espiritualidade
es.pi.ri.tu.a.li.da.de
sf (lat spiritualitate) Qualidade do que é espiritual.

espiritual
es.pi.ri.tu.al
adj m+f (lat spirituale) 1 Relativo ao espírito. 2 Incorpóreo. 3 Alegórico. 4 Místico. 5 De­voto: Vida espiritual. 6 Teol. Do foro eclesiástico (opõe-se a temporal). Antôn (acepções 1 e 2): material.

[dropcap]P[/dropcap]ensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

[dropcap]N[/dropcap]enhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

[dropcap]F[/dropcap]ui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

[dropcap]E[/dropcap]u tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

[dropcap]E[/dropcap]m trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

[dropcap]E[/dropcap]u sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

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Atlantic

Religião é saudável. Pelo menos, é isso que uma série de estudos têm sugerido: frequentar igrejas e outras práticas religiosas estão associadas à taxas mais baixas de mortalidade, junto com outros comportamentos saudáveis, como não fumar ou beber.

Um novo estudo, publicado esta semana no Journal of General Internal Medicine, leva estas conclusões um passo adiante: por mais de 17 anos, pesquisadores acompanharam homens e mulheres que vivem com HIV e que já estavam em estágio intermediário da doença quando o estudo começou. Eles descobriram que as pessoas que se envolveram em práticas e pensamentos espirituais tiveram uma maior taxa de sobrevivência do que as pessoas que não o fizeram — de duas a quatro vezes maior.

Entre outras coisas, os pesquisadores perguntaram aos participantes se eles rezavam, meditavam ou participavam de cultos religiosos; se eram gratos a Deus pelo que tinham; se tinham superado sentimentos de “culpa espiritual”, acreditando que Deus iria perdoá-los por seus erros. O estudo deixa em aberto uma série de questões, mas os resultados são provocantes. Eles sugerem que a forma como as pessoas pensam sobre o significado de suas vidas e seu relacionamento com Deus pode ter um efeito positivo sobre a sua saúde, mesmo quando estão vivendo com uma doença crônica e progressiva.

No final dos anos 90, o medicamento usado para tratar pacientes soropositivos melhorou significativamente, com a introdução de um novo “coquetel” de medicamentos utilizados para interromper o desenvolvimento da doença. Isso abriu o caminho para novas pesquisas: pouco depois deste novo tipo de tratamento antirretroviral tornar-se disponível, Gail Ironson, professora de psicologia na Universidade de Miami, recrutou pacientes para um estudo longitudinal sobre o HIV, e mais tarde foi acompanhada por Heidemarie Kremer, uma ex-ativista e pesquisadora da Universidade Internacional da Flórida. A cada seis meses, durante a primeira metade do estudo, os participantes respondiam à perguntas, escreviam ensaios e participavam de entrevistas. A maioria deles fazia uso da medicação quando o estudo começou e esse número subiu enquanto o estudo prosseguiu. Ironson disse que ela e sua equipe atentaram para este tipo de variação, juntamente com outros fatores, como a demografia e uso de drogas.

“Ela se sentiu escolhida por Deus, acreditando ter contraído o HIV para ajudar os outros.”

Os pesquisadores procuraram por sinais qualitativos dentro do que os participantes pensavam e agiam em relação à religião ou espiritualidade — menções sobre Deus ou orações, por exemplo. Um paciente “falou em voltar para a igreja para ajudar outras pessoas que tinham HIV que não revelavam sua sorologia”, disse Ironson. “Ela se sentiu escolhida por Deus e encontrou sentido no HIV, acreditando ter contraído o HIV para ajudar os outros.” Outro disse que se sentia “ter contraído o HIV para que Deus pudesse levá-lo a prestar mais atenção e mudar seu estilo de vida”. Estes são exemplos do que Ironson chamou de “reformulação espiritual positiva” — pessoas encontram uma maneira de pensar sobre a sua situação de forma mais positiva, usando a linguagem da espiritualidade. Cerca de um quinto das pessoas no estudo pareciam usar esta técnica e a taxa de sobrevida entre essas pessoas foi cerca de quatro vezes maior do que os outros participantes. Esta foi apenas uma dentre as 17 formas diferentes de espiritualidade e religiosidade que os pesquisadores observaram.

Uma vez que este é um estudo qualitativo, muitas interpretações estavam envolvidas na obtenção dos resultados, como ouvir certas frases e codificá-las de uma determinada maneira. Para a reformulação espiritual ser codificada, por exemplo, as razões dos participantes tinham que envolver Deus ou o divino; eles não poderiam ser apenas genericamente positivos. Essa é uma grande limitação do estudo: não está claro se a mentalidade não-espiritual, não-teísta, mas igualmente positiva, levaria às mesmas taxas de sobrevivência.

“A verdadeira natureza de Deus está claramente além do escopo deste artigo.”

Também é difícil afirmar que certos pontos de vista e práticas espirituais levam as pessoas a viver mais tempo. Em um estudo anterior, Ironson e seus colegas analisaram a forma como os pacientes soropositivos enxergavam Deus — como benevolente, amoroso e misericordioso, ou como duro, julgador e punitivo. Embora os pesquisadores tenham descoberto que as pessoas com uma visão positiva de Deus tinham uma progressão da doença significativamente mais lenta, “a verdadeira natureza de Deus está claramente além do escopo deste artigo”, escreveu Ironson. “Embora tenhamos concluído que o ponto de vista a respeito de Deus prediz a progressão da doença e é digno de nota, isso não implica que a visão de Deus causa progressão da doença.”

O mesmo é verdade aqui. Estas descobertas são fascinantes, mas não está claro como elas poderiam efetivamente ser incorporadas no tratamento. É incerto o que iria acontecer “se pedirmos às pessoas para mudar sua espiritualidade, para tornarem-se mais religiosas ou espirituais ou se envolverem em práticas espirituais”, disse Ironson. “A partir deste estudo, nós realmente não sabemos se isso iria aumentar a sua sobrevivência.”

Além disso, os médicos não podem prescrever religião, juntamente com um coquetel antirretroviral. As pessoas podem não se sentir confortáveis em falar sobre religião e espiritualidade com seus médicos, ou podem ter preocupações sobre discriminação religiosa. Ironson sugeriu que médicos poderiam iniciar conversas com seus pacientes sobre como lidar e ver se eles mostram quaisquer sinais de interesse em espiritualidade. Mas o tema tem de ser abordado com cautela. “É uma área controversa”, disse ela. “Eu acho que é importante divulgar essa informação para que as pessoas saibam sobre isso. Se vai entrar para o ambiente médico, está aberto ao debate.”

O estigma e a condenação social pode ter levado as pessoas mais rapidamente em direção à morte.

Embora este estudo possa inspirar pesquisas e servir de forro para conversas sobre a melhor maneira de misturar espiritualidade e saúde, também é indiretamente relevante para a história do HIV/aids. Obliquamente, e assustadoramente, os resultados podem ser interpretados como uma acusação aos políticos, profissionais de saúde e cidadãos que condenaram ou ignoraram, no começo da epidemia, aqueles que tinham a doença. Se “superar a culpa espiritual” é um fator que ajuda as pessoas soropositivas a permanecerem saudáveis, o estigma generalizado e a condenação social pode ter levado as pessoas mais rapidamente em direção à morte.

Por Emma Green em 6 de maio de 2016 para o Atlantic