reflexão
re.fle.xão
(cs) sf (lat reflexione) 1 Ato ou efeito de refletir. 2 Prudência, juízo, tino, pensamento sério. 3 Meditação. (…) 8 Psicol. Ato em virtude do qual o pensamento se volta sobre si mesmo para examinar seus elementos e combinações. 9 Filos. Atenção aplicada às operações do entendimento, aos fenômenos da consciência e às próprias idéias. 10 Consideração atenta de algum assunto; cálculo, raciocínio; aplicação do entendimento, da razão. 11 Argumento, comentário, observação, ponderação. 12 Argumento contrário, objeção, réplica.

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

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Aidsmap

Australianos que vivem com HIV e que escolheram não tomar os antirretrovirais porque têm dúvidas sobre os medicamentos para o HIV dizem se sentir excluídos e silenciados dentro de organizações e comunidades para soropositivos, de acordo com um estudo qualitativo publicado online, antes da edição impressa do Medical Anthropology Quarterly.

Em geral, os entrevistados não negaram os benefícios dos antirretrovirais, mas ainda não se sentiam prontos para se comprometer a iniciar um regime de medicação vitalício. Eles estavam cientes de que uma boa adesão é fundamental, mas que isso pode ser um desafio, e que os medicamentos prescritos têm o potencial de fazer mal, assim como bem. Levando em conta estas preocupações e hesitações, a pressão para seguir com o tratamento para benefício da comunidade não se coadunou facilmente entre os entrevistados.

Asha Persson e seus colegas da Universidade de Nova Gales do Sul projetaram um estudo que teve como objetivo compreender os pontos de vista e as experiências de pessoas que não utilizam o tratamento do HIV, em um momento de crescente ênfase e campanhas para início do tratamento. Foram feitas entrevistas qualitativas profundas com 27 pessoas que vivem com HIV e que não estavam tomando o tratamento antirretroviral no momento de suas entrevistas (realizadas entre 2012 e 2014). Enquanto dez dos entrevistados nunca tinham feito o tratamento do HIV, os outros tinham feito anteriormente por um curto período de tempo ou para uma finalidade específica, como gravidez. A amostra incluiu 19 homens homossexuais, quatro mulheres heterossexuais, três homens heterossexuais e um homem bissexual.

Persson examinou as histórias dos entrevistados no contexto do conceito antropológico da “cidadania farmacêutica”. De acordo com este conceito, medicamentos farmacêuticos são vistos com a promessa de permitir ao indivíduo de participar plenamente na sociedade, ou seja, para serem cidadãos mais ativos. Com os medicamentos, pessoas que podem ter sido marginalizadas por conta de má saúde mental, incapacidade física, doença infecciosa ou alguma condição de saúde estigmatizada podem assim ser reintegradas.

Para dar um exemplo de cidadania farmacêutica relacionada com o HIV, um estudo anterior mostrou como uma consciência do impacto do tratamento do HIV na prevenção foi útil para casais em que uma pessoa tem HIV e a outro não. Ansiedades sobre o risco de transmissão do HIV foram recuando, permitindo que os casais a vivessem as suas relações como “normais” e seguras.

Com o tratamento antirretroviral para todas as pessoas diagnosticadas com HIV cada vez mais se tornando norma, pode parecer que o acesso a cuidados médicos não é apenas um direito, mas é também uma obrigação social. A partir disso, os autores perguntaram:

“Quais são as implicações sobre a cidadania e o senso de inclusão para aqueles que decidirem não fazer o tratamento para o HIV? Que tipo de assuntos vêm à tona quando as pessoas com doenças tratáveis, como o HIV, se recusam, desistem ou atrasam a dose recomendada do remédio?”

 

Antirretrovirais fazendo o HIV parecer mais real

Em geral, os entrevistados estavam bem informados sobre os recentes avanços médicos relacionados ao HIV e não poderiam ser retratados como “anti-medicina” ou como “negacionistas”. A maioria estava envolvida em cuidados médicos e mantinha relações construtivas com seus médicos, alguns dos quais concordavam com seus pacientes que iniciar o tratamento do HIV não era necessariamente uma prioridade absoluta naquele momento.

Muitos dos entrevistados estavam relutantes em iniciar o tratamento durante o tempo em que se sentiam saudáveis e normais. Eles temiam que não se sentissem assim se começassem o tratamento. Tal como uma mulher de 46 anos, que tinha sido diagnosticada há 15 anos, explicou:

“Se os meus resultados tenderem para baixo, eu vou ter que tomar os remédios e eu vou tomar os remédios. Vou manter cem por cento de adesão. Eu sei que eles estão lá para salvar nossas vidas e que vão prolongar as nossas vidas. Estou apenas mantendo eles na manga. Não acho que eu preciso estar com eles agora… Quero fazer tudo o que for possível para adiar isso por tanto tempo quanto possível.”

Os entrevistados falaram sobre o significado simbólico do início do tratamento. Para um homem gay, recentemente diagnosticado em seus cinquenta anos:

“Seria marcar uma fase diferente da minha vida vivendo com HIV… a realidade do HIV irreversível.”

Uma mulher disse que um benefício psicológico de não estar sob tratamento era poder se libertar do HIV:

“Uma vez que eu não estou sob os medicamentos, eu meio que esqueço que tenho isso… Eu admito que acho que os remédios vão ser algo que vão me lembrar diariamente do que eu tenho. Então, no momento, eu posso seguir com a vida com bastante facilidade, sem pensar sobre esse tipo de coisa, porque eu não estou sob medicamentos.”

Ao invés de ver o tratamento como ajuda a manter o HIV sob controle, um homem sentiu que a necessidade de iniciar o tratamento significaria uma perda de controle, com o vírus agora ganhando o jogo:

“Não fazer o tratamento… a cada ano que passa, eu acho que é mais um ano em que estou vencendo. Ainda tenho meu sistema imune natural lutando e sobrevivendo, e é isso o que é importante para mim.”

Os autores observam que, embora os medicamentos sejam geralmente entendidos como ajuda para que pessoas se sintam saudáveis e bem, em alguns casos, como estes, fazem com que a doença pareça mais real. Para essas pessoas, o tratamento pode reforçar a sensação de ser diferente e ter um problema de saúde não desejado, em vez de ser visto como algo que poderia fazê-los se sentirem “normais”.

 

Marginalização e silêncio

Quase todos os entrevistados estavam cientes das evidências de que o tratamento do HIV reduz a infecciosidade das pessoas que vivem com HIV e da crescente ênfase das campanhas para o aumento do uso do tratamento do HIV por este motivo.

A partir disso, os participantes descreveram a pressão de pessoas ao seu redor para que “façam a coisa certa” para o bem da comunidade em geral, uma fala que pareceu ambivalente e trouxe ressentimento. Um homem disse que a agenda do tratamento como prevenção estigmatizou as pessoas que vivem com HIV como uma “ameaça para a saúde pública” em necessidade de controle farmacêutico. Outro homem disse:

“Eu acho que dentro dessa mensagem há uma mensagem implícita, da minha perspectiva como alguém que é soropositivo, de que eu sou potencialmente irresponsável.”

Muitos dos entrevistados tinham histórias sobre serem questionados ou difamados por amigos ou membros da família. Um homem de 42 anos que nunca tinha feito tratamento, mas tinha sido diagnosticado há 18 anos e poderia ser descrito como um não-progressor de longo prazo, disse:

“Eu descobri que estava diante de um pouco de resistência e hostilidade quando conversava com pessoas e elas descobriam que eu não uso a medicação e que eu não o faço há período muito longo de tempo. As reações são diversas. Encontrei pessoas que me dizem: ‘Você não tem idéia. Você não sabe nada sobre este vírus, porque você ainda não experimentou isso. Você não passou pelo que passamos. Você não sabe o que está falando.’ É um pouco inquietante porque ninguém merece algo assim. As pessoas não deveriam se sentir culpadas porque estão bem.”

Vários entrevistados disseram não conhecer alguém que tinha HIV e que não estava fazendo tratamento. Eles se sentiram marginalizados e silenciados dentro de grupos de pessoas que vivem com HIV e por organizações de apoio ao HIV.

“Eu não tenho amigos que são soropositivos mas que não estão em tratamento. E não saberia onde encontrá-los, provavelmente porque eles se isolam, assim como eu… Não parece haver qualquer tipo de apoio real para as pessoas que não tomam a medicação, porque quando você menciona isso para as pessoas elas são incrivelmente pró-medicação e colocam você para baixo.”

“Eu não digo abertamente a qualquer pessoa que eu não tomo a medicação… Eu estou me sentindo como uma pessoa marginalizada dentro de um grupo marginalizado.”

Os autores observam que, embora os medicamentos prometam reduzir algum estigma associado ao HIV, os indivíduos que não os tomam encontram-se marginalizados de uma nova maneira, pelas expectativas cada vez mais normativas e “responsabilidades” em torno do tratamento do HIV.

 

A manutenção de um diálogo

Em um artigo relacionado, Christy Newman, uma das coautoras do estudo, comenta que, com o foco crescente sobre os benefícios do tratamento do HIV, há menos oportunidades para as pessoas com HIV expressarem seus medos e preocupações.

“Isso abre questões importantes sobre como as organizações governamentais e ativistas podem manter conversas sobre o uso do tratamento aberto e solidário, reconhecendo que os consumidores têm direito a usar estes medicamentos que previnem e salvam vidas e que tenham dúvidas sobre eles. Precisamos garantir que o crescente foco no tratamento evite contribuir para práticas ou percepções de coerção, que correm o risco de forçar, mesmo aqueles com pequenas dúvidas, à adotar posições mais fortes de recusa ao tratamento e de desconfiança no sistema de saúde.”

Por Roger Pebody em 13 de abril de 2016 para o Aidsmap.

Referências: Persson A et al. On the Margins of Pharmaceutical Citizenship: Not Taking HIV Medication in the “Treatment Revolution” Era. Medical Anthropology Quarterly, 2016. Newman CE. Appreciating doubts about HIV medicine. Journal of the International AIDS Society 18:20717, 2015. (Full text freely available online).

“Olá, Jovem! Tudo certo contigo? Fiquei mexido com a última postagem que tu publicaste, sobre a inflamação crônica e seus efeitos no longo prazo.

Olivetti

Me parece que, se nossa leitura fosse mais atenta, talvez o que poderíamos tirar da postagem é que: 1) a inflamação crônica não é uma disposição fisiológica devastadora, 2) que atua lentamente e só é perceptível quando o soropositivo chega em sua 6º ou 7º década de vida e, principalmente, 3) que existem meios para retardar, controlar ou até mesmo conviver muito bem com a inflamação persistente — inclusive, até os 88 anos de idade, assim como a Dona Olivetti, que esteve ao seu lado no livro Histórias da Aids, do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães.

Noutras palavras, é basicamente dizer que a inflamação persistente parece ser mais perceptível quando o paciente está próximo da idade em que as pessoas normalmente morrem, o que faz com que essa constatação seja até um pouco engraçada.

“Na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que a ansiedade cresce junto com sentimentos de impaciência.”

Contudo, o que mexeu comigo, confesso, foi a reação que percebi entre meus semelhantes, soropositivos. Ao que me parece, um estado de euforia generalizado pela previsão — ou, no máximo, pelo chute — que os cientistas deram de uma possível cura em três anos. Ou melhor, lendo mais atentamente, pela previsão para o começo de testes em humanos dessa abordagem que pode levar à cura. Isso me deixou preocupado porque os soropositivos estão ficando cada vez mais saudáveis, do ponto de vista de sua função imune, mas, na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que sua ansiedade cresce junto com seus sentimentos de impaciência. O que é compreensível, afinal, nenhum de nós escolheu ser soropositivo. Mas, talvez, isso seja um sinal de que não só precisamos tomar nossos remédios todos os dias, mas também buscar apoio, tratamento psicológico e, quem sabe, convivência com outros soropositivos.

“Nenhuma pesquisa experimental pode prever o ano em que a cura vai sair.”

Acho que o blog já insistiu muito sobre o estado de incerteza da ciência. O máximo que se pode fazer em um editorial é publicar os avanços e torcer para o melhor acontecer. Além do mais, só podemos contar com o que se publica em nosso tempo. Nenhuma pesquisa experimental pode prever com exatidão o ano em que a cura vai sair. Infelizmente. Às vezes, os homens que fazem ciência acertam, às vezes, não. Por exemplo: grande parte do projeto genoma humano, que teve uma previsão de duração de 15 anos, só foi concluído nos últimos anos do prazo estipulado. Isso porque as novas tecnologias foram viabilizando um crescimento exponencial no sequenciamento de nosso código genético. O que antes era caro e demorado, foi tornando-se mais barato e mais veloz com o passar do tempo. Hoje, se alguém quiser ter seu DNA mapeado vai pagar uma bagatela de 20 mil e poucos dólares, que é quase nada comparado ao orçamento bilionário que foi gasto para se produzir essa tecnologia.

Parece que isso só significa que o estigma continua talvez maior do que o HIV, ou, ainda, que ele causa mais problemas de ansiedade e depressão do que a dose diária de Efavirenz e mais taquicardia emocional do que algum possível estado interno debilitante. Mais impressionante é ver como uma reportagem que diz, basicamente, ‘gente, vai ter uma cura e quero explicar o que acontece com o corpo de vocês enquanto ela não vem’ é recepcionada como se tivéssemos retrocedido no tempo — e, também, como se quiséssemos ficar presos nesse passado, desejosos que o avanço científico se desse em linha reta e contínua, sem qualquer turbulência, trazendo a cura do jeito épico que um dia imaginamos.

AP595

Gostaria muito mesmo de ter podido acompanhar mais de perto o processo de desdobramento da cura da hepatite C, da descoberta do vírus até sua reta final. Gostaria de verificar se isso faz parte de um processo social, no qual a população infectada antevê um avanço científico que vai ter um impacto expressivo na forma de viverem suas vidas, ficando cada vez mais ansiosas a cada passo, a cada descoberta importante que a ciência é capaz de realizar.

Um dia, estava passando o olho pelas notícias e me deparei com uma entrevista com Pamela Anderson, a famosa atriz de seios fartos do seriado Baywatch, infectada pelo vírus da hepatite C por seu ex-marido, Thommy Lee, baterista dos Mötley Crüe, falando como é, aos 50 anos de idade, se ver curada da infecção, a princípio mortal. Impressionante como os processos são similares e de como o relato da atriz sobre a sua cura é a descrição tal qual reside no imaginário de (quase) todo soropositivo. Na entrevista, Pamela diz ter nascido novamente. Em um primeiro momento, nos anos 1990, os médicos haviam dito a ela que viveria uma década e que provavelmente iria morrer de uma fibrose grave no fígado.

Nos anos 2000, os médicos mudaram suas posições e avisaram a atriz que ela iria viver uma vida normal e provavelmente iria morrer de causas naturais. Entre 2013 e 2014, quando saiu o tratamento definitivo, ela se disse livre de um peso. A patogênese dos dois tipos de vírus, da aids e da hepatite, são claramente diferentes, mas é curioso como o processo social no qual o paciente infectado pelo vírus passa se assemelha assustadoramente.

Faço toda essa digressão pra te dizer o quanto eu fiquei mexido pela reação dos leitores do blog, os quais sempre me identifico como semelhantes, soropositivos, tal como eu. É quase como se suas esperanças tivessem sido retiradas à força, e é triste ver alguém sentir isso. Por isso, penso que o apoio farmacológico pode até estar surtindo efeitos, mas o nosso sistema de saúde ainda tem de oferecer um tratamento psicológico muito mais robusto. Realmente gostaria que, enquanto um tratamento definitivo não vem, pudéssemos viver melhor e mais tranquilos. Afinal, já podemos viver assim, não podemos?

Grande abraço,
V.”


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Desde a descoberta de Quíron, em 1977, astrólogos têm experimentado e explorado suas temáticas, ouvindo novos contos que ressoam da sua mitologia e chegam a algum entendimento sobre o seu impacto arquetípico. Agora, anos depois, o astrólogo Liz Greene vê Quíron como elemento essencial no aprofundamento da nossa compreensão a respeito consciência solar: para poder escolher viver a vida ao máximo, temos que enfrentar aquela parte em nós que prefere buscar a morte.

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“A vontade de viver é um grande mistério.”

A vontade de viver é um grande mistério. Qualquer médico com alguma experiência em doenças com risco de vida sabe que a vontade de viver pode afetar o bem-estar físico, bem como psicológico. E a sobrevivência, muitas vezes, depende mais do desejo da pessoa doente de viver do que da ajuda do médico. Mas nem sempre a vontade de viver é necessariamente o que de fato sentimos. Podemos dizer por aí que queremos a vida, mas, em algum lugar lá dentro, queremos mesmo é ir para casa — e este anseio por cair em esquecimento pode ser mais poderoso do que qualquer declaração consciente da intenção de melhorar.

Algumas pessoas reagem ao conflito, à dor e à decepção com uma resposta criativa, que transforma sua perspectiva e até mesmo suas circunstâncias. Outras se tornam amargas e desesperançosas, passando a viver num mundo de penumbra, cinzento, perdendo totalmente a vontade de viver. Para essas pessoas, nem sempre o suicídio é o que vem como resultado, mas também a morte “acidental”, na verdade autoarquitetada, a qual, embora inconsciente, é, contudo, alimentada por um forte desejo de pôr fim ao sofrimento e à infelicidade. O comportamento autodestrutivo nem sempre envolve um gesto evidente, como engolir o frasco de comprimidos ou passar a faca no pulso.

“Não existe uma fórmula para explicar por que alguns superam os desafios da vida enquanto outros viram as costas para o futuro.”

Não existe uma fórmula mágica para explicar por que alguns indivíduos superam os desafios da vida, apesar de desvantagens e de infortúnios graves, enquanto outros viram as costas para o futuro, mesmo que a sorte possa favorecê-los. Também é verdade que a perda da vontade de viver nem sempre resulta em autodestruição: ela pode ser expressa no desejo de destruir os outros, como se, em algum nível profundo e inacessível, a projeção de desesperança e de vitimização dá ao indivíduo que sofre a ilusão de que ele ou ela está forte e no controle da vida. Assim, o indivíduo que, secretamente, perdeu a vontade de viver pode, in extremis, tentar privar os outros de alegria — e talvez até da própria vida — por encontrar um bode expiatório que possa ser sobrecarregado com todo o desespero que se faz sentir em seu interior.

Sagitario

Esse mistério pode ter sua origem, assim como tantos outros mistérios, no enigma do caráter individual inerente — e o mapa astral pode trazer algumas perspectivas a respeito dos padrões que sustentam esse personagem. Em qualquer polaridade na vida, nós, astrólogos, sempre precisamos olhar para a polaridade dos planetas: a polaridade da esperança contra o desespero, a vontade de viver contra a desesperança, que pode ser iluminada, pelo menos em parte, através do simbolismo da polaridade do Sol e de Quíron.

Não acredito que possamos realmente compreender qualquer um dos planetas sem considerar o significado do outro. Embora eles não estejam no gráfico de todos os indivíduos, ambos estão presentes em todas as cartas e formam uma energia dinâmica dentro da personalidade. Um aspecto direto aguça esta dinâmica e muitas vezes torna-se o foco da jornada do indivíduo. Entretanto, a polaridade existe em cada um de nós, independentemente. Todos os planetas, incluindo Saturno, servem o desenvolvimento do ego individual, o qual é melhor simbolizado pelo Sol. Na verdade, poderíamos até dizer que os planetas pessoais “servem” ao Sol como o centro da individualidade.

Quíron, contudo, encontra-se na interface entre Saturno e os outros planetas e, portanto, medeia questões coletivas que incidem sobre a ferida do indivíduo. Por sua natureza, as implicações coletivas de Quíron significam algo coletivamente “incurável”, uma vez que a ferida existe no coletivo e é ancestral. Por sua natureza, o Sol reflete senso de propósito e de significado na vida de cada indivíduo, e estes estão intimamente ligados com a vontade de viver e de se tornar si mesmo. Cada um destes planetas precisa do outro, mas se o equilíbrio os distancia demais um ou outro, podem surgir certas dificuldades psicológicas.

Sun

O significado do Sol

Não vou gastar muito tempo descrevendo o significado do Sol. Em suma, ele representa a essência do indivíduo vivo, a divindade (ou, se preferir um termo menos “espiritual”, a força da vida) encarnada em forma humana para uma vida particular, expressando-se com uma natureza e finalidade específicas.

Através do Sol, experimentamos a nós mesmos como únicos, especiais, nascidos com algo a contribuir para a vida. Parafraseando uma declaração Charles Harvey feita certa vez numa palestra, o Sol dentro de nós é o que nos faz sentir conectados com o macrocosmo, e nós experimentamos a nós mesmos como parte de algo eterno. Esta experiência interior transmite não apenas “felicidade”, em seu sentido coloquial comum, mas a profunda serenidade e esperança que surgem a partir da sensação de viver uma vida útil e significativa. Poderíamos chamar a isso de uma experiência de “destino individual”, pois o Sol reflete em nós a sabedoria de que estamos aqui para viver uma finalidade específica.

Apollo

“Um senso de significado individual e propósito pode nos libertar da sensação de aprisionamento do passado.”

Apollo foi, no mito grego, a divindade que dissipou as trevas da maldição da família, e libertou o indivíduo do fardo do “pecado” ancestral. Um senso de significado individual e propósito pode realmente nos libertar da sensação de aprisionamento do passado da família. O Sol também nos dá uma sensação de um futuro individual, da fé em nosso propósito, de uma convicção interior de que estamos “indo a algum lugar”. É o Sol que nos permite lutar livres de sentimentos de inutilidade e de falta de sentido, e que afirma o nosso valor único, mesmo que nossas circunstâncias sejam dolorosas.

“A experiência interior de destino individual, significado e esperança, nos dá confiança em nós mesmos.”

A experiência interior de destino individual, significado e esperança, por sua vez, nos dá confiança em nós mesmos e uma crença na bondade essencial da vida, algo que pode ser uma poderosa força de cura em ambos os níveis físico e psicológico. Se a expressão do Sol é bloqueada, sufocada ou pouco desenvolvida por qualquer razão — por meio de feridas da infância, por exemplo, ou por conflitos internos refletidos no gráfico de nascimento —, o indivíduo pode achar que é mais difícil de se conectar com essa sensação de ter o direito de estar vivo e sendo si mesmo. As dificuldades da vida podem então ser amplificadas porque não há nenhum sentido interno de especialidade e de esperança a partir da qual desenhar.

O poder de criar depende do Sol, porque quando criamos qualquer coisa nos entregamos a “outro” algo dentro de nós, ao qual confiamos que nos trará frutos. A criatividade requer um ato de confiança. Da mesma forma, nos entregamos a um fluxo de poder imaginativo que nos faz sentir alegres. O símbolo mais antigo da energia solar lúdica e criativa é a imagem da criança divina, que personifica algo eternamente jovem e indestrutível dentro de nós.

Chiron

O significado de Quíron

Na arte greco-romana, Quíron é quase sempre mostrado carregando uma criança nas costas. Mas, apesar deste emblema de esperança, a figura do rei dos Centauros é trágica. É importante reiterar seu mito, que é muitas vezes distorcido ou mal contato, justamente porque é de tal modo muito doloroso.

No mito, Quíron não se tornou um curador porque foi ferido. Essa é uma reinterpretação otimista que tenta dar sentido à dor da vida atribuindo um propósito e significado específicos — de desenvolver a compaixão e a sabedoria para curar os outros por causa da própria dor. Esta reinterpretação do mito é válida como forma de trabalhar com as próprias feridas. Mas a dor de Quíron não tem nenhuma finalidade nobre nessa história. Ele já era professor e curador antes mesmo de ser ferido. Pode-se supor que ele já estava ferido porque ele sofre de isolamento; embora seja um Centauro e, portanto, parte de uma tribo de criaturas que simboliza os poderes instintivos naturais, ele é civilizado e, assim, separou-se de sua própria tribo. Nesse contexto, Quíron representa o animal sábio, o poder natural, que por sua própria vontade escolhe servir a evolução humana e a consciência, ao invés de permanecer cegamente sujeito às compulsões instintivas do reino animal. Como o “animal útil” nos contos de fadas, Quíron vira as costas para a selvageria de sua natureza instintiva, a fim de servir o padrão evolutivo que ele considera ser o caminho a seguir para toda a vida.

Herakles

“Quíron está no lugar errado, na hora errada.”

Mas Quíron está no lugar errado, na hora errada. Ele está no meio de Héracles, o herói solar, que personifica a força do ego humano, e os selvagens, os Centauros indomáveis ​​a quem o próprio Quíron deixara para trás. Durante a violenta batalha, Quíron não participa, pois tem simpatia por ambos os lados. Talvez por causa deste papel de mediador, que o priva de sua agressividade natural, ele é acidentalmente ferido por uma flecha envenenada que tinha como alvo outro Centauro e cuja ferida não cicatriza, não importa quais os métodos de cura que ele aplique. Finalmente, Quíron se retira para sua caverna, uivando de angústia, pedindo pela morte. Zeus e Prometeu têm piedade dele, e concedem-lhe então o benefício da mortalidade, permitindo que ele morra em paz como qualquer mortal, muito embora ele tenha sido um deus.

“Queremos acreditar que a vida é justa, a bondade é recompensada e o mal é punido.”

Essa terrível história implica um estado de injustiça na vida que é difícil para qualquer indivíduo, e talvez ainda mais difícil para o indivíduo idealista. Queremos acreditar que a vida é justa, que a bondade é recompensada e que o mal é punido, pelo menos em alguma outra encarnação, se não nesta. Aqui está uma boa criatura que sofre não por culpa própria, mas vítima da batalha inevitável entre evolução e inércia, consciência e instintividade cega.

Quíron é a imagem de um eu que foi ferido injustamente pela vida e pelas condições inescapáveis ​​que refletem falhas e falhas de uma psique coletiva que é infalivelmente desajeitada em seus esforços para o progresso. Uma vez que seres humanos são ambos o herói solar e o animal selvagem e uma vez que os resultados de nossos esforços no sentido de civilizar-nos se mostraram tantas vezes desastrosos na história, temos um legado de dor injustamente infligido, que produz repercussões através das gerações. Danos físicos e psicológicos cujas causas pairam não em quaisquer desastres individuais e nem mesmo sob nossos pais, mas na herança genética, ou em desastres coletivos como o Holocausto e o pesadelo em Kosovo, todos pertencentes ao reino de Quíron. Nessas esferas, nossos esforços individuais, disparados pelo Sol, refinados e focados pelos planetas interiores e com forma e força dadas por Saturno, são contrariados ou danificados pelas forças na vida, na história, na sociedade e na psique coletiva, sobre as quais não temos controle e para o qual, como indivíduos, não podemos ser responsabilizados.

Tais colisões com as falhas inevitáveis ​​do coletivo podem nos deixar cheios de amargura e de cinismo. Podemos acabar por punir os outros, porque nos sentimos aleijados, feridos e irredimíveis. Ou podemos nos punir. Mas, se podemos progredir para além deste bile de amargura, e se formos persistentes o suficiente em nossa busca por respostas, podemos realmente encontrar uma resposta — mesmo que a resposta seja a de que não existe uma resposta, e que devemos aceitar os limites da existência mortal.

“A aceitação constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida.”

A aceitação é um dos dons de Quíron, e é diferente da resignação de autopiedade. A benção da morte de Quíron pode ser entendida como um símbolo da aceitação de ser mortal e constitui uma transformação que, mesmo que não possa curar o incurável ou alterar o passado, pode mudar radicalmente a nossa perspectiva de vida. Através dela, podemos aprender a compaixão, embora de um tipo limitado. A compaixão de Quíron é a compaixão de uma pessoa aleijada no lugar de outra pessoa. Podemos sentir profunda empatia por aqueles que estão feridos como nós. Mas, sem o calor e a luz do Sol, podemos não encontrar a generosidade para ir além do círculo fechado daqueles cuja dor específica espelha a nossa própria dor e, assim, ver que a vida fere a todos, de uma forma ou de outra.

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Quíron como bode expiatório: o ferido se torna curador

Há muitas fases do processo que Quíron representa, começando com seu ferimento e terminando com sua transformação em mortal e sua libertação do sofrimento. Estes estágios abrangem raiva, fúria, o desejo de ferir outras pessoas, renúncia amarga, autopiedade, sentimentos de vitimização e, por último, o amanhecer de um desejo de entender os padrões universais que estão além de nossa dor pessoal. Em qualquer uma destas fases, se não formos capazes de enfrentar e compreender o que está acontecendo conosco, podemos ficar presos e agir dentro de algumas das características menos atraentes de Quíron. Afinal, Quíron é ferido em sua metade animal, e os animais não são conhecidos por sua atitude filosófica quando feridos. Aqueles que têm força tendem a morder de volta.

O psicanalista Michael Balint escreveu que, no núcleo de cada doença física, bem como psicológica, há uma ferida fundamental — uma luta ou conflito interior que parece insuperável e que pode gerar amargura e raiva, e a perda da vontade de viver. Enquanto não há nenhuma implicação nesta declaração de qualquer culpabilidade individual, há uma sugestão de que, se o conflito pudesse ser trazido para a consciência, há uma boa chance de que o curso de muitas doenças físicas e psicológicas poderia ser alterado, ou, pelos menos, enfrentado de uma forma diferente e com espírito mais positivo.

“Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento podemos nos tornar arrogantes.”

Se Quíron trabalha contra e oprime o Sol, o resultado pode ser depressão, perda de confiança e um senso de danos ou ferimentos permanentes. Uma pessoa se torna cínica, assim como Mefistófeles, de Goethe, que diz: “Eu sou o espírito da negação.” Espera-se a falha — e, justamente porque a espera, pode ser muito provável encontrá-la. Um sentido de se tornar vítima ou bode expiatório pode ser muito intenso e fazer com que um indivíduo projete sua mágoa sobre os outros, se vitimize ou se torne bode expiatório deles. Se não formos capazes de reconhecer esse sentido interior da amargura e do ferimento, podemos nos tornar arrogantes, perdendo espaço para nossa maior realização espiritual, fazendo-nos olhar para baixo, sobre aqueles a quem julgamos ser menos evoluídos do que nós mesmos. Também podemos nos tornar intolerantes, até mesmo cruéis, para com aqueles que, inadvertidamente, nos lembram que estamos sofrendo. E, assim, a ferida apodrece na escuridão.

“Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado.”

No entanto, a imagem greco-romana de Quíron tendo a criança divina em suas costas também nos diz que estes dois símbolos em antítese podem trabalhar juntos. No mito, Quíron é professor da criança, a quem é dado o cuidado e a educação de um príncipe que vai se tornar rei. Esta é uma imagem rica e esperançosa do papel que a nossa dor incurável pode desempenhar na educação do indivíduo que estamos em processo de nos tornar. Podemos encontrar a serenidade e sabedoria, que emergem da paciência em face daquilo que não pode ser alterado. Também podemos desenvolver resistência e coragem, bem como perder o sentimentalismo, que faz com que tantos idealistas sejam tão completamente ineficazes na realização de seus sonhos. Também podemos obter um vislumbre de padrões maiores, mais profundos — tal como a lenta evolução dolorosa do coletivo, do qual fazemos parte, e com o qual temos que compartilhar a responsabilidade. Desastres coletivos e erros não são sua culpa: a bagunça humana pertence a todos nós.

Podemos injuriar o sérvio Slobodan Milošević (principal líder do Partido Socialista da Sérvia desde a sua fundação, em 1990, e presidente daquele país entre 1989 a 1997 e da Iugoslávia, entre 1997 a 2000), e fazê-lo com razão. Contudo, cada vez que zombarmos com desprezo de qualquer grupo minoritário racial, religioso ou social ou maliciosamente tentarmos tornar a vida mais difícil para aqueles indivíduos que nos lembram de nossas próprias imperfeições, estamos exibindo um pouco deles em nós mesmos.

Eu conheci algumas pessoas que vociferam ser tão politicamente corretas e que, quando se aposentam por trás das portas fechadas de suas próprias residências, se transformam um pouco em Hitlers e em Miloševićs para com os seus parceiros e filhos. Pode ser bom lembrar que os coletivos escolhem os seus líderes e que, quando estes pequenos bodes expiatórios, mutilados em cada um de nós, se agregam juntos, estamos inclinados à colocar no poder um indivíduo que vai fazer a vontade dos feridos e se tornar o curador de todos nós. Antes de atribuir a fonte de todo mal presente em figuras como Milošević, faríamos bem em nos olhar no espelho.

A melancolia que Quíron é capaz gerar, aquecida pela luz do Sol, também pode nos levar à ter profundidade de pensamento e sentimento, e movimenta em nós a determinação de contribuir para o bem-estar dos outros. Podemos encontrar um tipo diferente de compaixão — e não apenas para com aqueles que foram prejudicados, da mesma forma como a nós mesmos, mas para as pessoas cujas experiências não necessariamente coincidem com a nossa própria, uma vez que estas merecem compaixão, simplesmente porque somos todos humanos.

“Um tipo específico de ferimento não é mais ‘especial’ ou merecedor de compaixão do que outro.”

Se um indivíduo perdeu um olho, é fácil sentir simpatia por aqueles cegos de um olho e odiar aqueles que têm a sorte de desfrutar de vista completa. O Sol trabalhando com Quíron pode gerar generosidade de espírito suficiente para reconhecer que todos os seres humanos sofrem, simplesmente porque estão todos sozinhos e são mortais. Um tipo específico de ferimento não é mais “especial” ou merecedor de compaixão do que outro. Aqueles que são mais veementes nas suas declarações de compaixão para com os albaneses do Kosovo também podem ser aqueles que têm pouca compaixão para com seu vizinho negro, gay ou judeu ou do Paquistão, ou que estão dispostos a chutar um cachorro apenas para aliviar seu estresse. O Sol trabalhando com Quíron corta essa hipocrisia, à essência compartilhada do coração humano, escondido lá dentro.

Mais importante ainda, o Sol trabalhando com Quíron pode ativar a vontade de viver — e não apenas em um nível orgânico ou egoísta e cego, mas do senso de propósito individual, combinado com um sentimento de empatia para a luta, lenta e dolorosa, em direção à luz que existe em todos os seres vivos.

zodiac

Como chegamos lá?

A casa e o signo em que Quíron é colocado nos diz muito sobre onde e como a vida nos feriu. Este é o lugar onde, não importa o quão duro procuremos encontrar um objeto específico para a nossa culpa, nós finalmente descobrimos que a culpa reside na diferença entre o ideal e a realidade, e na falha inevitável da natureza humana. Podemos não lutar pela vida, mas, se estamos afundando em uma amargura corrosiva que pode finalmente nos tornar distorcidos e doentes, precisamos ir além desta fase de raiva de Quíron, na busca pela compreensão que nos leva além da identificação como bode expiatório e vítima, além da inclinação de jogar o bode expiatório em nós mesmos.

“Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.”

Esse entendimento pode nos obrigar a renunciar convicções espirituais e morais anteriores e encontrar uma base mais ampla a partir da qual enxergar a vida. Poderemos ter que desistir da ideia de que os mocinhos sempre montam em cavalos brancos, e que os maus montam em cavalos pretos, e talvez tenhamos também tem que aceitar o fato de que, às vezes, pessoas decentes sofrem injustamente, enquanto pessoas tão desagradáveis ​​gerenciam a vida muito bem e morrem ricas e confortáveis em suas camas, bem satisfeitas consigo mesmas. Quíron e Walt Disney não são bons companheiros.

Como é que vamos encontrar esse tipo de entendimento? Como podemos aprender a perdoar genuinamente e a tolerar, sem a atitude presunçosa e superior de oferecer a outra face ao agressor, a qual mascara um profundo ressentimento inconsciente e raiva? Quíron precisa do Sol para esta tarefa. O Sol tem o poder de afirmar a especialidade e a amabilidade do indivíduo e isso, por si só, pode neutralizar o veneno da autopiedade. A casa e o signo em que o Sol é colocado no nascimento refletem o que precisamos para nos tornar, se quisermos nos sentir verdadeiramente vivos. Acredito que precisamos nos perguntar: é o Sol brilhando em minha vida? Sou eu mesmo? Ou é o medo da solidão ou de não pertencer fazendo-me fingir ser o que não sou?

Do mesmo modo, podemos também precisar enfrentar Quíron, e nos perguntar: qual é a natureza da minha ferida? Como a vida me machucou e quem eu secretamente culpo por isso? Será que estou fazendo algo para compensar, negar ou projetar minha ferida nos outros? Posso sentir compaixão por mim mesmo ou somente raiva e autopiedade? Onde é que eu me sinto como bode expiatório e onde é que posso estar tentando curar, ou mesmo destruir, os outros, a fim de me convencer de que eu não estou ferido? Onde posso sabotar ou mesmo me destruir por causa da amargura?

Sun

“Temos de estar conscientes.”

Para que o Sol e Quíron trabalhem em conjunto, temos de estar conscientes de ambos. Há uma química profunda e misteriosa entre estes planetas que, se está funcionando para nós e não contra nós, parece mobilizar a força vital, não só em favor da nossa própria expressão, mas também para o coletivo do qual fazemos parte. A alienação e as feridas de Quíron impedem o Sol de tornar-se arrogante e insensível, enquanto o calor e a alegria do Sol mantém Quíron longe do desespero. Tal como acontece em todos os mapas astrais, o grau em que essas dimensões de nossas próprias almas dão o seu melhor depende do quão conscientes estamos de sua realidade dentro de nós.

“Esta não é uma cura para a vida.”

Esta não é uma cura para a vida. A vida ainda vai fazer doer de vez em quando e, de uma maneira ou de outra, as feridas de Quíron, embora possamos viver em paz com elas, inevitavelmente roubam a nossa inocência. A vontade de viver não é mobilizada pela crença de que a vida é um mar de rosas, de que todos nós precisamos é de amor e que alguns pais ou mães deuses nos recompensarão se formos bons. A vontade de viver é constelada por material mais resistente e precisa de realismo, assim como de fé e lucidez, se queremos terminar sentindo que fizemos nosso melhor com o dom da vida que, embora transitória, nos foi dada.

Por Liz Greene em agosto de 1999 para o Astro Dienst

Timothy Ray Brown

“Caro Jovem Soropositivo, tudo bem contigo? Espero que sim. Antes de qualquer coisa, queria te dizer que a postagem na qual você relata sua conversa com o Paciente de Berlim, Timothy Ray Brown, foi provavelmente a minha leitura preferida do blog neste ano de 2016.

Acho que não só eu, mas grande parte do público, estava saudoso das postagens que expõem suas perspectivas pessoais acerca do HIV. Tenho a impressão que isto cria uma atmosfera de empatia e cria mecanismos capazes de apresentar formas diferentes de olhar para a nossa infecção crônica. O simples fato de ler o relato, de um adulto desconhecido que passa por uma experiência interessante como a que foi descrita na postagem, deve produzir, imagino, em grande parte dos leitores, algum nível de alívio. Uma forma primitiva de reconhecimento social, antes presente, por exemplo, nos bordéis alemães da segunda guerra mundial, onde homens e mulheres homossexuais, juntamente com transgêneros, compartilhavam e ansiavam por encontrar e saber da vida de pessoas que sofriam de experiências de exclusão social. Ali, no subsolo da cidade, podiam, ao deparar-se com seus semelhantes, vislumbrar a possibilidade de uma vida melhor.

Venho compartilhar, por meio desta carta, mais uma impressão de algumas coisas. Lembro de uma reação curiosa de um dos leitores quando este sinalizou, no espaço de comentários, um desinteresse sobre o compartilhamento de uma carta de um leitor, acerca de uma experiência amorosa na cidade de São Paulo, na qual o rapaz tentava narrar algo que o havia marcado. Seu comentário sugeria que a postagem não representava qualquer relevância — o que, em parte, é justo. Imagino que muitos de nós tenham o blog Diário de um Jovem Soropositivo salvo nos ‘favoritos’ de seus navegadores, ou mesmo como um site de grande ou razoável frequência de visitações atestada pelo Google Now ou qualquer outra ferramenta que indique ao usuário assim que uma nova postagem é publicada no site. Imagino a ansiedade de cada um em ler as novas matérias, procurando nelas a tradução de um artigo científico complicado, um estudo experimental promissor, ou, quem sabe, uma nova classe de antirretrovirais a ponto de ser aprovada para as próximas fases dos órgãos regulatórios dos países que hospedam as maiores indústrias farmacêuticas do mundo.

cometa

Um soropositivo em tratamento e indetectável tem tantas chances de contaminar alguém soronegativo quanto eu tenho chances de ser atingido por um cometa.

Lembro também de uma postagem na qual você descreve um estudo feito com soropositivos, onde estes superestimam sua infecciosidade, em comparação a um dado já comprovado e divulgado em alguns meios midiáticos: a remota chance de contaminação entre um soropositivo em tratamento e indetectável e um soronegativo. O estudo tinha a intenção de mostrar como esses dados experimentais ainda não haviam sido assimilados pelos soropositivos, que sempre assinalavam suas chances de contaminar parceiros em uma percentagem maior do que a fornecida pelos mais recentes estudos. Deu-se alguma confusão pela distinção entre o que o público soropositivo entendia como sendo seu grau de infecciosidade e o que os estudos epidemiológicos já haviam concluído — os quais já desenvolveram, inclusive, nomenclaturas específicas, como a relativamente famosa ‘TasP’ (do inglês treatment as prevention), na qual um soropositivo em tratamento e indetectável tem tantas chances de contaminar alguém soronegativo, quanto eu tenho chances de ser atingido por um cometa, atraído pelo campo gravitacional da terra, neste exato momento.

O que quero dizer é que as notícias relacionadas ao estigma, os experimentos sociais que demonstram a segurança da relação sorodiscordante quando o parceiro soropositivo é indetectável, ou mesmo a desproporção da percepção do grau de infecciosidade relatados pelos soropositivos em tratamento acerca de sua própria capacidade de contaminar alguém próximo, tem me parecido uma preocupação de segundo grau. A primeira é, naturalmente, a cura — o que é compreensível e não necessita de justificativas.

Como parte de um segmento da população infectado cronicamente com um agente patológico que confere ao seu hospedeiro uma condição estigmatizante, nada mais natural, nada mais compreensível, do que desejar a cura. Esperamos todos que ela venha o mais rápido possível, enquanto as estratégias de controle virêmico atóxicas apareçam disponíveis o quanto antes. Tudo muito natural. Tudo muito compreensível. Eu mesmo ignorei no blog, a princípio, os textos menos científicos, desejando somente encontrar duas palavras juntas em uma mesma estrutura sintática:

cura + prazo

Eu realmente gostaria de saber quanto tempo eu iria ter de me submeter ao tratamento antirretroviral até que minha vida, de fato, começasse de novo. Queria saber quando eu poderia reviver meus momentos de total despreocupação com meu corpo, a minha disponibilidade de me relacionar com outras pessoas e mesmo de diminuir a distância entre mim e minha família. Resumindo, gostaria de saber quando tudo isto iria acabar.

Soropositivos, vocês estão liberados para viverem suas vidas.

Na época, a um ano e alguns meses atrás, eu estava convencido de que eu seria capaz de colocar minha vida, meus planos e meus desejos em suspensão, contanto que alguma garantia fosse dada para mim. Estava disposto a esperar cinco, talvez dez anos, parado, olhando para as coisas como um expectador estrangeiro, até que alguma notificação no celular anunciasse no seu blog, ou em qualquer outro meio de divulgação, a tão esperada notícia: achamos a cura! Mas, com o passar do tempo, o que eu não esperava concluir é a péssima notícia de que viver tem efeitos colaterais — seja você soropositivo, ou não. Portanto, soropositivos, vocês estão liberados para viverem suas vidas.

HIV

Me lembro de uma carta que enviei para você, poucos meses após a descoberta do meu diagnóstico, quando eu estava bastante preocupado com os efeitos a longo prazo da infecção crônica que havia descoberto. Minha inquietação era a respeito dos biomarcadores que indicavam mudanças discretas de processos inflamatórios persistentes, em comparação aos soronegativos, sugerindo, a partir das minhas leituras na época, que os riscos associados ao envelhecimento precoce poderiam representar uma desvantagem e uma vida menos ‘normal’ ao longo dos anos.

Alguns meses se passaram até que outras notícias foram divulgadas a esse respeito, como aquela em que você conclui, ao final das contas, que todos nós envelhecemos. Vi alguns estudos sendo repetidos e apresentando resultados bastante similares: soropositivos tem uma expectativa de vida parecida com a de soronegativos e ficam doentes em idades similares. Mas, vez ou outra, outros estudos, como acontece com toda boa ciência, ainda insistem na diferença — pequena, mas expressiva, de cinco anos ou menos, entre os portadores de HIV e os que não possuem HIV. Sempre que lia essas notícias tinha a impressão de que o peso que eu havia levantado, com a ajuda de textos, relatos, compartilhamento de histórias, havia caído novamente nas minhas costas.

Todos os textos que apresentam uma tentativa de dissolver o estigma, representam uma melhora não só na qualidade, mas no aumento da nossa esperança de vida.

E foi aí que me dei conta de algo: todos os textos que apresentam uma tentativa de dissolver o estigma, seja a partir de um relato de uma experiência amorosa bem sucedida, seja a partir da segurança de que a vida volta ao normal, ou, ainda, pela carinhosa carta de um leitor recomendando paciência e abertura para essa nova fase das nossas vidas, representam também uma melhora não só na qualidade, mas no aumento da nossa esperança de vida. Então, entendi que eu deveria não somente me manter atualizado das novíssimas tecnologias que um dia irão nos curar da infecção crônica, ou, no pior dos cenários, induzir remissões de longa duração sem a utilização de medicamentos, mas também me ater à luta contra o estigma.

‘Mas qual a relação entre o estigma e a minha expectativa de vida?’, já escuto algum leitor seu perguntar. Eu mesmo me coloquei essa questão várias vezes, tentando unir esse aspecto inútil e banal às evidências sólidas dos estudos comparados. O primeiro dado com o qual me detive foi que:

  1. expectativa de vida do soropositivo ainda é menor que a do soronegativo, na maioria dos estudos realizados; e também que,
  2. nenhum, ou quase nenhum, desses estudos epidemiológicos levam em consideração o aspecto orgânico da vivência de uma experiência difícil como a do estigma.

Dito isso, fui buscar, muito discretamente, modelos experimentais com símios superiores, macacos, nossos parentes mais próximos na escala evolutiva, que descrevessem os riscos envolvidos na experiência de solidão e do isolamento. Confesso que, sem muitas surpresas, vi, nos estudos que li, um crescimento da frequência de doenças cardiovasculares nos grupos que se mantinham à distância da experiência social, por pelo menos duas razões.

Indivíduos solitários tendem a desenvolver hábitos pouco saudáveis.

A primeira razão é uma variável comportamental. Os animais que estavam diante de uma rede de suporte social, mesmo sob uma dieta artereogênica — isto é, que aumenta a quantidade de lipídeos na corrente sanguínea —, apresentavam índices menores de arteriosclerose do que o grupo de controle que tinha a mesma alimentação, mas experiências de grupo pouco coesas. É como diz aquele senhor na primeira postagem de 2016: ‘a solidão é tóxica’. Além do mais, a solidão, segundo o estudo publicado num livro chamado ‘Tratado de Medicina Cardiovascular’, sugere que indivíduos solitários tendem a desenvolver hábitos pouco saudáveis, como a ingestão de dietas ricas em carboidratos simples e lipídeos, bem como a utilização de tabaco ou outras substâncias tóxicas para o organismo.

A segunda razão, publicada em alguns estudos, dentre eles, um da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chamado ‘Neuroendocrinologia do Estresse: História e Conceitos’, sugere que existem alterações significativas de aspectos neuroendócrinos, psicológicos e, portanto, fisiológicos em organismos que são expostos à situações constantes de estresse. O que o estudo sugere, ao final das contas, é uma tese simples: organismos submetidos à situações de estresse agudo apresentam rápida recuperação e até vantagens ante aos organismos que não experimentam situações de desgaste, enquanto organismos que são expostos à situações de estresse constante apresentam dificuldades de suplantar as alterações produzidas diante do quadro de deterioração, sendo mais suscetíveis à patologias.

lonely crowded

Independente de esta pequena pesquisa ser definitiva ou não, o que eu entendi foi que não há um consenso à respeito dos tipos de complicação em seres vivos expostos diante de situações de estresse durante longos períodos de tempo, e os efeitos podem ser variados. Isso me diz também que não só devemos pensar duas vezes antes de nos assustar com os estudos que afirmam que a inflamação persistente é a causa de uma suscetibilidade maior à doenças do que em soronegativos, quanto incluir o combate ao estigma, uma vez que este parece estar ligado à boa parte do enfrentamento dos riscos presentes para a maioria dos soropositivos.

Um outro artigo publicado no portal HIV Equal, que se chama How an HIV Diagnosis can Sometimes Lead to a Longer Life (em tradução livre: ‘Como um diagnóstico de HIV pode eventualmente levar à uma vida mais longa’), sugere, como o próprio título diz, que os frequentes monitoramentos que fazemos, de no máximo de seis em seis meses, levam a uma esperança de vida em soropositivos, em países desenvolvidos, em alguns casos, maior do que a dos soronegativos.

A distinção entre soronegativos e soropositivos se mantém, apesar de todo o avanço tecnológico em que nos encontramos.

Finalmente, me convenci de que a distinção entre soronegativos e soropositivos se mantém, apesar de todo o avanço tecnológico em que nos encontramos, não só objeto da investigação epidemiológica, quanto um produto da própria sociedade em relação à persistente diferença que recai frequentemente em nós. Não satisfeitos na brutal diferença entre ‘aidéticos’ e não aidéticos, transitamos para a diferença entre os lipodistróficos e os não lipodistróficos. Superada a alta incidência de redistribuição de gordura corporal no corpo dos soropositivos usuários de coquetéis com a entrada de novos antirretrovirais no mercado, procuraram em biomarcadores índices da diferença entre uma vida normal e uma vida com HIV, e acharam na inflamação persistente a garantia de que a diferença permanece.

E se a expectativa de vida um pouco reduzida fosse um produto de uma sociedade que, ainda cheia de preconceitos, induz estados de isolamento e maus hábitos em soropositivos ao redor do mundo?

Mas e se a inflamação persistente, e a eventual expectativa de vida um pouco reduzida, fosse um produto de uma sociedade que, ainda cheia de preconceitos, induz estados de isolamento e maus hábitos em soropositivos ao redor do mundo? Se isso for verdade e a fragilidade do soropositivo se der, também, pelo alto grau de estresse que o paciente portador do vírus experimenta, não só no diagnóstico, mas ao longo de sua vida, temos uma notícia boa e uma ruim. A boa é que a justificação da inflamação persistente parece insuficiente para explicar o coro dos especialistas que ignoram um quadro socialmente determinado, que não se dissolveu nem mesmo à porta da 40ª década de descoberta do vírus, podendo ser remediado individualmente pela escolha de bons hábitos. A má notícia é sobre a persistência, depois de tanto tempo, de uma diferença que coloca soropositivos de um lado e soronegativos do outro.

Discipline and Punish

Mas acho que essa já era uma suposição sua — não era? —, ao trazer, a partir da leitura de Vigiar e Punir, de Michel Foucault, que traz a experiência da lepra como uma forma de segregação, um modelo insistente de representação social dos soropositivos e que produz e serve de objeto de um estado global de fragilidade, menos por sua condição virológica, do que por uma experiência de exclusão tão radical, que atravessa quase quarenta anos sem muitas diferenças.

Um grande abraço,

V.”

“1ºde dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, nunca passa sem notícias incríveis, mas também com algumas narrativas insuportáveis. Fico imaginando como seria se eu, naquela tarde de setembro de 2014, quando resolvi fazer o teste, tivesse lido essas reportagens, mal escritas e preconceituosas, sobre como é conviver com o HIV hoje em dia. Muito provavelmente, teria tanto medo que deixaria para fazer o teste em outra hora. Afinal, estava assintomático — o que eu não sabia é que estava com poucas células CD4 e prestes a desenvolver uma doença oportunista.

‘Há coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Lembro-me da primeira carta que mandei para você, Jovem, falando com tanto sofrimento sobre como era descobrir ser portador do HIV. Nela, contei da reação violenta que tive frente às profissionais de saúde, quando disseram para mim o resultado do teste rápido. Lembro do suor frio percorrendo todo o corpo, da boca seca, da taquicardia e do apoio insuficiente que recebi dos profissionais. Poucos minutos antes do teste, a assistente social havia desejado que ninguém fosse soropositivo para o HIV, mas o que ela esqueceu de dizer foi: ‘se alguém descobrir que é HIV positivo, não se preocupe demais, pois há muitas coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Essa última frase rescrevi em minha imaginação, como uma reparação pessoal à profissional do CTA, que foi incapaz de solucionar a contradição interna do próprio corpo dos agentes de saúde e que é resolvida, acredito eu, quase sempre de forma singular pelos pacientes, com muita dor e sentimentos de perda e de luto. Razão que faz com que muitas pessoas hoje não sejam testadas e, diante dessa realidade, não acho nem um pouco condenável que as pessoas fujam dos testes de HIV. É como se furassem nossos dedos e não soubessem nos dizer coisas tão simples, como: ‘sua expectativa de vida permanece intacta, você pode ter filhos, pode viajar para países que antigamente não poderia e, se for mulher, num futuro próximo, além de gestar seus filhos, irá poder amamentá-los também.’

Hoje, me pergunto exatamente isso: por que razão esse ótimo prognóstico é deixado de lado? O que faz de todo o dispositivo de saúde incapaz de acolher essas demandas? Ainda estou tentando saber disso. Não é nem um pouco incomum as pessoas relatarem mudanças substantivas em suas vidas, às vezes, até para a melhor, quando descobrem o HIV.

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Ongina, uma drag queen que participou do programa RuPaul’s Drag Race em sua primeira temporada, disse, certa vez, que depois que o medo da morte foi se tornando medo de outras coisas inerentes a estar viva, ela entendeu que poderia usar isso como um ponto de apoio para desatar grande parte das suas neuroses. Hoje, casada com um rapaz, e vivendo a vida menos como drag queen e mais como designer, ela tem se dedicado a ser porta-voz no combate ao estigma. Inclusive, ocupou esse lugar durante algum tempo, acolhida pela marca de cosméticos M·A·C, onde a venda do batom Viva Glam é integralmente convertida para o combate ao estigma e para financiar o tratamento de HIV/aids.

Hoje, grande parte do que eu entendo fazer parte de ser soropositivo vem e veio de pessoas como estas, incríveis, as quais, anonimamente ou não, usam de suas posições com a finalidade de provocar mudanças no quadro das discursividades disponíveis a respeito da epidemia — como bem coloca a série publicada no blog, com o nome de Literatura pós-coquetel. Talvez, essa coisa que a gente chama de ‘ser soropositivo’ para mim tenha ficado mesmo confusa. Afinal, sou soropositivo para hepatite B, tanto quanto para o HIV. Sou igualmente soropositivo para caxumba, rubéola, catapora, meningite e influenza, de acordo com o meu cartão de vacinação, no qual constata que estou imunizado contra essas doenças.

No campo prático, dos reconhecimentos sociais, nesse curto tempo de ser soropositivo para o HIV, vi (ou li) muitas pessoas ocuparem posições, cargos e funções tão distintas quanto possíveis, de modo que ‘ser soropositivo’ é menos alguma coisa com a qual devamos nos identificar integralmente, do que uma contingência experienciada num mundo micro-orgânico. Tenho inclusive deixado de dizer que estou doente, passando a comunicar para os meus amigos e familiares que eu tenho uma ‘condição crônica de saúde’ e que, uma vez medicado e fazendo os acompanhamentos devidos, posso fazer tudo o que alguém não infectado pelo HIV faz. Inclusive, um imunologista, do qual não vou lembrar o nome, uma vez disse que, assim que o paciente atinge níveis indetectáveis de vírus no sangue, recuperando, posteriormente, seu sistema imune, a fisiologia de quem é soropositivo e soronegativo passa a ser muito, mas muito, similar, funcionalmente apresentando capacidades igualmente satisfatórias no combate a outros patógenos.

Aides

No entanto — e acho que é por isso que te escrevo, Jovem — existem dois lugares hoje ocupados no combate ao HIV: um deles é a manutenção do estado de medo e alerta quanto ao aumento das novas infecções pelo HIV, o outro é a garantia, dos que já se encontram infectados, de que, desde que haja adesão ao tratamento, este iniciado o quanto antes a fim de logo chegar ao indetectável, eles devem e podem seguir com suas vidas. No primeiro caso, o discurso é feito para soronegativos, provocando respostas de medo quando alguém lhes comunica as letras agá, i e vê. O segundo, desfazendo os embaraços da primeira narrativa, convencendo as pessoas infectadas de que elas irão ficar bem. Esse vai-e-vem, que toma lugar sempre que alguém é infectado, me parece ser um tanto complicado, na medida em que exige recursos psíquicos e emocionais que nem todos possuem, a fim de desatar, pelos próprios pacientes, esses furos da propaganda de prevenção ao HIV/aids — contudo, se somos nós que fazemos esse esforço, por qual razão existe uma política de saúde coletiva?

A despeito de considerar imensamente importante a distribuição gratuita dos antirretrovirais para a população, a tarefa é muito maior. Tudo se passa como se nós fôssemos parâmetros para os quais a população não infectada devesse ter como um horizonte negativo, ruim, aquilo que não se deve ser. Isso inclusive se reproduziu em palavras de queridos amigos, os quais, sem saber usar corretamente as palavras, me colocaram num lugar de não desejável, afinal ‘ninguém quer ter isso pro resto da vida.’ De um lado, a estratégia de convencimento de que soronegativos devem se afastar de soropositivos para o HIV e, de outro lado, a reparação de que soropositivos podem viver uma vida tão ordinária e comum como a dos nossos duplos, os soronegativos. No fim das contas, me parece que existe uma má ambiguidade no interior das políticas que produzem modos de sofrimentos tão intensos quanto aquele que eu mesmo produzi, na primeira carta que escrevi para você, Jovem.

Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços.

Já no campo das tecnologias médicas, todo esse medo faz com que se produza em mim um curto-circuito cognitivo. Cada vez mais, estamos ocupando lugares antes impossíveis a qualquer homem e mulher diagnosticado positivo para o HIV, como, por exemplo, era o caso nos anos 80. Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços, bem no espírito do seu texto Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV. Mas como conciliar essas duas coisas tão difíceis: de um lado, uma das epidemias mais mortais da história da humanidade, especialmente durante os anos 80, e, hoje, uma condição crônica, tratável, com um prognóstico em pé de igualdade com soronegativos?

Às vezes, penso que a cura e o desejo para que ela apareça o mais rápido possível não seja para remediar nossos corpos ‘atormentados’ pelo HIV e ‘torturados’ pelos antirretrovirais: estamos vivendo muito bem, obrigado, tendo filhos, namorando, sofrendo, transando, sendo despedidos, sendo contratados, viajando o mundo como nunca antes na história da epidemia. Afora os pequenos riscos que corremos pela inflamação persistente devido à permanência dos reservatórios de RNA pró-viral em nossos linfonodos, pulmões e intestinos, somos como qualquer um. E a indústria farmacêutica, tida como grande vilã por ‘desejar’ que as pessoas fiquem dependentes dos antirretrovirais, está bolando estratégias de uma medicação que baixa para níveis ainda menores nossa inflamação basal. Com antirretrovirais cada vez menos tóxicos, um tratamento eficiente e que minimiza ou mesmo extingue possíveis complicações futuras, por que razão ainda estamos ansiando pela cura, como se estivéssemos presos em uma sala de resultados de teste dos anos 80? Muito trabalho ainda vem por aí, não só dos laboratórios, mas de campanhas que coloquem isso como prioridade.

O que você acha dessa história toda? Como te parece isso? No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, me senti confortável em escrever para você querendo saber um pouco mais das suas posições em relação a esse problema.

Um grande abraço,

V.”

“É engraçado como, quando algumas coisas acontecem, eu penso na figura do autor desse blog, o Jovem Soropositivo. Quase sempre isso ocorre num evento bastante corriqueiro, na fila do Hospital Emílio Ribas, buscando meus remédios. Como sempre, fazia isso tentando não olhar para os rostos das pessoas que estavam ali, fazendo a mesma coisa que eu — pela primeira vez, entretanto, eu entendi o porquê. O Jovem, essa figura sem rosto, virou, de repente, um universal concreto: ele era a moça triste que estava na fila, a criança impaciente do lado da mãe, o adulto, despreocupado, trocando mensagens no celular.

Toda vez que se passam certas coisas comigo, vem a figura do Jovem, que também sou eu e, ao mesmo tempo, tantos outros.

Toda vez que se passam certas coisas comigo, vem a figura do Jovem, esse quase-demiurgo, meio porta-voz, que também sou eu e, ao mesmo tempo, tantos outros. Razão que pode explicar o incômodo que senti quando li a história na qual ele se sentiu forçado a catar, no lixo, uma camisinha, como prova de um sexo protegido. Talvez, naquela hora, tenha saído de um fundo, uma linha muito nítida que ligou aquela experiência que ele experimentou, dentro dos possíveis da vida de um soropositivo, se irradiando, um pouco, em cada um que leu aquela história. Era eu também agachado diante de um imperativo irrecusável. Um afeto de reconhecimento, que, ao produzir seu revés, nos coloca à distância e em uma proximidade vertiginosa diante dos que nos nomeiam como outros e que, sem saberem disso, somos eles também — se é que isso faz algum sentido.

City_at_night

A cidade de São Paulo, já muito querida por mim, se tornou ainda mais convidativa depois de ler as histórias do Jovem, quase sempre me reconhecendo nelas. Há alguns meses, resolvi me mudar para cá — uma mudança com data de validade, no entanto. Aqui experimentei algumas coisas curiosas. Entre elas, um taxista que interrompe o percurso do carro para contar sobre sua disfunção erétil e da complicada relação com a amante. Também, o porteiro de um prédio qualquer, ébrio, procurando por cigarro nas ruas da cidade e que compartilha sua história por onde passa, incluindo as ruas da Avenida Paulista, onde eu me encontrava com alguns companheiros. E aí, no meio disso tudo, apareceu Rafa, que se ofereceu para me encontrar num bar perto de onde estou hospedado.

‘A vida é assim: a gente olha para trás só para se guiar, mas se não olhar para frente a gente corre o risco de voltar para trás, pelo mesmo caminho.’

Chego um pouco nervoso e sem saber como identificar seu rosto no meio das pessoas. Mas, assim que o vi, reconheci. Nos cumprimentamos, conversamos banalidades, bebendo uma cerveja da qual eu nunca havia ouvido o nome — tinha um sabor forte, um gosto agradável. Um desconhecido, já bêbado, estaciona o carro perto de nós e inicia uma conversa amigável sobre como havia perdido seu dente da frente, descrevendo como a vida era bonita. ‘Está vendo aquele retrovisor ali? A vida é assim: a gente olha para trás só para se guiar, mas se não olhar para frente a gente corre o risco de voltar para trás, pelo mesmo caminho que nos fez chegar até aqui.’ Banal que fosse, reconhecemos na fala do senhor embriagado uma sabedoria pouco comum. E o provocamos, dizendo que ele era um filósofo disfarçado. Ele então nos abraçou, e deu um beijo na testa de cada um. Desejou sorte, pagou sua cerveja e seguiu seu caminho, nos deixando a imaginar uma narrativa sobre o que teria acontecido consigo, nos deixando a rir da estranha possibilidade de que um estranho tenha nos abordado e que tenha dito as coisas que disse. Ainda assim, e apesar das nossas resistências, a verdade é que seu posicionamento ecoou tão certeiro em nossas cabeças.

Distanciados dos primeiros desconfortos de quem se vê pela primeira vez, Rafa e eu nos aproximamos, enquanto conversávamos, quase como se estivéssemos ensaiando um ato de cortejo, um em relação ao outro. ‘Compartilha aí algo inusitado sobre você!’, me fitou ele, enquanto fazia o pedido. Eu, nervoso com o teor da proposta, apenas afirmei, depois de pensar muito, que gostava de ler despido, totalmente sem roupas. A pergunta retroagiu sobre Rafa e, como se tivesse antecipado a volta da questão, pôs-se a narrar histórias das suas visitas a desertos, a compra de sua jaqueta favorita e o curso de inglês que deixou de fazer — todas, histórias narradas com a perfeição de um livro bem escrito.

Inside-the-book

Acho que foi naquela hora, já tarde demais, que eu fui capturado. Era madrugada quando trocamos os copos de vidro por aqueles de plástico, a pedido de uma miúda e insistente figura, a dona do restaurante. Nas ruas da cidade, a noite havia esfriado e, na desculpa de procura por calor, nossos corpos se aproximaram. Nos beijamos. As horas da madrugada passaram sem deixar que houvesse uma decisão consciente por partir. Fomos um em direção ao outro — e, também, à procura de outro lugar para continuarmos juntos. O jornal da madrugada passava na televisão, dentro do bar. Fumaças de cigarro contornavam o ambiente, onde nos sentamos. Ele me apresentou uma bebida com um nome engraçado, e um gosto terrível. Mais uma cerveja, melhor, junto com a narrativa de sua experiência acadêmica e sobre seu desencantamento das atividades que teve dentro do movimento estudantil.

Percebi que tudo o que experimentara até ali parecia, de alguma forma incômoda, anunciar um fim.

A manhã já se anunciava com o canto dos pássaros. O frio e a cicatriz do seu maxilar afiguraram na paisagem. Pagamos a conta, e nos despedimos. Em minha caminhada até a casa em que estou hospedado, percebi em mim que tudo o que experimentara até ali parecia, de alguma forma incômoda, anunciar um fim. Esse pensamento perdurou por dias, me corroendo por dentro. Até que, na semana seguinte, Rafa me convidou para ir à sua casa. Concordei, com o coração palpitando, de felicidade e de desespero. Com as mãos frias, puxei o celular, e contei que era soropositivo para o HIV. Na tela do aplicativo de mensagens, a mudança das cores nas pequenas setas, para o azul, indicava que Rafa já havia lido a minha mensagem. “Rafa está escrevendo…”, indicou o celular logo em seguida, prendendo meus olhos na tela do pequeno aparelho. Foi quando, finalmente, veio sua resposta.

‘Não tenho problema algum com isso. Por mim, nosso encontro está de pé, sim.’

Sua mensagem me atingiu quase com decepção, afinal, me privou de ter me encontrado com meus monstros, aqueles que com tanto zelo eu havia alimentado. Fiquei confuso por alguns minutos. E agora?!, pensei. Cheguei em sua casa e algo estava entre nós: nossos corpos não sabiam muito bem como se aproximar novamente. Em antecipação, sugeri um vinho, fora dali. Bebemos, e falamos sobre seu trabalho. Comemos um delicioso sanduíche de salmão. Ele me apontou as casas noturnas da cidade, indicando para o exagero das vestes de algumas pessoas da noite paulistana. Então, se aproximou de mim, e encostou seu queixo no meu ombro. Voltamos para sua casa.

O medo de não ser aceito e o alívio de ser acolhido não se dão exatamente de forma óbvia.

Rafa acendeu um cigarro e, de costas para mim, encostou seu corpo na sacada do apartamento, com o rosto de frente para a janela. Me aproximei, e o abracei. Nos sentamos no sofá para ver um filme. Aos poucos, fomos ficando mais juntos. Quando nos demos conta, não havia mais roupas, nem fumaça, nem a luz da televisão. A madrugada já se encerrava e a manhã mais uma vez se anunciava pelo canto dos pássaros. Um convite para dormir lá, para o qual balancei a cabeça, de forma confusa, e recusei. Era como se fosse impossível aceitar. Por alguma razão, julguei que havia entre nós um abismo. O medo de não ser aceito e o alívio de ser acolhido não se dão exatamente de forma óbvia. Aliás, às vezes, será que não sentimos mais medo de ser aceitos e alívio quando não somos acolhidos?

abraco

Eu nunca mais encontrei Rafa, e o tempo de voltar para minha cidade agora já se anuncia, junto com o final de ano. Afora a possibilidade de sentir alívio em não ter de encontrá-lo, não faço ideia de por quê não pego o telefone e ligo para ele. Também não faço ideia da razão de endereçar esse texto ao Jovem, mas foi a figura que me veio à cabeça para contar essa história. Talvez, por conta de seu último conto, aquele em que a graciosa M. também aceitou de pronto se relacionar com ele — assim como Rafa, comigo. Agora, me pego a pensar no resto da história: será que M. continua a se encontrar com o Jovem Soropositivo?

Com carinho,

V.”