estudo
es.tu.do
sm (lat studiu) 1 Ação de estudar. 2 Trabalho ou aplicação da inteligência no sentido de aprender uma ciência ou arte. 3 Aplicação, trabalho do espírito para empreender a apreciação ou análise de certa matéria ou assunto especial. 4 Ciência ou saber adquiridos à custa desta aplicação. 5 Investigação, pesquisa acerca de determinado assunto. 6 Obra em que um autor estuda e dilucida uma questão.

Em 2016 tivemos uma notícia animadora sobre a pesquisa da cura do HIV: falava de um anticorpo “fascinante”, “impressionante” e “incrível demais para ser real” que tinha levado oito macacos à beira da cura do SIV, o vírus da imunodeficiência símia — vírus que é primo do HIV.

Naquela altura, uma equipe liderada pelo imunologista Aftab Ansari, da Emory University School of Medicine, em Atlanta, infectou oito macacos com SIV e então tratou-os com antirretrovirais. Em seguida, aplicou neles um anticorpo semelhante a um medicamento aprovado para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa, o qual se dirige ao receptor da superfície das células imunes conhecido como α4ß7. Esse receptor celular é encontrado na superfície das células brancas CD4, o alvo favorito do HIV.

Mais de 9 meses depois dos tratamentos antirretrovirais e com anticorpos serem interrompidos, todos os oito animais tinham níveis baixos ou indetectáveis de SIV no sangue. Os sete animais infectados com SIV que receberam um anticorpo placebo, tiveram recuperação de níveis elevados do vírus, dentro de 2 semanas a partir da interrupção do tratamento antirretroviral. “Os resultados nos surpreenderam, eles são muito impressionantes”, disse o coautor do estudo Anthony Fauci, imunologista que dirige o U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), em Bethesda, Maryland. O estudo em macacos foi tão animador que seguiu-se para os testes em humaos.

Macaco infectado com SIV mostra ter menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).

No estudo em humanos, Fauci e colaboradores recrutaram 18 pessoas, todas sob tratamento antirretroviral e com e níveis indetectáveis ​​de HIV no sangue, durante pelo menos dois anos.

Ao longo de mais de 30 semanas, os participantes receberam nove infusões de Vedolizumab, um anticorpo monoclonal um pouco diferente do anticorpo daquele administrado nos macacos, mas que também se liga à α4β7 e está no mercado para tratar a doença de Crohn e colite ulcerativa.

Se as pessoas reagissem como macacos ao tratamento com anticorpos, assim que o Vedolizumab bloqueasse a α4β7, os pacientes poderiam interromper os medicamentos antirretrovirais e o HIV que inevitavelmente começaria a se multiplicar, mas com dificuldades em infectar células e criar novos vírus. Entretanto, não foi esse o caso.

Fauci explicou que, em duas das 18 pessoas, o HIV voltou assim que pararam os antirretrovirais. Surpresos com o resultado desanimador, uma outra equipe de pesquisadores, não envolvidos com o estudo original com macacos, tentou repetir o estudo em outro grupo de primatas, também sem sucesso. Tudo isso fez crer que resultados originais nos macacos de 2016, segundo Fauci, “podem ser um acaso”.

Com isso, o Vedolizumab se junta a uma longa lista de outras estratégias potenciais de cura para o HIV que geraram resultados iniciais empolgantes, mas, uma vez colocado em um teste do mundo real, não deram certo.

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A Abivax, uma empresa de biotecnologia que pesquisa o sistema imunológico para desenvolver uma cura funcional para o HIV e outros tratamentos para doenças inflamatórias, autoimunes e câncer, anunciou agora, em 3 de julho de 2018, os resultados da segunda coorte do estudo ABX464-005, em fase 2A, sobre infecção pelo HIV.

O estudo ABX464-005 visa estudar os efeitos do ABX464 no DNA do HIV, bem como seu reservatório viral no organismo humano, no sangue e no tecido retal em pacientes com HIV e carga viral indetectável. O estudo foi realizado no Hospital Universitário Germans Trias i Pujol em Badalona, Barcelona, ​​Espanha. Nessa primeira coorte, nove pacientes foram tratados com 150mg de ABX464 por dia ao longo de 28 dias. Oito dos nove pacientes mostraram uma diminuição do DNA do HIV entre o dia 0 e o 28º dia nas células T CD4 do sangue periférico (até 52%).

Na segunda coorte, uma dose de 50mg por dia foi administrada ao longo de três meses em doze pacientes, a fim de avaliar o potencial desta dosagem em reduzir o reservatório de HIV no sangue e nos tecidos. A partir dos dados disponíveis da 12ª semana, a qual oito pacientes completaram a duração total do estudo nesta fase, quatro pacientes mostraram uma redução no DNA total do HIV nas células T CD4 do sangue periférico, variando de 2% a 85%, enquanto os outros quatro pacientes tiveram um aumento no DNA do HIV, de 5% a 36%.

Também foram coletados dados a partir de biópsias do tecido retal. Especificamente, nas células T CD45 do tecido retal, quatro pacientes tiveram uma redução no DNA do HIV, de 16% para 71%, e quatro pacientes tiveram um aumento no DNA do HIV, de 14% para 123%. Dados completos desta coorte serão submetidos às próximas conferências científicas.

“Estas descobertas mostram, pela primeira vez, que o ABX464 tem a capacidade de reduzir o DNA do HIV em reservatórios de sangue e tecido retal”, disse o Dr. Jean-Marc Steens, Diretor Médico da ABIVAX. “A duração mais longa de 12 semanas de tratamento com ABX464 foi segura e geralmente bem tolerada e suporta a dosagem prolongada.”

“Os dados da segunda coorte de pacientes no estudo ABX464-005 são importantes e encorajadores”, disse Ian McGowan, professor de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh e presidente do Conselho Científico da ABIVAX. “Os resultados do estudo demonstram que alguns pacientes infectados pelo HIV que receberam 50mg de ABX464 tiveram uma queda relevante no reservatório de DNA do HIV. Estudos futuros identificarão as características dos pacientes com maior probabilidade de se beneficiar do ABX464 em diferentes regimes posológicos, isoladamente ou em combinação com outras estratégias de cura do HIV.”

Hartmut Ehrlich, CEO da ABIVAX, comentou: “É gratificante ver a justificativa científica para a ABX464 se traduzir nesses dados, que apoiam os planos da Empresa para estudos da Fase 2b, trazendo-nos um passo para o avanço da terapia do HIV”. Espera-se que mais dados estejam disponíveis em meados do próximo semestre.

A ABX464 é uma molécula desenvolvida para induzir a cura funcional em pacientes com HIV. Ela inibe a replicação do HIV através de um mecanismo de ação inteiramente novo, possivelmente capaz de reduzir ou eliminar os reservatórios virais e, assim, potencialmente, proporcionar uma redução duradoura na carga viral em pacientes com HIV.

A ABX464 inibe a biogênese do RNA viral, necessário para a replicação do HIV — um mecanismo de ação ainda não explorado. Ao ligar-se em um ponto do vírus que codifica três proteínas estruturais do vírus, a ABX464 inibe a atividade de Rev, uma proteína chave do HIV, e, assim, inibe a replicação do HIV.

O mecanismo que induz ao controle de longo prazo do vírus peloa ABX464 ainda está sendo estudado. A hipótese atual é que a indução feita pela ABX464 gera pequenos fragmentos aberrantes de RNA do HIV, que são então traduzidos em pequenos peptídeos. Esses peptídeos, uma vez depositados na superfície externa das células imunes, “marcam” essas células com o antígeno do HIV e, assim, desencadeiam uma resposta imune que pode resultar na eliminação dessas células.

Em São Paulo, homens que fazem sexo com homens (HSH), com 18 anos de idade ou mais, podem agora participar do estudo A Hora é Agora, para avaliar a logística de distribuição do autoteste para HIV.

O autoteste é um novo teste de triagem para HIV. Esse teste é feito e interpretado de maneira simples e rápida, pela própria pessoa, na hora e lugar em que desejar, sem a necessidade de um laboratório e nem da presença um profissional da saúde. Um dos objetivos da implementação do autoteste é ampliar significativamente a cobertura de testagem para o HIV, principalmente em populações que não têm acesso à testagem convencional.

O autoteste detecta anticorpos contra o HIV presentes em secreções da boca, o chamado fluido oral. Esses anticorpos geralmente passam a ser detectados entre 25 a 30 dias após a infecção pelo HIV, a chamada janela imunológica — isso significa que, antes deste período, algumas pessoas podem estar infectadas pelo HIV e ter o resultado do autoteste não reagente ou negativo. O médico infectologista Ricardo Vasconcelos explica que “a bula do autoteste indica uma janela imunológica de 30 dias, com raros casos de alguns indivíduos que podem levar até 90 dias para positivar o autoteste”. Depois desse período, o autoteste é bastante eficiente na identificação de pessoas que vivem com HIV. para terem anticorpos detectáveis.

Nesse estudo, serão distribuídos kits de autotestagem para homens que fazem sexo com outros homens, residentes de São Paulo e com 18 anos ou mais. Para participar do estudo, acesse www.ahoraeagora.org e responda a algumas perguntas. Após finalizar o preenchimento do questionário, você deverá escolher o local de retirada do seu kit, que já inclui o autoteste. Após a retirada do kit, você poderá então realizar o autoteste quando e onde preferir. Depois de realizar o teste, você deverá informar a conclusão no site e, assim, receber as orientações correspondentes a cada um dos possíveis resultados — positivo, negativo ou inconclusivo.

Quero fazer o autoteste para HIV!

Se o resultado do seu autoteste for não reagente ou negativo, a sua participação no estudo será considerada encerrada. Caso seu resultado seja reagente ou positivo no autoteste, você deverá comparecer a um dos serviços de saúde indicados para realizar um teste confirmatório, o qual é feito com algumas gotas de sangue coletados por punção no seu dedo. Somente se o teste confirmatório resultar reagente ou positivo estará confirmada a infecção pelo HIV e, nesse caso, a indicação de acompanhamento clínico adequado, oferecido gratuitamente pelo SUS.

Nessa pesquisa está garantido o seu direito de confidencialidade. As informações que você vier a fornecer aos pesquisadores serão analisadas em conjunto com as de outros pacientes, não sendo divulgada a identificação de nenhum deles. Você ainda pode recusar-se, a qualquer momento, a participar do estudo, sem prejuízo. A participação do estudo não inclui qualquer compensação financeira.

Embora as evidências mostrem uma redução global nos casos de HIV e aids em muitos países, a epidemia entre homens que fazem sexo com homens (HSH) parece estar se expandindo — em países de baixa, média e alta renda. De acordo com os autores de um estudo publicado em maio de 2018 no jornal Medicine e que, mais recentemente, em 6 de junho, virou notícia na Folha de S. Paulo, os “HSH correm alto risco de infecção por HIV devido à vulnerabilidades estruturais, biológicas e comportamentais, que agem em conjunto, aumentando as chances de infecção”.

Nesse estudo, a prevalência do HIV aumentou além das expectativas em relação aos resultados de uma pesquisa anterior, feita em 2009. Nesse estudo de 2009, o Ministério da Saúde do Brasil realizou a primeira Pesquisa Nacional sobre Vigilância Biológica e Comportamental do HIV (BBSS) entre HSH, trabalhadoras do sexo (FSWs) e usuários de drogas (DU) para o HIV. Os resultados dessa época mostraram prevalência de HIV de 4,9% entre DU, 5,8% entre FSW, e 12,1% entre HSH. Em comparação com a prevalência do HIV na população em geral (estimada em 0,37%) a prevalência do HIV entre DU foi 13 vezes maior, entre o FSW foi 16 vezes maior e entre HSH foi 33 vezes maior. Em 2016, o 2º BBSS Nacional foi realizado com HSH, conforme relatamos aqui. FSW e, pela primeira vez, mulheres transexuais foram incluídas neste BBSS e reportadas nesta revista

Agora, a pesquisa atual se baseou na entrevista com 4.176 homens de 11 capitais e Brasília. Destes, 3.958 aceitaram fazer o teste de HIV, com 18,4% de resultados positivos. A pesquisa anterior, de 2009, com a mesma metodologia, encontrou prevalência de 12,1%. “É um número altíssimo. São vidas e vidas em risco”, diz Lígia Kerr, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e que coordenou ambos os trabalhos. No grupo entrevistado, 83,1% se declaram gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% outros. Do total, 75% transam só com homens. Foram feitos dois testes do HIV, a maioria em unidades de saúde. Enquanto isso, segundo o Ministério da Saúde, a prevalência do HIV na população geral é de 0,4%.

Outra preocupante curiosidade é que metade dos participantes foram testados pela primeira vez na vida. O estudo utilizou de uma metodologia americana que recruta pessoas-chaves, chamadas de “sementes”, para serem entrevistadas e testadas duas vezes. Essas, por sua vez, indicam outras pessoas com o mesmo perfil e assim por diante. Cinco a seis sementes foram inicialmente selecionadas para iniciar o recrutamento e os cupons e entrevistas foram gerenciados on-line. O teste rápido no local foi usado para o rastreio do HIV e confirmado por um segundo teste. O tamanho da amostra foi de 350 pessoas por cidade. Os dados de todas as 12 cidades foram fundidos e analisados ​​com as ferramentas de análise de dados de pesquisa.

Perfil da amostra: homens que fazem sexo com homens

Menos de 25 anos
58%
Mais de 25 anos
42%
Ensino médio completo ou superior incompleto
59%
Ensino superior completo
11%
Classes A e B
41%
Classe C
43%
Classes D e E
16%
Solteiros
83%
Casados
4%
União estável com homem
10%
União estável com mulher
1%

Ainda segundo o estudo, na América Latina, entre 2000 e 2015, o número de novas infecções por HIV entre adultos aumentou lentamente. De 2010 a 2015, o Brasil passou a fazer parte dos países da América Latina e Caribe onde a infecção por HIV entre adultos aumentou, muito embora nosso país tenha um histórico de programa exemplar de prevenção ao HIV. O País responde por mais de 41% do total de novas infecções entre Argentina, República Bolivariana da Venezuela, Colômbia, Cuba, Guatemala, México e Peru.

“O Brasil apresenta grandes desigualdades socioeconômicas, e a epidemia da aids espelha essa desigualdade”, diz o estudo. De 2006 a 2015, as taxas de HIV nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, as mais desenvolvidas, apresentaram redução de 7,4% e 23,4%, respectivamente. Apesar da redução geral nessas regiões, durante este mesmo período Porto Alegre relatou uma uma elevada alta de casos de aids: 74 a cada 100.000 habitantes — o dobro da taxa do resto do estado e quatro vezes a média brasileira. Por outro lado, as regiões Norte e Nordeste, as mais pobres do país, mostraram um aumento linear da aids no mesmo período: de 14,9 para 24 casos por 100.000 habitantes na região Norte e de 11,2 para 15,3 casos por 100.000 habitantes no Nordeste, representando um crescimento de 61,1% e 36,6%, respectivamente. Dois estados dessas regiões, Pará e Maranhão, apresentaram um aumento de 91,5% e 82,9% na incidência de casos de aids, respectivamente.

Taxa de infecção por HIV por capital

São Paulo
25%
Recife
21%
Curitiba
20%
Belém
19%
Rio de Janeiro
15%
Manaus
15%
Belo Horizonte
14%
Porto Alegre
10%
Fortaleza
10%
Campo Grande
9%
Salvador
8%
Brasília
6%

Nos últimos 10 anos, de fato, houve um aumento nos novos casos de aids notificados entre os homens, especialmente aqueles com idades entre 15 e 19 anos, 20 a 24 e 60 anos de idade ou mais. Entre os jovens, de 2006 a 2015, a taxa foi alarmante: quase triplicou entre os jovens de 15 a 19 anos, de 2,4 a 6,7 ​​casos por 100.000 habitantes, e dobrou entre os jovens de 20 e 24 anos, de 15,9 a 33,1 casos por 100.000 habitantes. No mesmo período de 10 anos, os casos de aids entre HSH aumentaram de 35,3% para 46,2%.

As descobertas desse estudo representam um sério desafio para os formuladores de políticas de saúde pública: “como devemos abordar a crescente epidemia entre HSH no Brasil?”, perguntam-se os autores do estudo. “Nossos resultados defendem um esforço de prevenção revigorado, combinando abordagens inovadoras, tais como engajar as comunidades no desenvolvimento de soluções e envolvendo as próprias comunidades na pesquisa, publicação e defesa de direitos”.

Para Ligia Kerr, vários fatores explicam o aumento da prevalência do HIV entre homens que transam com homens, um fenômeno que também visto em países da Europa e nos Estados Unidos. “Já se fala em segunda onda de aids.”

Um regime experimental de vacinas, baseado na estrutura de um local vulnerável no HIV, induziu, em animais — camundongos, porquinhos-da-índia e macacos –, anticorpos que neutralizaram dezenas de cepas de HIV de todo o mundo. Os resultados foram relatados  no dia 4 de junho na revista Nature, por pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos Estados Unidos, parte do National Institutes of Health (NIH), e seus colegas.

Peter D. Kwong, Ph.D., chefe da Seção de Biologia Estrutural do Centro de Pesquisas de Vacinas do NIAID, e o Dr. Mascola, diretor deste Centro, lideraram o estudo. “Os cientistas do NIH usaram seu conhecimento detalhado da estrutura do HIV para encontrar um local incomum de vulnerabilidade ao vírus e projetar uma vacina nova e potencialmente poderosa”, disse Anthony S. Fauci, diretor do NIAID. “Este elegante estudo é potencialmente importante, mais um passo adiante na busca contínua para desenvolver uma vacina segura e eficaz contra o HIV.”

O estudo se utiliza de uma das duas abordagens que o NIAID está buscando para desenvolver uma vacina contra o HIV. Em uma abordagem, os cientistas primeiro identificam anticorpos potentes contra o HIV que podem neutralizar muitas cepas do vírus e, então, tentam extrair esses anticorpos com uma vacina baseada na estrutura da proteína de superfície do HIV onde os anticorpos se ligam. Em outras palavras, os cientistas começam com a parte mais promissora da resposta imune e trabalham para desenvolver uma vacina que a induza. Este método foi usado para projetar a vacina descrita neste estudo.

A outra abordagem, empírica para o desenvolvimento de vacinas contra o HIV, começa avaliando, em pessoas através de estudos clínicos, as vacinas candidatas mais encorajadoras em termos de eficácia. Em seguida, os cientistas tentam basear-se nos resultados de estudos bem-sucedidos, examinando, por exemplo, amostras de sangue e outras amostras clínicas dos participantes do estudo que receberam a vacina para identificar as partes mais promissoras da resposta imune. Posteriormente, os pesquisadores usam essa informação para melhorar as abordagens de vacinação para estudos futuros. Este método foi utilizado para desenvolver o regime de vacinação contra o HIV testado no estudo clínico RV144 e os regimes de vacina contra o HIV atualmente em estudo no HVTN 702 e Imbokodo.

Nos últimos anos, pesquisadores descobriram muitos anticorpos naturais que podem impedir que múltiplas cepas de HIV infectem células humanas, em laboratório. Cerca de metade das pessoas que vivem com o HIV produzem os chamados anticorpos “amplamente neutralizantes”, mas geralmente apenas após vários anos de infecção — muito tempo depois de o vírus já ter se estabelecido no organismo. Os cientistas identificaram e caracterizaram os locais no HIV onde se conecta cada anticorpo amplamente neutralizante. Agora, laboratórios em todo o mundo estão desenvolvendo candidatas à vacina contra o HIV com base na estrutura desses locais, com o objetivo de persuadir o sistema imunológico de pessoas soronegativas a produzir anticorpos protetores após a vacinação.

Este diagrama ilustra a localização do peptídeo de fusão (em vermelho) no pico do HIV (em verde), que se projeta para fora da membrana viral (em cinza). O diagrama também mostra como um anticorpo amplamente neutralizante (em amarelo) se liga ao peptídeo de fusão.

A  vacina experimental descrita nesse estudo é baseada em um local do HIV chamado peptídeo de fusão do HIV, identificado por cientistas do NIAID em 2016. O peptídeo de fusão, uma pequena sequência de aminoácidos, faz parte da superfície do HIV a qual o vírus usa para entrar nas células humanas. De acordo com os cientistas, o local do peptídeo de fusão é particularmente promissor para uso como vacina porque sua estrutura é a mesma na maioria das cepas do HIV e, também, porque o sistema imunológico claramente o “enxerga” e monta uma forte resposta imunológica contra ele. O peptídeo de fusão não possui açúcares que obscurecem a visão do sistema imunológico.

Para fazer a vacina, os pesquisadores projetaram muitos imunogénio diferentes — proteínas projetadas para ativar uma resposta imune. Estes foram concebidos utilizando a estrutura conhecida do peptídeos de fusão. Os cientistas primeiro avaliaram os imunogénio utilizando uma coleção de anticorpos que têm como alvo o local do peptídeos de fusão e, depois, testaram em ratinhos quais os imunogénio provocaram mais eficazmente anticorpos neutralizantes. O melhor imunogénio consistia em oito aminoácidos do peptídeo de fusão, ligados a um transportador que provocava uma forte resposta imunitária. Para melhorar seus resultados, os cientistas associaram esse imunogénio a uma réplica do pico do HIV.

Então, os pesquisadores diferentes combinações de injeções da proteína em camundongos e analisaram os anticorpos gerados pelos esquemas vacinais. Os anticorpos ligados ao peptídeo de fusão do HIV e neutralizaram até 31% dos vírus de um painel globalmente representativo de 208 cepas de HIV. Com base em suas análises, os cientistas ajustaram o regime vacinal e testaram-no em porquinhos-da-índia e em macacos. Esses testes também produziram anticorpos que neutralizaram uma fração substancial de cepas de HIV, fornecendo evidências iniciais de que o regime de vacinas pode funcionar em várias espécies.

Agora, os cientistas estão trabalhando para melhorar o regime vacinal, incluindo torná-lo mais potente e capaz de alcançar resultados mais consistentes com menos injeções. Os pesquisadores também estão isolando mais anticorpos amplamente neutralizantes gerados pela vacina em macacos e vão avaliar esses anticorpos por sua capacidade de proteger os animais de uma versão símia do HIV. Os cientistas do NIAID usarão suas descobertas para otimizar a vacina e fabricarão uma versão adequada para testes de segurança em voluntários humanos, em um estudo clínico cuidadosamente planejado e monitorado. Os testes preliminares em humanos, utilizando este novo regime de vacinação, está previsto para começar no segundo semestre de 2019.

Cientistas já sabiam que a infecção pelo HIV causa redução do volume e da espessura cortical em algumas regiões do cérebro, mas não sabiam claramente quando essa redução tem início e qual é o papel da terapia antirretroviral na interrupção ou desaceleração dessa redução.

Para responder a essas perguntas, pesquisadores do Montreal Neurological Institute and Hospital da Universidade McGill, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Washington St. Louis e Universidade de Yale, analisaram dados de ressonância magnética de 65 pacientes da Universidade da Califórnia em São Francisco, que haviam adquirido a infecção pelo HIV menos um ano antes do estudo. Eles compararam os dados desta ressonância magnética com a de 19 participantes soronegativos e 16 pacientes soropositivos que haviam adquirido a infecção pelo HIV há pelo menos três anos. O estudo foi publicado em 24 de abril de 2018 no jornal Clinical Infectious Diseases.

Os pesquisadores descobriram que, quanto maior a duração da infecção não tratada, maior a perda de volume e o afinamento cortical em várias regiões do cérebro. Uma vez iniciado o tratamento com a terapia antirretroviral, as alterações de volume nestas regiões cessaram e a espessura cortical aumentou ligeiramente no lobo frontal e temporal.

O lobo frontal está localizado na parte da frente do cérebro, atrás da testa, e desempenha um papel importante no movimento voluntário, como caminhar. A função do lobo frontal também envolve a capacidade de projetar consequências futuras resultantes das ações atuais, a escolha entre ações boas ou más, melhores ou piores, e a anulação e supressão de respostas socialmente inaceitáveis. Por sua vez, os lobos temporais estão na região acima das orelhas, com a função de processar os estímulos auditivos e visuais, por associação, permitindo ao indivíduo reconhecer a língua e som daquilo que está ouvindo. O lobo temporal também é responsável pela formação da memória de longo prazo.

A fileira de cima mostra atrofia cerebral, enquanto a fileira de baixo mostra o afinamento cortical no cérebro de uma pessoa com HIV.

Com a recuperação dos lobos frontal e temporais observada no estudo, assim que os pacientes iniciaram o tratamento antirretroviral, os autores concluem que é importante reforçar a necessidade da detecção precoce do HIV, fazendo o teste de HIV com frequência para identificar qualquer infecção em seu início, e o tratamento imediato com antirretrovirais logo após o diagnóstico positivo, a fim de evitar danos neurológicos.

“Houve poucos estudos longitudinais de neuroimagem estrutural na infecção precoce pelo HIV e nenhum deles usou métodos de análise tão sensíveis em uma amostra relativamente grande”, diz Ryan Sanford, candidato a PhD no Montreal Neurological Institute and Hospital no laboratório de Louis Collins e principal autor do estudo. “Essas descobertas neurológicas reforçam o início precoce do tratamento e enviam uma mensagem esperançosa para as pessoas que vivem com o HIV de que iniciar e aderir à terapia antirretroviral pode proteger o cérebro de novas lesões.”

A infecção pelo HIV pode levar à perda de memória e, ao longo da vida, até à demência, além de problemas de equilíbrio e visão, entre outros sintomas, mas o diagnóstico precoce e a terapia antirretroviral podem prevenir esses sintomas antes que eles ocorram ou interromper a sua progressão em pacientes que não receberam tratamento rápido o suficiente. “A lesão ocorre principalmente durante uma infecção não tratada”, explica Collins.

Cientistas do Centro de Pesquisa do Câncer no Fred Hutchinson conseguiram reduzir o tamanho do reservatório de HIV, depois de transplantar células-tronco sanguíneas editadas geneticamente para resistir à infecção pelo HIV. O estudo foi publicado na revista PLOS Pathogens. Presume-se que reduzir ou eliminar os reservatórios persistentes seja um passo fundamental para curar o HIV — ou, pelo menos, para usar um termo emprestado do câncer, conduzir o vírus à remissão, para que os medicamentos antirretrovirais diários não sejam mais necessários.

Dr. Chris Peterson

“O número de células infectadas de forma latente, que chamamos de reservatório viral, foi reduzido”, disseram o Dr. Chris Peterson, principal cientista autor do estudo e parte da equipe do laboratório de transplante de células-tronco e, também, Dr. Hans-Peter Kiem, especialista em terapia genética e autor sênior do estudo. “Pegamos amostras de diferentes tecidos e medimos o RNA e o DNA virais. Ambos se mostraram significativamente menores em animais transplantados em relação aos controles”.

4% do total de glóbulos brancos do sangue foram editados, o que ainda não foi o suficiente para induzir a remissão, segundo Peterson. O próximo passo será ajustar as técnicas de edição de modo que mais células sejam editadas e, depois, se multipliquem, aumentando a porcentagem e indo mais fundo no reservatório.

Acredita-se que encolher o reservatório seja fundamental, porque o HIV se integra ao DNA de algumas das células mais duradouras do corpo, aquelas que vivem mais tempo, onde este entra em estado de dormência, podendo acordar a qualquer momento de interrupção do tratamento antirretroviral e, assim, produzir novos vírus. Inicialmente, os cientistas pensavam que os coquetéis de medicamentos antirretrovirais, que em 1996 transformaram o HIV, antes uma sentença de morte, em uma doença crônica, curariam o HIV se fossem tomados por tempo suficiente. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Sozinhos, os antirretrovirais não são capazes de limpar os reservatórios virais. Ao interromper a medicação diária, o HIV pode voltar em menos de duas semanas.

Outras equipes de pesquisa vêm publicando resultados que mostram algumas reduções de reservatórios em estudos com animais: o Dr. Louis Picker e seus colegas do Instituto de Vacinas e Terapia Genética da Oregon Health & Science University, usando uma vacina; Dr. Dan Barouch e sua equipe no Centro de Virologia e Pesquisa de Vacinas no Beth Israel Deaconess Medical Center-Harvard Medical School, usando uma droga que “chuta” as células dormentes para fora do reservatório com um poderoso anticorpo; e o Dr. Mirko Paiardini e seus colegas da Emory University, que reduziram a inflamação como um meio de permitir que o sistema imunológico combata melhor o vírus.

Peterson usou uma técnica de edição genética apelidada de “dedo de zinco” ou “nuclease do dedo de zinco” para interromper um receptor usado como um portal pela maioria das cepas de HIV (neste caso, assim como em outros estudos com animais, um híbrido de HIV e sua versão símia: o SHIV). As células-tronco modificadas foram então devolvidas para repovoar o sistema imunológico, no que é conhecido como um transplante autólogo, usando as células-tronco do próprio paciente em vez de um doador.

No passado, Peterson havia mostrado que as células editadas por transplante autólogo eram seguras e se multiplicariam em animais saudáveis ​​e não infectados, uma descoberta pela qual ele foi agraciado pela International AIDS Society e pela Agência Nacional Francesa para Pesquisa em Aids com o Prêmio Jovem Pesquisador, em 2015.

O trabalho de Peterson faz parte do projeto defeatHIV sediado no Fred Hutchinson, um consórcio liderado por Kiem e pelo virologista Keith Jerome, financiado, em 2011 e 2016, pelos Institutos Nacionais de Saúde americano. Na primeira rodada de financiamento, o  defeatHIV se concentrou no transplante autólogo usando células-tronco geneticamente modificadas como uma maneira mais segura e escalável de curar o HIV, com base no único caso conhecido de cura pelo HIV até hoje: Timothy Ray Brown — com quem eu conversei durante um congresso em Lisboa.

Timothy Ray Brown
Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown foi por muito tempo conhecido apenas como o “Paciente de Berlim”, o único homem no mundo até hoje considerado curado do vírus da aids.

Timothy foi diagnosticado positivo para o HIV em 1995, um ano antes do surgimento do coquetel antirretroviral, quando ainda vivia em Berlim, na Alemanha. Em 2006, foi diagnosticado com outra doença, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda, enquanto ainda morava em Berlim. Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Timothy desenvolveu pneumonia e teve de interromper a quimio em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração.

Apesar de tudo isso, Timothy sobreviveu, e o câncer parecia estar em remissão — pelo menos, até 2007, quando ele foi novamente diagnosticado com leucemia. As novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas e um transplante de medula óssea se mostrou a última e viável opção. O Dr. Gero Hütter teve então uma ideia inovadora: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador de uma mutação genética chamada CCR5delta32, comum em apenas 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer a infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue entrar nas células, e as pessoas com essa mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse essa característica não só curasse a leucemia de Timothy, mas também o tornasse imune ao HIV. Por sorte, esse doador foi encontrado. E, três meses depois do procedimento, já não havia mais qualquer sinal do vírus no organismo do Paciente de Berlim.

Receptor CCR5

Porém, o mesmo não poderia ser dito sobre sua leucemia, que retornou em 2008 — depois de meses de extensos testes para que pudessem confirmar a veracidade de sua cura para o HIV. Nestes testes, examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e “qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido”, contou Brown, mais tarde naquele mesmo dia. No meio de tantos exames, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu a visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Quando as complicações foram controladas, o mesmo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. “Graças a Deus, eu tive um doador muito generoso”, contou Brown, que foi curado da leucemia e, até hoje, nove anos depois do procedimento, continua sem qualquer sinal do HIV em seu organismo. Timothy viria a aprender só depois, em uma conferência sobre terapia genética em St. Louis, na Washington University, que sua chance de sobrevivência beirou os 5%.

Os pesquisadores têm certeza de que as células resistentes ao HIV do doador desempenharam um papel na cura de Timothy. Em pelo menos outros dois casos, pessoas com câncer e HIV que se submeteram a transplantes sem doadores resistentes ao HIV recaíram depois de ficar sem HIV por meses. Entretanto, eles têm menos certeza sobre o papel desempenhado pelo resto do processo de transplante. Por fim, restam dúvidas sobre o “condicionamento” intensivo pré-transplante de Timothy, um regime de quimioterapia e radiação que destrói o sistema imunológico para dar espaço às células transplantadas, e a doença do enxerto contra o hospedeiro que ele desenvolveu após o segundo transplante.

“Mesmo para um paciente com câncer, ele passou por um tratamento extraordinariamente intensivo, com dois transplantes e a quimioterapia”, disse Peterson. “Ele passou por muita coisa.” O objetivo do defeatHIV é não colocar ninguém que seja saudável através de um tratamento tão duro, algo que o próprio Timothy reconhece como impossível.

Embora seja necessário algum condicionamento para criar espaço para o crescimento de novas células-tronco, Peterson está usando para isso uma maneira muito menos agressiva. Além disso, o transplante autólogo evita a doença potencialmente letal do enxerto contra o hospedeiro, que pode surgir quando um sistema imunológico do doador vê e ataca seu novo hospedeiro como sendo estrangeiro.

Por outro lado, diminuir esse risco letal pode representar diminuição nas chances de sucesso na cura do HIV. Afinal, sabe-se que se sabe que, no caso da leucemia, durante a doença do enxerto contra o hospedeiro as células do sistema imunológico do doador atacam e matam células de leucemia não atacadas pela quimioterapia ou pela radiação. Por essa razão, Peterson e outros pesquisadores acreditam que um segundo passo, para além de tornar as células-tronco resistentes ao HIV, pode ser necessário.

Próximos passos

Em um estudo publicado em dezembro, também no PLOS Pathogens, Peterson e colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles modificaram células-tronco adicionando um receptor de antígeno quimérico, ou CAR, programado para matar células infectadas pelo HIV, num processo semelhante a um tipo de terapia genética que está sendo testada contra o câncer.

A maioria das terapias contra o câncer ainda experimentais reprograma geneticamente as células T de um paciente. Os pesquisadores da cura do HIV no Fred Hutchinson estão trabalhando para reprogramar as células-tronco que dão origem às células T.

Por que células-tronco? “Uma breve longa história: elas vão persistir durante a vida do indivíduo”, explicou Peterson. No estudo publicado em dezembro, os pesquisadores notaram que as células-tronco pareciam produzir células T anti-HIV sempre que necessário. “O interessante é que podemos ver que as células CAR vêm e vão enquanto o vírus vem e vai”, disse ele. “Quando colocamos os animais em terapia antirretroviral, as células CAR diminuem. Quando os tiramos, elas voltam. Elas agem como sentinelas, indo dormir e acordando de volta sempre que necessário.”

Idealmente, o tratamento combinaria as modificações do gene CCR5 e células CAR. “Acreditamos que, ao permitir que uma célula editada sem CCR5 e resistente a infecções  procure células infectadas usando uma molécula CAR, podemos melhorar ainda mais a capacidade de reduzir ou eliminar reservatórios”, disse Peterson. “Seria uma abordagem mais ativa do que passiva”.

Peterson e seus colegas, juntamente com colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, continuam a aperfeiçoar técnicas para aumentar a proporção de células editadas por genes, bem como planejam um estudo combinando sobre mutação protetora de CCR5 com células CAR.

Enquanto isso, o City of Hope Medical Center na Califórnia e a Sangamo Therapeutics, abriram um pequeno estudo clínico em humanos, testando um transplante autólogo de CCR5, que é semelhante aos estudos em animais de Peterson, mas usando um regime de condicionamento diferente. “Estamos entusiasmados para ver onde isso vai dar”, disse Peterson.

[dropcap]P[/dropcap]ensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

[dropcap]N[/dropcap]enhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

[dropcap]F[/dropcap]ui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

[dropcap]E[/dropcap]u tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

[dropcap]E[/dropcap]m trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

[dropcap]E[/dropcap]u sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”