Mulheres que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral apresentaram menor prevalência de infecção de alto risco por HPV, menos lesões cervicais severas e menor incidência de câncer cervical, se comparadas às mulheres com HIV que não tomam antirretrovirais, de acordo com os resultados de uma análise de diversos estudos publicada em 26 de outubro de 2017 pelo The Lancet. De acordo com os pesquisadores, as mulheres com HIV apresentam maior prevalência de HPV de alto risco do que a população em geral e são mais propensas a ter infecção persistente e progressão de lesões de neoplasia intraepitelial cervical. No entanto, o impacto dos antirretrovirais sobre HPV e câncer cervical ainda é pouco compreendido.

Por isso, os pesquisadores conduziram uma análise de diversos estudos, com o objetivo de avaliar o efeito dos antirretrovirais sobre o HPV de alto risco, com lesão cervical severa e câncer cervical invasivo. A análise incluiu estudos transversais e de coortes publicados entre 1º de janeiro de 1996 e 6 de maio de 2017. Entre os estudos, 31 haviam examinado a associação entre antirretrovirais e HPV de alto risco em 6.537 mulheres com HIV e também a neoplasia intraepitelial cervical de grau 2 ou superior ou lesões intraepiteliais escamosas em 9.288 mulheres com HIV. Outros 17 estudos haviam examinado o efeito dos antirretrovirais sobre os resultados longitudinais da lesão cervical em 6.864 mulheres com HIV. Por fim, três estudos examinaram o efeito dos antirretrovirais sobre a incidência de câncer cervical invasivo em 15.826 mulheres com HIV.

Após o ajuste para a contagem de células CD4 e duração da terapia antirretroviral, os cientistas observaram que as mulheres que receberam antirretrovirais se mostraram menos propensas a ter HPV de alto risco e câncer cervical invasivo do que as mulheres que não recebem antirretrovirais. Além disso, a terapia antirretroviral foi associada a um risco reduzido para lesões intraepiteliais escamosas e ainda aumentou sua probabilidade de regressão. A relação entre os antirretrovirais e o HPV é simples: assim que o tratamento interrompe a progressão do HIV e, assim, passa a permitir a recuperação do sistema imune, o organismo recupera as ferramentas que necessita para ajudar a combater ou controlar o HPV.

HPV.

Dentre os estudos analisados, poucos haviam sido conduzidos na América Latina e na Ásia e dentre os poucos que foram conduzidos nessas regiões não foi reportada qualquer associação protetora da terapia antirretroviral contra o HPV. No entanto, que as mulheres matriculadas nesses estudos podem ter recebido o tratamento com base nas diretrizes antigas, as quais recomendavam o início da terapia antirretroviral em níveis mais baixos de contagem de células CD4 e, por conta disso, elas podem ter tido sua resposta imune específica contra o HPV enfraquecida.

“Nossos achados destacam a importância da iniciação imediata da terapia antirretroviral, antes de atingir uma contagem baixa de células CD4, e a eficácia sustentada, como evidenciada pela duração, alta adesão, controle virológico e a recuperação de células CD4, no controle da infecção pelo HPV”, explicou a Dra. Helen Kelly, PhD, professora assistente no departamento de pesquisa clínica da London School of Hygiene e Tropical Medicine e uma das autoras da análise. “A recomendação atual de encorajar o início imediato do tratamento antirretroviral, juntamente com o rápido controle virológico e a adesão ao tratamento, provavelmente levará a uma reconstituição imune da mucosa”, escreveram os autores. “Esperamos que isso, por sua vez, leve a uma depuração mais rápida do HPV de alto risco, reduzindo assim a incidência de câncer cervical nesta população”.

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