Canadá reconhece que indetectável é intransmissível

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]O[/mks_dropcap] potencial de transmissão sexual do HIV quando uma pessoa que vive com HIV faz tratamento antirretroviral e mantém sua carga viral indetectável é “insignificante”, confirmou a Agência de Saúde Pública do Canadá, em uma revisão feita para o Departamento de Justiça do país. Além disso, as autoridades canadenses afirmaram que risco de transmissão do HIV, a partir de uma pessoa em tratamento antirretroviral mas sem carga viral indetectável, é “baixo” — seguindo a definição de carga viral indetectável representa uma contagem inferior à 200 cópias/ml.

As expectativa das autoridades canadenses é que essas afirmações, baseadas em evidências científicas, ajudem a reduzir a criminalização da não divulgação da condição sorológica generalizada no Canadá. Lá, as pessoas podem ser processadas por não revelarem o seu estado soropositivo quando se envolvem em atividades sexuais que representam alguma “possibilidade realista” de transmissão do HIV.

Para isso, a Agência de Saúde Pública do Canadá realizou uma revisão sistemática, a fim de identificar as revisões de estudos que contém dados que permitissem calcular o risco absoluto de transmissão sexual do HIV entre parceiros sexuais sorodiscordantes. Foram incluídos estudos publicados até abril de 2017. Como os autores reconhecem, isso significa que alguns dos dados recentes mais importantes, parte final dos estudos Parter 2 e Opposites Attract, não estão incluídos. Todavia, uma vez que não ocorreu qualquer caso de transmissão do HIV a partir de pessoas com cargas virais indetectáveis ​​nesses estudos, adicionar os dados destes estudos simplesmente acrescentaria que apontam na mesma conclusão. Diante disso, as autoridades canadenses diferenciaram alguns cenários possíveis:

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]N[/mks_dropcap]o primeiro deles, o parceiro sexual soropositivo faz tratamento antirretroviral e tem sua carga viral suprimida, indetectável. Nesse caso, baseando a estimativa nos dados mais antigos dos estudos Partner e Opposites Attract, nos quais pessoas com cargas virais abaixo de 200 cópias/ml foram monitoradas a cada seis meses e, no fim das contas, apresentaram zero transmissão do HIV. Se os dados mais recentes do Partner 2 e Opposites Attract fossem incluídos, o intervalo de confiança seria ainda maior, mas, mesmo assim, a estimativa pontual de 0,00 não mudaria. Por isso, os autores descrevem o risco de transmissão nestas circunstâncias como “insignificante” — mesmo sem uso do preservativo.

O segundo cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral e apresenta níveis variados de carga viral. Diante de situações assim já foram observadas algumas transmissões do HIV em estudos científicos: foram 23 transmissões, comprovadas geneticamente, em 10.511 pessoas-ano de acompanhamento. A incidência estimada de 0,22 transmissões por 100 pessoas-ano é quase insignificante. Entretanto, as pessoas nessas coortes geralmente apresentavam altos níveis de adesão ao tratamento e altos níveis de supressão da carga viral, o que quer dizer que o potencial de risco de transmissão, nesses casos, pode ter sido subestimado.

O terceiro e cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral, tem níveis variados de carga viral e usa preservativos. Para calcular este risco, as autoridades se basearam em uma revisão sistemática feita em 2012, que modelou o efeito combinado da terapia antirretroviral e dos preservativos, em conjunto, para derivar os riscos por ato. Foi observada uma variação de 0,003 transmissões por mil atos para o sexo vaginal insertivo e 0,11 transmissões por mil atos  para sexo anal receptivo. Estes riscos foram descritos como “baixo”.

A quarta situação diz respeito ao sexo com uso de preservativos com um parceiro soropositivo que não faz tratamento antirretroviral. Aqui, as autoridades apontaram para as conclusões de uma revisão da Cochrane Collaboration, de 2012, que ainda fornece as melhores evidências sobre essa questão: ela constatou que entre casais sorodiscordantes que relataram “sempre” usar preservativos, havia 1,14 transmissões de HIV por 100 pessoas-ano. As autoridades canadenses descrevem esse risco como “baixo”.

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]O[/mks_dropcap] Departamento de Justiça do Canadá compreendeu as conclusões das autoridades médicas e declarou: “A lei criminal não deve ser aplicada a pessoas vivendo com HIV que tenham praticado atividade sexual sem revelar sua condição, desde que tenham sua carga viral suprimida (ou seja, com menos de 200 cópias/ml de sangue), uma vez que não há uma possibilidade realista de transmissão do HIV nessas circunstâncias.”

Carta de uma leitora: não estamos juntos à toa

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]”E[/mks_dropcap]m 2017, meu esposo e eu vivíamos mais um ano de nossas vidas. Estávamos casados há 5 anos e pensávamos que era altura de engravidar. No meu exame anual de rotina, todos os resultados vieram okay e, assim, iniciamos nosso projeto.

No meio do ano, meu esposo recebeu uma proposta para mudar de emprego. Era uma ótima oportunidade e ficamos muito animados com ela: 2018 tinha tudo para ser o nosso ano! Emprego novo, a possível chegada do bebê e, agora, a possibilidade de uma casa própria. Depois de um processo seletivo bastante longo e estressante, cheio de etapas e expectativas, chegou a ótima notícia: ele havia sido aprovado. Iniciou-se então um período de treinamentos, muitas viagens e muito estudo para esse novo momento. Meu esposo estava muito confiante, pois a nova empresa era realmente incrível.

Foi quando meu esposo começou a não se sentir muito bem, possivelmente, pensamos, por conta de toda a correria que a seleção do novo trabalho exigira. Resolvemos viajar num final de semana. Busquei-o no aeroporto, logo percebendo que ele provavelmente ficaria gripado. Acabei dirigindo o carro durante toda a viagem. Ele não estava bem, com um febre que até cedia com medicação, porém sempre voltada.

Resolvemos ir ao hospital. O médico diagnosticou uma inflamação na garganta, receitou uma injeção e, então, nos liberou. No domingo, retornamos para nossa cidade. Meu marido ainda não se recuperara e, por isso, fomos direto para emergência. A febre de meu marido já se prolongava por dois dias. Feitos todos os exames, indicaram um antibiótico e aconselharam a consultar com uma infectologista, sob a suspeita de ser mononucleose. Agendei consulta com a médica que havia disponibilidade mais próxima, o que acabou por ser somente na semana seguinte — uma semana difícil, na qual meu esposo não conseguiu comer nada, com a garganta quase fechada e momentos de febre tão intensa que chegava a delirar.

Finalmente, chegou o dia da consulta com a infectologista. A médica não acreditava que poderia ser mononucleose. Indicou um antibiótico mais forte e solicitou mais exames. Os remédios funcionaram e, dois dias depois, meu esposo já estava melhor. Na semana seguinte, retornamos ao seu consultório com os resultados  dos exames, todos ótimos. Aliviados, voltamos à nossa vida normal. Já era início de 2018 e tínhamos um ano novo pela frente!

Mas nossa alegria não durou muito. Um mês depois, meus esposo começou a não se sentir tão bem. Sentia uma forte dor nas costas, que parecia dor muscular, porém concentrada num único ponto. Surgiram também algumas lesões em sua pele, na área das costas, diagnosticadas na emergência do hospital com herpes zóster, para a qual ele foi medicado e aconselhado a procurar novamente um infectologista. Na consulta, a médica solicitou vários exames, para tentarmos descobrir o que estava acontecendo. Era mal estar atrás de mal estar, mês após mês e, por isso, precisávamos investigar a razão de sua imunidade estar tão baixa — seria devido ao estresse do novo emprego?

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]F[/mks_dropcap]oi na primeira semana de março desse ano, de 2018, que recebemos o diagnóstico positivo para o HIV. E nossa vida desmoronou. Não perdemos apenas o chão, perdemos também a consciência de tudo. Me lembro de vê-lo sentado na beira da cama, chorando desesperadamente. Ao seu lado, eu juntava todos os cacos dentro de mim, para conseguir segurar sua mão e dizer que concentraríamos toda a nossa energia no tratamento contra esse vírus.

Inexistimos durante uma semana, o tempo do diagnóstico até a próxima consulta. Usamos  nossas últimas forças para ir trabalhar e parecermos normais para a nossa família. Quando um estava destruído, o outro assumia os cuidados da casa e da nossa alimentação, um dia de cada vez e com muita conversa para digerir tudo isso. Durante esse período, o que mais nos ajudou foi esse blog, o Diário de um Jovem Soropositivo, que nos trouxe mais do que esclarecimento: trouxe a esperança que uma nova vida era possível.

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]E[/mks_dropcap]u também fiz o teste de HIV, um resultado que seria bem decisivo para nós. Lembro daquela terça-feira, quando acessei o site do laboratório, logo depois de chegar do trabalho. Meu esposo estava sentado no sofá e eu na frente do computador. Li em voz alta: “não reagente” e meu esposo começou a  saltar e pular de alegria. E eu? Bom, eu fiquei ali, olhando para o computador, em silêncio. Ele me questionou: eu não estava feliz? Claro que esta era uma ótima notícia, mas como eu ficaria feliz sabendo do resultado dele? A dor dele era a minha também.

Escrevo esse relato seis meses após todos esses acontecimentos, tempo em que vivemos um misto de gratidão e sensação de começar uma nova vida. Meu esposo faz seu tratamento antirretroviral direitinho, parou de consumir bebidas alcoólicas e tenta cuidar-se ao máximo para não ficar nem resfriado. Eu tento ajudar, cuidando da agenda de exames e da marcação de consultas. Fazemos questão de manter em nossas vidas um grande respeito pela doença. Isso nos mantém atentos aos cuidados com a medicação e exames. De resto, a vida segue normalmente.

Hoje posso dizer que 2018 foi realmente o nosso ano. Posso dizer que o diagnóstico não é uma sentença: foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido, pois, de alguma forma, nos trouxe a certeza de que podemos realizar todos os nossos sonhos. Meu esposo segue muito bem na nova empresa. Esse mês, assinaremos o contrato de compra da nossa tão sonhada casa própria. E iniciei novamente os exames para tentar engravidar.

Independentemente do diagnóstico, há altos e baixos na vida de todas as pessoas. Podemos tentar tornar o nosso mundo, e o mundo dos outros ao nosso redor, o melhor possível. Não estamos juntos, aqui, à toa.”

Indetectável não transmite. Ponto final.

[su_quote]”A chance de qualquer pessoa soropositiva com carga viral indetectável transmitir o HIV a um parceiro sexual é cientificamente equivalente a zero”[/su_quote]

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]É[/mks_dropcap] isso o que disseram hoje, 24 de julho, pesquisadores na 22ª Conferência Internacional de Aids, a Aids 2018, em Amsterdã, acompanhando a divulgação dos resultados finais do estudo Partner, apresentados nesta manhã. A fase atual do estudo, chamada de Partner 2, recrutou apenas casais de homens gays e, tal como no Partner 1, não identificou um único caso de transmissão sexual do HIV a partir de soropositivos que fazem tratamento antirretroviral e mantém a carga viral indetectável, mesmo sem uso da camisinha em 77 mil atos sexuais. Os resultados indicam, nas palavras dos pesquisadores, “uma taxa precisa de transmissão dentro da casa do zero”, tanto para homens gays como para heterossexuais.

O estudo Partner recrutou casais sorodiscordantes, quando um parceiro é positivo para o HIV e outro é negativo, em 75 clínicas espalhadas por 14 países europeus. Os parceiros soronegativos fizeram testes de HIV a cada seis ou 12 meses, enquanto os parceiros soropositivos fizeram testes de carga viral. Ambos os parceiros também completaram pesquisas comportamentais. Nos casos de infecção por HIV nos parceiros negativos, o HIV presente naquela infecção foi geneticamente analisado para verificar sua origem. O estudo não encontrou uma única transmissão entre casais gays em que o parceiro soropositivo tinha uma carga viral inferior a 200 cópias/ml, mesmo depois de um total de 77 mil atos de sexo sem preservativo entre eles.

Claro, esse risco “zero” precisa de uma explicação. Em 2014, quando Alison Rodger, pesquisadora principal do Partner, anunciou os resultados da primeira fase do estudo, o Partner 1, ela falou sobre o risco de transmissão a partir de um parceiro indetectável: “nossa melhor estimativa é zero”. Por “estimativa”, Alison quis dizer que é impossível provar que algo nunca acontecerá. Nesse sentido, os pesquisadores usam aquilo que se chama de “intervalos de confiança”, que definem o quão precisas são as descobertas. Em resumo, falando cientificamente, é impossível dizer que algo nunca vai acontecer, mas podemos saber qual o tamanho confiança de que podemos ter sobre determinadas observações.

No estudo Partner essa confiança tem se mostrado muito alta. Além do mais, trata-se de uma confiança estendida por outros estudos, como HPTN 052 e Opposites Attract, que também não observaram um único caso de transmissão sexual do HIV a partir de soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável, corroborando com a Declaração Suíça, feita há uma década.

Anthony S. Fauci

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]E[/mks_dropcap]ssa confiança nas observações é suficiente para Anthony S. Fauci, imunologista pesquisador do HIV e diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, o NIAID,  parte do National Institutes of Health, o NIH (órgão que financia e já financiou inúmeros estudos sobre HIV e aids, incluindo o HPTN 052), nos Estados Unidos, que recentemente reconheceu publicamente que quem vive com HIV sob tratamento antirretroviral e mantém carga viral indetectável não transmite o HIV. Fauci fez estas declarações no dia 22 de julho, pouco antes da Aids 2018. A nota publicada no página do NIAID afirma explicitamente:

[su_quote]”O corpo de evidências científicas até hoje estabeleceu que efetivamente não existe risco de transmissão sexual do HIV quando o parceiro que vive com HIV tem uma carga viral indetectável, validando a mensagem ‘indetectável = intransmissível’.”[/su_quote]

Essa principal mensagem do tratamento como prevenção, ou TasP do inglês treatment as prevention — que entende que o tratamento antirretroviral, que serve para cuidar da saúde de quem vive com HIV, também é capaz de prevenir sua transmissão — não está mais restrita a um grupo de pesquisadores ou autoridades médicas de determinados países. “Indetectable = Intransmisible” (I=I) na Guatemala, “Niet meetbaar = Niet overdraagbaar” (N=N) na Holanda, “Belirlenemeyen = Bulaştırmayan” (B=B) na Turquia, “Undetectable = Untransmittable” (U=U) em inglês ou “Indetectável = Intransmissível” (I=I) em português — o mundo todo já começa a falar sobre isso.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“I=I é um fato que toda pessoa com HIV, de qualquer lugar do mundo, precisa saber”, disse Jesús Aguais, da Aid for Aids International, uma organização que trabalha em seis países latino-americanos. “As pessoas têm o direito de serem informadas e é nossa responsabilidade divulgar essas informações.”

“Não acredito que esta informação é conhecida há dez anos e eu só ouvi falar nos últimos seis meses”, comentou Lucy Wanjiku-Njenga da Positive Young Women’s Voices. Ela disse que muitos de seus colegas no Quênia não sabem o que I=I significa. Aqueles que sabem sobre o assunto ouviram de um amigo ou em mídias sociais, em vez de um médico ou outro profissional de saúde.

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]P[/mks_dropcap]or isso, para ampliar ainda mais a divulgação dessa informação, I=I é a mensagem do novo Unaids Explainer, que visa informar seus leitores sobre questões chave ou emergentes na resposta à aids e trazer recomendações para gerentes de programas sobre HIV e aids:

[su_quote]”Com 20 anos de evidências demonstrando que o tratamento do HIV é altamente eficaz na redução da transmissão do HIV, a evidência de que as pessoas vivendo com HIV com  carga viral indetectável não podem transmitir o HIV sexualmente agora é clara.

Para muitas pessoas que vivem com o HIV, a notícia de que não podem mais transmitir o HIV sexualmente é uma mudança de vida. Além de poderem optar por ter relações sexuais sem preservativo, muitas pessoas que vivem com o HIV que são suprimidas virologicamente sentem-se libertadas do estigma associado à convivência com o vírus.

A consciência de que não podem mais transmitir o HIV sexualmente pode fornecer às pessoas que vivem com o HIV um forte senso de serem agentes de prevenção em sua abordagem a relacionamentos, novos ou existentes.”[/su_quote]

OMS reconhece que quem tem carga viral indetectável não transmite HIV

A Organização Mundial da Saúde, OMS, publicou uma nota em que reconhece que quem vive com HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transite o HIV.

[su_quote]

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lidera a resposta do setor da saúde ao HIV como parte do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. A OMS trabalha para aumentar o acesso ao teste de HIV, à terapia antirretroviral e ao monitoramento da carga viral, para melhorar o manejo clínico do HIV como uma prioridade urgente de saúde pública para prevenir a morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV.

A ciência relacionada ao uso da terapia antirretroviral como uma ferramenta adicional de prevenção é clara: não há evidências de que os indivíduos que conseguiram e mantiveram com êxito a supressão viral através da terapia antirretroviral transmitam o vírus sexualmente para seus parceiros negativos para o HIV. Os benefícios preventivos da terapia antirretroviral devem ser adequadamente enfatizados nos programas de tratamento e prevenção ao HIV.

A OMS reconhece que a conscientização sobre os benefícios de tratamento e prevenção da terapia antirretroviral deve ser promovida, a fim de incentivar a adesão ao teste de HIV e para apoiar as pessoas a terem acesso e aderirem à terapia antirretroviral o mais cedo possível.

A orientação da OMS para o HIV promove a equidade em saúde, igualdade de gênero e direitos humanos. Continua a pressionar por maiores esforços no fornecimento de prevenção primária e na abordagem das barreiras estruturais que aumentam a vulnerabilidade de pessoas e comunidades ao HIV.

 

Antirretrovirais, supressão viral e transmissão do HIV: as evidências

Há vários anos, há evidências de que a terapia antirretroviral previne a morbidade e a mortalidade das pessoas com HIV e também tem claros benefícios na prevenção do HIV. Vários estudos de coorte confirmaram os benefícios de prevenção do HIV da terapia antirretroviral. Ensaios clínicos randomizados  são o melhor padrão para evidências científicas e, em 2011, um estudo feito em diversos países, o HPTN 052, mostrou redução na transmissão do HIV em casais sorodiscordantes (algumas vezes referidos como sorodiferentes), onde o parceiro com HIV e um contagem de CD4 entre 350 e 550 células/µL iniciou a terapia antirretroviral. Isso levou a OMS a recomendar no início de 20127que:

  • pessoas com HIV em um relacionamento sorodiscordante devem ser informadas de que a terapia antirretroviral também é recomendada para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado; e
  • parceiros soropositivos com uma contagem de CD4 acima de 350 células/µL em relacionamento sorodiscordante devem receber a terapia antirretroviral para reduzir a transmissão do HIV ao parceiro não infectado.

Essas recomendações, reconhecendo os benefícios preventivos da terapia antirretroviral, foram feitas quando as recomendações globais foram para iniciação da terapia antirretroviral em contagens abaixo de 350 células CD4/µL, antes da evidência disponível  apoiar os benefícios clínicos da terapia antirretroviral imediata, recomendada pela OMS recomendou em setembro de 2015.

Evidências adicionais, de que a terapia antirretroviral bem sucedida com supressão viral impede a transmissão do HIV para parceiros sexuais, confirmaram os achados do HPTN 052. O estudo Partner e Opposites Attract não relataram nenhuma transmissão quando a carga viral era indetectável, abaixo de 200 cópias/mL.

Esses dados levaram a um consenso crescente de que as pessoas que alcançaram e mantiveram carga viral indetectável não podem transmitir o HIV sexualmente para seus parceiros.

[su_spacer]

Esforço necessário para aumentar o acesso a testes, terapia antirretroviral, monitoramento de carga viral e cuidados de saúde

O principal objetivo da terapia antirretroviral é proporcionar benefícios clínicos para as pessoas que vivem com o HIV. O aumento da terapia antirretroviral, particularmente em países de baixa e média renda, resultou em ganhos significativos na saúde, bem como reduções na morbidade e mortalidade relacionadas ao HIV. Recomenda-se que as pessoas com HIV iniciem a terapia antirretroviral logo que são diagnosticados, para sua própria saúde. Também deve ser enfatizado que o início da terapia antirretroviral e a supressão viral impedem a transmissão sexual do HIV.

Um progresso significativo foi alcançado com a meta 90-90-90 das Nações Unidas. No entanto, existem lacunas significativas e desafios remanescentes. A OMS recomenda o monitoramento da carga viral para garantir que a supressão da carga viral seja alcançada e mantida, mas ainda permanecem grandes lacunas no acesso global, particularmente em países de baixa e média renda e em áreas rurais.

A maioria das infecções por HIV ocorre em transmissão a partir de alguém que não sabe que tem HIV. Há um risco maior de transmissão do HIV a partir de pessoas recém infectadas e isso geralmente ocorre bem antes de as pessoas procurarem o teste. A transmissão do HIV também ocorre quando alguém com HIV não está em tratamento ou está em tratamento e não tem o vírus suprimido (porque não está em tratamento antirretroviral há tempo suficiente, toma os antirretroviraiss de modo não ideal, ou está falhando devido a fatores como resistência aos medicamentos). Os dados da cascata de cuidados para o HIV de vários países indicam que 19% (nem intervalo de incerteza de 5 a 40%) das pessoas em tratamento que foram submetidas a testes de carga viral não são suprimidas por vírus. Isso exige ênfase contínua em: aumento do acesso aos testes e vinculação à terapia antirretroviral; monitorar e responder à resistência aos medicamentos; apoiar a adesão à terapia antirretroviral; melhorar a conscientização sobre a condição sorológica dos parceiros de pessoas com HIV; e acesso ao monitoramento da carga viral para apoiar o tratamento eficaz e orientar as decisões sobre a prevenção do HIV e escolhas de concepção mais seguras.

[su_spacer]

Ainda é necessária uma resposta abrangente ao HIV

Embora a incidência do HIV continue a diminuir, particularmente em países de alta renda, 1,8 milhão de pessoas foram infectadas em 2016 e, fora da África subsaariana, alguns países continuam a experimentar um número crescente de novas infecções pelo HIV. A continuação da transmissão do HIV também está sendo relatada em áreas com alta cobertura de terapia antirretroviral. Portanto, testes de HIV, antirretrovirais e monitoramento da carga viral são necessários, juntamente com a combinação primária de prevenção do HIV (preservativos masculinos e femininos, redução de danos para pessoas que injetam drogas, circuncisão masculina voluntária e profilaxia pré-exposição).

Os preservativos continuam sendo um componente essencial na resposta ao HIV. O apoio ao acesso e uso do preservativo proporciona uma prevenção eficaz do HIV para milhões de pessoas nas situações descritas acima. Também permite que as pessoas se protejam de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo as hepatites B e C, e previne gravidezes indesejadas.

Entretanto, a nociva dinâmica de desigualdade de gênero, a violência interpessoal e o uso de substâncias podem minar a negociação de preservativos e, por isso, pesquisas sobre comportamento sexual estão em andamento e devem ser incentivadas. Além de garantir que a gama de opções de prevenção esteja disponível, o apoio ao conhecimento mais amplo dos benefícios preventivos da terapia antirretroviral pode reduzir o estigma e permitir que pessoas que têm carga viral indetectável pela terapia antirretroviral façam escolhas informadas em suas vidas sexuais.[/su_quote]

[mks_toggle title=”Fonte” state=”close”]

Fonte:
  • Del Romero J, Castilla J, Hernando V, Rodriguez C, Garcia S. Combined antiretroviral treatment and heterosexual transmission of HIV-1: cross sectional and prospective cohort study. BMJ 2010;340:c2205.
  • Donnell D, Baeten J, Kiarie J, Thomas K, Stevens W, Cohen C, McIntyre J, Lingappa J, Celum C. Heterosexual HIV-1 transmission after initiation of antiretroviral therapy: a prospective cohort analysis. Lancet 2010;6736(10).
  • Melo MG, Santos BR, Lira RD, Varella IS, Turella ML, Rocha TM, Nielsen-Saines K. Sexual Transmission of HIV-1 Among serodiscordant couples in Porto Alegre, Southern Brazil. Sex Transm Dis 2008;35:912-915.
  • Musicco M, Lazzarin A, Nicolosi A, Gasparini M, Costigliola P, Arici C, Saracco A. Antiretroviral treatment of men infected with human immunodeficiency virus type 1 reduces the incidence of heterosexual transmission. Arch Intern Med 1994;154:1971-1976.
  • Reynolds S, Makumbi F, Kagaayi J, Nakigozi G, Galiwongo R, Quinn T, Wawer M, Gray R, Serwadda D. ART reduced the rate of sexual transmission of HIV among HIV-discordant couples in rural Rakai, Uganda. In: 16th Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections: Abstract 52a. Montreal, Canada, 8-11 February 2009.
  • Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, et al. Prevention of HIV-1 infection with early antiretroviral therapy. N. Engl. J. Med 2011; 365: 493–505
  • Guidance on couples HIV testing and counselling – including antiretroviral therapy for treatment and prevention in serodiscordant couples WHO 2012 http://www.who.int/hiv/pub/guidelines/9789241501972/en/
  • Guideline on when to start antiretroviral therapy and on pre-exposure prophylaxis for HIV WHO 2015 http://www.who.int/hiv/pub/guidelines/earlyrelease-arv/en/
  • Rodger AJ et al for the PARTNER study group. Sexual activity without condoms and risk of HIV transmission in serodifferent couples when the HIV-positive partner is using suppressive antiretroviral therapy. JAMA, 2016;316(2):1-11
  • 13.Grulich A et al. HIV treatment prevents HIV transmission in male serodiscordant couples in Australia, Thailand and Brazil. IAS 2017, Paris. Oral abstract TUAC0506LB. http://programme.ias2017.org/Abstract/Abstract/5469
  • World Health Organization. Progress Report 2016: Prevent HIV, Test and Treat All. WHO support for country impact. 2016. http://www.who.int/hiv/pub/progressreports/2016-progress-report/en/
  • Bluma G, Brenner MR, Routy J-P, Moisi D, Michel Ntemgwa C M, et al. (2007). High rates of forward transmission events after acute/early HIV-1 infection. J. Infect. Dis. 195 (7): 951–959.
  • Courtney Peasant, Gilbert R. Parra and Theresa M. Okwumabua (2014) Condoms Negotiation: Findings and Future Directions, The Journal of Sex Research, https://doi.org/10.1080/00224499.2013.868861

[/mks_toggle]

Paralelos entre a gravidez, o parto e a minha vida com HIV

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]É[/mks_dropcap] curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]F[/mks_dropcap]oi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]A[/mks_dropcap] porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

[mks_dropcap style=”rounded” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]F[/mks_dropcap]oi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

120 Batimentos Por Minuto

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT.

O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e do público em vários países. 120 Batimentos Por Minuto estreia hoje, 4 de janeiro de 2018.

“Eu amei esse filme. Não tem como eu ama-lo mais. Eu me emocionei do início ao fim. Campillo contou uma história sobre heróis, que salvaram muitas vidas”, disse emocionado o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes.

Carta de um leitor: sobre amores e diagnóstico

 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

Nota Técnica “Indetectável = Intransmissível”

O Centro de Referência e Treinamento-DST/AIDS-SP (CRT-DST/AIDS) é uma unidade de referência normativa, de avaliação e de coordenação do Programa Estadual para Prevenção, Controle, Diagnóstico e Tratamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Estado de São Paulo.

A Secretaria de Estado da Saúde, por meio do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, lança nota técnica “Indetectável igual a Intransmissível”. A nota informa gestores, profissionais da saúde, sociedade civil e população geral, que as pessoas vivendo com HIV/aids com carga viral indetectável há pelo menos seis meses e boa adesão ao tratamento tem um risco insignificante de transmitir o vírus pela via sexual.

Esta afirmação se baseia em recentes estudos com resultados sólidos e conclusivos – HPTN 052, e Partner, de 2016, e Opposites Attract, de 2017 –, os quais têm levado à atualização da mensagem sobre transmissibilidade por parte de autoridades como o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Sociedade Internacional de Aids (IAS), da Suíça. Infecções sexualmente transmissíveis (IST) e possíveis pequenos aumentos transitórios na carga viral (conhecidos clinicamente como “blips”) não influenciam a transmissibilidade nestes casos, de acordo com os estudos. Considera-se carga viral indetectável a quantidade de vírus inferior a 40 cópias por ml de sangue.

“Pessoas que vivem com o HIV, se tomarem seus medicamentos e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”

Esta novidade traz impacto positivo na vida das pessoas vivendo com HIV/aids sob vários aspectos. “Pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”, declara Artur Kalichman, coordenador do Programa Estadual DST/Aids-SP. A notícia traz impacto positivo na adesão ao tratamento e, em especial, as pessoas vivendo com HIV/aids sorodiscordantes que desejam ter filhos. “Será possível também realizar planejamento familiar com mais tranquilidade”, comenta.

“Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem efeitos positivos sobre a sorofobia”

Para Maria Clara Gianna, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP, os profissionais de saúde e de comunicação em saúde devem fornecer orientação atualizada e acurada às pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) sobre o risco de transmissão neste cenário. “Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem potenciais efeitos positivos sobre a sorofobia (estigma) e sorofobia internalizada (autoestigma), direitos sexuais e reprodutivos, testagem, vinculação aos serviços de saúde e adesão ao tratamento”, observa.

As pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) devem receber também aconselhamento sobre fatores que influenciam a opção entre o uso deste método de prevenção ao HIV isoladamente ou a sua associação a outros métodos de gerenciamento de risco e de prevenção, como preservativo e uso de profilaxia pós-exposição (PEP) ou profilaxia pré-exposição (PrEP) pelo parceiro HIV-negativo. “Esses fatores incluem acordos de confiança do casal, adesão ao antirretroviral e decisões sobre o gerenciamento de risco para IST e gravidez.

Em qualquer situação, deve ser respeitada a autonomia da pessoa vivendo com HIV/aids e de seu(sua) parceiro(a) e deve ser garantido o acesso a diagnóstico e tratamento de IST, outros métodos de prevenção ao HIV, métodos anticoncepcionais e acompanhamento pré-natal”, comenta Rosa de Alencar, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP. Para as pessoas que, por qualquer razão, não estejam com a carga viral indetectável, deve ser reforçado que o preservativo é um método eficaz de prevenção e que estará em breve disponível a profilaxia pré-exposição (PrEP) para uso pelo parceiro HIV negativo.


*Nota Técnica 02/2017/CRT-PE-DST/AIDS/SES-SP. Informações adicionais: www.crt.saude.sp.gov.br | Disque DST/Aids: 0800 16 25 50

A nova prevenção do HIV

Hoje, a prevenção do HIV vai muito além da camisinha: existem alternativas muito mais flexíveis e eficazes que podem servir ao estilo de vida de cada um! Para falar sobre isso, preparamos, em parceria com a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo e com o canal Para Tudo da drag queen Lorelay Fox, uma série de vídeos sobre prevenção à infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), HIV e aids. Nesse vídeo, Lorelay Fox conversa com o médico infectologista Dr. Ricardo Vasconcelos sobre PrEP, PEP, tratamento como prevenção, carga viral indetectável e camisinha — juntas, estas estratégias compõem a prevenção combinada. Sem tabus e sem preconceitos, fica mais fácil lidar com o HIV.

Estrelando: Lorelay Fox | Direção: André Canto | Roteiro: André Canto, Jovem Soropositivo e Ricardo Vasconcelos | Parceiros: Projeto Boa Sorte e Menino Gay