HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana. Causador da aids, ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. E é alterando o DNA dessa célula que o HIV faz cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.

Ter o HIV não é a mesma coisa que ter a aids. Há muitos soropositivos que vivem anos sem apresentar sintomas e sem desenvolver a doença. Mas, podem transmitir o vírus a outros pelas relações sexuais desprotegidas, pelo compartilhamento seringas contaminadas ou de mãe para filho durante a gravidez e a amamentação. Por isso, é sempre importante fazer o teste e se proteger em todas as situações.

Biologia – HIV é um retrovírus, classificado na subfamília dos Lentiviridae. Esses vírus compartilham algumas propriedades comuns: período de incubação prolongado antes do surgimento dos sintomas da doença, infecção das células do sangue e do sistema nervoso e supressão do sistema imune.


eurekalert 300 cmyk

Quase 37 milhões de pessoas no mundo vivem com HIV. Quando este vírus destrói tantas células do sistema imunológico que o corpo não consegue combater a infecção, a aids se desenvolve. No ano passado, a doença tirou a vida de mais de um milhão de pessoas.

Durante os últimos três anos e meio, uma equipe de pesquisadores de seis universidades, liderada pela Universidade de Delaware e financiada pelos National Institutes of Health e pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, tem trabalhado para aprender sobre uma proteína que regula a capacidade do HIV de sequestrar uma célula e nela fazer iniciar sua replicação. Suas descobertas, relatadas recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, apontam para um novo caminho no desenvolvimento de possíveis estratégias para frustrar a replicação do vírus.

A equipe incluiu cientistas da Universidade de Delaware, Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, Universidade de Illinois em Champaign-Urbana, Universidade Carnegie Mellon, Laboratório Nacional de Alto Campo Magnético na Universidade Estadual da Flórida e Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt. Eles usaram uma combinação de ferramentas e técnicas de alta tecnologia, incluindo espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) de magic-angle spinning (MAS) e simulações computadorizadas de moléculas, para examinar as interações entre o HIV e a proteína ciclofilina A (CypA) de células do hospedeiro, exatamente durante o movimento individual dos átomos.

“Descobrimos que a infecciosidade do HIV é regulada pelos movimentos dessa proteína.”

“Em poucas palavras, descobrimos que a infecciosidade do HIV é regulada pelos movimentos dessa proteína”, explica Tatyana Polenova, professora de química e bioquímica na Universidade de Delaware, que liderou o estudo. “É uma estratégia de regulação sutil que não envolve importantes mudanças na estrutura do vírus.”

Sessenta vezes menor do que um glóbulo vermelho do sangue, o HIV contém um escudo em forma de cone, chamado de capsídeo, feito de proteína, que envolve duas cadeias de RNA e as enzimas do vírus necessárias para a replicação. Como qualquer vírus, o HIV só pode produzir cópias de si mesmo depois de ter invadido o organismo hospedeiro. Em seguida, ele começa a dirigir algumas das células do hospedeiro para começar a produzir o vírus. Mas como é que o HIV invade uma célula? Nos seres humanos, a proteína CypA pode promover ou inibir a infecção viral através de interações com o capsídeo do HIV, embora o mecanismo exato ainda não seja conhecido. Uma porção da proteína do capsídeo do HIV, chamado de laço CypA, é responsável pela ligação da CypA na célula hospedeira humana. Uma vez que isto ocorre, o HIV se torna um vírus infeccioso.

Ciclofilina A (CypA)
Ciclofilina A (CypA)

No entanto, uma alteração de apenas um aminoácido no laço CypA pode fazer com que o vírus faça o oposto do que faz normalmente, tornado o vírus totalmente não-infeccioso quando CypA está presente, e infeccioso quando a CypA não está presente. Essas mudanças são chamadas de “escape de mutações”, explica Polenova, porque elas permitem que o vírus “escape” de sua dependência a CypA. Para aprender mais sobre este mecanismo de fuga, a equipe de pesquisa analisou os conjuntos de diferentes variantes da proteína do capsídeo do HIV complexada com CypA. Usando ressonância magnética nucelar de magic-angle spinning, eles gravaram os movimentos, átomo por átomo, em escalas de tempo que variam de nanossegundos para milissegundos, a partir de um bilionésimo de segundo a um milésimo de segundo.

A equipe descobriu que uma redução dos movimentos decorrente de mutações que ocorrem naturalmente na região de ligação com a CypA permitiram que o vírus escapasse da dependência desta proteína. As observações com ressonância magnética nucelar de magic-angle spinning forneceram um olhar direto destes movimentos, gravando as mudanças nas interações magnéticas entre os núcleos. As simulações de computador permitiram que a equipe visualizasse os movimentos. Algumas porções da proteína do capsídeo não se movem nada ou se movem apenas um pouco, enquanto outras partes passam por movimentos de grande amplitude, distribuídos em uma ampla gama de escala de tempo, com a região mais dinâmica sendo o laço da CypA. Polenova diz que é bastante surpreendente que tais movimentos extensos estejam presentes no capsídeo e que estas dinâmicas podem ser detectadas por ressonância magnética e simulações de computador.

“Esperamos que este trabalho possa orientar o desenvolvimento de novas intervenções terapêuticas.”

“É a primeira vez que usamos experimentos com computação gráfica num estudo de dinâmica, e é particularmente animador que tenhamos feito isso num sistema tão complexo”, diz Polenova. “Esperamos que este trabalho possa orientar o desenvolvimento de novas intervenções terapêuticas, tais como pequenas moléculas que serviriam como interagentes com o capsídeo do HIV e capazes de inibir essa dinâmica.” Polenova diz que a equipe diversificada de pesquisadores, com experiência em virologia do HIV, biologia estrutural, biofísica e bioquímica, foi fundamental para o sucesso do estudo, juntamente com acesso a instalações de ressonância magnética do Laboratório Nacional de Alto Campo Magnético.

A equipe se reuniu através do Centro de Interações Proteicas do HIV, financiado pelo National Institutes of Health. Liderada pela Profa. Angela Gronenborn, o centro reúne cientistas e instalações de alto calibre para elucidar as interações das proteínas do HIV com os fatores de células hospedeiras.

Pela EurekAlert! em 25 de novembro de 2015

Anúncios


Caltech

Proteínas conhecidas como anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs, do inglês broadly neutralizing antibodies) são uma chave promissora na prevenção da infecção pelo HIV, o vírus que causa a aids. Os bNAbs foram encontrados em amostras de sangue de alguns pacientes com HIV, aqueles cujo sistema imune pode controlar a infecção naturalmente. Estes anticorpos podem proteger as células saudáveis do paciente através do reconhecimento de uma proteína chamada envelope viral, presente na superfície de todas as cepas de HIV, e então inibir ou neutralizar os efeitos do vírus. Agora, pesquisadores da Caltech descobriram que um bNAb em particular pode ser capaz de reconhecer esta proteína específica, ao mesmo tempo em que assume diferentes configurações durante a infecção — tornando mais fácil de detectar e neutralizar o vírus em um paciente infectado.

A pesquisa, do laboratório de Pamela Bjorkman, professora de biologia, foi publicada em 10 de setembro na edição da revista Cell.

O processo de infecção pelo HIV começa quando o vírus entra em contacto com as células imunes humanas, chamadas células T, que transportam na sua superfície uma proteína particular, a CD4. Proteínas de três partes na superfície do vírus, chamadas de envelopes virais, reconhecem e se ligam às proteínas CD4. Os envelopes fechados abrem-se quando se ligam à CD4. Em seguida, a configuração aberta desencadeia a fusão do vírus com a célula alvo, permitindo que o HIV deposite seu material genético no interior da célula hospedeira, forçando-a a se tornar uma fábrica de produção de novos vírus, os quais podem infectar outras células.

Bjorkman-SB-graphical-abstract-2015-NEWS-WEB

Os bNAbs reconhecem o envelope da superfície do HIV — a maioria dos bNAbs conhecidos só reconhecem os envelopes em configuração fechada. Embora o único alvo dos anticorpos neutralizantes seja o envelope viral, cada bNAb funciona reconhecendo apenas um alvo específico nesta proteína, ou epítopo. Alguns alvos permitem que a neutralização do vírus seja mais eficaz e, por isso, algumas bNAbs são mais eficazes contra o HIV do que outras. Em 2014, Bjorkman e seus colaboradores da Universidade Rockefeller reportaram a caracterização inicial de um potente bNAb, chamado 8ANC195, no sangue de pacientes com HIV cujo sistema imunológico é capaz de naturalmente controlar suas infecções. Eles descobriram que este anticorpo era capaz de neutralizar o HIV por alvejar um epítopo diferente do que qualquer outro bNAb anteriormente identificado.

No trabalho descrito na recente edição da revista Cell, eles pesquisaram como as funções dos 8ANC195 e suas propriedades únicas poderiam ser benéficas para as terapias contra o HIV.

“Observamos exatamente como o anticorpo reconhece o vírus.”

“No laboratório de Pamela, usamos cristalografia de raios-X e microscopia eletrônica para estudar interações proteicas num nível molecular”, diz Louise Scharf, um estudante de pós-doutorado no laboratório de Bjorkman e o primeiro autor da pesquisa. “Primeiramente fomos capazes de definir o local de ligação deste anticorpo em uma subunidade do envelope viral do HIV. Agora, neste estudo, nós identificamos a estrutura tridimensional desse anticorpo em relação com todo o envelope e observamos, em detalhe, exatamente como o anticorpo reconhece o vírus.”

Eles descobriram que, embora a maioria dos bNAbs reconheça o envelope viral em sua configuração fechada, o 8ANC195 pode reconhecer a proteína viral tanto em configuração fechada como também em configuração parcialmente aberta. “Acreditamos que é uma vantagem o anticorpo poder reconhecer essas diferentes formas”, diz Scharf.

A forma mais comum de infecção pelo HIV se dá quando um vírus no sangue se liga a uma célula T e infecta esta célula. Nessas circunstâncias, o envelope viral do vírus flutuante livre estaria predominantemente na configuração fechada, até que fosse feito o contato com a célula hospedeira. A maioria dos bNAbs poderia neutralizar o vírus. No entanto, o HIV também consegue se proliferar a partir de uma célula diretamente para outra. Nesse caso, uma vez que o anticorpo já está ligado à célula hospedeira, o envelope está numa configuração aberta. Ainda assim, o 8ANC195 poderia reconhecê-lo e se ligar a ele.

“A administração de uma combinação destes anticorpos pode reduzir bastante a quantidade de vírus que consegue escapar e infectar o hospedeiro.”

Uma potencial aplicação médica deste anticorpo está nas chamadas terapias de combinação, nas quais é dado ao paciente uma mistura de vários anticorpos que funcionam de várias maneiras distintas, a fim de combater logo o vírus, uma vez que ele muta e evolui muito rapidamente. “Nossos colaboradores no Rockefeller estudaram isso extensivamente em modelos animais, mostrando que a administração de uma combinação destes anticorpos pode reduzir bastante a quantidade de vírus que consegue escapar e infectar o hospedeiro”, diz Scharf. “Assim, o 8ANC195 é mais um anticorpo que se pode utilizar terapeuticamente. Ele tem como alvo um epítopo diferente dos demais anticorpos potentes e tem a vantagem de ser capaz de reconhecer múltiplas configurações do envelope viral.”

A ideia da terapia com bNAbs pode não estar longe de se tornar uma realidade clínica. Scharf diz que os mesmos colaboradores da Universidade Rockefeller já estão testando bNAbs como tratamento humano em um ensaio clínico. Embora o ensaio inicial não inclua o 8ANC195, este anticorpo pode ser incluído, num futuro próximo, em um estudo de terapia de combinação, segundo Scharf.

Além disso, a disponibilidade de informações mais completas sobre como o 8ANC195 se liga ao envelope viral permitirá aos pesquisadores, Scharf, Bjorkman e seus colegas, começar a trabalhar na engenharia do anticorpo, tornando-o ainda mais potente e capaz de reconhecer mais cepas de HIV.

“Além de apoiar o uso do 8ANC195 em aplicações terapêuticas, nosso estudo da estrutura do 8ANC195 revelou uma nova e inesperada configuração do envelope viral do HIV que é relevante para a compreensão do mecanismo pelo qual o HIV entra nas células hospedeiras e os bNAbs inibem esse processo”, diz Bjorkman.

Estes resultados foram publicados num artigo de jornal intitulado “Anticorpo amplamente neutralizante 8ANC195 reconhece envelopes fechados e abertos do HIV-1”. Além de Scharf e Bjorkman, os outros coautores da Caltech no estudo incluem: Haoqing Wang, estudante de graduação; Han Gao, técnico de pesquisa; Songye Chen, cientista de pesquisa; e Alasdair W. McDowall, diretor de recursos do Beckman Institute. O financiamento deste trabalho foi feito pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos National Institutes of Health; pela Fundação Bill e Melinda Gates; e pela American Cancer Society. Cristalografia e microscopia de elétrons foram feitas no Observatório Molecular da Caltech, apoiado pela Fundação Gordon e Betty Moore.

Por Jessica Stoller-Conrad em 11 de setembro de 2015 para Caltech

Uma aula da videoblogueira Jout Jout e do Gabriel, do Projeto Boa Sorte, sobre HIV/aids, como funciona a infecção, as formas de transmissão do vírus, o tratamento, a profilaxia pós-exposição (PEP), estigma e discriminação, a vida de quem tem HIV, o direito ao sigilo e o direito de falar da nossa condição.


AVAC_cura

Uma cura para a infecção pelo HIV é um dos objetivos finais de longo prazo da pesquisa científica atual. A ciência está progredindo, aumentando as esperanças e os desafios.

AVAC

Noções básicas sobre a cura

O termo “cura” refere-se a uma estratégia ou um grupo de estratégias que possa eliminar o HIV do corpo de uma pessoa ou permanentemente controlar o vírus e torná-lo incapaz de causar doença. Dois tipos de “cura” estão sendo pesquisadas. Uma por “esterilização”, que possa eliminar completamente o vírus do corpo. Outra “funcional”, que possa suprimir a carga viral do HIV, mantendo-a abaixo do nível de detecção sem o uso de antirretrovirais. Nesta última, o vírus não seria eliminado do corpo, mas estaria efetivamente controlado e sem risco de transmissão. É difícil distinguir estes tipos de curas e, por isso, alguns estão usando o termo “remissão”, emprestado do campo do câncer, e que geralmente é definido como a ausência de pronta recuperação do vírus detectável por algum período de tempo após a interrupção de medicamentos. Este período de tempo ainda não está definido pela comunidade científica.

É importante saber que os cientistas ainda estão debatendo e descobrindo o que significa estar biologicamente curado do HIV. Apesar de alguns possíveis casos de curas funcionais terem sido relatados, leva tempo para ter a certeza de que o HIV não pode causar doença, uma vez que sabemos que mesmo níveis muito baixos de vírus abaixo do limite de detecção podem aumentar o risco de certas doenças e, em última instância, levar à aids.

Quais tipos de estratégia de cura estão sendo pesquisadas hoje?

cureFactsheetDownloadHá quatro estratégias principais sendo exploradas. Cada uma dessas estratégias tem uma abordagem diferente diante do desafio fundamental da infecção pelo HIV: a habilidade que o vírus tem de se esconder em células que não estão ativas e nem se dividindo. Contanto que as células não estejam se dividindo, o vírus não cria cópias de si mesmo e, nessas condições, é considerado como sendo um “vírus latente”. As células que carregam vírus latente são, coletivamente, referidas como “reservatórios virais”. A maior parte do reservatório viral está nas células de memória T CD4+, que são projetadas para viver no corpo indefinidamente. Uma cura verdadeiramente eficaz terá que eliminar esses reservatórios virais ou garantir que o vírus que é ativado a partir destas células em repouso não restabeleça a infecção no organismo.

“Chutar e matar”: Esta estratégia de duas etapas visa liberar (ou chutar) o vírus para fora das células em repouso e, depois, seguir com um abate eficaz das células infectadas. Muitos dos agentes capazes de chutar, considerados hoje como possíveis alternativas, são atualmente usados ​​no tratamento de câncer. O componente capaz de matar pode incluir uma vacina terapêutica, se uma eficaz vier a ser desenvolvida, ou outras intervenções capazes de melhorar a resposta imunitária contra o HIV.

Manipulação genética: Esta estratégia visa modificar as células de uma pessoa para que o HIV não possa infectá-la. Isto pode ser feito alterando os genes de células do sistema imune de uma pessoa. Os genes são as instruções para a arquitetura da célula. Uma alteração que remova um receptor ou uma proteína chave, utilizada pelo HIV para instalar a infecção, pode tornar a célula resistente à infecção. A terapia génica tem como alvo muitos dos mesmos alvos utilizados no tratamento. Uma vez que o HIV precisa estar dentro de células para copiar a si mesmo, tal estratégia pode efetivamente impedir que o HIV se espalhe pelo organismo. A terapia genética mais avançada é tecnologicamente complexa: envolve a retirada de células T CD4 de indivíduos soropositivos e, em seguida, sua modificação com um método que desativa o gene que codifica o receptor CCR5, o qual a maioria das variantes do HIV usa como apoio para entrar nas células.

Transplantes de células-tronco: As células-tronco hematopoiéticas, produzidas na medula óssea, são a fonte de todas as células sanguíneas no corpo. Transplantes de células-tronco são usados para tratar doenças potencialmente fatais, como o câncer. Eles têm um elevado risco de efeitos colaterais. No caso notável de Timothy Brown, que foi aparentemente curado do HIV, ele recebeu um transplante de células-tronco para tratamento de câncer. Seu transplante continha células que não poderiam ser infectadas pelo HIV, porque lhes faltava o receptor CCR5 em sua superfície. Transplantes de células-tronco são precedidos por um processo chamado de condicionamento, no qual o sistema imune do indivíduo é eliminado, para dar espaço para o sistema doador e diminuir a probabilidade de rejeição do transplante. Em indivíduos soropositivos, o condicionamento elimina muitas células infectadas pelo HIV. Transplantes de células-tronco são o último recurso para pessoas com câncer ou HIV. Esta estratégia não é reproduzível em larga escala.

Vacinas terapêuticas: As vacinas terapêuticas são concebidas para aumentar ou induzir respostas imunes contra o HIV em alguém que já está infectado com o vírus. A maioria destas vacinas é destinada a aumentar a potência das células que naturalmente são capazes de matar o HIV, como, por exemplo, células T CD8+ específicas para o HIV e células Natural Killer (NK). A esperança é que as respostas imunológicas induzidas por vacinas possam contribuir para o controle do vírus na ausência de tratamento antirretroviral e, talvez, também ajudem a eliminar as células infectadas de forma latente.

Quais são os desafios relacionados à pesquisa da cura?

Há muitas questões que dificultam a pesquisa da cura. Em primeiro lugar, não há nenhuma maneira clara para medir o reservatório do HIV. As duas abordagens principais são para medir o número de cópias de RNA do HIV no sangue ou o número de cópias de DNA do HIV nas células. Mas medir apenas o RNA do HIV no sangue não detecta as cópias virais já integradas nas células em repouso, enquanto medir o DNA do HIV não significa, necessariamente, ter uma imagem precisa, uma vez que as tecnologias disponíveis e mais baratas não conseguem distinguir o vírus em fase de replicação. Um teste mais preciso, o exame de crescimento viral quantitativo, requer a utilização de um grande número de células e não pode ser feito a partir de uma simples coleta de sangue.

Um segundo grande desafio é que as estratégias de cura atualmente sob pesquisa carregam riscos e benefícios desconhecidos. Descobrir como comunicar teses incógnitas para os potenciais participantes de estudos será uma parte importante de qualquer estudo clínico da cura. Para testar se uma pessoa foi de fato curada, é preciso interromper o tratamento antirretroviral, para que, se houver um eventual aumento da carga viral, este possa ser medido. Não existem diretrizes padronizadas a respeito da duração da interrupção de tratamento que minimizem os riscos para os participantes do estudo e para seus parceiros. Finalmente, as estratégias de cura podem vir a ser diferentes para homens, mulheres e crianças — diferenças biológicas entre os sexos e diferenças entre sistemas imunes adultos e pediátricos sugerem que é improvável que haja uma única abordagem de cura para todos.

O que acontece depois?

A pesquisa da cura está em expansão, com uma gama de estudos previstos ou em curso. Clique aqui para ver uma lista desses estudos.

Como ativistas podem se envolver?

Muitas das estratégias de pesquisa a ser desenvolvidas exigem equipamentos caros e formação específica para sua administração. Para alcançar o sucesso podem, ser necessários recursos adicionais. Esses recursos não estão disponíveis na maioria das partes do mundo. Os ativistas podem aumentar a conscientização em torno da necessidade destas tecnologias, a fim de prepararem-se para futuros estudos de cura em humanos.

Pesquisas sobre a cura

A pesquisa da cura do HIV está crescendo — incluindo estudos clínicos cujos projetos exigirão participação da comunidade informada. A AVAC está trabalhando com parceiros para tornar isso possível. Para mais informações, veja:

 

AVAC_tasp

Para salvar vidas, o tratamento antirretroviral por si só não é suficiente. Suprimir o HIV e manter a carga viral indetectável é o que importa.

Noções básicas sobre o Tratamento como Prevenção

Desde 1996, a terapia antirretroviral, usando uma combinação de medicamentos, tem ajudado a manter milhões de pessoas que vivem com o HIV vivas e saudáveis. Hoje, os antirretrovirais também são amplamente vistos como a pedra fundamental de uma resposta abrangente de prevenção. Isto é baseado em evidências de estudos entre casais sorodiscordantes (em que uma pessoa está vivendo com o HIV e outra não), nos quais o parceiro soropositivo que faz uso de antirretrovirais mostrou ter significativamente reduzidas suas chances de transmissão do vírus. Há também evidências de que a terapia antirretroviral reduz o risco de transmissão do HIV a partir de mulheres através da amamentação e há uma série de estratégias que utilizam os antirretrovirais, individualmente ou em combinações, para reduzir o risco de transmissão do HIV durante a gravidez e o parto.

TasPfactsheetDownloadO termo “Tratamento como Prevenção” (ou TasP, do inglês Treatment as Prevention) é por vezes utilizado para descrever a ampla função dos antirretrovirais como uma intervenção que apresenta benefício para a saúde do indivíduo e como uma ferramenta de prevenção. No entanto, esta designação pode ser confusa, especialmente nos momentos em que terapia antirretroviral é observada exclusivamente sob o ponto de vista do benefício clínico. Na verdade, sempre que um indivíduo que vive com HIV está em tratamento antirretroviral e apresenta supressão virológica (a carga viral indetectável), há o benefício da prevenção, mesmo que esta não seja a razão pela qual o indivíduo optou estar em tratamento. É importante notar que, atualmente, a decisão de um indivíduo com HIV começar a terapia antirretroviral é baseada em vários fatores, incluindo as diretrizes de tratamento de acordo com as recomendações da região onde vive. Estas diretrizes podem levar em conta fatores como a saúde clínica do indivíduo, a coinfecção com outras doenças e infecções oportunistas, contagem de células T e testes de carga viral. Não existe qualquer evidência relevante a respeito da redução do risco de transmissão através do compartilhamento de seringas quando carga viral é indetectável. Os dados sobre o efeito do tratamento como a prevenção estão limitados a indivíduos cujo principal risco de contrair o HIV é através da exposição sexual.

Hoje, a resposta global à aids está sendo moldada por campanhas que visam ampliar o acesso ao tratamento antirretroviral, para ambos os benefícios clínicos e de prevenção. Em junho de 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atualizou suas diretrizes para incluir os benefícios do tratamento como prevenção, e sugere que os países ofereçam antirretrovirais para todos os indivíduos soropositivos com contagens de células CD4 igual ou inferior à 500 e, para grupos específicos, como mulheres grávidas ou amamentando e pessoas soropositivas em relacionamento sorodiscordante, independentemente da contagem de células CD4. Em meados de 2014, o Unaids lançou a meta “90-90-90” para acabar com a epidemia de aids até 2030, a qual exige que 90% das pessoas que vivem com HIV saibam da sua condição, 90% dos indivíduos que sabem de sua condição positiva para o HIV estejam em tratamento antirretroviral e 90% dos indivíduos em tratamento tenham alcançado a supressão virológica, até o ano de 2020.

Ativistas têm um papel fundamental a desempenhar, para garantir que o acesso ao tratamento seja expandido sempre com direito de escolha, sob programas liderados pela comunidade, isentos de coerção e com atenção para uma gama completa de outras estratégias de prevenção necessárias para começar a acabar com a aids.

Quais são os dados sobre antirretrovirais e a prevenção do HIV?

Os primeiros dados vêm de um estudo conhecido como HPTN 052, que envolveu 1.763 casais sorodiscordantes (um parceiro soropositivos e um soronegativo) e observou o tratamento como prevenção em vários países. A pergunta principal era: se o parceiro soropositivo iniciar o tratamento, isso pode ajudar a reduzir o risco de transmissão sexual do HIV para o parceiro soronegativo? Esse efeito é durável? O HPTN 052 descobriu que a terapia iniciada imediatamente reduziu o risco de transmissão do HIV em 96%. Outro estudo, conhecido como PARTNER, encontrou igualmente elevados níveis de proteção no contexto de sexo anal entre casais heterossexuais e gays sorodiscordantes. Uma série de outros estudos clínicos e observacionais de dados estão em andamento, muitos dos quais levam em conta o benefício prevenção e também da expansão do acesso ao tratamento. Esses dados contribuem com os esforços para expandir o acesso global aos antirretrovirais.

Quão realista é a meta “90-90-90” e a sugestão de usar antirretrovirais para começar a acabar com a epidemia de HIV?

O HPTN 052 mostrou um benefício poderoso. No entanto, existem muitos desafios na implantação do tratamento como uma estratégia de prevenção, incluindo as lacunas atuais na cobertura de antirretrovirais para pessoas que são clinicamente elegíveis para eles, baixas taxas de testagem para o HIV, desafios para manter as pessoas sob tratamento, questões científicas adicionais sobre a exata relação entre a carga viral no sangue e o risco de transmissão do HIV e a falta de consenso em torno do melhor momento para os indivíduos iniciarem o tratamento. Estes desafios exigem pesquisas adicionais, bem como discussões políticas e comunitárias.

Pesquisas sobre o Tratamento como Prevenção

Em um dado país, diz-se que a epidemia alcançou seu “ponto de inflexão” quando o número de novas infecções anuais pelo HIV cai abaixo do aumento anual de pacientes começando a terapia antirretroviral. A cobertura de tratamento é importante. Primeiro, o país tem que atingir a cobertura tratamento em cerca de 66% para que um cálculo válido sobre o ponto de inflexão possa ser feito. A qualidade do acompanhamento médico também importa muito, uma vez que não basta apenas começar o tratamento, mas se manter nele e atingir a supressão virológica, importantes para a saúde individual e pública.

Para os ativistas da prevenção, há uma série de questões para acompanhar e amplificar em torno da implementação, monitorização e pesquisa relacionada com o tratamento como prevenção. Para aprender mais:



Por Diego Freire para Agência FAPESP em 11 de maio de 2015

Fapesp

Uma pesquisa realizada no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, integrou uma iniciativa de divulgação científica internacional em plataforma multimídia promovida pelo American Journal Experts, serviço que auxilia pesquisadores na revisão e no preparo de manuscritos para publicação em periódicos científicos. A iniciativa consiste em apresentar o conteúdo dos manuscritos em vídeo, com linguagem simplificada e buscando despertar o interesse pelos resultados apresentados nos artigos.

Os primeiros vídeos produzidos tratam da pesquisa Vigilância e diagnóstico de infecção por HTLV-1 e HTLV-2 em indivíduos infectados pelo HIV (vidiHIV/HTLV), coordenada por Adele Caterino-de-Araujo, do Centro de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz, com apoio da FAPESP por meio do Programa de Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS).

Os resultados apresentados pelos vídeos foram publicados em artigos na revista Aids Research and Human Retroviruses e trazem importantes contribuições para o entendimento da dinâmica das coinfecções por HIV, o vírus da aids, e os vírus HTLV-1 e HTLV-2, da mesma família, sendo o HTLV-1 associado ao surgimento de doenças neurológicas degenerativas e hematológicas, como leucemia e linfoma, além de polimiosites, poliartrites, uveítes e dermatites.

“A ideia é que não só a comunidade científica da área tenha acesso às informações, e a linguagem audiovisual empregada ajuda a ampliar o alcance do trabalho.”

De acordo com Caterino-de-Araujo, o objetivo do American Journal Experts foi produzir vídeos com resultados de pesquisa de interesse público como pilotos para um projeto de divulgação científica multimídia. “A ideia é que não só a comunidade científica da área tenha acesso às informações, e a linguagem audiovisual empregada ajuda a ampliar o alcance do trabalho”, disse à Agência FAPESP. Os vídeos estão sendo adequados para publicação no portal do American Journal Experts, mas já podem ser acessados na Agência FAPESP.

Os retrovírus humanos HIV e HTLV causam infecção crônica no hospedeiro e compartilham as mesmas vias de transmissão. Nas décadas de 1980 e 1990, a população mais afetada pela coinfecção HIV/HTLV era de usuários de drogas injetáveis, mas esse cenário vem mudando desde então. A identificação adequada dessas infecções virais tem importância diagnóstica e prognóstica.

De acordo com Caterino-de-Araujo, a coinfecção HIV/HTLV-1 pode interferir no início da terapia antirretroviral e acelerar a progressão de doenças associadas a esses vírus. Por outro lado, também parece ter papel protetor na progressão para a aids. “Isso ocorre devido à produção de citocinas com perfil Th1 ou pela produção de quiomicinas que se ligam aos correceptores do HIV, impedindo sua penetração na célula hospedeira”, explicou.

Diante disso, o Ministério da Saúde recomenda nos manuais Guia de Manejo Clínico da infecção por HTLV e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção por HIV em Adultos a realização da sorologia para HTLV no início do acompanhamento do paciente com HIV.

Vigilância

O Instituto Adolfo Lutz de São Paulo realiza a sorologia para HTLV desde a década de 1990 e tem observado problemas no diagnóstico de infecção principalmente por HTLV-2 em pacientes infectados pelo HIV. Além disso, pesquisadores da instituição utilizam diferentes algoritmos de testes laboratoriais para o diagnóstico e têm realizado a caracterização molecular dos vírus HTLV-1 e HTLV-2 que circulam em pacientes com HIV/Aids.

O projeto coordenado por Caterino-de-Araujo criou um grupo de vigilância e diagnóstico de infecção pelos vírus em São Paulo, com o objetivo de monitorar sua prevalência, identificar os fatores de risco associados à sua disseminação, encontrar novos marcadores de valor diagnóstico e prognóstico e realizar estudos de epidemiologia molecular desses retrovírus.

Na primeira etapa do projeto, conduzido com 1.608 pacientes do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo, foram comparados diferentes testes de diagnóstico sorológico e molecular e identificados aqueles com melhor desempenho como estratégia diagnóstica.

O grupo determinou ainda as taxas de prevalência de infecção por HTLV-1 e HTLV-2 na população estudada e as comparou com as de outras populações de pessoas infectadas pelo HIV em anos anteriores. Os resultados obtidos mostraram que houve diminuição de infecção com o passar dos anos, caindo de 13,2% para 3,1%.

“Essa mudança coincidiu com a introdução da política de redução de danos no Estado de São Paulo, que teve início em Santos, em 1989, com a lavagem das seringas e agulhas em solução de hipoclorito e, posteriormente, com a primeira lei estadual que legalizou a troca de seringas, sancionada em março de 1998. A diminuição das infecções pode também estar relacionada a mudanças nas características epidemiológicas da população exposta ao HIV, que hoje é infectada mais pela via sexual do que pelo uso de drogas injetáveis, e no tipo de drogas ilícitas usadas atualmente, como o crack”, disse Caterino-de-Araujo.

“Esses estudos vêm auxiliando o Ministério da Saúde na escolha do melhor algoritmo de testes de diagnóstico a ser empregado em população com HIV.”

O trabalho apresentado nos vídeos descreve ainda que a prevalência da coinfecção HIV/HTLV está no gênero feminino, entre pessoas negras e pardas e pacientes já infectados pelos vírus da hepatite B e da hepatite C, além de usuários de drogas injetáveis. “Esses estudos vêm auxiliando o Ministério da Saúde na escolha do melhor algoritmo de testes de diagnóstico a ser empregado em população com HIV e tem ajudado também os médicos do CRT no melhor acompanhamento dos coinfectados”, disse a pesquisadora.

Os artigos com os resultados apresentados nos vídeos são de autoria de Adele Caterino-de-Araujo, Cláudio Tavares Sacchi, Maria Gisele Gonçalves, Karoline Rodrigues Campos, Mariana Cavalheiro Magri, Wong Kuen Alencar e pesquisadores do Group of Surveillance and Diagnosis of HTLV of São Paulo (GSuDiHTLV-SP), formado por Alexandre de Almeida, Carlos Henrique Barreto-Damião, Fábio Higa, Lucila Okuyama Fukasawa, Luana Coelho, Luis Brígido, Marcela Santana, Maristela Salgado, Nadia Costa, Leda Jamal, Maria de Fátima Jorge, Maria Lúcia Mello, Risia Oliveira e Telma Oshiro.

As pesquisas contaram ainda com a colaboração do CRT em DST/Aids de São Paulo e dos laboratórios de investigações médicas 47 e 56 da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Além da FAPESP, o projeto recebeu financiamento do Ministério da Saúde e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).



4 de maio de 2015 para a Université de Montréal

montreal

Se o vírus da imunodeficiência humana, o HIV, é parecido com uma lata de refrigerante, hermeticamente fechada, que ninguém ainda foi capaz de abrir, a boa notícia é que os cientistas do Centro de Pesquisas CHUM, afiliado com a Universidade de Montreal, identificaram uma maneira de usar um “abridor de lata” para forçar o vírus a abrir e expor suas partes mais vulneráveis, permitindo que as células do sistema imune matem as células infectadas.

Esta descoberta, publicada hoje na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, abre um novo caminho na luta contra o HIV e pode levar à criação de uma vacina para prevenir a transmissão do vírus. Pode também ser parte da solução para um dia erradicar o vírus. Apesar dos recentes avanços, 35 milhões de pessoas estão infectadas com o HIV-1 em todo o mundo.

“Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV-1 possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas. Nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão.”

“Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV-1 possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas. Nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão, adicionando uma pequena molécula que atua como um abridor de lata, para forçar o envelope viral a expor regiões reconhecidas pelos anticorpos, os quais fazem ligação com algumas células do sistema imune e iniciam o ataque contra o vírus”, explica o autor do estudo, Andrés Finzi, pesquisador do CHUM e um professor da Universidade de Montreal.

Burlando as defesas do HIV

Num estudo anterior, também publicado em 2015 (Veillette et al., 2015), o mesmo grupo de pesquisadores demonstrou que o soro de pacientes infectados com HIV-1 facilitada a eliminação de células infectadas quando duas proteínas específicas do vírus, Nef e Vpu, são desativadas através de mutação genética. Os experimentos foram realizados em amostras de soro provenientes da coorte Aids and Infectious Diseases Network (ASDI-MI), parte do Fundo de Pesquisa em Saúde de Québec (FRSQ, na sigla em francês).

Na vida real, entretanto, o HIV-1 selvagem — que é o vírus que nunca sofreu com a ação de antirretrovirais –, responsável ​​pela maioria das infecções em todo o mundo, ainda contém as proteínas Nef e Vpu, que agem como seguranças. Então, como podemos burlá-las? Adicionando uma pequena molécula à superfície das células dos pacientes infectados, chamada JP-III-48, que imita a proteína CD4.

“Adicionando essa pequena molécula, forçamos o envelope viral a se abrir, como uma flor.” 

Proteínas CD4 estão localizadas na superfície de linfócitos T e permitem que as células do sistema imune sejam infectadas pelo HIV. “Adicionando essa pequena molécula, forçamos o envelope viral a se abrir, como uma flor. Os anticorpos que estão naturalmente presentes após a infecção podem, assim, direcionar as células infectadas, as quais são mortas pelo sistema imune”, explica Jonathan Richard, pesquisador de pós-doutorado no CHUM e principal autor do estudo. A molécula JP-III-48 foi desenvolvida pelos cientistas da Universidade de Harvard e da Universidade da Pensilvânia; no entanto, esta é a primeira vez que foi testada com sucesso em pacientes infectados pelo HIV.

Durante décadas, os cientistas têm tentando conceber uma vacina para bloquear a infecção pelo HIV, causador a aids. Medicamentos antirretrovirais podem reduzir a propagação do vírus, mas este ainda permanece oculto e dormente nas células, retornando assim que o tratamento é interrompido. Este locais onde o vírus se esconde são chamados de “reservatórios”. “A solução é desenvolver uma terapia capaz de ‘chutar e matar’ o vírus. Temos que reativar reservatórios de HIV para forçá-lo para fora de seu esconderijo e, em seguida, matar as células infectadas com esta molécula, através dos já presentes anticorpos”, argumenta Finzi, que também é presidente do Canada Research on Retroviral Entry.

A descoberta da equipe de Finzi pode ajudar a desenvolver uma vacina de duas partes, capaz de prevenir a infecção pelo HIV através de anticorpos que são fáceis de produzir e utilizar esta nova família de moléculas. Além disso, a descoberta abre caminho para o desenvolvimento de estratégias para eliminar os reservatórios virais de indivíduos já infectados. O próximo passo é testar o potencial desta molécula “abridor de latas” em macacos.

Sobre o estudo

O estudo foi financiado majoritariamente pelos Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde, Fundação Canadense para a Inovação e Fundo de Pesquisa em Saúde de Québec (FRSQ). Andrés Finzi é presidente do Canada Research on Retroviral Entry e é professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Doenças Infecciosas na Universidade de Montreal. Jonathan Richard é recebedor de uma bolsa de pesquisa do Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde. Os autores também agradecem ao Center for HIV/Aids Vaccine Immunology Discovery (CHAVI-ID), financiado pelo National Institutes of Health dos Estados Unidos. Para mais informações, consulte o artigo publicado online na revista Proceedings, da Academia Nacional de Ciências. A Universidade de Montreal é oficialmente conhecida como Université de Montréal.


Brasil Post

Em 2008, Nick Rhoades, um homem soropositivo do estado de Iowa, nos Estados Unidos, foi preso sob a lei de “Transmissão Criminosa do HIV” porque não contou a um parceiro, com quem transou uma única noite, que era portador do HIV. Rhoades usou camisinha, tinha carga viral indetectável — o que quer dizer que não é possível detectar o vírus em seu sangue mesmo nos exames mais precisos de laboratório — e não transmitiu o vírus. Ele foi condenado a 25 anos de prisão.

Nos Estados Unidos, 33 estados possuem leis específicas que consideram criminosos os soropositivos que, conscientes de sua condição, não revelam a condição sorológica positiva antes do sexo, compartilham seringas, doam órgãos ou sangue ou cuspam em outras pessoas — muito embora seja amplamente sabido que a saliva não transmite HIV. Essas leis já foram aplicadas em 442 processos, condenando 251 indivíduos. Em estados americanos onde não há leis específicas, muitas vezes aplicam-se acusações de agressão, tentativa de homicídio ou bioterrorismo.

Vários países seguiram esse mesmo modelo jurídico, ora aplicando leis específicas, ora leis mais abrangentes. A Suécia chegou a ser o país com maior índice de processos per capita contra soropositivos. A Suíça criou duas leis diferentes e não-específicas para o HIV, as quais já foram usadas em processos de casos de exposição ou transmissão do HIV e não precisam de um denunciante. Graças a elas, desde 1989 foram abertos 39 processos, os quais resultaram em 26 condenações. Em breve, o Brasil pode entrar para o rol dos países com leis criminalizantes do HIV. O deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS) reapresentou uma proposta do ex-deputado federal Enio Bacci, de 1999, com o Projeto de Lei (PL) 198/2015, o qual pretende mudar a Lei dos Crimes Hediondos e punir quem “transmitir e infectar, consciente e deliberadamente a outrem com o vírus da aids.”

Brasilia

Mas será que essa lei é boa e pode de fato prevenir as transmissões de HIV? Reavaliando os casos de processo contra soropositivos, alguns países europeus perceberam que grande parte das condenações se davam quando os acusados eram estrangeiros — especialmente de origem africana e asiática. Nos Estados Unidos, a maioria dos acusados são negros, latinos, gays e mulheres e o processo segue mesmo em casos em que a transmissão do HIV não ocorreu. Muitas vezes, o soropositivo é processado mesmo tendo feito uso do preservativo ou num tipo de contato sexual que não poderia ter infectado seu parceiro.

Em 2009, um estudo suíço sobre as condenações impostas pelas leis criminalizantes do HIV no país mostrou que oito delas se deram após a divulgação voluntária do parceiro soropositivo a respeito de sua condição sorológica, antes do sexo, o qual foi feito sob pleno consentimento do parceiro soronegativo. Em outras palavras: o parceiro soropositivo avisou que tinha HIV, o parceiro soronegativo consentiu ao sexo e, mesmo assim, houve condenação do primeiro. Quando se deram conta disso, as autoridades daquele país perceberam que havia algo errado e a jurisprudência suíça mudou drasticamente. Naquele mesmo ano, o Tribunal de Justiça de Genebra anulou uma condenação de exposição ao HIV, depois de ouvir o testemunho de especialistas, autores da declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça, segundo a qual a falta de infecciosidade observada em indivíduos soropositivos que estão sob tratamento antirretroviral há pelo menos seis meses, com carga viral indetectável e sem coinfecção com outra DST, torna o risco de transmissão do HIV tão baixo que ele é, nas palavras da Comissão, “hipotético”.

“Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável.”

Até então, a declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça se baseava unicamente na observação de médicos desde o início da epidemia de HIV/aids. “Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje. Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais”, explica o Dr. Esper Kallás, médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP.

A afirmativa do Dr. Esper não é uma fala isolada. Hoje, mais de 9 mil casais sorodiscordantes — quando só um dos parceiros é positivo para o HIV — e que optam, deliberada e consensualmente, por não fazer uso consistente do preservativo, foram ou estão sendo acompanhados em pelo menos quatro diferentes estudos: HPTN 052, Partner, Opposites Attract e Partners Demonstration Project, já reconhecidos por consensos médicos americano, britânico, canadense e sueco, entre outros. Nesses estudos, também nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem é soropositivo, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 78% das pessoas que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral no Brasil apresentam esse perfil: carga viral indetectável.

“A criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV.”

Em uma nota na qual apela ao Congresso Nacional para que rejeite e arquive o PL 198/2015, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lembra que “a criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV. Estudos demonstraram que tratamento antirretroviral efetivo e consistente reduz até em 96% as chances de uma pessoa vivendo com HIV transmitir o vírus para seu parceiro sexual em relações desprotegidas. Portanto, uma pessoa em tratamento antirretroviral efetivo, ou seja, com carga viral indetectável, mesmo que tenha a intenção de transmitir o vírus, provavelmente não conseguirá fazê-lo.”

Hoje, a Suprema Corte americana entende que um risco de transmissão “hipotético”, tal como sugerido pelos suíços, é diferente de “razoável”. Em uma decisão por 6 a 1, a condenação de Nick Rhoades pelo estado de Iowa foi derrubada, sob o argumento de que os promotores não tinham provado uma “base factual” para o fundamento, inclusive em virtude da carga viral indetectável do condenado. Em 2013, um tribunal da Suécia também deu indícios de mudança de rumo: um relatório do Centro Nacional de Controle de Doenças Transmissíveis (Smittskyddsinstitutet, SMI) foi citado para absolver um homem soropositivo condenado a um ano de prisão por ter tido relações sexuais com quatro mulheres que nunca contraíram o vírus.

“Os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV.”

“A menos que esteja vivendo em uma caverna nos últimos anos, você deve saber que alguém com carga viral indetectável não transmite HIV”, afirma o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, e que tem respondido em seu blog à várias perguntas sobre a segurança oferecida pelo tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) e pela redução da transmissibilidade observada em quem vive com HIV, em tratamento e tem carga viral indetectável. “Pode ser difícil para algumas pessoas lidar com mudanças de paradigmas e mudar o pensamento que se tornou dogma por mais de três décadas e meia. Ainda há boas razões para usar preservativos: estamos vendo taxas inaceitavelmente altas de sífilis, gonorreia, clamídia e hepatite C entre homens gays sexualmente ativos que não usam camisinha. Mas os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV”, explica Gallant.

“A transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Para ajudar a mudar esse paradigma e as leis criminalizantes, em 2014, aconteceu em Iowa a conferência “HIV não é Crime”. Pouco depois, o Departamento de Justiça americano publicou o Guia com as Melhores Práticas para Reformar as Leis Criminais Específicas de HIV e para se Alinhar com Fatos Amparados Cientificamente, no qual afirma: “Muitas das leis estaduais criminalizam comportamentos que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) consideram apresentar risco nulo ou insignificante para a transmissão do HIV, mesmo na ausência de medidas de redução de riscos. A maioria destas leis foi aprovada antes do desenvolvimento da terapia antirretroviral, a qual o CDC reconhece reduzir o risco de transmissão do HIV em até 96%.” E conclui: “Os dados do CDC e outros estudos nos dizem que a transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Mas o deputado Marco Tebaldi (PSDB-SC), relator que votou pela aprovação do PL 198/2015, discorda do CDC. Ele pensa que “o nosso País experimenta uma verdadeira epidemia de contaminação dolosa de pessoas com o HIV, como noticiado pelos meios de comunicação”, provavelmente se referindo ao “clube do carimbo”, o grupo de soropositivos que transmitem propositalmente o HIV, “carimbando” sua vítimas com o vírus e instruindo outros sobre como fazê-lo também, conforme televisionado na reportagem do Fantástico, da Rede Globo. Paradoxalmente, dois dos entrevistados nesta reportagem — Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids Brasil, e o ativista Diego Callisto — reclamaram publicamente sobre a edição feita pelo programa. Segundo eles, as entrevistas na íntegra foram editadas de maneira a alterar o teor daquilo que consideravam como mais importante em suas falas, as quais teriam incluído, em grande parte, explicações sobre o tratamento como prevenção. O Unaids emitiu uma nota de esclarecimento, manifestando preocupação com a reportagem, e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) também repudiou a abordagem do assunto. O Fantástico fez então uma nova reportagem, no dia 22 de março, quando entrevistou o Dr. Jean Gorinchteyn, infectologista do Hospital Emílio Ribas. “A maior parte dos portadores de HIV são extremamente conscientes e preservam a saúde própria, bem como a dos próximos. O ‘carimbo’ acaba acontecendo principalmente para aqueles indivíduos que não fazem o tratamento”, explicou Gorinchteyn.

Indivíduos que negligenciam sua própria saúde e transmitem intencionalmente o HIV já podem ser condenados com base na legislação atual e vigente, sem a necessidade de uma lei específica. Na esfera criminal, entende-se que casos assim configuram lesão corporal grave, de acordo com o Artigo 129 do Código Penal, parágrafo 2º, inciso II. Então, por que a necessidade do PL 198/2015? Segundo o relator, porque “deve o Estado responder de forma rígida e justa, repreendendo o infrator de forma proporcional e deixando clara mensagem à sociedade de que não admite o cometimento dessa repugnante infração” — portanto, essa é uma lei que quer transmitir uma mensagem, mais do que ter uma eficiência penal.

“Sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV.”

Quando o assunto é saúde pública, no entanto, a mensagem deve ser mais cuidadosa e mais calculada. O Unaids, o CDC, o Departamento de Justiça americano e muitos dos países que, no passado, criaram leis criminalizantes do HIV, hoje concordam que o medo da discriminação faz com que muitos evitem conhecer sua condição sorológica, falar sobre ela ou procurar tratamento de saúde — o mesmo tratamento que pode evitar a transmissão. “Uma vez sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV, iniciando o tratamento em um estágio muito avançado da infecção e, portanto, tornando-se potencialmente mais propensa a transmitir o vírus de forma involuntária”, diz a nota do Unaids.

A resposta brasileira à epidemia de HIV/aids sempre foi elogiada e é referência no mundo todo. Somos pioneiros em questões importantes, como a quebra de patentes de medicamentos e o acesso universal ao tratamento antirretroviral. As campanhas de prevenção sempre se esforçaram para passar uma mensagem objetiva e isenta de moralismo. É hora de decidir se queremos continuar assim ou retroceder, indo na contramão da tendência mundial de abolir ou reformar as leis de criminalização do HIV. É hora de decidir se queremos meter medo ou encorajar as pessoas a fazer o teste, pois, tal como explica o Dr. Esper Kallás, “esta é a melhor ferramenta para controlar a epidemia de HIV/aids.”

Atitude Abril


Medical DailyPor Dana Dovey em 10 de março de 2015 para o Medical Daily

Uma possível “cura funcional” para o HIV recebeu aprovação da Food and Drug Administration (FDA) americana para começar mais testes em humanos. O método usa modificação genética para causar uma mutação específica nas células brancas de pacientes com HIV, imitando as pessoas que são naturalmente imunes ao vírus. Até agora, essa estratégia tem se mostrado receptiva e de efeito duradouro.

A nova terapia retira células-tronco de pacientes soropositivos e, através de uma ferramenta de edição genética, faz as células brancas do sangue ganharem uma mutação específica. Essa mutação afeta a proteína CCR5 e interfere na habilidade do vírus de penetrar na células do sangue. É naturalmente presente numa pequena porcentagem da população mundial e faz com que estes indivíduos sejam resistentes à infecção pelo HIV pela vida toda. Embora o vírus possa permanecer no corpo, sem conseguir penetrar nas células T ele não é capaz de se replicar e, como consequência, permanece em pequena quantidade, a qual não compromete o sistema imune.

Em teoria, quando essas células geneticamente modificadas são reintroduzidas nos pacientes com HIV, elas vão repopular o organismo com células que contém a mesma mutação. Em apenas um procedimento, os pacientes com HIV passariam a ter resistência vitalícia aos danos do vírus. O método foi desenvolvido pela Sangamo BioSciences Inc., mas também foi testado em humanos pela empresa Calimmune, de acordo com notícia do San Francisco Business Times.

HIV
A recente aprovação da FDA é um grande passo em direção à cura do HIV. Foto cortesia do Shutterstock para Medical Daily

De acordo com o IFL Science, num pequeno estudo clínico com 12 pacientes, o procedimento foi bem tolerado e apresentou baixo risco de efeitos colaterais. As células geneticamente modificadas ficaram quatro anos dentro dos pacientes. Infelizmente, o estudo não foi grande o suficiente para testar a eficácia do procedimento — o que agora deve mudar, com a atual aprovação da FDA, a qual permite que o estudo seja estendido a mais pacientes com HIV. A FDA também aprovou o início da Fase I do estudo de segurança, o qual consiste em três anos de estudos em humanos para testar uma abordagem que usa outro método de supressão da proteína CCR5.

De acordo com a notícia do San Francisco Business Times, os estudos devem ser conduzidos no centro médico City of Hope, na Califórnia, e está sendo financiado pelo CIRM, a agência estadual de financiamento de pesquisas com células tronco. Pesquisadores da Sangamo BioSciences Inc. e da Keck School of Medicine na University of Southern California vão conduzir os estudos. Serão incluídas pessoas com HIV/aids que tiveram respostas pobres à terapia convencional.

“Esse tipo de trabalho é importante demais para ser experimentando através de um método e esperar para ver seu resultado”, explicou o Dr. Jonathan Thomas, presidente do conselho administrativo do CIRM, ao Imperial Valley News. “Temos a missão de buscar tratamento para os pacientes que precisam. Ao tentar diferentes abordagens, chutando várias vezes ao gol, acreditamos que temos mais chances de obter sucesso.”

O procedimento espera replicar o que aconteceu com o Paciente de Berlim, a única pessoa até hoje curada do HIV. Se for provado que essas abordagens são tão eficazes na prática quanto em teoria, o procedimento pode vir a ser a primeira “cura funcional” do mundo para HIV/aids.



Por Carl Zimmer em 9 de março de 2015

No mês passado, um grupo de cientistas anunciou aquilo que pode vir a ser um enorme passo na luta contra o HIV. Pesquisadores do Scripps Research Institute afirmam ter desenvolvido um anticorpo artificial que, uma vez no sangue, é capaz de se agarrar ao vírus e desativá-lo. A molécula foi capaz de eliminar o HIV de macacos infectados e protegê-los de futuras infecções.

Esse tratamento não consiste numa vacina, em seu sentido comum. Ao levar genes sintéticos aos músculos dos macacos, os cientistas estão essencialmente reprogramando a genética dos animais para resistir à doença. Os pesquisadores estão testando essa nova abordagem não apenas contra o HIV, mas também o ebola, malária, influenza e hepatites.

“É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro.”

“O céu é o limite”, disse Michael Farzan, imunologista do Scripps e autor líder deste novo estudo. Farzan e outros cientistas estão cada vez mais esperançosos de que esta técnica possa servir como proteção duradoura contra doenças para as quais as vacinas falharam. O primeiro teste em humanos baseado nesta estratégia — chamada de imunoprofilaxia por transferência genética, ou IGT, na sigla em inglês — está a caminho e vários outros já estão planejados. “É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro”, afirma Gary J. Nabel, cientista chefe da Sanofi, empresa farmacêutica que produz uma vasta gama de vacinas.

IGT

Ainda não se sabe se o IGT será bem sucedido. Os pesquisadores ainda precisam calibrar sua segurança e eficácia em humanos. A ideia de reprogramar geneticamente as pessoas para resistir à doenças infecciosas pode levantar preocupações entre alguns pacientes. “A realidade é que estamos diante de algo nunca antes feito e isso vai exigir explicações”, disse o Dr. David Baltimore, premiado com o Nobel e virologista na Caltech, que está testando o IGT contra diversas doenças.

Vacinas convencionais estimulam o sistema imune a aprender a criar anticorpos, induzindo o corpo através de fragmentos moleculares, formas brandas ou mortas de patógenos. Nossas células imunes produzem então muitos anticorpos, alguns dos quais podem lutar contra essas infecções.

Em alguns casos, esses anticorpos produzem defesas fortes. A vacinação contra varíola e sarampo leva à uma proteção praticamente total. Entretanto, contra outras doenças, as vacinas convencionais nem sempre são suficientes para produzir anticorpos eficazes. O HIV, por exemplo, vem em tantas cepas distintas que uma vacina contra uma não iria proteger contra as outras.

O IGT é uma abordagem diferente da vacinação tradicional. Ao invés disso, é uma forma de terapia genética. Os cientistas isolam os genes que produzem anticorpos potentes contra certas doenças e então sintetizam-no em versões artificiais. Os genes são colocados dentro de vírus e injetados no tecido humano, em geral um músculo.

Dr. Michael Farzan
Dr. Michael Farzan, imunologista do Scripps Research Institute, ajudou a desenvolver um anticorpo artificial que desativou o HIV em macacos. Foto de Benjamin Rusnak para The New York Times.

O vírus invade as células humanas com sua carga de DNA e, assim, o gene sintético é incorporado ao próprio DNA do recipiente. Se tudo corre bem, os novos genes instruem as células a produzir anticorpos potentes. A ideia do IGT veio da luta contra o HIV. Algumas poucas pessoas têm anticorpos muito potentes contra o HIV. Os chamados “anticorpos com ampla capacidade neutralizante” podem travar diferentes cepas de HIV e evitar que infectem novas células.

O Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, teve uma ideia: por que não tentar levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para todo mundo? Há algum tempo, ele e outros pesquisadores estavam experimentando a terapia genética para hemofilia. Acabaram descobrindo como carregar genes para dentro dos vírus e a persuadi-los a invadir as células. Ocorreu ao Dr. Johnson que talvez fosse possível usar esta estratégia para introduzir o gene de um potente anticorpo dentro da célula de um paciente. Uma vez que as células começassem a produzir anticorpos, o paciente estaria “vacinado” contra a doença.

A ideia representou uma mudança radical na direção da terapia genética. Até então, os cientistas vislumbravam curar distúrbios genéticos oferecendo genes funcionais no lugar dos deficientes. O IGT apontava outro caminho, protegendo pessoas saudáveis de doenças infecciosas. Mas não havia garantia de sucesso. O melhor vírus para enviar genes que o Dr. Johnson conhecia, funcionava apenas em células musculares — as quais geralmente não produzem anticorpos.

Em 2009, o Dr. Johnson e seus colegas anunciaram que a abordagem funcionou. Em seu experimento, eles tentaram proteger macacos contra o SIV, a versão primata do HIV. Para fazê-lo, usaram vírus para entregar poderosos genes nos músculos dos macacos, os quais produziram os anticorpos, tal como esperado. Os cientistas, então, infectaram os macacos com SIV. E descobriram que os macacos produziram anticorpos suficientes para protegê-los da infecção. Sem o IGT, os macacos com a mesma dosagem de SIV morreram.

O estudo do Dr. Johnson convenceu o Dr. Farzan que o IGT era promissor. “Eu abracei a ideia”, afirma. O Dr. Farzan e seus colegas têm modificado anticorpos contra o HIV a fim de produzir uma defesa potente contra o vírus. Enquanto isso, em 2011, o Dr. Baltimore e seus colegas mostraram que anticorpos enviados às células através de vírus conseguiram proteger ratos contra injeções de HIV, sugerindo que o IGT seria capaz de proteger pessoas do mesmo modo, isto é, por infecções decorrentes de agulhas infectadas, injeções de HIV.

“Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Mas a maioria das infecções por HIV vêm através do sexo. Assim, o Dr. Baltimore e seus colegas infectaram com HIV uma rata, fêmea, através de sua membrana vaginal. No ano passado, eles documentaram que técnica também foi capaz de proteger o rato desta forma de infecção. “Estamos contornando o sistema imune, ao invés de tentar estimulá-lo”, disse o Dr. Baltimore. “Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Gary W. Ketner, microbiologista da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, ficou intrigado com os resultados do Dr. Baltimore e se perguntou se o IGT não poderia ser empacotado contra outra grave doença que escapa das vacinas: a malária.

 Dr. Philip R. Johnson
Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, desenvolveu uma abordagem de levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para pessoas saudáveis. Foto de Jessica Kourkounis para The New York Times

Dr. Ketner, Dr. Baltimore e seus colegas descobriram um potente anticorpo contra a malária e usaram um vírus para levar seu gene a um rato. Em agosto do ano passado, eles documentaram que 80% dos ratos expostos à picadas do mosquito da malária estavam protegidos. “É muito animador”, disse o Dr. Ketner. “É um ótimo resultado para um método nunca antes testados, mas ainda precisa melhorar.” Agora, Ketner está pesquisando melhores anticorpos, capazes de prover melhor proteção em doses menores.

Esses experimentos sugerem que os anticorpos criados através do IGT podem ajudar contra doenças que há décadas resistem às vacinas. Outros estudos sugerem que o IGT também pode ajudar contra futuros surtos epidêmicos.

Dr. James M. Wilson, patologista da Universidade de Pensilvânia, e seus colegas estão experimentando o uso da terapia genética no tratamento de fibrose cística, levando genes às células dos pacientes através das vias respiratórias. Ocorreu ao Dr. Wilson que muitos dos vírus que se espalham rapidamente, como influenza e SARS, atacam as mesmas células. Em 2013, ele e seus colegas documentaram que vírus carregando genes de anticorpos através das vias respiratórias são capazes de fazer o sistema imune de ratos e furões combater diversas cepas de gripe. Desde então, eles vêm testando o IGT contra vírus epidêmicos mortais — incluindo ebola. O Dr. Wilson e seus colegas se juntaram à Mapp Biopharmaceutical, empresa que desenvolveu um anticorpo contra o ebola, chamado de ZMapp. Os cientistas sintetizaram um gene para o anticorpo ZMapp e levaram-no até o músculo dos ratos. O experimento está nos estágios iniciais, mas já mostra “resultados animadores”, segundo o Dr. Wilson.

“Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

Para o Dr. Johnson, o interesse crescente no IGT é gratificante. “Está em voga, mas certamente não é moda”, disse ele. E isso deve mudar, em breve. Em fevereiro do ano passado, o Dr. Johnson começou o primeiro ensaio clínico do IGT em humanos. Seu time de pesquisadores levou genes de anticorpos contra o HIV aos músculos de voluntários, para verificar se o tratamento é seguro. Os cientistas esperam terminar de colher os resultados nos próximos meses. “Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

O Dr. Baltimore está colaborando com os National Institutes of Health (NIH) para começar um ensaio clínico similar, com um IGT que carrega um vírus capaz de lutar contra o HIV. O Dr. Wilson está preparando um estudo clínico do IGT contra a gripe até o final deste ano.

Não há qualquer garantia que o sucesso nestes testes em animais seja replicado em humanos. “Humanos não são ratos gigantes”, afirma o Dr. Ronald G. Crystal, presidente de medicina genética no Weill Cornell Medical College. O sistema imune humano pode atacar anticorpos artificiais ou mesmo os vírus que os entregam, destruindo a proteção que eles trazem. Talvez, as células musculares produzam anticorpos demais, uma vez que elas não têm a mesma regulação que as células do sistema imune.

O Dr. Farzan e outros cientistas estão pesquisando interruptores moleculares capazes de desligar a produção de anticorpos ou ajustar sua dosagem. “Se queremos ver essa abordagem florescer, precisamos de interruptores reguladores”, disse ele. Apesar das preocupações remanescentes a respeito do IGT, o Dr. Nabel continua otimista. “Existem preocupações a respeito de segurança que precisamos levar em conta, mas há caminhos lógicos para abordar essas questões.”

“Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”

Bioéticos não veem grandes embates éticos diante do IGT, porque trata-se de terapia genética, algo que tem sido desenvolvido por mais de 30 anos. “Não me parece que é um ponto de partida radical”, disse Jonathan Kimmelman, professor associado da McGill University. Ainda assim, o Dr. Baltimore acredita que algumas pessoas desconfiem de uma estratégia de vacinação capaz de alterar o próprio DNA, mesmo que isso as proteja de uma doença potencialmente fatal. “Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”