sentimento
sen.ti.men.to
sm (sentir+mento2) 1 Ação ou efeito de sentir. 2 Faculdade ou capacidade de sentir, de receber impressões mentais. 3 Sensação psíquica, tal como as paixões, o pesar, a mágoa, o desgosto etc. (…) 7 Exibição ou manifestação de sensibilidade ou sentimentalismo, ou propensão às emoções ternas em literatura, arte ou música. 8 Pressentimento, suspeita. 9 Opinião. (…) 11 Filos. Conjunto de emoções. 12 Filos. Conhecimento imediato. sm pl 1 Modo de pensar, mentalidade, atitude moral: Sentimentos mesquinhos, maus, nobres etc. 2 Boas qualidades morais, bons instintos, boa índole. 3 Pêsames. S. de culpa: estado emotivo de uma pessoa que haja infringido, ou assim o creia, uma norma social, princípio ético ou prescrição legal. S. de inferioridade: atitude afetiva dominante, com efeitos neuróticos de diversos graus, e que pode originar-se de certa condição física ou defeito de educação. S. de superioridade: experiência de exagerada valorização de si mesmo, isto é, de considerar suas próprias qualidades, atos e idéias superiores aos das demais pessoas. S. interno: a consciência.

“Quero compartilhar com vocês parte da minha história. Quero ajudar alguém que, assim como eu, se deparou com um diagnóstico tão desolador — não só pelo choque que qualquer doença séria e incurável traz ao indivíduo, mas sobretudo por um enfraquecido sistema imunológico, tal como o meu quando da descoberta.

Almejando ser mais didático, vou descrever minha trajetória separando as esferas pessoal e profissional, para tentar dimensionar e, assim, fazê-los compreender a real extensão de tudo o que senti ao ser diagnosticado positivo para o HIV. A exatidão desse sentimento que vem com o diagnóstico não se mensura apenas por aquilo que vivenciamos à época do resultado, mas por tudo aquilo que sempre acreditamos e perseguimos ao longo da nossa trajetória: o impacto (que imaginamos) daquele diagnóstico para o futuro de nossas vidas ou, ao menos, os efeitos dele projetados sobre o nosso futuro.

Inicialmente, friso que cresci em uma cidade pequena, pacata, do interior. Tive uma adolescência permeada de preconceitos e autopreconceitos, intrínsecos, próprios de todo ser humano que se cresce em comunidades pouco desenvolvidas e é educado no seio de uma família religiosa.

Para mim, essa não foi uma história que descreva como ruim, não foi!, mas posso dizer que me fez sofrer o bastante para aceitar a minha sexualidade. Tive que vencer muitos preconceitos próprios, ao ponto da minha primeira relação sexual com o gênero que me atrai ter acontecido somente aos meus 21 anos idade.

Foi a partir daí, registrando esse marco como libertador, que decidi seguir a minha vida assim: me tornado alguém que me fizesse feliz, liberto de todas as neuras, seguindo as minhas crenças pessoais e sempre me adaptando diante do dogma que ainda carregava, desde os tempos de igreja. Hoje, acredito que Deus me ama do jeito que sou, apenas me quer de coração puro, sem maldade, sem buscar o mal ao próximo, sendo uma pessoa justas, assim como ele. Essa é a minha forma de pensar e viver bem minha vida, sem perder a minha fé e com todo respeito à opiniões contrárias. Viva a liberdade de consciência e de crença!

Também segui buscando minha felicidade em outro aspecto importante para mim: o corpo, através daquilo que alguns chamam de ‘culto ao corpo’. Aos 23 anos, em 2008, me tornei um praticante esportista muito dedicado. Viciado: treinava três horas por dia. Tinha o sonho de chegar ao fisiculturismo e até fazia dietas consideradas por alguns como ‘extremas’.

Mas foi saindo da faculdade que recebi um convite de trabalho que muito me auxiliaria à realização do meu sonho profissional, em termos de experiência na carreira que desejava seguir. Não pensei duas vezes e, ao longo de um ano, suspendi a musculação e me concentrei neste outro projeto. Durante esse período, confesso, comecei a me sentir mal por ficar muito magro, de músculos murchos, e com uma barriguinha que nunca antes me acompanhara. Senti a queda na autoestima. E foi exatamente nesse momento que veio o diagnóstico positivo para o HIV.

O diagnóstico me fez pensar em desistir de tudo, como se todos os meus sonhos caíssem por água abaixo. Fiquei desolado, extremamente arrasado. E temeroso diante do futuro do relacionamento que acabava de se iniciar.

Tudo começou em 2016, quando viajei para a praia, em outro Estado. Lá, conheci alguém que me encantou. Ele era incrível! Me cativava com seu jeito de tratar, me olhar… Regressei de viagem com uma daquelas paixonites, sabe? Era como se tivesse retornado à adolescência: continuamos a nos comunicar via WhatsApp e sempre mantendo diálogo como se namorássemos a sério, como se, no dia seguinte, ou a qualquer hora, pudéssemos nos encontrar. Tivemos crises de ciúmes, brigas, discussões de relacionamento — tudo à distância.

Foi em abril de 2017 que combinamos de nos reencontrar pessoalmente. Nessa mesma viagem, noivamos, com direito à aliança em jantar e a oficialização da seriedade da nossa relação. Estava decidido: casaríamos em agosto! Mas começava aí a necessidade de organizar o evento, a vida e o relacionamento e, dentre estes assuntos, o plano de fazermos todos os exames de infecções sexualmente transmissíveis. Foi então que, em meados de 2017, fui até um laboratório na minha cidade e solicitei o tal teste de HIV.

Certo de que não havia nada de errado comigo, com um histórico de apenas dois curtos relacionamentos anteriores, ainda pedi que minha sobrinha buscasse o resultado dos exames para mim. Ocupado com o trabalho, segui meu dia normalmente, até o momento em que recebi a ligação do laboratório: não era possível que entregassem os resultados a qualquer pessoa que não fosse eu, pois a doutora precisava conversar comigo. Disseram que algo estava errado e era preciso repetir o exame.

Abri o computador e descrevi a situação para o Google. Não demorou para descobrir que o argumento do laboratório era um provável indicativo de que o teste de HIV tinha vindo com resultado positivo e, por isso, era preciso confirmá-lo com uma nova amostra de sangue. Era isso, sem dúvida: um resultado positivo.

Passaram-se três dias, inundados de choro, até que eu criasse coragem para repetir o teste de HIV. E não o fiz por conta própria, mas por apoio de minha mãe, que se aproximou e perguntou o que é que se passava. Em meio à lágrimas e choro, contei que precisava refazer um exame e que havia grande chances de eu ser soropositivo.

‘– Filho, se o resultado vier positivo, nós vamos enfrentá-lo e pronto!’, disse ela.

Foi num ambiente reservado do laboratório, para onde fui levado por um atencioso profissional que percebeu a minha aflição, que repeti o teste de HIV. Alguns dias depois, veio a  confirmação: reagente para HIV.

Um susto, sim, mas já começava a suportar a ideia de conviver com o vírus, até então impossível de aceitar. Atribuo isso ao fato de que, naqueles dias entre a última coleta de sangue e o resultado, li bastante, o máximo que consegui, sobre o HIV — grande parte deste conteúdo, sim, aqui no Diário de um Jovem Soropositivo. Talvez, mal saiba seu autor que seu trabalho neste blog salva vidas. A ele, sou eternamente grato. Foi através desta iniciativa que compreendi melhor a vida de um soropositivo e num momento em que tudo era desconhecido. Percebi o quanto somos ignorantes a respeito do assunto! Li relatos fantásticos que muito me confortaram e percebi  também como faltam campanhas educativas acerca do tema em nosso país.

Ao que me parece, a maior dificuldade da vida com HIV é vencer o preconceito, decorrente da falta de conhecimento da população em geral. E falo por experiência própria, momentos em que eu mesmo tive preconceito. Lembro que, certa vez, conversava no trabalho com um rapaz soropositivo assumido e, enquanto ele me relatava um assunto qualquer, a única coisa que se passava pela minha cabeça era: Como que esse cara fez isso consigo mesmo? Como que ele deixou isso acontecer com ele? Por que ele não se cuidou? Era a minha ignorância, decorrente do fato de eu nada saber sobre o HIV.

Agora, saberia meu noivo tudo o que era preciso sobre o HIV? Essa era uma pergunta que eu temia responder e, descobria eu, deveria inclusive ser postergada. Meus exames subsequentes mostram que minha saúde requisitava muita atenção: meu CD4 estava em 76, quando o mínimo esperado é 500.

Reduzi a intensidade de meus treinos na academia. Suspendi as dietas. Continuei sem fumar, sem beber, sem ir à balada. E iniciei imediatamente o tratamento antirretroviral com Dolutegravir, Tenofovir e Lamivudina, além de Bactrim, para evitar infecções e doenças oportunistas. Aqui, noto que praticamente não tive efeitos colaterais — a não ser os psicológicos: todas as noites acordava às 4 horas da manhã, com aquele turbilhão de coisas na mente.

Em novembro de 2017 minha contagem do CD4 subiu para 291. Em Março de 2018 chegou a 325. E, agora, em agosto de 2018, meu CD4 está em 451. Deus é muito bom! Tenho certeza que, em breve, meu CD4 estará muito acima de 500. Tenho fé! Sei que a vida pode sim voltar ao normal.

Mas e o casamento? O teste de HIV dele veio negativo. E o meu positivo, disse ele, jamais seria empecilho. Nosso amor é muito maior, percebo hoje, casado há um ano.

Sou muito feliz no meu casamento. Amo meu parceiro e ele a mim. Temos um casamento muito transparente, sem segredos e, principalmente, com muito respeito. Somos pelo nosso casamento, sempre apoiando um ao outro. Meu marido me estimula e encoraja a retomar minhas metas profissionais. Assim, voltei a estudar para concursos. Tenho uma rotina diária de estudos, com muita dedicação.

Essa é minha nova vida. Nela, percebo que o vírus não pode nos anular. Temos que juntar forças e seguir com nossos projetos e sonhos, ainda que por caminhos diversos daqueles idealizados outrora. É assim! E, para quem acredita, com fé em Deus e a bênção dele nas nossas vidas.”

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Talvez seja importante esclarecer que a contraindicação do uso de Dolutegravir por mulheres grávidas, divulgada em Nota Informativa pelo Ministério da Saúde, acompanha uma recomendação mundial — também publicada pela Agência Europeia de Medicamentos e a US Food and Drug Administration.

Essa recomendação vem depois de um relatório de Botswana, na África, onde se observou uma frequência mais alta de malformações congênitas em bebês nascidos de mães que engravidaram enquanto tomavam Dolutegravir. A incidência de defeitos do tubo neural, como “espinha bífida”, mostrou-se mais comum em bebês nascidos destas mães. Um defeito do tubo neural ocorre quando a medula espinhal, o cérebro e as estruturas relacionadas não se formam adequadamente. A espinha bífida, caracterizada pela medula espinhal mal formada, é o defeito mais comum do tubo neural.

O estudo foi bastante abrangente e analisou bebês nascidos de 11.558 mães em tratamento antirretroviral; destas, 426 tomavam Dolutegravir durante a gravidez e quatro delas, o que representa 0,9% do total, tiveram bebês que apresentaram algum defeito no tubo neural. Em comparação, o risco de defeitos do tubo neural mostrou-se de 0,1% em mulheres que estavam tomando outros esquemas antirretrovirais. Essa variação aparentemente pequena em porcentagem parece ser significativa o suficiente para os alertas emitidos no mundo todo — ao meu ver, um bom sinal de cautela e atenção das autoridades de saúde pública para conosco, pelo menos, no que diz respeito ao HIV.

O estudo continuará até fevereiro de 2019, portanto, mais informações sobre o risco não estarão disponíveis por aproximadamente um ano. O que também já se sabe é que o risco de defeitos do tubo neural do tipo relatado no estudo do Botswana é mais elevado no momento da concepção até o primeiro trimestre da gravidez.

Agora, a Organização Mundial da Saúde (OMS), está realizando uma revisão das suas orientações e diz que uma atualização será emitida nos próximos meses. A declaração da OMS observa que o risco de defeitos do tubo neural é aumentado pela deficiência de ácido fólico e reitera sua recomendação de que todas as mulheres tomem um suplemento diário de ácido fólico antes da concepção e durante a gravidez, para ajudar a prevenir defeitos do tubo neural. A fabricante do Dolutegravir, a ViiV Healthcare, subsidiária da GlaxoSmithKline, afirma que os estudos de toxicologia animal que levaram ao licenciamento do Dolutegravir não mostraram evidências de resultados adversos no desenvolvimento de bebês ratos ou coelhos.

Em nenhum sentido o alerta acima se transcreve para homens e mulheres não grávidas que fazem uso do Dolutegravir. Ao contrário, para essas pessoas, o uso desse antirretroviral continua a ser encorajado pelas autoridades médicas. “O Dolutegravir oferece muitos benefícios, incluindo ser melhor tolerado por pacientes e apresentar melhores resultados, como supressão viral mais rápida”, lembra o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids, o PEPFAR. “O PEPFAR encoraja os países a continuar com a sua transição para o Dolutegravir.”

A bula do medicamento distribuído no Brasil, fabricado pela GlaxoSmithKline com o nome comercial Tivicay, indica seu uso para maiores de 12 anos e aponta três efeitos colaterais “muito comuns”, que ocorrem em 10% das pessoas que tomam Dolutegravir: dor de cabeça, náusea e diarreia. É uma lista tão pequena quanto o tamanho do comprimido, parecido com um AAS infantil, e corretamente atualiza conforme casos recentes documentados: efeitos “incomuns” de depressão e pensamentos suicidas, que podem acometer entre 0,1% a 1% das pessoas. Se perguntar a mim, diria que esta é uma das bulas mais amenas dentre todos os antirretrovirais que tomei. E, agora, é o antirretroviral que passarei a tomar.

Em algumas horas, ainda hoje, antes da hora de dormir, me despeço para sempre do Efavirenz, antirretroviral que tomei todo o santo dia, ao longo dos últimos sete anos da minha vida — desde a nossa  psicodélica primeira noite juntos, que se deu em 4 de maio de 2011. Ainda me lembro daquela noite, quando a textura do lençol e os ruídos do travesseiro chamavam toda a atenção dos meus sentidos entorpecidos pelos efeitos neuropsiquiátricos comuns do Efavirenz, especialmente no início do seu tratamento.

Naquele primeira noite, sonhei com cores vibrantes, tão realistas, e com um estranho personagem que urrava comigo, transformando a trama noturna num pesadelo. Ainda me recordo das suas feições, que traziam uma expressão de intensa angústia. Mais intensa do que eu poderia aguentar. O personagem estava vestido de médico e me alertava de erros para os quais eu deveria corrigir; contudo, quando eu os fazia, alteravam-se as condições de tempo e espaço e tudo voltava ao seu início, de modo que era impossível corrigir um caso sem com isso afetar o outro. Tudo era como deveria ser: uma vida cheia de erros, que nem deveriam ser tão graves, não fosse o peso daquele sentimento de responsabilidade imputado em mim pelo personagem. Ele deixava claro que tudo era uma última chance, sem qualquer chance para erro.

Acordei assustado, no meio da madrugada, com os gritos de um dos pacientes. E decidi que não assistiria mais ao seriado House logo antes de dormir. Mas, de olhos abertos, ainda uma surpresa: meu mundo real estava inteiramente colorido, mesmo em pleno quarto escuro — algo rápido, por poucos instantes apenas, tempo suficiente para que meu cérebro percebesse que ali não era mais espaço para alucinações.

Esses fortes efeitos colaterais do Efavirenz provavelmente se deram comigo em tanta intensidade por conta de minha saúde debilitada. Meu início com ele se dava quatro meses depois do meu diagnóstico positivo para o HIV, tempo em que me consultei com o taciturno Dr. O., o primeiro infectologista que visitei. “Você vai tomar Kaletra e Biovir”, determinou o médico, sem espaço para qualquer indagação minha ou alternativas. Recém diagnosticado, presumi que era mesmo assim que deveria de ser. Os efeitos colaterais subsequentes, diarreias e vômitos que me acometeram todos os dias, diversas vezes ao dia, fizeram-me perder quinze quilos em poucos meses, deixando-me abatido, fraco e, de acordo com os exames de sangue, anêmico. Foi quando adentrei, na tarde de 3 de maio de 2011, no que apelidei de “Restaurante Positivo”.

“— Boa noite, senhor. Gostaria de fazer o pedido?”

“— Deixe-me ver. O que você sugere?”

“— Senhor, hoje estão muito bons: Efavirenz, Atazanavir, Lopinavir ou Kaletra.”

“— Não, Kaletra não! Já experimentei e não gostei. Gostaria, inclusive, de reclamar com o chef., adverti.

“— Pois não, senhor.”

“— Diga a ele que me deu muita indigestão! Dor de barriga, se é que você me entende…”

“— Oh! Senhor, sinto muito…”

“— E esse Efavirenz?”

“— É muito recomendado, tem ótimos efeitos medicinais e apenas um colateral mais comum, que é um lapso de concentração após sua ingestão.”

“— Mas passa?”

“— Melhor que Kaletra, senhor.”

“— Ótimo! E o… ‘Atazana-vírus’?”

“— Atazanavir, muito indicado também. Ele também têm AZT nos ingredientes, tal qual o Biovir, mas o preparo é mais cuidadoso. Garanto que o senhor não terá aquele problema… Eh… Intestinal.”

“— Sei… Nenhum outro efeito?”

“— Ele é como aqueles chicletes coloridos, senhor.”

“— Como assim?”

“— Aqueles que as crianças comem e ficam com língua azul, sabe?”

“— Sei…”

“— Pois então, o Liponavir deixa nossos clientes com icterícia: olhos amarelados! É a última moda aqui no restaurante.”

“— Humm… Muito bem. Mas acho que prefiro começar pelo Efavirenz.”

“— Muito bem, senhor. Ótima escolha. Sugiro apenas que o senhor não volte guiando.”

“— Não tem problema, estou de táxi.”

“— Perfeito, senhor. Algum acompanhamento?”

“— O de sempre!”

“— Biovir! Perfeito, senhor.”

“— Obrigado! E qual é o seu nome mesmo?”

Foi mais ou menos assim que decorreu minha primeira consulta com o Dr. Esper Kallás, médico infectologista com quem me consulto desde então. Ele me advertiu dos efeitos indesejáveis do Efavirenz, mas também lembrou que a diarreia decorrente do Kaletra muito provavelmente deveria sumir em pouco tempo — o que eu não imaginava é que esse tempo seria mesmo tão curto.

Vinte a quatro horas depois do fim do tratamento com Kaletra e a minha primeira dose de Efavirenz, a diarreia cessou totalmente! Meu apetite voltou. Na manhã seguinte, quando tomava café da manhã, percebi que algo em mim coisa havia mudado: a cada mordida e ingestão dos alimentos, era nítido que minha digestão voltava ao normal, tal como era antes de começar com Kaletra. Em dois dias de Efavirenz, não havia mais sinal da diarreia, o efeito colateral que me acompanhara diariamente ao longo dos quatro longos meses anteriores.

Um sorriso involuntário se estampou em meu rosto, de orelha à orelha. No almoço, corri para o restaurante, desejoso de tudo aquilo que havia sido totalmente privado de comer naqueles meses: as fibras e gorduras, que tanto prejudicam um sistema digestivo diarreico. Debrucei-me sobre o buffet de saladas e carnes e repeti o prato duas vezes, sem uma única gota de diarreia depois.

No fim das contas, os efeitos colaterais severos e desagradáveis do Kaletra sumiram como num passe de mágica — graças à troca de remédios proposta pelo Dr. Esper. Por que teria o infectologista anterior insistido por tanto tempo em meu tratamento com Kaletra, se havia outra alternativa? Por que não me dera outra opção, assim como fez o Dr. Esper? Essa são perguntas cujas respostas me escapam até hoje.

O que sei é que o Efavirenz me trouxe de volta a felicidade, ou, pelo menos, a disposição para poder senti-la. Desde o diagnóstico eu não enxergava a beleza na cidade de São Paulo, algo que finalmente foi possível naquele dia de maio de 2011, típico de outono, com sol dourado e brisa fresca, tão parecido com o dia de hoje. Devo confessar que, ao longo da primeira semana de Efavirenz, minha visão ainda embaralhou um bocado, aqui e ali. Também me deixou um pouco mais confuso que o habitual, tal como previsto pelo doutor.

“— O Efavirenz vai deixar você meio… ‘balão’”, dissera o Dr. Esper, há sete anos, antes de prescrever meu então novo antirretroviral. “Esse remédio pode influenciar na concentração”, explicou o médico.

Ao longo daquela primeira semana, lembro que perdi as duas chaves de casa. Por dois dias, esqueci completamente em que dia eu estava, da semana e do mês. E não adiantava olhar no celular: no segundo seguinte, lá estava a dúvida novamente. Cheguei a ir ao dentista às 10:40h quando meu horário era 14:40h, mesmo logo depois de ligar para confirmar. Esqueci meu próprio número de telefone, da minha mãe e da minha namorada à época. Andei aos tropeços dentro de casa, sem o mínimo equilíbrio, logo depois de tomar minha dose de antirretroviral. Todos os dias, até as 13:30h, era a mesma coisa: uma enorme confusão!

Tudo isso, confesso, não poderia ser mais divertido. Não depois de meu histórico com Kaletra e Biovir, e os tantos meses de diarreias consecutivas, vômitos e as fezes incontidas defecadas nas calças. Diante disso, sofrer com a viagem quase psicodélica do Efavirenz era um agrado! Aos poucos, também aprendi a contornar os lapsos de concentração, a começar por um enorme copo de café preto pela manhã, puro e forte, hábito que mantenho até os dias de hoje.

O Efavirenz me acompanhou ao retorno da minha disposição, à retomada da minha saúde, términos de namoro, férias e viagens, trabalhos e demissões. Foi com ele que me casei — ou, melhor dizendo, estava com ele quando me casei –, perdi parentes e ganhei um filho, a grande alegria de me tornar pai. Então, é com certa comoção que o Efavirenz vai embora. Foi um prazer, Efa! E seja bem vindo, Dolutegravir. Em uma vida de soropositivo permeada pelo sentimento de eternidade da infecção pelo vírus, pequenas mudanças como essa trazem grande impacto. Ou, talvez, não mais tão grande assim.

É curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

Foi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

A porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

[dropcap]P[/dropcap]ensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

[dropcap]N[/dropcap]enhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

[dropcap]F[/dropcap]ui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

[dropcap]E[/dropcap]u tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

[dropcap]E[/dropcap]m trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

[dropcap]E[/dropcap]u sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

Em comparação com os seus pares soronegativos, as pessoas com HIV ainda acreditam que vão morrer mais cedo e que são menos propensas a alcançar um relacionamento amoroso duradouro, de acordo com um estudo encomendado pela Gilead Sciences, conduzido em cinco países europeus. Os resultados foram anunciados na 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, e publicados no Aidsmap.

Nessa pesquisa, 54% das pessoas soropositivas consideraram que o HIV era uma barreira ao sexo, dos quais 87% disseram ter medo de transmitir o vírus para para outras pessoas. (Estes 87% representam 47% do grupo inteiro.) Esse medo poderia até ser visto como racional ou bem informado, uma vez que este grupo era um grupo relativamente novo de pessoas com HIV, com pouco menos de dois terços em terapia antirretroviral, dos quais menos da metade tinha carga viral indetectável. No entanto, as pessoas que tinham carga viral suprimida não apresentaram uma opinião muito diferente: 38% das pessoas com carga viral indetectável ainda temiam transmitir o vírus para outros.

O estudo HIV is: Expectations from Life foi conduzido entre novembro e dezembro de 2016 na França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido. Cerca de 20 mulheres soropositivas foram recrutadas em cada país, totalizando 102 mulheres, e 84 homens em cada país, num total de 420 homens. Destas 522 pessoas, 11% nunca tinham feito tratamento antirretroviral e outros 11% tinham feito tratamento, mas relataram tê-lo abandonado. Das 338 pessoas (65%) que estavam em tratamento, 229 pessoas (67% destas ou 44% de todo o grupo) disseram ter carga viral indetectável.

As 522 pessoas com HIV foram comparadas com 2723 pessoas soronegativas, equiparadas quanto à idade, gênero e orientação sexual. Os pesquisadores perguntaram a todos os entrevistados: você espera viver uma vida mais longa do que seus amigos, colegas e irmãos mais velhos? As pessoas com HIV se mostraram três vezes mais propensas a dizer que acreditavam que teriam vidas mais curtas: 35% disseram acreditar que morreriam mais cedo do que seus amigos, em comparação com 10% do grupo soronegativo. A supressão viral mudou pouco esse cenário, com 31% daqueles em tratamento e com carga viral indetectável ainda considerando ter uma expectativa de vida mais curta.

As pessoas que vivem com HIV também se mostraram mais propensas a priorizar o amor (37% contra 27%) e uma vida sexual saudável (28 contra 17 %) do que pessoas soronegativas. Mais da metade dos soropositivos considerou o HIV como uma barreira para o sexo e 38% consideraram que o HIV era uma barreira para namorar e conhecer possíveis parceiros sexuais. O obstáculo mais comumente citado como impeditivo para um namoro foi o medo de ter que revelar o sua condição sorológica para o HIV, com 59% dos soropositivos (ou 22% do grupo inteiro) dizendo que acreditavam que o HIV era uma barreira para namorar.

As pessoas com HIV apresentaram menor probabilidade de avaliar sua saúde atual como excelente, com 44% classificando sua saúde como boa ou excelente, em comparação com 69% dos entrevistados soronegativos. Há algumas diferenças interessantes entre os países: espanhóis e italianos sentem-se pior em relação à saúde. 71% das pessoas na Espanha contra 38% na Alemanha disseram que sua condição sorológica positiva para o HIV os tornava menos propensos a se envolver em atividades para apoiar a saúde e o bem-estar, como alimentação saudável e exercício físico, porque eles não acreditavam que isso poderia fazer alguma diferença, agora que tinham o HIV.

Por sua vez, os entrevistados britânicos se mostraram mais propensos ​​de temer a divulgação de sua condição sorológica e a dizer que o estigma contra soropositivos ainda prevalece. 68% dos entrevistados do Reino Unido, contra 50% dos espanhóis, temem divulgar seu status. 44% dos entrevistados do Reino Unido e apenas 12% dos italianos disseram que o estigma contra soropositivos é uma barreira para conseguir um relação amorosa.

E você, o que acha?

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

“Tudo começou em outubro de 2016, com uma dor de garganta que insistia em permanecer. Creditei estes sintomas ao clima quente na rua e ao ar condicionado frio na sala do escritório onde trabalho, na qual eu passava longas horas do meu dia sob um forte estresse que vinha se agravando ao longo do ano. Ainda assim, eu pensava que tudo isso era mais um momento difícil — o qual, no final, seria totalmente superado. Mas não foi.

Percebi também que eu estava emagrecendo, talvez em demasiado, mas ponderava que talvez isso fosse resultado da nova dieta sugerida pelo nutricionista, naquela última (e cara) consulta. ‘Estava com os músculos definidos’, dizia a mim mesmo diante do espelho. Havia também uma dor no corpo que não melhorava, há cerca de três anos, mas que julgava ser emocional — a ansiedade dos perfeccionistas. Me automedicava e, no final, ‘ficava tudo bem’. Até que não ficou mais.

Vivia um relacionamento amoroso paralelo, que administrava com certa dificuldade (sim, já tinha sido ‘pego no flagra’ por meu companheiro, mas numa situação que depois foi ‘contornada’). Minha testosterona continuava a todo vapor. Era compulsivo por sexo, e sabia disso. Às vezes imaginava que um dia a conta chegaria, mas também refletia que uma vez que me cuidava (e era até meio neurótico com isso), no final, ‘tudo daria certo’. Mas não deu.

Decidi procurar um endocrinologista, julgando estar sofrendo de algum problema na tireoide. Fiz os exames receitados por ele, e todos estavam bons. Mas eu não melhorava. Me auto-diagnostiquei com candidíase oral. Depois, com gengivite. A dor de garganta continuava. Aftas surgiram na boca. Eu voltava ao médico e fazia todos os exames — menos o mais temido por mim: o teste de HIV.

Em janeiro de 2017, logo depois do réveillon, amanheci com diarreia. No médico, fui diagnosticado com gastroenterite. Fiz os exames, todos — menos o próprio. Já sentia suores noturnos, há cerca de um mês. Era hora de fazer o teste de HIV. Nunca passei por nada parecido: uma aflição, uma angústia, um medo que não consigo expressar com palavras e que durou o final de semana inteiro. Em visita ao infectologista, apenas solicitei um pedido para o teste de HIV. Fiz, sabendo que se o laboratório ligasse pedindo para refazê-lo, já teria ali o meu diagnóstico.

Recebi a ligação 15 minutos antes do prazo final da entrega do exame. Lembro-me bem: estava no meio de uma consulta com um psiquiatra. Naquela altura, 10 quilos mais magro. No trabalho, pedi licença por depressão. Agora, não me reconheço. Não sei mais quem sou. Tenho medo de morrer e de deixar as pessoas que dependem de mim em desamparo — não fosse isso, acho que já tinha dada por terminada a minha missão.

Em pouco tempo, perdi a forma física. Perdi a libido e, agora, tenho alternado entre períodos de aparente tranquilidade a momentos de grande desespero. Tenho a sensação de que já tenho a minha sentença de morte. Espero apenas que ela não seja lenta e dolorosa. Queria que fosse diferente. Queria acordar e constatar que tudo não passou de um pesadelo. Queria não precisar pensar: ‘Por que comigo?’, ‘Logo eu, que me cuidei tanto?’

Decidi não contar à minha família. Só meu companheiro e dois amigos sabem. Meu companheiro me deu todo apoio e nunca questionou como isso aconteceu. Sinceramente, não sei o que seria de mim sem ele! Tirei um grande peso dos ombros quando ele fez o teste de HIV: está saudável! Falta agora o teste do amante, que também tem muito medo do resultado.

Me preocupo que outras pessoas descubram que eu tenho HIV, que me depare com algum conhecido ao buscar a medicação. Mesmo assim, não demorei para retornar ao infectologista e pedir que ele receitasse a medicação. Queria começar o tratamento logo. De alguma forma, sentia que estava correndo contra o tempo. Antes mesmo do resultado confirmatório, que recebi dez dias depois, já estava em tratamento antirretroviral.

Meu médico disse que quanto menos eu souber a respeito do HIV, mais fácil será de encará-lo. Mas eu não segui seu conselho: não há o que eu não saiba sobre a doença. Voltei a fazer ginástica e tenho vivido um dia de cada vez. Em junho, volto ao médico para fazer análise da carga viral. Procuro não criar expectativas, mas, confesso que, se estiver indetectável, será um alívio!

Dizem que não há mal que dure para sempre e que todas as alegrias e tristezas são efêmeras. Assim espero. Embora ainda me sinta frágil e inseguro, vou em breve assumir um novo compromisso profissional. E vou seguindo a vida. Um dia de cada vez.”