Inevitavelmente, a cura do HIV vai precisar envolver uma vacina capaz de melhorar a habilidade natural do organismo para controlar o vírus. Pelo menos, é isso o que foi discutido no seminário Steps, durante a 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, de acordo com o Aidsmap. Giulio Maria Corbelli, membro do European Aids Treatment Group (EATG) disse que “a pesquisa da cura nos lembra da importância do envolvimento do paciente, desde as primeiras fases do desenvolvimento de tratamento e prevenção.”

 

A cura do HIV: um objetivo elusivo

Giulia Marchetti, da Universidade de Milão, abriu o seminário com uma apresentação geral sobre as vacinas contra o HIV, especialmente as vacinas terapêuticas. Ela chamou a atenção para um paradoxo desconfortável na cura do HIV: por um lado, existem casos como o da “Bebê do Mississippi” e dos “Pacientes de Boston”, em que, respectivamente, a jovem paciente foi tratada poucas horas depois da infecção inicial e nos quais os pacientes com câncer tiveram seu sistema imunológico aparentemente todo substituído. Em ambos os casos, apesar dos repetidos estudos que não conseguiram encontrar o menor vestígio de DNA do HIV no meio das células, o vírus, mesmo assim, voltou.

Timothy Ray Brown

Por outro lado, temos o caso de Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim” — com quem conversei pessoalmente em Lisboa. Já faz uma década desde o procedimento que levou Timothy à cura e, até agora, não há qualquer sinal do HIV em seu organismo. Também temos, ainda segundo Giulia Marchetti, o caso dos controladores de elite: os raros soropositivos que são capazes de controlar a carga viral do HIV mesmo sem tomar antirretrovirais. Por fim, há ainda os casos dos “controladores pós-tratamento”, como os dos pacientes da coorte Visconti, entre outros relatados na Alemanha e na França, que sugerem que algumas pessoas que recebem o tratamento cedo podem, posteriormente, serem capazes de passar por longos períodos sem tratamento e sem retorno da carga viral do HIV — estes foram casos espontâneos e ainda não sabemos exatamente porque é que isso acontece com algumas pessoas e não com outras.

Apesar destes casos pontuais de sucesso, as tentativas de induzir o controle viral sem ajuda da terapia antirretroviral não têm sido inteiramente bem sucedidas. Em um estudo com uma vacina terapêutica espanhola, os cientistas conseguiram manter alguns pacientes fora dos antirretrovirais por um longo período de tempo e sem rebote do HIV. Mas estudos semelhantes tiveram resultados decepcionantes. Outros estudos, ainda in vitro ou em animais, tiveram resultados mais animadores, com vacinas e medicamentos indicando que pelo menos a supressão viral por longos períodos pode ser possível, senão a cura completa do HIV.

 

Como sabemos qual estratégia é que vai funcionar?

É quase impossível prever antecipadamente qual abordagem contra HIV realmente vai funcionar. O Dr. Felipe Garcia, do Hospital da Universidade de Barcelona, um dos pesquisadores colaboradores da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV, disse que o problema das vacinas contra o HIV é que “aquilo que protege não é capaz de controlar e aquilo que controla não é capaz de proteger”.

O que ele quer dizer com isso é que, por um lado, os chamados anticorpos amplamente neutralizantes e as vacinas que os geram — as vacinas de células B — podem bloquear completamente a infecção pelo HIV nas células, mas tendem a perder a eficácia rapidamente, uma vez que o HIV é capaz de mutar o suficiente para desenvolver resistência a estas estratégias. Mesmo assim, uma destas ferramentas, chamada Pro 140, levou à supressão da carga viral por mais de um ano. Experiências com combinações de anticorpos amplamente neutralizantes que já existem, incluindo algumas com design inovador, mostraram maior eficácia em estudos em humanos e em macacos. Entretanto, estes anticorpos foram injetados passivamente, funcionando tal como medicamentos, sem induzir o corpo a produzir estes anticorpos por conta própria, tal como uma vacina faz.

As vacinas que estimulam uma resposta imune das células contra o HIV — as vacinas de células T — poderiam, potencialmente, gerar uma resposta imune muito mais duradoura contra HIV. No entanto, até agora, essa resposta se mostrou muito fraca e estreita, pelo menos nos estudos em humanos, sem produzir mais do que uma ligeira redução na carga viral — geralmente, uma redução de três a dez vezes (0,5 a 1log) no tamanho do reservatório de células latentemente infectadas pelo HIV. Um estudo com uma vacina em macacos levou à reduções de carga viral muito mais significativas e até à uma aparente cura em cerca de metade dos macacos — o problema é que esta vacina parece ser complicada de se adaptar em humanos.

Garcia citou um modelo matemático que sugere que uma resposta imune teria que produzir uma redução contínua de dez mil vezes nas células infectadas (4 logs) para produzir uma remissão que dure toda uma vida. Ele acrescentou que um problema fundamental nos estudos de vacinas contra o HIV é o fato de que ainda não temos correlatos reais de imunidade: estudos que previram a eficácia de outras vacinas no passado não têm funcionado no caso das vacinas contra o HIV. “Só depois que uma resposta imune é validada por um estudo”, disse Garcia, “é que podemos tirar uma conclusão.”

Estes correlatos de eficácia ou imunidade emergiram em estudos clínicos de grande escala, disse ele. No caso das vacinas contra o HIV, isto é um problema, uma vez que estes estudos são muito caros: o estudo RV144, o único estudo de fase III sobre eficácia, envolveu 16 mil participantes e custou 100 milhões de euros. Foram necessários múltiplos estudos para encontrar uma vacina eficaz contra o HIV e estima-se que mais de 35 mil voluntários por ano sejam necessários nos testes de vacinas contra o HIV de fase I a III, em todo o mundo, para atingir seu objetivo final.

Foi preciso encontrar um jeito mais fácil de selecionar quais das novas vacinas são as melhores candidatas para desenvolvimento, explicou Garcia, e as vacinas terapêuticas trouxeram essa solução, com estudos que não necessitaram de muitas pessoas. Mesmo assim, em um estudo que ele participou da pesquisa, o RISVAC02, foram selecionados 3056 voluntários, dos quais apenas 41 eram candidatos elegíveis e, destes, só 30 foram matriculados no estudo. Outra alternativa tem sido utilizar uma vasta gama de proteínas diferentes num único estudo, caso uma delas mostre eficácia. Em um estudo de vacinas de células dendríticas, no qual Garcia foi o pesquisador principal, avaliou-se a atividade de mais de 50 mil moléculas.

 

Estratégias combinadas

A possibilidade de combinar estratégias tem sido uma tarefa formidável para os pesquisadores de vacinas, que têm mais chances de ver sua vacina ser bem sucedida. Dentre as estratégias recentemente estudadas, estão:

O Dr. Felipe Garcia tem mais interesse nesta última. “As células dendríticas são a primeira linha de defesa contra a infecção. Elas capturam moléculas estranhas e as apresentam para as células do sistema imunológico como antígenos. É preciso acompanhar estas células dendríticas, porque se estas células não alertam o corpo sobre a infecção, o corpo não sabe disso”, disse ele. “O problema com o HIV é que ele desenvolveu a habilidade de se ligar à célula dendrítica, que então os transporta para dentro dos gânglios linfáticos como um Cavalo de Troia. Isso significa que, se desenvolvermos uma vacina que se associe às células dendríticas, podemos gerar uma forte resposta imune celular nos gânglios linfáticos, que é exatamente onde é preciso que ela aconteça.”

Além de fazer parte da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV — um consórcio que reúne 39 parceiros de onze países europeus, quatro da África subsaariana e um dos Estados Unidos que apoia o estudo de diversas estratégias de vacinas preventivas, que incluam vetores virais melhorados, versões modificadas de proteínas do envelope do HIV e vacinas de células dendríticas —, Garcia também é o principal pesquisador no consórcio HIVACAR, que envolve três diferentes estratégias de vacinas terapêuticas que serão usadas em pessoas soropositivas, separadamente e em combinação. A primeira se concentra no desenvolvimento de antígenos direcionados não apenas contra as partes estáveis do vírus, mas também contra o perfil genético do HIV de cada indivíduo — trata-se de uma vacina verdadeiramente individualizada. A segunda etapa é a injeção de anticorpos amplamente neutralizantes. E a terceira inclui moléculas de RNA mensageiro, um procedimento já utilizado em medicamentos experimentais contra o câncer, injetadas após os antígenos e anticorpos contra o HIV. Essa sequência visa sensibilizar as células dendríticas para os antígenos do HIV e estimular ainda mais uma resposta imune que, esperara-se, possa matar as células infectadas pelo HIV dentro dos reservatórios, aonde outras estratégias não conseguiram chegar.

Gânglios linfáticos.

Estas vacinas serão aplicadas intranodicamente — isto é, injetadas nos gânglios linfáticos — com a esperança de que a vacinação direta no local de integração e replicação do HIV inicie uma resposta imune mais forte contra HIV e, espera-se, reduza a replicação do vírus até o ponto em que os indivíduos possam ser retirados da terapia antirretroviral. Os protocolos da HIVACAR estão em estudos de fase I e II, avaliando sua segurança e imunogenicidade, com resultados esperados para 2021.

 

Outras abordagens

O seminário também contou com detalhes sobre o estudo River, parte do consórcio britânico CHERUB. Este estudo reúne combinações de inoculações iniciais com vacinas baseadas em vetores com doses subsequentes de medicamentos denominados inibidores de HDAC para verificar se as duas estratégias funcionam melhor juntas. Os inibidores de HDAC, que despertaram as células dormentes do reservatório de HIV, estavam entre os primeiros fármacos experimentados como agentes de cura do HIV. No entanto, embora eles tenham se mostrado capazes de reverter a latência viral, não produziram uma diminuição útil no tamanho do reservatório de HIV. Espera-se que, ao estimular o sistema imunológico para reconhecer o vírus que é produzido pelas células despertadas do reservatório, essa diminuição do reservatório seja alcançada. O River inlcui 50 voluntários de seis regiões da Inglaterra e deve anunciar seus resultados no próximo ano.

O seminário também trouxe uma atualização sobre a coorte ICISTEM, que reúne pacientes soropositivos com câncer que receberam transplantes de medula óssea — uma abordagem de cura semelhante à de Timothy Ray Brown e dos pacientes de Boston. O ICISTEM conseguiu coletar dados de 23 pacientes, 11 dos quais morreram. Seis pacientes dos 12 restantes foram acompanhados ao longo de dois anos: em cinco deles, as células-tronco da medula óssea transplantada sem HIV substituiu rapidamente as células cancerosas e infectadas pelo HIV. Testes ultrassensíveis não encontraram RNA do HIV no sangue desses pacientes e a carga viral deles se aproxima de zero. Outros testes também não encontraran DNA de HIV nas células do reservatório.

Os pacientes ICISTEM foram curados? Nós ainda não sabemos. Embora os pesquisadores não tenham conseguido encontrar uma única cópia do DNA do HIV em um milhão de células do reservatório destes pacientes, o verdadeiro teste será tirá-los da terapia antirretroviral, o que ainda não foi feito.

 

Envolvendo a comunidade

Fred Verdult é uma pessoa vivendo com HIV que vive na Holanda e que usou sua experiência em publicidade e marketing para fazer uma série de pesquisas de opinião dentro da comunidade de pessoas com HIV, especialmente sobre a pesquisa de cura do HIV e o seu potencial. Ele descobriu que 72% dos seus entrevistados, num grupo de 457 pessoas com HIV, acreditam que uma cura para o HIV seria “muito importante” e apenas 6% achavam que não seria importante.

Quando os entrevistados foram perguntados sobre qual seria a maior desvantagem de viver com o HIV, 91% responderam que era o risco dos possíveis efeitos adversos prejudiciais à saúde no futuro, como efeitos colaterais decorrentes do longo uso da terapia antirretroviral ou problemas de saúde devido à inflamação crônica. 66% disseram se incomodar com os efeitos colaterais dos medicamentos, e outros 66% disseram sofrer com ansiedade sobre o risco de infectar alguém.

Verdult disse que a questão de quando interromper o tratamento é um importante problema ético na pesquisa da cura do HIV — um dilema que já está sendo considerado pelo ICISTEM. Outro dilema é o seguinte: quando a cura chegar, quem devem ser os primeiros beneficiados com ela? Eticamente, se fosse preciso escolher quais pessoas deveriam se beneficiar primeiro da cura do HIV, deveríamos logicamente chamar primeiro as pessoas cronicamente infectadas que sofreram mais que a maioria, por anos de imunossupressão e de terapia subótima contra o HIV — primeiro a entrar, primeiro a sair. No entanto, pelo que se sabe hoje, estas provavelmente serão as pessoas mais difíceis de curar, portanto, com a exceção dos pacientes com câncer, a pesquisa da cura concentrou-se nas pessoas infectadas mais recentemente, com sistemas imunes ainda intactos. Isso pode levar a cura que beneficie antes os últimos infectados — últimos a entrar, primeiros a sair. Será que é justo?

Por fim, há ainda a questão do tratamento como prevenção e da profilaxia pré-exposição (PrEP), que podem trazer grande redução na incidência de HIV no mundo todo — tal como já tem sido observado em São Francisco, por exemplo. Se essa tendência se mantiver, será que o interesse científico e dos financiadores das pesquisas da cura vai diminuir?

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Nos últimos anos, a International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS, incluiu um simpósio especializado na pesquisa da cura do HIV, que sempre antecedeu o evento principal. E este ano não foi exceção, com apenas uma pequena mudança, a começar pelo nome: HIV Cure and Cancer Forum — isto é, um fórum sobre o câncer e a cura do HIV.

O título do evento parece reafirmar uma percepção atual entre muitos cientistas sobre aspectos comuns entre duas doenças distintas: o HIV e o câncer. Antes de falar das semelhanças entre elas, é importante ter em mente que estas são doenças distintas entre si porque há muitas diferenças entre elas. Foi isso o que bem lembrou Monsef Benkirane, do Instituto Francês de Genética Humana, na sua palestra de abertura. Enquanto o HIV é causado por uma infecção, o câncer é geralmente decorrente do mau comportamento espontâneo de algumas células. A exceção está apenas em alguns tipos específicos câncer, cujo mau comportamento das células pode mesmo ser provocado por infecções.

No entanto, no coração das células é que surge a semelhança entre estas duas doenças: tanto para o HIV quanto para o câncer, a questão parece ser a mesma: ambas células cancerosas e células infectadas pelo HIV possuem um material genético trapaceiro. No caso do câncer, este material genético leva as células a crescer incontrolavelmente. No caso do HIV, à derrubar o sistema imunológico. O fato de ambas estas doenças concentrarem-se em uma disfunção do núcleo celular é o que as torna difíceis de curar: basta uma célula infectada pelo HIV ou uma célula cancerígena para propagar a doença.

Não é por acaso que as mesmas ferramentas que agora estão levando à cura de alguns tipos de câncer e à maior remissão de outros tipos, incluindo medicamentos sofisticados capazes de direcionar marcadores biológicos específicos para agir contra células cancerosas, podem também ser usadas contra o HIV. Aliás, esta relação entre os medicamentos para câncer e para o HIV não vem de agora: o próprio AZT, a Zidovudina, o primeiro antirretroviral usado no tratamento de HIV/aids, foi inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade, conforme lembra uma matéria publicada pelo The New Yorker.

Foi em 1987 que a Food and Drug Administration americana aprovou o AZT para uso em pacientes com HIV, depois que seu estudo inicial já mostrava alguma habilidade da droga em controlar o vírus. Esse estudo começou como um “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que eles saibam quem é que está tomando o quê.

Então, os benefícios que começaram a ser observados em quem estava tomando o AZT foram tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento e, também, o restante das pessoas diagnosticadas com HIV. Não havia tempo a perder: naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam muito doentes ou morrendo. O desespero era enorme! Para salvar a própria vida, muita gente estava disposta a assumir o risco de tomar um medicamento promissor, mas que ainda não tinha completado formalmente todos os estudos habitualmente necessários e os rituais de aprovação e regulação pelas autoridades — você já assistiu Clube de Compras Dallas (2013)?

É verdade que, naquela época do começo da epidemia, qualquer semelhança entre o câncer e o HIV estava mais para um coincidência casual do que um resultado de uma observação meticulosa. O próprio apelido de “câncer gay”, que a aids recebeu antes de ser batizada de aids, em nada tem relação com a semelhança celular observada nos dias de hoje. Esse apelido nasceu por ignorância sobre a doença e por preconceito contra os homossexuais, junto com o fato do diagnóstico ser feito sem o teste de HIV, que ainda nem existia, mas com o aparecimento doenças oportunistas, incluindo cânceres típicos de sistemas imunológicos abalados.

Uma célula cancerígena.

Hoje sabemos que as células infectadas pelo HIV e pelo câncer compartilham um mesmo truque mortal: ambas conseguem se “des-diferenciar” quando estão sob ataque, seja por medicamentos ou pelo sistema imunológico. Ambas são capazes de retroceder para um estágio anterior de evolução celular, onde são invisíveis ao sistema imunológico.

No caso do HIV, as células imunes infectadas que produzem ativamente cópias de vírus se esgotam e morrem. Mas não todas. Uma parte delas retorna a um estado dormente, prontas para entrar em ação se a pressão da terapia antirretroviral for aliviada. Estas células dormentes, ou latentes, é que formam o famoso “reservatório de HIV”. O obstáculo atual da cura do HIV é exatamente este: a identificação e destruição destes reservatórios para uma cura completa ou, pelo menos, sua redução e contenção para uma remissão de longo prazo, conforme lembra uma matéria publicada recentemente pelo Aidsmap.

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Em minha última visita ao Dr. Esper Kallás, como sempre, acabamos falando muito mais coisas além de meus exames. Antes de falar sobre o meu CD4, discutimos os avanços na pesquisa da cura e esclarecemos tudo o que você precisa saber a respeito dos testes de diagnóstico e a janela imunológica.

Eu acabara de tomar um delicioso café na Avenida Paulista, quando segui em direção ao consultório do doutor. Atravessei o saguão do prédio e entrei no elevador. Estava dez minutos adiantado. Na sala de espera, me dirigi ao balcão da secretária e logo me deparei com o Dr. Esper, que estava em pé diante da porta de sua sala.

“— Entre logo, Jovem!”, acenou o doutor.

“— Dessa vez parece até que faz mais de três meses”, disse eu. “Preciso confessar que senti sua falta, doutor!”

“— É bom te ver, Jovem!”

Em seguida, Dra. V. entrou na sala, trazendo uma lata de Coca-Cola e três copos.

“— Servido?”, ofereceu a doutora, enquanto se sentava conosco.

“— Sim, obrigado.”

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Parte I, a pesquisa da cura

“— E então, o que achou da Superinteressante de Agosto?”, perguntou o doutor, apontado para a capa da revista.

“— Nem li”, respondi. “Ando um pouco desinteressado pelas notícias, doutor.”

“— Ah! Faz bem! Na matéria, sabe qual medicamento eles sugerem que será o medicamento da cura?”

“— Qual?”

“— O Vorinostat!”

“— E ele não é promissor?”, perguntei, surpreso.

“— Na melhor das hipóteses, ele é prova de conceito, Jovem”, explicou a Dra. V. “Isso quer dizer que vai servir para fomentar o desenvolvimento de algum outro medicamento. Mas o Vorinostat certamente não será o remédio da cura.”

“— E por que não?”

“— Porque a taxa de transcrição que ele oferece, de sete vezes, é muito baixa em virologia. Se fosse em bactérias seria suficiente, mas não é o caso”, prosseguiu a doutora.

“— A transcrição é o processo que faz expressar o vírus latente?”

“— Exatamente. É o que faz o vírus escondido nos reservatórios sair. E essa taxa precisa ser muito mais alta que isso para ser significativa em virologia. Portanto, o que os estudos que utilizaram o Vorinostat mostraram é que é possível fazer expressar o vírus latente. Mas precisamos de algo mais potente”, completou o doutor.

“— O Panobinostat?”

“— Também não. A taxa de transcrição deste é apenas um pouco mais elevada que a do Vorinostat”, respondeu ele.

“— Então qual?”

“— Eu apostaria no brasileiro que está sendo testado em macacos“, disse o doutor.

“— Então, na melhor das hipóteses, ainda temos algo como 20 anos pela frente?”

“— Não, Jovem! Se tudo der certo, em 10 anos temos um medicamento que pode, quem sabe, fazer expressar grande parte do vírus latente.”

“— Que maravilha, doutor!”

“— Mas, claro, temos que aguardar os resultados de todos os estudos. E o que os seus leitores acharam da matéria da Superinteressante?”

“— A grande maioria não ficou entusiasmada com a matéria, não. Agora, com o blog colaborativo, eles estão ainda mais antenados nos estudos e já previam que aquela manchete era exagero para vender a revista”, respondi.

“— Eles acompanham os estudos de perto, né?”

“— Bastante! Um leitor, inclusive, foi assistir à palestra do Dr. Michael Lederman.”

“— Ah, sim! Mostrei o seu blog e o comentário daquele leitor para ele. Ficou contente por um lado e decepcionado por não ter uma palestra que possa ser compreendida por todos. Disse que cometemos a falha de não nos comunicarmos bem com a sociedade, algo que seu blog cumpre bem.”

“— Mas ainda há algumas coisas a serem esclarecidas doutor”, prossegui. “Precisamos de algo claro e definitivo a respeito de janela imunológica. Pois isso deixa os pacientes em diagnóstico loucos!”

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Parte II, testes e janela imunológica

“— A própria informação sobre janela imunológica apresentada no site do Ministério da Saúde está desatualizada e, portanto, errada. Já disse isso para eles e em breve deve ser corrigido. A janela imunológica não é de 120 dias. Com 30 dias, a contar da relação desprotegida, a janela imunológica vale para todos os testes de HIV”, disse o doutor.

“— O que é que varia entre os testes, então? E por que há tantos testes diagnósticos? Qual a diferença entre Teste Rápido, ELISA, Western blot e PCR? E por que existem dois PCRs: quantitativo e qualitativo?”

“— Cada um desses testes examina coisas diferentes:

Teste Rápido e ELISA (ou Sorologia para HIV) são testes de detecção anticorpos. Portanto, uma vez que examinam anticorpos, o organismo do paciente precisa já ter reagido à presença do HIV para que o teste dê positivo. A média desse tempo de reação é de 22 dias, e, quando isso acontece, dá-se o que chamamos de soroconversão. Hoje em dia, o ELISA disponível no Brasil é apenas o de 4ª geração. Portanto, os pacientes não precisam se preocupar com isso: se fizeram o teste ELISA no Brasil, ele é de 4ª geração.

Antígeno P24 é um teste que, no Brasil, sempre acompanha o teste ELISA, mesmo que o pedido médico não especifique isso. Como o próprio nome já diz, o P24 não examina anticorpos, mas o antígeno, que é um pedacinho do vírus. Assim, para que o P24 dê positivo, basta que este pedaço do vírus seja encontrado.

Western blot também é um exame de anticorpos. Ele é considerado um teste confirmatório do diagnóstico porque é mais preciso que o ELISA. Enquanto o Teste Rápido e o ELISA examinam o anticorpo contra o HIV como um todo, o Western blot consegue enxergar anticorpos específicos contra cada proteína que compõe o vírus.

PCR Quantitativo, por sua vez, é a mesma coisa que Carga Viral. Ele mede a quantidade de vírus no sangue, através da presença do seu RNA.

PCR Qualitativo também examina o RNA do HIV, mas, em virtude de sua metodologia, ele não é capaz de quantificar o vírus. Ao invés disso, ele apenas dá um resultado ‘positivo’ ou ‘negativo’ para a presença de RNA do HIV. Antigamente, o Qualitativo era mais preciso que Quantitativo, pois conseguia examinar até 25 cópias de vírus. Hoje, ambos costumam ter a mesma precisão, o que fez com que o PCR Qualitativo não fizesse mais tanto sentido e acabasse caindo em desuso.”

“— Se o Teste Rápido e o ELISA examinam anticorpos, por que não se usa apenas o Teste Rápido?”

“— Porque o ELISA é mais sensível e preciso e o Teste Rápido é oferecido apenas pela rede pública, nos CTAs, onde os profissionais são treinados para amparar o paciente de um eventual diagnóstico positivo. O Teste Rápido é usado porque muitos dos pacientes que faziam o ELISA nunca vinham buscar seu resultado. Com um resultado imediato esse cenário mudou, o que é um grande avanço em epidemiologia. De fato, é mais difícil que uma pessoa se disponha a passar pelo período de angústia que o tempo de espera pelo resultado do ELISA pode representar, quando um teste parecido pode dar essa resposta em minutos.”

“— E a janela imunológica é igual para todos os testes de diagnóstico?”, perguntei.

“— Deixe-me abrir um PDF que contém um gráfico que vai responder bem a esta pergunta”, respondeu o doutor, abrindo o documento na tela de seu computador.

Testes e Janela Imunológica

“— Veja”, prosseguiu ele. “O PCR é sensível à presença do vírus a partir de 10 dias da relação desprotegida; o Antígeno P24, a partir de 15 dias; o ELISA e o Teste Rápido são sensíveis à infecção a partir de 20 dias; e o Western blot, entre 25 a 28 dias. Com 30 dias da relação desprotegida, portanto, todos estes testes são sensíveis a um eventual diagnóstico positivo.”

“— Então por que o PCR não é sugerido logo?”

“— Porque, uma vez que o PCR detecta o RNA viral a partir de 25 ou 50 cópias, ele é dependente da quantidade de vírus no organismo e, por isso, pode não detectar casos em que o paciente é um controlador de elite.

Portanto, por mais sensível que um teste seja, não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito imediatamente após a relação desprotegida, porque a quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.”

“— A janela de 30 dias é a definitiva, então?”

“— Sim. Ela só é maior se o paciente fez profilaxia. Nesse caso, naturalmente, a referência não é mais a relação desprotegida: contam-se 30 dias a partir do término da profilaxia.”

“— E casos de falsos positivo e negativo? Existem? São comuns ou raros?”

“— São raros. Eles representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Parte III, o meu CD4

Nossa conversa foi interrompida por gritos que atravessavam o vidro da janela fechada.

“— Esses manifestantes!”, reclamou o doutor. “Fui às passeatas e estou de acordo com várias das revindicações, mas protestar em frente a um hospital é demais! Isso não se faz!”

Da janela de seu consultório, víamos a polícia, a imprensa e os manifestantes bloqueando a entrada do Hospital Sírio Libanês.

“— Vou fechar a cortina para que você não apareça nos jornais”, brincou o doutor, antes de medir minha pressão arterial e auscultar meu coração. “12 por oito. Tudo em ordem, Jovem! E os exames?”, perguntou, enquanto eu vestia a camisa e voltávamos para a mesa.

“— Fiz no mesmo laboratório, doutor.”

O Dr. Esper logo abriu os resultados na tela de seu computador.

“— Carga viral indetectável, colesterol bom, triglicérides ótimo, vitamina D melhorou…”

“— Troquei a suplementação. Estou tomando DePura.”

“— Então continue! Está tudo ótimo…”, prosseguiu ele, descendo até o resultado dos linfócitos. “A única coisinha é a sua contagem de CD4, em 330”, disse o doutor, batendo com a caneta sobre a tela do computador. “Mas, não é nada alarmante.”

“— Sim, já estou me acostumando com isso. Minha única dúvida quanto a esse assunto é bem objetiva: em outubro do ano passado, quando atingi o recorde de maior contagem de CD4 desde o diagnóstico, com 436 células, você me disse que era muito bom, pois isso me livrava da possibilidade de ser um não-respondedor imunológico, certo?”

“— Certo. E você agora nota que aquele resultado, de 436, parece ser um resultado de exceção, é isso?”, completou o doutor, olhando para mim.

“— Sim, é isso. Se aquele é um resultado de exceção, eu sou então um não-respondedor?”, perguntei.

“— Jovem, a sua contagem é de fato mais baixa, mas, note que isso também se passa com a sua contagem total de linfócitos, e não só de CD4. Enquanto isso, a sua porcentagem de CD4 é boa, em 29%”, disse o doutor.

“— E a relação CD4/CD8, estável em torno de 0,7, também é boa”, completou a Dra. V. “Acima de 0,5 já consideramos saudável.”

“— Muito bem! Então, nos vemos só daqui a três meses?”, disse eu, me despedindo dos dois.

“— Ou volte antes, e tomamos um café!”, respondeu o doutor, me cumprimentando já na porta de sua sala, diante do consultório todo vazio e já com algumas luzes apagadas.

“— Quero participar. Me avise, doutor!”, disse Dra. V. ao Dr. Esper, enquanto me acompanhava até a porta.

“— Então, nos vemos em breve!”, disse aos doutores.