Carta de um leitor: sobre a impaciência pela cura

“Olá, Jovem! Tudo certo contigo? Fiquei mexido com a última postagem que tu publicaste, sobre a inflamação crônica e seus efeitos no longo prazo.

Olivetti

Me parece que, se nossa leitura fosse mais atenta, talvez o que poderíamos tirar da postagem é que: 1) a inflamação crônica não é uma disposição fisiológica devastadora, 2) que atua lentamente e só é perceptível quando o soropositivo chega em sua 6º ou 7º década de vida e, principalmente, 3) que existem meios para retardar, controlar ou até mesmo conviver muito bem com a inflamação persistente — inclusive, até os 88 anos de idade, assim como a Dona Olivetti, que esteve ao seu lado no livro Histórias da Aids, do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães.

Noutras palavras, é basicamente dizer que a inflamação persistente parece ser mais perceptível quando o paciente está próximo da idade em que as pessoas normalmente morrem, o que faz com que essa constatação seja até um pouco engraçada.

“Na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que a ansiedade cresce junto com sentimentos de impaciência.”

Contudo, o que mexeu comigo, confesso, foi a reação que percebi entre meus semelhantes, soropositivos. Ao que me parece, um estado de euforia generalizado pela previsão — ou, no máximo, pelo chute — que os cientistas deram de uma possível cura em três anos. Ou melhor, lendo mais atentamente, pela previsão para o começo de testes em humanos dessa abordagem que pode levar à cura. Isso me deixou preocupado porque os soropositivos estão ficando cada vez mais saudáveis, do ponto de vista de sua função imune, mas, na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que sua ansiedade cresce junto com seus sentimentos de impaciência. O que é compreensível, afinal, nenhum de nós escolheu ser soropositivo. Mas, talvez, isso seja um sinal de que não só precisamos tomar nossos remédios todos os dias, mas também buscar apoio, tratamento psicológico e, quem sabe, convivência com outros soropositivos.

“Nenhuma pesquisa experimental pode prever o ano em que a cura vai sair.”

Acho que o blog já insistiu muito sobre o estado de incerteza da ciência. O máximo que se pode fazer em um editorial é publicar os avanços e torcer para o melhor acontecer. Além do mais, só podemos contar com o que se publica em nosso tempo. Nenhuma pesquisa experimental pode prever com exatidão o ano em que a cura vai sair. Infelizmente. Às vezes, os homens que fazem ciência acertam, às vezes, não. Por exemplo: grande parte do projeto genoma humano, que teve uma previsão de duração de 15 anos, só foi concluído nos últimos anos do prazo estipulado. Isso porque as novas tecnologias foram viabilizando um crescimento exponencial no sequenciamento de nosso código genético. O que antes era caro e demorado, foi tornando-se mais barato e mais veloz com o passar do tempo. Hoje, se alguém quiser ter seu DNA mapeado vai pagar uma bagatela de 20 mil e poucos dólares, que é quase nada comparado ao orçamento bilionário que foi gasto para se produzir essa tecnologia.

Parece que isso só significa que o estigma continua talvez maior do que o HIV, ou, ainda, que ele causa mais problemas de ansiedade e depressão do que a dose diária de Efavirenz e mais taquicardia emocional do que algum possível estado interno debilitante. Mais impressionante é ver como uma reportagem que diz, basicamente, ‘gente, vai ter uma cura e quero explicar o que acontece com o corpo de vocês enquanto ela não vem’ é recepcionada como se tivéssemos retrocedido no tempo — e, também, como se quiséssemos ficar presos nesse passado, desejosos que o avanço científico se desse em linha reta e contínua, sem qualquer turbulência, trazendo a cura do jeito épico que um dia imaginamos.

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Gostaria muito mesmo de ter podido acompanhar mais de perto o processo de desdobramento da cura da hepatite C, da descoberta do vírus até sua reta final. Gostaria de verificar se isso faz parte de um processo social, no qual a população infectada antevê um avanço científico que vai ter um impacto expressivo na forma de viverem suas vidas, ficando cada vez mais ansiosas a cada passo, a cada descoberta importante que a ciência é capaz de realizar.

Um dia, estava passando o olho pelas notícias e me deparei com uma entrevista com Pamela Anderson, a famosa atriz de seios fartos do seriado Baywatch, infectada pelo vírus da hepatite C por seu ex-marido, Thommy Lee, baterista dos Mötley Crüe, falando como é, aos 50 anos de idade, se ver curada da infecção, a princípio mortal. Impressionante como os processos são similares e de como o relato da atriz sobre a sua cura é a descrição tal qual reside no imaginário de (quase) todo soropositivo. Na entrevista, Pamela diz ter nascido novamente. Em um primeiro momento, nos anos 1990, os médicos haviam dito a ela que viveria uma década e que provavelmente iria morrer de uma fibrose grave no fígado.

Nos anos 2000, os médicos mudaram suas posições e avisaram a atriz que ela iria viver uma vida normal e provavelmente iria morrer de causas naturais. Entre 2013 e 2014, quando saiu o tratamento definitivo, ela se disse livre de um peso. A patogênese dos dois tipos de vírus, da aids e da hepatite, são claramente diferentes, mas é curioso como o processo social no qual o paciente infectado pelo vírus passa se assemelha assustadoramente.

Faço toda essa digressão pra te dizer o quanto eu fiquei mexido pela reação dos leitores do blog, os quais sempre me identifico como semelhantes, soropositivos, tal como eu. É quase como se suas esperanças tivessem sido retiradas à força, e é triste ver alguém sentir isso. Por isso, penso que o apoio farmacológico pode até estar surtindo efeitos, mas o nosso sistema de saúde ainda tem de oferecer um tratamento psicológico muito mais robusto. Realmente gostaria que, enquanto um tratamento definitivo não vem, pudéssemos viver melhor e mais tranquilos. Afinal, já podemos viver assim, não podemos?

Grande abraço,
V.”

Astrologia (e mitologia) da superação de obstáculos e da vontade de viver


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Desde a descoberta de Quíron, em 1977, astrólogos têm experimentado e explorado suas temáticas, ouvindo novos contos que ressoam da sua mitologia e chegam a algum entendimento sobre o seu impacto arquetípico. Agora, anos depois, o astrólogo Liz Greene vê Quíron como elemento essencial no aprofundamento da nossa compreensão a respeito consciência solar: para poder escolher viver a vida ao máximo, temos que enfrentar aquela parte em nós que prefere buscar a morte.

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“A vontade de viver é um grande mistério.”

A vontade de viver é um grande mistério. Qualquer médico com alguma experiência em doenças com risco de vida sabe que a vontade de viver pode afetar o bem-estar físico, bem como psicológico. E a sobrevivência, muitas vezes, depende mais do desejo da pessoa doente de viver do que da ajuda do médico. Mas nem sempre a vontade de viver é necessariamente o que de fato sentimos. Podemos dizer por aí que queremos a vida, mas, em algum lugar lá dentro, queremos mesmo é ir para casa — e este anseio por cair em esquecimento pode ser mais poderoso do que qualquer declaração consciente da intenção de melhorar.

Algumas pessoas reagem ao conflito, à dor e à decepção com uma resposta criativa, que transforma sua perspectiva e até mesmo suas circunstâncias. Outras se tornam amargas e desesperançosas, passando a viver num mundo de penumbra, cinzento, perdendo totalmente a vontade de viver. Para essas pessoas, nem sempre o suicídio é o que vem como resultado, mas também a morte “acidental”, na verdade autoarquitetada, a qual, embora inconsciente, é, contudo, alimentada por um forte desejo de pôr fim ao sofrimento e à infelicidade. O comportamento autodestrutivo nem sempre envolve um gesto evidente, como engolir o frasco de comprimidos ou passar a faca no pulso.

“Não existe uma fórmula para explicar por que alguns superam os desafios da vida enquanto outros viram as costas para o futuro.”

Não existe uma fórmula mágica para explicar por que alguns indivíduos superam os desafios da vida, apesar de desvantagens e de infortúnios graves, enquanto outros viram as costas para o futuro, mesmo que a sorte possa favorecê-los. Também é verdade que a perda da vontade de viver nem sempre resulta em autodestruição: ela pode ser expressa no desejo de destruir os outros, como se, em algum nível profundo e inacessível, a projeção de desesperança e de vitimização dá ao indivíduo que sofre a ilusão de que ele ou ela está forte e no controle da vida. Assim, o indivíduo que, secretamente, perdeu a vontade de viver pode, in extremis, tentar privar os outros de alegria — e talvez até da própria vida — por encontrar um bode expiatório que possa ser sobrecarregado com todo o desespero que se faz sentir em seu interior.

Sagitario

Esse mistério pode ter sua origem, assim como tantos outros mistérios, no enigma do caráter individual inerente — e o mapa astral pode trazer algumas perspectivas a respeito dos padrões que sustentam esse personagem. Em qualquer polaridade na vida, nós, astrólogos, sempre precisamos olhar para a polaridade dos planetas: a polaridade da esperança contra o desespero, a vontade de viver contra a desesperança, que pode ser iluminada, pelo menos em parte, através do simbolismo da polaridade do Sol e de Quíron.

Não acredito que possamos realmente compreender qualquer um dos planetas sem considerar o significado do outro. Embora eles não estejam no gráfico de todos os indivíduos, ambos estão presentes em todas as cartas e formam uma energia dinâmica dentro da personalidade. Um aspecto direto aguça esta dinâmica e muitas vezes torna-se o foco da jornada do indivíduo. Entretanto, a polaridade existe em cada um de nós, independentemente. Todos os planetas, incluindo Saturno, servem o desenvolvimento do ego individual, o qual é melhor simbolizado pelo Sol. Na verdade, poderíamos até dizer que os planetas pessoais “servem” ao Sol como o centro da individualidade.

Quíron, contudo, encontra-se na interface entre Saturno e os outros planetas e, portanto, medeia questões coletivas que incidem sobre a ferida do indivíduo. Por sua natureza, as implicações coletivas de Quíron significam algo coletivamente “incurável”, uma vez que a ferida existe no coletivo e é ancestral. Por sua natureza, o Sol reflete senso de propósito e de significado na vida de cada indivíduo, e estes estão intimamente ligados com a vontade de viver e de se tornar si mesmo. Cada um destes planetas precisa do outro, mas se o equilíbrio os distancia demais um ou outro, podem surgir certas dificuldades psicológicas.

Sun

O significado do Sol

Não vou gastar muito tempo descrevendo o significado do Sol. Em suma, ele representa a essência do indivíduo vivo, a divindade (ou, se preferir um termo menos “espiritual”, a força da vida) encarnada em forma humana para uma vida particular, expressando-se com uma natureza e finalidade específicas.

Através do Sol, experimentamos a nós mesmos como únicos, especiais, nascidos com algo a contribuir para a vida. Parafraseando uma declaração Charles Harvey feita certa vez numa palestra, o Sol dentro de nós é o que nos faz sentir conectados com o macrocosmo, e nós experimentamos a nós mesmos como parte de algo eterno. Esta experiência interior transmite não apenas “felicidade”, em seu sentido coloquial comum, mas a profunda serenidade e esperança que surgem a partir da sensação de viver uma vida útil e significativa. Poderíamos chamar a isso de uma experiência de “destino individual”, pois o Sol reflete em nós a sabedoria de que estamos aqui para viver uma finalidade específica.

Apollo

“Um senso de significado individual e propósito pode nos libertar da sensação de aprisionamento do passado.”

Apollo foi, no mito grego, a divindade que dissipou as trevas da maldição da família, e libertou o indivíduo do fardo do “pecado” ancestral. Um senso de significado individual e propósito pode realmente nos libertar da sensação de aprisionamento do passado da família. O Sol também nos dá uma sensação de um futuro individual, da fé em nosso propósito, de uma convicção interior de que estamos “indo a algum lugar”. É o Sol que nos permite lutar livres de sentimentos de inutilidade e de falta de sentido, e que afirma o nosso valor único, mesmo que nossas circunstâncias sejam dolorosas.

“A experiência interior de destino individual, significado e esperança, nos dá confiança em nós mesmos.”

A experiência interior de destino individual, significado e esperança, por sua vez, nos dá confiança em nós mesmos e uma crença na bondade essencial da vida, algo que pode ser uma poderosa força de cura em ambos os níveis físico e psicológico. Se a expressão do Sol é bloqueada, sufocada ou pouco desenvolvida por qualquer razão — por meio de feridas da infância, por exemplo, ou por conflitos internos refletidos no gráfico de nascimento —, o indivíduo pode achar que é mais difícil de se conectar com essa sensação de ter o direito de estar vivo e sendo si mesmo. As dificuldades da vida podem então ser amplificadas porque não há nenhum sentido interno de especialidade e de esperança a partir da qual desenhar.

O poder de criar depende do Sol, porque quando criamos qualquer coisa nos entregamos a “outro” algo dentro de nós, ao qual confiamos que nos trará frutos. A criatividade requer um ato de confiança. Da mesma forma, nos entregamos a um fluxo de poder imaginativo que nos faz sentir alegres. O símbolo mais antigo da energia solar lúdica e criativa é a imagem da criança divina, que personifica algo eternamente jovem e indestrutível dentro de nós.

Chiron

O significado de Quíron

Na arte greco-romana, Quíron é quase sempre mostrado carregando uma criança nas costas. Mas, apesar deste emblema de esperança, a figura do rei dos Centauros é trágica. É importante reiterar seu mito, que é muitas vezes distorcido ou mal contato, justamente porque é de tal modo muito doloroso.

No mito, Quíron não se tornou um curador porque foi ferido. Essa é uma reinterpretação otimista que tenta dar sentido à dor da vida atribuindo um propósito e significado específicos — de desenvolver a compaixão e a sabedoria para curar os outros por causa da própria dor. Esta reinterpretação do mito é válida como forma de trabalhar com as próprias feridas. Mas a dor de Quíron não tem nenhuma finalidade nobre nessa história. Ele já era professor e curador antes mesmo de ser ferido. Pode-se supor que ele já estava ferido porque ele sofre de isolamento; embora seja um Centauro e, portanto, parte de uma tribo de criaturas que simboliza os poderes instintivos naturais, ele é civilizado e, assim, separou-se de sua própria tribo. Nesse contexto, Quíron representa o animal sábio, o poder natural, que por sua própria vontade escolhe servir a evolução humana e a consciência, ao invés de permanecer cegamente sujeito às compulsões instintivas do reino animal. Como o “animal útil” nos contos de fadas, Quíron vira as costas para a selvageria de sua natureza instintiva, a fim de servir o padrão evolutivo que ele considera ser o caminho a seguir para toda a vida.

Herakles

“Quíron está no lugar errado, na hora errada.”

Mas Quíron está no lugar errado, na hora errada. Ele está no meio de Héracles, o herói solar, que personifica a força do ego humano, e os selvagens, os Centauros indomáveis ​​a quem o próprio Quíron deixara para trás. Durante a violenta batalha, Quíron não participa, pois tem simpatia por ambos os lados. Talvez por causa deste papel de mediador, que o priva de sua agressividade natural, ele é acidentalmente ferido por uma flecha envenenada que tinha como alvo outro Centauro e cuja ferida não cicatriza, não importa quais os métodos de cura que ele aplique. Finalmente, Quíron se retira para sua caverna, uivando de angústia, pedindo pela morte. Zeus e Prometeu têm piedade dele, e concedem-lhe então o benefício da mortalidade, permitindo que ele morra em paz como qualquer mortal, muito embora ele tenha sido um deus.

“Queremos acreditar que a vida é justa, a bondade é recompensada e o mal é punido.”

Essa terrível história implica um estado de injustiça na vida que é difícil para qualquer indivíduo, e talvez ainda mais difícil para o indivíduo idealista. Queremos acreditar que a vida é justa, que a bondade é recompensada e que o mal é punido, pelo menos em alguma outra encarnação, se não nesta. Aqui está uma boa criatura que sofre não por culpa própria, mas vítima da batalha inevitável entre evolução e inércia, consciência e instintividade cega.

Quíron é a imagem de um eu que foi ferido injustamente pela vida e pelas condições inescapáveis ​​que refletem falhas e falhas de uma psique coletiva que é infalivelmente desajeitada em seus esforços para o progresso. Uma vez que seres humanos são ambos o herói solar e o animal selvagem e uma vez que os resultados de nossos esforços no sentido de civilizar-nos se mostraram tantas vezes desastrosos na história, temos um legado de dor injustamente infligido, que produz repercussões através das gerações. Danos físicos e psicológicos cujas causas pairam não em quaisquer desastres individuais e nem mesmo sob nossos pais, mas na herança genética, ou em desastres coletivos como o Holocausto e o pesadelo em Kosovo, todos pertencentes ao reino de Quíron. Nessas esferas, nossos esforços individuais, disparados pelo Sol, refinados e focados pelos planetas interiores e com forma e força dadas por Saturno, são contrariados ou danificados pelas forças na vida, na história, na sociedade e na psique coletiva, sobre as quais não temos controle e para o qual, como indivíduos, não podemos ser responsabilizados.

Tais colisões com as falhas inevitáveis ​​do coletivo podem nos deixar cheios de amargura e de cinismo. Podemos acabar por punir os outros, porque nos sentimos aleijados, feridos e irredimíveis. Ou podemos nos punir. Mas, se podemos progredir para além deste bile de amargura, e se formos persistentes o suficiente em nossa busca por respostas, podemos realmente encontrar uma resposta — mesmo que a resposta seja a de que não existe uma resposta, e que devemos aceitar os limites da existência mortal.

“A aceitação constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida.”

A aceitação é um dos dons de Quíron, e é diferente da resignação de autopiedade. A benção da morte de Quíron pode ser entendida como um símbolo da aceitação de ser mortal e constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida. Através dela, podemos aprender a compaixão, embora de um tipo limitado. A compaixão de Quíron é a compaixão de uma pessoa aleijada no lugar de outra pessoa. Podemos sentir profunda empatia por aqueles que estão feridos como nós. Mas, sem o calor e a luz do Sol, podemos não encontrar a generosidade para ir além do círculo fechado daqueles cuja dor específica espelha a nossa própria dor e, assim, ver que a vida fere a todos, de uma forma ou de outra.

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Quíron como bode expiatório: o ferido se torna curador

Há muitas fases do processo que Quíron representa, começando com seu ferimento e terminando com sua transformação em mortal e sua libertação do sofrimento. Estes estágios abrangem raiva, fúria, o desejo de ferir outras pessoas, renúncia amarga, autopiedade, sentimentos de vitimização e, por último, o amanhecer de um desejo de entender os padrões universais que estão além de nossa dor pessoal. Em qualquer uma destas fases, se não formos capazes de enfrentar e compreender o que está acontecendo conosco, podemos ficar presos e agir dentro de algumas das características menos atraentes de Quíron. Afinal, Quíron é ferido em sua metade animal, e os animais não são conhecidos por sua atitude filosófica quando feridos. Aqueles que têm força tendem a morder de volta.

O psicanalista Michael Balint escreveu que, no núcleo de cada doença física, bem como psicológica, há uma ferida fundamental — uma luta ou conflito interior que parece insuperável e que pode gerar amargura e raiva, e a perda da vontade de viver. Enquanto não há nenhuma implicação nesta declaração de qualquer culpabilidade individual, há uma sugestão de que, se o conflito pudesse ser trazido para a consciência, há uma boa chance de que o curso de muitas doenças físicas e psicológicas poderia ser alterado, ou, pelos menos, enfrentado de uma forma diferente e com espírito mais positivo.

“Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento podemos nos tornar arrogantes.”

Se Quíron trabalha contra e oprime o Sol, o resultado pode ser depressão, perda de confiança e um senso de danos ou ferimentos permanentes. Uma pessoa se torna cínica, assim como Mefistófeles, de Goethe, que diz: “Eu sou o espírito da negação.” Espera-se a falha — e, justamente porque a espera, pode ser muito provável encontrá-la. Um sentido de se tornar vítima ou bode expiatório pode ser muito intenso e fazer com que um indivíduo projete sua mágoa sobre os outros, se vitimize ou se torne bode expiatório deles. Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento, podemos nos tornar arrogantes, perdendo espaço para nossa maior realização espiritual, fazendo-nos olhar para baixo, sobre aqueles a quem julgamos ser menos evoluídos do que nós mesmos. Também podemos nos tornar intolerantes, até mesmo cruéis, para com aqueles que, inadvertidamente, nos lembram que estamos sofrendo. E, assim, a ferida apodrece na escuridão.

“Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado.”

No entanto, a imagem greco-romana de Quíron tendo a criança divina em suas costas também nos diz que estes dois símbolos em antítese podem trabalhar juntos. No mito, Quíron é professor da criança, a quem é dado o cuidado e a educação de um príncipe que vai se tornar rei. Esta é uma imagem rica e esperançosa do papel que a nossa dor incurável pode desempenhar na educação do indivíduo que estamos em processo de nos tornar. Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado. Também podemos desenvolver resistência e coragem, bem como perder o sentimentalismo, que faz com que tantos idealistas sejam tão completamente ineficazes na realização de seus sonhos. Também podemos obter um vislumbre de padrões maiores, mais profundos — tal como a lenta evolução dolorosa do coletivo, do qual fazemos parte, e com o qual temos que compartilhar a responsabilidade. Desastres coletivos e erros não são sua culpa: a bagunça humana pertence a todos nós.

Podemos injuriar o sérvio Slobodan Milošević (principal líder do Partido Socialista da Sérvia desde a sua fundação, em 1990, e presidente daquele país entre 1989 a 1997 e da Iugoslávia, entre 1997 a 2000), e fazê-lo com razão. Contudo, cada vez que zombarmos com desprezo de qualquer grupo minoritário racial, religioso ou social ou maliciosamente tentarmos tornar a vida mais difícil para aqueles indivíduos que nos lembram de nossas próprias imperfeições, estamos exibindo um pouco deles em nós mesmos.

Eu conheci algumas pessoas que vociferam ser tão politicamente corretas e que, quando se aposentam por trás das portas fechadas de suas próprias residências, se transformam um pouco em Hitlers e em Miloševićs para com os seus parceiros e filhos. Pode ser bom lembrar que os coletivos escolhem os seus líderes e que, quando estes pequenos bodes expiatórios, mutilados em cada um de nós, se agregam juntos, estamos inclinados à colocar no poder um indivíduo que vai fazer a vontade dos feridos e se tornar o curador de todos nós. Antes de atribuir a fonte de todo mal presente em figuras como Milošević, faríamos bem em nos olhar no espelho.

A melancolia que Quíron é capaz gerar, aquecida pela luz do Sol, também pode nos levar à ter profundidade de pensamento e sentimento, e movimenta em nós a determinação de contribuir para o bem-estar dos outros. Podemos encontrar um tipo diferente de compaixão — e não apenas para com aqueles que foram prejudicados, da mesma forma como a nós mesmos, mas para as pessoas cujas experiências não necessariamente coincidem com a nossa própria, uma vez que estas merecem compaixão, simplesmente porque somos todos humanos.

“Um tipo específico de ferimento não é mais ‘especial’ ou merecedor de compaixão do que outro.”

Se um indivíduo perdeu um olho, é fácil sentir simpatia por aqueles cegos de um olho e odiar aqueles que têm a sorte de desfrutar de vista completa. O Sol trabalhando com Quíron pode gerar generosidade de espírito suficiente para reconhecer que todos os seres humanos sofrem, simplesmente porque estão todos sozinhos e são mortais. Um tipo específico de ferimento não é mais “especial” ou merecedor de compaixão do que outro. Aqueles que são mais veementes nas suas declarações de compaixão para com os albaneses do Kosovo também podem ser aqueles que têm pouca compaixão para com seu vizinho negro, gay ou judeu ou do Paquistão, ou que estão dispostos a chutar um cachorro apenas para aliviar seu estresse. O Sol trabalhando com Quíron corta essa hipocrisia, à essência compartilhada do coração humano, escondido lá dentro.

Mais importante ainda, o Sol trabalhando com Quíron pode ativar a vontade de viver — e não apenas em um nível orgânico ou egoísta e cego, mas do senso de propósito individual, combinado com um sentimento de empatia para a luta, lenta e dolorosa, em direção à luz que existe em todos os seres vivos.

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Como chegamos lá?

A casa e o signo em que Quíron é colocado nos diz muito sobre onde e como a vida nos feriu. Este é o lugar onde, não importa o quão duro procuremos encontrar um objeto específico para a nossa culpa, nós finalmente descobrimos que a culpa reside na diferença entre o ideal e a realidade, e na falha inevitável da natureza humana. Podemos não lutar pela vida, mas, se estamos afundando em uma amargura corrosiva que pode finalmente nos tornar distorcidos e doentes, precisamos ir além desta fase de raiva de Quíron, na busca pela compreensão que nos leva além da identificação como bode expiatório e vítima, além da inclinação de jogar o bode expiatório em nós mesmos.

“Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.”

Esse entendimento pode nos obrigar a renunciar convicções espirituais e morais anteriores e encontrar uma base mais ampla a partir da qual enxergar a vida. Poderemos ter que desistir da ideia de que os mocinhos sempre montam em cavalos brancos, e que os maus montam em cavalos pretos, e talvez tenhamos também tem que aceitar o fato de que, às vezes, pessoas decentes sofrem injustamente, enquanto pessoas tão desagradáveis ​​gerenciam a vida muito bem e morrem ricas e confortáveis em suas camas, bem satisfeitas consigo mesmas. Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.

Como é que vamos encontrar esse tipo de entendimento? Como podemos aprender a perdoar genuinamente e a tolerar, sem a atitude presunçosa e superior de oferecer a outra face ao agressor, a qual mascara um profundo ressentimento inconsciente e raiva? Quíron precisa do Sol para esta tarefa. O Sol tem o poder de afirmar a especialidade e a amabilidade do indivíduo e isso, por si só, pode neutralizar o veneno da autopiedade. A casa e o signo em que o Sol é colocado no nascimento refletem o que precisamos para nos tornar, se quisermos nos sentir verdadeiramente vivos. Acredito que precisamos nos perguntar: é o Sol brilhando em minha vida? Sou eu mesmo? Ou é o medo da solidão ou de não pertencer fazendo-me fingir ser o que não sou?

Do mesmo modo, podemos também precisar enfrentar Quíron, e nos perguntar: qual é a natureza da minha ferida? Como a vida me machucou e quem eu secretamente culpo por isso? Será que estou fazendo algo para compensar, negar ou projetar minha ferida nos outros? Posso sentir compaixão por mim mesmo ou somente raiva e autopiedade? Onde é que eu me sinto como bode expiatório e onde é que posso estar tentando curar, ou mesmo destruir, os outros, a fim de me convencer de que eu não estou ferido? Onde posso sabotar ou mesmo me destruir por causa da amargura?

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“Temos de estar conscientes.”

Para que o Sol e Quíron trabalhem em conjunto, temos de estar conscientes de ambos. Há uma química profunda e misteriosa entre estes planetas que, se está funcionando para nós e não contra nós, parece mobilizar a força vital, não só em favor da nossa própria expressão, mas também para o coletivo do qual fazemos parte. A alienação e as feridas de Quíron impedem o Sol de tornar-se arrogante e insensível, enquanto o calor e a alegria do Sol mantém Quíron longe do desespero. Tal como acontece em todos os mapas astrais, o grau em que essas dimensões de nossas próprias almas dão o seu melhor depende do quão conscientes estamos de sua realidade dentro de nós.

“Esta não é uma cura para a vida.”

Esta não é uma cura para a vida. A vida ainda vai fazer doer de vez em quando e, de uma maneira ou de outra, as feridas de Quíron, embora possamos viver em paz com elas, inevitavelmente roubam a nossa inocência. A vontade de viver não é mobilizada pela crença de que a vida é um mar de rosas, de que todos nós precisamos é de amor e que alguns pais ou mães deuses nos recompensarão se formos bons. A vontade de viver é constelada por material mais resistente e precisa de realismo, assim como de fé e lucidez, se queremos terminar sentindo que fizemos nosso melhor com o dom da vida que, embora transitória, nos foi dada.

Por Liz Greene em agosto de 1999 para o Astro Dienst

Carta de um leitor: aos recém diagnosticados

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“Meu querido desconhecido,

Há muitas expressões que definem o lugar onde você crê que está nesse momento, tentando se manter firme sobre suas pernas, com seu resultado na mão, pensando, talvez pela primeira vez com a devida seriedade, a respeito do que será da sua vida, do seu futuro como soropositivo.

Fundo do poço? Na lama? Fim da linha? Nada disso. Você ainda não sabe, mas a verdade é que está se preparando para realmente começar a viver. O sofrimento vai passar — deixe passar. Para isso, há que se emagrecer muitos sentimentos ruins para sobreviver ao HIV. Há que se dedicar ao conhecimento para combater ignorância e preconceito. Vão ser muitas idas ao médico, aos laboratórios, às farmácias, ao psicólogo, a grupos de apoio. É uma luta diária que, por enquanto, ainda não tem fim.

Mas a primeira guerra a ser travada é consigo mesmo. Nesse momento, não há ninguém que possa lhe fazer mal maior do que seu apego ao fantasma do passado, de si mesmo quando era soronegativo. Você não é mais essa pessoa. Assim como na natureza, os primeiros momentos de qualquer ser vivo são repletos de medo e angústia, e você se sente preso por inúmeras paredes que agora se construíram à sua frente. Lembre-se: ninguém nasce feliz. A felicidade é um conceito que a gente aprende a querer quando descobrimos que ela está ligada à paz de espírito. Mas existe tal coisa?

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Há muitos conselhos práticos que podem ser repassados nesse momento, mas talvez você não ouça nenhum. Contudo, independentemente se você é gay ou não, a verdade é que você está no armário. E ele é escuro, é silencioso, é frio. A solidão é imprescindível para que se reconheça nesse novo ambiente, mas é preciso buscar a luz. Calma: não é a mesma luz que se via há 30 anos, quando as pessoas ainda morriam por doenças oportunistas decorrentes da infecção pelo vírus. Hoje, não há nenhum túnel para se entrar, mas uma estrada para se percorrer. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.

Quando fui à primeira consulta com meu infectologista percebi que seu consultório, aqui em São Paulo, está num prédio vizinho do cemitério da Consolação. Foi muito alegórico, pelo menos para mim, ao chegar ali, compreender que eu tinha duas escolhas: enfrentar meu diagnóstico com a ajuda do meu médico ou virar à esquerda e ir parar no campo-santo. Essa parece ser uma escolha lógica, mas eu entendo o desespero que anda lhe nublando essa visão bem clara do quão bom pode ser o futuro. E é por isso que eu lhe peço: exercite-se! Não apenas com duplo-twist-carpados, zumba ou corridinhas no parque, mas trabalhe esse novo ser que agora carrega uma marca, reconstrua a imagem que você tem de si mesmo, redimensione seus planos, dê um novo significado para seus dias.

Parece muito simples no papel e claramente mais difícil no mundo prático — sim, você tem toda razão. No entanto, esse não foi, não é e não será o único desafio da sua vida. Para cada vez que você pensar em se esconder, conte para um amigo; para cada vez que você acreditar não passar de estatística, tente enxergar mais a sua missão vital; para cada momento de raiva que você tiver, entregue-se nos braços de alguém que lhe ama; para todas as chances que você tiver de se perguntar ‘por que eu?’, lembre-se de tudo aquilo que lhe faz especial; para quando você pensar que está sendo difícil, ajude alguém em situação de dificuldade maior que a sua.

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Com tratamento, o HIV não mata — portanto, a inação é que mata. Nesse sentido, o maior perigo não é o vírus que se reproduz no seu corpo, mas sua atitude em relação à vida. É óbvio que você precisa começar seu tratamento e cumpri-lo feliz. Os remédios são amigos. Por enquanto, não há cura — mas um dia haverá. Por hora, concentre-se em ser uma pessoa melhor, principalmente para si mesmo. De resto, as coisas se resolvem e tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Com amor,

F.F.”

Carta de um leitor: sobre ser soropositivo

“1ºde dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, nunca passa sem notícias incríveis, mas também com algumas narrativas insuportáveis. Fico imaginando como seria se eu, naquela tarde de setembro de 2014, quando resolvi fazer o teste, tivesse lido essas reportagens, mal escritas e preconceituosas, sobre como é conviver com o HIV hoje em dia. Muito provavelmente, teria tanto medo que deixaria para fazer o teste em outra hora. Afinal, estava assintomático — o que eu não sabia é que estava com poucas células CD4 e prestes a desenvolver uma doença oportunista.

‘Há coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Lembro-me da primeira carta que mandei para você, Jovem, falando com tanto sofrimento sobre como era descobrir ser portador do HIV. Nela, contei da reação violenta que tive frente às profissionais de saúde, quando disseram para mim o resultado do teste rápido. Lembro do suor frio percorrendo todo o corpo, da boca seca, da taquicardia e do apoio insuficiente que recebi dos profissionais. Poucos minutos antes do teste, a assistente social havia desejado que ninguém fosse soropositivo para o HIV, mas o que ela esqueceu de dizer foi: ‘se alguém descobrir que é HIV positivo, não se preocupe demais, pois há muitas coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Essa última frase rescrevi em minha imaginação, como uma reparação pessoal à profissional do CTA, que foi incapaz de solucionar a contradição interna do próprio corpo dos agentes de saúde e que é resolvida, acredito eu, quase sempre de forma singular pelos pacientes, com muita dor e sentimentos de perda e de luto. Razão que faz com que muitas pessoas hoje não sejam testadas e, diante dessa realidade, não acho nem um pouco condenável que as pessoas fujam dos testes de HIV. É como se furassem nossos dedos e não soubessem nos dizer coisas tão simples, como: ‘sua expectativa de vida permanece intacta, você pode ter filhos, pode viajar para países que antigamente não poderia e, se for mulher, num futuro próximo, além de gestar seus filhos, irá poder amamentá-los também.’

Hoje, me pergunto exatamente isso: por que razão esse ótimo prognóstico é deixado de lado? O que faz de todo o dispositivo de saúde incapaz de acolher essas demandas? Ainda estou tentando saber disso. Não é nem um pouco incomum as pessoas relatarem mudanças substantivas em suas vidas, às vezes, até para a melhor, quando descobrem o HIV.

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Ongina, uma drag queen que participou do programa RuPaul’s Drag Race em sua primeira temporada, disse, certa vez, que depois que o medo da morte foi se tornando medo de outras coisas inerentes a estar viva, ela entendeu que poderia usar isso como um ponto de apoio para desatar grande parte das suas neuroses. Hoje, casada com um rapaz, e vivendo a vida menos como drag queen e mais como designer, ela tem se dedicado a ser porta-voz no combate ao estigma. Inclusive, ocupou esse lugar durante algum tempo, acolhida pela marca de cosméticos M·A·C, onde a venda do batom Viva Glam é integralmente convertida para o combate ao estigma e para financiar o tratamento de HIV/aids.

Hoje, grande parte do que eu entendo fazer parte de ser soropositivo vem e veio de pessoas como estas, incríveis, as quais, anonimamente ou não, usam de suas posições com a finalidade de provocar mudanças no quadro das discursividades disponíveis a respeito da epidemia — como bem coloca a série publicada no blog, com o nome de Literatura pós-coquetel. Talvez, essa coisa que a gente chama de ‘ser soropositivo’ para mim tenha ficado mesmo confusa. Afinal, sou soropositivo para hepatite B, tanto quanto para o HIV. Sou igualmente soropositivo para caxumba, rubéola, catapora, meningite e influenza, de acordo com o meu cartão de vacinação, no qual constata que estou imunizado contra essas doenças.

No campo prático, dos reconhecimentos sociais, nesse curto tempo de ser soropositivo para o HIV, vi (ou li) muitas pessoas ocuparem posições, cargos e funções tão distintas quanto possíveis, de modo que ‘ser soropositivo’ é menos alguma coisa com a qual devamos nos identificar integralmente, do que uma contingência experienciada num mundo micro-orgânico. Tenho inclusive deixado de dizer que estou doente, passando a comunicar para os meus amigos e familiares que eu tenho uma ‘condição crônica de saúde’ e que, uma vez medicado e fazendo os acompanhamentos devidos, posso fazer tudo o que alguém não infectado pelo HIV faz. Inclusive, um imunologista, do qual não vou lembrar o nome, uma vez disse que, assim que o paciente atinge níveis indetectáveis de vírus no sangue, recuperando, posteriormente, seu sistema imune, a fisiologia de quem é soropositivo e soronegativo passa a ser muito, mas muito, similar, funcionalmente apresentando capacidades igualmente satisfatórias no combate a outros patógenos.

Aides

No entanto — e acho que é por isso que te escrevo, Jovem — existem dois lugares hoje ocupados no combate ao HIV: um deles é a manutenção do estado de medo e alerta quanto ao aumento das novas infecções pelo HIV, o outro é a garantia, dos que já se encontram infectados, de que, desde que haja adesão ao tratamento, este iniciado o quanto antes a fim de logo chegar ao indetectável, eles devem e podem seguir com suas vidas. No primeiro caso, o discurso é feito para soronegativos, provocando respostas de medo quando alguém lhes comunica as letras agá, i e vê. O segundo, desfazendo os embaraços da primeira narrativa, convencendo as pessoas infectadas de que elas irão ficar bem. Esse vai-e-vem, que toma lugar sempre que alguém é infectado, me parece ser um tanto complicado, na medida em que exige recursos psíquicos e emocionais que nem todos possuem, a fim de desatar, pelos próprios pacientes, esses furos da propaganda de prevenção ao HIV/aids — contudo, se somos nós que fazemos esse esforço, por qual razão existe uma política de saúde coletiva?

A despeito de considerar imensamente importante a distribuição gratuita dos antirretrovirais para a população, a tarefa é muito maior. Tudo se passa como se nós fôssemos parâmetros para os quais a população não infectada devesse ter como um horizonte negativo, ruim, aquilo que não se deve ser. Isso inclusive se reproduziu em palavras de queridos amigos, os quais, sem saber usar corretamente as palavras, me colocaram num lugar de não desejável, afinal ‘ninguém quer ter isso pro resto da vida.’ De um lado, a estratégia de convencimento de que soronegativos devem se afastar de soropositivos para o HIV e, de outro lado, a reparação de que soropositivos podem viver uma vida tão ordinária e comum como a dos nossos duplos, os soronegativos. No fim das contas, me parece que existe uma má ambiguidade no interior das políticas que produzem modos de sofrimentos tão intensos quanto aquele que eu mesmo produzi, na primeira carta que escrevi para você, Jovem.

Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços.

Já no campo das tecnologias médicas, todo esse medo faz com que se produza em mim um curto-circuito cognitivo. Cada vez mais, estamos ocupando lugares antes impossíveis a qualquer homem e mulher diagnosticado positivo para o HIV, como, por exemplo, era o caso nos anos 80. Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços, bem no espírito do seu texto Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV. Mas como conciliar essas duas coisas tão difíceis: de um lado, uma das epidemias mais mortais da história da humanidade, especialmente durante os anos 80, e, hoje, uma condição crônica, tratável, com um prognóstico em pé de igualdade com soronegativos?

Às vezes, penso que a cura e o desejo para que ela apareça o mais rápido possível não seja para remediar nossos corpos ‘atormentados’ pelo HIV e ‘torturados’ pelos antirretrovirais: estamos vivendo muito bem, obrigado, tendo filhos, namorando, sofrendo, transando, sendo despedidos, sendo contratados, viajando o mundo como nunca antes na história da epidemia. Afora os pequenos riscos que corremos pela inflamação persistente devido à permanência dos reservatórios de RNA pró-viral em nossos linfonodos, pulmões e intestinos, somos como qualquer um. E a indústria farmacêutica, tida como grande vilã por ‘desejar’ que as pessoas fiquem dependentes dos antirretrovirais, está bolando estratégias de uma medicação que baixa para níveis ainda menores nossa inflamação basal. Com antirretrovirais cada vez menos tóxicos, um tratamento eficiente e que minimiza ou mesmo extingue possíveis complicações futuras, por que razão ainda estamos ansiando pela cura, como se estivéssemos presos em uma sala de resultados de teste dos anos 80? Muito trabalho ainda vem por aí, não só dos laboratórios, mas de campanhas que coloquem isso como prioridade.

O que você acha dessa história toda? Como te parece isso? No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, me senti confortável em escrever para você querendo saber um pouco mais das suas posições em relação a esse problema.

Um grande abraço,

V.”

Carta de um leitor: o medo de não ser aceito e o alívio de ser acolhido

“É engraçado como, quando algumas coisas acontecem, eu penso na figura do autor desse blog, o Jovem Soropositivo. Quase sempre isso ocorre num evento bastante corriqueiro, na fila do Hospital Emílio Ribas, buscando meus remédios. Como sempre, fazia isso tentando não olhar para os rostos das pessoas que estavam ali, fazendo a mesma coisa que eu — pela primeira vez, entretanto, eu entendi o porquê. O Jovem, essa figura sem rosto, virou, de repente, um universal concreto: ele era a moça triste que estava na fila, a criança impaciente do lado da mãe, o adulto, despreocupado, trocando mensagens no celular.

Toda vez que se passam certas coisas comigo, vem a figura do Jovem, que também sou eu e, ao mesmo tempo, tantos outros.

Toda vez que se passam certas coisas comigo, vem a figura do Jovem, esse quase-demiurgo, meio porta-voz, que também sou eu e, ao mesmo tempo, tantos outros. Razão que pode explicar o incômodo que senti quando li a história na qual ele se sentiu forçado a catar, no lixo, uma camisinha, como prova de um sexo protegido. Talvez, naquela hora, tenha saído de um fundo, uma linha muito nítida que ligou aquela experiência que ele experimentou, dentro dos possíveis da vida de um soropositivo, se irradiando, um pouco, em cada um que leu aquela história. Era eu também agachado diante de um imperativo irrecusável. Um afeto de reconhecimento, que, ao produzir seu revés, nos coloca à distância e em uma proximidade vertiginosa diante dos que nos nomeiam como outros e que, sem saberem disso, somos eles também — se é que isso faz algum sentido.

City_at_night

A cidade de São Paulo, já muito querida por mim, se tornou ainda mais convidativa depois de ler as histórias do Jovem, quase sempre me reconhecendo nelas. Há alguns meses, resolvi me mudar para cá — uma mudança com data de validade, no entanto. Aqui experimentei algumas coisas curiosas. Entre elas, um taxista que interrompe o percurso do carro para contar sobre sua disfunção erétil e da complicada relação com a amante. Também, o porteiro de um prédio qualquer, ébrio, procurando por cigarro nas ruas da cidade e que compartilha sua história por onde passa, incluindo as ruas da Avenida Paulista, onde eu me encontrava com alguns companheiros. E aí, no meio disso tudo, apareceu Rafa, que se ofereceu para me encontrar num bar perto de onde estou hospedado.

‘A vida é assim: a gente olha para trás só para se guiar, mas se não olhar para frente a gente corre o risco de voltar para trás, pelo mesmo caminho.’

Chego um pouco nervoso e sem saber como identificar seu rosto no meio das pessoas. Mas, assim que o vi, reconheci. Nos cumprimentamos, conversamos banalidades, bebendo uma cerveja da qual eu nunca havia ouvido o nome — tinha um sabor forte, um gosto agradável. Um desconhecido, já bêbado, estaciona o carro perto de nós e inicia uma conversa amigável sobre como havia perdido seu dente da frente, descrevendo como a vida era bonita. ‘Está vendo aquele retrovisor ali? A vida é assim: a gente olha para trás só para se guiar, mas se não olhar para frente a gente corre o risco de voltar para trás, pelo mesmo caminho que nos fez chegar até aqui.’ Banal que fosse, reconhecemos na fala do senhor embriagado uma sabedoria pouco comum. E o provocamos, dizendo que ele era um filósofo disfarçado. Ele então nos abraçou, e deu um beijo na testa de cada um. Desejou sorte, pagou sua cerveja e seguiu seu caminho, nos deixando a imaginar uma narrativa sobre o que teria acontecido consigo, nos deixando a rir da estranha possibilidade de que um estranho tenha nos abordado e que tenha dito as coisas que disse. Ainda assim, e apesar das nossas resistências, a verdade é que seu posicionamento ecoou tão certeiro em nossas cabeças.

Distanciados dos primeiros desconfortos de quem se vê pela primeira vez, Rafa e eu nos aproximamos, enquanto conversávamos, quase como se estivéssemos ensaiando um ato de cortejo, um em relação ao outro. ‘Compartilha aí algo inusitado sobre você!’, me fitou ele, enquanto fazia o pedido. Eu, nervoso com o teor da proposta, apenas afirmei, depois de pensar muito, que gostava de ler despido, totalmente sem roupas. A pergunta retroagiu sobre Rafa e, como se tivesse antecipado a volta da questão, pôs-se a narrar histórias das suas visitas a desertos, a compra de sua jaqueta favorita e o curso de inglês que deixou de fazer — todas, histórias narradas com a perfeição de um livro bem escrito.

Inside-the-book

Acho que foi naquela hora, já tarde demais, que eu fui capturado. Era madrugada quando trocamos os copos de vidro por aqueles de plástico, a pedido de uma miúda e insistente figura, a dona do restaurante. Nas ruas da cidade, a noite havia esfriado e, na desculpa de procura por calor, nossos corpos se aproximaram. Nos beijamos. As horas da madrugada passaram sem deixar que houvesse uma decisão consciente por partir. Fomos um em direção ao outro — e, também, à procura de outro lugar para continuarmos juntos. O jornal da madrugada passava na televisão, dentro do bar. Fumaças de cigarro contornavam o ambiente, onde nos sentamos. Ele me apresentou uma bebida com um nome engraçado, e um gosto terrível. Mais uma cerveja, melhor, junto com a narrativa de sua experiência acadêmica e sobre seu desencantamento das atividades que teve dentro do movimento estudantil.

Percebi que tudo o que experimentara até ali parecia, de alguma forma incômoda, anunciar um fim.

A manhã já se anunciava com o canto dos pássaros. O frio e a cicatriz do seu maxilar afiguraram na paisagem. Pagamos a conta, e nos despedimos. Em minha caminhada até a casa em que estou hospedado, percebi em mim que tudo o que experimentara até ali parecia, de alguma forma incômoda, anunciar um fim. Esse pensamento perdurou por dias, me corroendo por dentro. Até que, na semana seguinte, Rafa me convidou para ir à sua casa. Concordei, com o coração palpitando, de felicidade e de desespero. Com as mãos frias, puxei o celular, e contei que era soropositivo para o HIV. Na tela do aplicativo de mensagens, a mudança das cores nas pequenas setas, para o azul, indicava que Rafa já havia lido a minha mensagem. “Rafa está escrevendo…”, indicou o celular logo em seguida, prendendo meus olhos na tela do pequeno aparelho. Foi quando, finalmente, veio sua resposta.

‘Não tenho problema algum com isso. Por mim, nosso encontro está de pé, sim.’

Sua mensagem me atingiu quase com decepção, afinal, me privou de ter me encontrado com meus monstros, aqueles que com tanto zelo eu havia alimentado. Fiquei confuso por alguns minutos. E agora?!, pensei. Cheguei em sua casa e algo estava entre nós: nossos corpos não sabiam muito bem como se aproximar novamente. Em antecipação, sugeri um vinho, fora dali. Bebemos, e falamos sobre seu trabalho. Comemos um delicioso sanduíche de salmão. Ele me apontou as casas noturnas da cidade, indicando para o exagero das vestes de algumas pessoas da noite paulistana. Então, se aproximou de mim, e encostou seu queixo no meu ombro. Voltamos para sua casa.

O medo de não ser aceito e o alívio de ser acolhido não se dão exatamente de forma óbvia.

Rafa acendeu um cigarro e, de costas para mim, encostou seu corpo na sacada do apartamento, com o rosto de frente para a janela. Me aproximei, e o abracei. Nos sentamos no sofá para ver um filme. Aos poucos, fomos ficando mais juntos. Quando nos demos conta, não havia mais roupas, nem fumaça, nem a luz da televisão. A madrugada já se encerrava e a manhã mais uma vez se anunciava pelo canto dos pássaros. Um convite para dormir lá, para o qual balancei a cabeça, de forma confusa, e recusei. Era como se fosse impossível aceitar. Por alguma razão, julguei que havia entre nós um abismo. O medo de não ser aceito e o alívio de ser acolhido não se dão exatamente de forma óbvia. Aliás, às vezes, será que não sentimos mais medo de ser aceitos e alívio quando não somos acolhidos?

abraco

Eu nunca mais encontrei Rafa, e o tempo de voltar para minha cidade agora já se anuncia, junto com o final de ano. Afora a possibilidade de sentir alívio em não ter de encontrá-lo, não faço ideia de por quê não pego o telefone e ligo para ele. Também não faço ideia da razão de endereçar esse texto ao Jovem, mas foi a figura que me veio à cabeça para contar essa história. Talvez, por conta de seu último conto, aquele em que a graciosa M. também aceitou de pronto se relacionar com ele — assim como Rafa, comigo. Agora, me pego a pensar no resto da história: será que M. continua a se encontrar com o Jovem Soropositivo?

Com carinho,

V.”

Primavera e outono

Na maioria dos anos desse século, o equinócio (a data que marca a entrada da primavera no hemisfério sul e do outono no hemisfério norte) acontece no dia 22 de setembro. Mas este ano foi diferente. O equinócio se deu neste dia 23, mais precisamente às 5 horas e 21 minutos da manhã, pelo horário de Brasília.

equinocio

Dizem que a primavera e o outono representam o prenúncio da mudança, uma vez que as estações seguintes, o verão e o inverno, são tão opostas — ou, pelo menos, é assim que lembramos delas. Em tempos de aquecimento global, se não tanto pela mudança de temperatura, decerto pela mudança na duração dos dias e das noites, a qual inevitavelmente se altera em virtude do alinhamento do eixo do nosso planeta em relação ao Sol.

Foi na primavera de 2010 que fui diagnosticado positivo para o HIV, naquele 18 de outubro, às 9 horas da manhã. Foi o dia em que mais chorei, de tanto medo da doença e certo de que a minha vida iria mudar muito em decorrência do vírus. Naquele mesmo ano, pouco antes da primavera, a pesquisadora australiana Asha Persson teve publicado seu estudo a respeito de relacionamentos heterossexuais sorodiscordantes, reunindo entrevistas com pessoas soropositivas e seus parceiros soronegativos em face à declaração da Swiss Federal Aids Commission — a qual, em 2008, divulgou um comunicado afirmando que pessoas com HIV que estão em tratamento e têm a carga viral indetectável não são infecciosas.

A declaração suíça provocou um debate internacional acirrado, com opiniões tão díspares quanto verão e inverno. Uma das principais preocupações era a de que encorajasse aqueles que estivessem em tratamento antirretroviral a ter relações sexuais sem camisinha. Entretanto, não foi isso que o estudo conduzido por Asha revelou. Ao contrário, naquela altura, as pessoas que estavam num relacionamento com um parceiro de diferente condição sorológica para o HIV expressaram ceticismo ou incerteza a respeito da ideia de que o tratamento antirretroviral pudesse funcionar como prevenção da transmissão do vírus, tornando seu portador uma pessoa não-infecciosa. A maioria dos entrevistados por Asha não via qualquer relevância da mensagem suíça para suas próprias vidas. Suas decisões a respeito do sexo não estavam baseadas em cálculos de risco, mas em emoções.

primavera

F oi mesmo a partir de emoção que a segunda mulher para quem contei ser portador do vírus reagiu à notícia. R., uma linda jovem francesa, habitante de Paris, que conheci em uma viagem de trabalho. As circunstâncias do nosso relacionamento — que logo se tornou um relacionamento à distância — me fizeram concluir que o momento ideal, ou o único possível, para contar da sorologia positiva era mesmo por Skype. E, por acaso, isso se deu numa tarde de primavera, quando me sentei diante do computador, conectado além-mar com a bela jovem, e fiz a revelação.

“– R., tenho algo importante a te dizer”, anunciei. “Eu sou soropositivo.”

A lenta conexão de internet congelava alguns de seus movimentos em frente à câmera do computador. Mas não tive dúvida que seu queixo caído por vários instantes não era resultado de uma falha na ligação. Era susto, mesmo.

“– Isso é muito sério…”, suspirou ela, antes de se levantar e desligar a chamada, explicando que precisava refletir um pouco.

Foram algumas longas horas para que R. reaparecesse. Ao fim do dia, ela me contatou novamente, pronta para dar o seu veredito.

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Sua afirmativa tão positiva me encheu de ânimo. Com ela, a viagem de R. ao Brasil estava confirmada e, melhor ainda, para as festas de final de ano, em pleno verão. Entretanto, até a sua chegada ainda restavam alguns meses e, também, algumas dúvidas a respeito de como o relacionamento poderia se desdobrar. Ela pensava, por exemplo, que a única saída seria aderir ao celibato e manter comigo um relacionamento amoroso sem sexo, simplesmente porque presumiu que era assim que haveria de ser. Foi com o passar dos dias que R., conversando com seus conterrâneos, descobriu que transar era algo permitido aos portadores de HIV. Um dos amigos a quem resolveu consultar era um jovem médico parisiense, residente em infectologia — e quem deu a ela a explicação mais objetiva de todas.

“– Ele disse: ‘Tem HIV, e daí? É só usar camisinha. E você já ia usar camisinha de qualquer forma, não ia?’”, contou ela, fazendo-me concluir que, tamanha simplicidade na resposta, só poderia ser exatamente o que eu gostaria de ouvir quando eu conto que tenho HIV. “Mas ainda tenho algumas dúvidas…”, ponderou R. “E sexo oral? E se a camisinha estourar durante a penetração?”, prosseguiu, antes de concluir: “Se é preciso sempre usar camisinha, como fazemos para ter filhos?!”

Depois de quase desmaiar diante da pronta sugestão de ter filhos, recomendei a R. que conversasse com meu médico, o Dr. Esper, quando chegasse ao Brasil. Foi com muita simpatia que o doutor abriu seu consultório, já trancafiado em virtude do recesso de final de ano. Atravessamos sua clínica vazia e de luzes apagadas até chegar à sua sala, onde o médico conversou a sós com R. por toda uma hora. Ela me contaria depois que ali aprendeu um pouco sobre o tratamento como prevenção — ou TasP, do inglês treatment as prevention —, algo que ela desconhecia por completo.

Aidsmap

O estudo de Asha foi repetido cinco anos depois e, agora, publicado. A pesquisadora entrevistou 38 pessoas que estavam em um relacionamento sorodiscordante: 25 casais em que apenas um dos parceiros foi entrevistado e 13 casais em que foram entrevistados ambos os parceiros, bem como 16 casais homossexuais, sete casais heterossexuais e dois casais que incluíam pessoas transexuais. Entre os 25 parceiros soropositivos, 20 estavam tomando o coquetel antirretroviral e tinham carga viral indetectável, enquanto três estavam prestes a começar.

Assim como a cinco anos atrás, os entrevistados afirmaram desconhecer o termo TasP — mas não o seu significado. Quase todos os entrevistados voluntários disseram que a carga viral indetectável, sua ou de seu parceiro, era muito importante para um relacionamento sorodiscordante. As implicações disso é que variaram entre cada entrevistado. Muitos dos casais homossexuais enquadraram o tratamento antirretroviral como uma “camada extra de proteção”, ao lado do uso contínuo de preservativo. Esses casais congratularam a maior sensação de segurança proporcionada pelo tratamento antirretroviral, mas disseram preferir não lastrear a segurança sexual somente nisso.

“Seja de 4 ou 0,5 por cento, ainda há um risco. E, se há algum risco, não faz sentido corrê-lo, uma vez que as implicações são muito grandes. O impacto emocional do meu parceiro ao saber que foi ele quem transmitiu o HIV seria demasiadamente terrível de suportar.”

Alguns outros casais disseram já manter relações sexuais sem preservativo muito antes de saber sobre os benefícios do tratamento como prevenção. Mas aprender sobre isso parece ter trazido mais tranquilidade e uma validação de suas escolhas.

“Essa nova informação mais ou menos confirmou o que vínhamos fazendo, pois eu ainda sou soronegativo.”

Para um outro grupo de casais, as informações sobre carga viral indetectável e o baixo risco de transmissão do HIV nessas condições lhes deu “permissão” para ter relações sexuais sem preservativo.

“Depois que o estudo saiu, ficamos realmente aliviados. E nos sentimos capazes de ir em frente. Afinal, estes são os fatos. Se ele toma a medicação todos os dias, eu estou disposta a correr o risco, porque sei que ele está fazendo todo o possível para me manter segura.”

Em geral, o estudo de Asha observou que o tratamento como prevenção diminuiu ansiedades a respeito da transmissão — como uma mulher soropositiva tão bem explicou:

“Ajuda você a conseguir relaxar e desfrutar da vida sexual. Desfrutar do seu relacionamento com seu parceiro. É algo a menos para se preocupar.”

Muitos dos entrevistados afirmaram não estar preocupados com a transmissão do HIV. E muitos dos soronegativos se mostraram particularmente contentes ​​em poder refutar a ideia de que estar em um relacionamento sorodiscordante representaria estar sob o risco de ser contaminado por seu parceiro. Para esses casais, a sorologia positiva não deveria definir o relacionamento.

“Posso de fato amar quem eu amo, ao invés de me limitar a: ‘Você é positivo ou não?’ Os relacionamentos podem simplesmente acontecer e evoluir, de uma maneira que, a certa altura depois do meu diagnóstico, eu pensei que não fosse possível.”

Segundo a Dra. Asha, o tratamento como prevenção está mudando a percepção do HIV como algo extremamente infeccioso. Com isso, “pode gradualmente ajudar a normalizar e legitimar as relações sorodiscordantes, como algo que pode funcionar, ao invés de ser problematizada como uma anomalia que necessita de contínuo gerenciamento de risco sexual.” Um produto farmacêutico — ou a maneira como esse produto é percebido —, segundo ela, pode ter um impacto sobre o estigma.

Ayers

Mas e aqueles que não fazem o tratamento antirretroviral ou, por alguma razão, não têm carga viral indetectável? Muitos sociólogos têm sido críticos diante do aumento do uso de produtos farmacêuticos como forma de gerir problemas com causas sociais complexas, como depressão, obesidade e disfunção sexual. O remédio como a única solução para atingir um comportamento e uma aparência “normais” pode ser visto como uma forma de controle social, de pressão pelo uso de medicamentos, como a única maneira de manter seus corpos e organismos em consonância com os padrões socialmente esperados.

“Não há hipótese alguma neste mundo que me faça ficar com um homem soropositivo que não esteja em tratamento. Vou me sentir muito mais confortável quando ele estiver em uso de medicação, pois isso resolve uma série de preocupações.”

As entrevistas revelaram que alguns soronegativos pressionam seus parceiros soropositivos para que iniciem o tratamento  antirretroviral e mantenham a carga viral indetectável. Será que isso é bom? — e esta não é uma pergunta retórica. A incontestável melhora na qualidade de vida oferecida pelos antirretrovirais talvez também venha acompanhada de efeito colateral: o estigma por aqueles que não estão indetectáveis. Mas se o impacto social constasse na bula dos remédios, nada mais justo que seus benefícios também estivessem ali: a evolução dos pontos de vista das pessoas entrevistadas desde o última estudo de Asha, a cinco atrás, a respeito da sorodiscordância. A pesquisadora acredita que as mudanças de paradigma são prováveis, senão inevitáveis: o fim da sorodivisão, e, com isso, o fim do drama do soropositivo. Será que isso é realmente possível?

sorodivisao

O hábito não deveria fazer o monge. Por outro lado, disse Aristóteles que somos aquilo que fazemos repetidas vezes — o hábito.

Todos os dias, antes de me deitar, abro aquele armário que fica atrás do espelho do banheiro. Ali dentro, um pequeno frasco branco com um discreto rótulo, onde sequer consta a palavra “aids”, contém remédios suficientes para trinta dias. Dele, retiro uma única cápsula, que contém os três antirretrovirais necessários para me manter vivo e saudável. Levo essa cápsula à boca e a seguro com os lábios, sem deixar que minha saliva a atinja, para que não sinta seu gosto ruim. Sigo em direção ao quarto, onde me aguarda o copo de água filtrada sobre o criado-mudo. Então, por pura diversão e descontração típicas de um hábito tão arraigado, toco a ponta da língua na base da cápsula, forçando-a a fazer um pequeno loop, girando 180 graus em seu eixo vertical, antes de atingir a superfície da língua para, finalmente, ser deglutida, arrastada goela abaixo pela água.

Essa habilidade não foi algo que ganhei do dia para a noite, mas ao longo do mesmo gradiente que o outono e a primavera trazem antes do inverno e verão. Em outras palavras, uma habilidade que se ganha aos poucos e sem perceber — afinal, muitas vezes, não fosse alguém a nos lembrar, sequer perceberíamos a mudança de estação, não é mesmo? Será que isso também nos inebria de perceber o estigma, por mais discreto que este possa ser hoje? Será que nos habituamos à discriminação como se esta fosse normal para um soropositivo, tal e qual engolir as pílulas diárias?

Minha orgulhosa resposta seria que não. Até o fim de meu breve relacionamento com R. — que por razões da vida um dia terminou —, diria nunca ter notado qualquer sinal de sorodivisão. R. sempre foi muito amável, mostrava-se disposta a aprender sobre o meu mundo de soropositivo e dirimir qualquer receio restante que guardasse a respeito do HIV. Para mim, era o melhor que me parecia possível ser, dada a minha condição sorológica. O único passo adiante seria a ausência total de sorodivisão: um relacionamento com alguém não tivesse qualquer receio prévio da minha sorologia positiva. Parecia até utópico alguém para quem a questão da sorologia fosse completamente indiferente — será que existe alguém assim?

Conheci M. pouco depois de meu diagnóstico, há cinco anos. E não foi no outono e nem na primavera que a reencontrei, mas num frio dia de inverno de 2015. Naquela mesma noite, em sua casa, revelei ser soropositivo — com a mesma naturalidade que as minhas peripécias com as cápsulas de medicamento.

“– M., eu tenho HIV”, avisei, sentando em seu sofá enquanto bebíamos uma cerveja, já esperando uma série de perguntas, olhos arregalados e alguma cara de espanto. Entretanto, não foi o que se sucedeu.

“– Ah é?”, respondeu, M., dando de ombros e com uma expressão como se nada disso importasse. “Quer dormir aqui?”

Pílulas azuis

pilulas azuis

Uma história em quadrinhos autobiográfica, vencedora do prêmio Polish Jury Prize. Frederik Peeters, um dos quadrinistas mais celebrados da Europa, traduz com delicadeza sua vivência real e complexa em um relacionamento assombrado pelo HIV.

Foi em uma noite festiva de verão que Fred conheceu Cati. Anos depois, eles se reencontram e vivem uma conexão instantânea, que os levam a embarcar em uma comovente e verdadeira história de amor. Nesse momento, Cati encara a árdua tarefa de revelar ao seu parceiro ser soropositiva, assim como o fato de ter um filho de três anos. É quando Frederik Peeters escolhe amar mesmo em face a grandes desafios.


 

Com ilustrações em preto e branco, Peeters narra o desenvolvimento da intimidade do casal, a maneira como assume seu enteado, o preconceito, as surpresas e sua reveladora relação com um médico cuja afeição e franqueza o permite encontrar meios para quebrar todas as barreiras que ainda existem na sua relação.

A história mergulha nas angústias, dificuldades e realizações de um casal que vive um misto de amor e medo causado pela doença. Visitas regulares ao médico, o sexo com camisinha, livre de transmissão do vírus, e o uso dos medicamentos para controlar o avanço da doença são alguns dos assuntos relatados por Peeters, um autor que, na história e na realidade, questiona o sentido da vida — representado numa passagem na qual o personagem apresenta sua vulnerabilidade em um diálogo socrático com um mamute. A discussão com o animal imaginário o ajuda a perceber que conviver com a doença é completamente possível, deixando-o livre para desfrutar a vida ao lado de Cati.

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ico-ebook-gray-20x20 Disponível também em versão digital nas seguintes lojas:
Amazon, Apple, Kobobooks.
Páginas: 208 • Formato: 17 x 24 cm • Acabamento: brochura • Título original: Pilules bleues • ISBN: 9788582861592 • Editora Nemo • Data de publicação: 19/06/2015

Esporte Positivo

O Sportv Repórter voltou ao ar neste domingo, 2 de agosto de 2015, falando sobre o papel fundamental da prática de esportes no tratamento de portadores do HIV. Depois de 4 meses de pesquisa e pré-produção, a repórter Bruna Gosling e o repórter cinematográfico Julio Bittencourt reuniram depoimentos corajosos de soropositivos que encontraram no esporte um grande aliado ao tratamento e à qualidade de vida.

Segundo Bruna, que em abril deste ano convidou os leitores do Diário de um Jovem Soropositivo a participar desta edição do Sportv Repórter, a produção do programa foi um enorme aprendizado. “Me sinto realizada: tenho certeza de que vamos passar uma mensagem muito bacana e inspiradora para nossos telespectadores.”

Entre os entrevistados, o Sportv Repórter conta a história de Salomão, um ex-usuário de drogas e portador do HIV há 16 anos, que se tornou maratonista aquático e sonha em completar a travessia do canal da mancha. Ele treina diariamente no Tijuca Tênis Clube. O programa também mostra Givaldo, um maratonista apaixonado por corridas de rua de longa distância, que vive com HIV desde 1988 e frequenta a academia do Projeto Vida+, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. E Lene, balconista de uma padaria em São Paulo que vive há oito anos com o vírus, não esconde a sorologia de ninguém e pratica seus exercícios no Instituto Vida Nova, na zona leste da capital.

SporTV

“Para mergulhar no universo desses personagens, nossa equipe procurou infectologistas, como renomado pesquisador Dr. Mauro Schechter e a experiente Dra. Dirce Bonfim, frequentou por vários dias o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, referência no tratamento de aids na zona norte do Rio de Janeiro, contou com pesquisas e dados recentes cedidos pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e recebeu apoio com informações esclarecedoras de profissionais de educação física que, por ocasião do destino ou por motivações pessoais, buscaram se especializar na prescrição de exercícios para portadores de HIV”, contou Bruna.

Segundo os profissionais de saúde e educação física entrevistados no programa, o principal benefício do esporte para quem vive com HIV está na redução dos possíveis efeitos colaterais decorrentes do tratamento antirretroviral, como a lipodistrofia, que é redistribuição irregular de gordura corporal, alterações no perfil lipídico, perda de massa muscular e peso e osteopenia, a parda de massa óssea. Exercícios aeróbicos, treinamentos de força e de flexibilidade que diminuem o percentual de gordura no corpo e os níveis de triglicerídeos e de colesterol podem ajudar a minimizar esses efeitos. “Porém, a prescrição deve exigir um acompanhamento médico. Afinal, quanto maior a carga viral do portador menos intenso deve ser o exercício, já que o excesso pode comprometer o sistema imunológico do paciente.”

SPORTV

Com o título “Esporte Positivo”, o Sportv Repórter também relembra os exemplos de superação de astros do esporte, como o ex-jogador de basquete americano Magic Johnson, que se assumiu portador em 1991, e o ex-jogador de futebol Eduardo Esídio, o “Lica”, artilheiro do campeonato peruano. E não deixa para trás informações fundamentais: explica o que é a carga viral indetectável, fala da sua redução do risco de transmissão em 96%, mostra como funciona a infecção, a eficácia dos tratamentos atuais, reforça a importância do uso do preservativo e de não discriminar quem vive com HIV.

O programa será exibido:

Dia da Semana Data Hora Canal
SEG 03/08/2015 00:00 SPORTV
SEG 03/08/2015 04:30 SPORTV3
SEG 03/08/2015 19:30 SPORTV3
TER 04/08/2015 03:00 SPORTV2
TER 04/08/2015 07:00 SPORTV2
QUA 05/08/2015 18:00 SPORTV3
QUA 05/08/2015 23:00 SPORTV3
QUI 06/08/2015 06:30 SPORTV3
E também disponível online no site da Globo.com