programas de tratamento de HIV têm o melhor impacto nas pessoas que vivem com o vírus. Testes de carga viral também são recomendados para otimizar o cuidado de pessoas que recebem tratamento antirretroviral. A Organização Mundial de Saúde comenda que a monitoração da carga viral seja rotina, a fim de garantir que o tratamento está funcionando e que a detecção de falha no tratamento seja oportuna e precisa.

Além disso, o custo-benefício do teste de carga viral está melhorando e novas tecnologias prometem futuras redução nos preços, gerando progressiva economia em escala. Nós não consideramos o custo como um pretexto suficiente para deixar de oferecer o teste de carga viral a cada pessoa no planeta em tratamento antirretroviral, até 2020. Também não consideramos a falta de capacidade de testagem em países de baixa renda como um obstáculo ou desculpa aceitável. Quando o tratamento antirretroviral foi introduzido no começo do ano 2000, céticos argumentaram que, em virtude do custo, complexidade e falta de capacidade técnica, prover tratamento em situações de recursos limitados seria impossível. O mesmo argumento está sendo usado hoje para a monitoração da carga viral, embora os benefícios da tecnologia sejam incontestáveis​​.

Nós também sabemos que a monitoração da carga viral é só uma parte do quebra-cabeças. Para alcançar a meta de carga viral indetectável, líderes devem se comprometer a:

  • Usar todos os recursos disponíveis para eliminar as barreiras que tornam os antirretrovirais e outros medicamentos inacessíveis em vários países.
  • Nenhum teste de carga viral em qualquer lugar do mundo deve custar mais do que 10 dólares e devem ser possíveis mais reduções de preço.
  • Financiar totalmente o tratamento do HIV, através de programas nacionais, Global Fund, PEPFAR e outras iniciativas.
  • Financiar totalmente programas de tratamento baseados na comunidade, com apoio à adesão e com fortes programas de proteção social.
  • Comprometer à uma resposta ao HIV baseada nos direitos humanos, combatendo a criminalização, discriminação e estigma, evitando práticas coercivas e criando uma comunidade forte.

Se os governos e agências da Organização das Nações Unidas forem verdadeiramente sérios sobre virar a maré contra a epidemia de HIV, vão definir metas ambiciosas de supressão de carga viral e garantir que todos tenham a oportunidade de ter uma carga viral indetectável. A meta que nós queremos é: “pelo menos 80% de todas as pessoas soropositivas elegíveis a tratamento devem ter carga viral indetectável até 2020 (pessoas que não tiverem realizado testes de carga viral nos últimos 12 meses não devem ser consideradas como casos de supressão viral).”¹

¹Pelo menos 80% de todas pessoas elegíveis a tratamento devem ter testes de carga viral indetectável até 2020, o que representa um aumento significativo na testagem voluntária de HIV e inscrição em programas de cuidado de saúde e tratamento, considerando que 90% das pessoas elegíveis que fazem tratamento antirretroviral alcançam e mantém carga viral indetectável.

Brasil Post

Joep Lange (Merlijn Doomernik/Hollandse Hoogte/eyevine)

O virologista holandês Joep Lange, um dos 298 mortos na tragédia do voo da Malaysia Airlines em 17 de julho, dizia: “Por que é que estamos sempre falando sobre o problema da distribuição de medicamentos, quando não há praticamente nenhum lugar na África onde não se pode tomar uma cerveja ou uma Coca-Cola gelada?”

Desde 1990, Lange lutava pela distribuição de medicamentos antirretrovirais em países de baixa renda. Ele também foi um dos responsáveis por estudar a segurança e eficácia da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel” com múltiplos medicamentos, que hoje é o padrão de tratamento para HIV/aids. Estudou a resistência do HIV a medicamentos e o papel do tratamento como prevenção (TasP), incluindo a prevenção na transmissão vertical, de mãe para filho. Foi consultor de antirretrovirais para várias empresas farmacêuticas, cofundador do jornal Antiviral Therapy e da HIV Netherlands Australia Thailand Research Collaboration (HIV-NAT), uma rede responsável por 68 estudos clínicos que testaram a viabilidade de fornecimento de medicamentos antirretrovirais para pacientes em países de baixa renda.

No ano 2000, ajudou a lançar a organização sem fins lucrativos PharmAccess Foundation, que começou a levar antirretrovirais para a África subsaariana. Esse projeto começou restrito, mas inovador, distribuindo tratamento para os funcionários de uma fábrica da Heineken, marca holandesa de cervejas que foi uma um das primeiras apoiadoras do PharmAccess, e seus dependentes. O projeto se expandiu, com um fundo que subsidiava planos de saúde que pagavam pelos antirretrovirais para 100 mil pessoas na Nigéria, Tanzânia e Quênia. Entre 2002 e 2004, Lange foi presidente da International Aids Society (IAS).

Charles Boucher, virologista do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, contou à revista Nature: “Trabalhei com Lange por 30 anos. Eu o conheço desde a faculdade de medicina. Ele estava um ano à minha frente. Fiz meu doutorado com ele. Eu o vi crescer, de um médico que cuidava de pacientes no início de 1980 para um líder nacional que liderou o nosso país na Europa com o desenvolvimento de novos medicamentos, avaliação de novas drogas e mudando os paradigmas de estudos clínicos. De lá, ele foi para a pesquisa internacional, para a África, onde tornou-se conhecido.”

Além de Joep Lange, a morte de outros cinco passageiros do voo MH17 que participariam de conferência Aids 2014, na Austrália, foi confirmada:

  • Jacqueline van Tongeren, colega de Lange e membro da ArtAids;
  • Glenn Thomas, coordenador de relações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, Suíça;
  • Lucie van Mens, pioneira na defesa do acesso das mulheres a preservativos femininos e diretora de desenvolvimento da Female Health Company, que fabrica, comercializa e vende estes preservativos;
  • Martine de Schutter, gerente do programa Bridging the Gaps na Aids Fonds, onde trabalhou para tornar o tratamento e a prevenção do HIV acessível a todos;
  • Pim de Kuijer, escritor, ativista político, militante e defensor da organização Stop Aids Now!, empenhada em aumentar a contribuição holandesa na luta contra aids em países em desenvolvimento.

Em 19 de julho, Malaysia Airlines divulgou a lista de passageiros completa. A empresa diz que 192 dos passageiros eram da Holanda, 44 da Malásia, 27 da Austrália, 12 da Indonésia, 10 do Reino Unido, 4 da Bélgica, 4 da Alemanha, 3 das Filipinas, 1 do Canadá e 1 Nova Zelândia.

Em um comunicado, a IAS disse que “continua a trabalhar com as autoridades para esclarecer o impacto da tragédia do voo MH17 da Malaysia Airlines nos participantes da conferência, parceiros de conferência e em nossa comunidade como um todo”. A sociedade também disse que a conferência continua. “Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/aids, a conferência irá adiante, conforme o planejado, e vai incluir oportunidades de reflexão para lembrar aqueles que perdemos.” A conferência começou com todos os participantes de pé, em um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do voo MH17.

Um minuto de silêncio na cerimônia de abertura da Aids 2014.

Um dia depois do acidente, foram apresentados na conferência dois casos de pacientes australianos que não apresentam mais sinais do HIV, depois de um transplante de medula óssea para tratar câncer. Eles continuam sob tratamento antirretroviral “por precaução”, segundo o Dr. David Cooper, diretor do Kirby Institute da University of New South Wales em Sidney.

Depois de ouvir falar sobre o caso dos “pacientes de Boston”, dois homens que permaneceram por um longo tempo sem sinais do vírus após um tratamento similar, Cooper conduziu uma pesquisa nos arquivos de um dos maiores centros de transplante de medula óssea da Austrália, a fim de verificar se, por acaso, algum portador do HIV teria feito o transplante nos últimos anos. Encontrou dois casos: o primeiro havia recebido transplante para tratar um linfoma não-Hodgkin, em 2011, e o segundo para leucemia, em 2012.

Assim como no caso dos “pacientes de Boston”, é possível que os dois australianos voltem a apresentar sinais do vírus se interromperem a terapia antirretroviral. Por isso, eles não estão sendo considerados casos de cura e continuam sob a terapia antirretroviral. Entretanto, os resultados atuais mostram que existe uma clara relação entre o transplante de medula óssea e os “reservatórios de HIV”, o lugar onde o vírus se esconde no organismo. “Se conseguirmos entender como isso acontece, vamos acelerar o campo de pesquisa da cura”, afirma Cooper.

Até agora, o único caso de cura do HIV continua sendo o de Timothy Brown, o “paciente de Berlim”, que também fez um transplante de medula, no entanto, a partir de células de um doador naturalmente resistente ao HIV. Ele está há seis anos sem tomar antirretrovirais e não apresenta sinais do vírus. O transplante de medula óssea não é um tratamento viável para se tornar rotina na cura do HIV porque o procedimento apresenta alto risco de mortalidade, em 10%.

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Brasil Post“Sem colocar as pessoas em primeiro lugar, sem garantir que as pessoas que vivem afetadas pela epidemia são parte de um novo movimento, a aids não vai ter fim”, diz Michel Sidibé, diretor executivo da Unaids. “Sem uma abordagem humana, não vamos longe na era pós-2015.”

É uma nova era na epidemia de HIV/aids e, para falar sobre ela, precisamos antes concordar num ponto: as pessoas erram, falham. No sexo, transam, às vezes ou sempre, por acidente ou deliberadamente e mesmo cientes dos riscos, sem camisinha. Não fosse verdade, você não estaria aqui neste mundo, lendo esse texto — e, já que está, responda com sinceridade: alguma vez você transou sem camisinha?

As campanhas de saúde nos lembram que sempre devemos usar o preservativo, o qual sempre foi e continua sendo plenamente seguro em prevenir HIV/aids e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), além de evitar a gravidez indesejada. Sua segurança já foi testada e comprovada em laboratório. Segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, “os preservativos oferecem 10 mil vezes mais proteção contra o vírus da aids do que a sua não utilização.” Pesquisadores já “esticaram e ampliaram 2 mil vezes o látex do preservativo masculino e não foi encontrado nenhum poro. Em outro estudo que examinou as marcas de camisinha mais utilizadas no mundo, a borracha foi ampliada 30 mil vezes (nível de ampliação que possibilita a visão do HIV) e nenhum exemplar apresentou poros.”

No entanto, as pessoas simplesmente falham em usar a camisinha consistentemente e, com isso, o número de novas infecções de HIV/aids continua a crescer. O vídeo de apresentação da campanha Atitude Abril traz alguns dados sobre essa realidade no Brasil.

 O País representa 2% do número de pessoas vivendo com HIV. Segundo o último relatório da Unaids, há 35 milhões de pessoas vivendo com o vírus no mundo; destes, 19 milhões não sabem da sua condição e, como consequência, nutrem as novas infecções. Não é à toa que, no Brasil, surgiu também a campanha “Fique Sabendo”. As campanhas tradicionais de uso da camisinha não têm sido (mais) capazes de conscientizar a todos sobre a importância do uso do preservativo. Se são capazes, as pessoas mesmo assim não o utilizam. E a nova era no controle da epidemia de HIV/aids no mundo começa com o reconhecimento dessa realidade.

Nessa nova era, começamos a admitir a validade de outros métodos de prevenção, complementares à camisinha. Consensos médicos no Canadá, Estados Unidos e Inglaterra deram os primeiros passos, atualizando suas diretrizes de saúde pública e reconhecendo os resultados de relevantes estudos, como HPTN 052 e Partner, sobre a redução da transmissibilidade do vírus pelo tratamento antirretroviral. Este tratamento é o mesmo que eu e toda pessoa diagnosticada positiva para o HIV deve começar a fazer para cuidar da própria saúde. Ele é capaz de reduzir a carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, a níveis indetectáveis e, como consequência, a transmissibilidade do vírus também é bastante reduzida, funcionando assim como meio de prevenção. Em outras palavras, tal como explica o relatório da Unaids, “além de salvar a vida de pessoas que vivem com HIV, a terapia antirretroviral reduz a transmissão do HIV.”

Os três consensos não descartam a importância da camisinha, mas reconhecem a eficácia do “Tratamento como Prevenção” (ou TasP, do inglês Treatment as Prevention) na falta dela. O consenso canadense é o mais recente deles, publicado em maio deste ano pela Comissão de Infecções Transmissíveis Sexualmente e pelo Sangue (CITSS) do Institut National de Santé Publique du Québec (INSPQ). O documento publicado faz lembrar que o conceito de TasP não é novo. Ele vem desde meados dos anos 90, quando “alguns pesquisadores levantaram a ideia de que, ao controlar a replicação viral, a terapia antirretroviral poderia diminuir o risco de transmissão do HIV. Desde então, uma série de estudos observacionais, um estudo randomizado controlado e uma série de revisões sistemáticas da literatura médica têm destacado o importante papel desempenhado pela carga viral em reduzir o risco de transmissão sexual do HIV.”

Por sua vez, o consenso britânico, publicado em janeiro de 2013 pela British HIV Association (BHIVA) e Expert Advisory Group on Aids (EAGA), afirma que “hoje temos evidência conclusiva de estudos clínicos randomizados sobre casais heterossexuais, nos quais um dos parceiros tem infecção pelo HIV e o outro não, que, se o parceiro soropositivo toma antirretrovirais, a transmissão do HIV através do sexo vaginal é significativamente reduzida (em 96%). A redução na transmissão do HIV observada nos estudos clínicos mostra que a terapia antirretroviral bem-sucedida em pessoas soropositivas pode ser tão eficaz em limitar a transmissão viral quanto o uso consistente do preservativo”, desde que sejam atendidas as seguintes condições:

  • Nenhum dos parceiros deve ter outra DST;
  • A pessoa que vive com HIV deve ter a carga viral indetectável por pelo menos seis meses;
  • A testagem de carga viral deve ser feita regularmente, a cada três ou quatro meses.

Os canadenses vão um pouco mais além e incluem nessa lista a adesão à terapia antirretroviral em pelo menos 95%, acompanhamento e aconselhamento médico do casal a cada três ou quatro meses. Cumpridos estes requisitos, os dois consensos reconhecem que, na falha no uso da camisinha, o risco de transmissão do HIV através de sexo vaginal, oral e anal sem camisinha pode ser “negligenciável” ou “muito baixo”. As autoridades médicas britânicas acreditam que estes termos são melhores do que números, os quais podem ser mal interpretados e, com isso, induzir ao erro.

Já os americanos preferem falar só em números. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (ou CDC, do inglês Centers for Disease Control and Prevention), um dos órgãos responsáveis por identificar os primeiros casos de HIV/aids no mundo, publicou um texto em que afirma que o uso da terapia antirretroviral “pode reduzir o risco de uma pessoa infectada pelo HIV transmitir a infecção para outro em até 96%. Com a camisinha e terapia antirretroviral combinadas o risco de contrair HIV através de exposição sexual é reduzido em 99,2%.”

Consensos como estes têm se mostrado fundamentais em traduzir o conhecimento científico, muitas vezes complexo, em mensagens úteis e compreensíveis, que orientam os médicos e a população no cuidado da saúde e na prevenção do HIV. Vale ressaltar, nenhum dos consensos descarta a importância do uso do preservativo. O próprio consenso britânico, afirma que “os preservativos continuam a ser a forma mais eficaz de evitar a propagação de outras doenças sexualmente transmissíveis”. No entanto, ao falar sobre possibilidades complementares de prevenção, reconhece que a falha no uso da camisinha é real. É algo que acontece. E hoje temos alternativas para cuidar disso também.

Em março deste ano, dois estudos conduzidos pela organização humanitária internacional Médicos sem Fronteiras mostraram que essas alternativas funcionam: duas localidades na África, assoladas pela epidemia de HIV/aids, tiveram enorme redução na incidência de novos casos de infecção graças ao início da oferta de tratamento antirretroviral em larga escala. Segundo o último relatório da Unaids, “maior acesso ao tratamento antirretroviral, em combinação com outros métodos de prevenção do HIV, está derrubando novas infecções pelo HIV.” Comparando a cobertura do tratamento com o número de novas infecções pelo HIV, a Unaids conclui que, “para cada aumento de 10% na cobertura da terapia antirretroviral, a taxa de transmissão na população diminui em 1%”.

Ainda assim, 22 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento e 2,1 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV somente em 2013. Talvez por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe ainda mais intervenções na prevenção. As últimas Diretrizes Consolidadas para Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do HIV e Cuidado de Populações Vulneráveis incluem uma recomendação ao uso de antirretrovirais em “populações vulneráveis” como profilaxia pré-exposição (PrEP), isto é, o uso destes medicamentos por pessoas soronegativas como forma prevenir a infecção em uma eventual exposição ao vírus, além da manutenção da oferta de profilaxia pós-exposição (PEP).

Para alcançar as metas propostas pela Unaids, de 90% de redução em novas infecções, 90% de redução no estigma e discriminação e 90% de redução das mortes relacionadas à aids, precisamos ir além do que já estamos fazendo. Nesta nova era de controle da epidemia de HIV/aids, a camisinha continua muito importante. Entretanto, no lugar de culpar e meter medo pela eventual falha em seu uso, surgem alternativas de prevenção. Precisamos falar sobre elas, com base em dados atualizados de sérios estudos científicos.

É tempo de superar o discurso rígido e adotar uma abordagem humana, que reconhece que as falhas no uso da camisinha acontecem, mas que podemos cuidar delas também. Quem cuida da própria saúde, soropositivo ou soronegativo, deve se orgulhar disso, pois essa é uma ferramenta muito importante para prevenir novas infecções e controlar a epidemia no mundo.

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Estudos mostram que o tratamento de HIV reduz a taxa de novas infecções

Por Médicins sans Frontiers em 6 de março de 2014

Dois novos estudos divulgados pelo Epicentro, o braço de pesquisa da organização médica humanitária internacional Médicins sans Frontiers (MSF), na CROI, a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, apontam para a redução de novas infecções de HIV em áreas em que o tratamento para o HIV foi bastante expandido. Os estudos são alguns dos primeiros a olhar para o possível impacto da redução de novas infecções pela terapia antirretroviral (TARV) no mundo real, fora dos laboratórios, e em ambientes onde há alta prevalência de HIV, como na África subsaariana.

O primeiro estudo foi conduzido no distrito Chiradzulu, em Malawi, cuja prevalência de HIV está em 17% e onde a implementação em larga escala da TARV pelo Ministério da Saúde e MSF começou em 2001. A cobertura da TARV no distrito é alta, em 65,8%. Numa análise de base populacional transversal, o estudo mostra que a taxa de novas infecções, ou incidência, está muito baixa, em 0,4%. A incidência foi maior entre mulheres do que em homens (0,57% contra 0,18%). Além disso, entre toda a população soropositiva pesquisada (incluindo tanto as pessoas que estão em TARV e as que não estão), uma porcentagem muito elevada (61,8%) tinha carga viral “indetectável” em seu sangue, abaixo de 1.000 cópias [em geral considera-se “indetectável” como abaixo de 50 cópias]. Isso é mais que o dobro da taxa de supressão viral entre a população de soropositivos nos Estados Unidos, avaliada em 25% em 2012.

“No nosso estudo, dois terços das pessoas vivendo com HIV têm o que é considerado como carga viral ‘indetectável’ e estão praticamente fora do risco de transmitir o vírus — é fenomenal ver que é possível chegar a estes níveis em contextos de recursos limitados”, disse o Dr. David Maman, pesquisador-chefe do estudo Malawi. “Uma vez que nosso estudo não é clínico, a taxa de novas infecções que estamos vendo sugere fortemente que o tratamento para o HIV sozinho tem um papel na redução da transmissão.”

O segundo estudo foi conduzido pela MSF na província KwaZulu Natal, na África do Sul, onde há uma das mais altas taxas de prevalência de HIV no mundo, em 25%. O tratamento em larga escala começou há menos tempo, próximo de 2009, embora tenha estado disponível desde 2004 em menor escala. Apesar da alta prevalência, a taxa incidência foi moderada, em 1,2% ao ano, também sugerindo que a TARV possivelmente tem seu impacto na redução de novas infecções. Outras descobertas do estudo são impressionantes. A prevalência em mulheres foi o dobro do que em homens e maior entre mulheres de 30 a 40 anos, em 56%. As mulheres jovens, de 20 a 30 anos, tinham a mais alta taxa de novas infecções, em 4% ao ano — quatro vezes maior do que para os homens da mesma idade. Em geral, a cobertura da TARV foi relativamente boa: três quartos das pessoas soropositivas estavam em tratamento, com cobertura melhor entre mulheres do que entre homens, em 78,5% contra 63,9%. A supressão viral foi alcançada em 89,6% das pessoas que receberam TARV por mais do que seis meses. Além disso, uma proporção alta de indivíduos com HIV estava ciente de sua condição sorológica antes do início do estudo.

“Estudos como este são essenciais para mostrar a realidade de epidemia”, disse a Dra. Helena Huerga, pesquisadora-chefe do estudo da África do Sul. “Nosso estudo nos mostra que a situação no mundo real é melhor do que esperávamos, mas também aponta exatamente para onde temos que mirar as estratégias de intervenção para maximizar seu impacto. Como podemos ver, quanto mais antigo o programa de tratamento, melhor parece seu impacto em reduzir a transmissão. Então, este é um sinal para os profissionais de saúde do mundo todo para continuar com o tratamento de HIV em larga escala, levando tratamento para o maior número de pessoas o mais cedo possível.”

Atualmente, o MSF oferece apoio na provisão de TARV para mais de 280.000 pessoas em mais de 20 países.