Como os medicamentos precisam ser muito fortes para impedir a multiplicação do HIV no organismo, podem causar alguns efeitos colaterais desagradáveis.

Entre os mais frequentes, encontram-se: diarreia, vômitos, náuseas, manchas avermelhadas pelo corpo (chamadas pelos médicos de rash cutâneo), agitação, insônia e sonhos vívidos. Há pessoas que não sentem mal-estar. Isso pode estar relacionado com características pessoais, estilo e hábitos de vida, mas não significa que o tratamento não está dando certo.

Alguns desses sintomas ocorrem no início do tratamento e tendem a desaparecer em poucos dias ou semanas. É importante saber que existem diversas alternativas para melhorá-los. Por isso, é recomendável que o soropositivo procure o serviço de saúde em que faz o acompanhamento, para que possa receber o atendimento adequado. Nesses casos, não recomenda-se a automedicação (pode piorar o mal-estar) nem o abandono do tratamento (causando a resistência do vírus ao remédio).

Além dos efeitos colaterais temporários descritos acima, os pacientes podem sofrer com alterações que ocorrem a longo prazo, resultantes da ação do HIV, somados aos efeitos tóxicos provocados pelos medicamentos. Os coquetéis antiaids podem causar danos aos rins, fígado, ossos, estômago e intestino, neuropsiquiátricas. Além disso, podem modificar o metabolismo, provocando lipodistrofia (mudança na distribuição de gordura pelo corpo), diabetes, entre outras doenças.

Pensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

Nenhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

Fui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

Eu tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

Em trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

Eu sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

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Me lembro daquela música da banda Legião Urbana, que escutei tanto durante a adolescência, com um refrão que dizia: “temos nosso próprio tempo”. Talvez, tenhamos mesmo. Tempo Perdido é uma música que fala sobre as diferentes perspectivas de tempo, e do tempo que se perdeu. Desde o meu próprio diagnóstico, que se deu em 2010, me pergunto se Renato Russo, que faleceu em 1996 em decorrência de complicações relacionadas à aids, não teria composto essa música depois de seu próprio diagnóstico, ciente que o tempo com HIV poderia ser diferente — em seu caso, foi mais curto. Mas como estaria ele hoje se ainda estivesse vivo e vivendo com HIV?

Aparentemente, a maioria das más perspectivas que ainda recaem sobre a saúde de quem vive hoje com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, pesa sobre aqueles que foram diagnosticados há mais tempo, nos primeiros anos da epidemia e durante o advento dos primeiros antirretrovirais — os antigos antirretrovirais.

Um estudo canadense observou pessoas com HIV com mais de 50 anos e concluiu que elas são mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 se iniciaram o tratamento antirretroviral antes de 1999 ou se tiveram uma exposição mais longa aos medicamentos antirretrovirais mais antigos, como Estavudina (d4T) ou inibidores de protease de primeira geração, como Nelfinavir ou Indinavir. O diabetes tipo 2 é uma doença mais comum em pessoas obesas e se torna mais comum com a idade. Nesse estudo, o início do diabetes se mostrou muito menos provável em pessoas com idade igual ou superior a 50 anos que iniciaram o tratamento a partir de 2010, ou que iniciaram o tratamento com uma contagem de células CD4 mais elevada. Foram observadas 1065 pessoas com idade igual ou superior a 50 anos de idade ao longo de 13 anos —  89% eram homens, 83% eram brancos e com alta prevalência de coinfecção por hepatite C. Uma das conclusões prováveis é que o tratamento moderno contra HIV ofereça pouco risco de promover o desenvolvimento de diabetes em pessoas com HIV.

Um outro estudo, conduzido em Malawi, na África Oriental, encontrou níveis elevados de colesterol LDL e diabetes em pessoas que vivem com HIV e há muitos anos sob tratamento antirretroviral, especialmente em pessoas com mais de 60 anos, em comparação com seus pares soronegativos. O estudo recrutou 379 pessoas com HIV e 356 sem HIV. 73% eram mulheres. A maioria das pessoas fazia tratamento com Tenofovir, Lamivudina e Efavirenz, depois de terem iniciado o tratamento com Estavudina, Lamivudina e Nevirapina, ao longo de mais de 11 anos. A conclusão do estudo é que as pessoas com HIV com mais de 60 anos são muito mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2 e a ter níveis elevados de colesterol LDL.

Mas quando se fala de envelhecimento e HIV não se fala apenas diabetes. Vários tipos de câncer são mais comuns em pessoas mais velhas que vivem com HIV, de acordo com relatório publicado na Clinical Infectious Diseases, nos Estados Unidos. Indivíduos soropositivos de 50 anos ou mais mostraram uma incidência significativamente maior de vários tipos de câncer, incluindo aqueles que não são normalmente considerados relacionados ao HIV. O risco de câncer de pulmão, anal, fígado e oral se mostrou maior à medida que as pessoas com HIV envelhecem.

Entretanto, estes mesmos pesquisadores descobriram que o envelhecimento em si não se comprovou responsável pelo maior aumento no risco de câncer nas pessoas com HIV, em comparação com a população em geral: a prevalência de fatores de risco, como tabagismo, consumo de álcool e infecções virais causadoras de câncer é que são responsáveis pelo aumento do risco de alguns tipos de câncer em pessoas idosas com HIV. De fato, fumar causa um em cada cinco tipos de câncer entre pessoas com HIV na América do Norte, de acordo com uma pesquisa publicada no jornal Aids. Por alguma razão, parece que o pulmão das pessoas fumantes que vivem com HIV  é mais susceptível ao câncer e outras complicações respiratórias do que das pessoas sem HIV: de acordo com pesquisadores franceses, a infecção pelo HIV está associada à obstrução das vias aéreas, incluindo enfisema.

Por sua vez, a prevalência de doenças vasculares cerebrais silenciosas — precursoras de condições neurocognitivas mais graves — é significativamente maior entre as pessoas soropositivas de meia idade, em comparação com a população em geral, de acordo com uma pesquisa francesa publicada na Clinical Infectious Diseases. Esse estudo incluiu 456 pessoas com HIV e 156 sem HIV, observadas entre 2013 e 2016. Aproximadamente dois terços da amostra soropositiva foram diagnosticados antes do advento do tratamento antirretroviral, em 1996. O número médio de células CD4 foi de 196 entre as pessoas com HIV e 665 células/mm³ entre as pessoas sem HIV.

Todas, complicações observadas mais comumente em pessoas que vivem com HIV há mais tempo e que passaram pelos primeiros antirretrovirais, tão tóxicos. Aos jovens soropositivos, ao que tudo indica, cada vez menos complicações a longo prazo. É como se experimentássemos a vida com o vírus de maneira diferente, em tempos diferentes. Perece mesmo que temos nossos próprios tempos.

Ontem, 21 de novembro de 2017, a Food and Drug Administration (FDA) americana aprovou o primeiro regime de tratamento completo com apenas dois antirretrovirais, em vez dos três ou mais medicamentos que costumam por padrão compor as terapias para quem vive com HIV. Esse novo tratamento é composto por Dolutegravir e Rilpivirina, vendido nos Estados Unidos num único comprimido de dose fixa com nome comercial Juluca, produzido pela ViiV Healthcare e pela Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson. Esse novo medicamento poderá ser usado por pessoas que vivem com HIV-1 e que já têm carga viral indetectável em seu regime estável há pelo menos seis meses, sem histórico de falhas no tratamento e sem problemas associados à resistência viral com os componentes do Juluca.

“Limitar o número de medicamentos em qualquer regime de tratamento do HIV pode ajudar a reduzir a toxicidade para os pacientes”, disse a Dra. Debra Birnkrant, diretora da Divisão de Produtos Antivirais no Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos da FDA. Menos antirretrovirais significa menos toxicidade, pelo menos na teoria. Pesquisas futuras devem indicar se o regime de dois antirretrovirais realmente confere uma vantagem de segurança a longo prazo em relação aos regimes atuais que incluem três ou mais antirretrovirais, em particular no que diz respeito à saúde dos ossos e dos rins.

A segurança e a eficácia do Juluca em adultos foram avaliadas em dois estudos clínicos, Sword 1 e 2, divulgados em fevereiro de 2017 durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI), em Seattle. Esses estudos incluíram 1.024 participantes cujo vírus já estava suprimido por seus atuais medicamentos contra o HIV. Os participantes foram então aleatoriamente designados para continuar com seu tratamento atual contra o HIV ou para mudar para o Juluca. Os resultados mostraram que o novo medicamento foi eficaz em manter o vírus suprimido. Nesses estudos, os efeitos colaterais mais comuns entre aqueles que tomaram Juluca foram diarreia e dor de cabeça, cada um deles relatado por 2% dos participantes.

 

Sabe, parece que tudo começou naquela tarde, em dezembro de 2015. Atravessei os corredores brancos do hospital e, finalmente, avistei meu avô. De dentro do quarto, com os tubos presos ao nariz, ele virou o rosto em direção à porta de entrada, e me viu. Como sempre fez, sorriu. Me cumprimentou com um apelido carinhoso, que dito por qualquer outra pessoa seria xingamento. Estava deitado na cama do hospital, levemente reclinada para não pressionar seus frágeis pulmões, dos quais apenas um funcionava e em 15% de sua capacidade. Seu câncer voltara. Aparentemente, os anos sem fumar desde a remoção de quase todo um pulmão afetado pelo primeiro tumor maligno, não foram suficientes para evitar a recidiva da doença, agora no pulmão remanescente. Toda uma vida de cigarros, contra alguns anos sem. Eu ainda era pequeno quando disse a ele para parar de fumar. Mas ele não me escutou. Ao invés disso, escutou o tumor, que só se comunicou quando já era tarde demais.

“— Tem histórico de câncer na família?”, me perguntou o meu médico, Dr. Esper Kallás, em uma de nossas primeiras consultas, no ano de 2011, enquanto preenchia em seu computador uma ficha de saúde inicial a meu respeito.

“— Meus dois avôs tiveram câncer de pulmão”, respondi, “mas porque fumaram muito.”

“— Veja, Jovem: o fato de seus avôs terem fumado é um agravante, sem dúvida, mas preciso anotar isso no seu histórico mesmo assim.”

O doutor não explicou muito mais, não porque não gostasse de fazê-lo, mas porque não houve nenhuma pergunta adicional da minha parte. Eu compreendi que tratava-se de uma predisposição genética apenas digna de nota, sobre uma doença talvez menos compreendida que o HIV. A velha história que muitos fumantes contam sobre os fumantes que nada sofrem em decorrência do cigarro, mas alguns sofrem.

Ali, naquela consulta com o Dr. Esper, em 2011, não era isso o que me preocupava. Minha atenção não estava voltada ao câncer dos meus avôs, mas ao meu próprio estado de saúde, com baixa a contagem de CD4 e os terríveis efeitos colaterais que eu ainda sofria com os antirretrovirais, Kaletra e Biovir. Não pensava noutra coisa e nem sentia nada além de mau estar, desde o meu diagnóstico positivo para o HIV, que se deu às 9 horas da manhã do dia 18 de outubro de 2010 — hoje, exatamente a sete anos atrás. Eu ainda me lembro bem deste dia.

Acordei, passei um café e comi uma torrada, com manteiga por cima. Pela janela do apartamento, lembro do vento chacoalhando as folhas das árvores na rua. Sentei diante do computador. Ao lado dele, a pilha de papéis com afazeres e, no topo, o protocolo da entrega de resultados do laboratório, do primeiro checkup geral que fazia em minha vida. “Devem estar prontos”, pensei comigo. Entrei no site do laboratório e preenchi meus dados. Apertei enter. Comecei a percorrer as páginas, uma a uma. Hemograma, ferro, colesterol, triglicérides, glicose — todos os resultados vinham com um valor de referência ao lado, indicando o que era esperado para os padrões saudáveis. E meus números estavam dentro destes padrões: eu era saudável! De certa forma, isso até me surpreendia e, no fundo, ressoava como um presente dos deuses, os quais eu sequer venerava, mas que deveriam estar satisfeitos comigo. Um sinal de que a rebeldia da juventude deveria ter mesmo que chegar ao fim, sem cair em tentação de experimentá-la novamente.

Adiantei mais umas páginas na tela do computador, chegando quase ao final, onde já avistava meus níveis de ácido úrico, sódio, cálcio, fósforo, potássio, T3 e T4. Toda a minha boa conduta do último ano traduzida ali, em contagens de células, percentagens e microgramas de enzimas, vitaminas e minerais por decilitro de sangue. Todos números bons, exames com bons resultados. Todos! Todos, exceto um. Ao final da lista, o último resultado, na última página de todas. O último exame realizado, com o título “Anticorpos anti HIV1/HIV2 e antígeno p24”. Resultado: “reagente”.

Quando recobrei a consciência, estava de pé. A cadeira do escritório achava-se caída ao lado da escrivaninha, com a página do laboratório ainda aberta na tela do computador. As batidas do coração faziam vibrar tanto a jugular que e era possível escutar essa pulsação pela parte interna dos ouvidos. Corri para a janela, agonizando por mais ar. Inspirei com força, percebendo que o oxigênio que entrava nos pulmões não era suficiente. Acho que cheguei a tremer. Esforcei-me mais um bocado para respirar, e um ruído rouco ecoou de dentro do peito, como o de alguém que toma fôlego depois de quase se afogar — o mesmo barulho que meu avô faria, anos depois, naquele leito do hospital.

Demorou algum tempo para que eu dissociasse o HIV da morte, não porque achasse que morreria de aids — o que nunca achei —, mas porque, seguindo o conceito de doença crônica e incurável, porém tratável, que me explicaram na altura do diagnóstico, incomodava-me a ideia de que eu carregaria este vírus até o momento da morte, independentemente de tê-lo inerte pelos medicamentos. Mesmo incapaz de replicar, o HIV é um replicante — tal como o de Blade Runner: uma ameaça com expectativa de vida eterna, que demanda constante luta dos agentes mais avançados da biotecnologia. Diferentemente de 1982, ano em que foi lançado o primeiro Blade Runner e em que a aids ganhou o nome de aids, hoje os antirretrovirais existem e são capazes de domar o HIV, com sua eficácia sendo progressivamente aprimorada desde seu advento, em 1996. Assim como no filme é impossível diferenciar os humanos dos androides replicantes, a olho nu, também é impossível distinguir entre soropositivos e soronegativos. Ambos experimentamos os mesmos sentimentos. E, dentre estes sentimentos, parece haver um incômodo: afinal, por que é que incomoda ter um vírus que, com o devido tratamento, não causa mais o que poderia causar?

Acho que esse sentimento pode diminuir ao acompanhar mais de perto os estudos científicos, percebendo a cura do HIV como um dia possível — para todos nós, e não só para o já curado Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”. Quem sabe, estes esforços contra o HIV sejam alcançados antes de 2049 e, então, este vírus deixe de ser tão definitivo, como uma tatuagem ou uma cicatriz, e se torne mais efêmero, como tantas coisas que experimentamos na vida, a própria vida sendo uma delas. Não é curioso como apreciamos a permanência de tatuagens e até cicatrizes, enquanto abominamos a persistência do HIV? Talvez a resposta tenha a ver com algum impulso de sobrevivência, algo instintivo, parte da nossa genética — muito embora, é verdade, tenhamos nesta mesma genética cerca de 100 mil pedaços de DNA oriundos de retrovírus, família viral que inclui o HIV, compondo estimados 5 a 8% do genoma humano.

Saindo do hospital, deduzi que aquele dia seria o último dia de vida meu avô. Talvez, um pressentimento, atento aos seus decrescentes sinais vitais, sutis, que decerto contrastavam com sua aparente boa disposição.

“— Toda vez que você vem me visitar, eu fico mais forte”, dissera ele, num tom animador mas, ao mesmo tempo, tão semelhante à uma despedida.

Esta foi a última frase que escutei de meu avô, o que quer dizer que minha visita não o deixara de fato mais resistente. Ele não se foi naquela noite, mas cinco dias depois. Durante toda sua doença, o câncer que acometera pouco a pouco seus dois pulmões, ele jamais reclamara de nada e, para surpresa dos médicos, sequer dizia sentir qualquer dor. Estava sempre bem disposto. Era nisso o que eu pensava enquanto ajudava o senhor da funerária a transferir o corpo de meu avô para dentro do caixão, já recheado de flores. Seu paletó preferido estava perfeitamente alinhado, com os cabelos para trás, elegante, tal como ele sempre gostara de aparentar. Assinei o papel do hospital pelo reconhecimento do corpo e, em seguida, outro, autorizando a transferência para a capela onde seria feito o velório.

“— Seu avô era um homem incrível”, disse algum amigo de meus tios, quando veio me cumprimentar. “Sempre com sorriso no rosto.”

“— Tantas vezes ele nos buscou nas festas. Estávamos sempre embriagados e ele nos dava carona até uma padaria, onde pagava uma xícara de café para todo mundo, antes de nos deixar em casa”, contava outro.

“— Sempre sorridente!”

Pouco a pouco, o espaço do velório encheu-se com mais pessoas do que poderia ali caber. Enormes coroas de flores não paravam de chegar e, por serem tantas, tiveram de ser acomodadas na sala ao lado. Tampouco cessavam os elogios, de cada uma das pessoas que vinha ali se despedir de meu avô.

“— Ele era demais!”, diziam. “Adorava e aproveitava mesmo a vida!”

Foi então que o padre começou uma prece, dizendo qualquer coisa que não me recordo bem. Todos abriram um círculo. Meus tios, meu primo e eu fechamos a tampa do caixão; contamos até três e, num único movimento, apoiamo-lo em nossos ombros. Demos um passo, em direção à saída da capela. E mais outro. A marcha fúnebre começou a tocar. Então, ecoou-se uma palma e, tão logo, mais outra. Uma salva de palmas, cada vez mais alta. Não demorou para que todos os ali presentes, de pé, celebrassem aquela despedida.

“— Vai, senhor F.! Vai em paz!”, gritavam, enquanto carregávamos o caixão. “Grande vida, senhor F.! Grande vida!”

Uma fila de pessoas alinhou-se atrás do carro funerário, incessantemente aplaudindo meu avô. E foi assim que ele foi enterrado: num dia de sol e céu azul, com tantas palmas que mais faziam parecer o som de uma chuva. Em sua lápide, conforme ele havia pedido, constava escrito uma nota de seu bom humor:

Aqui jaz, muito a contragosto, F. A. L.

Eu nunca soube ao certo se meu avô teve conhecimento do meu diagnóstico positivo para o HIV. Presumo que sim. Este foi um assunto que jamais conversamos, eu e ele, assim como tantos outros assuntos. É como se, para ele, certas coisas, especialmente as doloridas, fosse melhor não conversar. Como se fosse melhor deixar passar e, com otimismo, encarar aquilo que há de melhor em cada momento, deixando para a vida e para o tempo tratar das coisas que são ruins. Como advertência, é bom o leitor saber disso.

Foram poucas as vezes em que falei, aqui, dos momentos em que despertava no meio da noite, sem respirar tão bem. Isso acontecia especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico, mas não apenas. Quando acordava, me perguntava: por que é que eu estava tremendo? Era como se estivesse com frio, mas, quando bebia a água da geladeira, a tremedeira passava. Acalmava. Uma vez que a água estava fria, não poderia estar tremendo de frio. Era outra coisa, mas não frio. Por outro lado, parecia tanto ser um frio — então, de onde ele veio? Se veio de dentro, deve ser medo. Se veio de fora, veja, o termômetro marca 19ºC: não parece estar tão frio assim para tanta tremedeira. Tampouco a falta de ar. Então, será que é mesmo medo? Se for, é medo de quê?

Por alguma razão lógica que eu não sei bem explicar, parece que o medo não pode simplesmente aparecer sem, antes, ter vindo de algum lugar. O instinto diz que o medo vem de algum lugar. Isso não é fato provável, com provas físicas e materiais, como tantas das quais lemos a respeito do HIV, mas é um fato sentido, daquelas coisas que apenas se sente e se sabe que é verdade. A única exceção é se existir uma razão psicoquímica para este frio, ou este medo — nesse caso, será que podemos culpar o Efavirenz ou outro antirretroviral? Quem sabe, também pode ser culpa da trilha sonora, o que indica que é melhor trocar o disco — será que não é melhor escutar algo mais tranquilo?

Se não for culpa da música, aí sim é culpa do sexo. Aquele que você não fez. Ou, quando fez, e sem proteção, levou-te ao HIV — lembra-se? Aposto que sim. Então, agora, o fato é que você não está mais aqui, no momento presente. Está lá, na imaginação da memória, porque é simplesmente impossível a memória vir sem atravessar a imaginação — é ela quem acende a sua memória, toca-a, lê o que nela está escrito e, em seguida, reproduz tudo aquilo que leu em uma tela de cinema que existe aí, dentro de você. Repare, esta tela de fato existe. Então, sente-se na poltrona do seu próprio cinema e, por fim, pergunte-se: o que é que você quer ver nessa tela?

Parece que, agora, já posso olhar para a minha infância como algo do passado, porque ela já acabou. Finalmente. Agora, começa a infância de outra pessoa, que está a caminho. Meu filho. Concebido através do sexo protegido por antirretrovirais — os mesmos que salvaram a minha vida durante este últimos sete anos e, conforme me explicou o doutor, continuarão salvando até o meu fim ou, quem sabe, até o advento da cura. É menino, como acabo de saber. Me olho no espelho e já vejo alguns poucos cabelos brancos, parecidos com os tantos que meu avô tinha. Sorrio, ao pensar em toda essa história e concluir que, afinal, toda minha infância, incluindo a juventude, foi uma grande aventura. Sem tatuagens, mas com cicatrizes. Alguns medos e algumas alegrias. Da maioria das coisas que experimentei, efêmeras, ficaram mesmo no passado. A mais duradoura parece começar agora: ser pai, algo que não vai mudar até o fim dos meus dias.

Depressão grave é um raro efeito colateral do Dolutegravir. Médicos holandeses relataram dois casos de rápido início de uma grave depressão após o começo do tratamento com o antirretroviral, e estão convencidos de que o Dolutegravir foi a causa. Nenhum dos pacientes tinha predisposição à depressão e nenhum deles foi tratado com antidepressivos. Em ambos os casos, os sintomas rapidamente desapareceram após a descontinuação do Dolutegravir. “Isto sugere fortemente uma relação causal”, dizem os especialistas. A notícia foi publicada na revista Poz e no Aidsmap, baseada em um estudo divulgado em 26 de julho.

Dolutegravir

O Dolutegravir pertence à classe dos inibidores da integrase, o que quer dizer que ele bloqueia a enzima usada pelo HIV para integrar seu material genético dentro das células. Este antirretroviral foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) americana em 13 de agosto de 2013.

No Brasil, a decisão da incorporação do Dolutegravir ao Sistema Único de Saúde (SUS) como terceira linha de tratamento foi publicada em 29 de outubro de 2015 no Diário Oficial da União. Desde o começo de 2017, o Dulegravir passou a oferecido como primeira opção de tratamento para “todos os pacientes que estão começando o tratamento e também aos pacientes que apresentam resistência aos antirretrovirais mais antigos” e foi anunciado como “o melhor tratamento contra o HIV/aids no mundo”. Há um estudo relacionando o Dolugravir à uma redução mais rápida da carga viral no sêmen.

Triumeq

Em muitos países, o Dolutegravir é distribuído sob o nome comercial Tivicay e, em combinação com Abacavir e Lamivudina, é parte de um potente tratamento contra o HIV oferecido em muitos países em uma única pílula, chamada Triumeq — os dois pacientes holandeses com a depressão grave estavam tomando Triumeq.

Um dos pacientes que sofreu com a depressão severa é um homem recém-diagnosticado de 58 anos de idade, com boa saúde mental e física e sem outras infecções ou condições médicas relevantes. Ele começou o tratamento com Triumeq um mês após o seu diagnóstico positivo para o HIV, tomando o comprimido antes de dormir. Os sintomas de depressão surgiram logo, junto com paranoia e mau humor. Testes de laboratório não conseguiram identificar a causa dessa mudança na saúde mental, o fez seu médico optar por mudar o tratamento para o medicamento Stribild, composto por Elvitegravir, Cobicistat, Emtricitabina e Tenofovir. Uma semana depois da mudança de tratamento, os sintomas de depressão, paranoia e irritabilidade começaram a melhorar e, depois de 20 dias, desapareceram por completo.

O outro homem, de 52 anos de idade, estava tomando uma combinação baseada em Efavirenz e mudou para o Triumeq por conta de fadiga. Ele não tinha antecedentes de doenças psiquiátricas, outras infecções graves e nem quaisquer outras condições de saúde. Este  homem desenvolveu uma depressão leve dois meses depois de começar Triumeq, mas não alertou seu médico. Quatro meses após o tratamento com essa medicação, começou a desenvolver pensamentos suicidas, que se tornaram graves o suficiente para levá-lo à internação em hospital psiquiátrico, a fim de evitar uma tentativa de suicídio. Testes de laboratório não indicaram nenhuma outra explicação para seus sintomas psiquiátricos e, no dia da internação hospitalar, ele mudou de tratamento para Darunavir, Tenofovir e Emtricitabina. Em cinco dias, o homem recebeu alta do hospital e, após duas semanas, sua depressão já estava quase resolvida. Depois de três meses, não apresentava mais qualquer sintoma psiquiátrico.

Os médicos estão convencidos de que a ausência de problemas de saúde mental pré-existentes e o rápido início dos sintomas depressivos após o início do tratamento com o Dolutegravir, bem como a melhora destes pacientes logo após a interrupção do medicamento, sugerem uma relação causal entre este remédio e a depressão severa. Eles observam que seus pacientes não são os únicos a sofrerem com este efeito colateral e que outros casos já foram relatados, a partir de pessoas que descontinuaram o Dolutegravir pelo mesmo motivo. Nos estudos clínicos que antecederam o licenciamento do Dolutegravir, menos de 2% dos participantes interromperam o tratamento por conta de qualquer efeito colateral e menos de 1% por conta de pensamentos suicidas. Surpreendemente, a taxa de descontinuação do Dolutegravir fora destes estudos chegou a 14% no ano passado. A maioria das pessoas que interromperam o tratamento com o Dolutegravir são mulheres e pessoas mais velhas.

Em 50 casos de pessoas com pensamentos suicidas que foram relatados ao fabricante do Dolutegravir, somente 20 tinham histórico psiquiátrico detalhado. 16 destas 20 pessoas, tinham histórico de problemas na saúde mental. Cinco pessoas cometeram suicídio dentro de seis meses do início do tratamento com o Dolutegravir, das quais quatro tinham histórico de depressão. Em contraste, nos dois casos recém-relatados, não havia histórico de má saúde mental. Os médicos autores do estudo acreditam que uma concentração mais elevada do fármaco no organismo pode estar associada aos efeitos colaterais neuropsiquiátricos. “Precisamos de estudos clínicos e farmacocinéticos para determinar com precisão o desempenho geral do Dolutegravir na prática clínica, em relação a efeitos colaterais neuropsiquiátricos, especialmente em populações sub-representadas nos estudos clínicos”, escreveram os autores.

Uma vez que estes casos de depressão ainda são raros, a notícia não me desanima em relação ao Dolugravir, mas serve de alerta para qualquer sintoma depressivo associado ao tratamento. Se você toma Dolutegravir, avise seu médico sobre qualquer pensamento suicida, depressão ou irritabilidade.


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Os medicamentos antirretrovirais têm representado uma mudança de vida para pacientes com HIV, mas podem ter efeitos colaterais significativos. Cada vez mais vidências têm relacionado estes medicamentos à distúrbios neurocognitivos associados ao HIV, que podem se manifestar com esquecimento, confusão e mudanças comportamentais e motoras. Contudo, ainda não havia uma explicação clara sobre como estes fármacos influenciam o cérebro.

Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia já localizaram alguns dos principais causadores de danos neuronais. Seu estudo sugere que alguns inibidores da protease, dentre os medicamentos mais eficazes contra o HIV, levam à produção de peptídeos beta amilóides, frequentemente associados à doença de Alzheimer. Os medicamentos induzem a um aumento nos níveis da enzima que cliva a proteína precursora de amilóide (PPA), para produzir beta amilóide, que é responsável pelos danos aos neurônios.

“Os inibidores de protease são terapias antivirais muito eficazes, mas têm toxicidade inerente”

Notadamente, a inibição dessa enzima, chamada BACE1, protegeu as células cerebrais humanas e de roedores contra danos, sugerindo que o tratamento desta via com um novo fármaco poderia minimizar danos aos neurônios em pacientes sob terapias antirretrovirais. “Os inibidores de protease são terapias antivirais muito eficazes, mas têm toxicidade inerente”, disse Kelly Jordan-Sciutto, presidente e professora do departamento de patologia da Penn School of Dental Medicine e autora sênior do estudo. “Nossas descobertas nos fazem repensar como estamos usando estes medicamentos e até mesmo considerar desenvolver uma terapia adjuvante para reduzir alguns desses efeitos negativos.” O estudo foi publicado no American Journal of Pathology.

Os inibidores da protease, tais como o Ritonavir e o Saquinavir, são parte essencial do coquetel de medicamentos que conseguiu reduzir a mortalidade de pessoas infectadas pelo HIV em 50%. Embora compostos mais recentes façam parte dos tratamentos de primeira linha para pacientes nos Estados Unidos, esses inibidores de protease continuam amplamente utilizados na África e em outras áreas em desenvolvimento atingidas duramente pelo HIV/aids. Esses remédios agem bloqueando enzimas virais necessárias para a criação de partículas infecciosas que permitem que o vírus se espalhe pelo corpo.

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Pesquisas anteriores da equipe de Jordan-Sciutto sugeriram, entretanto, que os inibidores de protease podem ter efeitos tóxicos sobre o sistema nervoso central. Um dos estudos, por exemplo, demonstrou que eles desencadearam a ativação de vias de resposta ao estresse, incluindo o estresse oxidativo e um processo chamado de resposta a proteínas mal enoveladas, ou UPR, do inglês unfolded protein response. A UPR acontece quando a célula detecta proteínas mal enoveladas ou modificadas, causando uma interrupção na tradução de proteínas. Sua função é proteger uma célula de proteínas aberrantes, mas, quando cronicamente ativada, pode levar a danos celulares ou à morte.

Mesmo após esses estudos, não ficou claro se a UPR vista em pacientes com HIV foi induzida como resultado do vírus ou do tratamento e pelas moléculas mediadas por ele. Além disso, os pesquisadores ficaram intrigados com as descobertas do colega e coautor Robert Vassar, da Northwestern University, que mostraram que o estresse induzido pela UPR levou à ativação da BACE1, a enzima que despedaça a PPA para produzir beta amilóide.

“A UPR é ativada em pacientes com HIV, tanto dentro como fora da terapia antirretroviral”

“O estudo emergiu dessas três linhas de evidências convergentes”, disse Jordan-Sciutto. “Sabíamos que a UPR é ativada em pacientes com HIV, tanto dentro como fora da terapia antirretroviral, sabíamos que, apesar da terapia antirretroviral, a deficiência cognitiva persiste nesses pacientes e sabíamos que a ativação da UPR leva a um aumento de BACE1.” Para determinar se e como os danos neuronais resultam do tratamento com medicamentos e para determinar o papel da BACE1, a equipe investigou os efeitos dos inibidores de protease em dois modelos animais e, em seguida, investigou o mecanismo de ação em células em cultura.

Primeiro, para confirmar que os próprios medicamentos, e não a infecção subjacente ao HIV, eram responsáveis pelos danos neuronais, eles examinaram uma população de macacos, alguns dos quais com SIV, um retrovírus muito semelhante ao HIV que afeta primatas não humanos. Os pesquisadores descobriram que os animais infectados com SIV que tinham sido tratados tinham aumento da expressão de PPA em seus neurônios, sinal de danos e um aumento de BACE1 em comparação com animais não tratados.

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Eles ainda confirmaram que os medicamentos eram os culpados em causar estas mudanças, administrando Ritonavir e Saquinavir em ratos adultos saudáveis. Novamente, observaram aumentos significativos de BACE1. Voltando às células em cultura, eles descobriram que a administração de Ritonavir ou Saquinavir em doses equivalentes às observadas no sangue de seres humanos tratados levou a aumentos dramáticos em marcadores moleculares associados com UPR, bem como a aumentos na expressão de BACE1. Além disso, eles demonstraram que o aumento de BACE1 levou diretamente a um aumento no processamento de PPA. A aplicação de um inibidor de BACE1 a células cerebrais de ratos em cultura evitou o dano que o tratamento com Ritonavir induziu.

“O próprio vírus causa um estresse, mas os medicamentos estão causando um estresse adicional e danos aos neurônios”

“Juntando isso com nossos achados anteriores sobre estresse oxidativo, parece que os medicamentos estão desencadeando um estresse oxidativo que está prejudicando as proteínas e induzindo a resposta à proteínas mal enoveladas”, disse Cagla Akay Espinoza, cientista de pesquisa no laboratório da Jordan-Sciutto e coautor do estudo. “O próprio vírus causa um estresse, mas os medicamentos estão causando um estresse adicional e danos aos neurônios, em parte pela BACE1 levando ao processamento abaixo da proteína precursora amilóide”.

Um conjunto final de experimentos mostrou que uma enzima chamada PERK, que tem um papel importante na UPR, ajudou a mediar o aumento da expressão de BACE1 em neurônios, desencadeado por inibidores de protease. “Estamos muito interessados no papel do PERK neste processo”, disse Jordan-Sciutto. “A segmentação PERK e/ou BACE1 poderia ajudar a contribuir para uma abordagem terapêutica para tratar medicamentos associados a distúrbios cognitivos”.

As novas descobertas abrem uma série de vias para pesquisas futuras. A equipe gostaria de explorar a possibilidade desta via de danos neuronais se aplicar a outros medicamentos contra o HIV e sobre como a UPR difere de acordo com a fonte sua indução, se é o vírus ou os medicamentos. Além disso, dada a ligação entre beta amilóide, PPA e doença de Alzheimer, a equipe está curiosa para saber mais sobre como estes peptídeos contribuem para os distúrbios visto tanto nesta doença quanto nos distúrbios neurocognitivos associados ao HIV.

Em 16 de dezembro de 2016 por ScienceDaily

Fonte: Materiais oferecidos pela University of Pennsylvania. Referência: Patrick J. Gannon, Cagla Akay-Espinoza, Alan C. Yee, Lisa A. Briand, Michelle A. Erickson, Benjamin B. Gelman, Yan Gao, Norman J. Haughey, M. Christine Zink, Janice E. Clements, Nicholas S. Kim, Gabriel Van De Walle, Brigid K. Jensen, Robert Vassar, R. Christopher Pierce, Alexander J. Gill, Dennis L. Kolson, J. Alan Diehl, Joseph L. Mankowski, Kelly L. Jordan-Sciutto. HIV Protease Inhibitors Alter Amyloid Precursor Protein Processing via β-Site Amyloid Precursor Protein Cleaving Enzyme-1 Translational Up-Regulation. The American Journal of Pathology, 2017; 187 (1): 91 DOI: 10.1016/j.ajpath.2016.09.006


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Charlie Sheen revelou que seu HIV está completamente suprimido graças a uma injeção experimental parte de um estudo clínico. O ator, que participa do estudo para o medicamento chamado Pro 140 desde o começo de 2016, divulgou esta notícia na véspera do Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

Ao contrário da terapia antirretroviral tradicional, que envolve tomar medicamentos todos os dias, Sheen recebe uma injeção semanal que não tem efeitos colaterais. Na terça-feira, Sheen recebeu a notícia do diretor do estudo clínico dizendo que ele havia alcançado a supressão completa do vírus usando apenas este novo método. Em outras palavras: seu vírus não é mais detectável, fazendo do Pro 140 uma perspectiva promissora para pessoas com HIV/aids.

Faz pouco mais de um ano desde que Sheen, de 51 anos de idade, revelou publicamente seu diagnóstico positivo para o HIV, coincidindo com o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, quando as autoridades de saúde pública se unem para aumentar a conscientização a respeito da doença. Sheen disse que nunca se sentiu tão forte e confiante sobre sua condição. Ele espera que esta pesquisa resulte na aprovação deste novo tratamento e que ajude a desestigmatizar as pessoas que vivem com HIV.

Charlie Sheen, retratado em uma estréia na última quarta-feira, disse que não experimentou efeitos colaterais com a injeção de Pro 140.

“É incrível”, disse Sheen. “Lembro de como me senti naquele dia e de como me sinto hoje. Uau! Que transformação! Em um instante você está no caminho para a perdição e, no próximo, você está no caminho da providência. É incrível. Eu pensava que ficaria preso nesse coquetel antirretroviral para sempre, mas olhe para mim agora. Sou muito grato aos gênio da CytoDyn por desenvolverem isso e por terem me encontrado.”

Pro 140 é um “inibidor de entrada e de fusão” que é injetado semanalmente. É feito a partir de um anticorpo, ao invés de produtos químicos sintéticos. Os inibidores de entrada e de fusão protegem as células do sistema imunológico contra a infecção pelo HIV. Para isso, o fármaco se liga a um receptor de proteína na superfície da célula imunológica. Normalmente, o HIV usaria essa proteína como um porta de entrada para entrar e infectar uma célula. Estudos mostram que quando esta porta de entrada é bloqueada, o HIV não consegue entrar nessa célula. Esse processo impediria o vírus de se multiplicar e poderia também reduzir a quantidade de HIV no corpo.

A injeção não funciona para todas as cepas de HIV — apenas para a R5. No entanto, uma vez que os dados mostram que cerca de 70% das pessoas com HIV têm a cepa R5 e que 90% das novas infecções são R5, o Pro 140 ganhou a atenção dos cientistas e reguladores. Até hoje, os mesmos benefícios que este novo remédio oferece só foi conseguido com doses diárias de fármacos antirretrovirais. Mas uma série de estudos clínicos do Pro 140 feito pela CytoDyn espera trazer um tratamento emocionalmente e fisicamente menos oneroso.

Tomada diariamente, a terapia antirretroviral suprime o HIV. Porém, manter um regime de medicação diária pode ser difícil para alguns, especialmente aqueles que enfrentam barreiras sociais e estruturais, como o estigma do HIV, habitação instável, insegurança alimentar e problemas de saúde mental. Para algumas pessoas, os antirretrovirais são caros. Ou podem não ser capazes de tolerar os efeitos colaterais, que incluem náuseas, fadiga e problemas nervosos de curto prazo, além de resistência à insulina e outros problemas de longo do tempo.

Somente cerca de um terço dos pacientes americanos que tomam antirretrovirais consistentemente tem carga viral indetectável [No Brasil, 88% dos soropositivos que estão em tratamento têm carga viral indetectável.] “Vamos precisar de outras abordagens”, disse o Dr. Nelson Michael, diretor do U.S. Military HIV Research Program no Walter Reed Army Institute.

Oito meses depois do estudo, Charlie Sheen disse que não sentiu nenhum efeito colateral. “Você poderia imaginar que eu tenho esta doença e que estou fazendo um estudo e, por isso, estaria cheio de sequelas e tudo mais. Mas de modo algum! Eu não senti nada! Nada! A única coisa que notei foi que, no dia da injeção, senti um pouco de fadiga. Só um pouco. Mas o que isso importa? Eu mal podia notar isso e agora estou ótimo. É muito mais do que incrível.”

Mensagem de texto entre Charlie Sheen e o diretor do estudo clínico, Dr. Nader Pourhassan, dizendo a ele que sua carga viral estava completamente suprimida graças a injeção experimental Pro 140.

Na terça-feira, 29 de novembro, Sheen recebeu uma mensagem de texto do Dr. Nader Pourhassan, CEO da empresa farmacêutica CytoDyn, de Washington, a qual esta por trás do novo medicamento, dizendo que ele tinha acabado de receber os dois resultados de sua carga viral. Ambos estavam indetectáveis — isto é: supressão total.

Uma vez que este é um estudo de fase III, Sheen faz parte do último lote de voluntários humanos a experimentar o Pro 140 antes que de sua liberação. Faltam apenas alguns meses até que os resultados sejam estudados pela FDA, a qual vai avaliar se o medicamento pode ser distribuído comercialmente. A CytoDyn acredita que isto vai acontecer entre meados de 2017 ou início de 2018.

 

Indetectável = Intransmissível

Em novembro de 2015, Sheen falou que uma pessoa com uma “carga viral indetectável” tem “risco insignificante” de transmitir o vírus, na mesma época em que ele revelou seu diagnóstico. Uma pessoa com HIV torna-se “indetectável” quando a terapia antirretroviral suprime o vírus a um nível tão baixo no sangue que este não pode mais ser detectado.

Apesar da crescente onda de estudos científicos apoiando esta visão, Sheen foi criticado. No entanto, em agosto, uma coalizão internacional de médicos e autoridade de políticas de saúde assinaram a primeira declaração de consenso que reconhece que os estudos mostram que os medicamentos antirretrovirais tornam o risco de transmissão “insignificante” — tão baixo que não vale a pena ser considerado. Foi a primeira vez que um funcionário de saúde pública dos Estados Unidos apoiou publicamente esta ideia — neste caso, o Comissário Assistente da Saúde de Nova York.

Uma série de pesquisas, publicadas no Dia Mundial de Luta Contra a Aids, mostram que ainda há mal-entendidos a respeito do HIV, aids, as diferenças entre os dois e o que significa ser soropositivo em 2016. Uma pesquisa da YouGov descobriu que 20% das pessoas ainda acredita que o HIV pode ser transmitido através de beijo — algo que há décadas foi provado ser impossível. Quase um terço das pessoas, numa pesquisa de 2.000 pessoas, acredita que compartilhar uma escova de dentes pode transmitir o HIV, o que também é impossível, uma vez que o HIV — um patógeno incrivelmente fraco — não consegue sobreviver fora do corpo. Além disso, 61% das pessoas não sabiam que o vírus pode ser suprimido a um nível tão baixo que a transmissão é praticamente impossível.

O risco real de transmissão está entre as pessoas não testadas que podem espalhar o vírus sem saber que são portadoras dele. Pessoas que foram testadas, diagnosticadas com HIV, que receberam tratamento e alcançaram a supressão viral não podem transmitir o vírus. A supressão viral também pode proteger as pessoas com HIV de passar o vírus para seus filhos — o que foi novidade para 29% dos entrevistados pelo YouGov.

De acordo com o Dr. Carl Dieffenbach, Diretor da Divisão de Aids dos National Institutes of Health, este mal-entendido sobre a supressão viral é o maior obstáculo à conscientização pública em torno do HIV/aids atualmente. “Se você for virologicamente suprimido você não vai transmitir o HIV para o seu parceiro”, disse ele. “Vou dizer isso novamente: se a pessoa com HIV estiver virologicamente suprimida — o que significa que não há vírus em seu organismo — e estiver assim há vários meses, sua chance de transmitir o HIV é zero. Vamos ser claros sobre isso: ZERO.”

“Se, no dia seguinte, essa pessoa parar a terapia por duas semanas e tiver rebotes, sua chance sobe. É por isso que falamos sobre a supressão viral durável. Você é tão virologicamente suprimido quanto a sua adesão. Essa é a mensagem.”

 

Avanços de 2016 e o futuro

Décadas depois dos anos 80, o foco agora está em aumentar a conscientização sobre a supressão viral e apoiar a pesquisa do HIV. “Os avanços da medicina e da ciência estão mudando vidas de maneiras que nunca imaginamos ser possível”, disse Bruce Richman, diretor-executivo da Prevention Access Campaign.

Dr. Anthony Fauci elogiou pessoalmente um estudo feito em macacos de medicamentos contra o HIV — são raros os endossos pessoais para o que ele acredita estar mais próximo da “cura funcional”.

“Há vinte anos, aprendemos que um tratamento eficaz contra o HIV salvaria vidas. Agora sabemos que também previne a transmissão do HIV para outras pessoas. As pessoas que vivem com HIV podem agora ter confiança de que, se tiverem carga viral indetectável e tomarem os seus medicamentos regularmente, viverão vidas mais saudáveis e não transmitirão o HIV a outras pessoas. Isso tira um fardo tremendo das pessoas com HIV e de seus parceiros. Se nos concentrarmos nos fatos em vez do medo, temos oportunidades sem precedentes de acabar com o estigma do HIV e de acabar com a epidemia.”

De fato, em um poderoso editorial para a revista Time, o Dr. Oxiris Barbot, Primeiro Vice-Comissário de Saúde de Nova York, declarou que é possível acabar com a aids durante o nosso tempo de vida. Este ano, pela primeira vez desde o começo da epidemia, nenhum bebê nasceu com HIV em Nova York. “Com estratégias coordenadas para manter os pais sem HIV ou viralmente suprimidos, podemos acabar com a transmissão do HIV de mãe para filho não só na cidade de Nova York, mas em todo o país”, escreveu o Dr. Barbot.

O Dr. Demetre Daskalakis, comissário assistente da agência de HIV/aids da cidade, disse que o objetivo é combater a aids até 2020 — e ele acredita que essa é uma estimativa realista. “As lições que nos levaram ao fim desta importante parte da epidemia são as lições que nos levarão ao nosso objetivo de extinguir a aids até 2020”, disse ele. “A tecnologia biomédica e o envolvimento da comunidade se fundem em uma única estratégia para combater esta epidemia, com amor e respeito pelas comunidades mais afetadas por esta infecção. Juntos, vamos acabar com a divisão do HIV causada pelo estigma e veremos um progresso ainda mais rápido em nosso objetivo de uma geração livre da aids.”

Refletindo sobre o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, Charlie Sheen disse que o progresso é agridoce. “Quando você pensa nas incontáveis almas que pereceram, dizimadas na confusão dos anos oitenta… Eu sinto que estou aqui para aqueles indivíduos também. É agridoce. Mas eu sou muito grato por fazer do futuro e poder apoiar a pesquisa com este estudo clínico.”

Por Mia De Graaf em 1º de dezembro de 2016 para o DailyMail


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A autoridade nacional de medicamentos da China analisou nesta quarta-feira os resultados da última fase de uma pesquisa clínica sobre um medicamento anti-HIV produzido no país, antes de sua aprovação oficial.

Uma vez aprovado, o medicamento de nova geração, chamado Albuvirtide Injetável, deve ser a primeira injeção de longa duração do mundo para o tratamento do HIV. Desenvolvido pela Frontier Biotechnologies, sediada em Nanjing, o medicamento pode bloquear a fusão das membranas das células virais e hospedeiras, interrompendo o ciclo de vida do HIV em seu estágio inicial. O medicamento está em estudo clínico de fase III em 12 centros clínicos em todo o país desde fevereiro de 2014, segundo afirmou a Agência de Notícias Xinhua.

O medicamento é um inibidor de fusão que deve ser usado junto com antirretrovirais para tratar pessoas com HIV que fazem a terapia antirretroviral, afirma o site da Agência. Segundo este mesmo site, trata-se do primeiro medicamento anti-HIV de longa duração do mundo que entrou em estudos clínicos de fase III, o qual, com um mecanismo de ação molecular, é eficaz tanto contra o vírus HIV-1 como contra outros vírus resistentes.

“Os dados mostram que o estudo alcançou todas as expectativas”

Na quarta-feira, a China Food and Drug Administration verificou os dados experimentais de médio prazo do estudo clínico de fase III do medicamento no Hospital Beijing Youan, que se encarregou de conduzir os estudos clínicos nacionais deste medicamento. “Os dados experimentais de médio prazo mostram que o estudo alcançou todas as expectativas, com 80,4% da concentração de HIV dos pacientes nos grupos experimentais sendo reduzida para menos de 50 cópias por mililitro, que é o limite de detecção do HIV”, disse Wu Hao, decano do centro de doenças infecciosas do Hospital Beijing Youan, a Agência de Notícias Xinhua.

Wu disse que o medicamento, que é aplicado uma vez por semana, é muito mais eficaz e mais seguro do que os remédios atuais e que faz menos danos aos rins. Os dados foram coletados entre as semanas 24 e 48 dos estudos que incluem 83 grupos experimentais e 92 grupos de controle, segundo um documento enviado ao Global Times. Não houve qualquer relato de efeitos colaterais do medicamento. Li Dun, professor do Centro Universitário Tsinghua para Estudo da China Contemporânea, observou que, se houver efeitos colaterais, estes devem ser tornados públicos.

“Estamos dispostos a promover este medicamento no mercado o mais rapidamente possível”

“Uma vez aprovado, estamos dispostos a promover este medicamento no mercado o mais rapidamente possível”, disse o gerente de assuntos governamentais da empresa, de sobrenome Zhang. “Atualmente, os tratamentos do HIV usados na China são genéricos ou importados, foram desenvolvidos uma ou duas décadas atrás e são comparativamente ineficazes sob as condições atuais”, disse Zhang.

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Seis em cada 10.000 pessoas na China estão afetadas pelo HIV/aids. Mais de 570.000 pessoas na China foram diagnosticadas com HIV até o final de 2015 e cerca de 32% dos soropositivos do país ainda não foram diagnosticados, disse Liang Xiaofeng, vice-diretor do CDC em um fórum realizado em outubro. Liang observou que a China tomou medidas, como a ampliação do escopo de exames médicos, para lidar com a doença.

“O país reduziu os custos do tratamento do HIV e expandiu o alcance do tratamento gratuito para apoiar as pessoas que vivem com HIV”, disse Peng Xiaohui, sexólogo da Universidade da China Central, em Wuhan. Peng disse que o custo médio para o tratamento de pessoas soropositivas foi reduzido de 30.000 yuan (4.337 dólares) para entre 3.000 e 5.000 yuan por ano.

A terapia atual de antirretrovirais. amplamente utilizada nos tratamentos contra o HIV, pode trazer o vírus HIV sob controle, mas não pode curar a doença. Especialistas disseram que uma vacina contra o HIV/aids foi desenvolvida por cientistas chineses, que concluíram sua fase de testes de segurança durante a Conferência Nacional sobre HIV/Aids, em Pequim, em outubro de 2014.

Por Leng Shumei em 24 de outubro de 2016 para Global Times

“Olá, Jovem.

Não sei como iniciar esse assunto — nem mesmo se deveria fazer isso —, mas senti a necessidade de estabelecer esse contato contigo. Você nem deve ter o conhecimento da minha existência antes desse e-mail, mas você foi de fundamental importância para o meu bem-estar, hoje, 11 dias após meu diagnóstico de portador do vírus HIV. Creio que você receba inúmeras mensagens como essa, diariamente, e, por mais que essa seja apenas mais uma, a vontade de compartilhar com você essa gratidão após a leitura de todos os artigos e relatos pessoais foi maior — e aqui estou eu.

Vou começar falando de mim: me chamo M. e tenho 21 anos. Foi no dia 26 de outubro de 2016. Acho que esse acaba se tornando um dia inesquecível para qualquer um, até para os mais esquecidos ou desnaturados com datas. Mas, enfim, numa tarde após fazer o meu primeiro teste rápido de DSTs — que quis fazer por mera curiosidade —, recebi a notícia que mudou minha vida e tem me causado inúmeras sensações, sentimentos e incertezas, desde então.

Antes disso, já havia doado sangue algumas vezes e acabava acompanhando minha saúde por meio dos resultados disponibilizados ali. Sempre deu negativo para o HIV, como eu sempre esperava. Mesmo me expondo poucas vezes ao risco de contrair a doença, sempre esteve presente aquela sensação de imunidade, de que nunca acontecerá conosco, de que nossos parceiros não se encaixam nos perfis de quem é soropositivo. No entanto, aconteceu. Sem querer ficar preso aos motivos que levaram a isso, mas na minha caminhada desde que descobri o diagnóstico, escrevo essa mensagem.

A minha sexualidade já era um tabu aqui em casa — sou gay — e sempre senti que meus pais e irmã desconfiavam, até mesmo pela minha colaboração em deixar rastros, mensagens com um ex visualizadas pela minha irmã, por exemplo, que certamente reforçavam a suspeita deles. Essa foi uma das minhas maiores preocupações quando fui notificado do resultado do exame de HIV: não poderia dar mais essa decepção aos meus pais, que já não aceitavam a minha homossexualidade. Mas não consegui esconder a tristeza — e também o sentimento de culpa — depois da notícia. Por ainda morar com meus pais, pensei se deveria contar a alguém de mais confiança, minha mãe, pelo menos. Não conseguiria levar isso sozinho. Não dá! Ela merecia saber ao menos dessa vez o que se passava na minha vida, de verdade.

Foi então que, voltando ao posto de saúde no dia seguinte, conversei com a psicóloga e concluí que contar para a minha mãe seria a atitude mais madura, por mais que doesse e fosse a última coisa que desejaria fazer. E o fiz. Compartilhei com ela a notícia da minha sorologia no mesmo dia, à noite, quando disse que precisava explicar o motivo de estar tão triste. Ela desabou com o que ouviu. Chorou, chorou muito. Mas disse que me amava antes de tudo, e isso foi a melhor resposta para provar que fiz a coisa certa.

Após ler e reler vários, senão todos, os seus artigos, consegui me tranquilizar e ver que não seria o fim do mundo, como até então eu imaginava. Será possível, sim, ter uma vida normal e saudável daqui pra frente: só preciso me cuidar e aderir ao tratamento de forma responsável. A propósito, no dia de Halloween, dei início ao tratamento com o 3 em 1, recomendado pelo meu médico. Não senti nada além de uma leve tontura pela manhã seguinte e, talvez, uma sonolência durante os demais dias, que segue até hoje. Mas nada que me atrapalhe a ter a vida que já vinha tendo.

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Ainda me pego as vezes fazendo a clássica pergunta: ‘Por que eu?’. Mas logo caio em mim e percebo como não há respostas para situações como essa e que só me resta me cuidar e não me deixar abatido por isso. Essa é minha única opção. Eu sou maior, mais forte que esse vírus.

Abraços,
M.”