Pela Constituição brasileira, os portadores do HIV, assim como todo e qualquer cidadão brasileiro, têm obrigações e direitos garantidos. Entre eles:

“VIII – Ninguém poderá fazer referência à doença de alguém, passada ou futura, ou ao resultado de seus testes para o HIV/aids, sem o consentimento da pessoa envolvida. A privacidade do portador do vírus deverá ser assegurada por todos os serviços médicos e assistenciais.”

É curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

Foi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

A porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

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 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

Foi por estes dias que aconteceu o acidente. A casa de minha mãe, agora em obras, foi a casa onde cresci — pelo menos, por boa parte da minha vida. A poucas quadras dali fica o laboratório de exames, que acabou por ser aquele em que fiz tantos exames desde do diagnóstico, como carga viral e contagem de CD4.

“— Acho que seus livros estão ali”, apontou minha mãe.

Avistei meu nome na lateral de uma das caixas de papelão marrom, empilhadas ali, na garagem, sob o eco das marteladas dos pedreiros no andar de cima. Entre as caixas, restos oriundos da reforma, como dois vidros do antigo box do banheiro — para alcançar a minha caixa, era preciso tirá-los dali. Então, agarrei na lateral da primeira porta vidro: com seu peso, as veias de meu antebraço logo saltaram — e me lembrei que fora naquela casa, anos atrás, em 2011, pouco depois do meu diagnóstico, que acontecera aquela conversa com meu pai.

“— Fez exames?”, perguntou ele, logo depois de me cumprimentar, percebendo o pequeno band-aid arredondado colado sobre a veia do meu antebraço.

“— Sim, acabei de sair daquele laboratório próximo daqui”, respondi.

“— E você avisou que tem HIV para a enfermeira que foi coletar o seu sangue?”

“— Não avisei. Não é preciso avisar”, respondi, seguindo o que acabara de aprender com meu novo médico infectologista.

Naquela altura, em 2011, eu acabava de deixar de me consultar com o Dr. O., o primeiro infectologista que visitei logo depois do diagnóstico e quem, por acaso, me deu a instrução de que era importante manter luvas de borracha ou cirúrgicas na casa, para em caso de qualquer acidente perfurocortante comigo, um soropositivo, a pessoa que fizesse o meu curativo pudesse estar protegida. Mas foi meu novo médico, o Dr. Esper Kallás, quem disse que isso não era necessário: um acidente caseiro, pequeno, não costuma trazer risco de transmissão, enquanto um acidente mais grave, com mais sangue, naturalmente implicaria na procura por um serviço de emergência médica, com profissionais habilitados e preparados para evitar a infecção.

“— Quem disse que não?”, questionou meu pai.

“— Meu novo médico infectologista, o Dr. Esper.”

“— E qual a justificativa dele para não precisar avisar?”

“— Todo profissional de saúde deve estar preparado para seguir os protocolos que são suficientes para evitar a transmissão”, expliquei.

“— Mas e no caso de um acidente? Por exemplo, se você desmaia, cai e a seringa com seu sangue fere o profissional. Se você não avisa antes, a culpa é sua”, argumentou ele, como bom advogado que é.

“— Nesse caso, o enfermeiro faria aquilo que se chama profilaxia pós-exposição, a PEP”, respondi.

“— E é 100% seguro que a PEP funciona?”, retrucou meu pai.

“— Em Ciência, nada é 100%. Nem camisinha”, respondi, parafraseando aquilo que acabara de aprender com o doutor.

“— Eu sei. É por isso que você também deve avisar às mulheres com quem sair”, respondeu meu pai. “E também aos enfermeiros que atenderem você.”

“— Meu médico diz que avisar é uma opção e não uma obrigação.”

“— Seu médico está errado!”, enfatizou meu pai, elevando o tom de voz. “Se um acidente acontece, as consequências são graves. Você sempre precisa avisar que tem HIV, para quem quer que seja!”

“— Não entendo…”, questionei. “Como é que posso sempre avisar?”

“— Se você sofre um acidente em casa, com sangue, quem estiver do seu lado precisa estar avisado que você tem HIV.”

“— Mas que acidente tão grave pode acontecer em casa?”

Eu relembrava dessa conversa quando terminei de apoiar a primeira porta de vidro do box, do outro lado da garagem; faltava ainda mais uma. Agarrei-a, percebendo que esta parecia ser ainda mais pesada que a anterior.

“— Além de um acidente em casa, pode acontecer um acidente na rua”, continuou meu pai, ainda naquela conversa no ano de 2011. “Atropelado, por exemplo…”

“— Mas então o que é que você está sugerindo?”, interrompi, percebendo um simultâneo esboço de protesto de minha mãe. “Acha que devo usar um aviso no braço, como aquela braçadeira que os judeus eram obrigados a usar durante o nazismo?”

Os olhos de meu pai se arregalaram, num susto. Ele então olhou para os lados, depois para baixo. Desconversou. E nós nunca mais voltamos a falar sobre isso. Tampouco sofri eu um acidente que suscitasse novamente esse assunto — até agora. Acontece que o vidro temperado, utilizado na fabricação das portas de box de chuveiro, não deve ser acomodado contra uma parede, ou com um apoio na sua parte inferior e superior, tal como estava naquela garagem. O transporte também não deveria ser feito tal como eu fazia, ali, sem luvas e sem proteção em torno de toda a vidraça. Foi sem cumprir estas recomendações que  escutei aquele estrondo.

BOOOM!, como se fosse um explosão.

O ruído das marteladas no andar de cima foi interrompido. Com o silêncio, percebi um zunido no ouvido esquerdo. Quando abri os olhos, avistei os pedreiros à minha frente, de olhos arregalados.

“— Você se cortou? Você se cortou?”, perguntava minha mãe, assustada.

“— Não sei!”, respondi, com os sentidos ainda anestesiados pela adrenalina.

Olhei para minhas mãos, ainda fechadas, com a musculatura travada com força, ainda tentando agarrar algo que não estava mais ali. Precisei de um pouco de força para abri-las, lentamente, enquanto mais restos de vidro escorriam um a um para o chão. Olhei para os lados e percebi que, apesar dos cacos mais concentrados à minha volta, a explosão também levara estilhaços por toda a garagem.

“— Você está bem?”, perguntei para minha mãe, que estava atrás de mim.

“— Sim, estou. E você?! Se cortou?”

Virei as palmas das mãos para cima e notei dois pequenos cortes, por onde uma gota de sangue escorria a partir de um deles e, no outro, o pequeno estilhaço preso na pele estancava o sangue. Procurei mais e avistei outro pequeno corte, igualmente com pouco sangue. E senti um incômodo na parte das costas, próximo às omoplatas, para onde era impossível eu mesmo olhar.

“— Acho que só um pouco”, respondi.

Foi então que meu pai chegou. De olhos arregalados ao lado dos pedreiros, veio em minha direção e me ajudou a tirar a blusa — um procedimento que, aprendi ali, seria a recomendação inicial para acidentes com vidro. Sem a camiseta, percebi mais um pequeno estilhaço preso em minha pele na altura do ombro.

“— Vamos para o banheiro”, disse meu pai, me ajudando a caminhar por cima dos cacos.

“— Você teve sorte!”, disse um pedreiro. “Teve poucos e pequenos cortes. Um colega saiu dessa com oitenta pontos no braço!”

Com a ajuda de meus pais, subi as escadas. Minha mãe agarrou a caixa de primeiros socorros e uma pinça. Com a mão esquerda ainda trêmula, consegui tirar o primeiro caco, pequeno, do centro da palma direita. Logo depois, mais outro, na altura do pulso e, por fim, aquele que estava no braço.

“— Ainda sinto alguma coisa nas costas”, reclamei.

Foi então que, sem luvas, meu pai agarrou um punhado de algodão, embebeu-o no álcool e limpou a ferida. Em seguida, arremessou o algodão com um dos lados avermelhado pelo sangue na pia à minha frente. Com a ajuda de minha mãe, tirou dali o último estilhaço de vidro, preso nas costas. Sempre sem luvas.

“— Agora é bom você tomar uma ducha”, sugeriu ele.

Virei-me de costas, terminando de me despir antes de entrar no chuveiro, quando escutei-o dizer para minha mãe:

“— Venha, vamos desinfetar as mãos com álcool.”

A Folha de S.Paulo publicou neste sábado, 11 de novembro de 2017, uma notícia sobre a epidemia de HIV entre mulheres na República Democrática do Congo. Na versão impressa do jornal, a notícia tem como manchete a fala da entrevistada: “‘Meu marido não me contou que tinha Aids'”, enquanto na versão online: “Maioria entre pessoas com HIV em país africano, mulheres esperam cura”.

Na versão impressa, o lead (aquele texto logo abaixo da manchete que responde resumidamente às principais questões da notícia) é parecido com a manchete da versão online: “Maioria entre infectados, mulheres da Rep. Democrática do Congo sonham com a cura do vírus HIV contra estigmatização”. A versão online não tem o mesmo tem lead na página da notícia: este aparece no link do álbum de fotos, com sete fotografias, intitulado: “Aids na República Democrática do Congo”.

Página A19 da Folha de S.Paulo em 11 de novembro de 2017.

Apesar destas diferenças, o conteúdo da notícia em ambas as versões, impressa e online, é o mesmo: começa com a história de Madeleine Mwiza, uma congolesa cujos três filhos morreram de aids, antes que ela própria viesse a receber seu diagnóstico positivo para o HIV. Quando isso aconteceu, em 2003, Mwiza foi espancada e expulsa de casa pelo marido — quem, conforme ela descobriu depois, também era soropositivo e por anos não revelara sua condição para a esposa. Mwiza pediu então apoio do pastor da igreja adventista de sua comunidade, para que este pudesse convencer seu marido a aceitá-la de volta. Na sua fé, o casamento é algo para a vida inteira.

A história de Mwiza é a mesma de muitas outras mulheres da República Democrática do Congo. Segundo a notícia, a prevalência do HIV nas mulheres congolesas é o dobro daquela observada entre os homens, com mais mortes decorrentes do vírus entre as mulheres soropositivas do que entre homens. A matéria ainda faz referência aos dados do Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, que estima haver 210 mil mulheres com HIV no país, num total de 290 a 450 mil soropositivos.

Apesar dessa referência ao Unaids, o jornal não seguiu as recomendações que constam no constam em seu Guia de Terminologia, publicado neste ano, durante o durante o 11º Congresso de HIV/Aids, em Curitiba, e que tem o objetivo encorajar o uso de palavras cientificamente precisas e que promovam direitos humanos universais e a dignidade do indivíduo. O lead da notícia na versão impressa do jornal, por exemplo, inclui o termo “vírus HIV”, que é redundante, uma vez que a sigla HIV já inclui a palavra vírus — para quem não sabe, HIV quer dizer vírus da imunodeficiência humana. Mais grave, há ainda o termo “vírus da aids”, que é incorreto. Além disso, lê-se “coquetel” por duas vezes ao longo da notícia, muito embora o Unaids indique o desuso dessa nomenclatura. Por diversas vezes, a palavra “aids” é utilizada erroneamente como sinônimo de infecção pelo HIV — de fato, a própria entrevistada, Mwiza, se refere à aids dessa forma, mas não seria interessante que o jornal explicasse a diferença?

Mas não são essas as imprecisões que mais incomodam. “É muito comum que uma pessoa, fora da vivência de uma pessoa que vive com HIV ou que é vulnerável ao HIV, faça interpretações superficiais sobre determinada situação que envolva este vírus”, comentou Ricardo Vasconcelos, coordenador do SEAP HIV, um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV. “Algo como: ‘é só usar camisinha que a pessoa estará protegida do HIV’ — quando sabemos que não é bem assim.”

A notícia diz que o maior choque de Mwiza foi “descobrir que contraíra o vírus da Aids de seu primeiro e único parceiro sexual. O marido escondia os medicamentos e havia quatro anos tomava os antirretrovirais secretamente.” Apesar de apontar o marido como a origem da infecção da entrevistada, a reportagem não esclarece ao certo como esta conclusão foi alcançada. Cientificamente, a única maneira de se comprovar a origem de uma infecção pelo HIV é através do sequenciamento genético do vírus, neste caso, do HIV que está no corpo de Mwiza e também daquele que está no corpo do marido. Uma vez que esse tipo de análise científica costuma ser restrita a estudos científicos, é improvável que este tenha sido o caso da entrevistada. Então, é possível que a conclusão a respeito da origem dessa transmissão seja pessoal de Mwiza, a partir do conhecimento que somente ela pode ter, a respeito de sua própria vida sexual e das possíveis exposições de risco ao HIV que ela possa ter sofrido — se é esse o caso, infelizmente nesse ponto a notícia carece de aspas.

Diante do cenário de abuso de seu marido, em meio à uma sociedade patriarcal que traz graves prejuízos às mulheres, especialmente às soropositivas, podemos sim presumir e até ter convicção de que a infecção de Mwiza veio de seu marido. Entretanto, diante deste mesmo cenário social, não seria justo também indagar à entrevistada se por acaso ela foi violentada, estuprada por algum outro homem além de seu marido, antes de apontá-lo como culpado? Essa pergunta parece não ter sido feita à entrevistada e, se foi, não parece ter interessado a jornalista em publicá-la. Entretanto, trata-se de uma pergunta que se torna um pouco mais importante, quando levamos em consideração outra informação que temos a respeito do marido: a de que ele faz tratamento antirretroviral — afinal, ele mantém adesão à esta terapia e tem carga viral indetectável?

Perguntas assim podem parecer irrelevantes dentro do contexto geral da história de Mwiza, que, no fim das contas, foi infectada dentro de uma situação social de abuso, violência e machismo, seja este oriundo do marido, da sociedade na qual ela está inserida ou dos dois. Mesmo assim, surge aí uma imprecisão que pode ser perigosa. Primeiro, porque não esclarece a respeito de uma transmissão que supostamente ocorreu sob tratamento antirretroviral a partir de uma pessoa que vive com HIV, fato que, por si só, seria cientificamente digno de nota e de análise mais detalhada. Em segundo, porque pode servir de argumento contra outra mulher, tal como Mwiza, soropositiva e oprimida pelo marido, mas que opta por não revelar sua condição ao seu parceiro, por receio da violência que possa vir a sofrer diante dessa revelação. Supondo que esta mulher faça tratamento antirretroviral e mantenha sua carga viral indetectável, ela estará cuidando da sua saúde e não estará expondo seu marido ao risco de infecção pelo HIV, tampouco aos filhos que os dois possam vir a ter. Com o tratamento antirretroviral adequado, a transmissão vertical, da mãe para o feto, pode ser totalmente evitada, além da transmissão por via sexual entre parceiros. Quem tem HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transmite o HIV — uma afirmativa que recentemente também foi endossada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC.

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É muito comum que mulheres em situação como a de Mwiza não tenham controle sobre a decisão a respeito da gestação, com falta de acesso à alternativas anticoncepcionais e dificuldade na negociação a respeito do uso da camisinha com seu parceiro. (Pela reportagem da Folha, não sabemos ao certo se este é caso dela, mas podemos presumir que sim, uma vez que, com 21 anos de idade, Mwiza já era mãe de cinco.)

Uma situação de uso do preservativo que depende apenas da decisão do homem, sem levar em consideração a vontade da mulher nesta relação, aumenta muito a vulnerabilidade à infecção pelo HIV. Isso é terrível e é um claro cenário de opressão. “Nos seus 36 anos de existência, a epidemia de HIV sempre caminhou pelos círculos da exclusão e da opressão”, explicou Ricardo Vasconcelos. “Essa matéria mostra um aspecto da epidemia africana, onde o vírus se entranhou entre mulheres heterossexuais por causa da dinâmica social baseada em relações de poder entre homens e mulheres. Algo semelhante acontece no Brasil também: a exclusão dos gays, pessoas trans, negros e periféricos os colocou na trilha do vírus, tornando-os mais susceptíveis à novas infecções.”

É importante mostrar a realidade dessas pessoas, tal como a Folha de S.Paulo fez ao contar a história de Mwiza. Mas também é interessante informar sobre as alternativas que já existem e que já poderiam estar trabalhando na redução da vulnerabilidade destas pessoas, possivelmente evitando totalmente a infecção pelo HIV, neste caso, em milhares de mulheres congolesas.

A primeira destas alternativas é a própria terapia antirretroviral: ao evitar a transmissão do HIV, ela permite total sigilo a respeito da condição sorológica e, por isso, pode também servir como proteção contra o estigma que a revelação dessa condição possa vir a trazer. Este sigilo pode proteger alguém do abuso e da violência, senão salvar uma vida, especialmente dentro do cenário social como este em que Mwiza está inserida. Há relatos, por exemplo, de mulheres com HIV que mantém segredo sobre sua condição sorológica para poder amamentar seu bebê. Nesse sentido, associar o sigilo do soropositivo unicamente à responsabilidade pela transmissão do HIV, tal como sugere a manchete do jornal, é tratar o assunto de maneira incompleta. Além de não mencionar a possibilidade do tratamento como prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention), a notícia da Folha de S.Paulo sequer fala sobre a principal alternativa de prevenção: a camisinha! Afinal, por que Mwiza e seu marido não usavam o preservativo? No contexto de vida da entrevistada, qual é o seu poder de negociação do uso dessa estratégia de prevenção? Essa é uma questão importante que não foi levantada pela reportagem.

Não é de surpreender que o jornal não tenha abordado também outras estratégias, como a profilaxia pós-exposição (PEP), os microbicidas anti-HIV anais ou vaginais que têm sido estudados em diversos países africanos e a profilaxia pré-exposição (PrEP), recém aprovada no Brasil. Por acaso, a PrEP não parece ser ainda uma alternativa disponível na República Democrática do Congo — pelo menos, o site PrEPWatch.org não traz qualquer informação a respeito de estudos ou da oferta de PrEP nesse país. Mas ela tem sido avaliada ou já está disponível em outros países do mesmo continente, como Nigéria, Uganda, Quênia, Zâmbia, Malawi, Namíbia, Botswana, Zimbábue, África do Sul e Lesoto. Diferentemente da cura do HIV, a PrEP já existe — ela é real e não apenas um sonho distante. Por ser um advento recente, dos últimos anos, é improvável que a PrEP pudesse ter evitado a infecção de Mwiza, que se deu antes de 2003, mas trata-se de uma estratégia de prevenção que ainda pode evitar a infecção de milhares de outras mulheres, as quais também são assunto da notícia — nesse sentido, não seria interessante falar sobre a PrEP? 

É natural que Mwiza sonhe com a cura do HIV. Eu também sonho, mesmo sem sofrer com o vírus nada perto daquilo que ela conta sofrer. Mas entendo que existem alternativas que podem minimizar, bastante, o sofrimento e o incômodo que a vida com o HIV pode trazer e me questiono a razão destas alternativas já não estarem à disposição de pessoas mais vulneráveis, incluindo as mulheres como Mwiza. Não apresentá-las a estas alternativas é muito cruel — assim como também é cruel retratá-las no jornal como nada além de sonhadoras, aguardando a cura como se esta fosse a grande salvadora, sem sequer mencionar as tantas possibilidades que já existem e que poderiam lhes ajudar.

“Nesse exemplo, esperar pela cura é esperar pelo fim da exclusão e da opressão, como se fosse o vírus o causador delas”, disse Ricardo Vasconcelos, que também participou de importantes estudos sobre a PrEP, como o iPrEX e o PrEP Brasil. “Contra o vírus, já sabemos o que fazer. Mas, para essas questões sociais, insistimos em fingir que elas se resolverão quando não houver mais HIV.” As alternativas que já existem não resolvem o problema social e nem o estigma contra quem vive com HIV — elas não são a solução destes problemas —, mas podem sim ajudar muitas pessoas a experimentar uma vida com mais qualidade, enquanto aguardamos pela cura do HIV. Essas alternativas não são tão perfeitas quanto a cura poderá ser, mas elas têm as suas vantagens e podem nos ajudar hoje. Vamos aproveitá-las — e vamos falar mais sobre elas, Folha de S.Paulo.

Grindr, um aplicativo de relaciomantos gay, está fazendo uma pesquisa com alguns usuários sobre um filtro para identificar os usuários soropositivos.

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“‘Você está louca?’ Esta foi a primeira frase que ouvi de algumas pessoas próximas quando contei que estava interessada por um soropositivo.

Eu acabara de terminar um longo relacionamento e não tinha mais nenhuma prática em conhecer pessoas novas. Então, me cadastrei em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando começamos a conversar. O que eu posso dizer? Éramos tão diferentes, mas tudo fluía de uma forma tão natural que logo a sua presença passou a fazer parte importante do meu dia. Ele era a primeira pessoa com quem falava assim que acordava e a última pessoa para quem eu mandava mensagem antes de dormir.

Depois de dois meses conversando e nos conhecendo através de mensagens, áudios e telefonemas, a ideia de nos encontrarmos pessoalmente começava a tomar forma. Foi neste momento que ele me contou sobre a sua sorologia. Comentou sobre como tinha descoberto e mais um monte de detalhes.

Cazuza

Não vou mentir e dizer que levei tudo numa boa e nem vou dizer que fiquei estarrecida e brava com o fato dele não ter me contado antes. Eu apenas ouvi a história dele e a aceitei. Em momento algum pensei em afastá-lo, mas também não sabia como proceder e não tinha nenhum conhecimento específico sobre o HIV. Só conseguia lembrar de uma capa da Revista Veja, onde aparecia o Cazuza já debilitado pela aids — e essa imagem de uma pessoa doente em nada tinha de semelhante com as fotos e vídeos que recebia do rapaz pelo qual estava interessada. Ele era igual a qualquer outra pessoa, com ou sem HIV.

 

‘Você tem que deixar isso de lado, procure outra pessoa, você é bonita, vai encontrar alguém saudável.’ Este foi um dos vários conselhos que recebi enquanto dividia os meus anseios com alguns de meus melhores amigos. E também foi o que mais me marcou. Afinal de contas, o que as pessoas queriam dizer com ‘ser saudável’? Em que sentido eu deveria procurar alguém ‘saudável’? As pessoas que possuem HIV positivo não podem ser ‘saudáveis’?

Em parte, me senti ofendida com a imputação do termo ‘saudável’ neste conselho e fiquei me questionando que, se por acaso eu me descobrisse soropositiva, automaticamente deixaria de ser  ‘saudável’. Foi bem esquisito saber que algumas pessoas pensavam desta maneira. Afinal, sob esse raciocínio, quer dizer que, caso eu fosse soropositiva, deveria me afastar do convívio com os soronegativos, simplesmente para poupá-los de minha condição? Me pareceu que, se fosse portadora do HIV, seria como se carregasse, em meu corpo, uma gigantesca bomba relógio, prestes à explodir e afetar todos à minha volta. Também me pareceu que, por ter feito alguma escolha errada — como fazer sexo sem preservativo — eu deveria então me culpar, talvez me mutilar psicologicamente e me excluir socialmente do convívio com os considerados ‘saudáveis’.

Mas logo coloquei em prática algo que aprendi desde muito cedo e que procuro carregar comigo nos mais diversos aspectos da minha vida: a informação para a quebra do preconceito. percebi que precisava conhecer o que era o HIV. Optei por me informar e assisti a muitos filmes, documentários e li muito na internet. Precisava tentar entender o que é ser soropositivo hoje, em 2016.

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Aprendi muito sobre o surgimento da doença com filmes de documentário, como: ‘How to Survive a Plague’, ‘Estávamos Aqui’, ‘Larry Kramer: In Love and Anger’, ‘The Normal Heart’, entre muitos outros. Fiquei indignada em algumas situações, chocada em outras e chorei em uma boa parte delas. Este primeiro contato com a história da aids, do anúncio diário de mortes das pessoas que possuíam a doença, do preconceito enfrentado pelas mesmas, do medo do desconhecido, da falta de posição e incentivo à pesquisas pelo governo americano nos anos 80, a maneira como o então presidente Ronald Reagan ignorava a epidemia que estava matando pessoas aos montes, a luta de grupos de ativistas, como o Act Up, para que as medicações fossem desenvolvidas, etc., tudo isso me fez perceber que, ainda hoje, muitas das pessoas com quem conversei, acreditam que o HIV ainda é tão mortífero e feroz quanto a aids no final dos anos 80.

Acho que uma das partes que mais me marcou nesses documentários foi o fato de que, enquanto estavam internados, na fase terminal da doença, muitos pacientes não recebiam nem alimentação, pois muitos dos profissionais de saúde que deveriam cuidar deles se recusavam a entrar nos quartos desses pacientes. Muitas vezes, esse trabalho era feito por pessoas voluntárias, como parentes, amigos e algumas homossexuais femininas que se revezavam para ajudar a cuidar destes pacientes.

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E foi assim que comecei a entender porque muitos soropositivos optam por esconder sua condição ou sua identidade: mesmo 35 anos depois do início da epidemia, percebo que ainda existe o estigma da doença e que o preconceito ainda é muito forte e cruel.

Contudo, foi graças a este primeiro interesse que tive pela história da aids e do HIV que pude fazer um paralelo e perceber que hoje as coisas são bem diferentes. As pessoas que possuem o vírus muitas vezes são mais saudáveis do que soronegativos que estão à nossa volta. Ora, existe diabetes, pressão alta, colesterol, sedentarismo, tabagismo, câncer, obesidade, etc., então, por que eu deveria considerar que um vírus controlável através de medicações deixaria uma pessoa automaticamente doente, como se fosse uma bomba relógio?

Não estamos mais nos anos 80. Atualmente, a cada dia, um novo estudo ou uma nova forma de tratamento vem à tona. Hoje, há muito mais esperança de cura do que no passado, quando a aids ainda era rotulada como o ‘câncer gay’.

 

‘Mas você tem um filho pequeno, ele tem só 5 anos, você deixaria ele conviver com alguém soropositivo?’ Sim, e por que não deixaria? Até onde eu sei, o HIV não se pega respirando, nem tocando, nem beijando. As demonstrações de afeto não transmitem HIV. As pessoas soropositivas têm filhos — aliás, a transmissão vertical já foi extinta em alguns países. Então, qual é o problema? Nenhum. A verdade é que não existe problema aqui. O que existe é preconceito.

Eu não só deixaria meu filho ter essa convivência, como explicaria para ele, como sempre fiz, que o amor é o que basta. Ora, se eu o crio para não fazer distinção entre o que é feminino e o que é masculino, se eu o crio para respeitar as diversidades, se eu quero que ele seja um bom cidadão, para que ele afaste o machismo de seus conceitos, por que seria preconceituosa com uma questão bem mais simples, como é, ao meu ver, a questão do HIV? Nada disso! Eu não faço parte da ‘família tradicional’, fui mãe solteira e ensino para o meu filho a linguagem do amor: ela envolve aceitação e respeito.

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Depois de pensar e pensar mais um pouco sobre as opiniões de pessoas próximas, tentar perceber se eu mesma tinha ou não algum preconceito, ir aos CTAs sanar algumas dúvidas, fazer o meu próprio teste de HIV, entender que o vírus não é uma sentença de morte que transforma uma pessoa ‘saudável’ em doente de uma hora para outra, é que percebi que tudo o que precisava fazer para continuar com meu interesse por aquela pessoa é, na hora do sexo, simplesmente usar preservativo, como eu faria em qualquer outra relação.

 

Mas nem tudo acontece do jeito que a gente deseja ou do jeito que a gente quer. Tive quatro meses ótimos de convivência e cumplicidade com ele. Nosso primeiro encontro pessoal foi ótimo: a conversa fluía de uma maneira que há muito tempo não acontecia comigo com qualquer outra pessoa. Eu estava interessada de verdade e muito disposta a ficar com ele, a manter um relacionamento, a criar expectativas, a dividir e a somar. Ele era como qualquer outra pessoa: não era diferente em nada e, na maioria das vezes, eu nem lembrava que ele tinha HIV.

Mas ele, sim. Ele ainda se lembrava com uma frequência muito maior do que eu de que ele era soropositivo. Aliás, fazia questão de lembrar disso todos os dias. Chego a pensar que, na verdade, ele é que deveria me achar louca por querer ficar com ele, como se me colocasse em risco, por ter um relacionamento com alguém que carregava uma grande culpa — quase ‘a culpa do mundo’ nas costas, como ele mesmo disse em uma de nossas últimas conversas.

Ele me disse que eu não merecia isso. Eu o aceitava, mas ele ainda não. E isso foi o que me deixou frustrada. Como pode ele decidir o que eu mereço e o que eu não mereço? Como pode ele se julgar inferior aos outros, diante de tudo o que sabemos hoje sobre o HIV? Fiquei, sim, muito brava com ele. Fiquei brava porque ele decidiu por mim. Fiquei brava porque ele não foi capaz de enxergar o quão especial ele era. Ele não era o HIV, mas deixou que o HIV tomasse conta de quem era. E assim acabou. Infelizmente. Ainda acho que vida é bela, e que, às vezes, só preciso ajustar um pouco o foco.

Com amor,
C.”

“Olá, Jovem! Tudo bem contigo?

Tive uma conversa recente com um amigo, que me contou ser soropositivo. Enquanto ele ia me contando sobre os fatos e sentimentos desde o momento em que teve o fatídico sexo no qual se contaminou, passando pela descoberta até os dias de hoje, fui me identificando e relembrando momentos da minha própria história, como se eu estivesse diante de um espelho — pois eu também sou soropositivo. É claro que as circunstâncias dele foram outras e são outras. Nossos caminhos são diferentes. Mas há algo que permeia nossas vivências como um cerne, que faz com que eu me identifique e me empatize facilmente com ele.

“Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição.”

A reação unânime das pessoas ao ouvirem de mim sobre a minha condição é, primeiro, de perguntar como aconteceu. Trocando em miúdos, querem saber com quem eu transei para que isso acontecesse, e quando. É uma pergunta indiscreta, chata, inapropriada, desnecessária e, em alguns momentos, até mesmo dolorosa. A resposta à essa pergunta ganha os mesmos adjetivos, mas eu tenho aprendido a simplesmente dizer: ‘eu fiz sexo sem camisinha e aconteceu’. Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, tampouco momentos tão íntimos para alguém que não fez parte deles, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição, sob a boa vontade moralmente chamada de ‘honestidade’.

Porque é que, assim que conto ter HIV, os homens me dizem: ‘Fico feliz que tenha me contado e que tenha sido honesto. Isso me encanta! Mostra o seu bom caráter. Mostra que que quer cuidar de mim’? Fazendo uma reflexão detida, está aí um julgamento perverso e opressor, que diz que o valor do meu caráter e o tamanho do meu carinho podem ser medidos a partir do fato de eu contar ou não que tenho HIV para o homem com quem vou transar.

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Mas e se eu não contasse? E se eu simplesmente dissesse que meus sexos têm de ser com camisinha do início ao fim, eu seria menos honesto ou menos bom? Então significa que os homens com os quais eu transei e não contei a respeito podem me chamar de desonesto ou cruel por não ter contado, mesmo eu tendo cuidado para que eles não fossem expostos, assim como eu me expus? E se, hipoteticamente, eles tivessem sido expostos de alguma forma, a responsabilidade não seria deles também? É claro que entra aí uma obrigação ética na qual, dada a exposição, eu tenho que orientar o sujeito a tomar os cuidados e ações necessárias, como a profilaxia pós-exposição (PEP). Mas isso, ainda assim, não me tornaria mais ou menos bondoso. Eu não faço tal julgamento do homem com quem transei e me contaminei, seja lá quem for — e não mereço ser medido assim.

Quando meu amigo me contou a história dele, me senti tão confortável em ouvir e que fiquei mais confortável em contar. Essa foi uma sensação de alívio: como a de estar em casa após uma longa viagem, a qual comecei em outubro de 2014, quando tinha 24 anos. Pela primeira vez, não me senti julgado ou culpado por mim mesmo por ter feito sexo, por ter gozado sem camisinha. Eu apenas pude ouvir aquela história, contar a minha e abraçá-lo. Depois, ser abraçado.

“Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.”

Eu não estava me justificando ou provando nada para ninguém. Não estava ‘sendo honesto’ como nas outras vezes. Estava apenas contando sobre a minha história e ouvindo a do outro. Foi algo gratuito e livre e, por isso, foi tão bom! Eu sei que é estranho dizer que é ‘bom’ que ambos possamos contar um para o outro sobre o HIV — melhor seria se não tivéssemos essas histórias para contar, é verdade, mas é bom saber que, na adversidade, eu posso encontrar alguém com quem eu possa ser simplesmente humano, sem necessidade de justificativas, sem medo de julgamentos e nem culpa por isso. Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.

“Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.”

Meu Deus, tenho me autoflagelado há quase dois anos, pensando que não sou digno de ser amado por conta disso! Sempre que me interesso por alguém, sou interrompido em meus devaneios felizes por pensamentos que dizem que a condição tenho, positiva para o HIV, me faz menos atraente ou que um relacionamento comigo é, por essa razão, mais custoso. Porém, eu não quero mais pensar assim sobre mim. Não quero mais me importar com o que vem de fora. Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.

“Quero que o HIV seja um detalhe.”

Eu não tenho que ser aceito, perdoado, nem absolvido. Quero que o HIV seja um detalhe. Sei que corro o risco de receber uma negativa — embora eu tenha tido a sorte de nunca a ter recebido. Mas eu não vou mais sentir pena de mim mesmo. E tenho que lutar por isso. Tenho crescido muito nos últimos anos, como qualquer ser humano, mas tenho certeza que o que me aconteceu comigo me obrigou a crescer mais rápido em alguns aspectos e de formas ainda mais maduras.

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Tenho aprendido, desde então, a respeitar meu espaço, meu tempo, meu corpo e meus sentimentos, assim como o dos outros. Tenho aprendido a julgar menos as circunstâncias da vida dos outros, a ouvir mais, a parar de falar quando me pego falando muito. Tenho aprendido a cuidar mais e melhor da minha saúde, a comer e dormir melhor, a sorrir mais, a não beijar e transar quando percebo que não tem significado para mim naquele momento, a beber menos e inclusive eu parei de fumar. Tenho aprendido a priorizar coisas e pessoas que antes eu não priorizava e a retirar a importância de outras. Tenho aprendido a apreciar mais e melhor o pôr do sol, as conversas com meus pais, meu irmão e meus amigos, bem como o tempo que tenho com eles e com os estranhos que encontro nessa vida.

“A juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós.”

Tenho até aprendido a ser mais agressivo quando me sinto desrespeitado. A ser mais sério e firme quando sinto que invadem meu espaço e ferem o meu direito. Tenho aprendido a me julgar menos, a me permitir ser mais humano. A viver cada momento, porque descobrir o que descobri sobre mim me fez perceber algo: a juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós, sempre com o outro — e não é assim. A morte, o infortúnio, o acidente, a má notícia, a dor e o sofrimento estão aqui, agora, presentes e nos rondando o tempo todo.

Essa é uma condição humana desesperadora, mas é a verdade. Isso não significa que devemos nos angustiar e paralisar ante ao medo, mas que devemos ainda mais desenvolver as potencialidades que postergamos, enquanto passamos a juventude pensando que sempre haverá o amanhã.

“Nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos.”

É claro que nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos. Porém, logo que descobri o vírus em mim, no momento do diagnóstico, percebi que o estigma — o mesmo que atravessou esses mesmos 30 anos — continua, junto com o medo da morte e da doença, bem próximos. Ao longo do tempo é que fui me acalmando, conhecendo mais sobre o HIV/aids, me cuidando e percebendo que estou bem, que vou continuar bem e que viverei, salvo qualquer acidente, longos anos de próspera saúde. Essa é a minha fé e esperança.

Muita gratidão a você por manter esse blog que tem sido parte importante nessa minha viagem e nas minhas reflexões, desde o diagnóstico. Sem seus textos, sem a equipe multiprofissional do CTA, onde sou tão carinhosamente bem atendido, e sem o suporte de minha família e dos amigos queridos, eu não teria chegado até aqui, tal como estou: bem. Com tudo isso, chegarei ainda mais longe.

Vida longa e saúde a todos nós!

A.”


Aidsmap

Até que ponto os homens gays modificam seu comportamento sexual de risco após um resultado positivo no teste de HIV? Duas pesquisas australianas realizadas ao longo dos últimos anos descobriram que, no período a seguir do diagnóstico, os homens homossexuais reduzem consideravelmente o número de parceiros com quem têm relações sexuais — muitos param a atividade sexual completamente — e também reduzem a quantidade de sexo sem preservativo que têm com parceiros de sorologia desconhecida para o HIV. Há também um aumento na divulgação do status positivo para o HIV para seus parceiros.

Nenhuma dessas alterações pode ser considerada particularmente como surpreendente e esta pesquisa não pode determinar se essas mudanças são sustentadas. O mais interessante foi observar que o único fator associado à uma maior probabilidade de tais reduções nos comportamentos de risco foi o apoio de outros semelhantes com HIV (e não de qualquer outra pessoa).

 

Contexto

Descobrir se as pessoas soropositivas reduzem ou aumentam o seu comportamento de risco depois que são diagnosticadas é de óbvia relevância para a prevenção do HIV, especialmente se elas não seguem para a terapia antirretroviral, uma vez que assim não conseguem atingir uma carga viral indetectável.

No entanto, essa nunca foi uma questão resolvida, porque diferentes pesquisas descobriram coisas muito diferentes. Essa situação de dúvida é agravada pelo fato de que muitas pesquisas têm apenas medido o sexo sem preservativo, o número de parceiros sexuais sem verificar sua condição sorológica para o HIV desses parceiros de sexo sem preservativo ou mesmo se a pessoa soropositiva tem carga viral indetectável.

Por conta disso, os resultados dessas pesquisas têm variado enormemente: desde um estudo de São Francisco, que estimou que homens gays com HIV tinham reduzido suas chances de transmissão do vírus em 97% em dois anos após o diagnóstico, a um estudo do Reino Unido, que encontrou taxas mais elevadas de sexo de risco em pessoas que receberam o diagnóstico positivo para o HIV do que em pessoas soropositivas ainda não diagnosticadas.

Além disso, menos estudos foram realizados nos últimos anos, quando uma taxa mais elevada de pessoas diagnosticadas puderam seguir o tratamento imediato e alcançar a supressão viral.

 

As duas pesquisas

Entre 2008 e 2015, pesquisadores australianos realizaram dois questionários com homens gays que vivem com HIV e que tinham sido diagnosticados há menos de dois anos — um dos questionários nos anos antes do tratamento ser recomendado no momento do diagnóstico (2008-2010) e outro nos anos seguintes (2011-2015). No total, 712 homens, ou cerca de 10% de todos os homens gays diagnosticados com HIV durante este período, responderam um dos questionários, embora apenas 564 completaram as perguntas a respeito de seu comportamento sexual, 263 no primeiro período e 301 no segundo período. Embora os dois questionários tenham perguntas diferentes, eles foram concebidos como uma peça única da pesquisa e os homens só poderiam respondê-los uma vez.

No primeiro questionário, os homens foram convidados a comparar o número de parceiros casuais com quem tiveram relações sexuais nas quatro semanas antes e nas quatro semanas após o diagnóstico. Também deveriam comparar o número de parceiros que eles sabiam ter HIV e com quem eles tiveram relações sexuais com ou sem preservativo, especialmente sendo “ativos”. Eles também foram convidados a avaliar, em uma escala de um a dez, a quantidade de apoio pós-diagnóstico que receberam de amigos gays, de um parceiro regular, dos pais, do seu médico e de outras pessoas com HIV.

Mais adiante, essas questões foram substituídas por perguntas simples diretas, como: “Você reduziu o número de parceiros sexuais?”, “Você evitou sexo com parceiros soronegativos?”, “Você já revelou sua condição sorológica para o HIV à outras pessoas antes do sexo?”. E, por fim: “Uma vez que recebeu o diagnóstico, você procurou o apoio de outros soropositivos através de alguma organização, grupos de apoio ou fóruns on-line?”

 

Resultados

Levando ambas as pesquisas em conjunto, a maioria dos homens estava com idades entre 30 a 50 anos e a maioria tinha graduação. Quase dois terços (63%) dos entrevistados tinham sido diagnosticados há menos um ano, antes de responderam à pesquisa, e um terço há menos de três meses. Três quartos estimaram terem se infectado com o HIV há menos de um ano antes do diagnóstico, enquanto a outra metade há menos de três meses antes do diagnóstico.

Um quarto dos homens não eram nativos australianos e um terço tinha um parceiro regular quando foram diagnosticados. Mais de um em cada cinco tinha depressão significativa, um em cada sete tinha depressão grave e 70% disseram que estavam mais deprimidos do que antes, depois de serem diagnosticados.

Respondentes do questionário de 2008-2010 relataram menos sexo sem preservativo com parceiros casuais após o diagnóstico do que antes — 27% (14% como parceiro insertivo) versus 16% (6,2% como parceiro insertivo). Antes do diagnóstico, quase tudo isso foi feito com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida, mas, após o diagnóstico, menos de 10% relataram isso, indicando que a proporção de relações sexuais sem preservativo com parceiros sabidamente soropositivos tinha mudado de 0,9% para 6,2%.

No entanto, a redução do sexo sem preservativo com parceiros ocasionais foi, em grande parte, devido aos entrevistados que relataram ter parado o sexo completamente após o diagnóstico. Nas quatro semanas antes do diagnóstico, 46% relataram ter feito sexo com parceiros casuais, 30,5% nas quatro semanas depois e 22% pararam de fazer sexo sem preservativo com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida para o HIV.

O único fator estatisticamente associado à redução no número de parceiros casuais foi maior apoio pessoal de outras pessoas com HIV. Pessoas que relataram apoio maior do que a média de seus semelhantes soropositivos se mostraram quase 40% mais propensas a reduzir o número de parceiros sexuais casuais ou de interromper o sexo casual completamente.

Na segunda pesquisa, 56% dos entrevistados disseram ter reduzido o número de homens com quem tinham relações sexuais desde o seu diagnóstico e 47% disseram ter parado de fazer sexo por completo, pelo menos por um tempo. 38% disseram ter parado de ter relações sexuais com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida e um terço disse que agora estavam mais propensos a revelar a sua condição sorológica para o HIV antes do sexo. Menos de um em cada sete não tinha feito qualquer ajuste no seu comportamento de risco.

Aqueles que reduziram seu número de parceiros casuais ou pararam o sexo completamente tinham quase duas vezes mais probabilidade de relatar ter recebido apoio recebido de colegas soropositivos, e o mesmo se passou com os homens que disseram ser mais propensos a revelar a sua soropositividade. A minoria dos homens que não tinham feito qualquer mudança no seu comportamento de risco se mostraram 70% menos propensos a relatar o apoio de outras pessoas com HIV. Reduzir a quantidade de sexo casual ou interrompê-lo por completo também foi associado à maior depressão —  o que não é surpreendente, uma vez que a depressão significativa está associada com menos atividade sexual.

 

Discussão e conclusões

Este é um dos primeiros estudos comportamentais, desde que o tratamento universal passou a ser recomendado, a tentar capturar as mudanças no comportamento dos homens soropositivos após o diagnóstico e descobriu que seus semelhantes soropositivos — e somente eles, e não os amigos, parceiros, família ou médico —  têm um papel significativo no apoio.

É importante salientar que essas pesquisas só capturaram o comportamento no período pós-diagnóstico imediato — na primeira pesquisa apenas nos quatro meses depois e, na segunda, dois terços tinham sido diagnosticados há menos de um ano.

Como os próprios pesquisadores comentam, “após o diagnóstico de HIV, alguns indivíduos se fecham ou para passam o tempo considerando o que o futuro reserva para eles. Um dos aspectos decorrentes pode ser um período de celibato ou de interesse sexual reduzido.”

Outra consideração importante é que nenhuma das pesquisas perguntou aos participantes se eles estavam em tratamento ou tinham carga viral indetectável. Isto é importante porque a percepção de uma pessoa a respeito de sua infecciosidade pode fazer diferença considerável para saber se eles escolhem seus parceiros de acordo com a sorologia para o HIV, se usam preservativos ou mesmo se fazem sexo.

Como é que se concilia essas descobertas com outras pesquisas que mostram que as pessoas soropositivas, em geral, tendem a praticar mais sexo casual e sem preservativo e ter níveis altos de infecções sexualmente transmissíveis? Uma razão pode ser que, após o período pós-diagnóstico, homens soropositivos simplesmente revertam, ou mesmo ultrapassem, os níveis anteriores de atividade sexual. Embora este possa ser mesmo o caso, a escolha de parceiros com base na sua sorologia para o HIV parece continuar e, enquanto os homens soropositivos pareçam fazer mais sexo sem preservativo, uma boa quantidade desse sexo é com outros homens com HIV, tal como ambas as pesquisas de São Francisco e Londres sugerem.

Em geral, isso pode ter efeitos positivos na comunidade gay, uma vez que reduz a quantidade de sexo que oferece risco de transmissão do HIV, mas aumenta os efeitos negativos sobre os próprios homens soropositivos, uma vez que os restringe para um grupo menor de parceiros com taxas muito mais elevadas de circulação de DSTs.

O que esta pesquisa australiana mostra, no entanto, é que o apoio dos semelhantes com HIV pode ter um efeito positivo.

Em 2 de maio de 2016 por Gus Cairns para o Aidsmap

Referência: Prestage G et al. Impact of peer support on behavior change among newly diagnosed Australian gay men. JAIDS, early online publication, DOI:10.1097/QAI.0000000000001017. Abstract here. 2016.