história
his.tó.ria
sf (gr historía) 1 Narração ordenada, escrita, dos acontecimentos e atividades humanas ocorridas no passado. 2 Ramo da ciência que se ocupa de registrar cronologicamente, apreciar e explicar os fatos do passado da humanidade em geral, e das diversas nações, países e localidades em particular. 3 Os fatos do passado da humanidade registrados cronologicamente. 4 Ramo da ciência que se ocupa com a natureza animada e inanimada. 5 Tratado acerca da origem e desenvolvimento de uma nação, ciência, arte etc. 6 O futuro, considerado como juiz das ações humanas: A história o julgará. 7 Biografia de uma personagem célebre. 8 Exposição de fatos, sucessos ou particularidades relativas a determinado objeto digno de atenção pública. 9 Narração de aventura particular


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A associação de vírus transmitidos pelo sangue com procedimentos intravenosos entre os moradores de Kinshasa, na República Democrática do Congo, pode sugerir que a rápida disseminação do HIV nesta região, durante a metade do século XX, foi impulsionada pela transmissão iatrogênica [aquela que origina doenças e patologias a partir do tratamento de outras], de acordo com um estudo publicado recentemente.

“Estimativas genéticas indicam que a epidemia cresceu mais lentamente antes de 1950.”

“Análises evolutivas das sequências de genes virais mostram que o HIV-1 floresceu e diversificou na capital do Congo Belga [nome do território administrado pelo Reino da Bélgica na África a partir de 1908], que foi o principal centro comercial da África central”, explica a Dra. Catherine Hogan, da Universidade de Sherbrooke, no Canadá, e seus colegas. “Estimativas genéticas da história da transmissão do grupo M do HIV-1 na África Central indicam que a epidemia cresceu mais lentamente antes de 1950 e foi, em seguida, transferida para crescimento exponencial, muito mais rápido em algum momento entre 1952 e 1968. Os fatores que impulsionaram o surgimento e a propagação do HIV-1 em direção a epidemia que se espalhou em Kinshasa permanecem desconhecidos.”

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Pesquisas anteriores já haviam proposto transmissões iatrogênicas como um fator importante para o surgimento do HIV-1 em Kinshasa, escreveram os pesquisadores, mas a doença de alta mortalidade tornou difícil confirmar esta hipótese. Para contornar este problema, Hogan e seus colegas escolheram analisar a prevalência da hepatite C e HTLV-1, dois vírus transmitidos pelo sangue, com maior capacidade de sobrevivência, e que poderiam agir como um auxiliador para a infecção pelo HIV. De julho a agosto de 2012, eles recrutaram moradores de Kinshasa com 70 anos ou mais e que tinham vivido na cidade por pelo menos 30 anos. Os participantes forneceram amostras médicas e preencheram questionários, fornecendo história demográfica e médica, com foco em doenças e condições tropicais anteriores, as quais requereram injeções intravenosas. As amostras coletadas foram submetidas a testes sorológicos, amplificação, sequenciamento e reconstrução filogenética, realizados para delinear a história genética do HCV.

A análise final incluiu 839 participantes, com idades de 70 a 90 anos (idade média de 75 anos). Os participantes relataram que vivem em Kinshasa por uma média de 58 anos (variação de 30 a 92), e 74% recordaram receber injeções intravenosas pelo menos uma vez na vida.

Os pesquisadores escreveram que 25,9% dos participantes testaram positivo para o HCV, e 3,1% foram positivos para HTLV-1. Dos 118 pacientes com HCV a partir do qual foram obtidos produtos de amplificação, os subtipos 4r (n=38) e 4k (n=47) foram os mais prevalentes. A terapia intramuscular intramuscular para tratar tuberculose, com injeções intravenosas, antes de 1960, em uma clínica específica de venerologia da era colonial do Congo e injeções intravenosas em um hospital específico foram identificados como fatores de risco independentes para o subtipo 4r, enquanto os tratamentos antimaláricos e injeções intravenosas em outro hospital foram associadas com o subtipo 4k. O subtipo 1b do HTLV-1 foi mais comumente encontrado entre os participantes que forneceram sequências, com fatores de risco notáveis de infecção pelo HTLV-1 em transfusões e injeções intravenosas em dois hospitais específicos. Além disso, a análise da sequência viral mostrou um grande aumento de infecções de ambos os subtipos de HCV começando na década de 1950.

Apesar de algumas limitações e da perda de indivíduos diretamente afetados, os pesquisadores escreveram que as associações encontradas entre os participantes com HCV se alinham diretamente com aquelas encontradas entre os participantes com HTLV-1, e vice-versa. Como tal, estes resultados podem ser a primeira evidência empírica que apoia a hipótese de que o surgimento do HIV-1 se deu através da transmissão iatrogênica do vírus, transmitidas pelo sangue.

“A transmissão iatrogênica e o histórico da África Central parece ter sido um fator contribuinte.”

“O estabelecimento do grupo M do HIV-1 como parte da pandemia global, único entre as demais cepas de HIV, sem dúvida, é resultado de múltiplos fatores causais cujas contribuições relativas podem nunca ser totalmente resolvidas”, escreveram os pesquisadores. “No entanto, a transmissão iatrogênica e o histórico no centro da África Central parece ter sido um fator contribuinte.”

As conclusões de Hogan e seus colegas se encaixam bem na atual compreensão das origens do HIV-1, que são em grande parte baseadas em padrões de evolução recolhidos a partir de dados de sequenciamento, de acordo com Simon D. W. Geada, DPhil e Samuel Kwofie, PhD, ambos do departamento de medicina veterinária da Universidade de Cambridge. Em um editorial, eles escreveram que as reduções de transmissão iatrogênica devem ser prosseguidas a par de esforços contra a transmissão sexual, uma vez que essa rota continua a ser uma fonte de novas infecções em vários países.

“Em uma era de crescente mobilidade da população, que levou a disseminação de HIV da África para o resto do mundo, temos de assumir a responsabilidade compartilhada para o desenvolvimento dos serviços de saúde e estratégias de prevenção adequadas”, escreveram eles. “Com as discussões atuais sobre a vacinação para proteger contra o vírus Ebola, a iatrogenia deve continuar a ser uma preocupação na agenda da saúde global.”

Por Dave Muoio em 21 de janeiro de 2016 para o Healio

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HuffPost Brasil

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Foi nesse ano de 2015 que Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, afirmou ter descoberto a cura do HIV, ebola, diabetes, alguns tipos de câncer e uma série de outras condições médicas, com um único novo medicamento revolucionário que ele quer vender para o mundo todo. As instruções de dosagem são incrivelmente confusas e discorrem em mais de 2.500 palavras, mas, com muito esforço, é possível deduzir que, teoricamente, para prevenir o HIV seria preciso algo entre 40 a 56 injeções — ao custo de 50 dólares por injeção.

Ainda bem, a comunidade científica não se convenceu e continuou a pesquisar! E, nesse ano, aprendemos muita coisa sobre o HIV. Aprendemos que, em geral, mulheres portadoras do HIV combatem naturalmente o vírus melhor do que os homens. Aprendemos que anticorpos amplamente neutralizantes podem vir a ser a solução para a prevenção do HIV no futuro. Outros estudos com vacinas preventivas também tiveram resultados promissores, incluindo uma vacina brasileira. E a Fiocruz deve em breve começar a testar seu próprio medicamento para prevenir o HIV.

Na pesquisa pela cura do HIV, começamos a desenvolver uma técnica que pode vir a revelar exatamente onde o vírus se esconde dos potentes medicamentos atuais, que vem driblando os cientistas há anos. Aprendemos que um medicamento para tratar alcoolismo pode ser uma das chaves para a tão sonhada cura do HIV no futuro. Outros cientistas criaram uma proteína que, em laboratório, se mostrou capaz de despertar as células imunes dormentes infectadas pelo HIV e, por isso, também pode potencialmente vir a fazer parte da cura. Pesquisadores descobriram que um outro composto, chamado de PEP005 e que já está aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) americana, também é capaz de ativar este HIV latente.

Mas duas cientistas acham que, com base nos dados disponíveis hoje, é pouco provável que as terapias individuais representem uma promessa em alcançar a remissão de longo prazo do HIV. A Dra. Françoise Barre-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, uma das descobridoras do HIV, e a Dra. Jintanat Ananworanich, do U.S. Military HIV Research Program (MHRP), acreditam que, nos próximos cinco anos, a pesquisa da cura do HIV precisa mudar seu modelo clássico de desenvolvimento e sugerem que a pesquisa deve partir de uma estratégia de combinação.

Os National Institutes of Health prometeram mais esforços em concentrar as pesquisas para acabar com a epidemia e a empresa farmacêutica britânica GlaxoSmithKline disse que vai colaborar com cientistas norte-americanos no desenvolvimento da cura da aids. Afinal, hoje sabemos que a cura é possível. Talvez só demore um pouco, mas é possível. E, enquanto isso — por que não? —, continuemos na contagem regressiva, junto com a amfAR.

A amfAR, aliás, fez uma doação de 96 mil dólares ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), para continuar sua participação no estudo Opposites Attract, uma pesquisa internacional que explora mais a eficácia já demonstrada anteriormente do “tratamento como prevenção” em casais sorodiscordantes, quando só um dos parceiros é positivo para o HIV. Assim como em outros estudos que visam medir exatamente a redução do risco de transmissão do HIV pelo tratamento antirretroviral, são recrutados casais sorodiscordantes que, deliberada e consensualmente, optam por não fazer uso consistente do preservativo — e, talvez por isso, o Vaticano tenha abençoado o tratamento como prevenção!

A ideia de que soropositivos em tratamento e a com carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, tão baixa que é indetectável são parceiros sexuais que não apresentam risco consistente de transmissão do HIV pode ser difícil de engolir, mas começa a fazer mais sentido quando levamos em conta que esse mesmo coquetel de medicamentos é capaz de prevenir a transmissão dentro do próprio corpo, da mãe portadora do vírus para o próprio bebê.

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser”, explicou Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu em abril deste ano, na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. “Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê”, disse Fábio. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

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O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois, também comentou sobre a eficácia comprovada do tratamento como prevenção: “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente ‘zerasse’ a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno-fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Aprendemos que, em geral, 44% das transmissões do HIV podem ser associadas à infecção recente, isto é, até um ano depois do contágio. Por isso, é importante fazer o teste de HIV e, em caso de diagnóstico positivo, quanto antes for iniciado o tratamento, melhor! Um outro estudo sobre esse mesmo assunto, o HPTN 052, concluiu este ano sua análise e continuou não encontrando qualquer evidência de transmissão do HIV a partir de pessoas com carga viral indetectável, aumentando ainda mais a segurança que temos diante da segurança oferecida pelo tratamento antirretroviral. Vale dizer que 78% das pessoas que vivem com o vírus e sob tratamento no Brasil têm carga viral indetectável.

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A propósito, este ano no Brasil, recebemos a visita de importantes especialistas em HIV/aids estrangeiros. O professor Frank Kirchhoff, diretor do Instituto de Virologia Molecular da Universidade de Ulm, na Alemanha, ganhador do Prêmio Leibniz em 2009, esteve na Fapesp, em São Paulo, explicando sobre como o HIV causou a pandemia de aids. E Julio Montaner, o próprio criador do tratamento como prevenção, foi convidado de honra para a abertura do X Congresso de HIV/Aids, realizado agora, em 17 de novembro de 2015, onde falou sobre como reduzir os níveis epidêmicos do HIV/aids.

O País também atualizou seu protocolo para prevenção da transmissão vertical, isto é, da mãe para o bebê, bem como o protocolo de profilaxia pós-exposição (PEP), que é a medida emergencial de prevenção ao HIV que pode ser adotada em até 72 horas a contar de uma possível exposição ao vírus — e que está disponível em todo o Brasil. A Europa, por sua vez, atualizou os avisos nas bulas dos antirretrovirais sobre efeitos colaterais: advertências sobre lipodistrofia, uma alteração na gordura corporal que era mais comum nos primeiros remédios contra HIV, foram removidas dos atuais medicamentos, assim como avisos sobre acidose láctica, que é o acúmulo nocivo de ácido láctico no corpo — numa clara confirmação de que os antirretrovirais de hoje são muito menos tóxicos.

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Essa evolução toda, diga-se de passagem, está bem registrada no livro Histórias da Aids (Editora Autêntica), do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães, lançado em julho. Beto Volpe, diagnosticado positivo para o HIV em 1989, também deve publicar em breve seu livro: recentemente ele abriu a campanha de crowdfunding e pré-venda para o lançamento de sua autobiografia, o Morte e Vida Posithiva. Assim como Beto, Gabriel Estrëla, artista e ativista do HIV/aids, lançou a campanha de financiamento coletivo de seu projeto, o Boa Sorte — e você deve se lembrar dele, que fez um ótimo vídeo junto com a vlogueira Jout Jout.

Nesse ano, também assistimos ao programa Sportv Repórter falar sobre o papel fundamental da prática de esportes no tratamento de portadores do HIV e ao lançamento do documentário sobre o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, um dos protagonistas das primeiras campanhas pelos soropositivos.

Mas a mídia — e as pessoas — nem sempre foram bondosas. Ao contrário, foram cruéis, ao coagir Charlie Sheen a revelar publicamente sua condição sorológica para o HIV, quando todo portador do vírus tem direito ao sigilo sobre o seu diagnóstico. Freddie Mercury, por exemplo, optou por resguardar sua condição sorológica quase até o fim de sua vida.

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Pelo menos, alguns outros direitos começam a ser melhor respeitados. Singapura suavizou a restrição de viagem que mantém contra visitantes soropositivos, a Lituânia confirmou não ter mais qualquer restrição e a Ucrânia revogou suas leis restritivas, diminuindo ainda mais o número de países que ainda impõe algum tipo de segregação de viagem contra soropositivos. No Brasil, uma decisão da 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região decidiu que o Exército não pode mais discriminar seus candidatos, até então excluídos em processos seletivos em razão de limite de altura, saúde bucal ou diagnóstico positivo para o HIV.

Aprendemos mais sobre o que determina a possibilidade de interrupção no tratamento antirretroviral e porque, depois disso, algumas pessoas conseguem controlar o vírus naturalmente e outras não. Aliás, tivemos mais um caso documentado de “controle pós-tratamento”. Um estudo mostrou que um novo medicamento semanal pode vir, num futuro próximo, a substituir os comprimidos que tomamos diariamente. Aprendemos que bebês de mães portadoras do HIV ao redor do mundo podem vir a se beneficiar da profilaxia pré-exposição pediátrica, composta por uma fórmula líquida de medicamentos anti-HIV, e serem amamentados até 12 meses após o nascimento, virtualmente sem risco de contaminação.

Aprendemos mais sobre a interação de drogas, lícitas e ilícitas, com antirretrovirais. Aprendemos que a infecciosidade do HIV é regulada pelos movimentos de uma proteína chamada “ciclofilina A”, ou CypA, apontando para um novo caminho no desenvolvimento de possíveis estratégias para frustrar a replicação do vírus. Aprendemos que podemos estimular o sistema imunológico para agir contra o HIV e que há vasos, recém-descobertos, que podem ligar o cérebro ao sistema imune! “Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas e nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão”, explicou Andrés Finzi, pesquisador da Universidade de Montreal.

“Para quem é diagnosticado positivo para o HIV nos dias de hoje, explico que estão recebendo o diagnóstico num momento muito oportuno da história da epidemia”, diz Ricardo Vasconcelos, médico infectologista e coordenador médico do PrEP Brasil no centro da FMUSP, em São Paulo. “Se houver comprometimento por parte de ambos, paciente e profissional da saúde, hoje podemos assumir o controle da evolução da doença. Sempre digo aos meus pacientes que só escolhi trabalhar com HIV porque sou um cara otimista, que gosta das coisas que dão certo.”

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A aids não é notícia mais em lugar algum do país e diversos aspectos da epidemia são negligenciados tanto pelos governos quanto pela imprensa e sociedade. O livro se torna importante ao problematizar esses aspectos. Não podemos deixar que o combate a esta epidemia esmoreça! O livro quer encorajar não somente as pessoas vivendo com HIV, mas também atingir qualquer pessoa que se encontra diante de um desafio desproporcional ao seu tamanho e que se sinta impotente a desenvolver sua resiliência. Na única experiência anterior, que foi a publicação de texto autobiográfico de 15 páginas no livro ‘Histórias de Coragem’, editora Madras, o autor recebeu diversos retornos de pessoas com HIV e seus familiares relatando uma mudança de atitude por parte do leitor. Mas, agora, você pode ser parte deste novo lançamento, adquirindo seu livro antes de todos!

Que as dificuldades da Vida, sendo a Morte a principal delas para muita gente, são o que de mais natural e enriquecedor pode existir. Não se evolui em baladas ou manhãs de sol, mas nos desafios que temos pelo caminho. E sempre se pode virar o jogo, por mais poderoso que seja seu oponente.

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O livro narra a trajetória de Beto Volpe, ator do blog “Carga Viral”, desde sua infecção pelo vírus HIV no ano de 1989 até os dias de hoje, permeado de fatos da infância e juventude que colaboraram para os acontecimentos futuros. Mesclar tragédia e comédia no mesmo contexto é a marca registrada de Beto, o que provoca uma profunda reflexão sobre os vários aspectos envolvidos na epidemia de aids e também em questões de cidadania e de foro íntimo. Sua obra se revela uma potente ferramenta para desenvolver a resiliência do leitor e impactar positivamente não somente a vida das pessoas, como também na compreensão coletiva sobre aspectos não divulgados da epidemia.

Nesta pré-venda exclusiva, você adquire o livro antes de todos e ganha recompensas!

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 “Fingindo voltar do trabalho, cheguei em casa e logo depois chegou a noite, que levava a crer que tudo seria como todos os dias, com um lanche noturno seguido de alguma programação televisiva. Mas tudo foi completamente diferente, aquela noite foi uma das mais angustiantes de toda a minha vida. Eu e meu irmão nos entreolhávamos como quem procura coragem para dizer alguma coisa. Até que consegui proferir:

— Tenho uma coisa séria pra falar pra vocês…

Pelo seu olhar, tive a nítida impressão de que minha mãe sabia do que se tratava. Mães… Elas são bruxas, adivinham nossas intenções, pressentem nossas dificuldades e são capazes de mover o mundo por nós. Por onze anos fui o filho único de dona Aída, nome dado por meu avô em homenagem a sua obra favorita de Verdi. Mãe torcedora do Santos Futebol Clube, filho santista. Mãe adorava uma peruca argentina, o filho também. Ou seja, eu sempre fui o filhinho da mamãe e ela o meu porto seguro, a bóia que é lançada quando o fôlego está acabando. Nem ela e nem eu tínhamos noção o quanto essa “coisa séria” nos aproximaria e nos uniria como nunca em nossas vidas.

Uma vez mais em um único dia me senti um covarde em levar essa tristeza às pessoas que mais amava. Mas tinha que ser feito, esse segredo nunca se manteria por muito tempo. E, naquele momento em que estava prestes a dar a notícia, foi a primeira vez que eu senti a presença dela, a tal da Morte, com sua capa e alfanje espalhando-se por todos os cantos do aposento. É terrível ver que a morte criou vida e está em seu encalço, sob a forma de um ar irrespirável, denso… Foi como dar uma notícia de falecimento de alguém muito querido e, de certa forma, era mais ou menos isso. Minha mãe, olhando com um pedido de “não conte” perguntou o que estava acontecendo. E eu, na lata, respondi:

— Estou com aids.

Meu Deus, como pode um simples gota arrasar tanto a alma de uma pessoa? Aquele ar irrespirável passou a ser sufocante… E aquele olhar triste de minha mãe deixou escapar uma lágrima. Uma única e furtiva lágrima que escorreu lentamente pelo seu lindo rosto fazendo com que eu me sentisse o pior dos mortais, o lixo do lixo, desejando um raio fulminante em minha cabeça. Ou uma complicação séria que me levasse o mais rapidamente possível desse mundo. Uma lágrima e um olhar triste, se os homens guerreassem assim… Meu pai Geraldo, figura proeminente do cenário político de São Vicente, cortou o clima perguntando como eu havia contraído. Respondi que havia sido através de sexo sem camisinha, que não curtia drogas injetáveis. Quem diria que meu pai, com o qual sempre tive sérias diferenças políticas e íntimas, seria o primeiro estímulo para continuar em frente? Prático e sempre presente nas situações difíceis, ele determinou:

— Agora é ver o que se pode fazer e olhar para frente.

Mas minha atenção ainda estava naquela pequena grande guerreira que sabia que teria um verdadeiro desafio pela frente. Já não foi fácil aceitar a homossexualidade do filho, agora o HIV. Meu irmão a todo instante intervinha como meu fiel parceiro, tentando amenizar a situação, enquanto aquela lágrima ainda rolava dentro de mim, corroendo todos os meus órgãos, ossos, veias, com um poder de destruição maior do que o do HIV. Eu sabia que a brincadeira estava apenas começando, muita coisa ainda iria acontecer no pega pega entre a Morte e a Vida. A Morte e Vida Posithiva.”

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Escolha o valor da sua contribuição, a sua recompensa e a forma de pagamento, em boleto ou cartão de crédito.

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Beto Volpe é natural de São Vicente, litoral de São Paulo, nasceu em Leão, até no novo zodíaco. Após 21 anos de HIV, 15 de aids e deficiência e sete no tratamento de cânceres, é grato ao HIV por, apesar das dificuldades, ter dado uma nova dimensão e um sentido para sua vida.


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No programa Today desta terça-feira, Charlie Sheen revelou que é HIV positivo. “Estou aqui para admitir que eu sou HIV positivo”, disse o ator. “Tenho que pôr fim a esta enxurrada de ataques, subverdades e histórias muito prejudiciais e volúveis, que ameaçam a saúde de tantos outros que poderiam estar mais longe da verdade.”

Em uma conversa com Matt Lauer hoje no estúdio em Nova York, Sheen disse ter sido diagnosticado com a doença cerca de quatro anos atrás e que soube que tinha HIV depois de enfrentar dores de cabeça, “enxaquecas enlouquecedoras” e “suar na cama por duas, três noites seguidas”. Ele contou que foi posteriormente hospitalizado, e explicou que chegou a pensar que tinha “um tumor cerebral e que estava tudo acabado.” Após uma série de testes, disseram-lhe que ele tem HIV.

“São três letras duras de aceitar.”

“São três letras duras de aceitar”, disse Sheen. “É um ponto de virada na vida de qualquer um.”  Quando perguntado sobre quantas pessoas ele contou da sua condição, Sheen disse: “Eu já contei para pessoas o suficiente, em quem eu achava que poderia confiar, para estar na posição e na situação em que estou hoje.” Sheen também revelou que estava pagando algumas pessoas que exigiam dinheiro para manter a notícia em segredo, “incômodos” que ele esperava acabar com sua aparição no programa matinal da NBC. Embora não tenha revelado quantas pessoas pegou, ele disse que era “o suficiente para trazer [a quantia que tinha pago] à casa dos milhões.”

“Hoje me libertei de uma prisão.”

“O que as pessoas esquecem é que esse é o dinheiro que eles estão tirando dos meus filhos”, disse Sheen. “Eles acham que é só comigo, mas eu tenho cinco filhos e uma neta.” O ator acrescentou que espera não ter de continuar a pagar as pessoas depois de sua aparição desta terça-feira. “Hoje me libertei de uma prisão”, disse ele, que também disse mais tarde que a sua situação financeira “não é das melhores”.

Depois de fazer seu anúncio, Sheen ainda voltou para mais dois blocos que chegaram a cerca de 30 minutos. No primeiro bloco, em que Sheen estava acompanhado por seu médico, o médico disse que Sheen “não tem aids” e é “saudável”, confirmando aquilo que Lauer chamou de “níveis indetectáveis do vírus em seu sangue.”

Mais cedo, Sheen disse que era “impossível” ter transmitido o vírus a qualquer pessoa, mas que teve relações sexuais desprotegidas com duas pessoas desde que foi diagnosticado, e alegou que estas pessoas estavam sob os cuidados de seu médico e “totalmente avisados com antecedência”. Embora Sheen tenha dito que não fez uso de drogas intravenosas, ele também disse que “não  tinha total certeza” de como havia contraído o vírus.

Lauer leu várias vezes uma carta que lhe foi enviada por Sheen, incluindo a parte que disse que seu diagnóstico o levou a cambalear no consumo de drogas, entre outros comportamentos. O coanfitrião do programa perguntou então a Sheen se o seu colapso público em 2011, no qual o ator falou sobre “vencer” e ter “sangue de tigre”, teria sido uma reação ao seu diagnóstico de HIV.

“Eu tenho a responsabilidade de melhorar a mim mesmo e de ajudar um monte de outras pessoas.”

“Eu gostaria de poder jogar a culpa nisso”, disse Sheen. “Isso foi mais de um comportamento agressivo. Talvez sob o embalo do diagnóstico”. Ele acrescentou: “Agora, eu tenho a responsabilidade de melhorar a mim mesmo e de ajudar um monte de outras pessoas. Espero que, com o que estou fazendo hoje, outros possam à frente e dizer: ‘Obrigado, Charlie. Agradeço por ter aberto esta porta!'”

O Today tinha anunciado que, em sua entrevista com Sheen, ele faria um “anúncio pessoal e revelador”, algo que vinha sendo comentado em vários relatos de que ele teria sido diagnosticado com a doença. Na segunda-feira, o National Enquirer revelou que Sheen é HIV positivo e Howard Bragman, publicitário de Hollywood e gerente de crises, disse à People que foi abordado por pessoas próximas a Sheen para lidar com a sua situação.



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A década de 1980 está de volta: não na forma de estrelas pop do sexo masculino usando delineador, mas em manchetes gotejando o estigma. “Pânico de HIV em Hollywood”, anuncia o jornal The Sun. “Uma lista de astros que tiveram o diagnóstico abala o showbiz” e “Astro mulherengo tem uma lista de ex-amantes”, acrescenta. Ver a combinação de “HIV” e “pânico” na imprensa não é algo que a minha geração está acostumada; mas três décadas atrás, esta era uma norma trágica. Para aqueles que passaram boa parte de suas vidas fazendo campanha para superar o estigma dessa doença tratável, estamos num dia sombrio. “Mesmo com os avanços na testagem e no tratamento do HIV, ainda permanecem preconceitos infundados”, afirma a organização Terrence Higgins Trust. “Atitudes como esta é que perpetuam o estigma do HIV.”

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Se uma celebridade — ou qualquer outra pessoa — tem HIV, realmente não é da sua conta. E retratá-los como uma arma biológica ambulante, portadores de uma peste que os torna uma ameaça para os outros, tem consequências terríveis. A caça às bruxas feita pelos tabloides ajuda a fazer com que as pessoas que vivem com HIV se sintam isoladas, aumentando a depressão e a ansiedade. E isso leva menos pessoas a decidirem fazer o teste.

Cerca de uma em cada quatro pessoas com HIV não sabem que o tem, e isso ajuda o vírus a se espalhar. De fato, os casos de HIV continuam a aumentar: aproximadamente 110.000 britânicos vivem com a doença; em 2013, foram 6.000 novos diagnósticos. Quatro em 10 pessoas que são diagnosticadas estão em estágio avançado da infecção pelo HIV. A necessidade de incentivar o teste para garantir a detecção e o tratamento precoce fala por si só. E o The Sun só vai minar estes esforços.

Obviamente, não deve haver complacência quando se trata de travar a propagação do HIV. Mas o que torna a história do The Sun tão fora de sincronia com a realidade é que o HIV não é mais uma sentença de morte neste país. Pacientes tratados adequadamente podem esperar viver uma vida normal e com expectativa de vida normal. Os tratamentos atuais são tão eficazes, lembra o Terrence Higgins Trust, que são capazes de reduzir o HIV a um nível indetectável, o que significa que aqueles que vivem com o vírus não podem transmiti-lo.

“A vida com HIV mudou enormemente. Está na hora da percepção pública se atualizar.” — Tom Hayes

Estamos em um bom momento para o tratamento e para a prevenção do HIV. Quando tomada diariamente por aqueles sem a doença, estudos mostram que a profilaxia pré-exposição (PrEP) pode ser totalmente eficaz em impedir as pessoas de se infectarem. O National Health Service (NHS) ainda se recusa a prescrever o medicamento para indivíduos sob alto risco de infecção — embora seja muito mais barato do que tratar as pessoas após a infecção e embora ativistas estejam fazendo seu melhor para forçar as autoridades médicas a rever sua posição. Novos tratamentos parecem estar a caminho, tal como uma injeção a cada um ou dois meses, em vez do incômodo regime diário de comprimidos.

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Elton John acredita que só vamos superar o HIV “erradicando seu sintoma mais letal: o estigma.” Foto de Roger Askew/Rex

“A epidemia de HIV se tornou um meio de reforçar preconceitos e discriminações existentes para com os homens gays.”

E o estigma ainda permanece. Seria fácil desconsiderá-lo, como algo confinado à extrema direita, mas isso também não é verdade. Você poderia esperar apoio e solidariedade entre homens homossexuais; afinal de contas, o HIV era um trauma que abateu os gays desproporcionalmente na década de 1980, e a memória coletiva dessa calamidade perdura entre a geração mais jovem. Muitos homossexuais mais velhos viram seus parceiros e amigos sofrerem mortes horríveis; e a epidemia de HIV se tornou um meio de reforçar preconceitos e discriminações existentes para com os homens gays como um todo.

Contudo, o estigma do HIV também é enorme entre gays. Aqueles que falam abertamente sobre a sua condição sorológica correm o risco de serem evitados; a equipe do Terrence Higgins Trust sabe de histórias de homens gays soropositivos sendo repreendidos em aplicativos de namoro simplesmente por estarem lá. Existe uma tradição trágica de grupos oprimidos absorverem os preconceitos e comportamento de seus opressores. Em grande parte da nossa história, os homens gays têm sido tratados como leprosos; na melhor das hipóteses, como objetos de piedade; e comumente como objeto de desgosto. As pessoas se sentem desconfortáveis ​​em torno deles, ameaçados pela sua própria presença. E hoje essa é a forma como muitos homens gays tratam as pessoas com HIV.

“Rachel é centrada e confiante — e incapaz de contar às pessoas que é soropositiva.” — Verity Sullivan

Há, talvez, um sintoma surpreendente de uma pandemia que afeta particularmente os gays: homofobia internalizada. Mesmo depois de grandes progressos ao longo de décadas na luta LGBT pela emancipação, os homens gays ainda são, muitas vezes, vistos como algo sujo e errado. No entanto, subconscientemente, a epidemia de HIV — e a forma como ela foi estigmatizada como “peste gay” — reforçou tais sentimentos. Eu sei de muitos homens gays que, não muito depois de um encontro sexual, começam a se preocupar se um súbito acesso de espirros é evidência de estarem infectados com o HIV.

Embora a batalha contra a homofobia esteja longe de terminar, muitos homens gays sentem que ganharam alguma aceitação, mesmo respeitabilidade, as quais as gerações anteriores só poderiam ter sonhado. Mas justamente porque é tão recente, ela parece precária: o HIV é um lembrete de uma era tão perto da nossa. Temos progredido a uma respeitabilidade que poderia ser perdida de uma hora para outra, revivendo novamente o estigma que as gerações anteriores tiveram de enfrentar.

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Ver o estigma do HIV ostentar-se no mainstream — depois de tanto esforço e de tantos anos dedicados a superá-lo — é deprimente, de fato. Ainda assim, isso leva o foco da nossa atenção à existência contínua deste fenômeno mortal. Elton John está certo de que o HIV só vai ser superado “erradicando o seu sintoma mais mortal: o estigma.”

Há pessoas que leem isto aqui e adiam um teste de HIV, pois temem que sua vida seja arruinada: não pela doença em si, mas pelas associações que se agarram ao resultado do teste. Jornais lidos por milhões podem fazer pior. Assim como o estigma associado à vergonha internalizada de tantos homens gays. Ambos precisam se reavaliar.

Owen-Jones-LPor Owen Jones em 11 de novembro de 2015 para The Guardian. Owen Jones é um colunista e autor de Chavs: The Demonisation of the Working Class and The EstablishmentAnd How They Get Away With It.


Por em 6 de outubro de 2015 para Revista Cariri

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Houve um tempo em que viver com HIV era sinônimo de sentença de morte. E houve um tempo em que esta sentença não existia discursivamente nas realidades dos governos e das políticas públicas.

O início da epidemia de aids foi marcado pelo pânico moral e o processo de implementação do neoliberalismo no mundo, o que levou o então Presidente dos EUA Ronald Regan a vergonhosamente pronunciar o nome da síndrome em público apenas em 1987, próximo ao final do seu segundo mandato. Naquele momento já faziam mais de quatro anos desde que o vírus tinha sido identificado e contabilizava-se milhares de mortes.

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A reação a tal negligência viria dos movimentos sociais e em especial dos ativismos ligados às artes. Era a época do surgimento do Queer Nation e do Act Up, este último com seu clássico slogan: silêncio = morte. Diante da flagrante omissão das autoridades, era necessário falar. E foi assim que se configurou um fenômeno, chamado por Marcelo Secron Bessa de “epidemia discursiva”. A temática da aids invadia as artes como estratégia política de atuação e visibilidade. Nas artes visuais como o graffiti de Keith Haring; no audiovisual com o chamado New Queer Cinema; no teatro com peças como “Angels in America” de Tony Kushner; “Rent” de Jonathan Larson e “The normal heart” de Larry Kramer, nas performances e happenings com ocupação de Igrejas e prédios públicos. Além de nosso foco principal por hora: a Literatura.

Escritores como Susan Sontag, Michael Cunningham, Armistead Maupin fizeram parte desta geração. Assim como a tuberculose invadira a literatura no final do século XIX e início do século XX (“A montanha mágica”, de Thomas Mann é um exemplo emblemático), a aids vai passar a ser um tema fundamental na produção destes autores. No Brasil, tal fenômeno ocorreu, por exemplo, com a obra de Caio Fernando Abreu. Escrevendo em 1984 o primeiro texto de nossa literatura que contem a palavra aids: a novela “Pela Noite” presente no livro “O triângulo das Águas”. Vale lembrar que a epidemia esteve presente em seus escritos até sua morte em 1996.

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Porém, nas construções narrativas recentes da aids existe uma espécie de ponto de mutação. A descoberta dos potentes antirretrovirais, o chamado coquetel, exatamente naquele ano de 1996 vai dar uma nova configuração à epidemia e sua discursividade. Podemos afirmar que em termos de literatura norte-americana, este ponto de mutação ocorre no romance “As horas” (1999) de Michael Cunningham (adaptado para o cinema em 2001 com direção de Sthephen Daldry). Em um trecho do livro é possível perceber um diálogo onde o personagem vivendo com HIV argumenta que pode sim viver por anos, mas acaba dando fim à sua vida por motivos que não eram especificamente relacionados à síndrome. É o momento em que a morte em decorrência da aids passa a não ter mais centralidade na construção das narrativas contemporâneas. A partir de então, presenciamos a emergência de diversas obras características do que temos chamado de uma “literatura pós-coquetel”. Em especial em livros de outro escritor norte-americano já citado, Armistead Maupin, como “Ouvinte da Noite” (2000) e “Michael Tolliver Lives” (de 2007. “Michael Tolliver está vivo”, em tradução livre. Inédito no Brasil). No primeiro, vemos o companheiro do protagonista ressurgir do leito de morte ao mesmo tempo em que põe fim ao relacionamento e, no segundo, ficamos sabemos que o clássico personagem da série de livros “Tales of the City” (“Histórias da Cidade”), dos anos 1970 e 1980, não morreu em decorrência da aids e é um cinquentão soropositivo vivendo em São Francisco.

snow queen

Se na obra de Maupin a temática da aids continua a aparecer vigorosamente, nos livros de Michael Cunningham pós-coquetel a epidemia passa a figurar apenas como uma vaga memória triste. É o que acontece nos romances “Ao anoitecer” (2010) e “The Snow Queen” (de 2014. Inédito no Brasil). Vale lembrar que os dois primeiros livros deste escritor estão marcadamente atravessados pela aids: “Uma casa no fim do mundo” (1990) e “Laços de Sangue” (1994).

Logo, muitas são as reconfigurações da epidemia. Ao mesmo tempo da emergência de uma vida possível com HIV, vieram sua feminização, o aumento dos casos entre jovens, o deslocamento dos óbitos para os países periféricos, o Brasil deixando de ser uma referência mundial por conta do fundamentalismo evangélico. Além dos surgimentos do tratamento como prevenção (TasP); e das chamadas Profilaxias pós-exposição (PEP) e pré-exposição (PrEP). Momento em que marca uma nova fase da relação de saber-poder com a indústria de fármacos.

Como estas questões passam a ser ditas e vistas (ou não) nas artes e em especial na Literatura? Em 2015, tivemos traduzidos para o Brasil dois livros interessantes desta possível “literatura pós-coquetel”: “Dois Garotos se Beijando”, romance de David Levithan e “Pílulas Azuis”, HQ de Frederik Peetrs que podem ajudar em algumas destas reflexões, mas estes serão temas para nossas próximas postagens.

Alexandre Nunes

Alexandre Nunes
Professor de “Comunicação e Cultura” da Universidade Federal do Cariri – UFCA. Doutorando em “Cultura e Sociedade” pela UFBA.


Na maioria dos anos desse século, o equinócio (a data que marca a entrada da primavera no hemisfério sul e do outono no hemisfério norte) acontece no dia 22 de setembro. Mas este ano foi diferente. O equinócio se deu neste dia 23, mais precisamente às 5 horas e 21 minutos da manhã, pelo horário de Brasília.

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Dizem que a primavera e o outono representam o prenúncio da mudança, uma vez que as estações seguintes, o verão e o inverno, são tão opostas — ou, pelo menos, é assim que lembramos delas. Em tempos de aquecimento global, se não tanto pela mudança de temperatura, decerto pela mudança na duração dos dias e das noites, a qual inevitavelmente se altera em virtude do alinhamento do eixo do nosso planeta em relação ao Sol.

Foi na primavera de 2010 que fui diagnosticado positivo para o HIV, naquele 18 de outubro, às 9 horas da manhã. Foi o dia em que mais chorei, de tanto medo da doença e certo de que a minha vida iria mudar muito em decorrência do vírus. Naquele mesmo ano, pouco antes da primavera, a pesquisadora australiana Asha Persson teve publicado seu estudo a respeito de relacionamentos heterossexuais sorodiscordantes, reunindo entrevistas com pessoas soropositivas e seus parceiros soronegativos em face à declaração da Swiss Federal Aids Commission — a qual, em 2008, divulgou um comunicado afirmando que pessoas com HIV que estão em tratamento e têm a carga viral indetectável não são infecciosas.

A declaração suíça provocou um debate internacional acirrado, com opiniões tão díspares quanto verão e inverno. Uma das principais preocupações era a de que encorajasse aqueles que estivessem em tratamento antirretroviral a ter relações sexuais sem camisinha. Entretanto, não foi isso que o estudo conduzido por Asha revelou. Ao contrário, naquela altura, as pessoas que estavam num relacionamento com um parceiro de diferente condição sorológica para o HIV expressaram ceticismo ou incerteza a respeito da ideia de que o tratamento antirretroviral pudesse funcionar como prevenção da transmissão do vírus, tornando seu portador uma pessoa não-infecciosa. A maioria dos entrevistados por Asha não via qualquer relevância da mensagem suíça para suas próprias vidas. Suas decisões a respeito do sexo não estavam baseadas em cálculos de risco, mas em emoções.

primavera

F oi mesmo a partir de emoção que a segunda mulher para quem contei ser portador do vírus reagiu à notícia. R., uma linda jovem francesa, habitante de Paris, que conheci em uma viagem de trabalho. As circunstâncias do nosso relacionamento — que logo se tornou um relacionamento à distância — me fizeram concluir que o momento ideal, ou o único possível, para contar da sorologia positiva era mesmo por Skype. E, por acaso, isso se deu numa tarde de primavera, quando me sentei diante do computador, conectado além-mar com a bela jovem, e fiz a revelação.

“– R., tenho algo importante a te dizer”, anunciei. “Eu sou soropositivo.”

A lenta conexão de internet congelava alguns de seus movimentos em frente à câmera do computador. Mas não tive dúvida que seu queixo caído por vários instantes não era resultado de uma falha na ligação. Era susto, mesmo.

“– Isso é muito sério…”, suspirou ela, antes de se levantar e desligar a chamada, explicando que precisava refletir um pouco.

Foram algumas longas horas para que R. reaparecesse. Ao fim do dia, ela me contatou novamente, pronta para dar o seu veredito.

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Sua afirmativa tão positiva me encheu de ânimo. Com ela, a viagem de R. ao Brasil estava confirmada e, melhor ainda, para as festas de final de ano, em pleno verão. Entretanto, até a sua chegada ainda restavam alguns meses e, também, algumas dúvidas a respeito de como o relacionamento poderia se desdobrar. Ela pensava, por exemplo, que a única saída seria aderir ao celibato e manter comigo um relacionamento amoroso sem sexo, simplesmente porque presumiu que era assim que haveria de ser. Foi com o passar dos dias que R., conversando com seus conterrâneos, descobriu que transar era algo permitido aos portadores de HIV. Um dos amigos a quem resolveu consultar era um jovem médico parisiense, residente em infectologia — e quem deu a ela a explicação mais objetiva de todas.

“– Ele disse: ‘Tem HIV, e daí? É só usar camisinha. E você já ia usar camisinha de qualquer forma, não ia?’”, contou ela, fazendo-me concluir que, tamanha simplicidade na resposta, só poderia ser exatamente o que eu gostaria de ouvir quando eu conto que tenho HIV. “Mas ainda tenho algumas dúvidas…”, ponderou R. “E sexo oral? E se a camisinha estourar durante a penetração?”, prosseguiu, antes de concluir: “Se é preciso sempre usar camisinha, como fazemos para ter filhos?!”

Depois de quase desmaiar diante da pronta sugestão de ter filhos, recomendei a R. que conversasse com meu médico, o Dr. Esper, quando chegasse ao Brasil. Foi com muita simpatia que o doutor abriu seu consultório, já trancafiado em virtude do recesso de final de ano. Atravessamos sua clínica vazia e de luzes apagadas até chegar à sua sala, onde o médico conversou a sós com R. por toda uma hora. Ela me contaria depois que ali aprendeu um pouco sobre o tratamento como prevenção — ou TasP, do inglês treatment as prevention —, algo que ela desconhecia por completo.

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O estudo de Asha foi repetido cinco anos depois e, agora, publicado. A pesquisadora entrevistou 38 pessoas que estavam em um relacionamento sorodiscordante: 25 casais em que apenas um dos parceiros foi entrevistado e 13 casais em que foram entrevistados ambos os parceiros, bem como 16 casais homossexuais, sete casais heterossexuais e dois casais que incluíam pessoas transexuais. Entre os 25 parceiros soropositivos, 20 estavam tomando o coquetel antirretroviral e tinham carga viral indetectável, enquanto três estavam prestes a começar.

Assim como a cinco anos atrás, os entrevistados afirmaram desconhecer o termo TasP — mas não o seu significado. Quase todos os entrevistados voluntários disseram que a carga viral indetectável, sua ou de seu parceiro, era muito importante para um relacionamento sorodiscordante. As implicações disso é que variaram entre cada entrevistado. Muitos dos casais homossexuais enquadraram o tratamento antirretroviral como uma “camada extra de proteção”, ao lado do uso contínuo de preservativo. Esses casais congratularam a maior sensação de segurança proporcionada pelo tratamento antirretroviral, mas disseram preferir não lastrear a segurança sexual somente nisso.

“Seja de 4 ou 0,5 por cento, ainda há um risco. E, se há algum risco, não faz sentido corrê-lo, uma vez que as implicações são muito grandes. O impacto emocional do meu parceiro ao saber que foi ele quem transmitiu o HIV seria demasiadamente terrível de suportar.”

Alguns outros casais disseram já manter relações sexuais sem preservativo muito antes de saber sobre os benefícios do tratamento como prevenção. Mas aprender sobre isso parece ter trazido mais tranquilidade e uma validação de suas escolhas.

“Essa nova informação mais ou menos confirmou o que vínhamos fazendo, pois eu ainda sou soronegativo.”

Para um outro grupo de casais, as informações sobre carga viral indetectável e o baixo risco de transmissão do HIV nessas condições lhes deu “permissão” para ter relações sexuais sem preservativo.

“Depois que o estudo saiu, ficamos realmente aliviados. E nos sentimos capazes de ir em frente. Afinal, estes são os fatos. Se ele toma a medicação todos os dias, eu estou disposta a correr o risco, porque sei que ele está fazendo todo o possível para me manter segura.”

Em geral, o estudo de Asha observou que o tratamento como prevenção diminuiu ansiedades a respeito da transmissão — como uma mulher soropositiva tão bem explicou:

“Ajuda você a conseguir relaxar e desfrutar da vida sexual. Desfrutar do seu relacionamento com seu parceiro. É algo a menos para se preocupar.”

Muitos dos entrevistados afirmaram não estar preocupados com a transmissão do HIV. E muitos dos soronegativos se mostraram particularmente contentes ​​em poder refutar a ideia de que estar em um relacionamento sorodiscordante representaria estar sob o risco de ser contaminado por seu parceiro. Para esses casais, a sorologia positiva não deveria definir o relacionamento.

“Posso de fato amar quem eu amo, ao invés de me limitar a: ‘Você é positivo ou não?’ Os relacionamentos podem simplesmente acontecer e evoluir, de uma maneira que, a certa altura depois do meu diagnóstico, eu pensei que não fosse possível.”

Segundo a Dra. Asha, o tratamento como prevenção está mudando a percepção do HIV como algo extremamente infeccioso. Com isso, “pode gradualmente ajudar a normalizar e legitimar as relações sorodiscordantes, como algo que pode funcionar, ao invés de ser problematizada como uma anomalia que necessita de contínuo gerenciamento de risco sexual.” Um produto farmacêutico — ou a maneira como esse produto é percebido —, segundo ela, pode ter um impacto sobre o estigma.

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Mas e aqueles que não fazem o tratamento antirretroviral ou, por alguma razão, não têm carga viral indetectável? Muitos sociólogos têm sido críticos diante do aumento do uso de produtos farmacêuticos como forma de gerir problemas com causas sociais complexas, como depressão, obesidade e disfunção sexual. O remédio como a única solução para atingir um comportamento e uma aparência “normais” pode ser visto como uma forma de controle social, de pressão pelo uso de medicamentos, como a única maneira de manter seus corpos e organismos em consonância com os padrões socialmente esperados.

“Não há hipótese alguma neste mundo que me faça ficar com um homem soropositivo que não esteja em tratamento. Vou me sentir muito mais confortável quando ele estiver em uso de medicação, pois isso resolve uma série de preocupações.”

As entrevistas revelaram que alguns soronegativos pressionam seus parceiros soropositivos para que iniciem o tratamento  antirretroviral e mantenham a carga viral indetectável. Será que isso é bom? — e esta não é uma pergunta retórica. A incontestável melhora na qualidade de vida oferecida pelos antirretrovirais talvez também venha acompanhada de efeito colateral: o estigma por aqueles que não estão indetectáveis. Mas se o impacto social constasse na bula dos remédios, nada mais justo que seus benefícios também estivessem ali: a evolução dos pontos de vista das pessoas entrevistadas desde o última estudo de Asha, a cinco atrás, a respeito da sorodiscordância. A pesquisadora acredita que as mudanças de paradigma são prováveis, senão inevitáveis: o fim da sorodivisão, e, com isso, o fim do drama do soropositivo. Será que isso é realmente possível?

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O hábito não deveria fazer o monge. Por outro lado, disse Aristóteles que somos aquilo que fazemos repetidas vezes — o hábito.

Todos os dias, antes de me deitar, abro aquele armário que fica atrás do espelho do banheiro. Ali dentro, um pequeno frasco branco com um discreto rótulo, onde sequer consta a palavra “aids”, contém remédios suficientes para trinta dias. Dele, retiro uma única cápsula, que contém os três antirretrovirais necessários para me manter vivo e saudável. Levo essa cápsula à boca e a seguro com os lábios, sem deixar que minha saliva a atinja, para que não sinta seu gosto ruim. Sigo em direção ao quarto, onde me aguarda o copo de água filtrada sobre o criado-mudo. Então, por pura diversão e descontração típicas de um hábito tão arraigado, toco a ponta da língua na base da cápsula, forçando-a a fazer um pequeno loop, girando 180 graus em seu eixo vertical, antes de atingir a superfície da língua para, finalmente, ser deglutida, arrastada goela abaixo pela água.

Essa habilidade não foi algo que ganhei do dia para a noite, mas ao longo do mesmo gradiente que o outono e a primavera trazem antes do inverno e verão. Em outras palavras, uma habilidade que se ganha aos poucos e sem perceber — afinal, muitas vezes, não fosse alguém a nos lembrar, sequer perceberíamos a mudança de estação, não é mesmo? Será que isso também nos inebria de perceber o estigma, por mais discreto que este possa ser hoje? Será que nos habituamos à discriminação como se esta fosse normal para um soropositivo, tal e qual engolir as pílulas diárias?

Minha orgulhosa resposta seria que não. Até o fim de meu breve relacionamento com R. — que por razões da vida um dia terminou —, diria nunca ter notado qualquer sinal de sorodivisão. R. sempre foi muito amável, mostrava-se disposta a aprender sobre o meu mundo de soropositivo e dirimir qualquer receio restante que guardasse a respeito do HIV. Para mim, era o melhor que me parecia possível ser, dada a minha condição sorológica. O único passo adiante seria a ausência total de sorodivisão: um relacionamento com alguém não tivesse qualquer receio prévio da minha sorologia positiva. Parecia até utópico alguém para quem a questão da sorologia fosse completamente indiferente — será que existe alguém assim?

Conheci M. pouco depois de meu diagnóstico, há cinco anos. E não foi no outono e nem na primavera que a reencontrei, mas num frio dia de inverno de 2015. Naquela mesma noite, em sua casa, revelei ser soropositivo — com a mesma naturalidade que as minhas peripécias com as cápsulas de medicamento.

“– M., eu tenho HIV”, avisei, sentando em seu sofá enquanto bebíamos uma cerveja, já esperando uma série de perguntas, olhos arregalados e alguma cara de espanto. Entretanto, não foi o que se sucedeu.

“– Ah é?”, respondeu, M., dando de ombros e com uma expressão como se nada disso importasse. “Quer dormir aqui?”

Foi em 13 de julho de 1985 que Freddie Mercury e os demais integrantes do Queen — o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deacon — subiram no palco do Wembley Stadium, em Londres. Um público de 72 mil pessoas cantou junto com o vocalista todas as músicas da banda “como se tivessem esperado o dia todo por isso”, escreveu Mikal Gilmore para a revista Rolling Stone.

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“Queen começou e terminou com Freddie Mercury. Ele encarnou a identidade da banda, seus triunfos e fracassos. E era a psique, com cuja perda a banda não poderia sobreviver”, afirmou Gilmore. Neste sábado, 5 de setembro, Freddie faria 69 anos — não tivesse sido levado pela aids, em 24 de novembro de 1991, vítima de broncopneumonia decorrente da doença. Na noite em que Freddie morreu, o músico e amigo Dave Clarke estava ao seu lado, fazendo vigília na cabeceira da cama, logo depois de Mary Austin, ex-namorada de Freddie e sua amiga mais próxima. Também estavam na casa Joe Fanelli, seu amigo, Peter Freestone, seu assistente, e Jim Hutton, seu parceiro. Para o jornal britânico Daily Mail, em 26 de novembro de 1991, Clarke contou que Freddie “apenas adormeceu”.

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“Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia.”

“Deixamos Freddie o mais confortável que podíamos”, disse Clarke, numa entrevista concedida em 2011. “Seu quarto tinha uma sala adjacente e uma vista para seu belo jardim. Ele se sentia grato por tudo e por seus amigos.” Clarke e Mercury eram amigos desde que se conheceram, em 1976, depois de um show do Queen no Hyde Park, em Londres. “Freddie me confidenciou muita coisa. Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia” — o que não impedia os tabloides de especular, na medida em que sua aparência começou a ser abatida pela aids.

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The Miracle, o 13º álbum do Queen, foi concluído no início de 1989 e o vocalista queria começar a gravar outro disco de imediato — mas, para isso, era preciso justificar aos seus colegas de banda o porquê de tanta pressa. “Ele apenas nos convidou até a sua casa para uma reunião”, contou o baterista, Roger Taylor. Freddie então disse a seus companheiros de banda: “Vocês provavelmente sabem qual é o meu problema. Bem, é isso. Eu não quero que isso faça qualquer diferença. Eu não quero que as pessoas saibam disso. Eu não quero falar sobre isso. Eu só quero trabalhar até cair. E eu gostaria que vocês me apoiassem.” Brian May conta que essa foi a única conversa que tiveram sobre o tema. E que todos ficaram ao lado de Freddie, respeitando o seu sigilo: “Mentimos descaradamente para proteger sua privacidade.”

A banda se deu conta que estava diante de seu último projeto. “Fomos muito conscientes em direção ao fim”, disse Brian. “Por incrível que pareça, havia montes de alegria. Freddie estava com dor, mas dentro do estúdio havia uma espécie de proteção e ele conseguia ser feliz e desfrutar daquilo que gostava e fazia de melhor. Quando não conseguia mais ficar em pé, ele se apoiava contra uma mesa, tomava vodka e dizia: ‘Eu vou cantar até sangrar!'”, conta Brian. “Às vezes, Freddie não era capaz de vocalizar [o que ele queria dizer], e acho que Roger e eu meio que vocalizávamos por ele, escrevendo algumas das letras. Afinal, ele estava quase além do ponto de conseguir colocar seus pensamentos em palavras. Músicas como ‘The Show Must Go On’, no meu caso, e ‘Days of Our Lives’, no caso de Roger, foram presentes que demos para Freddie.” Nessa altura, a gravadora Hollywood Records propôs um videoclipe. Freddie entrou Limestone Studios em 30 de maio de 1991 — a última vez em que esteve na frente de uma câmera.

“Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.”

Depois de Innuendo, Freddie ainda queria continuar a gravar e, se possível, terminar mais um álbum. “Freddie me disse: ‘Escreva para mim… Continue me mandando letras. Eu vou cantar'”, recorda Brian. Essa gravações foram lançadas em 1995, no disco Made in Heaven. “Ele continuou porque era isso o que gostava”, conta Mary Austin. “Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.” Jim Hutton, parceiro de Freddie que esteve com ele no final de sua vida, concordou: “Sem a música, ele não teria sobrevivido.”

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Foi em setembro de 1991, depois de ter gravado o quanto podia, que Freddie Mercury se resguardou em sua casa em Kensington, no distrito do oeste de Londres. Segundo Peter Freestone, ele continuou cauteloso com relação a seus pais e não contou para eles sobre a sua sorologia positiva. “Ele queria protegê-los de coisas que eles não entenderiam ou não aceitariam.” Anos mais tarde, no entanto, sua mãe revelou: “Ele não queria nos machucar, mas nós sabíamos o tempo todo.”

“Freddie tentou de tudo. Ele recebia novos medicamentos especiais, transportados dos Estados Unidos pelo avião [supersônico] Concorde”, contou Clarke. “No fim, quando percebeu que não havia mais alegria, ele decidiu suspender os medicamentos.” Nos últimos dias, já com crises de cegueira, Freddie virou as costas para a maioria das pessoas que queriam visitá-lo. Não queria que vissem a maneira como seu corpo havia se degenerado. Freddie só revelou publicamente sua sorologia positiva um dia antes de morrer, na tarde de 23 de novembro de 1991, quando emitiu uma declaração admitindo sua condição:

“Seguindo as tantas conjecturas da imprensa, gostaria de confirmar que eu testei positivo para o HIV e tenho aids. Senti que era correto manter essas informações privadas, a fim de proteger a privacidade das pessoas à minha volta. No entanto, chegou a hora de meus amigos e fãs ao redor do mundo conhecerem a verdade. Espero que todos se juntem a mim, meus médicos e a todos aqueles de todo o mundo na luta contra esta terrível doença.”

Os amigos próximos disseram que o cantor parecia mais tranquilo depois de sua confissão. Na noite seguinte, Freddie se foi, aos 45 anos de idade.

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“Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.”

“Freddie amava a vida. Ele viveu em plenitude”, contou Clarke, que acredita que, se Freddie tivesse resistido por mais doze meses, provavelmente teria sobrevivido, graças ao advento da Zalcitabina (ddC), em 1992, o terceiro fármaco aprovado para o tratamento contra o HIV, depois da Didanosina (ddI) e da Zidovudina (AZT). “Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.” Ao Daily Mail, Clarke também disse acreditar que a próxima geração é a geração que vai vencer o vírus.

“Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”

“Freddie era maior que a vida. Era muito gentil e carinhoso. Sinto realmente muita falta do seu entusiasmo. Ele tinha um incrível senso de humor e sempre me fazia rir. Ele não levava a vida tão a sério e levantava seu ânimo. Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. Freddie era muito orgulhoso. Adorava correr riscos — o que é minha filosofia também. Seu legado vai continuar para sempre. Suas canções e suas gravações são atemporais. Ele era um criador, um revolucionário extraordinário. Ele teria continuado. O que o motivava era a sua obra. Freddie sentia muita dor, mas nunca reclamou uma única vez. Não fazia drama. Não estava triste. Foi muito corajoso. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”