Não há prazo para a cura do HIV. Mesmo assim, essa perspectiva existe, uma vez que médicos e cientistas continuam a pesquisar o vírus, meios de evitar sua transmissão ou de curar a infecção. Os caminhos científicos mais promissores hoje são: a vacina anti-HIV, o transplante de medula e a terapia genética.

Uma equipe de pesquisadores de Hong Kong afirma ter desenvolvido e testado em camundongos um novo anticorpo contra o HIV, que pode ser usado na prevenção ou em tratamento, oferecendo a “cura funcional”.

A descoberta, publicada no Journal of Clinical Investigation, ocorre no momento em que a China enfrenta uma epidemia crescente entre grupos de alta prevalência de HIV, como profissionais do sexo e homens que fazem sexo com homens. Cerca de 850.000 pessoas na China vivem com HIV.

A descoberta vem da equipe liderada pelo professor Chen Zhiwei, do Instituto de Aids da Universidade de Hong Kong. Sua descoberta, testada em camundongos, mostra que o novo anticorpo pode ajudar a controlar o vírus e eliminar as células infectadas. O anticorpo seria capaz de tratar todas as variedades de HIV. “Nosso anticorpo específico, recém-descoberto, funciona para todas as cepas”, disse Chen à Reuters.

Chen explicou que uma “cura funcional” significa que o nível do vírus seria tão baixo a ponto de ser indetectável no corpo, contanto que os pacientes continuem tomando injeções do anticorpo, talvez trimestralmente, ou com menor frequência. O novo anticorpo teria uma meia-vida significativamente mais longa do que os tratamentos atuais e poderia, por exemplo, ser administrado trimestralmente. Chen e sua equipe dizem que pretendem levar o anticorpo para testes clínicos em humanos dentro de três a cinco anos.

Andrew Chidgey, executivo-chefe do grupo Aids Concern em Hong Kong, lembra que resultados promissores não significam que o novo tratamento estaria prontamente disponível em breve.

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A Inovio Pharmaceuticals, uma empresa de biotecnologia avançada, focada na descoberta, desenvolvimento e comercialização de imunoterapias de DNA para tratamento de câncer e doenças infecciosas, divulgou, no último dia 15 de maio, um comunicado de imprensa a respeito do último resultado da sua vacina contra o HIV: a PENNVAX®-GP, que consiste em uma combinação de quatro antígenos do HIV projetados para gerar respostas de anticorpos e células T e agir contra várias cepas do vírus.

Segundo o comunicado,  a vacina apresentou respostas imunológicas “duráveis ​​e robustas” ao longo de 12 meses de acompanhamento, em um estudo clínico de fase 1. Anteriormente, a Inovio relatou que a PENNVAX-GP apresentara os maiores níveis de taxa de resposta imunológica, celular e humoral, já demonstradas em um estudo em humanos por uma vacina contra o HIV.

Os dados foram apresentados em uma sessão plenária na Reunião do Grupo de Trabalho da HIV Vaccine Trials Network (HVTN), em 14 de maio de 2017, em Washington, DC, no Estados Unidos, pelo copresidente do protocolo do estudo HVTN 098, Dr. Stephen De Rosa, professor associado de pesquisa em Medicina Laboratorial da Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center. O estudo HVTN 098 é o primeiro estudo clínico da PENNVAX-GP. Trata-se de um estudo multicêntrico, randomizado e controlado por placebo que envolveu 94 indivíduos (85 vacinas e 9 placebos) a fim de caracterizar e otimizar um esquema de quatro doses da vacina PENNVAX-GP, através de administração intradérmica ou intramuscular, em combinação com um ativador imunológico codificado por DNA, chamado IL-12.

Análises imunológicas mais abrangentes demonstraram que a PENNVAX-GP juntamente com o IL-12 geraram taxas de resposta de anticorpos de células T CD4 específicas contra o HIV e de ligação próximas a 100%, quando administradas com dispositivos intramusculares ou intradérmicos.

26 de 27, ou 96%, dos participantes que receberam a PENNVAX-GP e o IL-12 através da via intramuscular apresentaram resposta de células T CD4. 96% dos participantes que receberam a vacina por via intradérmica também apresentaram respostas de células T CD4 anti-HIV, embora as vacinadas pela administração intradérmica tivesse um quinto da dose tota,l em comparação com as vacinas por via intramuscular.

Durante um ano completo de estudo, as respostas imunes foram mantidas na maioria dos indivíduos, evidenciado pela durabilidade das células T ativadas, bem como pela magnitude das taxas de resposta. A porcentagem de pacientes que tiveram respostas de células T CD8 imediatamente após a última dose permaneceu a mesma ou até aumentou ligeiramente durante o último período de acompanhamento de 6 meses, demonstrando claramente respostas duradouras de memória geradas pela vacina.

“Estamos realmente satisfeitos em ver esses dados de resposta imunológica robustos e duráveis, que estão entre as maiores respostas já vistas em uma vacina contra o HIV e são notavelmente consistentes com nossos dados recentes relatados de nossos testes clínicos com Ebola, Zika e MERS, em termos de demonstrar quase 100% de taxas de resposta de vacinas com um perfil de segurança muito favorável”, disse o Dr. J. Joseph Kim, presidente e CEO da Inovio. “Além disso, nosso dispositivo de liberação de vacina intradérmica mais moderno e mais tolerável mostrou que podemos obter respostas imunes muito altas com uma dose muito menor. Estamos ansiosos para avançar ainda mais a PENNVAX-GP no desenvolvimento clínico em estágio avançado com nossos parceiros e colaboradores.”

O desenvolvimento da vacina PENNVAX-GP foi financiado por um contrato pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), com um aporte de 25 milhões de dólares ao longo de cinco anos. Além disso, a Inovio e seus colaboradores receberam uma concessão adicional de 16 milhões de dólares durante o desenvolvimento pré-clínico, premiado pelo programa Aids Vaccine Development, em 2015, também pelo NIAID.

Em resumo, a vacina apresentou boas respostas em estudo em humanos em fase inicial. O próximo passo, provavelmente, deve incluir mais voluntários e a experimentação de dosagens para soropositivos e soronegativos, avaliando a possibilidade de prevenir a infecção em quem não tem HIV e tratar aqueles que já tem HIV.

Cientistas do Centro de Pesquisa do Câncer no Fred Hutchinson conseguiram reduzir o tamanho do reservatório de HIV, depois de transplantar células-tronco sanguíneas editadas geneticamente para resistir à infecção pelo HIV. O estudo foi publicado na revista PLOS Pathogens. Presume-se que reduzir ou eliminar os reservatórios persistentes seja um passo fundamental para curar o HIV — ou, pelo menos, para usar um termo emprestado do câncer, conduzir o vírus à remissão, para que os medicamentos antirretrovirais diários não sejam mais necessários.

Dr. Chris Peterson

“O número de células infectadas de forma latente, que chamamos de reservatório viral, foi reduzido”, disseram o Dr. Chris Peterson, principal cientista autor do estudo e parte da equipe do laboratório de transplante de células-tronco e, também, Dr. Hans-Peter Kiem, especialista em terapia genética e autor sênior do estudo. “Pegamos amostras de diferentes tecidos e medimos o RNA e o DNA virais. Ambos se mostraram significativamente menores em animais transplantados em relação aos controles”.

4% do total de glóbulos brancos do sangue foram editados, o que ainda não foi o suficiente para induzir a remissão, segundo Peterson. O próximo passo será ajustar as técnicas de edição de modo que mais células sejam editadas e, depois, se multipliquem, aumentando a porcentagem e indo mais fundo no reservatório.

Acredita-se que encolher o reservatório seja fundamental, porque o HIV se integra ao DNA de algumas das células mais duradouras do corpo, aquelas que vivem mais tempo, onde este entra em estado de dormência, podendo acordar a qualquer momento de interrupção do tratamento antirretroviral e, assim, produzir novos vírus. Inicialmente, os cientistas pensavam que os coquetéis de medicamentos antirretrovirais, que em 1996 transformaram o HIV, antes uma sentença de morte, em uma doença crônica, curariam o HIV se fossem tomados por tempo suficiente. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Sozinhos, os antirretrovirais não são capazes de limpar os reservatórios virais. Ao interromper a medicação diária, o HIV pode voltar em menos de duas semanas.

Outras equipes de pesquisa vêm publicando resultados que mostram algumas reduções de reservatórios em estudos com animais: o Dr. Louis Picker e seus colegas do Instituto de Vacinas e Terapia Genética da Oregon Health & Science University, usando uma vacina; Dr. Dan Barouch e sua equipe no Centro de Virologia e Pesquisa de Vacinas no Beth Israel Deaconess Medical Center-Harvard Medical School, usando uma droga que “chuta” as células dormentes para fora do reservatório com um poderoso anticorpo; e o Dr. Mirko Paiardini e seus colegas da Emory University, que reduziram a inflamação como um meio de permitir que o sistema imunológico combata melhor o vírus.

Peterson usou uma técnica de edição genética apelidada de “dedo de zinco” ou “nuclease do dedo de zinco” para interromper um receptor usado como um portal pela maioria das cepas de HIV (neste caso, assim como em outros estudos com animais, um híbrido de HIV e sua versão símia: o SHIV). As células-tronco modificadas foram então devolvidas para repovoar o sistema imunológico, no que é conhecido como um transplante autólogo, usando as células-tronco do próprio paciente em vez de um doador.

No passado, Peterson havia mostrado que as células editadas por transplante autólogo eram seguras e se multiplicariam em animais saudáveis ​​e não infectados, uma descoberta pela qual ele foi agraciado pela International AIDS Society e pela Agência Nacional Francesa para Pesquisa em Aids com o Prêmio Jovem Pesquisador, em 2015.

O trabalho de Peterson faz parte do projeto defeatHIV sediado no Fred Hutchinson, um consórcio liderado por Kiem e pelo virologista Keith Jerome, financiado, em 2011 e 2016, pelos Institutos Nacionais de Saúde americano. Na primeira rodada de financiamento, o  defeatHIV se concentrou no transplante autólogo usando células-tronco geneticamente modificadas como uma maneira mais segura e escalável de curar o HIV, com base no único caso conhecido de cura pelo HIV até hoje: Timothy Ray Brown — com quem eu conversei durante um congresso em Lisboa.

Timothy Ray Brown
Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown foi por muito tempo conhecido apenas como o “Paciente de Berlim”, o único homem no mundo até hoje considerado curado do vírus da aids.

Timothy foi diagnosticado positivo para o HIV em 1995, um ano antes do surgimento do coquetel antirretroviral, quando ainda vivia em Berlim, na Alemanha. Em 2006, foi diagnosticado com outra doença, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda, enquanto ainda morava em Berlim. Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Timothy desenvolveu pneumonia e teve de interromper a quimio em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração.

Apesar de tudo isso, Timothy sobreviveu, e o câncer parecia estar em remissão — pelo menos, até 2007, quando ele foi novamente diagnosticado com leucemia. As novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas e um transplante de medula óssea se mostrou a última e viável opção. O Dr. Gero Hütter teve então uma ideia inovadora: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador de uma mutação genética chamada CCR5delta32, comum em apenas 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer a infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue entrar nas células, e as pessoas com essa mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse essa característica não só curasse a leucemia de Timothy, mas também o tornasse imune ao HIV. Por sorte, esse doador foi encontrado. E, três meses depois do procedimento, já não havia mais qualquer sinal do vírus no organismo do Paciente de Berlim.

Receptor CCR5

Porém, o mesmo não poderia ser dito sobre sua leucemia, que retornou em 2008 — depois de meses de extensos testes para que pudessem confirmar a veracidade de sua cura para o HIV. Nestes testes, examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e “qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido”, contou Brown, mais tarde naquele mesmo dia. No meio de tantos exames, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu a visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Quando as complicações foram controladas, o mesmo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. “Graças a Deus, eu tive um doador muito generoso”, contou Brown, que foi curado da leucemia e, até hoje, nove anos depois do procedimento, continua sem qualquer sinal do HIV em seu organismo. Timothy viria a aprender só depois, em uma conferência sobre terapia genética em St. Louis, na Washington University, que sua chance de sobrevivência beirou os 5%.

Os pesquisadores têm certeza de que as células resistentes ao HIV do doador desempenharam um papel na cura de Timothy. Em pelo menos outros dois casos, pessoas com câncer e HIV que se submeteram a transplantes sem doadores resistentes ao HIV recaíram depois de ficar sem HIV por meses. Entretanto, eles têm menos certeza sobre o papel desempenhado pelo resto do processo de transplante. Por fim, restam dúvidas sobre o “condicionamento” intensivo pré-transplante de Timothy, um regime de quimioterapia e radiação que destrói o sistema imunológico para dar espaço às células transplantadas, e a doença do enxerto contra o hospedeiro que ele desenvolveu após o segundo transplante.

“Mesmo para um paciente com câncer, ele passou por um tratamento extraordinariamente intensivo, com dois transplantes e a quimioterapia”, disse Peterson. “Ele passou por muita coisa.” O objetivo do defeatHIV é não colocar ninguém que seja saudável através de um tratamento tão duro, algo que o próprio Timothy reconhece como impossível.

Embora seja necessário algum condicionamento para criar espaço para o crescimento de novas células-tronco, Peterson está usando para isso uma maneira muito menos agressiva. Além disso, o transplante autólogo evita a doença potencialmente letal do enxerto contra o hospedeiro, que pode surgir quando um sistema imunológico do doador vê e ataca seu novo hospedeiro como sendo estrangeiro.

Por outro lado, diminuir esse risco letal pode representar diminuição nas chances de sucesso na cura do HIV. Afinal, sabe-se que se sabe que, no caso da leucemia, durante a doença do enxerto contra o hospedeiro as células do sistema imunológico do doador atacam e matam células de leucemia não atacadas pela quimioterapia ou pela radiação. Por essa razão, Peterson e outros pesquisadores acreditam que um segundo passo, para além de tornar as células-tronco resistentes ao HIV, pode ser necessário.

Próximos passos

Em um estudo publicado em dezembro, também no PLOS Pathogens, Peterson e colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles modificaram células-tronco adicionando um receptor de antígeno quimérico, ou CAR, programado para matar células infectadas pelo HIV, num processo semelhante a um tipo de terapia genética que está sendo testada contra o câncer.

A maioria das terapias contra o câncer ainda experimentais reprograma geneticamente as células T de um paciente. Os pesquisadores da cura do HIV no Fred Hutchinson estão trabalhando para reprogramar as células-tronco que dão origem às células T.

Por que células-tronco? “Uma breve longa história: elas vão persistir durante a vida do indivíduo”, explicou Peterson. No estudo publicado em dezembro, os pesquisadores notaram que as células-tronco pareciam produzir células T anti-HIV sempre que necessário. “O interessante é que podemos ver que as células CAR vêm e vão enquanto o vírus vem e vai”, disse ele. “Quando colocamos os animais em terapia antirretroviral, as células CAR diminuem. Quando os tiramos, elas voltam. Elas agem como sentinelas, indo dormir e acordando de volta sempre que necessário.”

Idealmente, o tratamento combinaria as modificações do gene CCR5 e células CAR. “Acreditamos que, ao permitir que uma célula editada sem CCR5 e resistente a infecções  procure células infectadas usando uma molécula CAR, podemos melhorar ainda mais a capacidade de reduzir ou eliminar reservatórios”, disse Peterson. “Seria uma abordagem mais ativa do que passiva”.

Peterson e seus colegas, juntamente com colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, continuam a aperfeiçoar técnicas para aumentar a proporção de células editadas por genes, bem como planejam um estudo combinando sobre mutação protetora de CCR5 com células CAR.

Enquanto isso, o City of Hope Medical Center na Califórnia e a Sangamo Therapeutics, abriram um pequeno estudo clínico em humanos, testando um transplante autólogo de CCR5, que é semelhante aos estudos em animais de Peterson, mas usando um regime de condicionamento diferente. “Estamos entusiasmados para ver onde isso vai dar”, disse Peterson.

“Quando escrevi o texto Recorte o seu HIV percebi que este soou um tanto otimista para alguns leitores. Entretanto, sustentar uma visão otimista desvinculada da realidade nunca foi minha intenção. Sou partidário do realismo, sem poliana, como disse um leitor. Convencer os outros também nunca foi minha pretensão. Penso que recortar o HIV do seu espaço e tempo é medida concreta, realista e necessária.

Olhar para ele com os olhos do passado é um erro, mas, ainda assim, é uma opção pessoal. Não é a minha escolha particular. Mas pode ser a sua. Afinal, é você quem decide como interpretar essa questão íntima. Contudo, me senti em débito com aqueles que leram o texto. Afinal, se o vírus e a contaminação não foram capazes de impedir uma análise “otimista”, então o que seria? O Dólar. Minha resposta é: o Dólar. Mas por que?

Vou tentar percorrer um caminho de reflexão lógica — e, ao mesmo tempo, me manter calmo para não passar mal do estômago. Se você estivesse aqui, acho que me apoiaria em você para entrar nesse percurso escuro, porque vou lhe apontar uma monstruosidade horrenda, abjeta, vil e repugnante. Algo que eu tenho medo, que drena quase todas as minhas esperanças, porque é apenas a unha desse animal fétido e asqueroso. Então me ajude. Me dê licença, vou apertar a sua mão e pode doer. Sigamos.

Você já deve ter ouvido falar da CROI. É uma das mais importantes conferências do mundo sobre o HIV. Ocorre uma vez por ano e tem enorme repercussão mundial na área. Profissionais das melhores universidades do mundo e pesquisadores das mais importantes farmacêuticas são convocados para palestrar nesse evento. Recentemente, na CROI 2018, que ocorreu no mês de março, em Boston, houve a apresentação de uma pesquisa desenvolvida em Harvard: trata-se de um estudo absolutamente inédito e que chegou a um estágio em direção à cura que nenhum outro estudo chegou. Gerou um inédito precedente científico. Com uma combinação de dois anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes, o PGT121 e o Agonist GS-9620, os quais conseguiram a supressão viral sem utilização de antirretrovirais, só com os anticorpos, e por longo prazo, em um grupo de macacos Reshus infectados com o s-HIV, similar ao HIV humano. Isso nunca foi alcançado antes. Os estudos foram conduzidos em Harvard sob a liderança do médico Dan Barouch. Essa pesquisa, aliás, está em andamento.

A questão é que, uma das empresas que lidera o aporte financeiro para essa pesquisa e várias outras, é a Gilead Sciences, uma das maiores empresas do mundo que desenvolve medicamentos para tratar a infecção pelo HIV. Obviamente, pelo porte empresarial, trata-se de uma S/A, de capital aberto, isto é, uma empresa que possui ações na bolsa de valores, principalmente na bolsa Nasdaq, em Nova York, a maior bolsa de valores do mundo.

Pois bem. Apenas para se ter uma ideia, essa empresa faturou, em um ano comum, 14 bilhões de dólares com a venda de medicamentos antirretrovirais no planeta. Vamos lembrar, para não vulgarizar os números, que 1 bilhão equivale a 999 milhões de dólares, mais 1. A Gilead arrecadou 14 bilhões de dólares em 12 meses. Isso só é possível graças à estratégia da empresa, que consiste em financiar grupos de pesquisas, geralmente ligados à universidades, e comprar os direitos sobre a pesquisa. Em seguida, realizam os registros desses domínios científicos formalizando as patentes dos medicamentos. E vem fazendo isso há anos, assim como suas concorrentes.

Porém, ocorreu um caso emblemático na história recente dessa empresa. Durante anos ela investiu milhões de dólares em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos contra a Hepatite C. Investiu muito e arrecadou uma fortuna gigantesca. O modelo de financiar pesquisas e registrar patentes foi tão bem-sucedido que, após alguns anos, conseguiram um feito inédito contra a Hepatite C: desenvolveram um medicamento que promoveu a sua cura. Sim. A cura. A Gilead Sciences conseguiu esse feito maravilhoso para todos os seres humanos — uma conquista notável, meritória, honrosa e que recebeu elogios de todo o mundo. Exceto do mercado financeiro.

Com a cura, os pacientes passaram a ficar independentes dos medicamentos para essa enfermidade que, até então, era crônica e demandava medicamentos de uso contínuo. Assim, apesar dos bilhões arrecadados nos primeiros anos, o gráfico de arrecadação passou a diminuir à medida em que os pacientes se curavam; com os anos, menos pacientes passaram a comprar o medicamento. Esse gráfico do declínio no lucro está, nesse ano, em uma curva descendente se comparado com os anos em que a doença era crônica.

E os investidores da empresa, que compram suas ações na bolsa de valores, perceberam que a Gilead Sciences diminuiu o lucro sobre esse medicamento à medida que os anos passaram. O mercado consumidor do medicamento reduziu à proporção em que as pessoas se curaram. Basicamente, do ponto de vista puramente financeiro, a ação da empresa passou a valer menos na bolsa de valores, pois ela já não lucra tanto quanto na época em que a doença era crônica e a venda dos medicamentos contínua.

Dessa forma, para o mercado financeiro, a cura não foi o melhor negócio para a empresa, embora tenha gerado um inestimável benefício para a vida dos pacientes e para a humanidade. Diante disso, a questão que se coloca é: em nosso mundo, vale mais o bem que se realiza para a humanidade ou os dólares que se arrecadam? Infelizmente, a resposta é até dispensável, de tão óbvia. Estamos começando a ver a primeira imagem, ainda fosca, daquela anomalia bizarra, abjeta e repugnante que mencionei no começo, quando pedi a sua mão porque estava com medo. O cheiro de enxofre é forte e a náusea já me toma conta. Mas, sigamos.

Ver a especulação financeira em risco é algo tão perturbador para o mercado que uma importante corretora de valores, com milhares de investidores nos EUA, e que emite análises semanais do mercado cambial americano e mundial — a Motley Fool — publicou, em 8 de março desse ano, um artigo sobre a Gilead Sciences afirmando que: “as vezes a cura é pior do que a infecção”. Segundo o autor, de grande influência no mercado americano, esse aforismo poderia ser aplicado à Gilead Sciences por ter encontrado e disponibilizado a cura da Hepatite C. Ao que parece, para o analista, ao invés de curar as pessoas, a saída poderia ser manter o ser humano enfermo e poder lucrar com isso, ano após ano, morte após morte. E o que isso tem a ver conosco?

Como sabemos, o HIV ainda não tem cura. Nem funcional, nem esterilizante. No entanto, não há como negar que o caminho é promissor. Há várias frentes de pesquisa sendo desenvolvidas no mundo, em diferentes universidades. E a Gilead Sciences patrocina grande parte deles. Em tempo: você leu sobre o excelente congresso que ocorre em abril de 2018, na USP, sobre patogênese do HIV? O folder está no blog. Tenha a curiosidade de verificar quem são os patrocinadores do evento, no site do evento. Voltando. Como disse acima, essa empresa financia parte daquele estudo sobre os anticorpos neutralizantes, que parece ser um dos mais promissores até hoje. Além de muitos outros pelo mundo.

Ocorre que a situação do HIV hoje lembra muito ao mercado financeiro o episódio da cura da Hepatite C. E sob o aspecto puramente financeiro e mercantil, a cura do HCV (Hepatite C) não foi bem vista no mundo financeiro. O mercado está atento aos movimentos dessa importante farmacêutica mundial. Tanto que, em outro artigo, citando expressamente o resultado inédito das pesquisas com anticorpos monoclonais divulgadas no CROI 2018, a agência Motley Fool novamente pressionou a Gilead Sciences perante os investidores. Apresentou aos clientes uma análise de investimentos intitulada: “Estaria a Gilead tentando se colocar fora do mercado?”. E, no início do texto, o mais assustador: “Você acha que a Gilead Sciences aprendeu a lição sobre a Hepatite C, em que curar pacientes está fazendo com que a receita da empresa diminua à medida que cada tratamento bem-sucedido resulta em um mercado menor de pacientes para trabalhar. Mas está de volta com uma cura potencial para o HIV.” Só um pouco. Vou ali vomitar e já retorno.

Atualmente, no mundo, duas grandes empresas lideram e rivalizam, dólar a dólar, o mercado de antirretrovirais para o tratamento do HIV. São elas: GlaxoSmithKline (GSK) e a Gilead Sciences. Esporadicamente alguma outra empresa disputa no chão lamacento alguma moeda caída desse duopólio. No entanto, se efetivamente não houver nada no subterrâneo; se não existir um esgoto fétido ligando essas duas grandes empresas, temos que agradecer a existência de uma concorrência no mercado. O fato de não existir apenas uma empresa no domínio, muda completamente o cenário para nós, desde que isso seja real. E tudo indica que é.

Na verdade, essa disputa gera uma verdadeira corrida para quem consegue o medicamento mais rentável. Ocorre que este medicamento, nos dias atuais, para vender mais, precisa ser mais eficiente, com menos efeitos e com melhor posologia. E esse caminho vai se estreitando, porque as patentes vão vencendo, os genéricos entram no mercado, diluem os lucros, até que a disputa esteja com medicações extremamente eficazes e busquem a cura, etapa que estamos atualmente. Quem lançar primeiro, fatura mais.

Graças a essa disputa, que ocorre par e passo entre as empresas, temos, todos os anos, vários medicamentos novos e mais eficazes sendo aprovados nos EUA pelo FDA (Food and Drug Administration), e que acabam chegando aos pacientes do Brasil, ainda que com considerável atraso. Confira-se, por exemplo, a disputa de mercado que existe entre os mais recentes medicamentos para pacientes naïve (virgens de tratamento) entre a GSK e a Gilead. O medicamento Juluca vs. Bictegrvir. O Juluca é da GSK. O Bic é da Gilead. Esses medicamentos são absolutamente revolucionários do ponto de vista da toxicidade a longo prazo. Praticamente são atóxicos e sem efeitos, para a grande maioria.

Mas, como eu disse, para isso ser real, ou seja, para que a disputa conduza à cura, deve haver efetivamente a concorrência. É preciso que exista duas ou mais empresas rivais. Nesse ambiente de adversários reais, ainda que haja uma eventual tentativa de acordo para atrasar a cura ou o lançamento de uma nova medicação, a trapaça não é improvável. Afinal, representa lucro. Mas, para todo esse raciocínio fazer sentido, não pode haver uma única empresa. Não pode haver acordo subterrâneo. Não pode haver fraude. E, nesse contexto, reitero, não tenho medo do vírus. Tenho medo do Dólar.

Um grande abraço.
Allpe”

[dropcap]P[/dropcap]ensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

[dropcap]N[/dropcap]enhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

[dropcap]F[/dropcap]ui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

[dropcap]E[/dropcap]u tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

[dropcap]E[/dropcap]m trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

[dropcap]E[/dropcap]u sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

[dropcap]S[/dropcap]uperar a capacidade do HIV para se manter dormente mesmo na presença da terapia antirretroviral parece ser a chave para o desenvolvimento de uma cura para o vírus — um objetivo que ainda permanece evasivo. Mas uma nova pesquisa publicada no Journal of Clinical Investigation sugere que um mecanismo epigenético, que controla a expressão dos genes, pode afastar o HIV do esconderijo e torná-lo vulnerável aos antirretrovirais.

“Trabalhamos com mecanismos que poderiam ser usados ​​para perturbar a latência do HIV”, disse Satya Dandekar, PhD, autor sênior do estudo. “O objetivo é forçar o vírus a ser expresso para que seja visível para o sistema imunológico.” Neste novo estudo, os pesquisadores concentraram-se na crotonilação, um processo que envolve enzimas genéticas e que modifica a proteína que embala o DNA e, assim, afeta a expressão dos genes. “A crotonilação de histona regula a latência do HIV”, explicou Guochun Jiang, PhD, o primeiro autor do estudo. “Se conseguirmos modular isso, o vírus pode ser mais eficientemente eliminado”.

Para obter uma compreensão mais aprofundada da crotonilação, os autores investigaram a enzima ACSS2, que desempenha um papel no metabolismo de ácidos graxos no intestino. Essa enzima pode ser um alvo importante, já que, de acordo com esse estudo, o HIV está associado a um metabolismo lipídico prejudicado. Os pesquisadores examinaram amostras de sangue de pacientes soropositivos e modelos celulares de latência. Quando ACSS2 foi ativado, o coletor de transcrição viral aumentou. “Examinamos modelos celulares bem caracterizados de latência do HIV e células imunes de pacientes com HIV que passaram por terapia antirretroviral e com cargas virais indetectáveis”, disse o Dr. Dandekar. “Nessas amostras, conseguimos perturbar a dormência do HIV induzindo crotonilação de histonas.”

Curiosamente, o aumento da crotonilação de histonas funcionou sinergicamente com outros tratamentos de latência anti-HIV, o que sugere que uma terapia de combinação poderia ajudar a atingir células latentes. Agora, os autores estão trabalhando para descobrir outras moléculas que atacam a latência para formular um ataque mais forte contra o HIV. “Estamos à procura de perturbações sinérgicas, combinando crotonilação de histonas com outros mecanismos para reativar o HIV”, afirmou o Dr. Dandekar.

Nivolumab, um medicamento para tratamento de câncer de pulmão, pode induzir o esgotamento do reservatório de HIV, de acordo com uma carta publicada nos Anais de Oncologia e noticiada no Infectious Disease Advisor.

A Dra. Amélie Guihot, do Hôpital Pitié Salpêtrière, em Paris, e colegas descreveram o caso de um fumante de 51 anos, que vive com HIV desde 1995 e que foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio IIIa em maio de 2015. Menos de seis meses após o término da quimioterapia, o paciente sofreu uma recaída e foi tratado com Nivolumab, como segunda linha de tratamento contra o câncer, em dezembro de 2016. Sua carga viral sanguínea do HIV já era indetectável, sob Emtricitabina, Tenofovir e Dolutegravir.

Os autores observaram então um aumento progressivo e modesto da carga viral do HIV, até 101 cópias/mL, no 45º dia, seguido de uma diminuição para 31 cópias/mL, no 120º dia. Também observaram um leve aumento na ativação das células T, entre o 14º e 15º dias, com diminuições foram observadas nas células T PD1 + CD4 e CD8 no 30º dia. Um aumento acentuado foi observado nas frequências de células T CD8 e RT, específicas contra o HIV, entro 0 30º ao 120º dias. Uma diminuição drástica e persistente foi então observada no DNA do HIV associado às células. “Este primeiro relatório de uma redução bem sucedida dos reservatórios de HIV e abre novas perspectivas terapêuticas para a cura do HIV”, escreveram os autores.

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

Um estudo publicado na Science, em 20 de setembro de 2017, descreve o resultado do desenvolvimento de um anticorpo amplamente neutralizante (ou bnAb, do inglês broadly neutralizing antibody), que mostrou-se capaz de atacar 99% das cepas de HIV e de prevenir a infecção em macacos. Esse anticorpo é “trispecífico”, o que quer dizer que uma única molécula interage com três pontos importantes do HIV-1: o local de ligação ao CD4, a região externa próxima da membrana, o local de glicano V1V2.

Anticorpo amplamente neutralizante.

Esses anticorpos são originalmente vistos em algumas pessoas com HIV, que os desenvolvem naturalmente. Mesmo assim, os anticorpos naturais são capazes de agir contra 90% das cepas de HIV. Por isso, a ideia dos cientistas é desenvolvê-los artificialmente, mais fortes, para tratar ou prevenir a infecção pelo HIV. “Eles são mais potentes e têm uma amplitude maior do que qualquer anticorpo natural que tenha sido descoberto”, disse Gary Nabel, diretor científico da Sanofi e um dos autores do estudo, à BBC. “Estamos conseguindo proteção de 99% e com concentrações muito baixas do anticorpo.”

O experimento foi feito em 24 macacos: nenhum dos animais que recebeu o anticorpo desenvolveu a infecção quando o vírus SHIV (uma mistura de HIV com seu equivalente símio, o SIV) foi posteriormente injetado. “Foi um grau impressionante de proteção”, disse Nabel. O trabalho é uma colaboração entre os National Institutes of Health americano e a empresa farmacêutica Sanofi, e incluiu cientistas da Harvard Medical School, do Scripps Research Institute e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Os estudos em humanos começarão em 2018.

Segundo a BBC, a professora Linda-Gail Bekkera, da International Aids Society, disse que este é um “avanço emocionante”. “Esses anticorpos superdesenvolvidos parecem ir além do natural e podem ter mais aplicações do que imaginamos até agora”, acrescenta ela. “É cedo ainda e, como cientista, espero que os primeiros ensaios sejam iniciados em 2018”, continua. “Como médica na África, sinto a urgência de confirmar essas descobertas em humanos o mais rápido possível”.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, diz tratar-se de uma abordagem intrigante. “As combinações de anticorpos que atacam uma parte específica do HIV podem superar as defesas do vírus na tentativa de conseguir um tratamento e prevenção efetivos baseados”, disse ele.