Estado de um casal com sorologia para o HIV distinta: um portador soropositivo que convive com parceira(o) de soronegativa(o).

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

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Nenhuma transmissão do HIV foi observada entre os 343 casais de homens gays sorodiscordantes, em que o parceiro soropositivo fazia tratamento antirretroviral e tinha carga viral indetectável, matriculados no estudo Opposites Attract, divulgado na 9th International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS 2017, em Paris. O Opposites Attract recrutou e acompanhou casais homossexuais em clínicas na Austrália, em Bangkok e Rio de Janeiro, que praticaram 16.889 atos de sexo anal sem camisinha enquanto acompanhados pelo estudo.

“Uma pessoa que vive com HIV e que tem carga viral indetectável não transmite o vírus aos seus parceiros.”

O Opposites Attract também não encontrou relação entre a transmissão do HIV e a presença de outra doença sexualmente transmissível (DST): 6% dos atos sexuais anais relatados foram feitos enquanto um dos parceiros tinha alguma outra DST. Um estudo anterior semelhante, o Partner, teve o mesmo resultado com uma taxa de 17,5% dos participantes com uma DST em algum momento do estudo. A preocupação de que a presença de outra DST pudesse aumentar o risco de transmissão do HIV a partir de parceiros com carga viral indetectável vem pelo menos desde a Declaração Suíça, de 2008.

Outra preocupação que rondava este assunto dizia respeito ao tipo de relação sexual, uma vez que, por muito tempo, o único grande estudo sobre transmissão do HIV a partir de parceiros soropositivos em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável foi o HPTN 052, que incluiu casais heterossexuais. O HPTN 052 não encontrou qualquer transmissão do HIV a partir destes parceiros, mas não era certo se seus participantes teriam praticado sexo anal desprotegido em frequência estatisticamente relevante, tal como um casal de homens gays faria. O estudo Partner, que também não observou qualquer transmissão do HIV entre seus participantes, ajudou parcialmente a responder esta pergunta, uma vez que incluiu alguns casais gays. O Opposites Attract, por sua vez, inscreveu apenas casais de homens homossexuais e, novamente, não observou uma única transmissão do HIV.

“Soropositivos em tratamento podem compartilhar muitas coisas. Mas não podem compartilhar o vírus.”

A única pergunta que resta diz respeito à posição sexual, uma vez que o risco de transmissão do HIV é mais alto quando o parceiro soropositivo homossexual é ativo, aquele que insere o pênis no ânus de seu parceiro. Entretanto, o fato é que no Opposites Attract isto não fez diferença alguma: a maioria dos parceiros soropositivos foram ativos em um terço das relações sexuais relatadas. Assim como no HPTN 052 e no Partner, o Opposites Attract também documentou transmissões do HIV, mas a análise genética mostrou que essas infecções vinham de um parceiro fora do relacionamento principal com o parceiro inscrito no estudo e que tinha carga viral suprimida.

Segundo o Aidsmap, este resultado reforça ainda mais o slogan “Indetectável = Intransmissível”, da campanha Prevention Access, cuja declaração de consenso foi assinada pelo Aidsmap e também pela International Aids Society, durante o congresso em Paris, e vem ao encontro dos mesmos resultados obtidos no estudo Partner, no HPTN 052 e do que é afirmado na Declaração Suíça, de 2008.

“Fato: pessoas em tratamento antirretroviral não conseguem transmitir o vírus.”

A campanha explica que a ciência é clara: “pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem  carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais. Indetectável = intransmissível.” A campanha acredita que esta mensagem encoraja as pessoas com HIV a começar e a permanecer em tratamento antirretroviral, para cuidar da própria saúde e para evitar a transmissão do vírus. “Quanto mais as pessoas vivendo com HIV que conhecem seu status estiverem em tratamento bem sucedido, mais saudáveis ​​serão e mais próximo chegaremos ao fim da epidemia”, afirma o texto. A campanha define uma carga viral indetectável como inferior à 40 cópias/ml de sangue, enquanto uma carga viral abaixo de 200 cópias/ml é considerada “viralmente suprimida” e, tal como o indetectável, não pode transmitir sexualmente o HIV. Em outras palavras, segundo a campanha, uma pessoa vivendo com HIV com uma carga viral consistente de 200 cópias/ml ou menos, não pode transmitir o HIV.

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Esta semana, nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, CDC, publicaram um relatório sobre as estratégias de prevenção do HIV para casais sorodiscordantes em que mulheres soronegativas planejam engravidar de parceiros soropositivos.

Neste relatório, o CDC reconhece que desde 1988 surgiram novas informações sobre a prevenção da transmissão do HIV em casais sorodiscordantes. “Uma estratégia é o uso da supressão viral através da terapia antirretroviral para o parceiro do sexo masculino, com relações sexuais sem proteção de preservativos”, diz o texto, antes de ponderar que é melhor que estas relações sexuais sejam “limitadas ao tempo em torno da ovulação, enquanto a parceira está tomando profilaxia pré-exposição” — a PrEP.

“Outra estratégia que pode ser usada em conjunto com a terapia antirretroviral e a PrEP é a coleta e lavagem do esperma do parceiro masculino, para remover as células infectadas pelo HIV, seguido de testes para confirmar a ausência de HIV antes da inseminação intrauterina da parceira ou, antes da fertilização in vitro. Cada método possui um perfil de risco particular, pode conferir vantagens e desvantagens distintas e requer graus distintos de assistência médica. Antes de tentar a concepção, os casais sorodiscordantes podem querer discutir opções de tratamento com um profissional médico experiente, que possa informar sobre os riscos e os benefícios de cada tipo de procedimento médico, tal como se aplica à situação específica do casal.”

Mais adiante, o CDC afirma que, “considerando que os homens infectados pelo HIV que atualmente estão sob os cuidados de um médico provavelmente já estão recebendo terapia antirretroviral, seus parceiros sexuais podem ou não usar a PrEP”. “Recentes evidências científicas sugerem que estes casais sorodiscordantes que desejam ter seus próprios filhos biológicos podem considerar relações sexuais sem preservativo, cronometradas para coincidir com a ovulação.” Para bom entendedor, o órgão americano está dizendo que o uso da PrEP é opcional para casais sorodiscordantes em que o parceiro soropositivo faz tratamento antirretroviral — e que há evidência científica suficiente para amparar a segurança desta escolha.

É diante dessa possibilidade de escolha, entre acrescentar ou não a PrEP para o parceiro soronegativo por cima do tratamento do parceiro soropositivo e sua carga viral indetectável, que o CDC lembra que a “prevenção da transmissão do HIV é otimizada quando o parceiro masculino é suprimido virologicamente pelo tratamento antirretroviral e a parceira está sob PrEP”. (O grifo em otimizada é meu, e não do CDC.) Se você me permite uma piada sobre este assunto: é como se pudéssemos escolher entre uma proteção premium ou standard contra a transmissão do HIV; é como uma extensão opcional da garantia de um produto, que se adquirida oferece mais proteção. E o CDC explica o porquê desta maior proteção ser melhor.

“A relação sexual sem camisinha está associada ao maior risco de transmissão do HIV”, continua o texto, antes de estimar que este risco é de “aproximadamente 1-2 por 1.000 episódios de relação sexual inconstante, baseado em estudos da história natural de casais conduzidos antes da disponibilidade rotineira de exames de carga viral do HIV e da terapia antirretroviral”. Levando em conta os estudos que vieram depois do advento do exame de carga viral e da terapia antirretroviral, o CDC lembra que, “entre os homens em tratamento antirretroviral com carga viral seminal e plasmática indetectáveis, o risco postulado de transmissão para uma parceira durante a relação sexual sem condomínio é baixo (0,16 por 10.000 exposições)”.

Se o risco é baixo, por que um casal sorodiscordante precisaria se preocupar em se proteger mais? Porque“embora alguns estudos sugiram uma redução paralela nas cargas virais do plasma e do sêmen, outras evidências sugerem que as cargas do plasma e do sêmen podem não se correlacionar; homens com cargas virais plasmáticas indetectáveis ​​tiveram vírus isolado em seu sêmen.” Isso quer dizer que, segundo alguns estudos, homens com carga viral indetectável no sangue podem ter HIV detectável no sêmen — um assunto que o Diário de um Jovem Soropositivo já abordou aqui, aqui e aqui. “Como resultado, homens em tratamento antirretroviral com carga viral plasmática indetectável ​​podem ainda oferecer algum risco (embora muito baixo, de 1,2 a cada 100 anos-pessoa) de transmissão do HIV-1 à sua parceira por meio relação sexual sem preservativo”. Ainda segundo o CDC, a presença de outras doenças sexualmente transmissíveis, inflamação dentro da trato genital e carga viral do parceiro infectado podem influenciar este risco.

A questão, aqui, é que os riscos “baixo” e “muito baixo” podem ser ainda mais reduzidos. “Além da supressão viral com terapia antirretroviral, o risco de transmissão sexual pode ser ainda mais reduzido com o uso de PrEP pelo parceiro não infectado e minimizando a frequência da exposição e limitando a relação sexual ao tempo da ovulação, maximizando, assim, a chance de concepção.”

Sobre a lavagem de esperma de parceiros soropositivos, o texto afirma que a capacidade do HIV de infectar espermatozóides ainda não está clara: “alguns estudos sugerem que o HIV-1 pode infectar espermatozóides, enquanto outros refutam estes achados”. Análises do esperma lavado sugere que 92% a 99% dos espécimes de sêmen não contém nenhum vírus detectável. “Evidências sugerem que os métodos mais recentes de lavagem de esperma reduzem significativamente o risco de transmissão do HIV-1. Aproximadamente 11.500 ciclos de concepção assistida em mulheres sem infecção pelo HIV usando esperma separado do sêmen de seus parceiros infectados pelo HIV resultaram em zero transmissão de HIV para as mulheres.”

O CDC alerta que há relatos de mulheres que se tornam infectadas pelo HIV em algum momento após a fertilização intra-uterina. “No entanto, a evidência sugere que as infecções resultaram de relações sexuais posteriores ao procedimento e sem uso de preservativo com seu parceiro infectado.” Por fim, o órgão americano conclui que “as evidências atuais sugerem que o risco de transmissão de um parceiro masculino infectado pelo HIV para uma parceira sem HIV é baixo, se estratégias de redução de risco adequadas forem implementadas”.

Achou tudo isso muito confuso? Afinal de contas, a terapia antirretroviral com carga viral indetectável é ou não é suficiente para garantir uma relação sexual sem camisinha livre do risco de transmissão do HIV? Ou é preciso acrescentar outras estratégias, como a PrEP ou a inseminação com lavagem de esperma? Se você se perdeu entre os prós e contras apresentados no relatório do CDC, não foi o único.

The Body, um portal de notícias especializado em HIV/aids, publicou um artigo intitulado O tão esperado relatório do CDC sobre as opções de concepção para casais sorodiscordantes é decepcionante e confuso. O autor deste artigo, editor do The Body e ativista JD Davids, que já foi conselheiro do National Institutes of Health e do próprio CDC, se disse “chocado com o que viu” na publicação do CDC. Davids aproveitou o tema para entrevistar Shannon Weber, líder da organização Hive, que desde 1989 oferece aconselhamento sobre gravidez para casais sorodiscordantes na Universidade da Califórnia em São Francisco.

JD Davids — Considerando a eficácia individual de cada estratégia de prevenção, você acha que este nível de múltiplas precauções se justifica?

Shannon Weber — O fato é: o tratamento como prevenção, sozinho, é uma forma altamente efetiva de concepção mais segura. A dosagem diária de PrEP, sozinha, é uma forma altamente eficaz de concepção mais segura. A inseminação intra-uterina ou a fertilização in vitro, sozinhas, são uma forma altamente eficaz de concepção mais segura. Os casais escolherão diferentes opções de prevenção com base na sua percepção de risco, em fatores individuais de fertilidade e acesso a cuidados de saúde, bem como o seu custo.

A orientação do CDC carece de uma discussão completa sobre o assunto e da citação dos dados valiosos dos estudos Partner e HPTN 052: é consenso científico de que uma pessoa com carga viral indetectável não transmite o HIV. Alguns casais afetados pelo HIV podem exigir tecnologias de reprodução assistida com base em baixa fertilidade (e não exclusivamente por conta do HIV), ou podem escolher tecnologias de reprodução assistida com base em suas próprias percepções de risco ou de questões sociais e familiares (casais do mesmo sexo, maternidade subordinada ou casais de co-parentesco). A inseminação intra-uterina e in vitro são importantes estratégias complementares de concepção mais segura.

Gostaria de fazer referência a uma citação do Dr. Pietro L. Vernazza e Edwin J. Bernard em seu estudo de 2016: O HIV não é transmitido sob terapia totalmente supressiva: a Declaração Suíça, oito anos depois. Eles perguntam: “Será que é ético reter informação dos pacientes devido a  (injustificados) temores de que a epidemia possa piorar em decorrência de informá-los?”

JD — De que maneiras as recomendações do CDC refletem ou não as práticas médicas habituais?

SW — Além de nem sempre ser um método de escolha de um indivíduo ou de um casal, as tecnologias de reprodução assistida, infelizmente, não são amplamente oferecidas — e, quando são, costumam ser caras. Essas duas grandes barreiras tornam as tecnologias de reprodução assistida basicamente indisponíveis para muitos casais, se não a maioria dos casais, afetados pelo HIV.

A Hive começou a oferecer a PrEP às mulheres gravidas ou prestes à engravidar em 2010. O tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) também é um método de concepção mais seguro e favorável entre os pacientes com HIV. O blog da Hive traz histórias de homens e mulheres americanos afetados pelo HIV, contando suas histórias de concepção mais seguras. Entre as histórias de amor de PrEP e TasP, há também histórias sobre o uso de esperma de dadores e acordos de co-parentalidade.

Eu vejo um movimento crescente de capacitação dos profissionais de saúde no campo da concepção mais segura, utilizando um modelo compartilhado de tomada de decisão, a fim de permitir que indivíduos ou casais selecionem o método adequado para eles naquele momento de suas vidas.

JD — Este relatório do CDC vai além das recomendações já existentes?

SW — Fiquei feliz em ver o CDC atualizar sua recomendação de 1990 no que diz respeito à lavagem de esperma e métodos de reprodução assistida para casais sorodiscordantes. Este é um grande passo para as pessoas que são afetadas pelo HIV e que experimentam problemas de fertilidade, incluindo casais do mesmo sexo, pais solteiros por escolha ou maternidade subordinada e pessoas trans. Esta mudança tornará mais acessíveis os tratamentos de fertilidade necessários.

Porém, a falta de informações e orientações claras sobre TasP e PrEP como opções autônomas, seja para homens ou mulheres com ou sem HIV, é decepcionante. No texto do CDC, a adição da PrEP junto às tecnologias de reprodução assistida é confusa.

JD — O que os profissionais de saúde devem saber sobre as necessidades, desejos e desafios na concepção e gravidez para casais sorodiscordantes?

SW — Os casais afetados pelo HIV desejam engravidar aproximadamente na mesma proporção que a população em geral. Se você é um profissional de saúde que trabalha com HIV, pergunte a todos os seus pacientes, independentemente da identidade de gênero e orientação sexual: “Você pensa em ter um bebê no próximo ano?”

Cinquenta por cento das gravidezes da população em geral dos Estados Unidos não são planejadas. Esta taxa é maior entre as pessoas afetadas pelo HIV. Considere uma conversa sobre concepção mais segura como um presente: a chance de apoiar alguém a planejar sua gravidez, reduzindo o risco de transmissão do HIV.

Você não precisa saber todas as respostas: basta indicar o caminho. Você pode fazer referências para outros profissionais de saúde reprodutiva ou a recursos on-line que tenham informações sobre o assunto. Com os avanços na prevenção biomédica, com a TasP e a PrEP), a conversa sobre uma concepção mais segura é uma conversa sobre possibilidade e esperança.

É como se a conversa sobre o sexo sem camisinha entre casais sorodiscordantes, em que o parceiro soropositivo faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável, trouxesse algum medo e receio de algo possa falhar — mesmo depois de extensos, contínuos e icontáveis estudos sobre o risco de transmissão do HIV nessas condições, como o Partner e HPTN 052. A pergunta que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, parecem continuar a nos lembrar é: diante do HIV, não é o melhor prevenir ao máximo? A resposta para essa pergunta, incluindo a consideração dos limites entre o que é máximo e que é excessivo, cabe ao leitor responder.

Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou o início da distribuição de medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco da infecção pelo HIV antes da exposição ao vírus, a chamada “profilaxia pré-exposição” (PrEP) no Sistema Único de Saúde (SUS). A oferta da PrEP deve começar dentro de 180 dias, a contar a publicação do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a PrEP, prevista para acontecer na segunda-feira, dia 29 de Maio. O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros, na última quarta-feira, dia 24, durante sua participação na Assembleia Mundial de Saúde realizada em Genebra, na Suíça.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a PrEP seja oferecida a todas as pessoas que estão sob “risco substancial de contrair HIV”. África do Sul, Austrália, Canadá, Escócia, Estados Unidos, França, Lesoto, Malawi, Nova Zelândia, Peru, Quênia, Suécia, Tailândia, Tanzânia, Taiwan, Zâmbia, Zimbábue já aprovaram o uso da PrEP, enquanto outros países avaliam a sua implementação. A Inglaterra está agora conduzindo um estudo da viabilidade no país, depois do National Health Service ter sido obrigado judicialmente pela Corte de Apelação, em Londres, a considerar a PrEP.

Ricardo Vasconcelos

Aproveitei o tema para conversar com Ricardo Vasconcelos, médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Ricardo é coordenador do SEAP HIV, um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV, e participou de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e o PrEP Brasil. Atualmente, Ricardo está cursando doutorado com PrEP na FMUSP e é coordenador médico do estudo HPTN 083, um ensaio clínico que avalia a eficácia e segurança da PrEP injetável intramuscular com o medicamento antirretroviral Cabotegravir. Ricardo participa continuamente de processos de formação acadêmica e difusão de informação envolvendo alunos de graduação da USP, ONGs e seminários de educação comunitária na temática de HIV e ISTs no Brasil.

Jovem Soropositivo — Ricardo, o que é PrEP?

“A PrEP é uma maneira de estar bem protegido do HIV”

Ricardo Vasconcelos — PrEP vem da sigla inglesa para profilaxia pré-exposição (pre exposure prophylaxis) e se refere a uma das novas estratégias biomédicas que utiliza medicamentos para proteger uma pessoa da infecção pelo HIV. Conceitualmente, PrEP é o uso de antirretrovirais diariamente por uma pessoa que não vive com HIV, mas que vive situações de vulnerabilidade para que a infecção ocorra, com o objetivo de mantê-la livre do vírus. Podemos simplificar a definição de situações de vulnerabilidade como não conseguir se proteger de maneira eficaz e continuada apenas com as estratégias tradicionais de prevenção, tal como o uso do preservativo. A PrEP é uma maneira de estar bem protegido do HIV sem que suas parcerias precisem concordar ou até mesmo saber que o indivíduo a está utilizando.

JS — Quais antirretrovirais fazem parte da PrEP e com que frequência precisam ser tomados para prevenir o HIV?

RV — A primeira combinação de antirretrovirais que se mostrou eficaz para a PrEP foi a associação de Tenofovir com Emtricitabina, coformulados em um único comprimido, comercialmente conhecido como Truvada, que deve ser tomado diariamente. Já existem outras drogas em fase de pesquisa que também se mostraram eficazes para PrEP, como a Dapivirina, por exemplo, administrada em mulheres na forma de anel vaginal impregnado pelo antirretroviral, que deve ser trocado mensalmente; ou o Cabotegravir, que é aplicado a cada dois meses em injeções intramusculares. Quando esses últimos estudos estiverem concluídos, teremos disponível um amplo cardápio de prevenção contra o HIV, que contemplará muito mais pessoas, considerando diferentes contextos de vulnerabilidade e capacidade de adesão às estratégias.

JS — Se a PrEP consiste no “uso de antirretrovirais diariamente por uma pessoa que não vive com HIV” para “mantê-la livre do vírus”, então estamos dando remédio para uma pessoa que não está doente?

RV — Exato. Isso é o que chamamos de profilaxia: o uso de alguma estratégia com o objetivo de evitar um desfecho não desejado. Assim como recomendamos o uso de Aspirina para que uma pessoa tenha suas chances de desenvolver um infarto reduzidas, ou usamos a pílula anticoncepcional para evitar uma gravidez indesejada.

JS — Parece que existe alguma semelhança entre a PrEP e a pílula anticoncepcional, não acha? Com um comprimido antirretroviral por dia, previne-se o HIV. Com uma pílula anticoncepcional por dia, evita-se a gravidez. Em seu tempo, a pílula anticoncepcional foi vista como uma “revolução”, que deu mais autonomia às mulheres para decidirem se queriam ou não engravidar. Você acha que a PrEP também pode ser vista como revolucionária dentro da prevenção do HIV?

“Dar autonomia para uma pessoa gerir seus riscos é sem dúvida uma revolução.”

RV — Sim, a pílula anticoncepcional permite que as mulheres tenham total controle sobre o risco de engravidar. Uma mulher que opta por tomá-la não depende mais da negociação com seu parceiro a respeito do uso do preservativo, do coito interrompido, da tabelinha ou do que quer que seja. Ela sabe que, ao tomar uma pílula por dia, estará evitando, de maneira bastante eficaz, uma gestação indesejada, mesmo que tenha relações desprotegidas. Dar autonomia para uma pessoa gerir seus riscos é sem dúvida uma revolução. Mas também existe uma reação negativa a essa revolução. Tanto na época do início do uso das pílulas anticoncepcionais quanto agora, com a PrEP, parte da população enxerga uma estratégia dessas como algo que vai ser usado por pessoas que “não se cuidam” ou que “só querem saber de transar com todo mundo sem camisinha”, e julga negativamente quem as usa.

JS — Michael Weinstein, diretor da Aids Healthcare Foundation, disse que a PrEP é perigosa para a saúde pública porque pode encorajar as pessoas a sair por aí fazendo sexo sem camisinha. O que você diria em resposta a Michael Weinstein?

RV — Diria que essa é uma preocupação constante entre todos que estudam PrEP no mundo. A isso se dá o nome de “compensação de risco”: a desinibição de comportamentos sexuais de maior vulnerabilidade por conta do uso da PrEP, o que poderia aumentar a incidência das outras ISTs, por exemplo, uma vez que o antirretroviral só oferece proteção contra o HIV. No entanto, o que vemos é que a maior parte da literatura publicada mostra que a população que tem indicação para o uso de PrEP, devido ao seu comportamento de vulnerabilidade, já apresentava história de múltiplas ISTs mesmo desde antes do início da PrEP.

“Alguns dos usuários até aumentam o uso de preservativo”

Por isso, a vinculação destas pessoas a um programa de PrEP tem um efeito extremamente positivo nesse aspecto: com o rastreamento frequente das outras ISTs, é possível fazer diagnóstico e tratamento precoce destas. Além disso, com o aconselhamento periódico de gestão de vulnerabilidades feito por profissionais da saúde, observamos que alguns dos usuários até aumentam o uso de preservativo, reduzindo a incidência de outras ISTs. Então, mesmo que de fato ocorra algum grau de compensação de risco por parte dos usuários de PrEP, teremos eles vinculados a um serviço de saúde, coisa que não acontecia previamente, e, assim, poderemos resolver prontamente as ISTs que surgirem, até mesmo as assintomáticas.

JS — Quem pode se beneficiar da PrEP?

RV — Qualquer pessoa que esteja vulnerável ao HIV por não conseguir utilizar de maneira consistente o preservativo em relações sexuais com parcerias nas quais exista risco significativo de transmissão do vírus. Isso inclui, por exemplo, alguém que tenha relações desprotegidas com parceiros casuais. Também, pessoas que vivem contextos em que a negociação do uso da camisinha é dificultada por conta de violência, como no caso de profissionais do sexo ou situações de discriminação. Por fim, para casos em que situações em que há uso de drogas e outras substâncias psicoativas, antes ou durante o sexo, façam com que haja falha no uso correto do preservativo.

Nesses exemplos que dei, é preciso ter claro que não se está recomendando que a pessoa pare de usar o preservativo, mas que se associe a ele a PrEP, uma vez que, nesses contextos, a PrEP é talvez a estratégia de prevenção que mais vai ser eficaz em manter o indivíduo livre do HIV.

JS — Quanto custa e quem paga pela PrEP no Brasil?

RV — Existem atualmente duas farmácias que vendem o Truvada no mercado privado, importado por 290 reais ao mês. Investir menos de 10 reais por dia para se manter livre do HIV pode parecer pouco para alguns, mas, considerando que os grupos chave de mais alta vulnerabilidade no País acabam sendo vítimas também de exclusão social e de direitos, esse valor torna proibitivo o acesso à PrEP. Por causa disso, o anúncio pelo Ministério da Saúde da incorporação da PrEP ao nosso sistema público de saúde deve ser aplaudido. Fruto de um longo trabalho, essa medida poderá ser decisiva no enfrentamento da epidemia de HIV e na redução dos novos casos da doença no País.

JS — Isso quer dizer que o dinheiro público será usado para pagar um medicamento para alguém que não pode ou não consegue usar camisinha?

RV — Sim. Fingir que as pessoas que não podem ou não conseguem usar o preservativo de maneira consistente não existem é um erro. Garantir uma política pública que os ampare considerando suas particularidades é bom não só para eles mais para todo o Brasil, pois, com menos pessoas se infectando todos os anos, a vulnerabilidade de toda a população diminui.

JS — O que é o PrEP Brasil e quais resultados obteve?

RV — O PrEP Brasil é um projeto demonstrativo da PrEP que está sendo feito no Brasil desde 2014. Um projeto demonstrativo é um tipo de estudo que está entre um projeto de pesquisa clínica, que serve, por exemplo, para saber se um remédio funciona ou não, e como seria sua implantação no sistema público de saúde. É um “piloto”. O objetivo do PrEP Brasil era avaliar qual seria o conhecimento sobre PrEP e a aceitação/adesão da PrEP entre aqueles pertencentes aos grupos de maior vulnerabilidade ao HIV no País, como os homens que fazem sexo com outros homens e mulheres trans/travestis.

“A população mais vulnerável ao HIV no Brasil não só aceita a PrEP, como também adere aos comprimidos da maneira correta.”

Nesse aspecto, tivemos resultados excelentes com o estudo: mais de 60% dos entrevistados desses grupos em risco de infecção acabaram iniciando a PrEP, sendo preditores de aceitação da estratégia, por ter um conhecimento prévio sobre a PrEP ou por ter tido um maior número de relações desprotegidas no ano anterior à entrevista. Isso mostra que a população que mais tem chance de se infectar aceita bem a recomendação do uso a PrEP. Entre aqueles que entraram em PrEP, com adesão aos comprimidos prescritos, a dosagem dos medicamentos prescritos que foi verificada também foi excelente: 78% dos participantes estavam tomando mais do que quatro comprimidos por semana — o que já é suficiente para atingir a proteção máxima. O PrEP Brasil demonstrou que a população mais vulnerável ao HIV no Brasil não só aceita a PrEP, como também adere aos comprimidos da maneira correta.

JS — Por que, no Brasil, a PrEP só será distribuída entre os grupos de alta prevalência do HIV — ou entre os “grupos de risco”, tal como tem sido publicado nas notícias veiculadas na imprensa, como Folha de S. Paulo e Veja?

RV — “Grupo de risco” é um conceito que não utilizamos mais na compreensão da epidemia de HIV, por conta do estigma e da culpa que recaem sobre esses grupos populacionais e por causa da falsa sensação de não existência de risco nos demais grupos da sociedade. Por isso, hoje preferimos a abordagem que compreende as peculiaridades e as vulnerabilidades que os grupos chave de alta prevalência apresentam. São grupos chave: os homens que fazem sexo com outros homens, trabalhadores(as) do sexo e pessoas trans, os quais, junto com os casais sorodiscordantes, usuários de drogas e população privada de liberdade, apresentam as maiores concentrações de pessoas vivendo com HIV no País.

O Protocolo Clínico que guiará a distribuição da estratégia no nosso sistema público de saúde, num primeiro momento, prioriza esses grupos chave de alta prevalência e suas parcerias, mas somente quando existir história de relações sexuais penetrativas desprotegidas. O simples fato de pertencer a um desses grupos, sem que haja situações com risco significativo de transmissão do vírus, não significa que existe ali alta vulnerabilidade ao HIV e, por isso, não há indicação para uso da PrEP.

Uma vez que os recursos e o número de comprimidos da PrEP são limitados, optou-se por iniciar implementação da PrEP entre aqueles que mais estão se infectando, onde a sua distribuição terá maior impacto no controle da epidemia. Essa é a recomendação feita pela Organização Mundial da Saúde.

JS — Então, os casais sorodiscordantes podem receber a PrEP? Isso quer dizer que estes casais fazem parte do grupo mais vulnerável a contrair o HIV?

RV — Sim, os parceiros de pessoas que vivem com HIV serão contemplados com a PrEP distribuída pelo Ministério da Saúde, sempre que relatarem relações desprotegidas com seus parceiros. Esse contexto é considerado de alta vulnerabilidade quando a carga viral do soropositivo está detectável ou é desconhecida, fatos associados à má adesão ao tratamento antirretroviral para quem vive com HIV e aos acompanhamentos recomendados. Já nos casos em que há boa adesão ao tratamento por parte do parceiro soropositivo que vive uma relação sorodiscordante, com manutenção da sua carga viral indetectável, não existe risco significante de transmissão do vírus por via sexual desprotegida.

“O Ministério deixa disponível a PrEP para qualquer casal sorodiscordante que tenha relações sem camisinha”

Para não haver dificuldade na determinação de quem vai e quem não vai receber a PrEP, e para garantir a possibilidade da associação de estratégias de prevenção (seguindo o princípio da “prevenção combinada”), sem que uma estratégia se sobreponha à outra, o Ministério deixa disponível a PrEP para qualquer casal sorodiscordante que tenha relações sem camisinha e que tenha interesse.

JS — A PrEP é mais segura do que a camisinha?

RV — Em relação a quê? Em relação ao controle da transmissão do HIV? Sim. Se, para uma comunidade com 1.000 pessoas que apresentam alta vulnerabilidade ao HIV, é utilizada uma campanha de prevenção que utiliza unicamente a recomendação do uso do preservativo em todas as relações sexuais, observaremos uma redução de cerca de 80% no número de novos casos de infecções, em comparação com um período anterior em que não era utilizada nenhuma prevenção.

“A efetividade da recomendação do uso camisinha não é de 100%, porque sempre teremos situações em que ela não será usada corretamente”

A efetividade da recomendação do uso camisinha não é de 100%, porque sempre teremos situações em que ela não será usada corretamente, seja porque o indivíduo não conseguiu usar, não desejou usar ou mesmo porque ao usar ela se rompeu. O fato é que a camisinha não é algo bem aceito da mesma maneira por todas as pessoas. Se, para essa população, for utilizada uma campanha de prevenção que associa a recomendação de preservativos com a PrEP, para aqueles que sabidamente tem problemas com o uso da camisinha, é possível chegar aos zero novos casos de infecção por HIV. Isso aconteceu, por exemplo, no projeto demonstrativo permanente Kaiser, nos Estados Unidos. Associar a recomendação de PrEP para aqueles que não conseguem manter o uso consistente do preservativo é, antes de qualquer coisa, reconhecer que nem todas as pessoas conseguem usar a camisinha de maneira perfeita — e isso, por si só, é uma maneira de dialogar melhor com o público que mais precisa de uma campanha de prevenção.

Entretanto, se a pergunta se refere às outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a PrEP não é nada segura, uma vez que ela só protege do HIV. Por isso, quando recomendamos a PrEP para aqueles que já não estão usando a camisinha adequadamente, estamos conseguindo fazer com que pelo menos a vulnerabilidade ao HIV caia. Além disso, o aconselhamento oferecido durante o acompanhamento da PrEP poderá fazer com que, com o tempo, o uso do preservativo melhore, reduzindo também a vulnerabilidade às outras ISTs, fato que já foi demonstrado em ensaios clínicos.

JS — Como sabemos que a PrEP é segura e eficaz na prevenção do HIV? Quantos estudos foram feitos e qual o número de pessoas acompanhadas nestes estudos? Existe no mundo algum caso de infecção pelo HIV em uma pessoa que estava tomando PrEP corretamente?

RV — Sim, o uso da PrEP para evitar a infecção por HIV em pessoas vulneráveis é considerado bastante eficaz, garantindo uma redução de quase 100% entre aqueles que aderem corretamente aos comprimidos. Além disso, a PrEP é segura, pois não apresenta nenhum evento adverso grave, desde que realizado o acompanhamento recomendado. Esses dados vêm de quatro grandes ensaios clínicos multicêntricos randomizados e de dezenas de projetos demonstrativos, como o PrEP Brasil, realizados em diversos países. Até hoje, tivemos no mundo cerca de 150.000 pessoas que entraram em PrEP. Destes, sem contar os indivíduos que não estavam aderindo corretamente aos comprimidos prescritos, foram relatados apenas quatro casos de infecção pelo HIV apesar do uso da PrEP.

“Nenhuma estratégia resolverá, sozinha, a questão da prevenção”

O fato de haver casos de falha da PrEP não deve ser encarado como motivo para abandonarmos essa estratégia, mas deve servir para nos lembrar que nenhuma estratégia — seja ela a camisinha, a PrEP ou a próxima que ainda vai ser descoberta — resolverá, sozinha, a questão da prevenção, controlando todos os novos casos de HIV no mundo. A associação de estratégias é que poderá resolver. Precisamos compreender que as melhores estratégias de prevenção para um indivíduo são aquelas que ele consegue utilizar de maneira correta e continuada. Preconceitos e julgamentos só funcionam como barreiras para que essas pessoas consigam encontrar as estratégias que melhor funcionarão dentro de cada contexto individual.

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A prevenção ao HIV mudou. Como isso afeta as nossas relações?

Em comemoração ao dia 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, os Núcleos de Educação Comunitária do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP e da Unidade de Pesquisa II do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, com patrocínio da HIV Prevention Trials Network (HPTN), promovem dois encontros para falar sobre:

Sexo, Remédios & HIV

Semelhante ao que ocorreu com a pílula anticoncepcional nos anos 60, estamos assistindo a uma nova onda de medicalização do sexo. Agora se sabe que os remédios antirretrovirais não só tratam a pessoa vivendo com HIV, como também previnem a transmissão sexual.

Cada vez mais autoridades reconhecem que pessoas vivendo com HIV em tratamento eficaz – conhecidos como indetectáveis – não transmitem o vírus. Por sua vez, os negativos agora podem tomar antirretrovirais diariamente para se proteger: a PrEP*. Outra opção para os negativos é a PEP**, o antirretroviral de emergência, método antigo que vem se tornando mais acessível em São Paulo.

Os desdobramentos sobre a incorporação de novas tecnologias em como conduzimos nosso sexo, afetos e relações sociais só estão começando a ser desenhados. Como no caso dos anticoncepcionais, o assunto toca em dois pontos delicados: sexo e opressões sociais.

O quanto as novas tecnologias podem empoderar grupos oprimidos e vulnerabilizados ao HIV? Até que ponto contribuirão para reduzir o estigma e a invisibilidade das pessoas vivendo com HIV? Como está se dando o acesso aos novos métodos?

Programação:

Quarta 7/12 das 19-22h: “Eu sou indetectável”

Quinta 8/12 das 19-22h: “Eu uso Prep” / “Eu usei PEP”

Inscreva-se aqui

 

Convidados:

Mesa “Eu sou indetectável”:

  • Carlos Henrique de Oliveira, é escritor e militante do movimento negro de SP, da Rede de Jovens São Paulo Positivo e da Nova Organização Socialista (NOS).
  • Carué Contreiras, médico sanitarista e pediatra, é coordenador do Núcleo de Educação Comunitária da Unidade de Pesquisa do CRT DST/Aids. Já foi colaborador da Agência de Notícias da Aids.
  • Ésper Kallas, médico Infectologista e imunologista, é Professor Associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Livre-Docente pela FMUSP em 2009. Também é Pesquisador do LIM-60, na Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia, onde realiza projetos de medicina de tradução, trazendo conceitos de ciência básica para aplicações clínicas, especialmente em infecções pelo HIV, HTLV, CMV, vírus herpes, flavivírus, hepatites virais e micobacterioses.
  • Jef Martins, relações públicas, sempre trabalhou com comunicação e acredita que é através dela que as diferenças passam a conviver de forma harmônica. Em 2015 participou da campanha “Cartaz HIV Positivo” comunicando através dessa ação sua sorologia positiva para o mundo. De lá pra cá, vem praticando o que batiza de “Ativismo de APP”, onde pretende através do micro, trocar com as pessoas sobre como é viver com HIV, prevenção combinada, e outras cositas más!
  • Micaela Cyrino, artista plástica e ativista.

 

Mesa “Eu uso PrEP” / “Eu usei PrEP”:

  • Artur Zalewska, criador do grupo de Facebook Fórum PrEP e voluntário da pesquisa PrEP Brasil, membro do Conselho de Acompanhamento Comunitário do CRT-DST/Aids e da FMUSP para pesquisas em HIV/Aids
  • Flávia Carvalhães já se sentia uma mulher desde de Criança, hoje cresceu e se tornou a Mulher que é hoje! Servidora, é uma pessoa reservada, guerreira, educada, carismática, atenciosa e que n aceita injustiças. Tem sonhos de fazer algumas cirurgias. É muito família e adora fazer amizades.
  • Lua Lucas, atriz, performer e cantora trans. Artivista militante da causa trans. Criou na funarte Sp a ocupação de gênero e sexualidade: oCU-Pah e vem lutando pela representatividade trans na arte e em todos os outros espaços. Formada pela Casa das artes de Laranjeiras no Rio, já encenou transexualidades nas pistas do Teatro Oficina Uzyna Uzona, em performances contra o machistério Temeroso dirigidas por Cibelle Forjaz e principalmente em festas LGBTQIA+. Acredita que a mulher trans feliz é um ato político e revolucionário!
  • Márcio Caparica, editor-chefe do Lado Bi, programa de rádio online e blog. Como designer gráfico e webdesigner, no mundo da produção jornalística, sempre ficou com a parte de deixar tudo lindo para os leitores, trabalhando na edição de arte de revistas como Recreio, Men’s Health e Runner’s World. Depois que foi se aventurar no mundo das agências e editoras menores, descobriu que, embora deixasse a revista linda, não havia senso estético que salvasse texto tosco. Então começou a correr atrás de maneiras de produzir o tipo de conteúdo que gostaria de encontrar.
  • Piero Mori, paulistano, tem 33 anos e é desenvolvedor web formado pela Universidade Mackenzie. Foi fundador e diretor do XTeens, ONG dedicada ao apoio de jovens e adolescentes LGBTs. É membro do Conselho de Acompanhamento Comunitário do CRT-DST/Aids e da FMUSP para pesquisas em HIV/Aids
  • Rico Vasconcelos, médico Clínico Geral e Infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP é hoje Médico Supervisor do Serviço de Extensão e Atendimento ao Paciente com HIV/Aids (SEAP HIV/Aids, Ambulatório de HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP), trabalhando com atendimento de pessoas vivendo com HIV/Aids e com a formação de médicos residentes em infectologia e alunos da graduação da FMUSP. Além disso trabalha com prevenção de HIV desde 2010 quando participou como médico subinvestigador do iPrEX (Iniciativa da Profilaxia Pré Exposição). No momento atuando como coordenador clínico do centro da USP dos projetos PrEP Brasil e HPTN 083.

 

Local:

Faculdade de Medicina da USP
Rua Dr. Arnaldo 455, prédio central
Metrô Clínicas (saída Faculdade de Medicina)

7/12: Anfiteatro de Microbiologia – 2º andar – sala 2104
8/12: Anfiteatro dos Paramédicos – 4º andar – sala 4303

* PrEP é a profilaxia PRÉ-exposição, uso contínuo de antirretrovirais por pessoas negativas para o HIV, com objetivo de prevenção.
** PEP é a profilaxia PÓS-exposição, uso emergencial de antirretrovirais por 28 dias, que deve ser começado em até 72 horas após uma situação de sexo sem camisinha.


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Alex, 27, é diretor de marketing. Ele foi diagnosticado aos 23 anos e fez aqui um relato franco e emotivo da vida antes do HIV, do terrível dia do diagnóstico e de como agora ele está vivendo uma vida normal.

 

Pré-HIV

Minha primeira experiência com o teste de HIV foi com um médico em Norfolk tirando meu sangue e dizendo “você é gay então você provavelmente tem HIV” e, em seguida, me entregando um folheto sobre ser soropositivo. Ninguém quer escutar isso com 16 anos! Mas ele estava errado: cinco dias depois eu recebi o resultado dizendo que eu era soronegativo. No entanto, a experiência foi tão ruim que eu não fiz o teste novamente por um bom tempo depois disso.

 

Os sinais

Passei alguns anos vivendo em Londres antes de voltar para Norwich, onde a vivia muito bem – mantinha uma dieta saudável e ia sempre à academia para perder peso. Foi então notei que a perda de peso foi realmente muito dramática e que eu constantemente ficava resfriado. Aliás, não fui só eu que percebeu — meu chefe, no trabalho, disse: “Alex, você é a pessoa mais em forma que eu conheço!”

Me sentindo cansado e com erupção cutânea por todo o meu corpo, fui a um clínica médica, onde me deram algumas doses de penicilina. Depois de mais alguns exames que não deram resultado, meu médico me pediu para fazer um teste de HIV. Voltei ao hospital onde fiz meu primeiro teste de HIV, um dia antes de começar em um novo emprego — e muito feliz por essa mudança.

Na segunda-feira, eu estava no meu primeiro dia no trabalho novo, quando recebi um telefonema. Era o resultado do meu teste, que veio positivo. Eu tinha HIV. O primeiro pensamento que atravessou minha mente foi que eu não poderia ter filhos. (Agora sei que não é verdade, que posso ter filhos.)

 

O diagnóstico

Em geral, um diagnóstico nunca é revelado pelo telefone. Mas meu diagnóstico era diferente da maioria. Recebi uma mensagem de texto do National Health Service, pedindo-me para ligar para um número específico por volta das 17:15h.

Quando liguei, pediram-me para ir visitá-los, mas expliquei que estava em Londres e que não poderia voltar naquela hora a Norwich, às 17h em plena segunda-feira!Eu me lembro que estava passando em frente ao Costa Coffee em Tottenham Court Road. A verdade é que, naquele momento, o pensamento de que eu era positivo sequer passou pela minha cabeça. Foi então que ele me disse:

“– Sinto muito por ter que lhe dizer isso, mas seu teste deu positivo.”

Levei um momento para processar essa informação. Então, caiu a ficha. Me lembro da sensação de meu coração pulsando e da minha mente girando fora de controle. Eu só queria era chegar em casa, estar em algum lugar seguro. Tentei ligar para meu namorado, mas ele não respondeu. Liguei novamente e ele atendeu. Meu namorado soube instantaneamente a razão da minha ligação (ele sabia que eu havia feito o teste de HIV) e disse apenas:

“– Vá pra casa. Eu estou saindo do trabalho agora.”

Durante minha viagem de metrô, eu não senti nada. Estava entorpecido. Comecei a ler o jornal, sem dar importância para as notícias. Ao chegar em casa, tentei fingir que estava tudo bem, fazendo tarefas quotidianas, como esvaziar a máquina de lavar louça. Foi quando meu namorado chegou que eu desabei, e chorei como nunca tinha chorado antes.

No dia seguinte ao diagnóstico, fui até o hospital durante o horário de almoço. Hoje, sei que ir ao hospital fazer exames é rotina, mas o que não era rotina era o médico me levar correndo para a emergência. Meu exame de sangue mostrou uma contagem de plaquetas tão baixa que eu estava com trombocitopenia. A contagem habitual de plaquetas no corpo humano é de 150.000 a 450.000 plaquetas por microlitro de sangue, a minha contagem estava em 7.000. Mais tarde, descobrimos que isso estava acontecendo porque o HIV estava atacando as plaquetas e matando-as, então as únicas plaquetas que havia no meu corpo eram muito novas. Se eu tivesse sofrido uma lesão nessas condições, poderia ter sido fatal.

Eu tinha aids avançada e estava em estado crítico. Tudo o que eu podia pensar na época era o fato de que eu estava apenas na minha pausa para o almoço do meu novo emprego e não parecia que eu poderia voltar para o escritório em breve.

 

A reação do meu parceiro

Ele entrou na porta e eu sabia que se eu olhasse para ele nos olhos, eu iria desabar. E foi o que aconteceu. Ele me deitou na cama e me segurou enquanto eu chorava. Eu não conseguia pensar no futuro. Hoje, não tenho idéia do que teria acontecido se ele não estivesse. Meu parceiro foi maravilhosamente solidário e protetor. Nós estávamos juntos há alguns meses e, depois disso, ficamos juntos por mais um ano, antes de terminar por razões em nada relacionadas com o HIV. Durante todo o processo, ele foi incrível. Quando me disseram que eu estava seriamente doente, ele sugeriu que eu fosse morar com ele.

 

Reação no trabalho

Todos me apoiaram muito quando voltei ao trabalho, mas eu havia mentindo para eles. Eu estava tão envergonhado que não queria correr o risco de que pensassem qualquer coisa ruim a meu respeito. Disse a eles que tinha uma “anomalia imunológica” — uma história que os médicos do hospital me ajudaram a criar. Como eu trabalhava para uma pequena empresa, sem um departamento de RH, meu chefe era a pessoa que eu teria de contar. E eu simplesmente não queria fazer isso. Não queria que ninguém soubesse.

Só fui contar sobre o HIV em meu novo emprego, onde recebi um apoio incrível. Eles me dão a flexibilidade que eu preciso para gerenciar minha condição, e sou muito grato por isso. Quem vive com HIV no Reino Unido pode se beneficiar da Equality Act 2010, porém, apenas se revelar sua condição sorológica. Ou seja, para ser protegido pela lei, você tem que revelar que tem HIV.

Passei uma semana no hospital e, por isso, tive que inventar uma história para meus pais, porque eu simplesmente não queria contar a eles que tinha sido diagnosticado com HIV. Felizmente eu me recuperei. Logo comecei o tratamento antirretroviral. Depois de apenas oito semanas eu estava indetectável.

 

Reação de minha mãe e meu pai

Eu contei a meus pais há cerca de um ano, quando me senti preparado para isso. Eu estava solteiro nesta altura e ainda estava reconstruindo minha vida com eles, depois de uma ruptura bastante grosseira. Embora trabalhando para o Terrence Higgins Trust, ainda sentia medo da rejeição, algo que é quase paralisante — eu ainda tinha dificuldade em contar às pessoas que tinha HIV.

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Alex agora trabalha como voluntário no Terrence Higgins Trust. (Imagem: Terrence Higgins Trust)

Divulgar o status é como sair do armário como gay, mas possivelmente dez vezes pior. Meus pais são pessoas incríveis, carinhosas e atenciosas, que têm me apoiado por toda minha vida. Mesmo assim, contar sobre o HIV foi assustador. Quando contei à minha mãe, ela ficou chocada. Então, fiz o que sempre faço, que é ir para o modo educacional. Como eu sei de todos os fatos, é difícil não começar a falar sobre ser indetectável e viver uma vida normal.

Minha mãe foi se deitar, dizendo que precisava de tempo para processar essa informação. No dia seguinte, discutimos: ela estava muito chateada por eu não ter lhe dito mais cedo, ter contado que eu estava em uma condição de risco de vida e que ela não sabia, que eu lutei tanto contra tudo isso sem ela ao lado.  A reação de meu pai foi muito semelhante. Ambos se sentiram magoados por não terem sido capazes de me proteger em um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer tudo de novo, meus pais saberiam desde o primeiro dia. Não tenho ideia de por que não pensei que eles poderiam dar apoio. Mas sei que o estigma em torno do HIV é forte e é assustador.

Por outro lado, fazer o teste não é assustador. Agora que eu sei que meu status de soropositivo, faço tratamento e estou indetectável, sinto um peso fora dos meus ombros, porque sei que não posso transmitir o vírus.

 

Viver com HIV

Dizer que é fácil viver com HIV seria uma mentira. Mas não é mais uma sentença de morte. Viver com HIV significa levar mais algumas em consideração. Com um novo emprego, por exemplo, tenho que considerar cuidadosamente se o novo empregador será simpático com a minha condição. Quando saio de férias para viajar, tenho que verificar e me certificar de que o país de destino aceita viajantes com HIV e levando a minha medicação. Há alguns países para os quais não posso ir, especialmente no Oriente Médio (o que já afetou meu trabalho). Eu tive que visitar um psicólogo para trabalhar com questões de autoestima associadas ao estigma. Tive que experimentar alguns tipos diferentes de medicação para encontrar aquelas com menos efeitos colaterais.

Sempre me lembrarei de alguém me dizendo: “Chega uma hora que você para de pensar no HIV todos os dias”, ao que minha resposta foi: “Mas as pílulas que eu tomo todos os dias são um lembrete diário do que eu tenho dentro de mim”. Porém, agora posso dizer com 100% de certeza que eles estavam certos. O HIV não é mais um fator importante em minha vida. Sim, os relacionamentos são difíceis, uma vez que ainda há muito medo entre as pessoas que são soronegativas e, sim, os relacionamentos nem sempre funcionam como esperado. Mas também é verdade que algumas vezes nos damos bem com caras soronegativos e algumas vezes com caras soropositivos. Só estou feliz por saber minha condição e oferece risco para mais ninguém.

Ser diagnosticado com HIV acabou sendo um momento real na minha vida, partir do qual eu comecei a tomar o controle dela. Me fez crescer muito rapidamente e assumir a responsabilidade pelas minhas ações. Comecei a me respeitar como um adulto e como profissional. Como fui diagnosticado aos 24 anos de idade, deu-me algo para lutar. Algo que vou continuar a fazer até vencer esta condição ou, pelo menos, até terminar o estigma.

 

Olhando para o futuro

Sou uma pessoa muito afortunada, que tem uma família surpreendente, amigos maravilhosos e um trabalho que amo. Estou prestes a me mudar de Londres novamente, desta vez para ir para Brighton, algo que estou realmente ansioso para fazer. Espero viver uma vida longa e feliz, fazendo o que amo ao lado das pessoas que amo.

Infelizmente, com o Brexit, não há mais clareza sobre cuidados de saúde universais. Posso ser limitado quanto a onde posso viver, mas eu não vou deixar que isso amorteça os meus sonhos de explorar o continente.

Em termos de futuro do HIV, quero viver em um mundo onde nós consigamos parar a propagação do HIV — e, espero, onde possamos ser curados dele. Se todos fossem testados e se pudéssemos garantir que todos os diagnosticasos positivos recebam medicação — e, portanto, tornem-se incapazes de transmitir –, seríamos capazes de interromper a propagação do HIV em questão de anos. Por isso, exorto todas as pessoas a fazerem o teste!

Em 21 de novembro de 2016 por  para o Metro.co.uk


idibell

Mais de 2 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) em 2015, sendo a transmissão sexual o principal canal de infecção. Pesquisadores do Grupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do Instituto de Pesquisa Biomédica de Bellvitge (IDIBELL), liderados pelo Dr. Daniel Podzamczer, avaliaram a velocidade com que um novo medicamento antirretroviral, o Dolutegravir, é capaz de reduzir a carga viral no sêmen, uma área do corpo considerada um reservatório do vírus e os medicamentos têm mais dificuldade em chegar. Os resultados, publicados no Journal of Infectious Diseases, mostram o potencial desses novos tratamentos em reduzir as chances de transmissão sexual do vírus.

“No caso de casais sorodiscordantes, enquanto a carga viral do parceiro diminui, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome profilaxia, além dos preservativos”

Os tratamentos antirretrovirais atuais são capazes de diminuir a carga viral do sangue e torná-la indetectável dentro de seis a nove meses do início do tratamento na maioria dos pacientes, embora se estime que cerca de 5 a 25% dos pacientes mantenham níveis detectáveis de vírus no sêmen após este período, devido a vários fatores que nem sempre são conhecidos. “Portanto, no caso de casais sorodiscordantes ,nos quais apenas um dos parceiros é portador do vírus, enquanto a carga viral do parceiro diminui tanto no sangue quanto nos reservatórios, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome medicamentos antirretrovirais como profilaxia, além dos preservativos”, diz o Dr. Podzamczer.

No entanto, existem novos fármacos, conhecidos como inibidores da integrase, que podem agir muito mais rapidamente. “Neste estudo, nos concentramos em avaliar a taxa de queda da carga viral em pacientes que receberam esses novos tratamentos, em especial o Dolutegravir”, explica o Dr. Arkaitz Imaz, primeiro autor do estudo. “Medimos a carga viral no sangue e no sêmen antes de iniciar o tratamento, aos 3 dias, aos 7, aos 14, no primeiro mês, no terceiro mês e no sexto mês. Sabemos que a carga viral cai rapidamente durante os primeiros dias e semanas. Adaptando um modelo matemático-estatístico complexo aos nossos dados e às características dos nossos pacientes, foi possível obter um modelo cinético específico da carga viral para cada fluído, sangue e sêmen, sob este regime de tratamento.”

dolutegravir

Os pesquisadores observaram que, embora a taxa de queda na carga viral seja significativamente maior no sangue do que no sêmen durante os primeiros dias, ela é é igual durante a segunda fase de queda. No entanto, apesar da diferença de velocidade, a carga viral se torna indetectável mais rapidamente no sêmen do que no sangue porque os valores de base são muito mais elevados no sangue, ou seja, há muitos mais vírus a eliminar. “Esses resultados sugerem a possibilidade de reduzir o tempo de profilaxia ao usar esses novos tratamentos”, observam os pesquisadores.

“A concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”

Por outro lado, o padrão de queda é muito mais homogêneo no sangue do que no sêmen. A heterogeneidade no sêmen demonstra a natureza diferencial e mais imprevisível deste fluído como reservatório do vírus. Nesse sentido, é interessante notar que não existe uma correlação clara entre a concentração de medicamento no sêmen e a diminuição da carga viral: “a concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”, explica o Dr. Podzamczer, “porque mesmo que apenas 7 a 8% do medicamento do sangue chegue ao sêmen, a proporção de medicamento ativo no sêmen é muito maior do que a observada no sangue. Isso era algo que não sabíamos até agora.”

“Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão”

Atualmente, inibidores de integrase são recomendados por todas as diretrizes clínicas como a primeira linha de tratamento. “Nosso estudo reforça essa decisão, especialmente à luz do cenário atual de transmissão do HIV. Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão, especialmente entre os grupos de alta prevalência do HIV”, argumenta o Dr. Imaz. No editorial que o Journal of Infectious Diseases dedica ao artigo, ressalta-se a necessidade de replicar este estudo com outros novos fármacos atualmente em desenvolvimento, tal como os antirretrovirais de longa duração, para avaliar o potencial destas novas terapias e sua atividade neste reservatório viral.

O trabalho foi realizado em colaboração com o Dr. Jordi Niubó, também membro doGrupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do IDIBELL, e com os grupos de pesquisa da Dra. Angela D. Kashuba, do Centro de Pesquisas sobre Aids da Carolina do Norte,  e o Dr. Javier Martínez-Picado, do IrsiCaixa Aids Research Institute.

Em 22 de novembro por IDIBELL

Fonte:  Imaz A, Martinez-Picado J, Niubó J, Kashuba AD, Ferrer E, Ouchi D, Sykes C, Rozas N, Acerete L, Curto J, Vila A, Podzamczer D. HIV-1-RNA Decay and Dolutegravir Concentrations in Semen of Patients Starting a First Antiretroviral Regimen. J Infect Dis. 201


Aidsmap

Em face das extensas pesquisa mostrando que as pessoas que vivem com HIV e que estão em terapia antirretroviral com carga viral estável e indetectável têm uma probabilidade extremamente baixa de transmitir o vírus, a maioria dos participantes da IDWeek 2016, em Nova Orleans, disseram acreditar que ainda deveriam ser aconselhados a usar preservativos — uma proporção que aumentou depois de um debate em que se discutiram as evidências.

Roy Gulick e Lisa Winston na IDWeek 2016. (Foto por Liz Highleyman, hivandhepatitis.com)

Lisa Winston, da Universidade da Califórnia em São Francisco, argumentou sobre o lado “a favor”, enquanto Roy Gulick da Weill Medical College da Universidade de Cornell tomou a posição “contra”. Antes do debate, os participantes do auditório foram solicitados a votar se acham que é totalmente desnecessário que homens com carga viral indetectável usem preservativo, se é desnecessário quando a carga viral for continuamente indetectável por um ano ou se os preservativos sempre devem ser usados. De início, 63,5% votaram por usar sempre preservativo, 12,8% disseram que era completamente desnecessário e 23,6% achavam que era desnecessário em determinadas condições.

 

Continuar a usar camisinha

A Dra. Winston deu três argumentos para o uso contínuo do preservativo:

  • Os preservativos previnem a transmissão de outras doenças além do HIV.
  • A carga viral indetectável pode tornar-se detectável.
  • A transmissão do HIV é teoricamente possível quando a carga viral é indetectável no plasma sanguíneo ou no sêmen.

Doenças sexualmente transmissíveis, além do HIV, foram a principal preocupação da Dra. Winston. Ela chamou atenção para o recente relatório anual de vigilância de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, que mostrou que os casos de clamídia, gonorreia e sífilis nos Estados Unidos atingiram seu nível mais alto. Ela também citou uma análise do programa permanente de profilaxia pré-exposição (PrEP) de São Francisco, que descobriu que, após seis meses em PrEP, 30% dos participantes foram diagnosticados com pelo menos uma DST, um número que aumentou 50% após 12 meses — mas não houve novas infecções pelo HIV.

“Acho que muitas pessoas poderiam dizer que subestimamos as outras DST”, disse Winston. “Houve essa ideia de que — contanto que você não contraia o HIV — embora seja bom evitar outras DSTs, podemos muito bem tratá-las e por isso elas não são tão importantes. Mas eu acho agora estamos apreciando o quão assustadoras algumas destas outras DSTs podem ser.” Relatos recentes têm descrito vários casos de sífilis ocular em Seattle e São Francisco, enquanto a taxa de sífilis congênita transmitida de mulheres grávidas para seus bebês está aumentando. “Sífilis pode cegar”, disse Winston.

A gonorreia está se tornando cada vez mais resistente aos medicamentos. Atualmente, há apenas um regime combinando de duas drogas recomendado nos Estados Unidos, mas funcionários de saúde pública no Havaí identificaram recentemente o primeiro grupo de casos de gonorreia com resistência a ambos os medicamentos.

Além disso, há novas DSTs emergentes, incluindo os vírus ebola e zika. Foram notificados casos em que o zika é eliminada no sêmen mesmo após meses da infecção. A duração total do período de infecciosidade ainda é desconhecida. O vírus da hepatite C também emergiu como outra importante DST, sendo o sexo anal sem preservativo um dos vários fatores de risco.

“Parece coisa antiquada estar falando sobre preservativos, mas acontece que a camisinha funciona — elas funcionam para prevenir muitas, senão a maioria, das infecções sexualmente transmissíveis”, disse Winston. “Nossa outra opção é dizer às pessoas para parar de ter relações sexuais.”

Winston também argumentou que a carga viral indetectável do HIV pode tornar-se detectável por uma variedade de razões, incluindo a falta de doses de antirretrovirais e outras doenças concorrentes. Um estudo que analisou mais de 14.500 pessoas sob tratamento antirretroviral em seis clínicas de cuidados de saúde especializadas em HIV constatou que a carga viral destas pessoas excedia 1.500 cópias/ml durante 23% do tempo, 79% das pessoas tinham carga viral detectável e 17% tinham carga viral acima de 1.500 cópias após um teste indetectável.

Finalmente, a Dra. Winston sugeriu que casos raros de infecção pelo HIV podem ocorrer mesmo quando a carga viral é suprimida. Estudos têm mostrado que alguns homens podem ter HIV detectável no seu sêmen, mesmo quando a carga viral no plasma sanguíneo está abaixo do limite de detecção. Embora o estudo Partner não tenha observado infecções pelo HIV geneticamente relacionadas entre os casais sorodiscordantes, o limite superior do intervalo de confiança permitiria 0,3 novas infecções por 100 casais-ano ou 0,71 por 100 casais-ano, considerando apenas o sexo anal sem preservativo.

“Se você observar pessoas suficientes por um período suficientemente longo de tempo, provavelmente verá transmissões ocasionais — elas serão raras, mas elas provavelmente ocorrerão”, concluiu a Dra. Winston. “Você gosta de risco quando aconselha seus pacientes?”

 

A camisinha não é necessária

O Dr. Gulick assumiu o papel de oposição, enfatizando que vários estudos a respeito da transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes não observaram novas infecções ligadas quando o parceiro soropositivo estava em tratamento antirretroviral e carga viral indetectável.

“A camisinha certamente funciona, mas você tem que colocá-las corretamente, caso contrário elas podem falhar”, disse ele. “Vamos falar a verdade: ninguém quer usar camisinha se não for preciso.”

Ainda no ano 2000, pesquisadores relataram que entre uma coorte de mais de 400 casais heterossexuais sorodiscordantes em Rakai, Uganda, nenhum caso de transmissão do HIV ocorreu quando a carga viral estava abaixo de 1.500 cópias/ml. Em janeiro de 2008, a Swiss Aids Commission publicou a famosa Declaração Suíça, afirmando que uma pessoa infectada pelo HIV em tratamento antirretroviral potente “não é sexualmente infecciosa”, desde que mantenha uma carga viral indetectável e não tenha outra DSTs simultaneamente ao HIV.

O HPTN 052, um grande estudo randomizado sobre o tratamento antirretroviral como prevenção, analisou 1.763 casais sorodiscordantes heterossexuais na África, Ásia e nas Américas. O parceiro soropositivo foi aleatoriamente designado para iniciar o tratamento antirretroviral imediatamente ou para esperar até que a contagem de CD4 fosse inferior a 250 células/mm³. Myron Cohen relatou pela primeira vez os resultados na conferência da International Aids Society de 2011, mostrando que o tratamento antirretroviral iniciado imediatamente reduziu o risco de infecção em 96%.

Uma metanálise canadense de seis estudos de coorte envolvendo um total de mais de 7.000 casais sorodiscordantes encontrou zero nova infecção quando o parceiro soropositivo tinha carga viral indetectável. Mais recentemente, o estudo Partner analisou mais de 1.100 casais sorodiscordantes, incluindo 340 casais homossexuais, em que o parceiro soropositivo tinha carga viral suprimida. Depois de cerca de 58.000 atos sexuais totais relatados, o estudo não documentou qualquer caso de transmissão do HIV entre os casais.

 

Vivendo perigosamente

A Dra. Winston ponderou que parceiros supostamente monogâmicos não são, de fato, sempre monogâmicos. De fato, o HPTN 052 documentou 26 infecções não ligadas entre os parceiros e o estudo Partner viu 11 dessas infecções, nas quais os parceiros soronegativos adquiriram o HIV de alguém que não era seu parceiro estável. “A monogamia é complicada”, disse ela. “Às vezes, mesmo quando acredita-se no contrário, as pessoas acabam por ter relações sexuais com alguém que não é seu cônjuge ou parceiro estável.”

A resposta do Dr. Gulick enfatizou os riscos comparativos, observando que as pessoas muitas vezes se preocupam com as coisas erradas, como acidentes de avião, por exemplo, mesmo quando os acidentes de carro são muito mais comuns. Ele acrescentou que, embora as taxas de incidência de DST em estudos com o Truvada sejam muitas vezes altas, o número de infecções pelo HIV entre as pessoas que utilizam este medicamento consistentemente tem sido extremamente baixo ou nulo. As DSTs são geralmente tratáveis. Além disso, as pessoas que tomam PrEP podem ser testadas para DSTs mais frequentemente e tratadas mais rapidamente, para que assim se antecipe o cuidado das DSTs as previnam de se disseminar com o passar do tempo.

“A Dra. Lisa Winston tentou nos assustar, do mesmo jeito que as pessoas têm feito há muitos anos”, disse o Dr. Gulick. “Não devemos perder tempo nos preocupando com coisas que não acontecem com muita frequência. Eu apresentei os dados: dentre mais de 15 mil casais sorodiscordantes, todos com carga viral suprimida sob terapia antirretroviral, quantos transmitiram o HIV ao seu parceiro soronegativo? Nenhum.”

Apesar da abundância de provas oferecidas pelo Dr. Gulick, o público da IDWeek permaneceu cauteloso. Repetindo a mesma pesquisa após o debate, a proporção que recomendaria que os homens soropositivos com carga viral indetectável sempre usassem preservativos subiu para 69,6%.

É importante notar que a pergunta que costava no programa da IDWeek tinha sido formulada como: “Homens com carga viral do HIV indetectável precisam usar camisinha?”, enquanto a pergunta projetada na tela durante a sessão era: “Homens soropositivos com carga viral indetectável devem ser aconselhados a usar preservativos para prevenir a transmissão do HIV?” Essas perguntas podem ter respostas diferentes, uma vez que a razão mais convincente para se usar preservativos pode ser prevenir doenças que não o HIV.

Também vale a pena notar que os profissionais de saúde podem ser mais avessos ao risco relacionado à saúde do que a população em geral — especialmente quando se trata de sexo e, ainda mais, sexo gay. Em outra apresentação na conferência HIV Research For Prevention (HIVR4P), pesquisadores relataram resultados de um levantamento feito por estudantes de medicina que mostrou que eles estariam menos dispostos a prescrever PrEP a gays — precisamente o grupo mais necessitado de um método de prevenção eficaz — que não eram monogâmicos e que não usavam ou planejaram parar de usar preservativos, mostrando que, em alguns casos, a ideologia pode vencer as evidências. [IDWeek é um evento direcionado para profissionais de saúde.]

 

Por Liz Highleyman em 2 de novembro de 2016 para AidsmapReferência: Do HIV viral load undetectable males need to wear a condom? Clinical Controversies. IDWeek, session 807-808, 2016.


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Um competidor da próxima temporada da série de reality show de namoro Finding Prince Charming é soropositivo, People confirmou. Lance Bass e Robert Sepúlveda Jr., apresentador do programa, foi parado pela People na segunda-feira e falou do assunto com exclusividade, depois que a notícia foi relatada pela primeira vez pelo TMZ no domingo.

“É verdade”, disse Bass, 37 anos, que está pronto para apresentar a nova e pioneira série gay de relacionamentos. “Esta é uma das coisas que eu amo sobre o programa — é um reality show divertido, é dramático, mas há muita emoção nele e enredos incríveis que vão fazer você derramar lágrimas. E uma delas é descobrir que o cara é soropositivo.”

“Alguém que é soropositivo não é digno de amor?”

Sepúlveda Jr., modelo de moda e designer de interiores, disse à People que a notícia não mudou a maneira como ele abordou o competidor que vive com HIV. “Pra mim, é tipo: alguém que é soropositivo não é digno de amor?” disse Sepúlveda Jr., 33. “Essa é realmente a questão, e isso não importa para mim. Ser Prince Charming é aceitar as pessoas. E é assim que eu sou.”

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Robert Sepúlveda Jr.

“Ter uma doença não é razão para ser empurrado para longe.”

Sepúlveda Jr. também disse que a notícia não alterou a dinâmica entre os competidores. “Na comunidade gay, assim como em qualquer comunidade, ter uma doença não é razão para ser empurrado para longe”, disse ele. “Mais uma vez, eu sendo o Prince Charming — o cara que todo mundo está competindo por sua atenção — não vou deixar de namorar alguém porque é soropositivo. Isso é ridículo. É de fato um estigma que temos de resolver.”

“E isso é que é ótimo: lutar contra esses estigmas”, acrescentou Bass. “O que é importante sobre este momento é a fraternidade que de fato tem se formado na casa com esses caras por conta dessa situação. É uma coisa bonita de se ver.” Bass acha que isso vai entrar em ressonância com os espectadores — e educá-los também.

“Acho que vamos educar um monte de gente.”

“Todos nós conhecemos alguém que está vivendo com HIV e acho que o estigma ainda é muito ruim lá fora — as pessoas são tão ignorante sobre isso”, disse ele. “Para nós, obviamente, não importa de modo algum. Já estamos habituados com o assunto. Mas acho que vamos de fato educar um monte de gente. Estou animado para as pessoas assistirem especialmente a este episódio.”

“Vamos ver críticos, vamos encontrar inimigos, mas precisamos seguir em frente.”

E eles estão preparados para a reação que o show pode enfrentar.”Vamos ver críticos, vamos encontrar inimigos, mas precisamos simplesmente seguir em frente”, disse Sepúlveda Jr. “Este é um reality show que vai ajudar a comunidade LGBT. É mais um passo no entretenimento LGBT.”

Sepúlveda Jr. também abordou a possibilidade dos participantes namorarem entre si. “Pensamos nisso, mas se os caras se apaixonarem um pelo outro, então ótimo!”, disse ele. “Ainda assim, eu aprecio aqueles que permanecerem fiéis ao fato de que eles vieram aqui por mim e para encontrar um amor.”

Quanto à Bass, ex-membro do NSYNC, ele disse estar emocionado com a oportunidade de apresentar o programa. “Eu sempre quis fazer um programa como este, porque tem tudo a ver com a realidade… Eu estou obcecado com isso!”, disse ele. “Eu amo poder fazer parte disso porque eu já encontrei o meu ‘príncipe encantado’ e eu estou muito bem casado, de modo que poder ajudar alguém a encontrar o seu amor vai ser muito divertido. Vou ser seu braço direito por uma temporada inteira!”

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Finding Prince Charming estreia em 8 de setembro de 2016 Sept. 8 às 21h UTC -4 no canal Logo.
Por Lanford Beard e Aurelie Corinthios em 29 de agosto de 2016 para People