sentimento
sen.ti.men.to
sm (sentir+mento2) 1 Ação ou efeito de sentir. 2 Faculdade ou capacidade de sentir, de receber impressões mentais. 3 Sensação psíquica, tal como as paixões, o pesar, a mágoa, o desgosto etc. (…) 7 Exibição ou manifestação de sensibilidade ou sentimentalismo, ou propensão às emoções ternas em literatura, arte ou música. 8 Pressentimento, suspeita. 9 Opinião. (…) 11 Filos. Conjunto de emoções. 12 Filos. Conhecimento imediato. sm pl 1 Modo de pensar, mentalidade, atitude moral: Sentimentos mesquinhos, maus, nobres etc. 2 Boas qualidades morais, bons instintos, boa índole. 3 Pêsames. S. de culpa: estado emotivo de uma pessoa que haja infringido, ou assim o creia, uma norma social, princípio ético ou prescrição legal. S. de inferioridade: atitude afetiva dominante, com efeitos neuróticos de diversos graus, e que pode originar-se de certa condição física ou defeito de educação. S. de superioridade: experiência de exagerada valorização de si mesmo, isto é, de considerar suas próprias qualidades, atos e idéias superiores aos das demais pessoas. S. interno: a consciência.

Pensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

Nenhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

Fui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

Eu tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

Em trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

Eu sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

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 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

Em comparação com os seus pares soronegativos, as pessoas com HIV ainda acreditam que vão morrer mais cedo e que são menos propensas a alcançar um relacionamento amoroso duradouro, de acordo com um estudo encomendado pela Gilead Sciences, conduzido em cinco países europeus. Os resultados foram anunciados na 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, e publicados no Aidsmap.

Nessa pesquisa, 54% das pessoas soropositivas consideraram que o HIV era uma barreira ao sexo, dos quais 87% disseram ter medo de transmitir o vírus para para outras pessoas. (Estes 87% representam 47% do grupo inteiro.) Esse medo poderia até ser visto como racional ou bem informado, uma vez que este grupo era um grupo relativamente novo de pessoas com HIV, com pouco menos de dois terços em terapia antirretroviral, dos quais menos da metade tinha carga viral indetectável. No entanto, as pessoas que tinham carga viral suprimida não apresentaram uma opinião muito diferente: 38% das pessoas com carga viral indetectável ainda temiam transmitir o vírus para outros.

O estudo HIV is: Expectations from Life foi conduzido entre novembro e dezembro de 2016 na França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido. Cerca de 20 mulheres soropositivas foram recrutadas em cada país, totalizando 102 mulheres, e 84 homens em cada país, num total de 420 homens. Destas 522 pessoas, 11% nunca tinham feito tratamento antirretroviral e outros 11% tinham feito tratamento, mas relataram tê-lo abandonado. Das 338 pessoas (65%) que estavam em tratamento, 229 pessoas (67% destas ou 44% de todo o grupo) disseram ter carga viral indetectável.

As 522 pessoas com HIV foram comparadas com 2723 pessoas soronegativas, equiparadas quanto à idade, gênero e orientação sexual. Os pesquisadores perguntaram a todos os entrevistados: você espera viver uma vida mais longa do que seus amigos, colegas e irmãos mais velhos? As pessoas com HIV se mostraram três vezes mais propensas a dizer que acreditavam que teriam vidas mais curtas: 35% disseram acreditar que morreriam mais cedo do que seus amigos, em comparação com 10% do grupo soronegativo. A supressão viral mudou pouco esse cenário, com 31% daqueles em tratamento e com carga viral indetectável ainda considerando ter uma expectativa de vida mais curta.

As pessoas que vivem com HIV também se mostraram mais propensas a priorizar o amor (37% contra 27%) e uma vida sexual saudável (28 contra 17 %) do que pessoas soronegativas. Mais da metade dos soropositivos considerou o HIV como uma barreira para o sexo e 38% consideraram que o HIV era uma barreira para namorar e conhecer possíveis parceiros sexuais. O obstáculo mais comumente citado como impeditivo para um namoro foi o medo de ter que revelar o sua condição sorológica para o HIV, com 59% dos soropositivos (ou 22% do grupo inteiro) dizendo que acreditavam que o HIV era uma barreira para namorar.

As pessoas com HIV apresentaram menor probabilidade de avaliar sua saúde atual como excelente, com 44% classificando sua saúde como boa ou excelente, em comparação com 69% dos entrevistados soronegativos. Há algumas diferenças interessantes entre os países: espanhóis e italianos sentem-se pior em relação à saúde. 71% das pessoas na Espanha contra 38% na Alemanha disseram que sua condição sorológica positiva para o HIV os tornava menos propensos a se envolver em atividades para apoiar a saúde e o bem-estar, como alimentação saudável e exercício físico, porque eles não acreditavam que isso poderia fazer alguma diferença, agora que tinham o HIV.

Por sua vez, os entrevistados britânicos se mostraram mais propensos ​​de temer a divulgação de sua condição sorológica e a dizer que o estigma contra soropositivos ainda prevalece. 68% dos entrevistados do Reino Unido, contra 50% dos espanhóis, temem divulgar seu status. 44% dos entrevistados do Reino Unido e apenas 12% dos italianos disseram que o estigma contra soropositivos é uma barreira para conseguir um relação amorosa.

E você, o que acha?

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

“Tudo começou em outubro de 2016, com uma dor de garganta que insistia em permanecer. Creditei estes sintomas ao clima quente na rua e ao ar condicionado frio na sala do escritório onde trabalho, na qual eu passava longas horas do meu dia sob um forte estresse que vinha se agravando ao longo do ano. Ainda assim, eu pensava que tudo isso era mais um momento difícil — o qual, no final, seria totalmente superado. Mas não foi.

Percebi também que eu estava emagrecendo, talvez em demasiado, mas ponderava que talvez isso fosse resultado da nova dieta sugerida pelo nutricionista, naquela última (e cara) consulta. ‘Estava com os músculos definidos’, dizia a mim mesmo diante do espelho. Havia também uma dor no corpo que não melhorava, há cerca de três anos, mas que julgava ser emocional — a ansiedade dos perfeccionistas. Me automedicava e, no final, ‘ficava tudo bem’. Até que não ficou mais.

Vivia um relacionamento amoroso paralelo, que administrava com certa dificuldade (sim, já tinha sido ‘pego no flagra’ por meu companheiro, mas numa situação que depois foi ‘contornada’). Minha testosterona continuava a todo vapor. Era compulsivo por sexo, e sabia disso. Às vezes imaginava que um dia a conta chegaria, mas também refletia que uma vez que me cuidava (e era até meio neurótico com isso), no final, ‘tudo daria certo’. Mas não deu.

Decidi procurar um endocrinologista, julgando estar sofrendo de algum problema na tireoide. Fiz os exames receitados por ele, e todos estavam bons. Mas eu não melhorava. Me auto-diagnostiquei com candidíase oral. Depois, com gengivite. A dor de garganta continuava. Aftas surgiram na boca. Eu voltava ao médico e fazia todos os exames — menos o mais temido por mim: o teste de HIV.

Em janeiro de 2017, logo depois do réveillon, amanheci com diarreia. No médico, fui diagnosticado com gastroenterite. Fiz os exames, todos — menos o próprio. Já sentia suores noturnos, há cerca de um mês. Era hora de fazer o teste de HIV. Nunca passei por nada parecido: uma aflição, uma angústia, um medo que não consigo expressar com palavras e que durou o final de semana inteiro. Em visita ao infectologista, apenas solicitei um pedido para o teste de HIV. Fiz, sabendo que se o laboratório ligasse pedindo para refazê-lo, já teria ali o meu diagnóstico.

Recebi a ligação 15 minutos antes do prazo final da entrega do exame. Lembro-me bem: estava no meio de uma consulta com um psiquiatra. Naquela altura, 10 quilos mais magro. No trabalho, pedi licença por depressão. Agora, não me reconheço. Não sei mais quem sou. Tenho medo de morrer e de deixar as pessoas que dependem de mim em desamparo — não fosse isso, acho que já tinha dada por terminada a minha missão.

Em pouco tempo, perdi a forma física. Perdi a libido e, agora, tenho alternado entre períodos de aparente tranquilidade a momentos de grande desespero. Tenho a sensação de que já tenho a minha sentença de morte. Espero apenas que ela não seja lenta e dolorosa. Queria que fosse diferente. Queria acordar e constatar que tudo não passou de um pesadelo. Queria não precisar pensar: ‘Por que comigo?’, ‘Logo eu, que me cuidei tanto?’

Decidi não contar à minha família. Só meu companheiro e dois amigos sabem. Meu companheiro me deu todo apoio e nunca questionou como isso aconteceu. Sinceramente, não sei o que seria de mim sem ele! Tirei um grande peso dos ombros quando ele fez o teste de HIV: está saudável! Falta agora o teste do amante, que também tem muito medo do resultado.

Me preocupo que outras pessoas descubram que eu tenho HIV, que me depare com algum conhecido ao buscar a medicação. Mesmo assim, não demorei para retornar ao infectologista e pedir que ele receitasse a medicação. Queria começar o tratamento logo. De alguma forma, sentia que estava correndo contra o tempo. Antes mesmo do resultado confirmatório, que recebi dez dias depois, já estava em tratamento antirretroviral.

Meu médico disse que quanto menos eu souber a respeito do HIV, mais fácil será de encará-lo. Mas eu não segui seu conselho: não há o que eu não saiba sobre a doença. Voltei a fazer ginástica e tenho vivido um dia de cada vez. Em junho, volto ao médico para fazer análise da carga viral. Procuro não criar expectativas, mas, confesso que, se estiver indetectável, será um alívio!

Dizem que não há mal que dure para sempre e que todas as alegrias e tristezas são efêmeras. Assim espero. Embora ainda me sinta frágil e inseguro, vou em breve assumir um novo compromisso profissional. E vou seguindo a vida. Um dia de cada vez.”

“Olá, Jovem! Tudo certo contigo? Fiquei mexido com a última postagem que tu publicaste, sobre a inflamação crônica e seus efeitos no longo prazo.

Olivetti

Me parece que, se nossa leitura fosse mais atenta, talvez o que poderíamos tirar da postagem é que: 1) a inflamação crônica não é uma disposição fisiológica devastadora, 2) que atua lentamente e só é perceptível quando o soropositivo chega em sua 6º ou 7º década de vida e, principalmente, 3) que existem meios para retardar, controlar ou até mesmo conviver muito bem com a inflamação persistente — inclusive, até os 88 anos de idade, assim como a Dona Olivetti, que esteve ao seu lado no livro Histórias da Aids, do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães.

Noutras palavras, é basicamente dizer que a inflamação persistente parece ser mais perceptível quando o paciente está próximo da idade em que as pessoas normalmente morrem, o que faz com que essa constatação seja até um pouco engraçada.

“Na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que a ansiedade cresce junto com sentimentos de impaciência.”

Contudo, o que mexeu comigo, confesso, foi a reação que percebi entre meus semelhantes, soropositivos. Ao que me parece, um estado de euforia generalizado pela previsão — ou, no máximo, pelo chute — que os cientistas deram de uma possível cura em três anos. Ou melhor, lendo mais atentamente, pela previsão para o começo de testes em humanos dessa abordagem que pode levar à cura. Isso me deixou preocupado porque os soropositivos estão ficando cada vez mais saudáveis, do ponto de vista de sua função imune, mas, na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que sua ansiedade cresce junto com seus sentimentos de impaciência. O que é compreensível, afinal, nenhum de nós escolheu ser soropositivo. Mas, talvez, isso seja um sinal de que não só precisamos tomar nossos remédios todos os dias, mas também buscar apoio, tratamento psicológico e, quem sabe, convivência com outros soropositivos.

“Nenhuma pesquisa experimental pode prever o ano em que a cura vai sair.”

Acho que o blog já insistiu muito sobre o estado de incerteza da ciência. O máximo que se pode fazer em um editorial é publicar os avanços e torcer para o melhor acontecer. Além do mais, só podemos contar com o que se publica em nosso tempo. Nenhuma pesquisa experimental pode prever com exatidão o ano em que a cura vai sair. Infelizmente. Às vezes, os homens que fazem ciência acertam, às vezes, não. Por exemplo: grande parte do projeto genoma humano, que teve uma previsão de duração de 15 anos, só foi concluído nos últimos anos do prazo estipulado. Isso porque as novas tecnologias foram viabilizando um crescimento exponencial no sequenciamento de nosso código genético. O que antes era caro e demorado, foi tornando-se mais barato e mais veloz com o passar do tempo. Hoje, se alguém quiser ter seu DNA mapeado vai pagar uma bagatela de 20 mil e poucos dólares, que é quase nada comparado ao orçamento bilionário que foi gasto para se produzir essa tecnologia.

Parece que isso só significa que o estigma continua talvez maior do que o HIV, ou, ainda, que ele causa mais problemas de ansiedade e depressão do que a dose diária de Efavirenz e mais taquicardia emocional do que algum possível estado interno debilitante. Mais impressionante é ver como uma reportagem que diz, basicamente, ‘gente, vai ter uma cura e quero explicar o que acontece com o corpo de vocês enquanto ela não vem’ é recepcionada como se tivéssemos retrocedido no tempo — e, também, como se quiséssemos ficar presos nesse passado, desejosos que o avanço científico se desse em linha reta e contínua, sem qualquer turbulência, trazendo a cura do jeito épico que um dia imaginamos.

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Gostaria muito mesmo de ter podido acompanhar mais de perto o processo de desdobramento da cura da hepatite C, da descoberta do vírus até sua reta final. Gostaria de verificar se isso faz parte de um processo social, no qual a população infectada antevê um avanço científico que vai ter um impacto expressivo na forma de viverem suas vidas, ficando cada vez mais ansiosas a cada passo, a cada descoberta importante que a ciência é capaz de realizar.

Um dia, estava passando o olho pelas notícias e me deparei com uma entrevista com Pamela Anderson, a famosa atriz de seios fartos do seriado Baywatch, infectada pelo vírus da hepatite C por seu ex-marido, Thommy Lee, baterista dos Mötley Crüe, falando como é, aos 50 anos de idade, se ver curada da infecção, a princípio mortal. Impressionante como os processos são similares e de como o relato da atriz sobre a sua cura é a descrição tal qual reside no imaginário de (quase) todo soropositivo. Na entrevista, Pamela diz ter nascido novamente. Em um primeiro momento, nos anos 1990, os médicos haviam dito a ela que viveria uma década e que provavelmente iria morrer de uma fibrose grave no fígado.

Nos anos 2000, os médicos mudaram suas posições e avisaram a atriz que ela iria viver uma vida normal e provavelmente iria morrer de causas naturais. Entre 2013 e 2014, quando saiu o tratamento definitivo, ela se disse livre de um peso. A patogênese dos dois tipos de vírus, da aids e da hepatite, são claramente diferentes, mas é curioso como o processo social no qual o paciente infectado pelo vírus passa se assemelha assustadoramente.

Faço toda essa digressão pra te dizer o quanto eu fiquei mexido pela reação dos leitores do blog, os quais sempre me identifico como semelhantes, soropositivos, tal como eu. É quase como se suas esperanças tivessem sido retiradas à força, e é triste ver alguém sentir isso. Por isso, penso que o apoio farmacológico pode até estar surtindo efeitos, mas o nosso sistema de saúde ainda tem de oferecer um tratamento psicológico muito mais robusto. Realmente gostaria que, enquanto um tratamento definitivo não vem, pudéssemos viver melhor e mais tranquilos. Afinal, já podemos viver assim, não podemos?

Grande abraço,
V.”


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Desde a descoberta de Quíron, em 1977, astrólogos têm experimentado e explorado suas temáticas, ouvindo novos contos que ressoam da sua mitologia e chegam a algum entendimento sobre o seu impacto arquetípico. Agora, anos depois, o astrólogo Liz Greene vê Quíron como elemento essencial no aprofundamento da nossa compreensão a respeito consciência solar: para poder escolher viver a vida ao máximo, temos que enfrentar aquela parte em nós que prefere buscar a morte.

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“A vontade de viver é um grande mistério.”

A vontade de viver é um grande mistério. Qualquer médico com alguma experiência em doenças com risco de vida sabe que a vontade de viver pode afetar o bem-estar físico, bem como psicológico. E a sobrevivência, muitas vezes, depende mais do desejo da pessoa doente de viver do que da ajuda do médico. Mas nem sempre a vontade de viver é necessariamente o que de fato sentimos. Podemos dizer por aí que queremos a vida, mas, em algum lugar lá dentro, queremos mesmo é ir para casa — e este anseio por cair em esquecimento pode ser mais poderoso do que qualquer declaração consciente da intenção de melhorar.

Algumas pessoas reagem ao conflito, à dor e à decepção com uma resposta criativa, que transforma sua perspectiva e até mesmo suas circunstâncias. Outras se tornam amargas e desesperançosas, passando a viver num mundo de penumbra, cinzento, perdendo totalmente a vontade de viver. Para essas pessoas, nem sempre o suicídio é o que vem como resultado, mas também a morte “acidental”, na verdade autoarquitetada, a qual, embora inconsciente, é, contudo, alimentada por um forte desejo de pôr fim ao sofrimento e à infelicidade. O comportamento autodestrutivo nem sempre envolve um gesto evidente, como engolir o frasco de comprimidos ou passar a faca no pulso.

“Não existe uma fórmula para explicar por que alguns superam os desafios da vida enquanto outros viram as costas para o futuro.”

Não existe uma fórmula mágica para explicar por que alguns indivíduos superam os desafios da vida, apesar de desvantagens e de infortúnios graves, enquanto outros viram as costas para o futuro, mesmo que a sorte possa favorecê-los. Também é verdade que a perda da vontade de viver nem sempre resulta em autodestruição: ela pode ser expressa no desejo de destruir os outros, como se, em algum nível profundo e inacessível, a projeção de desesperança e de vitimização dá ao indivíduo que sofre a ilusão de que ele ou ela está forte e no controle da vida. Assim, o indivíduo que, secretamente, perdeu a vontade de viver pode, in extremis, tentar privar os outros de alegria — e talvez até da própria vida — por encontrar um bode expiatório que possa ser sobrecarregado com todo o desespero que se faz sentir em seu interior.

Sagitario

Esse mistério pode ter sua origem, assim como tantos outros mistérios, no enigma do caráter individual inerente — e o mapa astral pode trazer algumas perspectivas a respeito dos padrões que sustentam esse personagem. Em qualquer polaridade na vida, nós, astrólogos, sempre precisamos olhar para a polaridade dos planetas: a polaridade da esperança contra o desespero, a vontade de viver contra a desesperança, que pode ser iluminada, pelo menos em parte, através do simbolismo da polaridade do Sol e de Quíron.

Não acredito que possamos realmente compreender qualquer um dos planetas sem considerar o significado do outro. Embora eles não estejam no gráfico de todos os indivíduos, ambos estão presentes em todas as cartas e formam uma energia dinâmica dentro da personalidade. Um aspecto direto aguça esta dinâmica e muitas vezes torna-se o foco da jornada do indivíduo. Entretanto, a polaridade existe em cada um de nós, independentemente. Todos os planetas, incluindo Saturno, servem o desenvolvimento do ego individual, o qual é melhor simbolizado pelo Sol. Na verdade, poderíamos até dizer que os planetas pessoais “servem” ao Sol como o centro da individualidade.

Quíron, contudo, encontra-se na interface entre Saturno e os outros planetas e, portanto, medeia questões coletivas que incidem sobre a ferida do indivíduo. Por sua natureza, as implicações coletivas de Quíron significam algo coletivamente “incurável”, uma vez que a ferida existe no coletivo e é ancestral. Por sua natureza, o Sol reflete senso de propósito e de significado na vida de cada indivíduo, e estes estão intimamente ligados com a vontade de viver e de se tornar si mesmo. Cada um destes planetas precisa do outro, mas se o equilíbrio os distancia demais um ou outro, podem surgir certas dificuldades psicológicas.

Sun

O significado do Sol

Não vou gastar muito tempo descrevendo o significado do Sol. Em suma, ele representa a essência do indivíduo vivo, a divindade (ou, se preferir um termo menos “espiritual”, a força da vida) encarnada em forma humana para uma vida particular, expressando-se com uma natureza e finalidade específicas.

Através do Sol, experimentamos a nós mesmos como únicos, especiais, nascidos com algo a contribuir para a vida. Parafraseando uma declaração Charles Harvey feita certa vez numa palestra, o Sol dentro de nós é o que nos faz sentir conectados com o macrocosmo, e nós experimentamos a nós mesmos como parte de algo eterno. Esta experiência interior transmite não apenas “felicidade”, em seu sentido coloquial comum, mas a profunda serenidade e esperança que surgem a partir da sensação de viver uma vida útil e significativa. Poderíamos chamar a isso de uma experiência de “destino individual”, pois o Sol reflete em nós a sabedoria de que estamos aqui para viver uma finalidade específica.

Apollo

“Um senso de significado individual e propósito pode nos libertar da sensação de aprisionamento do passado.”

Apollo foi, no mito grego, a divindade que dissipou as trevas da maldição da família, e libertou o indivíduo do fardo do “pecado” ancestral. Um senso de significado individual e propósito pode realmente nos libertar da sensação de aprisionamento do passado da família. O Sol também nos dá uma sensação de um futuro individual, da fé em nosso propósito, de uma convicção interior de que estamos “indo a algum lugar”. É o Sol que nos permite lutar livres de sentimentos de inutilidade e de falta de sentido, e que afirma o nosso valor único, mesmo que nossas circunstâncias sejam dolorosas.

“A experiência interior de destino individual, significado e esperança, nos dá confiança em nós mesmos.”

A experiência interior de destino individual, significado e esperança, por sua vez, nos dá confiança em nós mesmos e uma crença na bondade essencial da vida, algo que pode ser uma poderosa força de cura em ambos os níveis físico e psicológico. Se a expressão do Sol é bloqueada, sufocada ou pouco desenvolvida por qualquer razão — por meio de feridas da infância, por exemplo, ou por conflitos internos refletidos no gráfico de nascimento —, o indivíduo pode achar que é mais difícil de se conectar com essa sensação de ter o direito de estar vivo e sendo si mesmo. As dificuldades da vida podem então ser amplificadas porque não há nenhum sentido interno de especialidade e de esperança a partir da qual desenhar.

O poder de criar depende do Sol, porque quando criamos qualquer coisa nos entregamos a “outro” algo dentro de nós, ao qual confiamos que nos trará frutos. A criatividade requer um ato de confiança. Da mesma forma, nos entregamos a um fluxo de poder imaginativo que nos faz sentir alegres. O símbolo mais antigo da energia solar lúdica e criativa é a imagem da criança divina, que personifica algo eternamente jovem e indestrutível dentro de nós.

Chiron

O significado de Quíron

Na arte greco-romana, Quíron é quase sempre mostrado carregando uma criança nas costas. Mas, apesar deste emblema de esperança, a figura do rei dos Centauros é trágica. É importante reiterar seu mito, que é muitas vezes distorcido ou mal contato, justamente porque é de tal modo muito doloroso.

No mito, Quíron não se tornou um curador porque foi ferido. Essa é uma reinterpretação otimista que tenta dar sentido à dor da vida atribuindo um propósito e significado específicos — de desenvolver a compaixão e a sabedoria para curar os outros por causa da própria dor. Esta reinterpretação do mito é válida como forma de trabalhar com as próprias feridas. Mas a dor de Quíron não tem nenhuma finalidade nobre nessa história. Ele já era professor e curador antes mesmo de ser ferido. Pode-se supor que ele já estava ferido porque ele sofre de isolamento; embora seja um Centauro e, portanto, parte de uma tribo de criaturas que simboliza os poderes instintivos naturais, ele é civilizado e, assim, separou-se de sua própria tribo. Nesse contexto, Quíron representa o animal sábio, o poder natural, que por sua própria vontade escolhe servir a evolução humana e a consciência, ao invés de permanecer cegamente sujeito às compulsões instintivas do reino animal. Como o “animal útil” nos contos de fadas, Quíron vira as costas para a selvageria de sua natureza instintiva, a fim de servir o padrão evolutivo que ele considera ser o caminho a seguir para toda a vida.

Herakles

“Quíron está no lugar errado, na hora errada.”

Mas Quíron está no lugar errado, na hora errada. Ele está no meio de Héracles, o herói solar, que personifica a força do ego humano, e os selvagens, os Centauros indomáveis ​​a quem o próprio Quíron deixara para trás. Durante a violenta batalha, Quíron não participa, pois tem simpatia por ambos os lados. Talvez por causa deste papel de mediador, que o priva de sua agressividade natural, ele é acidentalmente ferido por uma flecha envenenada que tinha como alvo outro Centauro e cuja ferida não cicatriza, não importa quais os métodos de cura que ele aplique. Finalmente, Quíron se retira para sua caverna, uivando de angústia, pedindo pela morte. Zeus e Prometeu têm piedade dele, e concedem-lhe então o benefício da mortalidade, permitindo que ele morra em paz como qualquer mortal, muito embora ele tenha sido um deus.

“Queremos acreditar que a vida é justa, a bondade é recompensada e o mal é punido.”

Essa terrível história implica um estado de injustiça na vida que é difícil para qualquer indivíduo, e talvez ainda mais difícil para o indivíduo idealista. Queremos acreditar que a vida é justa, que a bondade é recompensada e que o mal é punido, pelo menos em alguma outra encarnação, se não nesta. Aqui está uma boa criatura que sofre não por culpa própria, mas vítima da batalha inevitável entre evolução e inércia, consciência e instintividade cega.

Quíron é a imagem de um eu que foi ferido injustamente pela vida e pelas condições inescapáveis ​​que refletem falhas e falhas de uma psique coletiva que é infalivelmente desajeitada em seus esforços para o progresso. Uma vez que seres humanos são ambos o herói solar e o animal selvagem e uma vez que os resultados de nossos esforços no sentido de civilizar-nos se mostraram tantas vezes desastrosos na história, temos um legado de dor injustamente infligido, que produz repercussões através das gerações. Danos físicos e psicológicos cujas causas pairam não em quaisquer desastres individuais e nem mesmo sob nossos pais, mas na herança genética, ou em desastres coletivos como o Holocausto e o pesadelo em Kosovo, todos pertencentes ao reino de Quíron. Nessas esferas, nossos esforços individuais, disparados pelo Sol, refinados e focados pelos planetas interiores e com forma e força dadas por Saturno, são contrariados ou danificados pelas forças na vida, na história, na sociedade e na psique coletiva, sobre as quais não temos controle e para o qual, como indivíduos, não podemos ser responsabilizados.

Tais colisões com as falhas inevitáveis ​​do coletivo podem nos deixar cheios de amargura e de cinismo. Podemos acabar por punir os outros, porque nos sentimos aleijados, feridos e irredimíveis. Ou podemos nos punir. Mas, se podemos progredir para além deste bile de amargura, e se formos persistentes o suficiente em nossa busca por respostas, podemos realmente encontrar uma resposta — mesmo que a resposta seja a de que não existe uma resposta, e que devemos aceitar os limites da existência mortal.

“A aceitação constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida.”

A aceitação é um dos dons de Quíron, e é diferente da resignação de autopiedade. A benção da morte de Quíron pode ser entendida como um símbolo da aceitação de ser mortal e constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida. Através dela, podemos aprender a compaixão, embora de um tipo limitado. A compaixão de Quíron é a compaixão de uma pessoa aleijada no lugar de outra pessoa. Podemos sentir profunda empatia por aqueles que estão feridos como nós. Mas, sem o calor e a luz do Sol, podemos não encontrar a generosidade para ir além do círculo fechado daqueles cuja dor específica espelha a nossa própria dor e, assim, ver que a vida fere a todos, de uma forma ou de outra.

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Quíron como bode expiatório: o ferido se torna curador

Há muitas fases do processo que Quíron representa, começando com seu ferimento e terminando com sua transformação em mortal e sua libertação do sofrimento. Estes estágios abrangem raiva, fúria, o desejo de ferir outras pessoas, renúncia amarga, autopiedade, sentimentos de vitimização e, por último, o amanhecer de um desejo de entender os padrões universais que estão além de nossa dor pessoal. Em qualquer uma destas fases, se não formos capazes de enfrentar e compreender o que está acontecendo conosco, podemos ficar presos e agir dentro de algumas das características menos atraentes de Quíron. Afinal, Quíron é ferido em sua metade animal, e os animais não são conhecidos por sua atitude filosófica quando feridos. Aqueles que têm força tendem a morder de volta.

O psicanalista Michael Balint escreveu que, no núcleo de cada doença física, bem como psicológica, há uma ferida fundamental — uma luta ou conflito interior que parece insuperável e que pode gerar amargura e raiva, e a perda da vontade de viver. Enquanto não há nenhuma implicação nesta declaração de qualquer culpabilidade individual, há uma sugestão de que, se o conflito pudesse ser trazido para a consciência, há uma boa chance de que o curso de muitas doenças físicas e psicológicas poderia ser alterado, ou, pelos menos, enfrentado de uma forma diferente e com espírito mais positivo.

“Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento podemos nos tornar arrogantes.”

Se Quíron trabalha contra e oprime o Sol, o resultado pode ser depressão, perda de confiança e um senso de danos ou ferimentos permanentes. Uma pessoa se torna cínica, assim como Mefistófeles, de Goethe, que diz: “Eu sou o espírito da negação.” Espera-se a falha — e, justamente porque a espera, pode ser muito provável encontrá-la. Um sentido de se tornar vítima ou bode expiatório pode ser muito intenso e fazer com que um indivíduo projete sua mágoa sobre os outros, se vitimize ou se torne bode expiatório deles. Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento, podemos nos tornar arrogantes, perdendo espaço para nossa maior realização espiritual, fazendo-nos olhar para baixo, sobre aqueles a quem julgamos ser menos evoluídos do que nós mesmos. Também podemos nos tornar intolerantes, até mesmo cruéis, para com aqueles que, inadvertidamente, nos lembram que estamos sofrendo. E, assim, a ferida apodrece na escuridão.

“Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado.”

No entanto, a imagem greco-romana de Quíron tendo a criança divina em suas costas também nos diz que estes dois símbolos em antítese podem trabalhar juntos. No mito, Quíron é professor da criança, a quem é dado o cuidado e a educação de um príncipe que vai se tornar rei. Esta é uma imagem rica e esperançosa do papel que a nossa dor incurável pode desempenhar na educação do indivíduo que estamos em processo de nos tornar. Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado. Também podemos desenvolver resistência e coragem, bem como perder o sentimentalismo, que faz com que tantos idealistas sejam tão completamente ineficazes na realização de seus sonhos. Também podemos obter um vislumbre de padrões maiores, mais profundos — tal como a lenta evolução dolorosa do coletivo, do qual fazemos parte, e com o qual temos que compartilhar a responsabilidade. Desastres coletivos e erros não são sua culpa: a bagunça humana pertence a todos nós.

Podemos injuriar o sérvio Slobodan Milošević (principal líder do Partido Socialista da Sérvia desde a sua fundação, em 1990, e presidente daquele país entre 1989 a 1997 e da Iugoslávia, entre 1997 a 2000), e fazê-lo com razão. Contudo, cada vez que zombarmos com desprezo de qualquer grupo minoritário racial, religioso ou social ou maliciosamente tentarmos tornar a vida mais difícil para aqueles indivíduos que nos lembram de nossas próprias imperfeições, estamos exibindo um pouco deles em nós mesmos.

Eu conheci algumas pessoas que vociferam ser tão politicamente corretas e que, quando se aposentam por trás das portas fechadas de suas próprias residências, se transformam um pouco em Hitlers e em Miloševićs para com os seus parceiros e filhos. Pode ser bom lembrar que os coletivos escolhem os seus líderes e que, quando estes pequenos bodes expiatórios, mutilados em cada um de nós, se agregam juntos, estamos inclinados à colocar no poder um indivíduo que vai fazer a vontade dos feridos e se tornar o curador de todos nós. Antes de atribuir a fonte de todo mal presente em figuras como Milošević, faríamos bem em nos olhar no espelho.

A melancolia que Quíron é capaz gerar, aquecida pela luz do Sol, também pode nos levar à ter profundidade de pensamento e sentimento, e movimenta em nós a determinação de contribuir para o bem-estar dos outros. Podemos encontrar um tipo diferente de compaixão — e não apenas para com aqueles que foram prejudicados, da mesma forma como a nós mesmos, mas para as pessoas cujas experiências não necessariamente coincidem com a nossa própria, uma vez que estas merecem compaixão, simplesmente porque somos todos humanos.

“Um tipo específico de ferimento não é mais ‘especial’ ou merecedor de compaixão do que outro.”

Se um indivíduo perdeu um olho, é fácil sentir simpatia por aqueles cegos de um olho e odiar aqueles que têm a sorte de desfrutar de vista completa. O Sol trabalhando com Quíron pode gerar generosidade de espírito suficiente para reconhecer que todos os seres humanos sofrem, simplesmente porque estão todos sozinhos e são mortais. Um tipo específico de ferimento não é mais “especial” ou merecedor de compaixão do que outro. Aqueles que são mais veementes nas suas declarações de compaixão para com os albaneses do Kosovo também podem ser aqueles que têm pouca compaixão para com seu vizinho negro, gay ou judeu ou do Paquistão, ou que estão dispostos a chutar um cachorro apenas para aliviar seu estresse. O Sol trabalhando com Quíron corta essa hipocrisia, à essência compartilhada do coração humano, escondido lá dentro.

Mais importante ainda, o Sol trabalhando com Quíron pode ativar a vontade de viver — e não apenas em um nível orgânico ou egoísta e cego, mas do senso de propósito individual, combinado com um sentimento de empatia para a luta, lenta e dolorosa, em direção à luz que existe em todos os seres vivos.

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Como chegamos lá?

A casa e o signo em que Quíron é colocado nos diz muito sobre onde e como a vida nos feriu. Este é o lugar onde, não importa o quão duro procuremos encontrar um objeto específico para a nossa culpa, nós finalmente descobrimos que a culpa reside na diferença entre o ideal e a realidade, e na falha inevitável da natureza humana. Podemos não lutar pela vida, mas, se estamos afundando em uma amargura corrosiva que pode finalmente nos tornar distorcidos e doentes, precisamos ir além desta fase de raiva de Quíron, na busca pela compreensão que nos leva além da identificação como bode expiatório e vítima, além da inclinação de jogar o bode expiatório em nós mesmos.

“Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.”

Esse entendimento pode nos obrigar a renunciar convicções espirituais e morais anteriores e encontrar uma base mais ampla a partir da qual enxergar a vida. Poderemos ter que desistir da ideia de que os mocinhos sempre montam em cavalos brancos, e que os maus montam em cavalos pretos, e talvez tenhamos também tem que aceitar o fato de que, às vezes, pessoas decentes sofrem injustamente, enquanto pessoas tão desagradáveis ​​gerenciam a vida muito bem e morrem ricas e confortáveis em suas camas, bem satisfeitas consigo mesmas. Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.

Como é que vamos encontrar esse tipo de entendimento? Como podemos aprender a perdoar genuinamente e a tolerar, sem a atitude presunçosa e superior de oferecer a outra face ao agressor, a qual mascara um profundo ressentimento inconsciente e raiva? Quíron precisa do Sol para esta tarefa. O Sol tem o poder de afirmar a especialidade e a amabilidade do indivíduo e isso, por si só, pode neutralizar o veneno da autopiedade. A casa e o signo em que o Sol é colocado no nascimento refletem o que precisamos para nos tornar, se quisermos nos sentir verdadeiramente vivos. Acredito que precisamos nos perguntar: é o Sol brilhando em minha vida? Sou eu mesmo? Ou é o medo da solidão ou de não pertencer fazendo-me fingir ser o que não sou?

Do mesmo modo, podemos também precisar enfrentar Quíron, e nos perguntar: qual é a natureza da minha ferida? Como a vida me machucou e quem eu secretamente culpo por isso? Será que estou fazendo algo para compensar, negar ou projetar minha ferida nos outros? Posso sentir compaixão por mim mesmo ou somente raiva e autopiedade? Onde é que eu me sinto como bode expiatório e onde é que posso estar tentando curar, ou mesmo destruir, os outros, a fim de me convencer de que eu não estou ferido? Onde posso sabotar ou mesmo me destruir por causa da amargura?

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“Temos de estar conscientes.”

Para que o Sol e Quíron trabalhem em conjunto, temos de estar conscientes de ambos. Há uma química profunda e misteriosa entre estes planetas que, se está funcionando para nós e não contra nós, parece mobilizar a força vital, não só em favor da nossa própria expressão, mas também para o coletivo do qual fazemos parte. A alienação e as feridas de Quíron impedem o Sol de tornar-se arrogante e insensível, enquanto o calor e a alegria do Sol mantém Quíron longe do desespero. Tal como acontece em todos os mapas astrais, o grau em que essas dimensões de nossas próprias almas dão o seu melhor depende do quão conscientes estamos de sua realidade dentro de nós.

“Esta não é uma cura para a vida.”

Esta não é uma cura para a vida. A vida ainda vai fazer doer de vez em quando e, de uma maneira ou de outra, as feridas de Quíron, embora possamos viver em paz com elas, inevitavelmente roubam a nossa inocência. A vontade de viver não é mobilizada pela crença de que a vida é um mar de rosas, de que todos nós precisamos é de amor e que alguns pais ou mães deuses nos recompensarão se formos bons. A vontade de viver é constelada por material mais resistente e precisa de realismo, assim como de fé e lucidez, se queremos terminar sentindo que fizemos nosso melhor com o dom da vida que, embora transitória, nos foi dada.

Por Liz Greene em agosto de 1999 para o Astro Dienst

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“Meu querido desconhecido,

Há muitas expressões que definem o lugar onde você crê que está nesse momento, tentando se manter firme sobre suas pernas, com seu resultado na mão, pensando, talvez pela primeira vez com a devida seriedade, a respeito do que será da sua vida, do seu futuro como soropositivo.

Fundo do poço? Na lama? Fim da linha? Nada disso. Você ainda não sabe, mas a verdade é que está se preparando para realmente começar a viver. O sofrimento vai passar — deixe passar. Para isso, há que se emagrecer muitos sentimentos ruins para sobreviver ao HIV. Há que se dedicar ao conhecimento para combater ignorância e preconceito. Vão ser muitas idas ao médico, aos laboratórios, às farmácias, ao psicólogo, a grupos de apoio. É uma luta diária que, por enquanto, ainda não tem fim.

Mas a primeira guerra a ser travada é consigo mesmo. Nesse momento, não há ninguém que possa lhe fazer mal maior do que seu apego ao fantasma do passado, de si mesmo quando era soronegativo. Você não é mais essa pessoa. Assim como na natureza, os primeiros momentos de qualquer ser vivo são repletos de medo e angústia, e você se sente preso por inúmeras paredes que agora se construíram à sua frente. Lembre-se: ninguém nasce feliz. A felicidade é um conceito que a gente aprende a querer quando descobrimos que ela está ligada à paz de espírito. Mas existe tal coisa?

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Há muitos conselhos práticos que podem ser repassados nesse momento, mas talvez você não ouça nenhum. Contudo, independentemente se você é gay ou não, a verdade é que você está no armário. E ele é escuro, é silencioso, é frio. A solidão é imprescindível para que se reconheça nesse novo ambiente, mas é preciso buscar a luz. Calma: não é a mesma luz que se via há 30 anos, quando as pessoas ainda morriam por doenças oportunistas decorrentes da infecção pelo vírus. Hoje, não há nenhum túnel para se entrar, mas uma estrada para se percorrer. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.

Quando fui à primeira consulta com meu infectologista percebi que seu consultório, aqui em São Paulo, está num prédio vizinho do cemitério da Consolação. Foi muito alegórico, pelo menos para mim, ao chegar ali, compreender que eu tinha duas escolhas: enfrentar meu diagnóstico com a ajuda do meu médico ou virar à esquerda e ir parar no campo-santo. Essa parece ser uma escolha lógica, mas eu entendo o desespero que anda lhe nublando essa visão bem clara do quão bom pode ser o futuro. E é por isso que eu lhe peço: exercite-se! Não apenas com duplo-twist-carpados, zumba ou corridinhas no parque, mas trabalhe esse novo ser que agora carrega uma marca, reconstrua a imagem que você tem de si mesmo, redimensione seus planos, dê um novo significado para seus dias.

Parece muito simples no papel e claramente mais difícil no mundo prático — sim, você tem toda razão. No entanto, esse não foi, não é e não será o único desafio da sua vida. Para cada vez que você pensar em se esconder, conte para um amigo; para cada vez que você acreditar não passar de estatística, tente enxergar mais a sua missão vital; para cada momento de raiva que você tiver, entregue-se nos braços de alguém que lhe ama; para todas as chances que você tiver de se perguntar ‘por que eu?’, lembre-se de tudo aquilo que lhe faz especial; para quando você pensar que está sendo difícil, ajude alguém em situação de dificuldade maior que a sua.

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Com tratamento, o HIV não mata — portanto, a inação é que mata. Nesse sentido, o maior perigo não é o vírus que se reproduz no seu corpo, mas sua atitude em relação à vida. É óbvio que você precisa começar seu tratamento e cumpri-lo feliz. Os remédios são amigos. Por enquanto, não há cura — mas um dia haverá. Por hora, concentre-se em ser uma pessoa melhor, principalmente para si mesmo. De resto, as coisas se resolvem e tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Com amor,

F.F.”