história
his.tó.ria
sf (gr historía) 1 Narração ordenada, escrita, dos acontecimentos e atividades humanas ocorridas no passado. 2 Ramo da ciência que se ocupa de registrar cronologicamente, apreciar e explicar os fatos do passado da humanidade em geral, e das diversas nações, países e localidades em particular. 3 Os fatos do passado da humanidade registrados cronologicamente. 4 Ramo da ciência que se ocupa com a natureza animada e inanimada. 5 Tratado acerca da origem e desenvolvimento de uma nação, ciência, arte etc. 6 O futuro, considerado como juiz das ações humanas: A história o julgará. 7 Biografia de uma personagem célebre. 8 Exposição de fatos, sucessos ou particularidades relativas a determinado objeto digno de atenção pública. 9 Narração de aventura particular

Há cinquenta anos, um jovem negro de 15 anos chegou assustado ao hospital de St. Louis, cidade que fica no estado americano do Missouri. Ele sofria sintomas incomuns, que intrigaram os médicos. Suas pernas estavam inchadas e, em seguida, seu corpo inteiro. Nenhum tratamento parecia funcionar, nem mesmo sete semanas de antibióticos.

Robert Rayford ( * 3 de fevereiro de 1953 † 15 de maio de 1969 )

Ao longo de seis meses seu estado de saúde continuou a se deteriorar, até que, em maio de 1969, o tímido adolescente perdeu a vida para uma doença que confundia toda a equipe médica. Seu nome era Robert Rayford e ele é a primeira pessoa de que se tem notícia a morrer em decorrência do HIV nos Estados Unidos.

Sua morte se deu apenas um mês antes da Rebelião de Stonewall, em junho de 1969, que começou no bar LGBT Stonewall Inn, em Nova York. Os frequentadores do bar eram principalmente adolescentes periféricos do Queens, Long Island e New Jersey, incluindo jovens drag queens e sem-teto que ocupavam casas abandonadas no Lower East Side — provavelmente, no espírito dos bares retratados no premiado documentário Paris Is Burning (1990), disponível no Netflix. Foi nesse bar que uma batida policial foi iniciada na noite de 27 de junho, seguindo ordens da State Liquor Authority, autoridade responsável pelas licenças para venda de álcool na cidade e que, recentemente, proibira a venda de bebidas alcoólicas em bares que atendiam clientes abertamente homossexuais.

Do outro lado da rua, uma multidão de aproximadamente cem pessoas assistia à polícia fichar e prender os funcionários e clientes do bar. Antes de serem presos, os jovens sorriam e acenavam para a multidão. Irritados pela irônica reação, os policiais começaram a empurrá-los violentamente com seus cassetetes. A multidão começou a gritar para que a polícia parasse; e os oficiais responderam, dizendo-lhes para saírem da rua. Alguém começou a lançar pedras e a balançar o camburão da polícia. Da parte de trás da multidão, latas de cerveja e garrafas voaram pelo ar. Depois, detritos de rua, o que fez com que os oficiais recuassem para dentro do bar, trancando as portas, encurralados pela multidão.

Multidão revoltada enfrenta a polícia em frente ao bar Stonewall.

Pedras voavam. Um jornal em chamas atravessou a janela quebrada do bar, iniciando um pequeno incêndio. Dentro do bar, os policiais se salvaram graças à uma mangueira de incêndio, a qual eles passaram a usar para jogar água contra a multidão. Foram seis dias de confronto. E o resto virou história.

Vários anos mais passaram antes que bares abertamente gay fossem licenciados, como o Ballroom em West Broadway e o Reno Sweeney na West 13th Street. Foram-se ainda mais alguns anos até que figuras políticas de Nova York se posicionassem a favor de leis antidiscriminação. Tudo isso, marcado pela Revolta de Stonewall: o momento da virada do movimento pelos direitos homossexuais nos Estados Unidos e, possivelmente, em todo o mundo. Por isso, 28 de junho, a data da Revolta de Stonewall, é considerada o Dia do Orgulho LGBT.

Jovem sendo preso pela polícia durante a Revolta de Stonewall.

Naquela época, ninguém sabia ainda o que era o HIV — doze anos se passariam antes que os Centros para Controle e Prevenção de Doenças americano, o CDC, reportassem sobre uma misteriosa pneumonia e imunodeficiência que afligia “cinco homens jovens homossexuais”. As mortes decorrentes mesma misteriosa doença começaram a aumentar a partir de 1981, mas o HIV não foi identificado pelos cientistas até 1984.

Gaëtan Dugas, o “Paciente Zero”.

Foi somente em 1987 que o HIV foi encontrado nas amostras de tecido de Rayford. Mesmo assim, poucos notaram sua história. Ao invés disso, a origem da epidemia de HIV e aids foi atribuída a Gaëtan Dugas, um comissário de bordo canadense, branco, responsabilizado por disseminar o HIV por todo o continente norte-americano e apelidado, à época, pelo CDC e pela imprensa, como o “Paciente Zero”. Isso se deu depois de uma extensa busca das autoridades médicas, a partir de informações das ligações sexuais entre homens gays e bissexuais na Califórnia, Nova York e alguns outros estados. Dugas era o marco zero entre vários parceiros.

Capa do New York Post em 6 de outubro de 1987.

Em 1987, uma matéria do New York Post que tinha como manchete “O homem que nos trouxe a aids” contou sua história: a cada cidade em que pousava, o comissário aproveitava para transar com quantos homens pudesse, mesmo ciente de que sua condição pudesse ser transmissível a outras pessoas. Depois de fazer sexo, conta-se que era comum que Dugas apontasse para as lesões em sua pele, provavelmente oriundas de Sarcoma de Kaposi e outras manifestações de doenças oportunistas típicas da aids, e então dissesse para seus parceiros: “agora você também tem!”

Tudo isso é contado em detalhes no livro And the Band Played On, do jornalista Randy Shilts, publicado também em 1987, o qual fala do conturbado início da epidemia, retratando Dugas como um sociopata promíscuo que espalhou o vírus pelo país. Logo após terminar de escrevê-lo, Shilts foi diagnosticado positivo para o HIV. Em agosto de 1993, o livro virou filme, ao qual o jornalista assistiu pouco antes de sua morte, aos 42 anos, em decorrência de uma pneumonia. Nesse sentido, Shilts foi vítima de Dugas.

Gaëtan Dugas.

Acontece que atribuir a responsabilidade pela origem da epidemia ao comissário de bordo canadense é impreciso e incorreto. Dugas não foi o primeiro infectado e a história de Robert Rayford é prova disso.

Quando o caso de Rayford foi identificado, uma narrativa diferente sobre quem estava morrendo de HIV já estava em curso: ao que parece, concentrava-se em homens gays brancos. O relatório de 1981 do CDC trazia a informação genérica dos cinco jovens gays com pneumonia, sem indicar a sua etnia — algo que, à época, nos Estados Unidos, seria um indicativo de que todos eles eram brancos. Dois outros casos, um afro-americano homossexual e um haitiano heterossexual, não foram sequer mencionados pelo CDC. Michael Gottlieb, médico responsável pelo relatório, disse ao New York Times: “Até recentemente, eu não teria pensado que isso tinha importância”.

Reconhecer apenas Dugas negligencia a trágica experiência de Rayford e o fato de que ele não é a única pessoa negra a perder a vida para o HIV. Ao invés disso, ele foi a primeira vítima documentada daquilo que se tornaria uma tendência na epidemia de HIV: o impacto devastador e desproporcional do HIV sobre as comunidades negras. Desde que o vírus foi descoberto, negros representam 43% das mortes por HIV nos Estados Unidos. Homens negros gays e bissexuais representaram 26% de todas as novas infecções por HIV em 2016, apesar de representarem menos de 2% da população total dos Estados Unidos. Dentre 1,1 milhão de americanos que vivem com o HIV hoje, quase 475.000 deles são negros e quase 150.000 deles são homens negros gays e bissexuais.

No Brasil não é tão diferente. De acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, a epidemia de HIV afeta desproporcionalmente a população afrodescendente do País. Dados do Boletim Epidemiológico de 2016 do Ministério da Saúde mostram que, entre os casos de infecção por HIV registrados de 2007 a 2015, 44% são entre brancos e 54,8% são entre negros e pardos. A diferença ainda é maior entre mulheres: 39,2% dos casos são entre brancas e 59,6% entre negras e pardas. Em 2015, a maior proporção dos falecimentos ocorreu entre pardos (44,2%), seguidos por brancos (41,4%) e negros (14%), o que significa que a população negra representou um total de 58,2% desses óbitos. Na cidade de São Paulo, também em 2015, enquanto a taxa de mortalidade por causas relacionadas à aids entre brancos foi de 5,4 por 100 mil habitantes, entre negros foi de 10,9 por 10 mil habitantes.

Gaëtan Dugas nunca teve a chance de se defender das acusações feitas contra si. Ele morreu antes disso, em março de 1984, em decorrência de complicações da aids. Foi só a dois anos atrás que sua história foi reescrita, quando Michael Denneny, editor do livro And the Band Played On, confessou que o perfil do personagem de Dugas foi propositalmente deturpado: “Nós nos rebaixamos ao sensacionalismo. Meu agente disse: ‘Sexo, morte, glamour e — o melhor de tudo — ele é um estrangeiro!’ Essa foi a única maneira que encontramos para chamar a atenção.”

A alegação de que Dugas foi a primeira pessoa a trazer o HIV para os Estados Unidos foi refutada por pesquisadores em novembro de 2016, por meio de testes genéticos. Ele nunca foi de fato o primeiro portador do vírus, mas apenas um dos primeiros a receber o diagnóstico. Além disso, nenhuma das atitudes e decisões de seu personagem descritas no livro de Randy Shilts podem ser confirmadas. O próprio autor do livro, que virou best seller, teria inicialmente relutado em desenhar o perfil de vilão para Dugas. Ele teria cedido depois de muita insistência de seu editor. Talvez, sua confissão tenha vindo cifrada, numa declaração feita antes de sua morte: “O HIV me fez ver todas as coisas superficiais às quais nos apegamos, como ego e vaidade.” — Enquanto isso, a história de Rayford foi mantida em silêncio.

Campanha da organização ActUp: “Silêncio = Morte”

O HIV não veio de Dugas e nem de Rayford. Uma equipe internacional de cientistas, liderada pelas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Leuven, na Bélgica, reconstruiu a história da pandemia de HIV por meio de registros históricos e amostras de DNA do vírus, os quais remontam ao final dos anos 1950. O DNA permitiu a elaboração de uma árvore genealógica do vírus, que traçou sua ascendência através do tempo e do espaço. Usando modelos estatísticos, cientistas voltaram ainda mais para trás no tempo e, finalmente, localizaram a origem da pandemia: no ano de 1920, em Kinshasa.

Foi ali, na capital do que é hoje a República Democrática do Congo, onde tudo começou. Embora o vírus provavelmente tenha cruzado de chimpanzés para os seres humanos em anos anteriores, na região do sul de Camarões, o HIV manteve-se uma infecção regional até entrar em Kinshasa.

Mapa da República Democrática do Congo.

Quando o vírus surgiu, esta era uma cidade agitada. Foi o maior e mais rápido crescimento de uma cidade na região, com ligações de transporte atingindo todo o país. O movimentado Rio Congo levava pessoas a mais de 600 quilômetros de distância. A ferrovia trazia dezenas de trabalhadores ao sudeste de Katanga, província de mineração que depende de trabalho imigrante, e para Lubumbashi, a mais de 900 quilômetros.

A partir dos anos 1920 até 1960, a cepa pandêmica do HIV — outras cepas anteriores fracassaram  se propagou de Kinshasa, atravessou fronteiras para outros países e, então, desembarcou em outros continentes, infectando quase 75 milhões de pessoas em todo o mundo. Dentre elas, você, eu, Dugas e Rayford, vítimas do HIV.

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[dropcap]D[/dropcap]r. Robert R. Redfield, um dos principais pesquisadores de HIV e aids nos Estados Unidos do país e especialista no tratamento de dependência em heroína é o principal candidato nomeado para supervisionar os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano, o CDC, órgão famoso desde o começo da epidemia de aids, por ter identificado os primeiros casos da doença, ainda em 1981 — um pedaço da história da aids muito bem retratado no filme And the Band Played On (1993). De acordo com o New York Times, o anúncio formal sobre o candidato pode acontecer na próxima terça-feira. Se Redfield assumir mesmo o cargo, ele entrará depois da Dra. Brenda Fitzgerald, que renunciou em janeiro, em meio a denúncias de que ela mantinha investimentos em empresas de tabaco e de assistência médica, o que representaria conflito de interesse.

Dr. Robert R. Redfield.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, Redfield fundou o Instituto de Virologia Humana, ao lado de Robert Gallo, conhecido por ter sido um descobridores do próprio vírus da imunodeficiência humana — depois de uma controversa disputa com médicos do Instituto Pasteur da França, Dr. Luc Montagnier e Dra. Françoise Barré-Sinoussi — e, depois, por desenvolver o primeiro teste de HIV. Aos 66 anos de idade, Redfield supervisiona um extenso programa de tratamento para mais de 6.000 pacientes com HIV na região de Baltimore-Washington. Seu instituto já recebeu mais de US$ 138 milhões do próprio CDC para combater o HIV e outros problemas de saúde no Quénia, Nigéria, Tanzânia e Zâmbia.

Em seu currículo, ele tem anos de experiência no tratamento de pacientes com aids e de viciados em heroína, sendo um dos proponente de mais longa data do tratamento médico assistido contra o vício. Formado pela Universidade de Georgetown e pela Escola de Medicina de Georgetown, Redfield fez sua residência em medicina interna no Walter Reed Army Medical Center. É membro do Conselho Consultivo Presidencial de HIV/Aids e recentemente concluiu sua participação no conselho consultivo do National Institutes of Health. De acordo com amigos e familiares, Redfield é um católico praticante, cuja fé desempenha um grande papel em sua vida. Ele é casado com uma enfermeira, Joy, quem ele conheceu enquanto fazia o parto de bebês. O casal tem seis filhos e nove netos.

Entretanto, a ficha de Robert Redfield não é totalmente limpa: Redfield já foi acusado de fraude científica pelo Exército dos Estados Unidos, no início dos anos 90, com relação à pesquisa de vacinas contra a aids. Por conta disso, ele acabou sendo exonerado e, desde então, ficou mais evidente a sua proximidade com a organização Americans for a Sound Aids Policy (ASAP), fundada e liderada pelos ativistas antigays de extrema direita Shepherd e Anita Smith, autores do livro “Cristãos na Era da Aids”. A ASAP veio a se tornar o Children’s Aids Fund e, atualmente, Children’s Aids Fund International (CAFI). De acordo com a Poz Magazine, a organização teve um efeito insidioso nos esforços de prevenção ao HIV em todo o mundo, especialmente na África. Redfield foi do conselho da ASAP e, hoje, é do conselho da CAFI.

Os Smiths, suas organizações e seu ativismo ultradireitista são em grande parte desconhecidos do público, atuando mais nos bastidores do Congresso. Eles começaram a chamar a atenção em meados da década de 1980, quando foram um dos 11 beneficiários iniciais do programa “América Responde à Aids”, com uma doação de US$ 300.000 do CDC para trabalho de prevenção do HIV baseadas “fé”. Desde então, os Smiths receberam milhões e milhões para apoiar sua agenda antigay e contra as pessoas vivendo com HIV. Eles foram uma das organizações privadas mais influentes por trás do teste compulsório de HIV na década de 1980 e início dos anos 90, ao lado do próprio Redfield, além de apoiadores da abstinência como política de pública de prevenção ao vírus. Mais recentemente,  têm sido defensores poderosos de restrições antiprostituição, com financiamento do PEPFAR. Eles se opunham ao teste caseiro de HIV em casa, em defesa da notificação compulsória para todos que testassem positivo para o HIV. Shepherd Smith também faz parte do comitê do Conselho Legislativo de Intercâmbio Americano, que criou o estatuto “modelo” de criminalização do HIV no início dos anos 90, pressionando com sucesso os estados americanos a aprová-lo.

Ainda hoje as organizações dos Smiths recebem milhões de dólares em financiamento público. E provavelmente receberão ainda mais com Robert Redfield no controle do CDC.

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT.

O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e do público em vários países. 120 Batimentos Por Minuto estreia hoje, 4 de janeiro de 2018.

“Eu amei esse filme. Não tem como eu ama-lo mais. Eu me emocionei do início ao fim. Campillo contou uma história sobre heróis, que salvaram muitas vidas”, disse emocionado o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes.

https://www.facebook.com/imovision/videos/10159779262065357/

O diretor mexicano Leo Herrera está produzindo Fathers: um documentário de ficção científica que mistura vida real e fantasia, incluindo entrevistas com historiadores e artistas que imaginam a influência cultural e política que poderíamos ter recebido daqueles que padeceram pela epidemia de aids, se esta não tivesse levado suas vidas. O projeto é inteiramente financiado por doações individuais e através da venda dos produtos no site If They Lived.

E você, já imaginou como seria o mundo atual se a epidemia de aids não tivesse surgido? Como seria o mundo se Freddie Mercury, Michel Foucault, Cazuza, Fela Kuti, Renato Russo, Robert Mapplethorpe, Betinho e tantos outros não tivessem morrido em decorrência da aids?

Em 43 estados americanos há leis específicas que punem as pessoas que vivem com HIV em caso de transmissão do vírus. Em 11 destes estados, é crime um soropositivo morder, cuspir ou compartilhar fluídos corporais com outra pessoa, mesmo que seja considerado impossível infectar alguém sob estas condições.

A maioria destas leis surgiu a mais de trinta anos atrás, no começo da epidemia de aids, quando ainda não se sabia muito a respeito da transmissão do HIV. Muita gente acreditava que a doença estava se espalhando por culpa dos soropositivos, que estariam colocando outros em risco de infecção. Segundo um artigo publicado pelo San Francisco Chronicle, foi neste clima que a Califórnia promulgou suas leis criminalizantes específicas contra o HIV — ou, talvez, contra as pessoas que vivem com HIV.

Na Califórnia, um dos primeiros projetos de lei contra o HIV foi a “Proposta 64”, de 1986, concebida por um grupo autodenominado “Pânico” para o Comitê de Iniciativa para Prevenção da Aids Now. A Proposta 64 sugeria que as pessoas com HIV/aids não fossem elegíveis a trabalhos em escolas ou cozinhas. Um dos partidários da Proposta 64, o político Lyndon LaRouche, chegou a comparar alguém com aids a “uma pessoa correndo com uma metralhadora”.

Ainda bem, os eleitores californianos derrubaram a Proposta 64 de 1986 —  e, curiosamente, aprovaram uma proposta de mesmo nome em 2016, que aprovou o uso recreativo de maconha. Mas, apesar da revogação da Proposta 64 de 1986, o medo da aids continuou generalizado. Histórias de soropositivos fazendo sexo com o objetivo de infectar outras pessoas foram sensacionalizadas pela mídia, muito embora estes costumem ser casos serem raros — lembra-se da história do “Clube do Carimbo”? O próprio Paciente Zero, tido por décadas como quase o único culpado pela epidemia de HIV/aids, foi inocentado somente no ano passado.

O fato é que, desde os anos 80, a epidemia mudou, o conhecimento sobre o HIV aumentou e o risco de transmissão diminuiu para quem faz uso consistente dos medicamentos antirretrovirais. Só as leis é que não mudaram. “Desde que essas leis foram promulgadas, o mundo mudou para quem vive com HIV”, disse Edward Machtinger, diretor do Programa de HIV para Mulheres da Universidade da Califórnia em São Francisco, ao San Francisco Chronicle. “Agora estas leis só servem para institucionalizar a desinformação e a discriminação. São a encarnação do estigma, codificado em lei.”

Foi então que, no mês passado, o senador estadual Scott Wiener e o deputado Todd Gloria, apresentaram um projeto de lei para rever ou até acabar com três das quatro leis da californianas que punem os soropositivos em caso de transmissão do HIV. A proposta dos senadores apenas não mudaria a quarta lei, que aumenta em três anos o tempo de prisão em casos de agressão sexual onde o perpetrador é soropositivo. As três outras leis, atualmente puníveis com pena de prisão de 16 meses a 8 anos, que criminalizam a prática de prostituição enquanto portador do HIV, relações sexuais consensuais com a intenção de transmitir o HIV e a doação de sangue, tecido, sêmen, leite materno ou órgãos quando sabidamente soropositivo, têm sugestões de mudanças pelos dois políticos. Afinal, conforme descrito pelo próprio artigo do San Francisco Chronicle, “as pessoas que estão em tratamento antirretroviral, e para quem o HIV está indetectável no sangue, apresentam chance perto de zero chance de transmitir o vírus.”

“Essas leis foram aprovadas no auge da epidemia de aids, quando havia muito medo e desinformação”, disse Wiener. “Mas é hora de assumir uma abordagem baseada na ciência, e não uma abordagem baseada no medo. Não há nenhuma razão para o HIV ser tratado de forma diferente do que outras doenças infecciosas.”

Esforços para revogar leis similares foram bem sucedidos nos estados do Colorado e Iowa, seguindo a sugestão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de 2014, que recomendou que todos os estados americanos eliminassem seus códigos criminais específicos contra o HIV, apenas com exceção para casos de estupro e quando o suspeito está ativamente tentando infectar outras pessoas.

Aqueles que intencionalmente transmitem o HIV a outras pessoas não ficarão impunes com a revogação das leis específicas contra soropositivos. Machtinger lembrou que estas pessoas podem ser processadas por outros crimes que punem as pessoas por transmitir intencionalmente outras doenças infecciosas, tal como a sífilis. O que a revogação dessas leis vai permitir é que pessoas mais vulneráveis e desprotegidas, em particular os profissionais do sexo, não sejam injusta ou desproporcionalmente condenados.

Dados compilados pela Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles mostram que dos 1.200 casos relacionados ao HIV na Califórnia, entre 1988 a 2014, mais de 93% caíram na lei da prostituição. Destes, apenas 33 casos envolviam exposição com a intenção de transmitir o HIV. Isso quer dizer que estas leis são usadas principalmente para transformar acusações simples de prostituição, que são delitos menores, em delitos graves, elevando à sentenças mais duras.

Em 2012, um homem foi condenado por prostituição e à deportação justamente porque era soropositivo. Mas o que torna o caso mais impressionante é o fato de que o homem não fez sexo! Ele foi preso por sugerir a um policial à paisana que praticassem sexo oral, um ato sexual onde a transmissão do HIV é extremamente improvável. “Ele passou 16 meses na cadeia por causa dessa condenação”, disse Scott Schoettes, da organização LGBT Lambda Legal. “Nós esclarecemos ao tribunal o quão baixo o risco era do sexo oral. Não fazia sentido classificar isso como um crime sério.” Depois disso, o tribunal de imigração suspendeu sua deportação.

Naina Khanna, diretora executiva da Rede de Mulheres Positivas de Oakland, um grupo de defesa de mulheres com HIV, disse ter ouvido falar de mulheres cujos parceiros ameaçaram ir à polícia e alegar que elas mentiram e esconderam sua condição positiva para o HIV. Naina conversou com mulheres que tinham medo de perder seus filhos, empregos e moradia se tivessem sua sorologia revelada. A ameaça, por si só, segundo Naina, causou tanta ansiedade que as impediu de procurar apoio.

De acordo com alguns especialistas em saúde pública, este é o maior perigo das leis criminalizantes do HIV: elas podem desencorajar as pessoas a fazer o teste de HIV e buscar tratamento antirretroviral em caso de diagnóstico positivo — muito embora o tratamento não só seja capaz de salvar suas vidas, como de impedir a transmissão do vírus para outras pessoas.

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Ward 86 foi uma das primeiras clínicas de tratamento de aids nos Estados Unidos, inaugurada em 1º de janeiro de 1983, quando a epidemia começava a se espalhar por São Francisco, antes de seguir para o resto daquele país e, depois, para todo o mundo. Ganhou este nome porque ficava no 6º andar do edifício 80, um prédio de tijolos vermelhos desbotados, no campus do San Francisco General Hospital.

Um dos responsáveis pela inauguração do Ward 86 foi o Dr. Paul Volberding, médico oncologista que atendeu o primeiro caso de aids em São Francisco, em 1º de julho de 1981 — um paciente que sofria com sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer típico de sistemas imunes muito deprimidos e que veio a se tornar uma das principais doenças associadas ao diagnóstico de aids.

Quando o Ward 86 abriu as portas, a maioria dos seus pacientes eram jovens homens gays que já estavam com aids. Muitos deles morreram. Mas alguns sobreviveram — e foi principalmente para estes que o Ward 86 inaugurou, recentemente, seu novo setor: uma clínica geriátrica. Os pacientes jovens que antes sofriam com doenças oportunistas típicas da aids, agora deram lugar a idosos soropositivos que sofrem de doenças típicas do envelhecimento natural.


bbc

Gaëtan Dugas, um comissário de bordo homossexual, virou lenda na história do HIV/aids quando se tornou conhecido como o “Paciente Zero” — o primeiro caso de aids nos Estados Unidos. Contudo, um estudo publicado na revista Nature mostrou que ele era apenas uma dentre as milhares de pessoas infectadas pelo HIV na década de 1970. O estudo também mostrou que Nova York era um centro de propagação do vírus.

A aids só começou a ser conhecida em 1981, quando seus sintomas incomuns começaram a aparecer em homens homossexuais. Mas agora os pesquisadores conseguiram olhar mais para trás no tempo, através da análise de amostras de sangue ainda armazenadas de estudos de hepatites feitos na década de 1970, algumas delas contendo HIV. A equipe da Universidade do Arizona desenvolveu um novo método para reconstruir o código genético do vírus nestes pacientes.

“Podemos estimar a data mais precisas da origem da epidemia nos Estados Unidos para cerca de 1970 ou 1971.”

Após uma triagem de 2.000 amostras de sangue de Nova York e São Francisco, os pesquisadores foram capazes de obter oito códigos genéticos completos do HIV. Isso deu aos cientistas a informação que eles precisavam para construir a árvore genealógica do HIV e identificar o momento em que o vírus chegou aos Estados Unidos. O Dr, Michael Worobey, um dos pesquisadores, disse: “As amostras contêm tanta diversidade genética que não poderiam ter se originado no final da década de 1970. Podemos estimar a data mais precisa da origem da epidemia nos Estados Unidos para cerca de 1970 ou 1971.”

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Gaëtan Dugas

“Gaëtan Dugas é um dos pacientes mais demonizados da história.”

Os pesquisadores também analisaram o código genético do vírus da imunodeficiência humana a partir do sangue de Dugas. Assim como um teste de paternidade que deu negativo, os resultados mostraram que o vírus em seu sangue não foi o “pai” da epidemia de HIV/aids americana. O Dr. Richard McKay, um historiador de ciência na Universidade de Cambridge, disse: “Gaëtan Dugas é um dos pacientes mais demonizados da história e é apenas um dentre uma longa lista de indivíduos e grupos sociais vilipendiados pela falsa crença de terem sido responsáveis por epidemias e com intenção maliciosa.”

Dugas, funcionário da Air Canada, foi rotulado como “Paciente O” (a letra, não o número) pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, porque ele era um caso de aids “Out-of-California” — isto é, de fora da Califórnia. Ao longo do tempo, o “O” tornou-se um zero e o termo Paciente Zero nasceu. Ele ainda é usado até hoje para descrever o primeiro caso de um surto, tal como aconteceu com o ebola na África Ocidental. Dugas morreu em 1984, mas permaneceu identificado como o Paciente Zero no livro And the Band Played On, de Randy Shilts. O estudo também descobriu o papel fundamental de Nova York na propagação da infecção.

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Nova York

A origem da pandemia se deu em Kinshasa, na República Democrática do Congo, em 1920 — a cidade onde começou a pandemia global. De lá se espalhou para o Caribe e para os Estados Unidos, por volta de 1970.

“Nova York parece ter sido o ponto a partir do qual o vírus se espalhou.”

Segundo o Dr. Worobey: “Em Nova York, o vírus encontrou uma população que era como palha seca, fazendo com que a epidemia queimasse mais quente e mais rápido, infectando pessoas suficientes para chamar a atenção do mundo pela primeira vez. Assim como Kinshasa foi um momento decisivo para o vírus se tornar uma pandemia, Nova York parece ter sido o ponto de virada a partir do qual o vírus se espalhou para a costa oeste dos Estados Unidos e, então, para a Europa Ocidental, Austrália, Japão, América do Sul e todos os demais lugares.”

O Prof. Oliver Pybus, da Universidade de Oxford, comentou: “Estes novos dados ajudam a confirmar o quadro das origens do HIV nos Estados Unidos e trazem um ponto muito interessante sobre o Paciente Zero, que se tornou sinônimo da origem da aids. Embora esta narrativa seja atrativa, ela não tem qualquer base científica e é realmente lamentável que esta pessoa tenha sido identificada dessa maneira.”

Em 26 de outubro de 2016 por James Gallagher para BBC

HuffPost Brasil

Nós não morremos mais de aids. Nós não vamos viver menos que uma pessoa que não tem HIV. Com tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, nós não transmitimos o HIV através de relação sexual. Temos o código genético do vírus integrado em algumas células, mas provavelmente seremos a geração de soropositivos que vai experimentar a cura.

É verdade, muitas pessoas com HIV ainda morrem por conta de complicações decorrentes da aids, porém, a maioria delas são aquelas que não tem acesso ao tratamento antirretroviral, infelizmente, como ainda é o caso de muitas regiões na África, por exemplo, ou aquelas que foram diagnosticados tarde, já no hospital, com algum doença oportunista relacionada à aids.

Por hora, também é verdade que ainda vivemos um pouco menos que as pessoas que não têm HIV. Uma pessoa soropositiva e que alcançou 50 anos de idade entre os anos de 2006 a 2014 tem uma expectativa de vida de 72,5 anos, enquanto uma pessoa soronegativa pode esperar viver até os 80,2 anos. Todavia, uma pessoa soropositiva que fez 50 anos de idade entre 1996, o ano em que a terapia antirretroviral combinada de três medicamentos foi implementada, a 1999 poderia esperar viver somente até aos 67,8 anos. Para olhar para o futuro, colocamos esses números num gráfico e assim podemos presumir, sem exageros, que a atual geração de jovens soropositivos não vai viver menos que soronegativos.

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Sobrevida, em anos, entre as pessoas de 50 anos de idade com e sem HIV.

O mesmo vale para a incidência de cânceres, relacionados e não-relacionados à aids, que ainda têm uma taxa mais elevada entre as pessoas que vivem com HIV do que entre as pessoas soronegativas. Uma das possíveis razões para essa taxa mais elevada é a inflamação crônica, um assunto pontual ainda não totalmente compreendido pelos médicos e cientistas, a qual é um pouco maior em soropositivos e que, a longo prazo, acredita-se, pode trazer complicações ligadas à uma série de doenças, incluindo cardiovasculares, autoimunes, doenças hepáticas, renais e câncer.

Ainda assim, os gráficos já mostram, nos dias de hoje, um declínio das taxas de câncer entre soropositivos. Projetando para o futuro, não é exagerado concluir que em breve teremos a mesma taxa de incidência de cânceres que os soronegativos.

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Neste gráfico, a linha azul mostra a incidência de cânceres não relacionados com aids, enquanto a linha verde mostra a incidência de tipos de câncer relacionados à aids, ao longo do tempo.

As pessoas com HIV que serviram como referência para os gráficos acima são aquelas que passaram pelo começo da epidemia de HIV/aids, quando não havia tratamento e, quando este surgiu, ainda era muito agressivo, tóxico e, muitas vezes, não tão eficaz.

Aliás, de tão agressivos e ineficazes, os primeiros tratamentos antirretrovirais não foram capazes de salvar a vida da pequena Kat Schurmann, filha adotiva do casal Schurmann, cuja história está no filme brasileiro Pequeno Segredo, que concorre agora por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Kat nasceu em 1992, antes do surgimento da terapia antirretroviral, infectada com o HIV por transmissão vertical, nome que se dá à transmissão do HIV durante a gravidez, parto ou amamentação de uma mãe soropositiva. Ela faleceu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos de idade, devido à complicações decorrentes do HIV.

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Hoje, para viver quase como soronegativos, ainda precisamos dos antirretrovirais. São o mesmo tipo de medicamentos que aqueles implementados em 1996, embora, atualmente, eles sejam mais modernos, mais simples de ingerir e menos tóxicos — por isso, com menos efeitos colaterais, incluindo ausência de lipodistrofia, uma condição comum decorrente dos primeiros coquetéis de antirretrovirais, que faz com que a gordura corporal seja realocada pelo organismo de maneira desproporcional.

Hoje, para controlar o HIV precisamos somente de um comprimido por dia, o qual é composto por três medicamentos diferentes, que inibem os processos que o vírus usa para se replicar dentro do organismo. Em breve, esse único comprimido deve passar a conter apenas dois ou, quem sabe, um único medicamento antirretroviral, o que deve reduzir ainda mais a toxicidade destes medicamentos e, muito possivelmente, melhorar ainda mais os indicadores que falamos acima.

Os antirretrovirais atuais são muito mais avançados que aqueles a que Kat Schurmann teve acesso. Com eles, não é difícil manter o vírus no sangue em quantidade tão baixa que é indetectável, mesmo pelos exames mais precisos de laboratório. No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico, aproximadamente 88% das pessoas que vivem com HIV e que fazem tratamento antirretroviral no país têm carga viral indetectável.

Sob tratamento antirretroviral e com o vírus indetectável no sangue, também não há vírus detectável no fluído pré-ejaculatório e há em baixa quantidade no sêmen. Isso provavelmente é o que faz com que, desde o começo da epidemia, nunca tenha sido observada uma única transmissão sequer a partir de pessoas que vivem com HIV, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral do HIV indetectável no sangue, muito embora já tenham sido feitos longos e extensos estudos entre milhares de casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV) que optam por não fazer uso do preservativo. No último destes estudos, o Partner, foram acompanhados 1.166 casais sorodiscordantes, vários deles homossexuais, em 75 centros clínicos espalhados por 14 países europeus e, assim como nos estudos similares anteriores, não foi documentada uma única transmissão do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Zero transmissão.

Essa realidade faz com que a concepção natural, sem inseminação artificial, sem camisinha, já seja uma opção para casais sorodiscordantes que planejam ter filhos. Portanto, no sexo, soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável já são como soronegativos. “Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe”, explicou Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em 2015. “É mais poderoso que a camisinha.”

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Por conta desta eficácia do tratamento como prevenção na transmissão do HIV, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, estabeleceu uma meta, que determina que “90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu status; que 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral; e que 90% das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral suprimida e não mais possam transmitir o vírus”.

A Suécia foi o primeiro país a alcançar essa meta. Se ela for alcançada por mais países, a epidemia de HIV/aids será virtualmente controlada até 2030, com apenas 200 mil infecções por ano, ante as 2,1 milhões de novas infecções em 2015. Restarão com HIV no mundo as atuais 36,7 milhões de pessoas soropositivas, aproximadamente, dentre as quais eu estou incluído.

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Em 2030, qual será a diferença entre soropositivos e soronegativos? Se os gráficos acima estiverem certos, muito pouco: continuaremos a não morrer de aids, teremos uma expectativa de vida igual a de soronegativos e, ao invés de um comprimido por dia composto por três medicamentos, provavelmente teremos uma única pílula composta por um único antirretroviral — quem sabe, administrável em doses mais espaçadas que a atual dose diária. Para ser aprovado pelas autoridades de saúde, esse tratamento terá de continuar a manter a nossa carga viral indetectável e, por isso, continuaremos incapazes de transmitir o HIV.

Até lá, esperamos que viajantes com HIV não sejam mais deportados ou impedidos de entrar em alguns países, como ainda acontece hoje. Esperamos que mulheres com HIV na Rússia não sejam mais presas por não revelar sua condição sorológica aos seus parceiros e que elas não sejam mais esterilizadas à força em Uganda, tal como tem acontecido enquanto você lê esse texto. Esperamos que não hajam mais leis criminalizantes, que ainda hoje punem desproporcionalmente aqueles que vivem com HIV — como em alguns estados americanos, por exemplo, que já chegaram à condenar soropositivos que cuspiram ou morderam outras pessoas a 35 anos de prisão, e nos Emirados Árabes, onde um soropositivo está preso há mais de 10 anos por ter HIV.

Enfim, esperamos, tal como a meta proposta pelo Unaids, que nos próximos anos não haja mais estigma, discriminação e preconceito contra quem vive com HIV. Nesse cenário, o que é que restará de diferente?

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“Carregamos cerca de 100.000 pedaços de DNA que vieram de retrovírus, conhecidos como retrovírus endógenos. No total, eles compõe estimados 5 a 8% de todo o genoma humano”, explica uma matéria da National Geographic, de 2015, que teve a colaboração de Carl Zimmer, autor do livro A Planet of Viruses.

“Os cientistas sabem que esta fusão aconteceu porque os vírus têm genes distintos. Quando os cientistas vasculham o genoma humano, às vezes se deparam com um trecho de DNA que carrega marcas de um vírus. O tipo mais fácil de vírus de reconhecer são os retrovírus, um grupo que inclui o HIV. Retrovírus fazem cópias de si mesmos infectando as células e, em seguida, usando uma enzima para inserir seus genes no DNA da célula hospedeira. Em seguida, a célula lê o DNA inserido e faz novas moléculas que se montam em novos vírus.

“Na maioria das vezes, os retrovírus se comportam como outros vírus, saltando de um hospedeiro para outro. Mas, por vezes, um retrovírus vai parar no genoma de um óvulo ou do esperma. Se, em seguida, ele terminar em um novo embrião, então o embrião vai levar uma cópia do vírus em cada uma de suas células, incluindo o seu próprio óvulo ou esperma. E assim por diante, de pais para filhos, aos netos.

“Não há como ter certeza de que estamos livres de novos retrovírus endógenos e se o HIV ou outros novos retrovírus irão dar um jeito e integrar nossos nossos genes” — se isso acontecer, bem, então os soronegativos é que vão ficar mais parecidos com soropositivos.


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Pequeno Segredo será o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Dirigido por David Schurmann e inédito nos cinemas brasileiros, o longa desbancou Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que era favorito à vaga. De acordo com Bruno Barreto, presidente da comissão de eleição, os votantes optaram por escolher “um filme que dialogasse mais com os critérios da Academia”.

Schurmann é integrante da família que foi a primeira tripulação brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro, e Pequeno Segredo conta a história de Kat, a menina portadora de HIV adotada pela família em uma de suas viagens. Julia Lemmertz, Mariana Goulart, Maria Flor, Marcelo Antony e Mariana Goulart. integram o elenco.

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Em sua página no Facebook, o diretor agradeceu a indicação: “Obrigado a todos os que acreditam nesse filme. Meu profundo respeito a todos os maravilhosos filmes inscritos. Tenham certeza que faremos de tudo e não economizaremos energias para representar nosso país na premiação do Oscar 2017. Obrigado, Obrigado, obrigado!”.

Programado para chegar aos cinemas de todo país em 10 de novembro, Pequeno Segredo fará uma pré-estreia limitada antes de 30 de setembro, ainda sem data definida, para poder se qualificar a concorrer ao Oscar 2017.

Por Agência Aids em 12 de outubro de 2016