história
his.tó.ria
sf (gr historía) 1 Narração ordenada, escrita, dos acontecimentos e atividades humanas ocorridas no passado. 2 Ramo da ciência que se ocupa de registrar cronologicamente, apreciar e explicar os fatos do passado da humanidade em geral, e das diversas nações, países e localidades em particular. 3 Os fatos do passado da humanidade registrados cronologicamente. 4 Ramo da ciência que se ocupa com a natureza animada e inanimada. 5 Tratado acerca da origem e desenvolvimento de uma nação, ciência, arte etc. 6 O futuro, considerado como juiz das ações humanas: A história o julgará. 7 Biografia de uma personagem célebre. 8 Exposição de fatos, sucessos ou particularidades relativas a determinado objeto digno de atenção pública. 9 Narração de aventura particular

Brasil Post

Há algumas semanas, fui abordado, por e-mail, por dois jornalistas da mais conhecida emissora de TV do país. Eles me convidavam a participar de um programa, no qual tratariam do tema da “aids nos dias de hoje”. Para isso, diziam, gostariam de entrevistar jovens que sofrem com os efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais. Segundo eles, mesmo com os avanços no tratamento e uma vida normal, ainda existiria esta consequência do uso dos remédios contra o HIV. Mostrar isso, contar essa história de sofrimento constante após o diagnóstico, seria uma maneira de fazer um alerta para que as pessoas se cuidem, se previnam mais.

Embora eu tenha sofrido com efeitos colaterais no passado, recusei a entrevista, pois eu não mais sofro com isso. Quando fui diagnosticado positivo para o HIV, em outubro de 2010, eu tinha pouco conhecimento sobre o HIV e da vida de quem toma antirretrovirais. Sobre o HIV e aids, lembro que aprendi na escola, ouvi de meus pais e assisti na extinta MTV Brasil que era preciso usar camisinha, camisinha e camisinha. Essa era a única história que contavam, cujo final trágico em caso de falha em seu uso era o diagnóstico positivo. Recebido o resultado “reagente” para o teste de HIV, eu, claro, entrei em desespero. Eu não sabia qual era a história que se seguiria a partir dali, mas presumia que não seria nada agradável.

O primeiro médico infectologista que visitei, Dr. O., corroborou com essa presunção. Me explicou que os efeitos colaterais dos remédios que eu estava prestes a tomar eram quase que inevitáveis e, muitas vezes, tão fortes que poderiam me levar ao hospital. “Se isso acontecer, me dê uma ligada”, disse ele. Tomei os primeiros comprimidos de Kaletra e Biovir, a combinação de antirretrovirais sugerida pelo doutor, às 22h do dia 5 de janeiro de 2011. Às 22:30h, já corria para o banheiro, com dores abdominais indescritíveis e uma diarreia que jamais experimentara antes. Dias depois, fui sim parar no pronto-socorro, depois de acordar vomitando e vomitando, sem parar. Liguei, mas o doutor não atendeu. Noutra ocasião, defequei nas calças, enquanto andava na rua. Foram quatro meses, sob esta mesma combinação de remédios a qual o doutor insistia ser a melhor, de contínuo e constante sofrimento, traçando uma história condizente com a esperada por mim quando li “reagente” no papel do laboratório — afinal, não é sofrido viver com HIV?

Essa última pergunta foi feita meses antes por outra jornalista, de uma revista feminina de saúde do Grupo Abril, que me cedeu toda uma página para escrever sobre a vida com HIV. Era a edição de junho, mês do dia dos namorados. Meu texto foi integralmente reproduzido, tal como eu o escrevi, exceto seu final. O ponto de exclamação, digitado por mim, foi substituído por reticências, mudando completamente o sentido da última frase. Noutras palavras, o bom humor foi trocado por melancolia e, pior, bem no final do texto. Quando questionei a jornalista, sua resposta foi sincera: “nós nunca imaginaríamos que não seria sofrido viver com HIV.” Ainda assim, a exclamação não voltou. E, para que as reticências não ficassem, o acordo foi encerrar o texto sem a última frase.

É claro, durante toda minha história inicial com HIV, seria impossível ter usado exclamação. Mas aprendi que não precisava ser assim. Comecei a ler, pesquisar, escrever e acabei por mudar de médico. Conheci o Dr. Esper Kallás, meu infectologista atual. Sua primeira recomendação foi trocar meu coquetel “por um menos tóxico”. Mal sabia eu que era possível fazer essa troca, que havia outras opções de combinação de remédios e tampouco que poderia haver uma que não me causaria efeitos colaterais. Dito e feito. Em 24 horas após a troca dos meus medicamentos, a diarreia cessou. O enjoo sumiu. E a minha vida voltou ao normal.

Ainda demorou para que eu reescrevesse a minha história, compreendendo que havia espaço para bom humor e mais leveza. Hoje, percebo que o começo da minha história com o vírus foi enormemente influenciado pela única história que se contava do HIV e de quem vive com ele: uma história de medo, dor, tragédia e sofrimento. Hoje, aprendi que o diagnóstico positivo é difícil, sim, mas não é uma tragédia sem fim. É possível dar a voltar por cima e entender que a história que nos é contada repetidas vezes, a “oficial”, não é a única e está longe de ser a melhor.

É verdade também que a minha história não é a única história. Existem aqueles que, apesar de experimentar todas as combinações possíveis de coquetel, ainda assim sofrem com efeitos colaterais. Existem aqueles que, diagnosticados nas primeiras décadas da epidemia, já se tornaram resistentes aos medicamentos menos tóxicos, com menos efeitos colaterais, ou que, na pior das hipóteses, tiveram efeitos colaterais físicos irrecuperáveis, como lipodistrofia e danos neurológicos que causam dores constantes. Porém, a minha história é uma história real e representa a de muitas pessoas que vivem bem e com HIV. Sei que é uma história que ajuda quem foi diagnosticado a não cair em desespero e quem está com medo de fazer o teste de HIV a seguir em frente e fazê-lo logo.

Estamos numa nova era da epidemia de HIV/aids. É hora de mudar esta velha história que é contada por aí, de medo, culpa e sofrimento. A “aids nos dias de hoje” não é mais a dos efeitos colaterais, mas a da melhora no tratamento com um apenas um único comprimido por dia, da supressão do vírus no organismo para níveis indetectáveis, o que faz daqueles que vivem com HIV e tomam antirretrovirais como parceiros sexuais mais seguros do que parceiros de sorologia desconhecida, da expectativa de vida igual a de soronegativos, das alternativas de prevenção ao uso da camisinha, do fim do medo e da culpa pela falha em seu uso e da consciência que quem cuida da saúde, soropositivo ou soronegativo, deve se orgulhar disso, pois esta é a melhor forma de controlar a epidemia no mundo.

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Filme com Deborah Secco como portadora de HIV emociona público em Paulínia

Tiago Dias, do UOL, em Paulínia (SP)

Nos minutos finais de “Boa Sorte”, uma espécie de “A Culpa é das Estrelas” com usuários de drogas, o público do Festival de Paulínia –que, no início, chegou a rir com o filme– se resumia em um silêncio cortado apenas por narizes assoados para evitar o choro. Até mesmo a atriz Deborah Secco derramava lágrimas ao abraçar a equipe após a primeira exibição do longa, na noite desta quinta-feira (24). [Continue lendo.]



Parcerias no futuro do tratamento do HIV

Postado 24 de julho de 2014 no blog da Aids 2014, por Greg Perry, Diretor Executivo do Medicines Patent Pool

A comunidade internacional já percorreu um longo caminho desde a primeira conferência sobre aids, em 1985. Embora ainda estejamos à espera de uma vacina eficaz contra o HIV e uma cura funcional, a inovação dos antirretrovirais (ARVs) e seu aumento de escala trouxeram uma mudança significativa na perspectiva da resposta global ao HIV/aids.

Ao longo dos últimos 31 anos, 29 novos químicos foram aprovados para o tratamento do HIV. A descoberta da terapia antirretroviral, apresentada na 11ª International Aids Conference (IAC), em 1996, foi um divisor de águas ao fazer do HIV/aids uma condição crônica e não mais uma sentença de morte. Em 2001, combinações triplas de dose fixa reuniram vários ARVs em esquemas de único comprimido. Agora, quando entramos na quarta década de HIV, podemos ver mais uma vez a promessa de novos medicamentos que ajudarão a melhorar os regimes de hoje, com drogas que parecem oferecer maiores barreiras contra resistência do vírus e melhores perfis de segurança. Ao longo dos últimos três anos, os reguladores aprovaram quatro novos ARVs e pelo menos mais um ARV está em fase final de desenvolvimento clínico.

Temos que garantir que esses novos medicamentos estejam disponíveis a preços acessíveis para os países em desenvolvimento o mais rápido possível. Historicamente, temos tido uma média de sete a nove anos para que as versões genéricas de um novo tratamento contra o HIV chegue nos países de baixa renda, após sua introdução nas nações industrializadas. Nossa organização, a Medicines Patent Pool (MPP), é um grupo de patentes que faz parcerias com empresas farmacêuticas para encurtar este cronograma. A MPP faz acordos de licenciamento que agora permitem que os fabricantes de genéricos possam produzir os medicamentos mais recentes, logo após a sua aprovação nos EUA e na Europa. Por exemplo, a nossa recente licença para o Dolutegravir, um novo e promissor inibidor da integrase, deve permitir que os genéricos entrem no mercado dentro de dois a três anos de sua aprovação inicial.

No campo do HIV pediátrico, não foi feito o suficiente para garantir que as crianças tenham o tratamento adequado. Embora o mundo tenha feito progressos significativos no aumento da escala do tratamento para adultos, apenas um quarto das 3,3 milhões de crianças que vivem com HIV no mundo em desenvolvimento têm acesso ao tratamento. Em parceria com a UNITAID e com a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi), a MPP está trabalhando com várias partes interessadas a contribuir para superar esta lacuna, através do desenvolvimento de formulações amigáveis ao tratamento infantil, de acordo com o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cada dois anos, a IAC oferece uma oportunidade para fazermos um balanço do nosso progresso e discutir os novos desenvolvimentos para melhorar a nossa resposta coletiva contra a aids. Na IAC 2014, vejo que há uma boa razão para ser otimista sobre as opções de tratamento de amanhã, mas apenas se trabalharmos em conjunto com outras organizações para quebrar as barreiras do acesso e disponibilidade em países mais atingidos pela epidemia.

Basta imaginar um futuro em que os efeitos colaterais do tratamento de HIV serão mínimos e raramente resultarão em abandono do tratamento; um futuro em que o custo não será mais um fator para garantir o tratamento mais adequado e em que os novos ARVs se tornarão disponíveis para as pessoas nos países mais pobres, pouco depois de terem sido lançados nos países mais ricos. Neste cenário, as crianças iriam tomar um medicamento simples e eficaz, uma vez ao dia e apropriado para sua idade e peso.

A história dos últimos 30 anos sugere que estas são previsões razoáveis. Com uma contínua e forte liderança, vontade política, mobilização da comunidade e parcerias adequadas com objetivos claros, podemos desenvolver e distribuir o tratamento de HIV certo e ao preço certo para os mais necessitados. Novos medicamentos animadores estão no horizonte e podem mudar a nossa forma de tratar o HIV, reduzindo os efeitos colaterais e melhorando os resultados do tratamento, a um custo mais acessível. Esse futuro está claramente ao nosso alcance. Basta que os interessadas redobrem seu esforço.


Brasil Post

Joep Lange (Merlijn Doomernik/Hollandse Hoogte/eyevine)

O virologista holandês Joep Lange, um dos 298 mortos na tragédia do voo da Malaysia Airlines em 17 de julho, dizia: “Por que é que estamos sempre falando sobre o problema da distribuição de medicamentos, quando não há praticamente nenhum lugar na África onde não se pode tomar uma cerveja ou uma Coca-Cola gelada?”

Desde 1990, Lange lutava pela distribuição de medicamentos antirretrovirais em países de baixa renda. Ele também foi um dos responsáveis por estudar a segurança e eficácia da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel” com múltiplos medicamentos, que hoje é o padrão de tratamento para HIV/aids. Estudou a resistência do HIV a medicamentos e o papel do tratamento como prevenção (TasP), incluindo a prevenção na transmissão vertical, de mãe para filho. Foi consultor de antirretrovirais para várias empresas farmacêuticas, cofundador do jornal Antiviral Therapy e da HIV Netherlands Australia Thailand Research Collaboration (HIV-NAT), uma rede responsável por 68 estudos clínicos que testaram a viabilidade de fornecimento de medicamentos antirretrovirais para pacientes em países de baixa renda.

No ano 2000, ajudou a lançar a organização sem fins lucrativos PharmAccess Foundation, que começou a levar antirretrovirais para a África subsaariana. Esse projeto começou restrito, mas inovador, distribuindo tratamento para os funcionários de uma fábrica da Heineken, marca holandesa de cervejas que foi uma um das primeiras apoiadoras do PharmAccess, e seus dependentes. O projeto se expandiu, com um fundo que subsidiava planos de saúde que pagavam pelos antirretrovirais para 100 mil pessoas na Nigéria, Tanzânia e Quênia. Entre 2002 e 2004, Lange foi presidente da International Aids Society (IAS).

Charles Boucher, virologista do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, contou à revista Nature: “Trabalhei com Lange por 30 anos. Eu o conheço desde a faculdade de medicina. Ele estava um ano à minha frente. Fiz meu doutorado com ele. Eu o vi crescer, de um médico que cuidava de pacientes no início de 1980 para um líder nacional que liderou o nosso país na Europa com o desenvolvimento de novos medicamentos, avaliação de novas drogas e mudando os paradigmas de estudos clínicos. De lá, ele foi para a pesquisa internacional, para a África, onde tornou-se conhecido.”

Além de Joep Lange, a morte de outros cinco passageiros do voo MH17 que participariam de conferência Aids 2014, na Austrália, foi confirmada:

  • Jacqueline van Tongeren, colega de Lange e membro da ArtAids;
  • Glenn Thomas, coordenador de relações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, Suíça;
  • Lucie van Mens, pioneira na defesa do acesso das mulheres a preservativos femininos e diretora de desenvolvimento da Female Health Company, que fabrica, comercializa e vende estes preservativos;
  • Martine de Schutter, gerente do programa Bridging the Gaps na Aids Fonds, onde trabalhou para tornar o tratamento e a prevenção do HIV acessível a todos;
  • Pim de Kuijer, escritor, ativista político, militante e defensor da organização Stop Aids Now!, empenhada em aumentar a contribuição holandesa na luta contra aids em países em desenvolvimento.

Em 19 de julho, Malaysia Airlines divulgou a lista de passageiros completa. A empresa diz que 192 dos passageiros eram da Holanda, 44 da Malásia, 27 da Austrália, 12 da Indonésia, 10 do Reino Unido, 4 da Bélgica, 4 da Alemanha, 3 das Filipinas, 1 do Canadá e 1 Nova Zelândia.

Em um comunicado, a IAS disse que “continua a trabalhar com as autoridades para esclarecer o impacto da tragédia do voo MH17 da Malaysia Airlines nos participantes da conferência, parceiros de conferência e em nossa comunidade como um todo”. A sociedade também disse que a conferência continua. “Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/aids, a conferência irá adiante, conforme o planejado, e vai incluir oportunidades de reflexão para lembrar aqueles que perdemos.” A conferência começou com todos os participantes de pé, em um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do voo MH17.

Um minuto de silêncio na cerimônia de abertura da Aids 2014.

Um dia depois do acidente, foram apresentados na conferência dois casos de pacientes australianos que não apresentam mais sinais do HIV, depois de um transplante de medula óssea para tratar câncer. Eles continuam sob tratamento antirretroviral “por precaução”, segundo o Dr. David Cooper, diretor do Kirby Institute da University of New South Wales em Sidney.

Depois de ouvir falar sobre o caso dos “pacientes de Boston”, dois homens que permaneceram por um longo tempo sem sinais do vírus após um tratamento similar, Cooper conduziu uma pesquisa nos arquivos de um dos maiores centros de transplante de medula óssea da Austrália, a fim de verificar se, por acaso, algum portador do HIV teria feito o transplante nos últimos anos. Encontrou dois casos: o primeiro havia recebido transplante para tratar um linfoma não-Hodgkin, em 2011, e o segundo para leucemia, em 2012.

Assim como no caso dos “pacientes de Boston”, é possível que os dois australianos voltem a apresentar sinais do vírus se interromperem a terapia antirretroviral. Por isso, eles não estão sendo considerados casos de cura e continuam sob a terapia antirretroviral. Entretanto, os resultados atuais mostram que existe uma clara relação entre o transplante de medula óssea e os “reservatórios de HIV”, o lugar onde o vírus se esconde no organismo. “Se conseguirmos entender como isso acontece, vamos acelerar o campo de pesquisa da cura”, afirma Cooper.

Até agora, o único caso de cura do HIV continua sendo o de Timothy Brown, o “paciente de Berlim”, que também fez um transplante de medula, no entanto, a partir de células de um doador naturalmente resistente ao HIV. Ele está há seis anos sem tomar antirretrovirais e não apresenta sinais do vírus. O transplante de medula óssea não é um tratamento viável para se tornar rotina na cura do HIV porque o procedimento apresenta alto risco de mortalidade, em 10%.

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A Unaids divulgou hoje, 16 de julho de 2014, seu relatório de 2014 sobre a epidemia de HIV/aids, que contabiliza os dados do ano passado. Diferentemente do Relatório Global, este traz os números da epidemia sobre “as pessoas deixadas para trás”, que estão nas lacunas do controle da epidemia. Estes números mostram que 35 milhões de pessoas vivem hoje com HIV, 19 dos quais não sabem da sua condição. Em 2013, aconteceram 2,1 milhões novas infecções, 38% menos do que em 2001. A transmissão vertical, de mãe para filho, decresceu 58% desde 2001 — ainda assim, 240 mil crianças foram infectadas no ano passado. As mortes em decorrência da aids foram reduzidas em 35% desde seu pico, em 2005. 12,9 milhões de pessoas têm acesso à terapia antirretroviral, o que representa 37% das pessoas vivendo com HIV. Foram investidos 19 bilhões de dólares no mundo todo, em resposta à aids. Os três países com maior incidência de HIV são África do Sul, Nigéria e Uganda. O Brasil empata com os Estados Unidos, com 2% dos novos casos de infecção.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou as Diretrizes Consolidadas para Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do HIV e Cuidado de Populações Vulneráveis.

Segundo o documento, as populações vulneráveis são grupos que “devido a comportamentos específicos de maior risco, estão sob maior risco de contrair HIV, independentemente do tipo de epidemia ou contexto local. Além disso, estes grupos muitas vezes sofrem problemas judiciais e sociais relacionados com seus comportamentos, o que aumenta sua vulnerabilidade ao HIV.” As diretrizes da OMS se concentram em cinco populações vulneráveis: 1) homens que fazem sexo com homens, 2) usuários de drogas injetáveis, 3) prisioneiros e encarcerados, 4) profissionais do sexo e 5) transexuais. Nestas populações, a OMS recomenda as seguintes intervenções:

PREVENÇÃO DO HIV

1

Uso correto e consistente de camisinha com lubrificantes compatíveis é recomendado para todas as populações vulneráveis para prevenir a transmissão sexual do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

2

Entre homens que fazem sexo com homens, a profilaxia pré-exposição (PrEP) é recomendada como opção adicional dentro de um pacote abrangente de prevenção do HIV. (NOVA RECOMENDAÇÃO)

3

Sempre que casais sorodiscordantes puderem ser identificados e opções adicionais de prevenção do HIV forem necessárias, a PrEP oral diária (especificamente Tenofovir ou a combinação de Tenofovir e Emtricitabina) pode ser considerada como uma possível intervenção adicional para o parceiro não infectado.

4

Profilaxia pós-exposição (PEP) deve estar disponível de forma voluntária para todas as pessoas elegíveis nas populações vulneráveis depois de uma possível exposição do HIV.

5

Circuncisão masculina médica voluntária é recomendada como uma importante estratégia adicional de prevenção do HIV por transmissão heterossexual em homens, em especial em situações hiperendêmicas ou de epidemia generalizada de HIV e baixa prevalência de circuncisão masculina.

REDUÇÃO DE DANOS EM USUÁRIOS DE DROGAS

6

Todas as pessoas das populações vulneráveis que usam drogas injetáveis devem ter acesso a injeções estéreis através de programas de agulhas e seringas descartáveis.

7

Todas as pessoas de populações vulneráveis que são dependentes de opióides devem ter a possibilidade de acesso a terapia de substituição de opióides.

8

Todas as pessoas de populações vulneráveis que fazem uso prejudicial de álcool ou outras substâncias devem ter acesso a intervenções baseadas em evidências, incluindo breves intervenções psicossociais envolvendo avaliação, feedback específico e aconselhamento.

TESTAGEM DE HIV E ACONSELHAMENTO

10

Testagem voluntária de HIV e aconselhamento devem ser rotineiramente oferecidas para todas as populações vulneráveis, tanto na comunidade quanto em ambientes clínicos. Testagem de HIV e aconselhamento baseados na comunidade, ligados à prevenção, cuidado e serviços de tratamento é recomendada como complemento à testagem e aconselhamento comuns.

TRATAMENTO PARA O HIV E CUIDADO DE SAÚDE

11

Populações vulneráveis vivendo com HIV devem ter o mesmo acesso a terapia antirretroviral (TARV) e a administração de antirretrovirais (ARV) que outras populações.

12

Todas as mulheres grávidas das populações vulneráveis devem ter o mesmo acesso a serviços de prevenção da transmissão vertical e seguir as mesmas recomendações para mulheres de outras populações.

PREVENÇÃO E CUIDADO DE COINFECÇÕES E COMORBIDADES

13

Populações vulneráveis devem ter o mesmo acesso a prevenção, diagnóstico e tratamento de tuberculose que outras população sob risco ou vivendo com HIV.

14

Populações vulneráveis devem ter o mesmo acesso a prevenção, diagnóstico e tratamento de hepatites B e C que outras população sob risco ou vivendo com HIV.

15

Exames de rotina e cuidado de disfunções de saúde mental (depressão e stress) devem ser oferecidos às pessoas das populações vulneráveis que vivem com HIV, a fim de otimizar os resultados de saúde e melhorar a adesão aos ARVs. O cuidado pode ir do aconselhamento sobre HIV e depressão à terapias médicas apropriadas.

SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

16

Exame, diagnóstico e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis devem ser oferecidos rotineiramente como parte de uma estratégia ampla de prevenção do HIV e cuidado de saúde para as populações vulneráveis.

17

Pessoas das populações vulneráveis, incluindo aqueles que vivem com HIV, devem poder ter uma experiência completa e prazerosas da vida sexual e acesso a uma gama de opções reprodutivas.

18

Leis e serviços de aborto devem proteger a saúde e os direitos humanos de todas as mulheres, incluindo as que fazem parte de populações vulneráveis.

19

É importante oferecer exames para câncer cervical à todas as mulheres das populações vulneráveis.

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É importante que todas as mulheres das populações vulneráveis tenham o mesmo suporte e acesso ao cuidado de saúde para gravidez e parto que mulheres de outras populações.

FACILITADORES

1

Leis, políticas e práticas devem ser revistas e, quando necessário, revisadas por formuladores de políticas e líderes governamentais, com envolvimento significativo de representantes das populações vulneráveis, a fim de permitir e apoiar a implementação e ampliação de serviços de cuidado de saúde para as populações vulneráveis.

2

Os países devem trabalhar em prol da implementação e aplicação de leis protetoras e antidiscriminação, derivadas de padrões de direitos humanos, a fim de eliminar o estigma, a discriminação e a violência contra as pessoas das populações vulneráveis.

3

Serviços de saúde devem ser disponíveis, acessíveis e aceitáveis para as populações vulneráveis, baseados nos princípios de direto à saúde e ética médica, sem estigma, não discriminatórios.

4

Programas de implementação devem visar intervenções que aumentem o poder das comunidades nas populações vulneráveis.

5

A violência contra pessoas de populações vulneráveis deve ser prevenida e abordada em parceria com organizações vinculadas às populações vulneráveis. Toda violência contra pessoas de populações vulneráveis deve ser monitorada e relatada, e mecanismos de reparação devem ser estabelecidos a fim de proporcionar justiça.

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Gaëtan Dugas, o Paciente Zero.

A culpa é dele. Gaëtan Dugas, um comissário de bordo canadense, foi o responsável por disseminar o HIV por todo o continente norte-americano. Não é à toa que ficou conhecido como o “Paciente Zero”. Seu apelido foi dado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC) em março de 1984, após uma extensa busca das autoridades médicas a partir de informações das ligações sexuais entre homens gays e bissexuais na Califórnia, Nova York e alguns outros estados. Dugas era o marco zero dentre vários parceiros.

Em 1987, uma matéria do New York Post que tinha como manchete “O homem que trouxe a aids” contou sua história: a cada cidade em que pousava, o comissário aproveitava para transar com quantos homens pudesse, mesmo ciente de que sua condição pudesse ser transmissível a outras pessoas. Depois de fazer sexo, era comum que Dugas apontasse para as lesões em sua pele, provavelmente oriundas de Sarcoma de Kaposi e outras manifestações de doenças oportunistas típicas da aids, e então dissesse para seus parceiros: “agora você também tem!”

Tudo isso é contado com mais detalhes no livro And the Band Played On, do jornalista Randy Shilts, publicado também em 1987, o qual fala do conturbado início da epidemia. Logo após terminar de escrevê-lo, Shilts foi diagnosticado positivo para o HIV. Em agosto de 1993, o livro virou filme, ao qual o jornalista assistiu pouco antes de sua morte, aos 42 anos, em decorrência de uma pneumonia. Em outras palavras, Shilts foi vítima de Dugas.

A busca pelo responsável continua. Atualmente, nos EUA, pelo menos 24 estados possuem leis específicas que consideram crime a exposição, transmissão ou a não revelação da condição sorológica a parceiros sexuais. Essas leis já foram aplicadas em 442 processos, condenando 251 indivíduos. Em estados onde não há leis específicas, muitas vezes aplicam-se acusações de agressão, tentativa de homicídio ou bioterrorismo. Vários países seguem esse modelo jurídico, ora aplicando leis específicas, ora leis mais abrangentes.

A Suíça é um exemplo bastante apropriado. O país possui duas leis diferentes e não-específicas para o HIV. Ambas foram usadas em conjunto em processos de casos de exposição ou transmissão do HIV e sequer precisam de um denunciante. Graças a elas, desde 1989 foram abertos 39 processos, dos quais resultaram 26 condenações. No entanto, em 2009, um estudo destas condenações mostrou que oito delas se deram mesmo após a divulgação voluntária do parceiro soropositivo a respeito de sua condição sorológica e sob pleno consentimento do parceiro soronegativo. É isso mesmo: um soropositivo avisou que tinha HIV, o parceiro soronegativo consentiu ao sexo e, mesmo assim, houve condenação do primeiro. Quando se deram conta disso, as autoridades daquele país perceberam que havia algo errado. E a jurisprudência suíça mudou drasticamente.

Em fevereiro de 2009, o Tribunal de Justiça de Genebra anulou uma condenação de exposição ao HIV, depois de ouvir o testemunho de especialistas autores da declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça. Segundo esta declaração, a falta de infecciosidade em indivíduos soropositivos que estão sob tratamento antirretroviral há pelo menos seis meses, com carga viral indetectável e sem coinfecção com outra DST, torna o risco de transmissão do HIV tão baixo que ele é, nas palavras da Comissão, “hipotético”. Desde então, não há relatos de processos por exposição ou transmissão do vírus na Suíça. A declaração foi endossada por dois grandes estudos, HPTN 052 e Partner. É importante frisar que nem a declaração suíça e nem os estudos recomendam o desuso da camisinha, mas apenas apontam para a clara relação entre carga viral e transmissibilidade, a qual é muito maior em pessoas que não se cuidam e não fazem o teste de HIV.

Foi entendendo isso que, em 2009, o Ministério da Saúde do Brasil emitiu a Nota Técnica nº 350, ratificando a posição da Unaids. Em 2012, ao lado do governo da Noruega e de membros da sociedade civil de diferentes países, a Unaids propôs a Declaração de Oslo, a qual faz lembrar:

“A epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas, e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV. Devido ao elevado número de infecções não diagnosticadas, confiar na revelação do diagnóstico de HIV pelo parceiro(a) como meio de proteção — e processar as pessoas pela ausência de revelação — pode e leva a uma falsa sensação de segurança.”

A Declaração também recomenda a revogação das leis que criminalizam o HIV. No lugar delas, a construção de um ambiente sem estigma, que ofereça segurança ao indivíduo diagnosticado para escolher revelar voluntariamente a sua sorologia positiva. Afinal, como bem lembrou o Coordenador Geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Veriano Terto, leis que obrigam soropositivos a revelar sua condição têm precedentes:

“Essa mesma prática foi usada durante o regime nazista contra judeus e homossexuais e os que sobreviveram foram justamente os que omitiram.”

Em 2013, um tribunal da Suécia, país com maior índice de processos per capita contra soropositivos, também deu indícios de mudança de rumo. Um relatório do Centro Nacional de Controle de Doenças Transmissíveis (Smittskyddsinstitutet, SMI) foi citado para absolver um homem soropositivo condenado a um ano de prisão por ter tido relações sexuais com quatro mulheres que nunca contraíram o vírus. Reavaliando seus casos de processo contra soropositivos, outros países europeus se deram conta que grande parte das condenações se davam quando os acusados eram estrangeiros — especialmente de origem africana e asiática. Nos EUA, a maioria dos acusados são negros, latinos, gays e mulheres. E lá o processo também segue mesmo nos casos em que a transmissão do HIV não ocorreu. Muitas vezes, o soropositivo é acusado mesmo tendo feito uso do preservativo, com carga viral indetectável ou num tipo de contato sexual que não poderia ter infectado seu parceiro. Um vídeo do colega Mark S. King, autor do blog My Fabulous Desease, resume bem a situação.

Mas os americanos também resolveram rever seus conceitos. Entre 2 a 5 de junho deste ano, acontecerá nos EUA a primeira Conferência Nacional sobre Criminalização do HIV. Sob o slogan “HIV não é crime”, o objetivo é acabar com as leis estaduais que ainda criminalizam soropositivos e com os casos de agravação de outras condenações em virtude da sorologia positiva. Isso porque também percebeu-se que, muitas vezes, o fato de um acusado ser soropositivo era agravante para qualquer outra acusação. Sendo soropositivo, era mais facilmente condenado.

Dito isso, é impossível não voltar ao caso do Paciente Zero. Gaëtan Dugas nunca teve a chance de se defender das acusações feitas contra si. Ele morreu antes disso, em março de 1984, em decorrência de complicações da aids. Foi só a dois anos atrás que sua história foi reescrita, quando Michael Denneny, editor do livro And the Band Played On, confessou que o perfil do personagem de Dugas foi propositalmente deturpado:

“Nós nos rebaixamos ao sensacionalismo. Meu agente disse: ‘Sexo, morte, glamour e — o melhor de tudo — ele é um estrangeiro!’ Essa foi a única maneira que encontramos para chamar a atenção.”

Ele nunca foi de fato o primeiro portador do vírus, mas apenas um dos primeiros a receber o diagnóstico. Além disso, nenhuma das atitutes e decisões de seu personagem descritas no livro de Randy Shilts podem ser confirmadas. O próprio autor do livro, que virou best seller, teria inicialmente relutado em desenhar o perfil de vilão para Dugas. Depois de muita insistência do editor, cedeu. Talvez, sua confissão tenha vindo cifrada, numa declaração feita antes de sua morte:

“O HIV me fez ver todas as coisas superficiais às quais nos apegamos, como ego e vaidade.”

O jornalista Randy Shilts, em 1987.

A verdade é que é preciso ter um vilão para que uma história prenda a nossa atenção. Autores de livros e criadores de filmes e séries de TV sabem disso. Em filmes que tratam sobre HIV, como Filadélfia (1993) e Clube de Compras Dallas (2013), os vilões são os empresários preconceituosos e o governo omisso, respectivamente. Mas e na série “Viral”, do Porta dos Fundos, quem será o vilão?

Ainda sofrendo com os efeitos colaterais comuns no início do tratamento antirretroviral, Beto, personagem vivido por Gregório Duvivier, parte para avisar suas ex-parceiras sobre o seu diagnóstico, a fim de que estas, assim como ele, façam o teste de HIV. Com um protagonista heterossexual, de aparência saudável e que rebate as acusações de que aids se pega em agulhas contaminadas deixadas na sala de cinema, de maconha ou de pombo, a série é ótima para desmistificar diversas lendas sobre a doença. E melhor ainda em fazer pensar sobre quem é o responsável por disseminar o vírus.

Como consequência do encontro com suas ex-namoradas, o protagonista acaba por supostamente encontrar o seu “Paciente Zero”, o qual não teria avisado que era soropositivo à sua esposa, com quem Beto transou. Não é possível ter certeza, no entanto, se este homem é mesmo o responsável por transmitir o vírus à sua esposa e nem mesmo se de fato ela tinha HIV. É bom lembrar que nem todas as parceiras a quem Beto visitou fizeram o teste oral de HIV oferecido por ele — uma mulher não aceitou encontrá-lo, outra é apenas mostrada chorando e três disseram que já tinham feito o teste, uma das quais aproveitou para dizer que estava grávida.

E agora, de quem é a culpa? O brilhante roteiro de Fábio Porchat deixa para o espectador imaginar e julgar. E só poderia conseguir isso um texto escrito de maneira isenta. Ou… quase isenta.

“– Obrigado, Senhor!”, diz Beto ao descobrir que não foi ele quem engravidou uma ex-namorada.

“– Foi esse mesmo Senhor que te passou aids, hein? Não agradece, não.”

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Brasil Post

A semana do Carnaval foi de festa para quem vive com HIV, mesmo longe dos desfiles e dos bloquinhos. Entre os dias 3 a 6 de março, aconteceu a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2014, em Boston, uma das mais importantes conferências de HIV e aids do mundo. Cientistas de todo o globo se reuniram para apresentar os avanços obtidos em suas pesquisas.

Para começar, temos um possível caminho para a cura que tem se mostrado muito promissor. Conforme matéria do New York Times, 12 voluntários que vivem com o vírus tiveram suas células CD4+ do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, retiradas, modificadas em laboratório e reintroduzidas nestes mesmos indivíduos. Nesse processo, o conector CCR5, que é o mais usado pelo HIV para se infiltrar na célula CD4+, foi suprimido. Como consequência, as células modificadas se tornaram imunes ao vírus, tal como acontece naturalmente nos indivíduos portadores da mutação CCR5 Delta 32, encontrados em geral no norte da Europa. O estudo se mostrou seguro e eficiente em manter a carga viral (que é a quantidade de vírus medida no sangue) indetectável por 12 semanas. E, agora, deve seguir adiante com mais voluntários. O único porém é que, como o procedimento envolve a alteração de DNA, a Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula os estudos médicos nos Estados Unidos, exige um acompanhamento destes voluntários pelos próximos 15 anos.

Mas para alguns a cura não está tão longe assim. Ou até já chegou. Muito possivelmente temos hoje mais uma bebê curada do vírus, além da “Bebê do Mississippi” — que já está com 3 anos de idade e continua sem sinal da presença do HIV em seu organismo. Ambas foram submetidas a um tratamento com os mesmos remédios que tomamos, os antirretrovirais. A diferença é que o tratamento foi iniciado logo após o parto, em até 48 horas, e mantido por um tempo determinado. O procedimento foi uma saída encontrada pelos médicos para o caso delas, em que a mãe foi diagnosticada soropositiva apenas no momento do parto, e que acabou dando certo. Agora, um estudo com 60 bebês nas mesmas condições deve ser iniciado e, se bem sucedido, o protocolo de tratamento para os 250 mil bebês infectados no momento do parto a cada ano deve ser revisto.

A ideia deste procedimento veio da profilaxia pós-exposição, medida comumente administrada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Ela consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantidos ao longo de um mês. É tal como fazer tratamento de HIV sem ter tido ainda resultado positivo para o HIV.

E, por falar em tratamento, ele também caminha para melhoras. Hoje tomamos algo entre duas doses de 4 a 7 comprimidos por dia. Nas décadas passadas, eram 30. No entanto, em breve, poderemos ter apenas uma única dose por mês: as empresas farmacêuticas GlaxoSmithKline e Johnson & Johnson estão desenvolvendo uma injeção para tratamento do HIV que pode ser administrada mensalmente. Os testes devem começar já nos próximos meses e os resultados são esperados para 2016. Se bem sucedidos, podem mudar para sempre a forma como tomamos os medicamentos para o vírus. Outro tratamento que possivelmente também está prestes a mudar é da hepatite C, doença que afeta quatro vezes mais indivíduos que o HIV. Sua coinfecção com o vírus da aids é um complicador no tratamento das duas doenças e, por isso, esteve na pauta da CROI deste ano. A novidade é que os cientistas identificaram as estruturas do HCV, vírus causador da hepatite, e, com isso, podem vir a desenvolver uma vacina, conforme relatado na revista Nature.

Outra injeção que acaba de ser testada em macacos sugere que é possível, com doses periódicas, prevenir a infecção pelo HIV. Essa injeção contém medicamentos que, nos animais, mostrou ter duração de 11 semanas. Como ela não estimula a imunização do organismo ao vírus, o procedimento é considerado uma profilaxia pré-exposição (ou PrEP), isto é, usa medicamentos para tratar o HIV como forma de prevenir o HIV. O estudo foi divulgado na Science, uma das mais respeitadas publicações do meio científico.

Por fim, também foi apresentado na CROI 2014 um estudo que está prestes a se juntar ao HPTN 052 como um grande aliado dos soropositivos. Este, conforme já contei aqui, mostra claramente que não é preciso temer contrair o vírus do portador de HIV que faz o diagnóstico e se cuida. Para alcançar suas sólidas conclusões, o HPTN 052 analisou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV), em sua maioria heterossexuais e ao longo de 78 semanas. Feito isso, concluiu que sempre que o parceiro soropositivo está em tratamento antirretroviral, com carga indetectável há pelo menos 6 meses e sem nenhuma coinfecção com outra DST, o risco de transmissão do vírus é reduzido em 96%. Em 2011, a revista Science nomeou o HPTN 052 como a “descoberta científica do ano”, vindo de encontro com o famoso Swiss Statement, a declaração feita em 2008 pela Comissão Nacional de Aids da Suíça, a qual afirmava que o uso do tratamento antirretroviral na prevenção de novas infecções era plenamente eficaz e atestava que uma pessoa com HIV que segue o seu tratamento de forma consistente, conforme prescrito e não tem nenhuma outra DST “não coloca seu parceiro soronegativo em risco de transmissão por contato sexual.”

Com isso, o HPTN 052 ajudou a descriminalizar a transmissão não-intencional do HIV e a reduzir o estigma contra os soropositivos. E agora ele não está sozinho. De acordo o AidsMap, o novo estudo PARTNER, apresentado na CROI, pretende ir mais longe e responder às perguntas deixadas em aberto pelo HPTN 052. Ele ainda está em andamento, com previsão de conclusão para 2017, mas seus resultados preliminares já são bastante promissores. Um dos objetivos do PARTNER é atestar se a redução de 96% no risco de transmissão, já aferida em casais heterossexuais, se aplica também aos homossexuais e ao sexo anal, que é a maneira de sexo que apresenta mais alta transmissibilidade. Para isso, 40% dos voluntários dessa pesquisa são casais homossexuais. Todos os casais participantes do estudo, homo ou heterossexuais, são sorodiscordantes, não fazem sexo com preservativo em todas as relações e o parceiro soropositivo está sob tratamento antirretroviral há pelo menos 5 anos.

Durante o acompanhamento inicial dos participantes, verificou-se que 94% dos participantes soropositivos homossexuais estavam com carga viral indetectável no início do estudo, contra 85% dos heterossexuais soropositivos. Também aferiu-se que homossexuais usam camisinha com mais frequência que heterossexuais. Aliás, todos os casais sorodiscordantes heterossexuais transaram sem camisinha, nas quais o parceiro soronegativo afirmou haver ejaculação pelo sexo vaginal em 72% das vezes. Por sua vez, 70% dos parceiros soronegativos homossexuais afirmaram fazer sexo anal receptivo, no qual 40% das vezes incluía ejaculação. Uma proporção significativa dos casais heterossexuais afirmou fazer sexo anal. O sexo desprotegido fora do relacionamento estável mostrou-se mais comum entre homossexuais. Talvez por conta disso, 16% dos homossexuais apresentaram outras DSTs, como sífilis ou gonorreia, contra 3 a 4% dos heterossexuais. Contudo, contrariando o estudo HPTN 052, a presença de outras DSTs não se mostrou uma variável importante na transmissibilidade do HIV para estes participantes.

As descobertas feitas até o momento são interessantíssimas. Durante o estudo aconteceram transmissões do vírus, sim, mas única e exclusivamente entre aqueles que “pularam a cerca.” Noutras palavras, o vírus veio do parceiro que não estava no estudo, o que foi comprovado por testagem genética do HIV de cada uma das infecções. Conclui-se então que os parceiros com quem os participantes transaram fora do estudo eram soropositivos sem tratamento e, portanto, muito possivelmente com carga viral alta. Entre os casais voluntários do estudo que não tiveram relações sexuais fora do relacionamento e cujos parceiros estáveis positivos para o HIV estavam com carga viral inferior à 200 cópias/ml de sangue, não houve um único caso sequer transmissão do vírus, mesmo sem uso do preservativo em todas as relações sexuais.

Evidentemente, trata-se ainda de uma aferição preliminar e de uma amostragem do que ocorre no mundo real. Ainda assim, quando a Dra. Alison Rodger, que apresentou o estudo na CROI, foi indagada sobre o que o PARTNER nos diz a respeito da possibilidade de alguém com carga viral indetectável ​​transmitir HIV, ela disse:

“– Nossa melhor estimativa é que é zero.”

Entretanto, ainda existe a pior estimativa. E, no pior cenário, a análise estatística mostra que as chances de transmissão pelo sexo sem preservativo ainda são consideráveis, sim: de 2% ao ano para o sexo vaginal com ejaculação, de 2,5% para o sexo anal receptivo e de 4% para o sexo anal receptivo com ejaculação, nos casos em que o parceiro soronegativo é o receptivo. Para evitar esse risco, o único jeito é usar camisinha, a qual é plenamente segura. Portanto, a lição a ser tirada de ambos os estudos, HPTN 052 e os resultados preliminares do PARTNER, é que com consciência de seu estado de saúde, o uso de antirretrovirais num eventual diagnóstico positivo e carga viral suprimida associados ao uso da camisinha, fica, de fato, muito mais que plenamente seguro. E se você não sabe o status sorológico do seu parceiro sexual, a solução é a mesma: use camisinha. Com ela, o risco sempre foi e continua sendo próximo de zero.

Para escrever este post, agradeço a contribuição de meus leitores e colaboradores no blog Soropositivos.com, que me ajudaram a reunir todas as fontes e matérias citadas aqui.

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