Tive que atravessar um monte de pessoas no posto de saúde onde retiro meus medicamentos. A fila era longa e até já deixava de ser fila, com todos circundando o segurança para ouvi-lo falar.

“— A quota de hoje acabou!”, gritou ele.

“— Mas não era até às 18h?”, perguntou um homem.

“— Era, sim. Mas vocês têm que entender: a demanda tem sido muito alta. Hoje, as vacinas acabaram às 15:00h. Agora, só amanhã”, concluiu o segurança, impedindo a entrada das pessoas.

“— Eu vou na farmácia”, anunciei.

O segurança me deixou passar e indicou o caminho que eu já sabia seguir, em direção ao fundo, contornando o prédio, passando a porta à direita. Embora a fila na entrada do posto de saúde estivesse cheia de pessoas, na espera da farmácia não havia ninguém.

A febre amarela é uma doença hemorrágica viral grave transmitida por mosquitos. Não há tratamento antiviral. No entanto, existe uma vacina altamente eficaz, que começou a ser indicada, em outubro do ano passado, pelo Governo de São Paulo, em três bairros da zona norte da capital: Casa Verde, Tremembé e Vila Nova Cachoeirinha. Isso aconteceu depois que cinco macacos, que viviam na região do Horto Florestal, morreram infectados com febre amarela. Aquele pode ter sido o epicentro — ou um dos epicentros — de uma doença que acabou se espalhando por todo o Estado. Em um ano, foram confirmadas 21 mortes pela doença e, nessa terça-feira, dia 16 de janeiro de 2018, Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a considerar todo o estado de São Paulo como área de risco de febre amarela.

Com esse alerta da OMS, a vacina passa a ser recomendada para viajantes internacionais que venham a São Paulo — e também para os estados das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, bem como para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Maranhão, além de partes dos estados da região Sul, Bahia e Piauí. A vacinação deve ser feita ao menos dez dias antes da viagem. A decisão da OMS de classificar a cidade de São Paulo como área de risco não quer dizer que haja perigo de contágio na capital. Como as autoridades de outros países não podem saber para qual área de São Paulo cada viajante visitará, é praxe a OMS incluir todo o estado, mesmo em áreas em que não haja foco da doença — mesmo assim, a recomendação da OMS inclui a capital paulista.

A entidade aconselha também quem vai viajar para o Estado a adotar medidas para evitar picadas de mosquitos, com o uso de repelentes, por exemplo, e a estar atento aos sintomas da doença. As primeiras manifestações da doença são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar (até dois dias), quando podem ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), manifestações hemorrágicas e cansaço intenso. A maioria dos infectados se recupera bem e adquire imunização permanente contra a febre amarela.

Em resposta, ainda nessa terça-feira, dia 16, o Governo de São Paulo anunciou que a vacinação fracionada contra a febre amarela em 54 municípios do estado será antecipada para o dia 29 de janeiro. Anteriormente, o Governo havia anunciado que a aplicação das doses seria realizada a partir do dia 3 de fevereiro. Enquanto isso, o Ministério da Saúde anunciou uma campanha de vacinação, em conjunto com os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O objetivo é vacinar 19,7 milhões de pessoas de 76 municípios e evitar a circulação e expansão do vírus.

A febre amarela tem esse nome por conta da icterícia apresentada por alguns pacientes. O vírus da febre amarela é transmitido pela picada dos mosquitos transmissores infectados. A doença não é passada de pessoa a pessoa. A vacina é a principal ferramenta de prevenção e controle da doença. Existem dois diferentes ciclos epidemiológicos de transmissão: o silvestre e o urbano. Mas a doença tem as mesmas características sob o ponto de vista etiológico, clínico, imunológico e fisiopatológico.

No ciclo silvestre, os primatas não humanos (macacos) são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus e os vetores são mosquitos com hábitos estritamente silvestres, sendo os gêneros Haemagogus e Sabethes os mais importantes na América Latina. Nesse ciclo, o homem participa como um hospedeiro acidental ao adentrar áreas de mata. No ciclo urbano, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. A pessoa apresenta os sintomas iniciais 3 a 6 dias após ter sido infectada.

A última notícia do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde data de 23 de março de 2017. Ela afirma que, de acordo com a Nota Informativa nº 26, da Secretaria de Vigilância em Saúde, os adultos e adolescentes que vivem com HIV não têm restrições para se vacinar contra a febre amarela, desde que não apresentem imunodeficiência grave.

A Nota, que estabelece recomendações sobre a vacinação contra a febre amarela em pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA), recomenda também que a administração das vacinas em pacientes sintomáticos ou com imunodeficiência grave seja adiada até que a reconstituição imune seja obtida com uso da terapia antirretroviral. Para fins de vacinação, poderá ser utilizado o último exame de contagem de CD4, independentemente da data, desde que a carga viral atual (menos de seis meses) se mantenha indetectável.

Cientistas suíços dizem que a carga viral indetectável é um fator importante no momento dessa vacinação. Eles descobriram que todas as pessoas com uma carga viral indetectável no momento da primeira vacinação contra a febre amarela continuaram a ter uma resposta protetora dez anos após a vacinação.

Os cientistas observaram dados de pacientes da África subsaariana que vivem com HIV. No momento da vacinação, 82% deles estavam tomando terapia antirretroviral, 83% suprimiram carga viral menor que 400 cópias/ml e sua contagem mediana de células CD4  de 536 células/mm³. Os pesquisadores acreditam que suas descobertas têm implicações para as estratégias de vacinação.

“Pacientes infectados pelo HIV montam uma resposta imune protetora de longa data contra a febre amarela até pelo menos dez anos, se forem vacinados enquanto estiverem em terapia antirretroviral.” Eles continuam: “Até mais dados estejam disponíveis, um único reforço após dez anos parece ser adequado para estimular a resposta da vacina no caso de uma nova viagem a uma área endêmica de febre amarela.”

Os autores recomendam que os pacientes com HIV devem ser vacinados contra a febre amarela uma vez que sua carga viral for suprimida e que eles devem receber um reforço após dez anos tratamento antirretroviral supressivo. No entanto, os pacientes que foram vacinados enquanto a carga viral era detectável deveriam ter sua resposta imune à vacina medida ou receber uma vacinação de reforço, independentemente do tempo desde a primeira vacinação contra a febre amarela.

Para pessoas sem HIV, uma dose da vacina é suficiente para garantir imunidade e proteção ao longo da vida. Efeitos secundários graves são extremamente raros. Os viajantes com contraindicações para a vacina de febre amarela — crianças com menos de nove meses de idade, mulheres grávidas ou amamentando, pessoas com hipersensibilidade grave à proteína do ovo e imunodeficiência grave — ou com mais de 60 anos devem consultar seu profissional de saúde para a avaliação cuidadosa de risco-benefício. O mesmo vale para quem vive com HIV: se você tem dúvidas sobre a vacina da febre amarela para o seu caso, converse com seu infectologista.

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