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Sete anos atrás, um grande estudo de eficácia feito na Tailândia, conhecido como RV144, nos trouxe a primeira — e, até agora, a única — evidência clínica de proteção contra o HIV induzida por uma vacina. As duas vacinas candidatas testaram aquilo que é referido como uma combinação de indução e reforço, que pareceu reduzir o risco de infecção pelo HIV em cerca de 31%. Este nível de eficácia não foi alto o suficiente para o licenciamento da vacina na Tailândia, mas fez trouxe um ponto de virada no campo das vacinas contra o HIV, marcado por duas décadas de decepções.

Desde então, os cientistas têm feito inúmeras análises e estudos de acompanhamento para tentar determinar quais tipos de respostas imunológicas induzidas pelas vacinas candidatas no RV144 podem ter levado à modesta eficácia observada — uma caça pelos chamados correlatos de imunidade. Os pesquisadores também têm experimentado modificar as novas candidatas à vacinas e a repetição das vacinações, numa tentativa de reforçar e melhorar a durabilidade das respostas imunes e, assim, melhorar a eficácia deste regimes ou de similares. Isso inclui testes com vacinas candidatas em países ou regiões onde a prevalência de HIV é mais alta, como a África subsaariana, ou em populações específicas em maior risco de contrair o HIV, como homens que fazem sexo com homens ou homens e mulheres heterossexuais sob alto risco.

Estas análises pós-estudo têm sido extremamente úteis na determinação de quais respostas imunes contribuíram para a eficácia modesta observada no RV144. A Pox-Protein Public Private Partnership (ou P5), constituída por representantes do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Bill & Melinda Gates Foundation (BMGF), Conselho Sul-Africano de Pesquisa Médica, HIV Vaccine Trials Network (HVTN), Sanofi Pasteur, GlaxoSmithKline e o US Military HIV Research Program se uniram, em 2010, para testar em estudos futuros as variantes do regime usado no RV144, bem como para aprender mais sobre a proteção induzida pela vacina naquele estudo inicial.

Agora, o P5 está se preparando para um estudo de eficácia de uma vacina contra a aids em larga escala na África do Sul — o primeiro desde que os resultados do RV144 foram publicados. Este estudo vai testar um regime de vacinação de indução e reforço modificado e tem previsão de lançamento para novembro deste ano. O ensaio de Fase IIb/III, conhecido como HVTN 702, vai inscrever 5.400 homens não infectados pelo HIV e mulheres com idades entre 18 a 35, sob  risco de infecção pelo HIV, em 15 locais de pesquisa clínica. NIAID e BMGF vão financiar o estudo de US$ 130 milhões, que está sendo realizado pela HVTN.

 

Decodificação da proteção

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Uma vacina pode induzir muitos tipos diferentes de respostas imunes, incluindo anticorpos (proteínas em forma de Y que tipicamente se ligam ao vírus e o impedem de infectar as células) e respostas imunes celulares (CD4 e CD8, células T que orquestram a morte de células infectadas pelo vírus), assim como a resposta imune inata do corpo. O regime testado no RV144 pareceu induzir anticorpos, mas não dos tipos que se ligam ao vírus e o neutralizam. Em vez disso, os anticorpos induzidos em alguns receptores da vacina RV144 pareceram trancar as células infectadas pelo HIV e prendê-las até que outros componentes do sistema imunológico possam começar a matança. Este processo é referido como citotoxicidade celular dependente de anticorpo (veja o artigo More Surprises Stem from RV144, da edição de janeiro de 2010 da VAX).

A partir desses resultados iniciais, os pesquisadores passaram a identificar o que eles chamaram de “correlatos de risco” associados a este regime de vacinação. Esses estudos revelaram que um tipo de resposta de anticorpos estava correlacionada com risco reduzido de infecção pelo HIV, enquanto outra estava correlacionada com um maior risco de infecção (veja o artigo More Surprises Stem from RV144, de setembro de 2011 da VAX).

Mas os dados mais relevantes para apoiar um outro grande estudo de eficácia vieram de um estudo de I//II patrocinado pelo P5, conhecido como HVTN 100, que está em andamento na África do Sul. Este estudo, que envolve cerca de 250 homens e mulheres não infectados pelo HIV, está avaliando a segurança e a imunogenicidade do mesmo regime de vacinação de indução e reforço que serão testados no HVTN 702. Os vetores virais não-infecciosos com proteína do HIV que são candidatos são semelhantes aos testado no RV144, mas são baseados no subtipo C do HIV, que é predominante na África do Sul. No RV144, os candidatos foram baseados no subtipo B/E, que é o sorotipo mais prevalente na Tailândia. Uma análise interina mostrou que o esquema de vacinação no HVTN 100 induziu respostas imunes similares àquelas observadas no estudo RV144. Isso ajudou a convencer os patrocinadores do estudo a seguir adiante com o HVTN 702.

 

Um regime modificado

Além das vacinas candidatas serem baseadas em um subtipo diferente de HIV, existem algumas outras diferenças significativas entre o regime de vacina do HVTN 702 e o que foi testado no RV144. Um deles é o esquema de aplicação da vacina. No RV144, seis vacinas foram administradas sequencialmente ao longo de seis meses. No HVTN 702, cinco vacinações serão feitas: três no 6º mês e mais duas no 12º mês. A esperança é que isto estenda o efeito protetor inicial observado no RV144, o qual mostrou uma protecção de 60% no primeiro ano.

Um novo adjuvante também está sendo testado no HVTN 702. Embora os pesquisadores não saibam exatamente como eles funcionam, os adjuvantes ajudam a aumentar as respostas imunológicas induzidas por vacinas. O RV144 utilizou um adjuvante de alúmen, que consiste em sais de alumínio insolúveis, enquanto o HVTN 702 irá utilizar o MF9, um óleo biodegradável, que é utilizado em vacinas contra a gripe na Europa.

Os pesquisadores esperam que os resultados do estudo HVTN 702, que são esperados para 2020, venham a fornecer uma resposta clara sobre a possibilidade destes candidatos à vacinas protegerem contra a infecção pelo HIV.

Por Mary Rushton em agosto de 2016 para VAX Report

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