Não é porque uma pessoa se descobriu soropositiva que deve deixar sua sexualidade de lado. A diferença é que o sexo deverá ser sempre com a href=”http://jovemsoropositivo.wordpress.com/tag/camisinha” target=”_blank”>camisinha.

Grindr, um aplicativo de relaciomantos gay, está fazendo uma pesquisa com alguns usuários sobre um filtro para identificar os usuários soropositivos.

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“‘Você está louca?’ Esta foi a primeira frase que ouvi de algumas pessoas próximas quando contei que estava interessada por um soropositivo.

Eu acabara de terminar um longo relacionamento e não tinha mais nenhuma prática em conhecer pessoas novas. Então, me cadastrei em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando começamos a conversar. O que eu posso dizer? Éramos tão diferentes, mas tudo fluía de uma forma tão natural que logo a sua presença passou a fazer parte importante do meu dia. Ele era a primeira pessoa com quem falava assim que acordava e a última pessoa para quem eu mandava mensagem antes de dormir.

Depois de dois meses conversando e nos conhecendo através de mensagens, áudios e telefonemas, a ideia de nos encontrarmos pessoalmente começava a tomar forma. Foi neste momento que ele me contou sobre a sua sorologia. Comentou sobre como tinha descoberto e mais um monte de detalhes.

Cazuza

Não vou mentir e dizer que levei tudo numa boa e nem vou dizer que fiquei estarrecida e brava com o fato dele não ter me contado antes. Eu apenas ouvi a história dele e a aceitei. Em momento algum pensei em afastá-lo, mas também não sabia como proceder e não tinha nenhum conhecimento específico sobre o HIV. Só conseguia lembrar de uma capa da Revista Veja, onde aparecia o Cazuza já debilitado pela aids — e essa imagem de uma pessoa doente em nada tinha de semelhante com as fotos e vídeos que recebia do rapaz pelo qual estava interessada. Ele era igual a qualquer outra pessoa, com ou sem HIV.

 

‘Você tem que deixar isso de lado, procure outra pessoa, você é bonita, vai encontrar alguém saudável.’ Este foi um dos vários conselhos que recebi enquanto dividia os meus anseios com alguns de meus melhores amigos. E também foi o que mais me marcou. Afinal de contas, o que as pessoas queriam dizer com ‘ser saudável’? Em que sentido eu deveria procurar alguém ‘saudável’? As pessoas que possuem HIV positivo não podem ser ‘saudáveis’?

Em parte, me senti ofendida com a imputação do termo ‘saudável’ neste conselho e fiquei me questionando que, se por acaso eu me descobrisse soropositiva, automaticamente deixaria de ser  ‘saudável’. Foi bem esquisito saber que algumas pessoas pensavam desta maneira. Afinal, sob esse raciocínio, quer dizer que, caso eu fosse soropositiva, deveria me afastar do convívio com os soronegativos, simplesmente para poupá-los de minha condição? Me pareceu que, se fosse portadora do HIV, seria como se carregasse, em meu corpo, uma gigantesca bomba relógio, prestes à explodir e afetar todos à minha volta. Também me pareceu que, por ter feito alguma escolha errada — como fazer sexo sem preservativo — eu deveria então me culpar, talvez me mutilar psicologicamente e me excluir socialmente do convívio com os considerados ‘saudáveis’.

Mas logo coloquei em prática algo que aprendi desde muito cedo e que procuro carregar comigo nos mais diversos aspectos da minha vida: a informação para a quebra do preconceito. percebi que precisava conhecer o que era o HIV. Optei por me informar e assisti a muitos filmes, documentários e li muito na internet. Precisava tentar entender o que é ser soropositivo hoje, em 2016.

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Aprendi muito sobre o surgimento da doença com filmes de documentário, como: ‘How to Survive a Plague’, ‘Estávamos Aqui’, ‘Larry Kramer: In Love and Anger’, ‘The Normal Heart’, entre muitos outros. Fiquei indignada em algumas situações, chocada em outras e chorei em uma boa parte delas. Este primeiro contato com a história da aids, do anúncio diário de mortes das pessoas que possuíam a doença, do preconceito enfrentado pelas mesmas, do medo do desconhecido, da falta de posição e incentivo à pesquisas pelo governo americano nos anos 80, a maneira como o então presidente Ronald Reagan ignorava a epidemia que estava matando pessoas aos montes, a luta de grupos de ativistas, como o Act Up, para que as medicações fossem desenvolvidas, etc., tudo isso me fez perceber que, ainda hoje, muitas das pessoas com quem conversei, acreditam que o HIV ainda é tão mortífero e feroz quanto a aids no final dos anos 80.

Acho que uma das partes que mais me marcou nesses documentários foi o fato de que, enquanto estavam internados, na fase terminal da doença, muitos pacientes não recebiam nem alimentação, pois muitos dos profissionais de saúde que deveriam cuidar deles se recusavam a entrar nos quartos desses pacientes. Muitas vezes, esse trabalho era feito por pessoas voluntárias, como parentes, amigos e algumas homossexuais femininas que se revezavam para ajudar a cuidar destes pacientes.

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E foi assim que comecei a entender porque muitos soropositivos optam por esconder sua condição ou sua identidade: mesmo 35 anos depois do início da epidemia, percebo que ainda existe o estigma da doença e que o preconceito ainda é muito forte e cruel.

Contudo, foi graças a este primeiro interesse que tive pela história da aids e do HIV que pude fazer um paralelo e perceber que hoje as coisas são bem diferentes. As pessoas que possuem o vírus muitas vezes são mais saudáveis do que soronegativos que estão à nossa volta. Ora, existe diabetes, pressão alta, colesterol, sedentarismo, tabagismo, câncer, obesidade, etc., então, por que eu deveria considerar que um vírus controlável através de medicações deixaria uma pessoa automaticamente doente, como se fosse uma bomba relógio?

Não estamos mais nos anos 80. Atualmente, a cada dia, um novo estudo ou uma nova forma de tratamento vem à tona. Hoje, há muito mais esperança de cura do que no passado, quando a aids ainda era rotulada como o ‘câncer gay’.

 

‘Mas você tem um filho pequeno, ele tem só 5 anos, você deixaria ele conviver com alguém soropositivo?’ Sim, e por que não deixaria? Até onde eu sei, o HIV não se pega respirando, nem tocando, nem beijando. As demonstrações de afeto não transmitem HIV. As pessoas soropositivas têm filhos — aliás, a transmissão vertical já foi extinta em alguns países. Então, qual é o problema? Nenhum. A verdade é que não existe problema aqui. O que existe é preconceito.

Eu não só deixaria meu filho ter essa convivência, como explicaria para ele, como sempre fiz, que o amor é o que basta. Ora, se eu o crio para não fazer distinção entre o que é feminino e o que é masculino, se eu o crio para respeitar as diversidades, se eu quero que ele seja um bom cidadão, para que ele afaste o machismo de seus conceitos, por que seria preconceituosa com uma questão bem mais simples, como é, ao meu ver, a questão do HIV? Nada disso! Eu não faço parte da ‘família tradicional’, fui mãe solteira e ensino para o meu filho a linguagem do amor: ela envolve aceitação e respeito.

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Depois de pensar e pensar mais um pouco sobre as opiniões de pessoas próximas, tentar perceber se eu mesma tinha ou não algum preconceito, ir aos CTAs sanar algumas dúvidas, fazer o meu próprio teste de HIV, entender que o vírus não é uma sentença de morte que transforma uma pessoa ‘saudável’ em doente de uma hora para outra, é que percebi que tudo o que precisava fazer para continuar com meu interesse por aquela pessoa é, na hora do sexo, simplesmente usar preservativo, como eu faria em qualquer outra relação.

 

Mas nem tudo acontece do jeito que a gente deseja ou do jeito que a gente quer. Tive quatro meses ótimos de convivência e cumplicidade com ele. Nosso primeiro encontro pessoal foi ótimo: a conversa fluía de uma maneira que há muito tempo não acontecia comigo com qualquer outra pessoa. Eu estava interessada de verdade e muito disposta a ficar com ele, a manter um relacionamento, a criar expectativas, a dividir e a somar. Ele era como qualquer outra pessoa: não era diferente em nada e, na maioria das vezes, eu nem lembrava que ele tinha HIV.

Mas ele, sim. Ele ainda se lembrava com uma frequência muito maior do que eu de que ele era soropositivo. Aliás, fazia questão de lembrar disso todos os dias. Chego a pensar que, na verdade, ele é que deveria me achar louca por querer ficar com ele, como se me colocasse em risco, por ter um relacionamento com alguém que carregava uma grande culpa — quase ‘a culpa do mundo’ nas costas, como ele mesmo disse em uma de nossas últimas conversas.

Ele me disse que eu não merecia isso. Eu o aceitava, mas ele ainda não. E isso foi o que me deixou frustrada. Como pode ele decidir o que eu mereço e o que eu não mereço? Como pode ele se julgar inferior aos outros, diante de tudo o que sabemos hoje sobre o HIV? Fiquei, sim, muito brava com ele. Fiquei brava porque ele decidiu por mim. Fiquei brava porque ele não foi capaz de enxergar o quão especial ele era. Ele não era o HIV, mas deixou que o HIV tomasse conta de quem era. E assim acabou. Infelizmente. Ainda acho que vida é bela, e que, às vezes, só preciso ajustar um pouco o foco.

Com amor,
C.”


Aidsmap

O tratamento antirretroviral reduziu o risco de transmissão do HIV em 77% em casais sorodiscordantes na área rural da África do Sul, de acordo com um estudo de base populacional realizado na província sul-africana de KwaZulu-Natal. Os resultados foram publicados online no Clinical Infectious Diseases. Os pesquisadores dizem que suas descobertas fornecem uma estimativa do impacto do tratamento antirretroviral sobre a transmissão do HIV na vida real, em condições normais da comunidade.

Os resultados do estudo vêm de um estudo longitudinal de base populacional que está sendo realizado no norte da província de KwaZulu-Natal pelo Africa Centre for Population Health. KwaZulu-Natal tem a maior prevalência de HIV na África do Sul (29%) e a incidência de HIV continua a ser elevado. O tratamento anti-retroviral começou a ser fornecido na província em 2004.

Os pesquisadores queriam determinar se a transmissão do HIV estava sendo reduzida por conta da terapia antirretroviral e se correspondia ao HPTN 052.

Os pesquisadores queriam determinar se a transmissão do HIV estava sendo reduzida por conta da terapia antirretroviral em KwaZulu-Natal, e se essa redução da transmissibilidade correspondia ao impacto da redução da transmissão por conta terapia antirretroviral observada em casais sorodiscordantes no estudo clínico randomizado do HPTN 052. Nas condições cuidadosamente monitoradas do estudo HPTN 052, onde 89% dos participantes estavam com supressão viral, a terapia antirretroviral reduziu o risco de transmissão em 96%.

A análise examinou o efeito do tratamento antirretroviral sobre a transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes entre 2005 e 2013 e incluiu casais que moravam e que não moravam juntos. Os pesquisadores identificaram as uniões através de vigilância domiciliar demográfica e apuraram os dados de condição sorológica para o HIV de dados de vigilância. Casais que não moravam juntos foram identificados por auto-relato.

Durante o acompanhamento longitudinal, os pesquisadores buscaram por casos de soroconversão em pessoas anteriormente soronegativas, parceiras de indivíduos soropositivos. Indivíduos soronegativos deixaram de ser acompanhados se o relacionamento terminou. O estado do tratamento antirretroviral de indivíduos soropositivos foi verificado a partir dos registros do Hlabisa HIV Treatment and Care Programme, que fornece acesso gratuito ao tratamento antirretroviral em 17 unidades básicas de saúde no distrito.

Como parte do estudo populacional longitudinal, os participantes foram testados regularmente para o HIV durante o período de acompanhamento, em média, uma vez por ano (intervalo médio de 374 dias entre os testes). Um total de 17.106 indivíduos adultos contribuíram para um acompanhamento de 60.349 pessoas-anos. O estudo identificou 2.029 pessoas soronegativas com um parceiro em coabitação, das quais 196 tinham um parceiro com infecção pelo HIV. O restante tinham parceiros soronegativos. Dos 196 parceiros com HIV, 20 estavam em tratamento antirretroviral no início do estudo e 56 começaram o tratamento durante o período de acompanhamento.

63% dos participantes eram mulheres. A idade média dos participantes foi de 33 anos, mas a idade média era substancialmente maior em mulheres do que em homens (36 anos versus 28,5 anos). 3,3% dos participantes relataram ter mais de um parceiro sexual nos últimos 12 meses; homens relataram múltiplos parceiros com mais frequência do que as mulheres (7,2% versus 0,6%). O uso inconsistente do preservativo foi relatado por 37,4% dos participantes e foi mais comumente relatado por mulheres (42,9% versus 29,1%).

Ter um parceiro que estava tomando tratamento antirretroviral reduziu o risco de adquirir o HIV em 77%.

A incidência foi maior entre as pessoas com um parceiro soropositivo que não estava em terapia antirretroviral (5,6 por 100 pessoas-ano, 95% CI 3,5-8,4), em comparação com 1,4 por 100 pessoas-ano (95% 0,4-3,5 CI) em pessoas com um parceiro soropositivo em terapia. Ter um parceiro que estava tomando tratamento antirretroviral reduziu o risco de adquirir o HIV em 77% (HR 0,23; IC 95% 0,07-0,80).

Os pesquisadores apontam que interrupções de medicamentos e falta em consultas médicas eram comuns nas clínicas de cuidados primários de saúde que fornecem o tratamento antirretroviral para a população que participou no estudo, sugerindo que a supressão viral pode ter sido imperfeita entre aqueles em tratamento. A supressão viral em toda a província entre as pessoas que recebem a terapia antirretroviral antes de 2010 havia sido relatada como sendo de 77%. Entre parceiros soronegativos, a incidência do HIV foi de 0,3 por 100 pessoas-ano (95% CI, 0,2-0,5) e entre as pessoas que não relataram estar em um relacionamento a incidência foi de 3,2 por 100 pessoas-ano (IC 95% 3,1-3,4) .

Apenas 29% dos participantes estavam previamente cientes da sua condição positiva para o HIV no momento em que foram testados.

A incidência geral na população estudada foi de 2,7 infecções por 100 pessoas-ano, em comparação com uma incidência máxima observada de 6 infecções por 100 pessoas-ano em mulheres jovens na província, relatado anteriormente pelo grupo de pesquisa Africa Centre nesta mesma população rural. Estas descobertas sugerem um papel muito importante desempenhado pelos relacionamentos em curso, em vez da transmissão casual do HIV neste distrito, bem como a necessidade de um melhor conhecimento sobre a condição sorológica para o HIV e apoio para a revelação dessa sorologia positiva. Apenas 29% dos participantes estavam previamente cientes da sua condição positiva para o HIV no momento em que foram testados. Enquanto no estudo HPTN 052 todos os participantes com HIV tinham revelado sua condição sorológica positiva para o HIV aos seus parceiros, neste estudo a divulgação foi uma decisão individual.

Múltiplos parceiros e uso inconsistente do preservativo foram independentemente associados com a aquisição do HIV. Os pesquisadores advertem que os resultados não podem ser generalizados para locais onde a estrutura etária é substancialmente diferente, por exemplo, onde os relacionamentos sorodiscordantes são mais prevalentes entre os mais jovens.

Apesar de uma redução de 77% na transmissão do HIV ser encorajadora, é importante notar que a taxa de incidência registada entre os parceiros de pessoas em terapia antirretroviral foi de 1,4 infecções por 100 pessoas-ano de acompanhamento (IC 95% 0,4-3,5). Em um ambiente com incidência muito alta, tal como é em KwaZulu-Natal, “intervenções de prevenção adicionais provavelmente serão necessárias para eliminar a transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes”, concluem os autores.

Também é importante notar que a supressão viral nesta amostra da comunidade local é consideravelmente menor do que na população do estudo HPTN 052, enfatizando a importância de maximizar a retenção no cuidado de saúde, minimizando ruptura da adesão aos medicamentos, assegurando que os pacientes continuem e mantenham o tratamento. Intervenções de base comunitária que melhoram a retenção e o apoio à adesão podem trazer dividendos em melhorar a supressão viral e reduzir a transmissão do HIV.

Por Keith Alcorn em 16 de junho de 2016 para o Aidsmap


Swiss Medical Weekly

Oito anos atrás, em 30 de janeiro de 2008, a Comissão Federal Suíça para Questões Relacionadas à Aids (atual Comissão Federal Suíça de Saúde Sexual) publicou uma declaração que, no campo dos assuntos envolvendo o vírus da imunodeficiência humana (HIV), rapidamente recebeu o nome de “A Declaração Suíça”. Essa declaração falava sobre a infecciosidade de uma pessoa soropositiva uma vez que o vírus foi suprimido de forma estável por pelo menos 6 meses sob terapia antirretroviral. Apesar da falta de resultados de grandes estudos randomizados, a Comissão considerou, com base em uma avaliação feita por especialistas, que o risco de transmissão do HIV sob tratamento e com carga viral indetectável é negligenciável.

A publicação era primordialmente destinada a médicos suíços, informando-os de que já era hora de discutir sobre os novos dados a respeito da infecciosidade com seus pacientes. Diferenças problemáticas nas mensagens de prevenção já estavam sendo observadas pela Comissão: alguns médicos falavam abertamente com seus pacientes e reafirmavam sobre o baixíssimo risco de transmissão do HIV sob antirretrovirais e carga viral indetectável, quando estes pacientes diziam ter tido relações sexuais sem preservativo com seu parceiro fixo, enquanto outros diziam aos seus pacientes soropositivos sob terapia antirretroviral que qualquer prática sexual sem preservativo — mesmo com um outro parceiro soropositivo — era arriscada.

Naquela época, já estava claro que a terapia antirretroviral de fato reduzia a probabilidade de transmissão, mas a estimativa da Comissão sobre a magnitude deste risco não era discutida com os pacientes e nem comunicada amplamente. A Comissão resumiu o conhecimento epidemiológico e biológico conhecido na época e concluiu que o risco de transmissão do HIV entra casais sorodiscordantes, onde o parceiro positivo estava em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, pode ser considerado negligenciável. O foco da Comissão era sobre como divulgar esta informação para um casal em que um dos parceiros era soropositivo.

 

As primeiras reações à Declaração Suíça

Reações à Declaração Suíça vieram de muito mais longe e com muito mais agressividade do que jamais antecipado. Embora a publicação tenha sido apenas em alemão e francês, e formulada como fonte de informação para os médicos suíços sobre a maneira de informar seus pacientes e seus parceiros, foi imediatamente republicada em inglês e, em seguida, atraiu atenção da mídia internacional.

“A terapia antirretroviral tem o potencial de aliviar as pessoas que vivem com HIV do ônus da culpa.”

As reações positivas vieram principalmente de grupos de soropositivos, que observaram que a Declaração “favorece a qualidade de vida e — acima de tudo — a integração social das pessoas com HIV”. Outra reação destacou que a Declaração trazia a primeira informação clara de que “a terapia antirretroviral tem o potencial de aliviar as pessoas que vivem com o HIV do ônus da culpa, ansiedade e medo de responsabilidade criminal diante da possibilidade de transmitir o HIV para outras pessoas”.

No entanto, no início, houve também muitas reações negativas, que vieram principalmente dos campos médicos e de saúde pública. Curiosamente, havia dois tipos principais de crítica que, aparentemente, contradiziam uma à outra: um grupo alegava que, embora a afirmação fosse verdadeira, não deveria ser tornada pública, por causa do medo da compensação de risco e/ou desinibição comportamental, que acabaria por aumentar a epidemia de HIV e os riscos de transmissão de outras doenças sexualmente transmissíveis (DST). Outro grupo argumentava que o risco de transmissão do HIV através relações sexuais com um parceiro com carga viral suprimida não era negligenciável (especialmente no sexo anal).

Basear mensagens de prevenção ao HIV dentro de informações falsas ou desatualizadas pode ter consequências graves.

É ético reter informações dos pacientes por causa de (injustificado) temor de que a epidemia possa piorar como resultado de informá-los? A Comissão acreditou que a informação sobre a prevenção do HIV precisava ser bem ponderada e individualizada. Por um lado, é importante considerar as consequências indesejáveis, tais como a compensação do risco e/ou desinibição comportamental. Por outro lado, basear mensagens de prevenção ao HIV dentro de informações falsas ou desatualizadas também pode ter consequências graves para a credibilidade daqueles que as divulgam, prejudicando a confiança entre os órgãos públicos de saúde e o público, médicos e pacientes.

Antes da Declaração ser publicada, a Comissão tentou encontrar provas de consequências negativas causadas pela compensação do risco e/ou desinibição comportamental. Ficou claro que a desinibição comportamental já estava acontecendo, como demonstrado por pesquisas de uso do preservativo e do rápido aumento da incidência de sífilis entre homens que fazem sexo com homens (HSH) na década anterior. Enquanto isso, em São Francisco, onde havia bons dados sobre a epidemiologia do HIV e outras DSTs, não havia sido observado qualquer aumento paralelo da incidência de HIV, apesar de um aumento de outras DSTs.

No entanto, os críticos da Declaração raramente consideravam o vasto potencial de uma série de efeitos positivos decorrentes da informação de que o tratamento do HIV também é prevenção. Um desses efeitos foi na adesão ao tratamento. A adesão altruísta — tomar os antirretrovirais regularmente para que meu parceiro não seja infectado — é resultado do conhecimento da não-infecciosidade perante o tratamento antirretroviral totalmente supressivo. Isso foi relatado por muitos pacientes e, recentemente, foi proposto como uma base relevante para o aumento da adesão.

A adesão individual e o número de pessoas fazendo tratamento aumentaram após a publicação do comunicado na Suíça.

De fato, tanto a adesão individual quanto o número de pessoas fazendo tratamento aumentaram imediatamente após a publicação do comunicado na Suíça, em 2008. Embora não possa ser demonstrado que isso é resultado de discutir abertamente sobre o risco limitado de transmissão do HIV durante o uso dos antirretrovirais e com carga viral indetectável, é intuitivo conceber que o conhecimento dessas informações adicionais sobre a não-infecciosidade sob o uso de antirretrovirais ajudou pacientes a se motivarem para iniciar e/ou aderir ao tratamento. Notavelmente, na Suíça, a taxa de tratamento supressivo entre aqueles com diagnóstico de HIV foi de 85% em 2012. Esse percentual é um dos mais altos em todo o mundo, o que sugere um efeito benéfico potencial da Declaração Suíça sobre a adesão ao tratamento.

 

Por que a Declaração Suíça alega “risco negligenciável de transmissão”?

Um dos equívocos mais comuns sobre a Declaração se refere ao método utilizado para estimar o risco de transmissão do HIV sob antirretrovirais. A falta de dados de estudos randomizados levou alguns especialistas a afirmar que a Declaração foi baseada em absolutamente nenhum dado sequer. Embora a Declaração tenha sido baseada em uma análise clara de todos os dados disponíveis, ela partiu de um exemplo de conhecimento limitado. Em meados dos anos 80, o público foi informado de que o HIV não poderia ser transmitido por beijo ou através de contato domiciliar não-sexual, apesar de limitados dados prospectivos para apoiar esta afirmação — na verdade, apenas um estudo avaliou corretamente essa questão, com base em 100 contatos domiciliares.

Estamos todos de acordo de que a observação de que não há casos documentados é o argumento mais forte para nos fazer acreditar que o beijo é seguro.

A razão pela qual estávamos confiantes o suficiente naquele momento para dizer que não havia risco de beijar ou de viver com um parceiro soropositivo era simplesmente porque não foram observados tais casos de transmissão. Se esses dados fossem tratados tão rigorosamente como a questão da transmissão sexual sob antirretrovirais, teríamos que usar o nível de confiança de 95% para expressar a margem superior de risco. O fato de haver zero caso entre contatos domiciliares teria que ser expresso com um intervalo de confiança de 95% entre 0-30%. Curiosamente, não há estudos adicionais realizados para demonstrar o risco de beijar, apesar do limite superior de 95% de confiança (com taxa de transmissão de 30%) a partir deste pequeno estudo individual. Estamos todos de acordo de que a observação global de que não há casos documentados é o argumento mais forte para nos fazer acreditar que o beijo é seguro.

Não havia absolutamente nenhuma indicação de que uma única pessoa com uma carga viral indetectável tivesse transmitido o vírus.

No entanto, a mesma “evidência” da não-observação também estava disponível em 2008 para o caso da transmissão do HIV a partir de uma pessoa com carga viral totalmente suprimida sobantirretrovirais. Não havia absolutamente nenhuma indicação — nem de relatos individuais e nem dos poucos estudos observacionais — de que uma única pessoa com uma carga viral indetectável tivesse transmitido o vírus. Na verdade, se a transmissão tivesse ocorrido a uma taxa superior a 1:100.000 atos sexuais, teríamos esperado pelo menos um evento documentado na época. Essa estimativa foi baseada na frequência do sexo sem preservativo reportado entre casais de diferente sorologia para o HIV (25% em questionários anônimos) e do grande número de pacientes sob tratamento (>400.000 na Europa e EUA durante os últimos 5 anos) e uma média de frequência de três atos sexuais por mês com um parceiro fixo (aproximadamente 30% da população) e em uma probabilidade de apenas 1% de documentação do ocorrido. O fato de que nenhum caso foi relatado em todo o mundo era provavelmente o argumento mais forte a Comissão tinha.

É importante salientar que a Comissão resumiu também a evidência dos estudos publicados ou prospectivos apresentados, mas apenas alguns estudos prospectivos que avaliavam o risco de transmissão sob antirretrovirais estavam disponíveis na época. Embora esses estudos fossem resumidos a menos de 200 anos de observação sob antirretrovirais, eles demonstravam claramente que não havia qualquer transmissão neste cenário. No entanto, com o número limitado de parceiros, o intervalo superior de confiança de 95%  de zero transmissão foi apenas na faixa de 1 por 100 pacientes-ano. Contudo, todas as evidências desses estudos eram muito menos convincente do que o simples fato de que nenhum caso de transmissão no cenário descrito havia sido observado ou documentado.

Na época em que a Declaração Suíça foi publicada sabia-se que o importante estudo HPTN 052, que tem como objetivo abordar o efeito dos antirretrovirais sobre o risco de transmissão de uma forma randomizada controlada, estava em andamento. No entanto, com base nos planos originais do estudo, os resultados não eram esperados até 2016. Pelas razões descritas abaixo, a Comissão decidiu não esperar com sua Declaração até que os resultados HPTN 052 estivessem disponíveis. A partir do protocolo do HPTN 052 era também sabido que o estudo iria ser antecipado se uma certa diferença nas taxas de transmissão fosse observada, o que tornaria a continuação dos dois braços do estudo antiéticas. Assim, o HPTN 052 levou a concluir (no caso de não transmissão observada durante terapia antirretroviral supressora) que o intervalo de confiança de 95% para o risco de transmissão seria inferior a 0,3 a cada 100 parceiros-ano (menos do que 1 em 300 parceiros-ano). Já em 2008 estava claro que, no melhor dos casos de zero transmissão dentro do estudo HPTN 052, este só seria capaz de demonstrar um nível de confiança superior de 95%  para a transmissão (1 em 300 parceiros-ano), que era ainda menor do que a Comissão havia antecipado com “nenhum caso documentado”.

 

Alguns sinais de urgência para publicar a Declaração Suíça

Mas por que a Comissão não aguardou os resultados do estudo randomizado controlado? Ela foi confrontada com uma série de circunstâncias que considerava tão importante que seus membros sentiram que era impossível, talvez mesmo antiético, para aguardar os resultados do HPTN 052. Três questões foram de maior preocupação:

Primeiro e mais importante, na Suíça houve numerosos casos de condenações penais injustas de indivíduos que estavam em tratamento antirretroviral supressivo e que tiveram relações sexuais sem preservativo com um parceiro soronegativo. Algumas destas condenações ocorreram mesmo quando o parceiro soronegativo estava ciente do status positivo para o HIV de seu parceiro e tinham consentido em não usar o preservativo. Estes processos, que seguiam como “exposição ao HIV”, enquadravam-se nos termos do artigo §231 do Código Penal Suíço (sobre propagação de doenças perigosas), com penas de prisão que variam entre 18 meses e 4 anos, além de uma multa de até 80.000 francos suíços [o equivalente a R$ 284.344,00, de acordo com o UOL Economia em 10 de junho de 2016] — penas estas muito mais mais duras do que para outros “crimes” não-relacionados ao HIV. Consequentemente, os especialistas jurídicos da Comissão votaram por uma declaração clara, a fim de impedir que estes processos injustos prosseguissem.

Com base na percepção de risco excessivamente elevada, casais optaram por uma intervenção mais onerosa e que teve taxa de sucesso menor do que a concepção natural.

Em segundo lugar, a Comissão tinha observado um número crescente de casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV) que queriam conceber um filho, mas não eram capazes de alcançar esse objetivo com sexo sem preservativo, devido ao medo sobrevalorizado de transmissão. Em 1996, em St. Gallen, começamos a colaborar com centros europeus, oferecendo assistência reprodutiva para casais sorodiscordantes. Tal como em outros lugares de todo o mundo, a inseminação intrauterina com sêmen processado era oferecida às parceiras soronegativas de homens soropositivos. Com aconselhamento contínuo nesta população, começamos a perceber, no início de 2000, que todos os parceiros do sexo masculino estavam sob tratamento antirretroviral totalmente supressivo e, em seguida, que o risco percebido (pelos parceiros) era de magnitude maior do que as nossas próprias estimativas. Com base na percepção de risco excessivamente elevada, esses casais optaram por uma intervenção mais onerosa e que teve uma taxa de sucesso significativamente menor do que a concepção natural.

Em outras partes do mundo, o debate público sobre os riscos de transmissão mais baixos do que eram percebidos não estava ocorrendo.

Em 2013, quando começamos a informar esses casais sobre o baixo risco de transmissão (1/100 parceiros-ano ou inferior), todos os parceiros (com exceção de um único casal) optaram pela concepção natural (com garantias adicionais, como a relação sexual cronometrada e profilaxia pré-exposição) como sua modalidade preferida para concepção. Essa experiência demonstrou que os indivíduos soropositivos (e seus parceiros) puderam, de fato, decidir de forma diferente depois de um aconselhamento abrangente e que abordou todos os fatos a respeito do risco de transmissão conhecidos naquela época. Nós ainda não tínhamos publicado a Declaração, a qual veio a ser a fonte de informações que acabou de fazer uma grande diferença na vida dos nossos pacientes. Infelizmente, em outras partes do mundo, o debate público sobre os riscos de transmissão mais baixos do que eram percebidos não estava ocorrendo. Algumas autoridades (e médicos) em todo o mundo ainda não estavam divulgando essa informação, apesar da obrigação ética de fazê-lo.

O terceiro argumento que motivou o grupo a publicar a Declaração Suíça e, assim, promover a tomada de decisão compartilhada (em vez de colocar a responsabilidade da prevenção do HIV unicamente na pessoa que vive com HIV), foi a consideração desequilibrada sobre os diferentes riscos que se dava no debate público. Já mencionamos a diferença marcante entre a percepção dos riscos de transmissão do HIV através do beijo em oposição à práticas sexuais sem preservativo sob tratamento antirretroviral, quando os dados disponíveis para comprová-los são comparados. Mas mais surpreendente é a diferença na comunicação a respeito do risco para a transmissão sexual vírus da hepatite C (HCV) a parceiros heterossexuais estáveis. Sabemos que a transmissão sexual do HCV é rara, embora a transmissão heterossexual já tenha sido claramente relatada. No entanto, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) afirmam: “pessoas positivas para o HCV com o parceiro sexual estável de longo prazo não precisam mudar suas práticas sexuais”.

 

Oito anos mais tarde, nenhuma evidência surpreendente

Agora, oito anos mais tarde, muito pouco mudou em nossas estimativas de risco de transmissão do HIV. É importante salientar que a evidência mais convincente — o fato de que não há qualquer transmissão documentada sob tratamento antirretroviral e carga viral indetectável — continua a ser o argumento mais forte a apoiar a Declaração Suíça. Na verdade, esse período acrescido de oito anos ainda sem qualquer caso documentado, aumenta significativamente a força da argumentação inicial, pelo menos, duplicando da evidência.

Mais importante ainda, a Declaração Suíça era provocante e alimentou a pesquisa científica para tais casos. Apesar da publicação do “Caso Frankfurt”, em que foi observada uma transmissão de HIV sob terapia antirretroviral, anos antes da Declaração Suíça, nenhum outro caso foi documentado desde então. Notavelmente, o Caso Frankfurt envolveu um casal com transmissão documentada, porém, a transmissão se deu durante o tempo anterior ou logo após o início do tratamento antirretroviral, o que impede de comprovar ou descartar o ocorrido.

Se apenas transmissões após os primeiros seis meses de tratamento forem consideradas, a eficácia seria de 100% com risco zero de transmissão.

Como mencionado acima, o estudo HPTN 052 só observou casos de transmissão durante a terapia antirretroviral que ocorreram pouco depois (dias) depois do início do tratamento. Se apenas transmissões após os primeiros seis meses de tratamento forem consideradas (conforme estipulado na Declaração Suíça), a eficácia seria de 100% com risco zero de transmissão. Neste caso, o tempo de observação teria de ser reduzido para o período de seis meses, o que também afeta a estimativa superior de risco de transmissão de 95% para “zero”. Esta modificação da avaliação de risco em um limite de confiança superior de 95% resulta num “risco zero” de 0,3/100 parceiros-ano. Este nível superior do intervalo de confiança é de 3 a 4 vezes menor do que a evidência disponível a partir dos estudos que a Comissão dispunha em 2008. Além disso, o estudo prospectivo e estudo em andamento PARTNER, o qual recrutou casais sorodiscordantes que têm relações sexuais sem preservativo, incluindo 40% de casais HSH, apoiou a evidência de zero transmissões com 894 parceiros anos adicionais de acompanhamento, aumentando ainda mais a nossa confiança de que o verdadeiro risco está perto — se não for mesmo zero.

No entanto, alguns autores ainda usam limites de confiança maiores e extrapolam os riscos de 10 anos e concluem estimativas implausíveis de alto risco cumulativo. Usando essa estratégia, Lasry et al. postularam riscos extremamente elevados de transmissão cumulativos para alguns tipos de exposições [24], como um risco de 2% após 10 anos de exposição entre parceiros heterossexuais sorodiscordantes — um risco que já deveria ter resultado em vários casos de transmissão observado no estudo Swiss HIV Cohort, o que ainda não ocorreu. A melhor interpretação de tais exercícios matemáticos é concluir que os esses limites de confiança maiores são demasiado elevados para refletir a vida real.

Vários grupos têm aceitado as informações de estudos como o HPTN 052 e PARTNER para dar confiança suficiente de que o sexo sem preservativo, sob terapia antirretroviral e carga viral indetectável é seguro entre casais heterossexuais, mas continuam a questionar a segurança dos antirretrovirais para prevenir a transmissão sexual entre HSH. No entanto, o argumento da não-documentação que foi usado na Declaração Suíço, e se tornou ainda mais forte depois de mais de oito anos de observação, também se aplica aos HSH — talvez mais ainda, uma vez que HSH ainda são o grupo mais afetado pelo HIV em todo o mundo e, portanto, contribuem substancialmente para o resultado de “não-documentação”. Além disso, nos dois anos de análise preliminar dos estudo Opposite Attracts, como esperado, também não foi observada qualquer transmissão do HIV.

Apesar do aumento de práticas sexuais sem preservativo, temos observado uma diminuição nas novas infecções por HIV na Suíça.

O receio do aumento nas infecções por HIV devido a um efeito desinibidor da Declaração Suíça se cumpriu? A partir do estudo Swiss HIV Cohort sabemos que o sexo sem preservativo tornou-se muito mais prevalente após a publicação da Declaração. Mas, apesar do aumento de práticas sexuais sem preservativo, temos observado uma diminuição constante nas novas infecções por HIV na Suíça desde 2008. A Declaração Suíça tentou identificar ainda a situação de maior confiança para a afirmação de “ausência de risco”, com base nas evidências disponíveis. Por conseguinte, verificou-se que um efeito negativo da interferência de outras DSTs não poderia ser excluída. No entanto, as evidências mais recentes sugerem que esta medida de segurança adicional é menos importante. O estudo randomizado HPTN 052 e o prospectivo PARTNER não viram tal efeito. Kelly et al. também documentaram a supressão estável da carga viral do HIV no reto na presença de DSTs bacteriana.

 

Apesar de evidência crescente, nenhuma aceitação global

Em resumo, nos últimos oito anos, um estudo randomizado e dois estudos observacionais em andamento continuam a apoiar a hipótese de “ausência de risco” da Declaração Suíça, Além disso, a base para a Declaração — a ausência de casos observados — aumentou ainda mais ao longo do tempo. Uma vez que este foi um tema quente desde sua publicação, pode-se esperar um grau ainda maior de escrutínio entre os médicos para investigar e publicar casos suspeitos, em comparação aos anos anteriores a 2008. Portanto, mais uma vez, a falta de casos documentados deve ser ainda mais convincente do que era em 2008.

Ainda assim, algumas autoridades, como o CDC, continuam relutantes em considerar o sexo sem preservativo com um parceiro sob tratamento antirretroviral totalmente supressivo como seguro o suficiente para recomendar que os médicos discutam abertamente essa opção com seus pacientes. Na verdade, o CDC chegou a propor que os indivíduos soronegativos com parceiros fixos soropositivos não só devessem usar preservativos, mas também fazer uso de profilaxia pré-exposição (PrEP), como uma salvaguarda adicional. A recomendação vem sem um cálculo do número e custo para prevenir um único caso de infecção pelo HIV.

 

Não há mais processos por exposição ao HIV na Suíça

Havia três questões fundamentais que motivaram a publicação da Declaração Suíça em 2008, ao invés de esperar a evidência do HPTN 052: criminalização, concepção e a convicção de que era ético envolver os pacientes na tomada de decisão compartilhada. Os efeitos positivos da Declaração excederam as expectativas da Comissão, tanto em termos de geografia e como de impacto.

Até 2008, a Suíça era um dos países com o maior número de condenações por exposição percebida ou potencial do HIV. O efeito da Declaração foi tão convincente que o procurador-adjunto de Genebra, Yves Bertossa, pediu uma revisão de uma acusação exposição ao HIV depois de ler a Declaração Suíça. O Tribunal de Justiça de Genebra posteriormente anulou a condenação e não houve mais relatos de processos por exposição ao HIV, uma vez a decisão.

Além disso, a Declaração Suíça influenciou outros grupos de especialistas a elaborar outras declarações, as quais têm impactado a política de direito penal em algumas jurisdições, incluindo Canadá, Inglaterra, Escócia e Suécia. Apesar disso, o número de jurisdições que reconhecem o benefício do tratamento como prevenção no contexto do direito penal ainda é frustrantemente baixo. Esperamos que outros especialistas em ciência do HIV, da saúde pública e de legislação em todo o mundo que cumpram responsabilidades profissionais e éticas para ajudar aqueles no sistema de justiça criminal a compreender e interpretar as evidências médicas e científicas atuais sobre o HIV e, assim, tomar medidas semelhantes.

 

Não há necessidade de inseminação artificial na Suíça

Inúmeros casais sorodiscordantes já conceberam filhos naturalmente.

A segunda consequência positiva na Suíça após a Declaração foi a “normalização” da concepção entre casais sorodiscordantes. Pacientes suíços e seus parceiros aprenderam rapidamente que não havia nenhum risco relevante de transmissão sob o abrigo tratamento antirretroviral com carga viral indetectável e, portanto, a necessidade de tecnologia de reprodução artificial para conceber uma criança não era mais um problema para os casais férteis. Como consequência, a assistência reprodutiva não foi mais utilizada na Suíça após a Declaração, o que foi bem apoiado por médicos e especialistas na prevenção do HIV na Suíça. Inúmeros casais sorodiscordantes já conceberam filhos naturalmente na Suíça. Em contraste, nos países vizinhos, onde ainda falta uma declaração oficial sobre o risco de transmissão, os centros reprodutivos ainda oferecem inseminação com sêmen processado, por vezes, a um custo elevado, o que significa que os direitos reprodutivos das pessoas que vivem com HIV, por vezes, não são alcançados.

 

Empoderamento de médicos e de pessoas vivendo com HIV

A Declaração Suíça também encoraja médicos e outros profissionais de saúde em todo o mundo a falar honesta e abertamente com seus pacientes sobre o benefício do tratamento antirretroviral como prevenção. Em 2013, as diretrizes consolidadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tratamento como prevenção reconheceram pela primeira vez o efeito adicional de prevenção do HIV graças aos antirretrovirais. Posteriormente, a Sociedade Internacional de Aids produziu uma orientação influenciada pelo pragmatismo e honestidade da Declaração Suíça, a fim de ajudar os profissionais de saúde a aconselhar seus pacientes sobre uma melhor compreensão e uma maior clareza sobre os benefícios do tratamento como prevenção.

O legado mais importante da Declaração Suíça foi o empoderamento das pessoas que vivem com o HIV.

Muito provavelmente, o legado mais importante da Declaração Suíça foi o empoderamento das pessoas que vivem com o HIV. Em 2009, a uma consulta técnica internacional sobre “prevenção positiva” convocada pela Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (GNP+) e Unaids, um programa baseado nos novos direitos novos foi concebido: “Saúde Positiva, Dignidade e Prevenção”. Antes disso, muitos programas de “prevenção positiva” vinham colocando um peso indevido da responsabilidade da transmissão do HIV sobre as pessoas soropositivas. O novo foco da prevenção da transmissão do HIV é de uma responsabilidade compartilhada de todos os indivíduos, independentemente da sua condição para o HIV.

Políticas e programas baseados em direitos humanos e sustentados em evidências suportam as pessoas que vivem com HIV a fazer escolhas que atendam suas necessidades e lhes permitam viver uma vida saudável, livre de estigma e discriminação, tal como aquelas implementadas na Suíça em sequência à Declaração Suíça. Estes benefícios positivos nunca devem ser subestimados como parte do esforço para acabar a duplas epidemia: de HIV e de estigma relacionado ao HIV.

Por Pietro L. Vernazza, Infektiologie/Spitalhygiene, Kantonspital St. Gallen, Suíça, e Edwin J. Bernard, HIV Justice Network, Brighton, Reino Unido, para o Swiss Medical Weekly em 29 de janeiro de 2016.

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“Olá, Jovem! Tudo bem contigo?

Tive uma conversa recente com um amigo, que me contou ser soropositivo. Enquanto ele ia me contando sobre os fatos e sentimentos desde o momento em que teve o fatídico sexo no qual se contaminou, passando pela descoberta até os dias de hoje, fui me identificando e relembrando momentos da minha própria história, como se eu estivesse diante de um espelho — pois eu também sou soropositivo. É claro que as circunstâncias dele foram outras e são outras. Nossos caminhos são diferentes. Mas há algo que permeia nossas vivências como um cerne, que faz com que eu me identifique e me empatize facilmente com ele.

“Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição.”

A reação unânime das pessoas ao ouvirem de mim sobre a minha condição é, primeiro, de perguntar como aconteceu. Trocando em miúdos, querem saber com quem eu transei para que isso acontecesse, e quando. É uma pergunta indiscreta, chata, inapropriada, desnecessária e, em alguns momentos, até mesmo dolorosa. A resposta à essa pergunta ganha os mesmos adjetivos, mas eu tenho aprendido a simplesmente dizer: ‘eu fiz sexo sem camisinha e aconteceu’. Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, tampouco momentos tão íntimos para alguém que não fez parte deles, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição, sob a boa vontade moralmente chamada de ‘honestidade’.

Porque é que, assim que conto ter HIV, os homens me dizem: ‘Fico feliz que tenha me contado e que tenha sido honesto. Isso me encanta! Mostra o seu bom caráter. Mostra que que quer cuidar de mim’? Fazendo uma reflexão detida, está aí um julgamento perverso e opressor, que diz que o valor do meu caráter e o tamanho do meu carinho podem ser medidos a partir do fato de eu contar ou não que tenho HIV para o homem com quem vou transar.

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Mas e se eu não contasse? E se eu simplesmente dissesse que meus sexos têm de ser com camisinha do início ao fim, eu seria menos honesto ou menos bom? Então significa que os homens com os quais eu transei e não contei a respeito podem me chamar de desonesto ou cruel por não ter contado, mesmo eu tendo cuidado para que eles não fossem expostos, assim como eu me expus? E se, hipoteticamente, eles tivessem sido expostos de alguma forma, a responsabilidade não seria deles também? É claro que entra aí uma obrigação ética na qual, dada a exposição, eu tenho que orientar o sujeito a tomar os cuidados e ações necessárias, como a profilaxia pós-exposição (PEP). Mas isso, ainda assim, não me tornaria mais ou menos bondoso. Eu não faço tal julgamento do homem com quem transei e me contaminei, seja lá quem for — e não mereço ser medido assim.

Quando meu amigo me contou a história dele, me senti tão confortável em ouvir e que fiquei mais confortável em contar. Essa foi uma sensação de alívio: como a de estar em casa após uma longa viagem, a qual comecei em outubro de 2014, quando tinha 24 anos. Pela primeira vez, não me senti julgado ou culpado por mim mesmo por ter feito sexo, por ter gozado sem camisinha. Eu apenas pude ouvir aquela história, contar a minha e abraçá-lo. Depois, ser abraçado.

“Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.”

Eu não estava me justificando ou provando nada para ninguém. Não estava ‘sendo honesto’ como nas outras vezes. Estava apenas contando sobre a minha história e ouvindo a do outro. Foi algo gratuito e livre e, por isso, foi tão bom! Eu sei que é estranho dizer que é ‘bom’ que ambos possamos contar um para o outro sobre o HIV — melhor seria se não tivéssemos essas histórias para contar, é verdade, mas é bom saber que, na adversidade, eu posso encontrar alguém com quem eu possa ser simplesmente humano, sem necessidade de justificativas, sem medo de julgamentos e nem culpa por isso. Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.

“Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.”

Meu Deus, tenho me autoflagelado há quase dois anos, pensando que não sou digno de ser amado por conta disso! Sempre que me interesso por alguém, sou interrompido em meus devaneios felizes por pensamentos que dizem que a condição tenho, positiva para o HIV, me faz menos atraente ou que um relacionamento comigo é, por essa razão, mais custoso. Porém, eu não quero mais pensar assim sobre mim. Não quero mais me importar com o que vem de fora. Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.

“Quero que o HIV seja um detalhe.”

Eu não tenho que ser aceito, perdoado, nem absolvido. Quero que o HIV seja um detalhe. Sei que corro o risco de receber uma negativa — embora eu tenha tido a sorte de nunca a ter recebido. Mas eu não vou mais sentir pena de mim mesmo. E tenho que lutar por isso. Tenho crescido muito nos últimos anos, como qualquer ser humano, mas tenho certeza que o que me aconteceu comigo me obrigou a crescer mais rápido em alguns aspectos e de formas ainda mais maduras.

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Tenho aprendido, desde então, a respeitar meu espaço, meu tempo, meu corpo e meus sentimentos, assim como o dos outros. Tenho aprendido a julgar menos as circunstâncias da vida dos outros, a ouvir mais, a parar de falar quando me pego falando muito. Tenho aprendido a cuidar mais e melhor da minha saúde, a comer e dormir melhor, a sorrir mais, a não beijar e transar quando percebo que não tem significado para mim naquele momento, a beber menos e inclusive eu parei de fumar. Tenho aprendido a priorizar coisas e pessoas que antes eu não priorizava e a retirar a importância de outras. Tenho aprendido a apreciar mais e melhor o pôr do sol, as conversas com meus pais, meu irmão e meus amigos, bem como o tempo que tenho com eles e com os estranhos que encontro nessa vida.

“A juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós.”

Tenho até aprendido a ser mais agressivo quando me sinto desrespeitado. A ser mais sério e firme quando sinto que invadem meu espaço e ferem o meu direito. Tenho aprendido a me julgar menos, a me permitir ser mais humano. A viver cada momento, porque descobrir o que descobri sobre mim me fez perceber algo: a juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós, sempre com o outro — e não é assim. A morte, o infortúnio, o acidente, a má notícia, a dor e o sofrimento estão aqui, agora, presentes e nos rondando o tempo todo.

Essa é uma condição humana desesperadora, mas é a verdade. Isso não significa que devemos nos angustiar e paralisar ante ao medo, mas que devemos ainda mais desenvolver as potencialidades que postergamos, enquanto passamos a juventude pensando que sempre haverá o amanhã.

“Nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos.”

É claro que nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos. Porém, logo que descobri o vírus em mim, no momento do diagnóstico, percebi que o estigma — o mesmo que atravessou esses mesmos 30 anos — continua, junto com o medo da morte e da doença, bem próximos. Ao longo do tempo é que fui me acalmando, conhecendo mais sobre o HIV/aids, me cuidando e percebendo que estou bem, que vou continuar bem e que viverei, salvo qualquer acidente, longos anos de próspera saúde. Essa é a minha fé e esperança.

Muita gratidão a você por manter esse blog que tem sido parte importante nessa minha viagem e nas minhas reflexões, desde o diagnóstico. Sem seus textos, sem a equipe multiprofissional do CTA, onde sou tão carinhosamente bem atendido, e sem o suporte de minha família e dos amigos queridos, eu não teria chegado até aqui, tal como estou: bem. Com tudo isso, chegarei ainda mais longe.

Vida longa e saúde a todos nós!

A.”


Aidsmap

Até que ponto os homens gays modificam seu comportamento sexual de risco após um resultado positivo no teste de HIV? Duas pesquisas australianas realizadas ao longo dos últimos anos descobriram que, no período a seguir do diagnóstico, os homens homossexuais reduzem consideravelmente o número de parceiros com quem têm relações sexuais — muitos param a atividade sexual completamente — e também reduzem a quantidade de sexo sem preservativo que têm com parceiros de sorologia desconhecida para o HIV. Há também um aumento na divulgação do status positivo para o HIV para seus parceiros.

Nenhuma dessas alterações pode ser considerada particularmente como surpreendente e esta pesquisa não pode determinar se essas mudanças são sustentadas. O mais interessante foi observar que o único fator associado à uma maior probabilidade de tais reduções nos comportamentos de risco foi o apoio de outros semelhantes com HIV (e não de qualquer outra pessoa).

 

Contexto

Descobrir se as pessoas soropositivas reduzem ou aumentam o seu comportamento de risco depois que são diagnosticadas é de óbvia relevância para a prevenção do HIV, especialmente se elas não seguem para a terapia antirretroviral, uma vez que assim não conseguem atingir uma carga viral indetectável.

No entanto, essa nunca foi uma questão resolvida, porque diferentes pesquisas descobriram coisas muito diferentes. Essa situação de dúvida é agravada pelo fato de que muitas pesquisas têm apenas medido o sexo sem preservativo, o número de parceiros sexuais sem verificar sua condição sorológica para o HIV desses parceiros de sexo sem preservativo ou mesmo se a pessoa soropositiva tem carga viral indetectável.

Por conta disso, os resultados dessas pesquisas têm variado enormemente: desde um estudo de São Francisco, que estimou que homens gays com HIV tinham reduzido suas chances de transmissão do vírus em 97% em dois anos após o diagnóstico, a um estudo do Reino Unido, que encontrou taxas mais elevadas de sexo de risco em pessoas que receberam o diagnóstico positivo para o HIV do que em pessoas soropositivas ainda não diagnosticadas.

Além disso, menos estudos foram realizados nos últimos anos, quando uma taxa mais elevada de pessoas diagnosticadas puderam seguir o tratamento imediato e alcançar a supressão viral.

 

As duas pesquisas

Entre 2008 e 2015, pesquisadores australianos realizaram dois questionários com homens gays que vivem com HIV e que tinham sido diagnosticados há menos de dois anos — um dos questionários nos anos antes do tratamento ser recomendado no momento do diagnóstico (2008-2010) e outro nos anos seguintes (2011-2015). No total, 712 homens, ou cerca de 10% de todos os homens gays diagnosticados com HIV durante este período, responderam um dos questionários, embora apenas 564 completaram as perguntas a respeito de seu comportamento sexual, 263 no primeiro período e 301 no segundo período. Embora os dois questionários tenham perguntas diferentes, eles foram concebidos como uma peça única da pesquisa e os homens só poderiam respondê-los uma vez.

No primeiro questionário, os homens foram convidados a comparar o número de parceiros casuais com quem tiveram relações sexuais nas quatro semanas antes e nas quatro semanas após o diagnóstico. Também deveriam comparar o número de parceiros que eles sabiam ter HIV e com quem eles tiveram relações sexuais com ou sem preservativo, especialmente sendo “ativos”. Eles também foram convidados a avaliar, em uma escala de um a dez, a quantidade de apoio pós-diagnóstico que receberam de amigos gays, de um parceiro regular, dos pais, do seu médico e de outras pessoas com HIV.

Mais adiante, essas questões foram substituídas por perguntas simples diretas, como: “Você reduziu o número de parceiros sexuais?”, “Você evitou sexo com parceiros soronegativos?”, “Você já revelou sua condição sorológica para o HIV à outras pessoas antes do sexo?”. E, por fim: “Uma vez que recebeu o diagnóstico, você procurou o apoio de outros soropositivos através de alguma organização, grupos de apoio ou fóruns on-line?”

 

Resultados

Levando ambas as pesquisas em conjunto, a maioria dos homens estava com idades entre 30 a 50 anos e a maioria tinha graduação. Quase dois terços (63%) dos entrevistados tinham sido diagnosticados há menos um ano, antes de responderam à pesquisa, e um terço há menos de três meses. Três quartos estimaram terem se infectado com o HIV há menos de um ano antes do diagnóstico, enquanto a outra metade há menos de três meses antes do diagnóstico.

Um quarto dos homens não eram nativos australianos e um terço tinha um parceiro regular quando foram diagnosticados. Mais de um em cada cinco tinha depressão significativa, um em cada sete tinha depressão grave e 70% disseram que estavam mais deprimidos do que antes, depois de serem diagnosticados.

Respondentes do questionário de 2008-2010 relataram menos sexo sem preservativo com parceiros casuais após o diagnóstico do que antes — 27% (14% como parceiro insertivo) versus 16% (6,2% como parceiro insertivo). Antes do diagnóstico, quase tudo isso foi feito com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida, mas, após o diagnóstico, menos de 10% relataram isso, indicando que a proporção de relações sexuais sem preservativo com parceiros sabidamente soropositivos tinha mudado de 0,9% para 6,2%.

No entanto, a redução do sexo sem preservativo com parceiros ocasionais foi, em grande parte, devido aos entrevistados que relataram ter parado o sexo completamente após o diagnóstico. Nas quatro semanas antes do diagnóstico, 46% relataram ter feito sexo com parceiros casuais, 30,5% nas quatro semanas depois e 22% pararam de fazer sexo sem preservativo com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida para o HIV.

O único fator estatisticamente associado à redução no número de parceiros casuais foi maior apoio pessoal de outras pessoas com HIV. Pessoas que relataram apoio maior do que a média de seus semelhantes soropositivos se mostraram quase 40% mais propensas a reduzir o número de parceiros sexuais casuais ou de interromper o sexo casual completamente.

Na segunda pesquisa, 56% dos entrevistados disseram ter reduzido o número de homens com quem tinham relações sexuais desde o seu diagnóstico e 47% disseram ter parado de fazer sexo por completo, pelo menos por um tempo. 38% disseram ter parado de ter relações sexuais com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida e um terço disse que agora estavam mais propensos a revelar a sua condição sorológica para o HIV antes do sexo. Menos de um em cada sete não tinha feito qualquer ajuste no seu comportamento de risco.

Aqueles que reduziram seu número de parceiros casuais ou pararam o sexo completamente tinham quase duas vezes mais probabilidade de relatar ter recebido apoio recebido de colegas soropositivos, e o mesmo se passou com os homens que disseram ser mais propensos a revelar a sua soropositividade. A minoria dos homens que não tinham feito qualquer mudança no seu comportamento de risco se mostraram 70% menos propensos a relatar o apoio de outras pessoas com HIV. Reduzir a quantidade de sexo casual ou interrompê-lo por completo também foi associado à maior depressão —  o que não é surpreendente, uma vez que a depressão significativa está associada com menos atividade sexual.

 

Discussão e conclusões

Este é um dos primeiros estudos comportamentais, desde que o tratamento universal passou a ser recomendado, a tentar capturar as mudanças no comportamento dos homens soropositivos após o diagnóstico e descobriu que seus semelhantes soropositivos — e somente eles, e não os amigos, parceiros, família ou médico —  têm um papel significativo no apoio.

É importante salientar que essas pesquisas só capturaram o comportamento no período pós-diagnóstico imediato — na primeira pesquisa apenas nos quatro meses depois e, na segunda, dois terços tinham sido diagnosticados há menos de um ano.

Como os próprios pesquisadores comentam, “após o diagnóstico de HIV, alguns indivíduos se fecham ou para passam o tempo considerando o que o futuro reserva para eles. Um dos aspectos decorrentes pode ser um período de celibato ou de interesse sexual reduzido.”

Outra consideração importante é que nenhuma das pesquisas perguntou aos participantes se eles estavam em tratamento ou tinham carga viral indetectável. Isto é importante porque a percepção de uma pessoa a respeito de sua infecciosidade pode fazer diferença considerável para saber se eles escolhem seus parceiros de acordo com a sorologia para o HIV, se usam preservativos ou mesmo se fazem sexo.

Como é que se concilia essas descobertas com outras pesquisas que mostram que as pessoas soropositivas, em geral, tendem a praticar mais sexo casual e sem preservativo e ter níveis altos de infecções sexualmente transmissíveis? Uma razão pode ser que, após o período pós-diagnóstico, homens soropositivos simplesmente revertam, ou mesmo ultrapassem, os níveis anteriores de atividade sexual. Embora este possa ser mesmo o caso, a escolha de parceiros com base na sua sorologia para o HIV parece continuar e, enquanto os homens soropositivos pareçam fazer mais sexo sem preservativo, uma boa quantidade desse sexo é com outros homens com HIV, tal como ambas as pesquisas de São Francisco e Londres sugerem.

Em geral, isso pode ter efeitos positivos na comunidade gay, uma vez que reduz a quantidade de sexo que oferece risco de transmissão do HIV, mas aumenta os efeitos negativos sobre os próprios homens soropositivos, uma vez que os restringe para um grupo menor de parceiros com taxas muito mais elevadas de circulação de DSTs.

O que esta pesquisa australiana mostra, no entanto, é que o apoio dos semelhantes com HIV pode ter um efeito positivo.

Em 2 de maio de 2016 por Gus Cairns para o Aidsmap

Referência: Prestage G et al. Impact of peer support on behavior change among newly diagnosed Australian gay men. JAIDS, early online publication, DOI:10.1097/QAI.0000000000001017. Abstract here. 2016.

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Pergunte a qualquer biólogo — sexo parece ser um desperdício. É caro: pense na enorme energia usada na produção da espetacular cauda em forma de leque de um pavão, destinada para atrair uma fêmea para o acasalamento. E parece ineficiente: o sexo nos permite passar apenas metade dos nossos genes e metade da espécie (os machos) não pode ter filhos. A evolução não é sentimental, então estes custos devem ter algum benefício. A resposta comum é que, pelo remanejamento de genes a cada geração, o sexo cria novas combinações genéticas, seleciona mutações benéficas no lugar das nocivas e dá um certo grau de flexibilidade evolutiva. Mantém alguns genes guardados, que podem não ter uso hoje, mas podem salvar os descendentes das pragas, pestes e parasitas.

Tudo isso é provavelmente verdade, mas esta tese tem uma falha. Embora os benefícios da reprodução sexual tendam a ser sutis e só se tornem evidentes ao longo de muitas gerações, os seus custos são grandes ​​e imediatos. Para entender o sexo por completo, precisamos de uma explicação que volta aos organismos complexos primordiais e às pressões de sobrevivência imediata que eles sofriam. Damian Dowling, um biólogo evolucionista australiano, propôs, no ano passado, uma ideia surpreendente, junto com seus colegas, Justin Havird e Matthew Hall, no jornal Bioessays. Ele parte do simples fato de que as bactérias e as arqueas unicelulares, conhecidas como procariontes, nunca fizeram reprodução sexual. Elas têm alguns comportamentos sexuais, inclusive fazendo contato corporal para trocar genes — às vezes chamado de “sexo bacteriano”. Mas elas não se reproduzem sexualmente: se proliferam simplesmente dividindo-se em dois.

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Sexo é privilégio de criaturas mais complexas, as eucariontes. Organismos tão diversos como amebas e tatus se reproduzem dividindo seus cromossomos entre os gametas, como esperma e óvulos, que por sua vez se combinam para criar um novo organismo. Os primeiros eucariontes bem preservados em fóssil — as algas vermelhas, que datam de 1,2 bilhão de anos — são também os primeiros exemplos conhecidos de reprodução sexual, revelado pela presença de gametas. A característica definidora dos eucariontes é que suas células são altamente estruturadas, contendo não só um núcleo, mas também organelas — notavelmente: as mitocôndrias, as incríveis baterias biológicas que brilham em nossas células, proporcionando-nos com a energia sobre a qual depende a nossa sobrevivência. “Nosso argumento é simples: os eucariontes estão ligados por duas funções — mitocôndrias e sexo — e acreditamos que há um elo negligenciado aqui”, diz Dowling, que lidera uma equipe de pesquisadores da Universidade de Monash, em Melbourne, na Austrália.

Nossos intestinos estão repletos de células bacterianas; nosso DNA está cheio de fragmentos de vírus antigos; nossas células são restos dos organismos primordiais.

Esse link se sustenta no fato de que as mitocôndrias não são apenas as baterias celulares. Bilhões de anos atrás, estas organelas eram realmente organismos independentes. São um exemplo de como o corpo humano não é totalmente “humano”. Nossos intestinos estão repletos de trilhões de células bacterianas estrangeiras; nosso DNA está cheio de fragmentos de vírus antigos; e até mesmo nossas células são restos dos organismos primordiais. Os cientistas estão percebendo, cada vez mais, que muitas doenças não são ataques externos, mas desequilíbrios do nosso ecossistema interior. No caso das mitocôndrias, podem surgir conflitos porque essas organelas contém o seu próprio DNA, único e individual. “Até recentemente, a ciência basicamente ignorou o fato de que todos nós andamos com dois genomas em cada célula”, diz Dowling, “um que é o nosso próprio genoma nuclear, e outro que é das mitocôndrias.”

O sexo é uma forma de restaurar o equilíbrio, de consertar as divisões que existem dentro de nós.

Este genoma mitocondrial tende a sofrer mutações rapidamente e é propenso a cair fora de sincronia com os genes reguladores no núcleo, com consequências potencialmente negativas para o organismo. Dowling acredita que o sexo evoluiu como um caminho para que o núcleo pudesse manter o ritmo com o reino proteico que este supervisiona. “O próprio império que os primeiros eucariontes estavam construindo, baseado na sua principal arma — a produção de energia das mitocôndrias –, estava em perigo, justamente por causa da grande mutabilidade das mitocôndrias”, diz ele. O sexo constrói novos genótipos a cada geração e permite que o núcleo compense diante de qualquer problema. Em outras palavras, o sexo é uma forma de restaurar o equilíbrio, de consertar as divisões que existem dentro de nós. E, ao contrário dos outros benefícios do sexo, este era tão importante para os primeiros eucariontes como para os seus descendentes.

sexo mutante: Os animais têm altas taxas de mutação mitocondrial e necessitam de sexo para se reproduzir. Em contraste, muito poucas plantas precisam de sexo para reproduzir, e as plantas têm as taxas de mutações mitocondriais baixos.
Sexo mutante: animais têm altas taxas de mutação mitocondrial e necessitam de sexo para se reproduzir. Em contraste, muito poucas plantas precisam de sexo para reproduzir, e as plantas têm baixas taxas de mutações mitocondriais.

2 bilhões de anos atrás, duas bactérias se envolveram naquilo que pode ser o ato sexual inicial.

Cerca de 2 bilhões de anos atrás, dois procariontes — duas bactérias que se sacudiam em meio à sopa de organismos primordiais — se envolveram naquilo que pode ser o ato sexual inicial. Uma invadiu a outra. Uma comeu, outra foi comida, e ambas viveram para contar essa história. Elas se fundiram e, ao longo do tempo, criaram algo novo e memorável. A invasora — aquela que foi comida — evoluiu para se tornar as pequenas, mas poderosas, mitocôndrias, ao longo de alguns milhões de anos. A outra provavelmente evoluiu para se tornar um núcleo muito maior.

Essa fusão resultou numa simbiose espetacular. Mitocôndrias dedicaram-se à produção de energia e foram tão eficientes que a explosão da vida complexa no planeta logo se espalhou em todas as direções. Porém, essa especialização em geração de energia teve um custo: o estresse oxidativo em uma mitocôndria é alto e pode danificar a organela e seus genes. Consequentemente, Dowling argumenta, o DNA mitocondrial é “destinado à acumular mutações que são prejudiciais”. A mutação rápida parece ser um problema comum das organelas que mantiveram seu próprio DNA, afetando não apenas as mitocôndrias, mas, por vezes, cloroplastos (as organelas fotossintéticas das plantas, as quais também já foram bactérias que andavam livres, no passado). Uma pesquisa recente de Nils-Göran Larsson, do Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, em Colônia, na Alemanha, sugere que a replicação mitocondrial é inerentemente propensa a erros (com exceção das células germinativas especializadas).

A elevada taxa de mutação mitocondrial é vista em uma ampla variedade das espécies de hoje. Nos seres humanos, como na maioria dos outros animais, as mitocôndrias se dividem continuamente durante toda a vida e, quando o fazem, seus genes mutam 10 a 100 vezes mais rapidamente do que os genes no núcleo. Uma única célula carrega milhares de mitocôndrias e cada mitocôndria contém várias cópias de seu próprio DNA. A extraordinária quantidade de mudanças é enorme.

Para lidar com isso, durante milhões de anos a evolução empurrou a maioria dos genes para fora da mitocôndria, no genoma nuclear, que é muito mais estável. Hoje, as mitocôndrias animais têm meros 37 genes, todos dedicados à produção de energia. A maior parte da sua função é regulada e assistida por mais de 1.000 genes no genoma nuclear. Mas genes renunciados são apenas uma solução parcial. Quando esses 37 genes fraquejam ou se alterarem, a maquinaria celular pode ficar paralisada. A menos que os genes nucleares que os regulam se adaptem, a célula pode ficar doente e possivelmente morrer.

Em 2007, Dowling e seus colegas estudaram o que acontece quando os dois conjuntos de genes trabalham com objetivos opostos. Em um experimento, eles criaram 23 gerações de cinco besouros diferentes, chamados Callosobruchus maculatus. Em algumas cepas, os genomas mitocondriais e nucleares foram adaptados para trabalhar em conjunto. Mas quando os pesquisadores transplantaram mitocôndrias entre as linhagens, a viabilidade espermática diminuiu. Dowling e seus colegas estenderam este estudo para as moscas. Eles criaram cinco linhagens de moscas que diferiam apenas em seus genes mitocondriais, e estudaram os efeitos destas diferentes estirpes de genes nucleares. As moscas fêmeas foram pouco afetadas: apenas sete genes nucleares mudaram a atividade. Já os machos tiveram surpreendentes 1.172 genes nucleares afetados, principalmente nos testículos ou nas glândulas de esperma. “Eu quase caí para trás quando vi o quão forte o efeito foi nos machos”, disse Dowling. “Isso é cerca de 10% do genoma da mosca macho.”

Se uma mutação prejudica os machos sem ferir as fêmeas, ela pode persistir.

A diferença entre as respostas femininas e masculinas tem uma explicação natural: as mitocôndrias são um dom puramente maternal. O esperma não as passa; apenas o óvulo da mãe o faz. Assim, as mulheres com mutações mitocondriais prejudiciais tendem a morrer antes de se reproduzir, varrendo essas mutações para fora da genética da espécie. Contudo, se uma mutação prejudica os machos sem ferir as fêmeas, ela pode persistir. Dowling não é o único cientista que demonstrou a profunda interdependência da dupla mitonuclear. Colidir conjuntos de genomas também mostrou causar atrasos no desenvolvimento e comprometem a fertilidade, em moscas e crustáceos marinhos.

Variantes de genes nucleares são capazes de resolver o problema, limitando o efeito da mutação mitocondrial ou compensando-o diretamente.

Os seres humanos também podem sofrer de genomas dissonantes. O geneticista evolucionista Dan Mishmar, da Ben-Gurion University, de Israel, descobriu que o conflito mitonuclear pode aumentar a vulnerabilidade à diabetes tipo II em judeus asquenazes que têm certas variações genéticas. Uma única mutação mitocondrial provoca surdez hereditária em famílias árabes-israelenses e em espanhóis, de acordo com a neurocientista Jan Willem Taanman da University College London. Em algumas pessoas que herdam a mutação, no entanto, as variantes de genes nucleares são capazes de resolver o problema, limitando o efeito da mutação mitocondrial ou compensando-o diretamente. Experimentos com ratos criados para ter a mesma condição reforçam essa ideia: novos genes nucleares podem restaurar a audição, ignorando a falha mitocondrial, gerando mais energia para cóclea da orelha.

Os cientistas agora suspeitam que uma forma hereditária de cegueira progressiva (chamada de neuropatia óptica hereditária de Leber) pode ser, em parte, devido à dança entre as variações mitocondriais e do genoma nuclear. Pesquisadores têm se mostrado perplexos com o fato de que esta forma de cegueira nem sempre aparece com a mesma gravidade, ou mesmo sequer aparece, em todas as pessoas com essa mesma mutação. Por exemplo: uma mutação específica no DNA mitocondrial de tibetanos parece protegê-los contra o estresse de alta altitude e impedir esta forma de cegueira, mas a baixas altitudes podem predispor as pessoas à essa doença. Como pode? Poderia haver um genoma nuclear diferente? “Temos uma série de bons candidatos no genoma nuclear que podem colidir com o DNA mitocondrial e explicar isso”, diz o neurogeneticista Valerio Carelli, da Universidade de Bolonha. Carelli estudou a neuropatia óptica hereditária de Leber por 20 anos. “Quanto mais sequenciamos os genomas, compreendemos este problema com mais detalhamento”, diz ele.

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O sexo tornou-se o caminho mais rápido para uma espécie se recuperar de uma incompatibilidade genômica.

O sexo foi a salvação. O sexo tornou-se o caminho mais rápido para uma espécie se recuperar de uma incompatibilidade genômica. A reorganização genética que ele proporciona cria novas variantes que oferecem adaptações para todos os tipos de mudanças, tanto exteriores como interiores. “Sexo é a única maneira que os genomas mitocondriais e nucleares podem permanecer em sincronia”, diz Havird. “Sem sexo teríamos uma situação em que as mutações mitocondriais acumulam muito mais rápido e o núcleo não poderia responder com mutações coadaptadas com rapidez suficiente. O sexo permite que os eucariontes obtenham muito mais variação fora do seu genoma, graças ao ‘truque’ associado à recombinação.”

Além dos genes adaptados, o sexo fornece um novo modo de evolução. Organismos impróprios são eliminados não apenas por pressões ambientais, mas também pela competição por companheiros, que é replicado em um nível microscópico, através da concorrência entre os espermatozóides para fertilizar um óvulo. Esta competição é uma prova de fogo para a mitocôndria, e elimina até mesmo a menor incompatibilidade. A cauda do espermatozóide é embalada com mitocôndrias, que abastecem o vencedor na corrida até o canal vaginal. “Mesmo que o genoma mitocondrial seja pequeno, é central e de importância fundamental para a bioquímica e para a aptidão de um indivíduo”, diz o biólogo Matthew Gage, da University of East Anglia, em Norwich, na Inglaterra. “A escolha do companheiro e a concorrência através da seleção sexual melhora a correspondência mitonuclear de duas maneiras. Primeiro, pela selecção do alto desempenho mitocondrial nos machos. Em segundo, selecionando pelo alto desempenho do esperma, cuja capacidade fertilizante é criticamente dependente da função mitocondrial ideal.”

Para testar sua teoria, Dowling analisa toda espécie. A taxa de mutação das mitocôndrias varia enormemente de algas para tulipas e para corais. A teoria de Dowling prevê que quanto mais rápida for a taxa de mutação mitocondrial, mais vezes os membros dessa espécie terão de ter relações sexuais. Dowling acredita que as evidências apóiam seu ponto de vista. Quase todos os animais têm altas taxas de mutação mitocondrial e necessitam de sexo para se reproduzir, enquanto as plantas são mais maduras em ambas as contagens. “Muitas plantas terrestres têm taxas de mutação mitocondrial excepcionalmente baixas e, de fato, muito poucas plantas necessitam de sexo para se reproduzir”, diz Dowling. “Quase todas elas podem ter relações sexuais quando precisam, mas também podem se reproduzir assexuadamente.”

“As vantagens evolutivas de um sistema sexual tornou-se forte o suficiente para superar os seus custos.”

Outros não têm tanta certeza. O biólogo evolucionista Bram Kuijper, da University College, em Londres, é um fã de nova teoria de Dowling, mas quer ver uma prova melhor. “Nós sabemos muito pouco sobre as taxas de mutação mitocondrial em toda uma gama de organismos”, diz ele. O biólogo David Roy Smith, da University of Western Ontario concorda. “Embora, em geral, os genomas mitocondriais de animais sofram mutação mais rapidamente do que as de plantas, eles se complicam muito rapidamente. Estudos recentes têm mostrado que a taxa de mutação através de um único genoma mitocondrial da planta pode variar em cerca de três ordens de grandeza.” Uma espécie que Kuijper gostaria de ver testada é de microsporídeos. Estes minúsculos parasitas são eucariontes, mas perderam a mitocôndria em algum momento de seu passado evolutivo. “Será que eles fazem sexo?”, ele pergunta. “Se fazem, quanto?” No extremo oposto do espectro estão os rotíferos bdelloidea, pequenos insetos aquáticos que têm mitocôndrias, mas não podem se reproduzir sexualmente. A bióloga teórica Sarah Otto,  da University of British Columbia, cujos modelos matemáticos sobre a evolução lhe valeram um prêmio da MacArthur Foundation, acredita que estes insetos sejam a exceção que refuta a teoria. “Há uma grande quantidade de evidências de que eles ainda fazem transferência de gene assexuadamente”, diz ela. Mas ela diz que Dowling pode estar certo de que a reprodução sexual evoluiu em resposta às relações simbióticas entre as criaturas que se fundiram para formar os eucariontes. Otto diz que, envolta em membranas extras, “a troca de genes tornou-se mais rara, tão rara que as vantagens evolutivas de um sistema sexual tornou-se forte o suficiente para superar os seus custos.”

Parcerias entre organismos criam o impulso para mudar.

Isso destaca um ponto mais amplo a respeito da evolução: parcerias entre organismos criam o impulso para mudar. “O famoso biólogo Lynn Margulis nos ensinou que a maioria dos grandes saltos na evolução surgiram por simbiose”, diz Freeman Dyson, que, embora mais conhecido como físico, varia dentre muitos assuntos e foi o autor da pequena obra-prima Origens da Vida. Uma criatura hospedeira é invadida por um parasita, explica Dyson. Os dois então lutam, numa luta quase até a morte, que inesperadamente resulta em uma vida nova, surpreendente. “Uma vez que o hospedeiro está fornecendo suporte de vida ao simbionte”, explica Dyson, “o simbionte está livre para evoluir, ganhando ou perdendo recursos genéticos de forma aleatória e rapidamente. Raramente, o simbionte inventa novas estruturas que mudam dramaticamente o estilo de vida do hospedeiro.”

Com seus prazeres e sua plumagem, seus rituais de acasalamento elaborados e muitas vezes desgastantes, o sexo tem o poder de esmagar ou de consertar vidas. Toda essa turbulência pode, à sua maneira, ser um esforço para evitar uma turbulência mais profunda, causada por um pitada de 37 genes.

Por Jill Neilmark, ilustrações de Francesco Izzo, em 24 de março de 2016 para o Nautilus.