O acompanhamento médico da infecção pelo HIV é essencial, tanto para quem não apresenta sintomas e não toma remédios (fase assintomática), quanto para quem já exibe algum sinal da doença e segue tratamento com os medicamentos antirretrovirais, fase que os médicos classificam como aids.

Nas consultas regulares, a equipe de saúde precisa avaliar a evolução clínica do paciente. Para isso, solicita os exames necessários e acompanha o tratamento. Tomar os remédios conforme as indicações do médico é fundamental para ter sucesso no tratamento. Isso é ter uma boa adesão.

O uso irregular dos antirretrovirais (má adesão ao tratamento) acelera o processo de resistência do vírus aos medicamentos, por isso, toda e qualquer decisão sobre interrupção ou troca de medicamentos deve ser tomada com o consentimento do médico que faz o acompanhamento do soropositivo. A equipe de saúde está apta a tomar essas decisões e deve ser vista como aliada, pois juntos devem tentar chegar à melhor solução para cada caso.


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Neste domingo (18) é comemorado o Dia do Médico no Brasil e em alguns países onde o cristianismo é forte, como Portugal, Bélgica, Espanha, Itália e Polônia. A data foi escolhida em homenagem ao santo do dia, São Lucas. Ele teria estudado medicina em Antioquia (Turquia) e também teria sido pintor, músico e historiador. Consta na literatura católica que Lucas conviveu com o apóstolo Paulo e foi chamado por ele de “o médico amado”. Há muitos assim chamados nos dias atuais por causa do amor que dedicam em sua missão de cuidar de vidas, promovendo saúde, bem-estar, confiança, compreensão e respeito. No caso de pacientes com HIV/aids, desde sempre  marcados pelo estigma e pelo preconceito, esse tratamento é tão importante quanto os antirretrovirais. Por isso, aproveitamos a oportunidade para homenagear médicos que sempre estiveram na linha de frente das batalhas contra a aids.

Nos consultórios, hospitais, gabinetes, nas ruas. Eles são incansáveis na luta contra aids:

Paulo Teixeira

foi criador do primeiro programa de DST/aids na América Latina, em 1983. Na época estava à frente do Programa de Hanseníase da Divisão de Dermatologia Sanitária, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, onde lutava para garantir assistência adequada e redução do estigma e do preconceito em relação aos portadores de hanseníase. Quando os primeiros três casos de aids foram notificados no estado, convenceu o então secretário da Saúde, João Yunnes, a criar um programa para enfrentamento da epidemia. Nascia, o que viria a ser o Programa Estadual DST/Aids. Em 1985, o modelo paulistano já era referência para doze estados.

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Médico formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu), com especialização em dermatologia pela Universidade Federal Paulista (ex-Escola Paulista de Medicina) e em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública de São Paulo/USP. Paulo Teixeira coordenou o Programa de Aids do Estado de São Paulo em vários momentos, de 1983 a 1987, 1990 a 1991 e 1995 a 1996. Em 1994, desenvolveu trabalhos de consultoria para a Organização Panamericana de Saúde (Opas); de 1996 a 1999, ocupou a função de consultor técnico do Programa de Aids nas Nações Unidas (Unaids) para América Central e Cone Sul. Em 2000, assumiu a direção da Coordenação Nacional DST/Aids do Ministério da Saúde. Em sua gestão, propôs a quebra de patentes dos remédios importados, caso os preços não baixassem. Ajudou a organizar o Fundo Mundial para a Aids, Tuberculose e Malária. Sob sua coordenação, o Programa Nacional de DST/Aids foi agraciado com o Prêmio Bill e Mellinda Gates. O prêmio, equivalente a US$ 1 milhão, foi integralmente usado para projetos de casas de apoio a portadores de HIV/aids.

Dirigiu o Programa de Aids da Organização Mundial da Saúde, em 2003. Ao mesmo tempo, participou de inúmeras batalhas que culminaram na Declaração de Doha (2001), onde pela primeira vez, a Organização Mundial do Comércio (OMC) reconheceu que o acordo internacional de patentes não deve se sobrepor às questões de saúde pública. Desde 2004, Paulo Teixeira está em São Paulo onde exerce a função de consultor sênior do Programa Estadual DST/Aids-SP.

Zarifa Khoury chegou no Hospital Emílio Ribas junto com os primeiros casos da doença. Médica infectologista, tem graduação em medicina pela Universidade de Mogi das Cruzes (1982) e mestrado em infectologia pela Universidade Federal de São Paulo (1992). É coordenadora do ambulatório e monitora de residentes no Hospital Emilio Ribas, onde começou em 1983. O primeiro paciente com aids que a médica atendeu foi também um dos primeiros casos diagnosticados no país. Um cabeleireiro gay, que tinha morado em São Francisco, nos Estados Unidos.

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Responsável pela Cadeira de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro, também trabalha no Hospital Albert Eisntein e no Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, onde, no último ano, coordenou o projeto Consultório na Rua, no bairro Campos Elíseos, na região conhecida como “cracolândia”. O projeto consiste em ir até as pessoas e tratá-las individualmente, na rua, com agentes de saúde levando as doses de antirretrovirais na hora certa.

Atualmente, Zarifa luta para que o governo crie um protocolo específico de tratamento de HIV/aids para população de rua. Segundo ela, no Hospital Emílio Ribas, de 40 leitos designados aos pacientes com a doença, 34 costumam estar ocupados por moradores de rua, 80%  deles sem adesão ao tratamento.

David Uip é um político que não quer abandonar o consultório. Considerado um dos melhores especialistas em HIV/aids, é um dos pioneiros no tratamento de pacientes com a doença  país. Hoje é  secretário estadual da Saúde do Estado de  São Paulo. Costuma dizer que cargo nenhum na política ou onde quer que seja o afastará do consultório médico, pois sua paixão são os pacientes.

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Graduado em medicina pela Faculdade de Medicina da Fundação Universitária do ABC (1975), fez mestrado em doenças infecciosas e parasitárias pela Universidade de São Paulo (1989) e doutorado na mesma área pela mesma instituição (1993). Foi diretor do InCor (Instituto do Coração) e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. É também livre docente da USP.

David Uip tem trabalho importante no tratamento de pacientes em países da África e também é reconhecido pelo sucesso das pesquisas realizadas na Casa da Aids,  instituição que funcionou por 18 anos como uma das principais referências de tratamento gratuito em  São Paulo, num prédio na Rua Frei Caneca. Em 2012, o projeto fechou as portas e os quase três mil pacientes que eram atendidos ali foram encaminhados ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas. No ano passado, a casa reabriu, em Pinheiros.

Cáritas é uma infectologista com atuação em diversas áreas. Ela tem muitos títulos: Medicina pela Universidade de Brasília com especialização em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo), Avaliação de Programas de Controle de Processos Endêmicos pela Fiocruz, mestrado em Saúde Pública,  pela USP, doutora em Ciências pelo Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Entre as inúmeras pesquisas e estudos das quais participou estão a QualiAids, do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP; foi investigadora principal dos protocolos multicêntricos SILCAAT e ESPRIT patrocinados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) para melhorar a resposta à epidemia das pessoas vivendo com HIV/aids.

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De 1998 a 2003, foi gerente de Assistência no Programa de DST/Aids do Estado de São Paulo e, de 2011 a 2013, trabalhou como coordenadora do Programa de DST/Aids do município de Embu das Artes.

Desde 2014, Cáritas coordena a área de Assistência do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, atuando principalmente no planejamento, na avaliação e na assessoria técnica das atividades dos serviços  de assistência especializada (SAE); assim como na emissão de notas técnicas e na promoção da capacitação dos profissionais da rede para melhorar a qualidade do trabalho. E, também atua como médica infectologista no CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo).

Helizabet Ayroza Ribeiro atende mulheres com endometriose e HIV. Ela terminou sua especialização em Ginecologia e Obstetrícia na Santa Casa de São Paulo no ano de 1998. Desde então, atua como professora nesta entidade na qual defendeu mestrado no ano de 2006 e doutorado em medicina no ano de 2010. Dedica-se à Ginecologia Minimamente Invasiva com interesse especial à Videolaparoscopia e Videohisteroscopia.

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Atualmente, participa de estudos que investigam a interferência de diversos fatores biomoleculares na gênese e na progressão da endometriose, bem como os efeitos do tratamento da endometriose na qualidade de vida das mulheres portadoras desta doença. A médica atende várias mulheres vivendo com HIV/aids que têm endometriose.

 

Eles têm atuação fundamental na adoção das políticas de combate à aids:

Fábio Mesquita está à frente das ações nacionais de combate à aids. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Londrina,  desde julho de 2013, é diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. Doutor em saúde pública pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em HIV/aids, ela já coordenou os Programas Municipais de DST/Aids em Santos, São Vicente e São Paulo. Também chefiou as unidades de Prevenção e Direitos Humanos do então Programa Nacional de Aids do Ministério da Saúde, hoje Departamento.

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Fábio é fundador e membro honorário permanente da Associação Internacional de Redução de Danos (em inglês International Harm Reduction). Antes de ser convidado para assumir a direção do Departamento, era membro do Corpo Técnico da Organização Mundial de Saúde (OMS), atuando no escritório do Vietnã, com base em Hanoi. Foi também coordenador da OMS (Organização Mundial da Saúde) na região da Ásia e do Pacífico, das ações de controle da epidemia de HIV/aids entre as pessoas que usam drogas. Tem vasta experiência na área de saúde coletiva, com ênfase em gestão pública do Sistema Único de Saúde (SUS), gerência de programas de DST/aids e de políticas públicas sobre drogas no Brasil e no mundo.

Maria Clara Gianna coordena cerca de 140 municípios no estado de São Paulo. Está à frente do Programa Estadual de DST/Aids do Estado de São Paulo, que coordena mais de 140 municípios  nas políticas de prevenção e combate à doença. É médica sanitarista, formada pela Faculdade de Medicina da Santa Casa.

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Maria Clara já foi diretora da Divisão de Vigilância Epidemiológica do Programa Estadual DST/Aids, entre 1989 e 1994, técnica da Divisão de Vigilância Epidemiológica do Programa Estadual DST/Aids entre 1988 e 1989. Também foi coordenadora adjunta do Programa Estadual e diretora-adjunta do CRT (Centro de Referência e Treinamento DST/Aids), uma das referências mundiais na luta contra a aids, vinculado ao Programa Estadual, de 1995 até 2005. Participou da elaboração do Plano Nacional para Aids de Luanda, em 2003.

Eliana Gutierrez comanda as políticas de aids na cidade de São Paulo. Eliana Gutierrez coordena o Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo desde 2013. Ela se formou em medicina, fez residência médica no Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias, especialização em Saúde Pública e doutorado em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP.

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Pela Santa Casa de São Paulo, especializou-se em medicina do trabalho. Atuou principalmente nas áreas de imunodeficiência humana e tratamento antimicobacteriano. Ocupou a direção-adjunta do Centro de Epidemiologia, Pesquisa e Informação da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e a direção da Casa da Aids, serviço ligado à Secretaria de Estado da Saúde.

Pedro Chequer é um desbravador de fronteiras. Médico sanitarista e epidemiologista, é um dos principais nomes do combate à aids e ao preconceito no Brasil e no mundo. Cofundador do Programa Nacional de DST/Aids, hoje Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, dirigiu o órgão por duas vezes, entre 1996 e 2000 e 2004 a 2006.

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Foi representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) para a região do Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai), na Rússia, interinamente em Moçambique, e duas vezes no Brasil. É especialista em saúde pública, dermatologia sanitária e mestre em epidemiologia pela Universidade da Califórnia em Berkeley (USA). Atualmente está na diretoria e conselho da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar e Aids).

Almir Santana foi o primeiro médico a cuidar de um soropositivo em Sergipe. De  Aracaju (SE), é médico formado pela Universidade Federal de Sergipe em 1981, com especialização em Saúde Pública. Ele coordena o Programa Estadual de DST/Aids daquele estado desde 1987 e é professor de biologia desde 1982.

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Foi o primeiro médico a aceitar atender pacientes com HIV em Sergipe, 24 anos atrás. Com especialização em Saúde Pública, Almir Santana desenvolveu ações inovadoras, a exemplo das campanhas de prevenção regionalizadas no Brasil. Criou o Camisildo, a Unidade Móvel Fique Sabendo e o Programa de Prevenção da Sífilis Congênita em parceria com a Igreja Católica. Além disso,  integra grupos de trabalho na área de comunicação do Departamento Nacional DST/Aids e Hepatites Virais. Mantém um blog no portal Infonet, no qual  escreve sobre saúde, especialmente HIV/aids e outras DSTs.

Rosa de Alencaré a paraense que coordenou a criação dos ensaios clínicos do Centro de Referência em DST/Aids de São Paulo. É coordenadora-adjunta do Programa Estadual de DST/Aids do Estado de São Paulo. Formou-se em medicina pela Universidade Federal do Pará, em 1984. Iniciou a carreira  no CRT-SP em 1989, após a especialização em infectologia no Hospital Heliópolis. Nessa época,  integrava a equipe do ambulatório, tendo sob seus cuidados grande número de pessoas vivendo com HIV/aids. Realizava atividades de capacitação de profissionais da saúde para o atendimento a portadores de aids em todo o Estado.

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Em 1993, assumiu o Serviço de Assistência à Saúde do CRT. A partir de 1995, passou a atuar na estruturação e na ampliação da rede de serviços especializados e das modalidades assistenciais, como implantação de hospitais-dia e assistência domiciliar terapêutica, além dos SAEs (Serviçso de Assistência Especializada). Coordenou em 1995, dentro do CRT, o campo de pesquisa do primeiro Estudo Clínico Multicêntrico realizado no Brasil para avaliação da eficácia de um inibidor da protease. Iniciava-se o processo de estruturação da atual unidade de ensaios clínicos, referência para o Estado.

Destacamos 15 profissionais. Por meio deles, estendemos nossa homenagem a todos os demais que se dedicam a cuidar das pessoas vivendo com HIV/aids, promovendo não apenas saúde mas também respeito, confiança, amor, compreensão, cumplicidade, entre outros princípios tão essenciais no tratamento desses pacientes marcados pelo estigma e pelo preconceito.

 

Os avanços da aids passaram pelas mãos desses profissionais:

Esper Kallás é referência em pesquisas de vacina contra o HIV. Nasceu em Itajubá (MG) e concluiu mestrado e doutorado em doenças infecciosas e parasitárias. É médico infectologista e imunologista, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e livre-docente pela mesma instituição, em 2009. Também é pesquisador do LIM-60, Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia, onde realiza projetos de medicina de tradução, trazendo conceitos de ciência básica para aplicações clínicas em diversos tratamentos.

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Esper é responsável pelo PrEP Brasil na USP, o estudo que visa implementar a profilaxia pré-exposição no Brasil. É o investigador principal da unidade de pesquisa clínica que estuda novas drogas e vacinas terapêuticas e preventivas em parceria com o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.

Nise Yamaguchi é uma oncologista incansável na busca do tratamento humanizado. Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em 1982, com mestrado e doutorado também em medicina na FMUSP, Nise Yamaguchi é considerada uma das melhores oncologistas do país. Fez, em 1983, vários cursos e estágios na Alemanha e na Suíça em medicina humanizada e  antroposofia. Também fez intercâmbio científico no Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova York e no MD  Anderson Cancer Center de Houston, ambos nos Estados Unidos.

Sua residência foi em clínica médica e imunologia no Hospital das Clínicas da FMUSP, de 1984 a 1986, e estagiou em oncologia na Clínica Paulista de Oncologia. Nise recebeu ainda os títulos de especialista em oncologia clínica pela European Society of Medical Oncology e pela Sociedade Brasileira de Cancerologia e Associação Médica Brasileira e em Alergia e Imunopatologia pela Associação Médica Brasileira.

Tem o título de Médica Cancerologista com área de atuação em Oncologia Clínica pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC). Foi diretora científica da SBC entre 1997-2000, quando participou da idealização e da organização dos Centros de Alta Complexidade no Brasil.

 É diretora do Instituto Avanços em Medicina e  sua linha de pesquisa é sobre medicina personalizada no câncer, dando aula regularmente sobre o tema no Curso de Pesquisa Clínica da Harvard Medical School.  Ajudou a fundar a World Cancer Alliance, sediada em Lyon, onde colabora para melhorar o acesso ao tratamento do câncer em países de baixa e média  rendas.

Marinella Della Negra é referência nacional no tratamento de crianças com aids. Especializada em aids pediátrica,  se formou pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo em 1971. Fez pós-graduação no Instituto Brasileiro de Pesquisas em Gastroenterologia com a tese “Correlações clínico-patológicas e laboratoriais das alterações hepáticas na Aids pediátrica”.

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Participou, como médica residente do Hospital Emílio Ribas, do tratamento de vítimas de epidemias, como a de febre tifoide, ocorrida no Parque Edu Chaves, e a de meningite, que durou até 1975 e atingiu toda a capital. Durante a década de 70, cuidou também de pacientes portadores de diversas moléstias infectocontagiosas, como leptospirose, difteria, hepatite, entre outras. Fez estágio nos Estados Unidos, no North Shore University Hospital e no Albert Einstein Hospital, ambos em Nova York.

Marinella começou a trabalhar com crianças portadoras do HIV em 1985, quando muito pouco se conhecia sobre a aids e sua forma de transmissão. Foi quando aceitou acompanhar pela primeira vez um bebê soropositivo recusado por outras equipes. A partir daí,  passou a pesquisar a aids pediátrica e a procurar informações com especialistas, em revistas e em instituições internacionais. Os casos seguintes de crianças com HIV foram encaminhados a Marinella. Aos poucos, ela formou uma equipe que se  tornou altamente especializada no tratamento de crianças soropositivas.

Em 1989, a infectologista fundou  a Associação de Auxílio às Crianças Portadoras de HIV. Além de ajudar os doentes, fornecendo remédios, cuidando de seu encaminhamento a hospitais e ambulatórios, e de transmitir informações sobre a doença a pacientes e suas famílias, a entidade também organizou o primeiro encontro sobre aids pediátrica no Brasil.

Rosana Del Bianco conhece a realidade da aids desde os primeiros casos. Foi também no Hospital Emílio Ribas que teve contato com os primeiros doentes de aids e conheceu o médico Paulo Teixeira, fundador do Programa Estadual de DST/Aids.

“Na época (1983) também éramos estigmatizados. As pessoas tinham medo, achavam que aqueles que tratavam pacientes com aids eram infectados também”, ela conta.

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Rosana se formou em medicina em 1971, pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), fez mestrado em doenças infecciosas e parasitárias pela mesma instituição, em 1980, doutorado em infectologia (1998) e residência médica, em 1974. É funcionária da Faculdade de Medicina da USP.

A infectologista ajudou a fundar o primeiro hospital dia especializado em aids no país em 1986, dentro do CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP). Também já trabalhou no Ministério da Saúde e fez treinamentos para outros profissionais de Saúde no CRT e em Moçambique, na África.

Em 17 e 18 de outubro pela Agência de Notícias da Aids

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O Sportv Repórter voltou ao ar neste domingo, 2 de agosto de 2015, falando sobre o papel fundamental da prática de esportes no tratamento de portadores do HIV. Depois de 4 meses de pesquisa e pré-produção, a repórter Bruna Gosling e o repórter cinematográfico Julio Bittencourt reuniram depoimentos corajosos de soropositivos que encontraram no esporte um grande aliado ao tratamento e à qualidade de vida.

Segundo Bruna, que em abril deste ano convidou os leitores do Diário de um Jovem Soropositivo a participar desta edição do Sportv Repórter, a produção do programa foi um enorme aprendizado. “Me sinto realizada: tenho certeza de que vamos passar uma mensagem muito bacana e inspiradora para nossos telespectadores.”

Entre os entrevistados, o Sportv Repórter conta a história de Salomão, um ex-usuário de drogas e portador do HIV há 16 anos, que se tornou maratonista aquático e sonha em completar a travessia do canal da mancha. Ele treina diariamente no Tijuca Tênis Clube. O programa também mostra Givaldo, um maratonista apaixonado por corridas de rua de longa distância, que vive com HIV desde 1988 e frequenta a academia do Projeto Vida+, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. E Lene, balconista de uma padaria em São Paulo que vive há oito anos com o vírus, não esconde a sorologia de ninguém e pratica seus exercícios no Instituto Vida Nova, na zona leste da capital.

SporTV

“Para mergulhar no universo desses personagens, nossa equipe procurou infectologistas, como renomado pesquisador Dr. Mauro Schechter e a experiente Dra. Dirce Bonfim, frequentou por vários dias o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, referência no tratamento de aids na zona norte do Rio de Janeiro, contou com pesquisas e dados recentes cedidos pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e recebeu apoio com informações esclarecedoras de profissionais de educação física que, por ocasião do destino ou por motivações pessoais, buscaram se especializar na prescrição de exercícios para portadores de HIV”, contou Bruna.

Segundo os profissionais de saúde e educação física entrevistados no programa, o principal benefício do esporte para quem vive com HIV está na redução dos possíveis efeitos colaterais decorrentes do tratamento antirretroviral, como a lipodistrofia, que é redistribuição irregular de gordura corporal, alterações no perfil lipídico, perda de massa muscular e peso e osteopenia, a parda de massa óssea. Exercícios aeróbicos, treinamentos de força e de flexibilidade que diminuem o percentual de gordura no corpo e os níveis de triglicerídeos e de colesterol podem ajudar a minimizar esses efeitos. “Porém, a prescrição deve exigir um acompanhamento médico. Afinal, quanto maior a carga viral do portador menos intenso deve ser o exercício, já que o excesso pode comprometer o sistema imunológico do paciente.”

SPORTV

Com o título “Esporte Positivo”, o Sportv Repórter também relembra os exemplos de superação de astros do esporte, como o ex-jogador de basquete americano Magic Johnson, que se assumiu portador em 1991, e o ex-jogador de futebol Eduardo Esídio, o “Lica”, artilheiro do campeonato peruano. E não deixa para trás informações fundamentais: explica o que é a carga viral indetectável, fala da sua redução do risco de transmissão em 96%, mostra como funciona a infecção, a eficácia dos tratamentos atuais, reforça a importância do uso do preservativo e de não discriminar quem vive com HIV.

O programa será exibido:

Dia da Semana Data Hora Canal
SEG 03/08/2015 00:00 SPORTV
SEG 03/08/2015 04:30 SPORTV3
SEG 03/08/2015 19:30 SPORTV3
TER 04/08/2015 03:00 SPORTV2
TER 04/08/2015 07:00 SPORTV2
QUA 05/08/2015 18:00 SPORTV3
QUA 05/08/2015 23:00 SPORTV3
QUI 06/08/2015 06:30 SPORTV3
E também disponível online no site da Globo.com

“Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa, com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante — e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV.”

Essa foi a fala de Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que acontece até o dia 15 de abril, na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

“Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe. É mais poderoso que a camisinha.”

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê. Impedir a transmissão vertical”, explicou Fábio. A transmissão vertical é o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser impedida graças aos medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento durante a gravidez. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois, concordou com a eficácia comprovada do tratamento como prevenção. “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Brasil Post

Em 2008, Nick Rhoades, um homem soropositivo do estado de Iowa, nos Estados Unidos, foi preso sob a lei de “Transmissão Criminosa do HIV” porque não contou a um parceiro, com quem transou uma única noite, que era portador do HIV. Rhoades usou camisinha, tinha carga viral indetectável — o que quer dizer que não é possível detectar o vírus em seu sangue mesmo nos exames mais precisos de laboratório — e não transmitiu o vírus. Ele foi condenado a 25 anos de prisão.

Nos Estados Unidos, 33 estados possuem leis específicas que consideram criminosos os soropositivos que, conscientes de sua condição, não revelam a condição sorológica positiva antes do sexo, compartilham seringas, doam órgãos ou sangue ou cuspam em outras pessoas — muito embora seja amplamente sabido que a saliva não transmite HIV. Essas leis já foram aplicadas em 442 processos, condenando 251 indivíduos. Em estados americanos onde não há leis específicas, muitas vezes aplicam-se acusações de agressão, tentativa de homicídio ou bioterrorismo.

Vários países seguiram esse mesmo modelo jurídico, ora aplicando leis específicas, ora leis mais abrangentes. A Suécia chegou a ser o país com maior índice de processos per capita contra soropositivos. A Suíça criou duas leis diferentes e não-específicas para o HIV, as quais já foram usadas em processos de casos de exposição ou transmissão do HIV e não precisam de um denunciante. Graças a elas, desde 1989 foram abertos 39 processos, os quais resultaram em 26 condenações. Em breve, o Brasil pode entrar para o rol dos países com leis criminalizantes do HIV. O deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS) reapresentou uma proposta do ex-deputado federal Enio Bacci, de 1999, com o Projeto de Lei (PL) 198/2015, o qual pretende mudar a Lei dos Crimes Hediondos e punir quem “transmitir e infectar, consciente e deliberadamente a outrem com o vírus da aids.”

Brasilia

Mas será que essa lei é boa e pode de fato prevenir as transmissões de HIV? Reavaliando os casos de processo contra soropositivos, alguns países europeus perceberam que grande parte das condenações se davam quando os acusados eram estrangeiros — especialmente de origem africana e asiática. Nos Estados Unidos, a maioria dos acusados são negros, latinos, gays e mulheres e o processo segue mesmo em casos em que a transmissão do HIV não ocorreu. Muitas vezes, o soropositivo é processado mesmo tendo feito uso do preservativo ou num tipo de contato sexual que não poderia ter infectado seu parceiro.

Em 2009, um estudo suíço sobre as condenações impostas pelas leis criminalizantes do HIV no país mostrou que oito delas se deram após a divulgação voluntária do parceiro soropositivo a respeito de sua condição sorológica, antes do sexo, o qual foi feito sob pleno consentimento do parceiro soronegativo. Em outras palavras: o parceiro soropositivo avisou que tinha HIV, o parceiro soronegativo consentiu ao sexo e, mesmo assim, houve condenação do primeiro. Quando se deram conta disso, as autoridades daquele país perceberam que havia algo errado e a jurisprudência suíça mudou drasticamente. Naquele mesmo ano, o Tribunal de Justiça de Genebra anulou uma condenação de exposição ao HIV, depois de ouvir o testemunho de especialistas, autores da declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça, segundo a qual a falta de infecciosidade observada em indivíduos soropositivos que estão sob tratamento antirretroviral há pelo menos seis meses, com carga viral indetectável e sem coinfecção com outra DST, torna o risco de transmissão do HIV tão baixo que ele é, nas palavras da Comissão, “hipotético”.

“Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável.”

Até então, a declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça se baseava unicamente na observação de médicos desde o início da epidemia de HIV/aids. “Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje. Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais”, explica o Dr. Esper Kallás, médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP.

A afirmativa do Dr. Esper não é uma fala isolada. Hoje, mais de 9 mil casais sorodiscordantes — quando só um dos parceiros é positivo para o HIV — e que optam, deliberada e consensualmente, por não fazer uso consistente do preservativo, foram ou estão sendo acompanhados em pelo menos quatro diferentes estudos: HPTN 052, Partner, Opposites Attract e Partners Demonstration Project, já reconhecidos por consensos médicos americano, britânico, canadense e sueco, entre outros. Nesses estudos, também nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem é soropositivo, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 78% das pessoas que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral no Brasil apresentam esse perfil: carga viral indetectável.

“A criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV.”

Em uma nota na qual apela ao Congresso Nacional para que rejeite e arquive o PL 198/2015, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lembra que “a criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV. Estudos demonstraram que tratamento antirretroviral efetivo e consistente reduz até em 96% as chances de uma pessoa vivendo com HIV transmitir o vírus para seu parceiro sexual em relações desprotegidas. Portanto, uma pessoa em tratamento antirretroviral efetivo, ou seja, com carga viral indetectável, mesmo que tenha a intenção de transmitir o vírus, provavelmente não conseguirá fazê-lo.”

Hoje, a Suprema Corte americana entende que um risco de transmissão “hipotético”, tal como sugerido pelos suíços, é diferente de “razoável”. Em uma decisão por 6 a 1, a condenação de Nick Rhoades pelo estado de Iowa foi derrubada, sob o argumento de que os promotores não tinham provado uma “base factual” para o fundamento, inclusive em virtude da carga viral indetectável do condenado. Em 2013, um tribunal da Suécia também deu indícios de mudança de rumo: um relatório do Centro Nacional de Controle de Doenças Transmissíveis (Smittskyddsinstitutet, SMI) foi citado para absolver um homem soropositivo condenado a um ano de prisão por ter tido relações sexuais com quatro mulheres que nunca contraíram o vírus.

“Os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV.”

“A menos que esteja vivendo em uma caverna nos últimos anos, você deve saber que alguém com carga viral indetectável não transmite HIV”, afirma o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, e que tem respondido em seu blog à várias perguntas sobre a segurança oferecida pelo tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) e pela redução da transmissibilidade observada em quem vive com HIV, em tratamento e tem carga viral indetectável. “Pode ser difícil para algumas pessoas lidar com mudanças de paradigmas e mudar o pensamento que se tornou dogma por mais de três décadas e meia. Ainda há boas razões para usar preservativos: estamos vendo taxas inaceitavelmente altas de sífilis, gonorreia, clamídia e hepatite C entre homens gays sexualmente ativos que não usam camisinha. Mas os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV”, explica Gallant.

“A transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Para ajudar a mudar esse paradigma e as leis criminalizantes, em 2014, aconteceu em Iowa a conferência “HIV não é Crime”. Pouco depois, o Departamento de Justiça americano publicou o Guia com as Melhores Práticas para Reformar as Leis Criminais Específicas de HIV e para se Alinhar com Fatos Amparados Cientificamente, no qual afirma: “Muitas das leis estaduais criminalizam comportamentos que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) consideram apresentar risco nulo ou insignificante para a transmissão do HIV, mesmo na ausência de medidas de redução de riscos. A maioria destas leis foi aprovada antes do desenvolvimento da terapia antirretroviral, a qual o CDC reconhece reduzir o risco de transmissão do HIV em até 96%.” E conclui: “Os dados do CDC e outros estudos nos dizem que a transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Mas o deputado Marco Tebaldi (PSDB-SC), relator que votou pela aprovação do PL 198/2015, discorda do CDC. Ele pensa que “o nosso País experimenta uma verdadeira epidemia de contaminação dolosa de pessoas com o HIV, como noticiado pelos meios de comunicação”, provavelmente se referindo ao “clube do carimbo”, o grupo de soropositivos que transmitem propositalmente o HIV, “carimbando” sua vítimas com o vírus e instruindo outros sobre como fazê-lo também, conforme televisionado na reportagem do Fantástico, da Rede Globo. Paradoxalmente, dois dos entrevistados nesta reportagem — Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids Brasil, e o ativista Diego Callisto — reclamaram publicamente sobre a edição feita pelo programa. Segundo eles, as entrevistas na íntegra foram editadas de maneira a alterar o teor daquilo que consideravam como mais importante em suas falas, as quais teriam incluído, em grande parte, explicações sobre o tratamento como prevenção. O Unaids emitiu uma nota de esclarecimento, manifestando preocupação com a reportagem, e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) também repudiou a abordagem do assunto. O Fantástico fez então uma nova reportagem, no dia 22 de março, quando entrevistou o Dr. Jean Gorinchteyn, infectologista do Hospital Emílio Ribas. “A maior parte dos portadores de HIV são extremamente conscientes e preservam a saúde própria, bem como a dos próximos. O ‘carimbo’ acaba acontecendo principalmente para aqueles indivíduos que não fazem o tratamento”, explicou Gorinchteyn.

Indivíduos que negligenciam sua própria saúde e transmitem intencionalmente o HIV já podem ser condenados com base na legislação atual e vigente, sem a necessidade de uma lei específica. Na esfera criminal, entende-se que casos assim configuram lesão corporal grave, de acordo com o Artigo 129 do Código Penal, parágrafo 2º, inciso II. Então, por que a necessidade do PL 198/2015? Segundo o relator, porque “deve o Estado responder de forma rígida e justa, repreendendo o infrator de forma proporcional e deixando clara mensagem à sociedade de que não admite o cometimento dessa repugnante infração” — portanto, essa é uma lei que quer transmitir uma mensagem, mais do que ter uma eficiência penal.

“Sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV.”

Quando o assunto é saúde pública, no entanto, a mensagem deve ser mais cuidadosa e mais calculada. O Unaids, o CDC, o Departamento de Justiça americano e muitos dos países que, no passado, criaram leis criminalizantes do HIV, hoje concordam que o medo da discriminação faz com que muitos evitem conhecer sua condição sorológica, falar sobre ela ou procurar tratamento de saúde — o mesmo tratamento que pode evitar a transmissão. “Uma vez sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV, iniciando o tratamento em um estágio muito avançado da infecção e, portanto, tornando-se potencialmente mais propensa a transmitir o vírus de forma involuntária”, diz a nota do Unaids.

A resposta brasileira à epidemia de HIV/aids sempre foi elogiada e é referência no mundo todo. Somos pioneiros em questões importantes, como a quebra de patentes de medicamentos e o acesso universal ao tratamento antirretroviral. As campanhas de prevenção sempre se esforçaram para passar uma mensagem objetiva e isenta de moralismo. É hora de decidir se queremos continuar assim ou retroceder, indo na contramão da tendência mundial de abolir ou reformar as leis de criminalização do HIV. É hora de decidir se queremos meter medo ou encorajar as pessoas a fazer o teste, pois, tal como explica o Dr. Esper Kallás, “esta é a melhor ferramenta para controlar a epidemia de HIV/aids.”

Atitude Abril


Por Carl Zimmer em 9 de março de 2015

No mês passado, um grupo de cientistas anunciou aquilo que pode vir a ser um enorme passo na luta contra o HIV. Pesquisadores do Scripps Research Institute afirmam ter desenvolvido um anticorpo artificial que, uma vez no sangue, é capaz de se agarrar ao vírus e desativá-lo. A molécula foi capaz de eliminar o HIV de macacos infectados e protegê-los de futuras infecções.

Esse tratamento não consiste numa vacina, em seu sentido comum. Ao levar genes sintéticos aos músculos dos macacos, os cientistas estão essencialmente reprogramando a genética dos animais para resistir à doença. Os pesquisadores estão testando essa nova abordagem não apenas contra o HIV, mas também o ebola, malária, influenza e hepatites.

“É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro.”

“O céu é o limite”, disse Michael Farzan, imunologista do Scripps e autor líder deste novo estudo. Farzan e outros cientistas estão cada vez mais esperançosos de que esta técnica possa servir como proteção duradoura contra doenças para as quais as vacinas falharam. O primeiro teste em humanos baseado nesta estratégia — chamada de imunoprofilaxia por transferência genética, ou IGT, na sigla em inglês — está a caminho e vários outros já estão planejados. “É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro”, afirma Gary J. Nabel, cientista chefe da Sanofi, empresa farmacêutica que produz uma vasta gama de vacinas.

IGT

Ainda não se sabe se o IGT será bem sucedido. Os pesquisadores ainda precisam calibrar sua segurança e eficácia em humanos. A ideia de reprogramar geneticamente as pessoas para resistir à doenças infecciosas pode levantar preocupações entre alguns pacientes. “A realidade é que estamos diante de algo nunca antes feito e isso vai exigir explicações”, disse o Dr. David Baltimore, premiado com o Nobel e virologista na Caltech, que está testando o IGT contra diversas doenças.

Vacinas convencionais estimulam o sistema imune a aprender a criar anticorpos, induzindo o corpo através de fragmentos moleculares, formas brandas ou mortas de patógenos. Nossas células imunes produzem então muitos anticorpos, alguns dos quais podem lutar contra essas infecções.

Em alguns casos, esses anticorpos produzem defesas fortes. A vacinação contra varíola e sarampo leva à uma proteção praticamente total. Entretanto, contra outras doenças, as vacinas convencionais nem sempre são suficientes para produzir anticorpos eficazes. O HIV, por exemplo, vem em tantas cepas distintas que uma vacina contra uma não iria proteger contra as outras.

O IGT é uma abordagem diferente da vacinação tradicional. Ao invés disso, é uma forma de terapia genética. Os cientistas isolam os genes que produzem anticorpos potentes contra certas doenças e então sintetizam-no em versões artificiais. Os genes são colocados dentro de vírus e injetados no tecido humano, em geral um músculo.

Dr. Michael Farzan
Dr. Michael Farzan, imunologista do Scripps Research Institute, ajudou a desenvolver um anticorpo artificial que desativou o HIV em macacos. Foto de Benjamin Rusnak para The New York Times.

O vírus invade as células humanas com sua carga de DNA e, assim, o gene sintético é incorporado ao próprio DNA do recipiente. Se tudo corre bem, os novos genes instruem as células a produzir anticorpos potentes. A ideia do IGT veio da luta contra o HIV. Algumas poucas pessoas têm anticorpos muito potentes contra o HIV. Os chamados “anticorpos com ampla capacidade neutralizante” podem travar diferentes cepas de HIV e evitar que infectem novas células.

O Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, teve uma ideia: por que não tentar levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para todo mundo? Há algum tempo, ele e outros pesquisadores estavam experimentando a terapia genética para hemofilia. Acabaram descobrindo como carregar genes para dentro dos vírus e a persuadi-los a invadir as células. Ocorreu ao Dr. Johnson que talvez fosse possível usar esta estratégia para introduzir o gene de um potente anticorpo dentro da célula de um paciente. Uma vez que as células começassem a produzir anticorpos, o paciente estaria “vacinado” contra a doença.

A ideia representou uma mudança radical na direção da terapia genética. Até então, os cientistas vislumbravam curar distúrbios genéticos oferecendo genes funcionais no lugar dos deficientes. O IGT apontava outro caminho, protegendo pessoas saudáveis de doenças infecciosas. Mas não havia garantia de sucesso. O melhor vírus para enviar genes que o Dr. Johnson conhecia, funcionava apenas em células musculares — as quais geralmente não produzem anticorpos.

Em 2009, o Dr. Johnson e seus colegas anunciaram que a abordagem funcionou. Em seu experimento, eles tentaram proteger macacos contra o SIV, a versão primata do HIV. Para fazê-lo, usaram vírus para entregar poderosos genes nos músculos dos macacos, os quais produziram os anticorpos, tal como esperado. Os cientistas, então, infectaram os macacos com SIV. E descobriram que os macacos produziram anticorpos suficientes para protegê-los da infecção. Sem o IGT, os macacos com a mesma dosagem de SIV morreram.

O estudo do Dr. Johnson convenceu o Dr. Farzan que o IGT era promissor. “Eu abracei a ideia”, afirma. O Dr. Farzan e seus colegas têm modificado anticorpos contra o HIV a fim de produzir uma defesa potente contra o vírus. Enquanto isso, em 2011, o Dr. Baltimore e seus colegas mostraram que anticorpos enviados às células através de vírus conseguiram proteger ratos contra injeções de HIV, sugerindo que o IGT seria capaz de proteger pessoas do mesmo modo, isto é, por infecções decorrentes de agulhas infectadas, injeções de HIV.

“Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Mas a maioria das infecções por HIV vêm através do sexo. Assim, o Dr. Baltimore e seus colegas infectaram com HIV uma rata, fêmea, através de sua membrana vaginal. No ano passado, eles documentaram que técnica também foi capaz de proteger o rato desta forma de infecção. “Estamos contornando o sistema imune, ao invés de tentar estimulá-lo”, disse o Dr. Baltimore. “Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Gary W. Ketner, microbiologista da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, ficou intrigado com os resultados do Dr. Baltimore e se perguntou se o IGT não poderia ser empacotado contra outra grave doença que escapa das vacinas: a malária.

 Dr. Philip R. Johnson
Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, desenvolveu uma abordagem de levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para pessoas saudáveis. Foto de Jessica Kourkounis para The New York Times

Dr. Ketner, Dr. Baltimore e seus colegas descobriram um potente anticorpo contra a malária e usaram um vírus para levar seu gene a um rato. Em agosto do ano passado, eles documentaram que 80% dos ratos expostos à picadas do mosquito da malária estavam protegidos. “É muito animador”, disse o Dr. Ketner. “É um ótimo resultado para um método nunca antes testados, mas ainda precisa melhorar.” Agora, Ketner está pesquisando melhores anticorpos, capazes de prover melhor proteção em doses menores.

Esses experimentos sugerem que os anticorpos criados através do IGT podem ajudar contra doenças que há décadas resistem às vacinas. Outros estudos sugerem que o IGT também pode ajudar contra futuros surtos epidêmicos.

Dr. James M. Wilson, patologista da Universidade de Pensilvânia, e seus colegas estão experimentando o uso da terapia genética no tratamento de fibrose cística, levando genes às células dos pacientes através das vias respiratórias. Ocorreu ao Dr. Wilson que muitos dos vírus que se espalham rapidamente, como influenza e SARS, atacam as mesmas células. Em 2013, ele e seus colegas documentaram que vírus carregando genes de anticorpos através das vias respiratórias são capazes de fazer o sistema imune de ratos e furões combater diversas cepas de gripe. Desde então, eles vêm testando o IGT contra vírus epidêmicos mortais — incluindo ebola. O Dr. Wilson e seus colegas se juntaram à Mapp Biopharmaceutical, empresa que desenvolveu um anticorpo contra o ebola, chamado de ZMapp. Os cientistas sintetizaram um gene para o anticorpo ZMapp e levaram-no até o músculo dos ratos. O experimento está nos estágios iniciais, mas já mostra “resultados animadores”, segundo o Dr. Wilson.

“Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

Para o Dr. Johnson, o interesse crescente no IGT é gratificante. “Está em voga, mas certamente não é moda”, disse ele. E isso deve mudar, em breve. Em fevereiro do ano passado, o Dr. Johnson começou o primeiro ensaio clínico do IGT em humanos. Seu time de pesquisadores levou genes de anticorpos contra o HIV aos músculos de voluntários, para verificar se o tratamento é seguro. Os cientistas esperam terminar de colher os resultados nos próximos meses. “Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

O Dr. Baltimore está colaborando com os National Institutes of Health (NIH) para começar um ensaio clínico similar, com um IGT que carrega um vírus capaz de lutar contra o HIV. O Dr. Wilson está preparando um estudo clínico do IGT contra a gripe até o final deste ano.

Não há qualquer garantia que o sucesso nestes testes em animais seja replicado em humanos. “Humanos não são ratos gigantes”, afirma o Dr. Ronald G. Crystal, presidente de medicina genética no Weill Cornell Medical College. O sistema imune humano pode atacar anticorpos artificiais ou mesmo os vírus que os entregam, destruindo a proteção que eles trazem. Talvez, as células musculares produzam anticorpos demais, uma vez que elas não têm a mesma regulação que as células do sistema imune.

O Dr. Farzan e outros cientistas estão pesquisando interruptores moleculares capazes de desligar a produção de anticorpos ou ajustar sua dosagem. “Se queremos ver essa abordagem florescer, precisamos de interruptores reguladores”, disse ele. Apesar das preocupações remanescentes a respeito do IGT, o Dr. Nabel continua otimista. “Existem preocupações a respeito de segurança que precisamos levar em conta, mas há caminhos lógicos para abordar essas questões.”

“Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”

Bioéticos não veem grandes embates éticos diante do IGT, porque trata-se de terapia genética, algo que tem sido desenvolvido por mais de 30 anos. “Não me parece que é um ponto de partida radical”, disse Jonathan Kimmelman, professor associado da McGill University. Ainda assim, o Dr. Baltimore acredita que algumas pessoas desconfiem de uma estratégia de vacinação capaz de alterar o próprio DNA, mesmo que isso as proteja de uma doença potencialmente fatal. “Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”


Joel Gallant
Dr. Joel Gallant

Ser indetectável muda a maneira como falamos sobre a condição sorológica para o HIV? Uma pessoa que vive com HIV e é indetectável pode parar de se preocupar com transmitir o vírus? Num post de Mathew Rodriguez para o The Body, ele lembra que o Dr. Joel Gallant, um médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, tem respondido à essas perguntas. Em seu blog, exclusivamente voltado à pessoas que vivem com HIV, um de seus leitores perguntou: “Doutor, li num post anterior que ‘indetectável é o novo negativo’. Você concorda com essa afirmação?”

“Até certo ponto, sim. Do ponto de vista da transmissibilidade, ter uma carga viral indetectável é próximo de ser negativo. E do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV.

Mas ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura. Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma. Eu entendo o sentimento que essa afirmativa traz. Mas, mesmo assim, eu não diria que ‘indetectável é o novo negativo.'”
Dr. Joel Gallant


Orientações americanas sobre prevenção com pessoas vivendo com HIV agora enfatizam o envolvimento com cuidado da saúde, tratamento do HIV e fatores sociais

Por Roger Pebody em 5 de janeiro de 2015

A agência de saúde pública norte-americana e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) publicaram novas recomendações sobre as intervenções de prevenção do HIV e conselhos que devem ser oferecidos à pessoas que são HIV positivo.

As últimas orientações publicadas pelo CDC a respeito do que às vezes é chamado de “prevenção com positivos” se deram em 2003. Essas diretrizes tinham 24 páginas e enfatizavam a triagem para fatores de risco comportamentais e doenças sexualmente transmissíveis, aconselhamento sobre prevenção junto com médicos, intervenções comportamentais e notificação de parceiros.

Todos esses elementos permanecem, mas o escopo de aplicação das novas diretrizes agora é muito mais amplo, com as recomendações aumentando para 240 páginas. Enquanto as orientações anteriores eram claramente focadas no conhecimento e comportamento do indivíduo, as novas recomendações levam mais em conta fatores sociais e estruturais, bem como o impacto profundo que os antirretrovirais têm sobre a transmissão do HIV. Por exemplo, um indivíduo pode precisar de apoio em virtude de pobreza, doença mental, uso de substâncias ou habitação instável, a fim de ser capaz de se comprometer totalmente com a assistência médica necessária e aderir ao tratamento do HIV.

Além disso, o documento reafirma o papel central que as pessoas que vivem com HIV têm na prevenção. “Uma estratégia de prevenção que visa aumentar o acesso às intervenções biomédicas, comportamentais e estruturais de maneira eficaz para os mais de um milhão de pessoas que vivem com HIV tem mais chances de diminuir a transmissão do HIV do que uma estratégia que tenta mudar comportamentos sexuais e de uso de drogas por injeção dos muitos milhões de pessoas que estão sob risco de infecção”, afirma.

As recomendações foram desenvolvidas em parceria com a Health Resources and Services Administration, o National Institutes of Health, a American Academy of HIV Medicine, a Association of Nurses in Aids Care, a International Association of Providers of Aids Care, a National Minority Aids Council e a Urban Coalition for HIV/Aids Prevention Services.

Em muitas questões, as diretrizes reúnem e repetem diretrizes que já foram desenvolvidas por essas e outras organizações. As recomendações também foram feitas à luz da 2010 National HIV/Aids Strategy, reconhecida pela preocupação com a melhoria da equidade em saúde e com uma melhor orientação de prevenção do HIV.

Além do contexto das orientações, as fraquezas da cascata de tratamento nos Estados Unidos são descritas imediatamente. Muitas pessoas que são diagnosticadas com HIV não são levadas a cuidados de saúde e não são capazes de permanecer em assistência. Como resultado, apenas um quarto das pessoas que vivem com HIV nos Estados Unidos têm carga viral indetectável. [No Brasil, 76% das pessoas que vivem com HIV e estão sob tratamento antirretroviral são indetectáveis.] Além disso, menos da metade das pessoas que trabalham com cuidado de saúde recebem aconselhamento sobre prevenção do HIV e muitas não fazem checkups de saúde sexual.

Intervenções que melhorem a adesão aos cuidados médicos são vistas como fundamentais para a prevenção do HIV. Ao invés de simplesmente oferecer consultas ou fazer encaminhamentos, espera-se que os prestadores de serviços de saúde adotem uma abordagem proativa de acompanhamento dos resultados (como verificar se o paciente compareceu à consulta). Os serviços que oferecem o teste de HIV, por exemplo, devem avaliar as barreiras e os facilitadores para iniciar tratamento médico e fazer os encaminhamentos para serviços médicos e sociais que poderiam lidar com os problemas subjacentes, além de fornecer ajuda prática para que os pacientes possam comparecer às consultas.

Nos Estados Unidos, os profissionais de saúde são convidados a ajudar as pessoas que vivem com o HIV a se inscrever em programas como o Medicare, Medicaid, o Aids Drug Assistance Program e o Department of Veterans Affairs. Várias recomendações enfrentam problemas, tal como a obtenção de cuidados de saúde. Por isso, a sugestão é que os programas mencionados devem ser promovidos como uma estratégia a nível populacional [tal como no Brasil] e que informações devem ser prestadas sobre como suprir o tratamento em caso de pausa na cobertura.

Muitas das recomendações sobre intervenções de redução de risco comportamentais são muito semelhantes às diretrizes de uma década atrás. No entanto, os provedores de saúde agora devem recomendar intervenções biomédicas, bem como estratégias comportamentais.

Os profissionais de saúde devem informar todas as pessoas com HIV sobre o papel do tratamento antirretroviral, eficaz na redução da transmissão do HIV, bem como na melhoria da sua própria saúde e expectativa de vida. Enquanto algumas limitações do tratamento antirretroviral devem ser descritas (tal como a necessidade de adesão e tratamento vitalício, possíveis efeitos colaterais e o risco de transmissão de não ser totalmente eliminado), os provedores de saúde são convidados a encorajar os pacientes a começar a terapia antirretroviral no prazo de três meses após o diagnóstico, independentemente da contagem de células CD4.

Pessoas com HIV devem também ser informadas sobre a disponibilidade — para os seus parceiros seronegativos — da profilaxia pré-exposição (PrEP) e profilaxia pós-exposição (PEP).

Uma grande parte das recomendações gira em torno da concepção de filhos para homens ou mulheres que vivem com HIV e que desejam ter um filho. Há recomendações específicas para mulheres que estão grávidas. Ambos os homens e mulheres que vivem com HIV devem receber aconselhamento de saúde reprodutiva. As pessoas em um relacionamento com um parceiro HIV negativo devem ser informadas sobre maneiras de reduzir o risco de transmissão ao conceber, incluindo a terapia antirretroviral, a relação sexual desprotegida programada e a PrEP.

As recomendações se destacam por sugerir que os serviços de saúde usem dados de vigilância coletados rotineiramente, a fim de identificar os indivíduos e os grupos sociais que estão “escapando” do cuidado de saúde. Por exemplo, uma pessoa que foi diagnosticada com HIV mas não tem uma contagem de células CD4 baixa pode ser contatada para que seu tratamento seja iniciado. Da mesma forma, uma pessoa sob tratamento antirretroviral que tem uma carga virai detectável pode ser identificada como necessitando de tratamento mais eficaz ou apoio à adesão. No entanto, o documento assinala que estas abordagens devem ser tratadas com respeito à confidencialidade do paciente, segurança de dados e da legislação local (o que difere para cada estado americano).

No entanto, quando se trata dos 33 estados americanos que usam a lei penal para processar as pessoas que vivem com HIV para punir os comportamentos que a lei supõe colocar outros em risco de transmissão do HIV (incluindo até mesmo cuspir e morder), a recomendação fica em cima do muro. Ela observa que as leis são controversas e têm sido objeto de debate público, mas em vez de sugerir medidas para limitar a sua aplicação, pede aos profissionais de saúde que mantenham as pessoas com HIV conscientes de suas obrigações legais.

Recomendações mais detalhadas, que são consistentes com as diretrizes atuais, são descritas em tópicos, incluindo apoio à adesão, notificação de parceiros, diagnóstico e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis.

Referência:

Centers for Disease Control and PreventionRecommendations for HIV prevention with adults and adolescents with HIV in the United States, 2014. 


Como sempre, o hábito nos deixa menos impactados pelas coisas habituais. Eu, desde o meu diagnóstico, lutava para recuperar o meu sistema de defesa, a fim de aumentar o número de linfócitos CD4 para níveis saudáveis. Por muito tempo, ficava feliz com bons resultados e incomodado com resultados ruins.

“– Não se preocupe tanto com isso”, já me disse o Dr. Esper. “Hoje sabemos que, mais importante que a contagem de linfócitos, é a relação CD4/CD8. Um número saudável dessa relação já demonstra que sua saúde está recuperada.”

A relação CD4/CD8 é estabelecida pelo número de linfócitos CD4 divido pelo número de linfócitos CD8. E, de fato, há alguns meses, minha relação CD4/CD8 vem se mantendo em 0,9, que é o mínimo considerado saudável. Mesmo assim, é curioso como qualquer valor de referência que vêm junto com o exame do laboratório têm algum impacto. É como se fosse a nota que professora nos dava no primário. Se vem abaixo, é insuficiente e reprova de ano!

Desde o começo, isto é, desde o meu diagnóstico, minha contagem de CD4 foi sempre assim: abaixo do esperado. Todos os meus outros exames superaram a marca do saudável, exceto este. De 255 células por mm³ de sangue no mês do diagnóstico para 213 alguns meses depois, mesmo com carga viral já indetectável. Mesmo sob tratamento, em outubro de 2011 cheguei à 191, o que é tecnicamente considerado aids, pois essa contagem é insuficiente para garantir boa defesa contra alguns patógenos. Foi aí que o doutor sugeriu a troca de um dos medicamentos, o Biovir, que carrega em sua composição o AZT — o primeiro remédio anti-HIV da história da epidemia e que pode, em algumas pessoas, atrasar ou impedir a recuperação do sistema de defesa — por Tenofovir, mais moderno.

Parecia ser o meu caso: feita a troca, meus exames começaram a melhorar! Mas não muito. Nos meses e anos seguintes, minha contagem de CD4 continuou oscilando entre 200 a 350 células por mm³, mesmo sem o AZT, com pontuais exceções em que atingiu a marca dos 450, ainda abaixo do número saudável estabelecido, de pelo menos 500 células. Esse quadro levantou a hipótese de que eu fosse um não-respondedor imunológico — um indivíduo que, mesmo sob tratamento bem sucedido e carga viral suprimida, não têm o sistema imune totalmente recuperado, o que se dá geralmente em virtude de diagnóstico tardio.

Como sempre, todo mal aluno que nunca consegue tirar dez acaba se despreocupando com as notas. E eu passei a não dar mais importância para minha contagem de linfócitos CD4. No último ano, passei a me julgar imune ao impacto emocional dos resultados dos exames sobre mim. Qualquer que fossem seu números, eu não ligava. Exceto neste último exame.

Meus exames em 2014

456, meu recorde! Ainda não é 500, mas eu chego lá. Relação CD4/CD8 em 0,9. E carga viral, como sempre, indetectável.

Brasil Post

Você já parou para se perguntar: por que a epidemia de HIV/aids continua a crescer? Uns dizem que o principal motivo é o comportamento sexual dos jovens, que acham que ninguém mais morre de aids e que, se pegar o vírus, basta tomar “um remédio”. Outros acreditam que o problema é confiar nos parceiros. A imprensa nos lembra dos maquiavélicos soropositivos, que contaminam propositalmente seus parceiros sexuais e, depois, avisam por SMS. Ou os que não avisam e, depois de mortos, fazem mulheres sair correndo de um funeral para fazer o teste de HIV, quando descobriram que o falecido, um jovem “mulherengo”, era portador do vírus. E ainda acham surpreendente o marido que não se infectou ao  “arriscar contrair o vírus HIV” depois de transar com sua esposa, portadora do vírus.

Passaram-se mais de três décadas desde o início da epidemia e, de lá pra cá, muita coisa mudou. A principal mudança veio graças à ciência e à medicina, que desenvolveu e aprimorou os medicamentos antirretrovirais. No começo, eles eram muito tóxicos e causavam severos e até irrecuperáveis efeitos colaterais, incluindo redução da densidade óssea e lipodistrofia, que é o acúmulo e a distribuição desproporcional de gordura pelo corpo. Para piorar, era preciso tomar dezenas de comprimidos, em horários precisos ao longo do dia.

Hoje, é mais simples. Esses mesmos remédios já são combinados numa única dose, que pode ser tomada uma vez ao dia e é muito menos tóxica do que no passado. O Dr. Drauzio Varella está certo ao ter lembrado, ontem no Fantástico, que os antirretrovirais ainda causam efeitos colaterais. Isso é verdade! Eles costumam incomodar, especialmente no início do tratamento. Em geral, isso inclui irritações na pele, diarreia, náusea, vômito e fadiga. No entanto, é verdade também que esses efeitos costumam diminuir bastante ou passar completamente com o tempo. Não fosse verdade, o CDC americano não teria criado a recente campanha de prevenção e tratamento, na qual anuncia: O Tratamento de HIV Funciona”.

 Se o incômodo com o tratamento não passa, é quase sempre possível trocar a combinação de medicamentos, alternando para uma que seja mais adaptável para o organismo de quem está tomando e que não cause qualquer efeito colateral  então, se existe esta alternativa, por que é que ainda se fala tanto nos efeitos colaterais?

Uma das razões é que há um vício em tratar a epidemia de HIV/aids através da mesma história que sempre foi contada, de culpa, medo, dor, tragédia e sofrimento. E não se iluda: isso acontece tanto com quem conta a história, como com quem vive a história. Me lembro que meu primeiro infectologista, Dr. O., insistiu num coquetel de antirretrovirais que me causava dores de barriga, vômitos e diarreias como eu nunca experimentara antes. Durante os quatro meses em que segui o tratamento recomendado pelo doutor, sofri todos os dias, ininterruptamente. Tentei melhorar a situação, mudando toda a minha dieta, mas não funcionou. Cheguei a ser hospitalizado por tanto vomitar e emagreci 15 quilos, não por causa da aids, mas  me perdoe a sinceridade  por tanto defecar! Enquanto isso, o doutor insistia que era para ser assim. E isso não se deu só comigo. Num livro que vai ser publicado em breve, intitulado provisoriamente “Histórias da Aids”, da jornalista Naiara Carmo e do infectologista Artur Timerman, uma das soropositivas entrevistadas lembra que, quando reclamou dos efeitos colaterais que sofria, sua médica sentenciou:

“— Não se cuidou… agora aguenta!”

Por alguma razão, a epidemia de HIV/aids tem essa associação de culpa e punição. É como se o imaginário aterrorizante do vírus tivesse um força gravitacional muito forte, da qual até médicos não escapam, que dirá jornalistas que os entrevistam para cobrir suas matérias. É fácil percebê-lo ao ler as notícias acima. Nenhuma delas de fato checa ou questiona pontos tão fundamentais. Será mesmo que a razão da falta de uso de camisinha entre os jovens vem da ideia de que o HIV está “longe”? Afinal, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais, os quais viram o terrível começo da epidemia. Nesse sentido, não seria coerente pensar que todos temos a ideia de que o HIV está distante de nós? E, se isso for verdade, qual a razão dessa sensação de distância? Será que não estamos falando o suficiente sobre HIV? Ou, pior: será que estamos mesmo falando de maneira correta, objetiva e atualizada?

Até quando vamos continuar falando que a razão das contaminações é o excesso de “confiança” no outro? Ninguém mais é adulto e responsável por sua própria saúde? Não é hora de pararmos de falar em “confiar”, vitimizando-nos e apontando o dedo para culpar terceiros, quando a responsabilidade de usar camisinha é, igualmente, das partes envolvidas no ato sexual? Será que já não é hora de fazer jornalismo sério quando o assunto é HIV/aids e, antes de publicar sobre o suposto risco vivido pelo marido que queria engravidar a esposa soropositiva, checar com especialistas e fontes especializadas? O sexo desprotegido entre um soronegativo e uma pessoa soropositiva e indetectável é uma realidade possível e segura, que apresenta risco de transmissão mínimo, senão negligenciável, segundo diversos consensos médicos, como americano, britânico, canadense e sueco. E, uma vez que o tratamento antirretroviral é comprovadamente capaz de reduzir para próximo de zero a transmissibilidade de quem tem HIV, por que não passamos a incluir esse dado tão importante nas notícias deste jornalismo “policial” a respeito daqueles que teriam transmitido o vírus propositalmente a seus parceiros e parceiras? Afinal, se transmitiu, é porque não fazia tratamento e, se não fazia tratamento, essencial para manter-se vivo, é porque há ali um distúrbio psiquiátrico muito grave. Isso não é em nada relevante numa matéria séria?

A imprensa não está sendo objetiva a respeito da epidemia de HIV/aids, perdendo-se em questionamentos antiquados e não trazendo à tona assuntos atuais e importantes. Não é mais tempo de procurar, entre os soropositivos, os monstros transmissores de HIV: segundo a Unaids, “a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV.” O risco de ser contaminado pelo HIV está sabidamente no sexo desprotegido com pessoas de sorologia desconhecida, que não fazem o teste de HIV com frequência e respeitando o período da janela imunológica. Por isso, no resto do mundo, o aumento da oferta de testes e o estímulo ao tratamento antirretroviral de quem eventualmente for diagnosticado positivo tem se mostrado um caminho eficaz, e que tem ganhado grande espaço na mídia.

Se todos fizerem o teste de HIV e se, quem precisar, iniciar o tratamento, a epidemia está controlada, sem a necessidade de causar mais medo e pânico. Enquanto não incluirmos essa mensagem nova e atual em nossas campanhas e nas notícias de jornal, a epidemia de HIV/aids vai continuar a crescer.

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