“Quando escrevi o texto Recorte o seu HIV percebi que este soou um tanto otimista para alguns leitores. Entretanto, sustentar uma visão otimista desvinculada da realidade nunca foi minha intenção. Sou partidário do realismo, sem poliana, como disse um leitor. Convencer os outros também nunca foi minha pretensão. Penso que recortar o HIV do seu espaço e tempo é medida concreta, realista e necessária.

Olhar para ele com os olhos do passado é um erro, mas, ainda assim, é uma opção pessoal. Não é a minha escolha particular. Mas pode ser a sua. Afinal, é você quem decide como interpretar essa questão íntima. Contudo, me senti em débito com aqueles que leram o texto. Afinal, se o vírus e a contaminação não foram capazes de impedir uma análise “otimista”, então o que seria? O Dólar. Minha resposta é: o Dólar. Mas por que?

Vou tentar percorrer um caminho de reflexão lógica — e, ao mesmo tempo, me manter calmo para não passar mal do estômago. Se você estivesse aqui, acho que me apoiaria em você para entrar nesse percurso escuro, porque vou lhe apontar uma monstruosidade horrenda, abjeta, vil e repugnante. Algo que eu tenho medo, que drena quase todas as minhas esperanças, porque é apenas a unha desse animal fétido e asqueroso. Então me ajude. Me dê licença, vou apertar a sua mão e pode doer. Sigamos.

Você já deve ter ouvido falar da CROI. É uma das mais importantes conferências do mundo sobre o HIV. Ocorre uma vez por ano e tem enorme repercussão mundial na área. Profissionais das melhores universidades do mundo e pesquisadores das mais importantes farmacêuticas são convocados para palestrar nesse evento. Recentemente, na CROI 2018, que ocorreu no mês de março, em Boston, houve a apresentação de uma pesquisa desenvolvida em Harvard: trata-se de um estudo absolutamente inédito e que chegou a um estágio em direção à cura que nenhum outro estudo chegou. Gerou um inédito precedente científico. Com uma combinação de dois anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes, o PGT121 e o Agonist GS-9620, os quais conseguiram a supressão viral sem utilização de antirretrovirais, só com os anticorpos, e por longo prazo, em um grupo de macacos Reshus infectados com o s-HIV, similar ao HIV humano. Isso nunca foi alcançado antes. Os estudos foram conduzidos em Harvard sob a liderança do médico Dan Barouch. Essa pesquisa, aliás, está em andamento.

A questão é que, uma das empresas que lidera o aporte financeiro para essa pesquisa e várias outras, é a Gilead Sciences, uma das maiores empresas do mundo que desenvolve medicamentos para tratar a infecção pelo HIV. Obviamente, pelo porte empresarial, trata-se de uma S/A, de capital aberto, isto é, uma empresa que possui ações na bolsa de valores, principalmente na bolsa Nasdaq, em Nova York, a maior bolsa de valores do mundo.

Pois bem. Apenas para se ter uma ideia, essa empresa faturou, em um ano comum, 14 bilhões de dólares com a venda de medicamentos antirretrovirais no planeta. Vamos lembrar, para não vulgarizar os números, que 1 bilhão equivale a 999 milhões de dólares, mais 1. A Gilead arrecadou 14 bilhões de dólares em 12 meses. Isso só é possível graças à estratégia da empresa, que consiste em financiar grupos de pesquisas, geralmente ligados à universidades, e comprar os direitos sobre a pesquisa. Em seguida, realizam os registros desses domínios científicos formalizando as patentes dos medicamentos. E vem fazendo isso há anos, assim como suas concorrentes.

Porém, ocorreu um caso emblemático na história recente dessa empresa. Durante anos ela investiu milhões de dólares em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos contra a Hepatite C. Investiu muito e arrecadou uma fortuna gigantesca. O modelo de financiar pesquisas e registrar patentes foi tão bem-sucedido que, após alguns anos, conseguiram um feito inédito contra a Hepatite C: desenvolveram um medicamento que promoveu a sua cura. Sim. A cura. A Gilead Sciences conseguiu esse feito maravilhoso para todos os seres humanos — uma conquista notável, meritória, honrosa e que recebeu elogios de todo o mundo. Exceto do mercado financeiro.

Com a cura, os pacientes passaram a ficar independentes dos medicamentos para essa enfermidade que, até então, era crônica e demandava medicamentos de uso contínuo. Assim, apesar dos bilhões arrecadados nos primeiros anos, o gráfico de arrecadação passou a diminuir à medida em que os pacientes se curavam; com os anos, menos pacientes passaram a comprar o medicamento. Esse gráfico do declínio no lucro está, nesse ano, em uma curva descendente se comparado com os anos em que a doença era crônica.

E os investidores da empresa, que compram suas ações na bolsa de valores, perceberam que a Gilead Sciences diminuiu o lucro sobre esse medicamento à medida que os anos passaram. O mercado consumidor do medicamento reduziu à proporção em que as pessoas se curaram. Basicamente, do ponto de vista puramente financeiro, a ação da empresa passou a valer menos na bolsa de valores, pois ela já não lucra tanto quanto na época em que a doença era crônica e a venda dos medicamentos contínua.

Dessa forma, para o mercado financeiro, a cura não foi o melhor negócio para a empresa, embora tenha gerado um inestimável benefício para a vida dos pacientes e para a humanidade. Diante disso, a questão que se coloca é: em nosso mundo, vale mais o bem que se realiza para a humanidade ou os dólares que se arrecadam? Infelizmente, a resposta é até dispensável, de tão óbvia. Estamos começando a ver a primeira imagem, ainda fosca, daquela anomalia bizarra, abjeta e repugnante que mencionei no começo, quando pedi a sua mão porque estava com medo. O cheiro de enxofre é forte e a náusea já me toma conta. Mas, sigamos.

Ver a especulação financeira em risco é algo tão perturbador para o mercado que uma importante corretora de valores, com milhares de investidores nos EUA, e que emite análises semanais do mercado cambial americano e mundial — a Motley Fool — publicou, em 8 de março desse ano, um artigo sobre a Gilead Sciences afirmando que: “as vezes a cura é pior do que a infecção”. Segundo o autor, de grande influência no mercado americano, esse aforismo poderia ser aplicado à Gilead Sciences por ter encontrado e disponibilizado a cura da Hepatite C. Ao que parece, para o analista, ao invés de curar as pessoas, a saída poderia ser manter o ser humano enfermo e poder lucrar com isso, ano após ano, morte após morte. E o que isso tem a ver conosco?

Como sabemos, o HIV ainda não tem cura. Nem funcional, nem esterilizante. No entanto, não há como negar que o caminho é promissor. Há várias frentes de pesquisa sendo desenvolvidas no mundo, em diferentes universidades. E a Gilead Sciences patrocina grande parte deles. Em tempo: você leu sobre o excelente congresso que ocorre em abril de 2018, na USP, sobre patogênese do HIV? O folder está no blog. Tenha a curiosidade de verificar quem são os patrocinadores do evento, no site do evento. Voltando. Como disse acima, essa empresa financia parte daquele estudo sobre os anticorpos neutralizantes, que parece ser um dos mais promissores até hoje. Além de muitos outros pelo mundo.

Ocorre que a situação do HIV hoje lembra muito ao mercado financeiro o episódio da cura da Hepatite C. E sob o aspecto puramente financeiro e mercantil, a cura do HCV (Hepatite C) não foi bem vista no mundo financeiro. O mercado está atento aos movimentos dessa importante farmacêutica mundial. Tanto que, em outro artigo, citando expressamente o resultado inédito das pesquisas com anticorpos monoclonais divulgadas no CROI 2018, a agência Motley Fool novamente pressionou a Gilead Sciences perante os investidores. Apresentou aos clientes uma análise de investimentos intitulada: “Estaria a Gilead tentando se colocar fora do mercado?”. E, no início do texto, o mais assustador: “Você acha que a Gilead Sciences aprendeu a lição sobre a Hepatite C, em que curar pacientes está fazendo com que a receita da empresa diminua à medida que cada tratamento bem-sucedido resulta em um mercado menor de pacientes para trabalhar. Mas está de volta com uma cura potencial para o HIV.” Só um pouco. Vou ali vomitar e já retorno.

Atualmente, no mundo, duas grandes empresas lideram e rivalizam, dólar a dólar, o mercado de antirretrovirais para o tratamento do HIV. São elas: GlaxoSmithKline (GSK) e a Gilead Sciences. Esporadicamente alguma outra empresa disputa no chão lamacento alguma moeda caída desse duopólio. No entanto, se efetivamente não houver nada no subterrâneo; se não existir um esgoto fétido ligando essas duas grandes empresas, temos que agradecer a existência de uma concorrência no mercado. O fato de não existir apenas uma empresa no domínio, muda completamente o cenário para nós, desde que isso seja real. E tudo indica que é.

Na verdade, essa disputa gera uma verdadeira corrida para quem consegue o medicamento mais rentável. Ocorre que este medicamento, nos dias atuais, para vender mais, precisa ser mais eficiente, com menos efeitos e com melhor posologia. E esse caminho vai se estreitando, porque as patentes vão vencendo, os genéricos entram no mercado, diluem os lucros, até que a disputa esteja com medicações extremamente eficazes e busquem a cura, etapa que estamos atualmente. Quem lançar primeiro, fatura mais.

Graças a essa disputa, que ocorre par e passo entre as empresas, temos, todos os anos, vários medicamentos novos e mais eficazes sendo aprovados nos EUA pelo FDA (Food and Drug Administration), e que acabam chegando aos pacientes do Brasil, ainda que com considerável atraso. Confira-se, por exemplo, a disputa de mercado que existe entre os mais recentes medicamentos para pacientes naïve (virgens de tratamento) entre a GSK e a Gilead. O medicamento Juluca vs. Bictegrvir. O Juluca é da GSK. O Bic é da Gilead. Esses medicamentos são absolutamente revolucionários do ponto de vista da toxicidade a longo prazo. Praticamente são atóxicos e sem efeitos, para a grande maioria.

Mas, como eu disse, para isso ser real, ou seja, para que a disputa conduza à cura, deve haver efetivamente a concorrência. É preciso que exista duas ou mais empresas rivais. Nesse ambiente de adversários reais, ainda que haja uma eventual tentativa de acordo para atrasar a cura ou o lançamento de uma nova medicação, a trapaça não é improvável. Afinal, representa lucro. Mas, para todo esse raciocínio fazer sentido, não pode haver uma única empresa. Não pode haver acordo subterrâneo. Não pode haver fraude. E, nesse contexto, reitero, não tenho medo do vírus. Tenho medo do Dólar.

Um grande abraço.
Allpe”

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“Algum de vocês ganha dinheiro da indústria farmacêutica?”

“Deixe-me ser franco: algum de vocês ganha dinheiro da indústria farmacêutica?”, perguntou Bernie Sanders, então candidato à presidência dos Estados Unidos, a um grupo de ativistas da luta contra a aids, em maio do ano passado, no auge da campanha para as primárias dos democratas americanos. A pergunta foi sucedida por um silêncio constrangedor.

Bernie estava na Califórnia diante de 19 ativistas, em um encontro agendado por Peter Staley, ativista e fundador do Treatment Action Group, que na década de 1990 ajudou a acelerar o desenvolvimento dos medicamentos antirretrovirais. O objetivo do encontro organizado por Staley era firmar o apoio da campanha de Sanders ao combate da aids, caso fosse eleito. Foi neste encontro, diante dos principais ativistas, que Bernie teria disparado sua pergunta. Segundo uma reportagem publicada pelo New York Times, a maioria das organizações de luta contra a aids aceita subsídios de empresas farmacêuticas — em alguns casos, grandes subsídios. É como se fosse uma relação simbiótica: as organizações sem fins lucrativos dependem do financiamento de empresas farmacêuticas, enquanto as empresas farmacêuticas dependem destas organizações para informar os pacientes sobre os seus produtos.

“A indústria farmacêutica está se aproveitando do povo americano”

Bernie não gostava deste arranjo, por enxergar a indústria farmacêutica como uma ameaça pública. Um dos pontos em sua campanha foi apoiar a Proposição 61 na Califórnia, um referendo que propunha o controle dos preços dos medicamentos: as companhias de seguros de saúde não poderiam pagar mais do que valor cobrado à Veterans Health Administration, a qual em geral recebe medicamentos com grandes descontos. A Proposição 61 preocupava alguns ativistas da luta contra a aids, porque a consequência do controle do preço de medicamentos, segundo eles, poderia ser desastrosa. Alguns pensavam que poderia reduzir a receita da indústria farmacêutica e, com isso, reduzir sua capacidade de investimento em pesquisa e novos medicamentos. Outros pensavam que o preço dos medicamentos para os veteranos é que poderia acabar por ser inflacionado. Mas Bernie Sanders não concordava com nada disso. “A indústria farmacêutica está se aproveitando do povo americano”, disse ele.

O candidato Bernie Sanders. (Foto por Scott Olson)

“O Congresso não conseguiu vencer a ganância da indústria farmacêutica”

No dia seguinte ao encontro com ativistas, a campanha de Bernie divulgou um comunicado de imprensa que centrava-se no apoio do candidato à Proposição 61: “Enquanto o Congresso não conseguiu vencer a ganância da indústria farmacêutica, o povo da Califórnia pode fazê-lo, apoiando esta votação”. Diferentemente do Brasil, de outros países da União Europeia e do mundo, os Estados Unidos não oferecem um tratamento universal e gratuito de antirretrovirais — ou outros medicamentos fundamentais para tratar doenças potencialmente letais. Muitos pacientes contam com o apoio de programas estaduais ou de organizações não governamentais para receber seu tratamento, ou pagam por seus próprios remédios, diretamente ou através de seguros de saúde. “Os americanos que vivem com HIV/aids e câncer não devem viver com medo de ir à falência por causa do custo escandalosamente alto de seus medicamentos”, disse Bernie Sanders. Ainda segundo o comunicado de imprensa da campanha de Bernie, nos Estados Unidos, os preços dos medicamentos controlados subiram mais de 10% no ano anterior — o terceiro ano consecutivo de aumento de dois dígitos nos preços –, o que faz com que um em cada cinco americanos entre de 18 e 64 anos não possa pagar pelos medicamentos que seus médicos prescrevem. “No país mais rico do mundo”, disse Sanders, “isso é inaceitável”.

“Nós não apoiamos a iniciativa”

Ao ler a nota publicada pela campanha de Sanders, tão centrada na Proposição 61 e logo no dia seguinte do encontro com os ativistas, Peter Staley ficou surpreso e postou um pequeno texto para seus 12 mil seguidores no Facebook. “O senador Sanders nunca levantou este assunto durante nossa reunião. Nós é que levantamos o assunto próximo ao fim da reunião, apenas para dizer a ele que estávamos recebendo inúmeras mensagens das principais organizações de luta contra aids na Califórnia, que estavam muito preocupadas com a iniciativa da AHF — estavam preocupados que isto viesse a impactar negativamente o acesso ao tratamento antirretroviral. Sua campanha não deveria ter emitido um comunicado de imprensa sugerindo que este foi um dos principais tópicos de discussão na reunião e que havia um entendimento comum na posição do senador sobre isto”, dizia o texto. “Nós não apoiamos a iniciativa da AHF”. Para quem não sabe, AHF é o acrônimo para Aids Healthcare Foundation.

Segundo o New York Times, o que sucedeu à publicação de Staley foi um bate boca dos mais acirrados: o diretor da campanha de Sanders, Warren Gunnels, atacou-o pessoalmente no Twitter, insinuando que Staley, que já se acorrentara em frente de Wall Street para protestar contra os altos preços dos remédios, não merecia ser chamado de “ativista”. Gunnels ainda acusou Staley de ter feito “uma fortuna com as grandes empresas farmacêuticas” e anexou um link para um site onde estariam provas de que Staley de fato recebeu financiamento de empresas como DuPont Pharmaceuticals, GlaxoSmithKline e Gilead Sciences. “Em suma”, Gunnels concluiu, “o modo de vida de Staley desde o ano 2000 parece ter sido totalmente dependente ou financiado diretamente pela indústria farmacêutica”. Staley chamou a acusação de “mentira deslavada” e o tweet de Gunnels foi excluído mais tarde. O referido site onde estariam as provas contra Staley é o Yes on Prop 61 — entretanto eu não pude encontrar a publicação exata em que Staley teria sido citado.

Peter Staley preso em protesto em frente a Astra Pharmaceuticals, Massachusetts em 1989. (Foto por Joe Smiddy)

O principal financiador do site Yes on 61 é Michael Weinstein, fundador e diretor da Aids Healthcare Foundation, a maior e mais controversa organização de aids do mundo. Weinstein também foi o financiador da Proposição 61, que acabou por se tornar o referendo mais caro de 2016, com os US$ 120 milhões gastos pela indústria farmacêutica — que a derrotou, com 53% dos votos. Mais dinheiro foi gasto contra a Proposta 61 do que em nome de qualquer candidato a governador ou a senador em 2016.

Weinstein dirige sua organização como uma “empresa social”, o que significa que a maior parte de sua receita não vem doações e angariação de fundos. A principal fonte de recursos da AHF é uma rede de farmácias e clínicas que fornecem cuidados primários de saúde a mais de 41 mil pacientes nos Estados Unidos, a maioria dos quais tem seus seguros pagos por programas de governamentais como o Medicaid. Nos últimos seis anos, o orçamento da Aids Healthcare Foundation cresceu de US$ 300 milhões para mais de US$ 1,4 bilhão. A renda excedente, oriunda do tratamento dos pacientes nos Estados Unidos, ajuda a AHF a fornecer tratamento gratuito para mais de 700 mil soropositivos em todo o mundo — o maior alcance de qualquer organização de luta contra a aids. Este modelo prodigiosamente bem sucedido previne a organização de sofrer problemas de financiamento típicos. Se suas projeções se mantiverem, atingirá US$ 2 bilhões até 2020, dando a Aids Healthcare Foundation — uma entidade privada, efectivamente sob o controle de um único homem –, um orçamento de quase metade do tamanho da Organização Mundial de Saúde.

“Nós somos Robin Hood.”

Para que esse crescimento projetado se mantenha, em parte é preciso que os custos de medicamentos permançam altos. Enquanto a redução dos preços dos medicamentos é um objetivo ideológico para Weinstein, suas farmácias podem perder receita se ele tiver êxito nessa missão. “Na maioria das vezes, quando as pessoas se beneficiam de alguma coisa, elas não fazem lobby contra isso”, disse ele recentemente. “Mas nós somos Robin Hood. Se alguém estiver escrevendo um epitáfio para esta organização algum dia, será: ‘cuspa no prato que comeu’.”

“A ampla expansão da PrEP é um desastre em saúde pública”

Muitos ativistas não apreciam muito o jeito de Weinstein: deploram não só suas táticas, mas também suas posições pouco ortodoxas sobre questões de saúde pública. Ao contrário de quase todos os outros ativistas da aids e pesquisadores de saúde pública, Weinstein se opõe à PrEP, a profilaxia pré-exposição composta por uma única pílula por dia que é capaz de prevenir pessoas soronegativas de contraírem o HIV. Ele acredita que a PrEP causará uma “catástrofe de saúde pública”, provocando um aumento perigoso no sexo de risco. “A ampla expansão da PrEP, sancionada pelo governo, é um desastre em saúde pública”, disse ele. Weinstein também fez campanha para tornar o uso de camisinha obrigatório em filmes pornográficos, chegando inclusive a introduzir um referendo estadual na Califórnia sobre o tema.

Michael Weinstein em foto para o New York Times.

Para os seus muitos críticos no ativismo da aids, Weinstein tem um espírito dirigido por ideologia, com um bolso sem fundo e uma agenda marcada pelo oportunismo financeiro e por puritanismo extremo. Não ajuda o fato da AHF estar envolta em litígios quase constantes e queixas por práticas comerciais duvidosas, incluindo o desmembramento de sindicatos, pagamento de propinas a pacientes, excesso de cobrança das seguradoras do governo e pressão sobre seus apoiadores a não financiar organizações rivais — acusações que a Aids Healthcare Foundation nega. Para seus fiéis, Weinstein não é apenas um provedor de cuidados de saúde, mas também um exemplo de moral de extrema importância em um momento em a prevenção do HIV está se debatendo e os preços dos medicamentos estão subindo.

“Vou encontrar um caminho ou fazer um”

O escritório de Weinstein é uma sala arrumada com vista para as colinas de Hollywood. Em sua mesa, uma placa recebe os visitantes com uma advertência desafiadora atribuída a Aníbal Barca, general cartaginês, uma civilização da Antiguidade que se desenvolveu na Bacia do Mediterrâneo entre o fim do século IX a.C. e meados do século II a.C. e foi uma das maiores potências comerciais e militares do seu tempo: “Vou encontrar um caminho ou fazer um”. Em uma parede, uma homenagem do Estado da Califórnia a Weinstein por seu serviço comunitário, ao lado de uma folha de papel órfã com uma frase do ex-presidente americano Harry Truman: “É incrível o que você pode fazer quando não se importa quem recebe o crédito”. Acima da citação de Truman, uma foto de Weinstein na frente do Taj Mahal, sentado sozinho e vestindo uma camisa vermelha. Não há fotos do marido de Weinstein, um imigrante vietnamita dono de um salão de beleza. Um segundo pedaço de papel colado na parede traz outra citação, esta do próprio Weinstein: “Ajude a derrotar a impotência autoimposta.”

Weinstein tem uma longa história de militância. Nascido no Brooklyn, em uma família de judeus de esquerda, aos 13 anos ele protestava contra a guerra e ajudava a irmã cineasta, carregando baterias de câmeras de 40 quilos, enquanto ela filmava protestos no Central Park. No ano seguinte, ele se juntou a um grupo de ativistas que ocupava um novo arranha-céu na cidade, para protestar contra a gentrificação — um termo até então pouco conhecido, que diz respeito à mudança nas dinâmicas imobiliárias, que muitas vezes valorizam uma região e afetam a população de baixa renda local, com o aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores de renda insuficiente para arcar com os novos custos mais elevados. Embora Weinstein tenha percebido que era gay, ele reprimiu sua sexualidade por algum tempo. Aos 18 anos, teve seu primeiro encontro homossexual com um vizinho do andar cima, também oficialmente hetero, que bateu em sua porta certa noite, quando ambas suas namoradas estavam viajando.

Em 1972, quando Weinstein tinha 19 anos, viajou para a Califórnia e se juntou à cena de ativismo gay de Los Angeles. Por ser marxista, era um outsider entre os gays da corrente principal e, por ser gay, era um outsider entre os marxistas. Weinstein decidiu iniciar seu próprio grupo, que chamou de Lavender and Red Union. O grupo terminou por se fundir com uma organização gay trotskista em Nova York chamada Spartacist League, que ofereceu a Weinstein uma posição de liderança, exigindo que ele voltasse para a costa leste dos Estados Unidos.

“Não aos campos de concentração para soropositivos”

Em 1986, o político Lyndon LaRouche apresentou um referendo na Califórnia que permitiria aos empregadores demitir pessoas com aids e autorizava o governo a colocá-las em quarentena. As primeiras pesquisas sugeriram que a iniciativa de LaRouche teria grande apoio. Weinstein começou seu próprio grupo para lutar contra a proposta de LaRouche. Em uma campanha de marketing de choque, Weinstein distribuiu panfletos com a frase: “Não aos campos de concentração para soropositivos”, e organizou uma passeata até o escritório de LaRouche. Quando medida foi derrotada por 71%, o jornal L.A. Weekly nomeou Weinstein o “Melhor jovem ativista”.

À medida que a crise da aids aumentava, Weinstein observava cada vez mais seus amigos ficarem doentes e morrerem. Médicos e enfermeiros ainda recusavam-se a cuidar de pessoas com aids. Quando os pacientes não tratados morriam, empresas funerárias muitas vezes os rejeitavam também. Em algumas partes do país, os mortos acabavam em sacos de lixo, entregues diretamente a crematórios. Mas Weinstein queria garantir que os pacientes com aids pudessem morrer de maneira digna — foi por isso que, em 1989, ao lado de Chris Brownlie, que faleceu logo depois em decorrência da aids, fundou a AHF: a Aids Hospice Foundation. Em 1990, à medida que mais medicamentos contra a aids se tornavam disponíveis, Weinstein mudou o nome do grupo para seu nome atual: Aids Healthcare Foundation. No final dos anos 90, pouco a pouco, a organização expandiu-se do sul da Califórnia para a Flórida e Nova York. E então, em 2000, fez uma mudança crucial para seu modelo de negócios: abriu sua primeira farmácia.

Outdoor da AHF em Los Angeles. (Foro por Jeff Minton para o New York Times)

Nas palavras de Weinstein para Christopher Glazek, jornalista do New York Times, o serviço de farmácia é o “combustível” da AHF. Afinal, 70% dos gastos do cuidado de saúde de pessoas soropositivas consistem em custos de medicamentos. A receita da venda destes medicamentos pode ser uma mina de ouro, não apenas para as empresas farmacêuticas, mas também para algumas farmácias, como a Weinstein, que aproveitam um programa federal americano chamado 340B.

Aprovado em 1991, o 340B permite que as farmácias que servem populações desfavorecidas comprem medicamentos diretamente dos fabricantes, em média, com um desconto de 35%, mas ainda sendo reembolsadas pelas seguradoras de saúde por 100% do preço de atacado. Desse modo, o 340B permite que as farmácias mantenham cerca de 35% do valor da indústria farmacêutica — uma forma indireta de subsidiar os cuidados de saúde para as pessoas de baixa renda. À medida que o preço dos medicamentos contra a aids aumentou nos últimos anos, os cofres da AHF também aumentaram. O custo da primeira linha de tratamento para o HIV nos Estados Unidos, a pílula combinada Genvoya da Gilead (Elvitegravir + Tenofovir + Emtricitabina + Cobicistat), é de cerca de US$ 34.000 por paciente por ano. (Os custos aproximados do tratamento no Brasil você pode ver aqui.) Isso quer dizer que, para cada paciente que retira um medicamento em uma farmácia da AHF, US$ 22.000 vão para Gilead, e US$ 12.000 vão para AHF. As farmácias da fundação atendem a 50 mil pacientes nos Estados Unidos, gerando cerca de US$ 1 bilhão por ano em receita. Esse dinheiro subsidia a expansão e o ativismo da Aids Healthcare Foundation.

O “público consumidor” potencial para uma organização como a AHF é oceânico. Em 2014, 37 mil americanos foram infectados pelo HIV. Esse número diminuiu apenas ligeiramente na última década, à medida em que a epidemia americana se estabeleceu em um equilíbrio de crescimento lento e custos crescentes. Estima-se que apenas 40% dos soropositivos americanos estejam em tratamento — uma taxa inferior a da África do Sul. Weinstein acredita que as organizações sem fins lucrativos dos Estados Unidos, a que ele se refere de forma pejorativa como “Aids S/A”, foram inúteis em controlar a epidemia. Para ganhar, Weinstein acredita que a “Aids S/A” precisa ser posta de escanteio, para que AHF possa liderar o caminho.

Para cada novo soropositivo que entra para AHF, o representante de vendas recebe US$ 300.

No ano passado, Weinstein convocou uma reunião da equipe de vendas da AHF — uma divisão que não existe na maioria das organizações sem fins lucrativos, porque a maioria das organizações sem fins lucrativos não tem nada para vender. Mas a AHF vende cuidados de saúde a uma base de clientes majoritariamente composta de pacientes que recebem assistência do governo. Cada novo paciente representa mais dinheiro à organização. A equipe de vendas da AHF é responsável pelo recrutamento de novos pacientes, uma função que desempenham através da limpeza de abrigos de sem teto, hospedagem em clubes gays, caminhões que oferecem testes de HIV e muitos outros programas. Para cada novo soropositivo que entra para uma farmácia da AHF, o representante de vendas recebe US$ 300, e um adicional de US$ 300 quando os pacientes retornam à clínica uma segunda vez — o segundo preenchimento é um preditor mais confiável de retenção do paciente. Além de procurar os pacientes diretamente, os representantes de vendas também oferecem hospedagem e almoços para médicos de regiões com alta incidência de HIV. (Em 2015, dois ex-funcionários processaram a AHF argumentando que os incentivos oferecidos a cada por paciente eram como propinas ilegais. O processo ainda não chegou a uma resolução e AHF nega as alegações).

O encontro dos representantes de vendas incluía um exercício destinado a treinar conversação com os críticos da AHF. Neste treino, os participantes faziam uma espécie de teatro, assumindo papeis: poderiam representar a San Francisco Aids Foundation, cujos líderes são vocalmente críticos à AHF, ou um defensor da PrEP, alguém indignado por Weinstein se opor à pílula de prevenção do HIV. Uma mulher se dispôs a participar, dramatizando uma integrante da primeira.

“— Ok! Ótimo. Você sabia que inauguramos o primeiro centro contra aids em Los Angeles há cerca de 28 anos?”, perguntou Weinstein. “Desde então, crescemos rapidamente, principalmente no exterior.”

“— Eu sei que vocês cresceram rapidamente”, retrucou a mulher. “Você é o Walmart do HIV”, prosseguiu ela. “Eu trabalho com HIV há 30 anos! Eu vivi a epidemia. Eu vi todos os meus amigos morrerem. Vocês se anunciam como ‘sem fins lucrativos’, mas eu sei a verdade: vocês são uma fonte de lucro enorme! Não consigo nem encontrar suas informações financeiras em seu site — você as esconde.”

“O fato de termos tomado um modelo de negócios do setor privado e de utilizá-lo em uma organização sem fins lucrativos é algo positivo!”

Os representantes riram-se. Todos ali haviam ouvido uma versão dessa conversa por volta de mil vezes. Weinstein tomou a palavra e concluiu a sessão contando uma pequena história sobre uma freira que ele conheceu. Ela dirigia um hospital, o que exigia que ela tomasse decisões orçamentárias difíceis em nome de ajudar as pessoas. Sempre que as pessoas a criticavam por ser dura, ela tinha uma resposta pronta: “Sem receita, sem missão!” Isso, de acordo com Weinstein, é o que os críticos de AHF não conseguiram entender. “Não devemos pedir desculpas pelo nosso sucesso”, disse ele. “O fato de termos tomado um modelo de negócios do setor privado e de tê-lo utilizado em uma organização sem fins lucrativos é algo positivo!”

Weinstein com outros ativistas em 2012. (Foto por Ken Cedeno)

2016 foi o melhor ano de Weinstein. Ele abriu seis novas farmácias e uma clínica nos Estados Unidos e iniciou novos programas na Indonésia, Bolívia e Zimbábue. No lado da ativismo, porém, sofreu reveses significativos. Em novembro, sua iniciativa de preços de medicamentos falhou, com a maioria votação contra o referendo da Proposição 61. O mesmo aconteceu com sua iniciativa de preservativos em pornografia. Ao que parece, o público não está ao lado da agenda de Weinstein.

Se o referendo tivesse sido aprovado, Weinstein acredita que a Big Pharma começaria a quebrar.

Se o referendo tivesse sido aprovado, Weinstein acredita que a Big Pharma começaria a quebrar. O preço por medicamento seria um preço universal, pois até mesmo seguradoras privadas exigiriam pagar pela nova taxa pública. Bilhões de dólares seriam tirados da indústria farmacêutica, o que quer dizer que a indústria não teria mais a mesma força para intimidar congresso americano em apoiar seu regime de patentes internacionais. Os preços dos medicamentos despencariam no mundo todo. Os medicamentos contra a aids fluiriam livremente e a operação de lobby da indústria encolheria tanto que naufragaria.

Weinstein, muitas vezes, parece consolar-se da derrota reafirmando seu compromisso com sua luta. A percepção de Christopher Glazek, jornalista do New York Times, é que é isso é o que o torna um obstáculo para os seus críticos: é difícil, e às vezes impossível, distinguir seus estratagemas cínicos de seus compromissos ideológicos. A vontade de poder e a vontade de mudar o mundo parecem fundir-se em uma única pessoa. É difícil distinguir se ele se importa mais com a luta do que com a vitória. Weinstein parece acreditar que as as pessoas ainda vão chegar ao seu ponto de vista — e, se não o fizerem, tudo bem: a Aids Healthcare Foundation continuará a prosperar.


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Um pequeno dispositivo que permite que uma equipe médica manipule geneticamente o sangue de um paciente, capaz de levar novos tratamentos contra o câncer, HIV e outras doenças, eliminaria a necessidade das salas esterilizadas, que custam milhões de dólares, tornando a terapia genética mais viável, mesmo para os países mais pobres.

A chamada terapia genética portátil, desenvolvida por cientistas no Fred Hutchinson Cancer Research Center, conseguiu levar células estaminais do sangue modificadas que eram tão boas — ou até melhor — do que aquelas fabricados em salas esterilizadas, altamente regulamentadas, além de exigir menos da metade da equipe, de acordo com um estudo publicado na Nature Communications. O estudo observou que células adaptadas também tiveram sucesso em repovoar o sistema sanguíneo, quando testadas em dois modelos animais diferentes. Ainda não foi testado em humanos.

O dispositivo portátil sugere uma solução para um dos desafios mais complicados da terapia genética: como tornar estes tratamentos emergentes, de alta tecnologia, acessíveis e disponíveis, para além dos poucos centros de pesquisa especializados no mundo?

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A Dra. Jennifer Adair em frente ao dispositivo portátil que ela começou a desenvolver desde 2014.

“Terapias genéticas não estão mais restritas a um número muito pequeno de instalações altamente sofisticadas.”

“Tínhamos que pensar sobre como construir infraestrutura e instalações de milhões de dólares para salas esterilizadas em clínicas no mundo todo — o que não é viável — ou teríamos que pensar em simplificar esse processo, para o que eu originalmente concebi neste pequeno dispositivo”, disse a Dra. Jennifer Adair, pesquisadora do Fred Hutch e principal autora do estudo. “Esta foi a primeira prova de que a ‘terapia genética portátil’  poderia funcionar. Terapias genéticas e terapias celulares que envolvem células geneticamente modificadas não estão mais restritas a um número muito pequeno de instalações altamente sofisticadas.”

Até agora, nenhuma terapia genética foi aprovada para uso nos Estados Unidos. Contudo, milhares de pacientes sofrem de pelo menos 15 ou 20 doenças, herdadas ou infecciosas, e cânceres que estão sendo tratados com terapias experimentais, muitas das quais estão demonstrando sucesso. Uma vez que o complexo processo requer equipamentos de alta tecnologia e pessoal altamente treinado, tais estudos ainda são limitados a cerca de uma dúzia centros de pesquisa espalhados por oito países — Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido, China e Austrália.

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Dr. Hans-Peter Kiem.

O sistema semi-automatizado desenvolvido pela equipe de Adair, que usou instrumentação da Miltenyi Biotec, reduziu o espaço necessário para produzir células modificadas: de 46m² para menos de 1m² e a equipe de 5 ou 10 pessoas para apenas um ou dois, de acordo com o oncologista e autor sênior do estudo Dr. Hans-Peter Kiem, pesquisador de terapia genética no Fred Hutch e na Universidade de Washington. O novo dispositivo faz todo o trabalho em menos da metade do tempo. “É revolucionário”, disse Kiem. “Vai mudar a nossa forma de produzir terapia genética e terá um grande impacto sobre transplantes, células-tronco e provavelmente também em imunoterapia para pacientes com doenças genéticas, HIV e câncer.”

 

Uma ideia se formando

Em 2008, Kiem contratou Adair para executar um estudo clínico de terapia genética para tratar glioblastoma, a forma mais letal de câncer no cérebro. O estudo exigia que fossem extraídas células estaminais do sangue de um paciente para inserção de um gene especial com “resistência”, concebido em laboratório para proteger as células do sangue dos danos causados pelos fármacos quimioterápicos. Infundidas de novo no paciente, as células resistentes iriam  se multiplicar e, então, permitir que os pacientes com glioblastoma recebessem doses mais elevadas de quimioterapia para matar o câncer.

A terapia genética baseada em células estaminais envolve a remoção de sangue ou da medula óssea de pacientes, que separa as células estaminais — que dão origem à todas as células do sangue e do sistema imunológico do corpo — usando um vírus desativado para transferir instruções genéticas para o tratamento ou prevenção de uma doença para as células. (Os cientistas também estão investigando a utilização de alvos de nucleases, como CRISPR para editar genes, mas a maioria das terapias genéticas atualmente testadas em seres humanos dependem de vetores virais.) Depois de serem infundidas de volta no paciente, as células estaminais propagam novas células que transportam a modificação.

“Quando é que vamos ser capazes de fazer isso por mais de um paciente com câncer por semana?”

Para Adair, a ideia da terapia genética portátil surgiu em 2009. Ela estava a caminho de casa em um táxi à 1 hora da manhã, depois de ter aplicado células geneticamente modificadas no primeiro paciente do recente estudo de câncer no cérebro. Adair passara a maior parte dos últimos quatro dias em uma sala esterilizada estritamente regulamentada, onde cada pausa para ir ao banheiro  significava ter que se lavar e vestir novamente a roupa esterilizada. A maratona de 96 horas de trabalho quase constante e sob a pressão do tempo a deixou física e mentalmente exausta. “Quando é que vamos ser capazes de fazer isso por mais de um paciente com câncer por semana?”, ela lembra-se de pensar. “Me pareceu angustiante.”

Cinco anos depois, a terapia genética baseada em células-tronco do sangue, embora ainda em fase experimental, estava explodindo. Os pacientes daquele estudo em fase inicial sobre câncer no cérebro estavam vivendo meses ou até anos mais do que a maioria das pessoas com glioblastoma costumam sobreviver. Adair estava conduzindo estudos clínicos adicionais, incluindo um para uma rara doença no sangue chamada anemia de Fanconi, quando Kiem conseguiu apoio para pesquisar a terapia celular e genética para curar o HIV, o vírus que causa a aids — algo antes considerado inimaginável.

“Se nós curarmos o HIV em um paciente em os Estados Unidos, como vamos fazer esta mesma cura chegar aos países que mais precisam dela?”

Foi em uma conferência de 2014 sobre a cura do HIV que Adair teve sua segunda epifania, desta vez a respeito dos custos. Mais de 25 milhões das cerca de 36,7 milhões de pessoas no mundo que vivem com HIV estão na África subsaariana, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nenhum país daquele continente poderia financiar as salas esterilizadas multimilionárias ou arcar com os custos altíssimos de qualquer terapia que podem sair delas. Adair lembra de estar sentada na conferência e pensando: “Se nós curarmos o HIV em um paciente nos Estados Unidos, como vamos fazer esta mesma cura chegar aos países que mais precisam dela?”

 

“Por que não agora?”

Adair não era a única pessoa que fazia estas perguntas. Mais recentemente, em julho, pesquisadores e ativistas na Conferência Internacional de Aids em Durban, África do Sul lembraram o tratamento antirretroviral, que salva tantas vidas ao suprimir o HIV, chegou à África subsaariana vários anos após estes medicamentos estarem disponíveis nos países desenvolvidos. Os ativistas estão preocupados que a mesma coisa viesse a acontecer com a cura no futuro.

“A cura do HIV ainda está em sua infância.”

“A cura do HIV ainda está em sua infância. Por enquanto, ela é restrita principalmente aos países do hemisfério norte e de alta renda”, disse a Dra. Paula Munderi do Medical Research Council e Uganda Virus Research Institute, em um simpósio sobre a pesquisa global da cura do HIV. “Meu apelo hoje é que os países de baixa renda — África, em particular, que tem a maior parte dos pacientes — não podem ser deixados de fora da agenda de pesquisa.”

Adair tinha ouvido outros pesquisadores de terapia genética que indeferiram perguntas sobre a acessibilidade, dizendo: “Primeiro, temos de mostrar resultados com a terapia genética, para então vamos nos preocuparmos com isso.” Mas ela não estava de acordo. “Por que não agora?”, ela lembra-se de pensar. “Será que existe uma maneira mais simplificada de fazermos isso?”

Quando Adair tornou-se chefe de seu próprio laboratório, em 2014, com incentivo de Kiem, ela usou o financiamento do Fred Hutch para trabalhar na busca por uma maneira de fazer essas terapias ainda experimentais se tornarem disponíveis e acessíveis onde quer que eles sejam necessárias.

 

“Quero que esse dispositivo faça tudo”

No estudo clínico de câncer do cérebro, Adair utilizou a primeira geração do dispositivo feita pela Miltenyi Biotec para separar as células estaminais a partir de outras células sanguíneas. Esse processo envolvia a adição de esferas de metal específicas na medula óssea retirada de pacientes para, em seguida, usando um ímã, retirar dali as células-tronco.

Mas quando começou a trabalhar em um estudo clínico sobre anemia de Fanconi, uma desordem genética rara que leva à insuficiência da medula óssea, ela precisava de algo mais rápido. Esses pacientes têm um número pequeno de células-tronco e são muito suscetíveis aos danos causados pela exposição ao oxigénio ambiente. Para limitar o seu tempo de exposição, Adair tinha que encontrar uma maneira de acelerar o processo de separação e modificação das células.

Por acaso, a Miltenyi tinha acabado de enviar o modelo da máquina de segunda geração, que era automatizada, acelerava o processo com as esferas de ímã e era capaz de processar os volumes exatos de medula óssea necessários para o estudo. Trabalhando com Tim Waters, da Miltenyi, Adair dirigiu a reprogramação do dispositivo para ver se ele poderia ir ao encontro das suas necessidades. Quando os testes iniciais funcionaram, o Fred Hutch comprou a nova máquina e obteve aprovação federal para usá-la no estudo sobre anemia da Fanconi, tratando o primeiro paciente em 2014.

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O tempo todo ela pensava: “eu quero que esse dispositivo faça tudo”. A máquina da Miltenyi, chamada de CliniMACS Prodigy, era pequena o suficiente. E era um sistema fechado: o que significa que não tem exposição ao ar ambiente. Pode ser automatizada. Sua interface era semelhante à uma máquina de aférese, um outro dispositivo clínico que separa o sangue em seus componentes e que equipes hospitalares em muitos países em desenvolvimento já estão treinadas para usar.

Adair compartilhou sua grande visão com Waters, um dos coautores do artigo da Nature Communications. Ela sugeriu que eles reconfigurassem e reprogramassem o dispositivo para fazer todas as etapas, incluindo as etapas feitas em ambiente esterilizado, as quais incluem adicionar o vetor viral e remover dos reagentes residuais para, em seguida, desenvolver componentes específicos para cada doença, os quais estariam disponíveis em kits, mantidos em congeladores de farmácia. Incluído em cada kit descartável estaria a tubagem para transportar as células de sangue do paciente, a partir de um saco estéril para dentro da máquina. Uma enfermeira precisaria então prender o saco na máquina, adicionar os reagentes químicos do kit para puxar para fora as células estaminais, nutrientes para suportar o crescimento das células e o vetor viral modificado para fazer a transferência de genes para cada doença. Em seguida, tubos descartáveis adicionais levariam as células modificadas a um segundo saco estéril, o qual seria usado para ir direto para a via intravenosa do paciente.

Reconfigurar o dispositivo significava cálculos tediosos, testes mecânicos e reaprender os princípios da física que ela tinha esquecido da faculdade — coisas que Adair disse nunca ter imaginado fazer. “Quando me deparei com este projeto”, disse ela, “eu estava tão motivada pelo problema que estava abordando — especificamente, dos lugares no mundo que ainda não têm qualquer acesso a este tipo de terapia — que fiquei animada. Por sua vez, outras pessoas ficaram animadas.”

 

Próximos passos

O dispositivo em si custa cerca de US$ 150.000,00 para compra — um investimento único que seria usado para milhares de pacientes. Cada kit individual custaria cerca de US$ 26.000, segundo Adair.

Embora não seja barato, esse custo único, se comparado ao tratamento todo de várias doenças, é favorável. Veja o HIV, por exemplo: o tratamento vitalício com medicamentos antirretrovirais para suprimir o vírus está orçado em cerca de US$ 600.000. A terapia genética portátil também custa menos do que o tratamento de terapia genética em instituições de pesquisa atualmente — entre US$ 38.000 e US$ 55.000, além da sala esterilizada e de outros custos de infraestrutura, de acordo com Adair. O novo dispositivo também poderia ser usado nos Estados Unidos ou na Europa, o que poderia ajudar a reduzir os custos, uma vez que requer menos infraestrutura e menor pessoal.

Adair e sua equipe, que inclui outros pesquisadores e cientistas do Fred Hutch e da Washington State University, passaram os últimos 18 meses desenvolvendo o dispositivo, comparando os produtos produzidos aos fabricados em salas esterilizadas e testando as células modificadas em modelos animais, pré-requisitos fundamentais para a obtenção de licença da US Food and Drug Administration para então testar os produtos em seres humanos. Ela está esperando para enviar um dos dispositivos para uma clínica que não está em um centro de pesquisa de alta tecnologia, a fim de testar sua facilidade de uso.

“Estamos facilitando mais pessoas a serem capazes de explorar estes processos.”

“Há provavelmente mil modificações que ainda poderiam melhorar a eficiência do dispositivo”, disse ela. “Mas, ao criar uma plataforma que não requer que você esteja em uma das instituições acadêmicas especializada em terapia genética, estamos facilitando mais pessoas a serem capazes de explorar estes processos e, potencialmente, incorporar suas próprias mudanças.”

Em 20 de outubro de 2016 por Mary Engel para o Fred Hutch News Service


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A Comissão Intersetorial de Orçamento e Financiamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) apresentou, nesta quinta-feira (06/10), um estudo que comprova a perda de R$ 434 bilhões ao SUS, caso seja aprovada a PEC 241. A reunião ocorreu no Plenário da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A proposta que congela os investimentos em saúde e educação pelos próximos 20 anos está prevista para ser votada no Plenário da Casa na próxima segunda-feira (10).

Se aprovada a PEC 241, a partir de 2017 os recursos destinados à saúde terão como base de cálculo 15% da Receita Corrente Líquida (RCL), estimada em R$ 758 bilhões no Projeto de Lei Orçamentária. Isso representará o valor de R$ 113,74 bilhões, que ficará congelado até 2036. A partir de 2018, a correção será somente pela variação anual da inflação, calculada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). As perdas deste valor congelado em 2018 até 2036 totalizam R$ 438 bilhões, de acordo com as projeções baseadas nos cálculos do Grupo Técnico Institucional de Discussão de Financiamento do SUS, que compõem o estudo apresentado pela COFIN.

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“Todo ganho que houver quando a economia voltar a crescer não virá para a saúde.”

Para o CNS, o congelamento significa uma ameaça ao bem estar das famílias e dos trabalhadores. “Os níveis de necessidade da população em relação à saúde, atendidos em 2017, terão de ser mantidos até 2036, o que é impossível. A cada ano os habitantes terão menos recursos do que tinham antes, porque a população não vai parar de crescer e, com isso, os custos do setor da saúde também aumentarão, enquanto o investimento estará congelado por duas décadas”, avalia o consultor da COFIN, Francisco Funcia. “Sem falar que todo ganho que houver com o aumento da receita quando a economia voltar a crescer, não será nem proporcionalmente dividido com a saúde. Não virá nada para a saúde”, completa.

A PEC 241 estabelece um teto para as despesas primárias (que atendem as necessidades da população) e não inclui as despesas financeiras, como os juros, por exemplo, que continuarão sem nenhum limite. O CNS entende que existem outras alternativas para equacionar as contas públicas, que não prejudiquem a população, entre elas a tributação sobre grandes fortunas, a revisão da renúncia fiscal (que está projetada acima de R$ 300 bilhões para os próximos anos), aumentar a tributação sobre tabaco, álcool e motocicletas (que geram demandas de saúde e despesas no setor) e a correção da tabela do Imposto de Renda , de modo a tributar os que estão no topo da pirâmide social.

“50 mil pessoas recebem por ano R$ 4,2 milhões e tem 66% dessa renda não tributada, enquanto quem ganha até dez salários mínimos tem 20% da renda não tributada.”

“O Conselho não esta fechando os olhos para as contas públicas, já apresentamos em 2015 alternativas para isso. Atualmente, 50 mil pessoas declarantes de imposto que estão no topo da pirâmide recebem por ano R$ 4,2 milhões e tem 66% dessa renda não tributada, enquanto quem ganha até dez salários mínimos tem 20% da renda não tributada. Essa injustiça que alivia a tributação dos mais ricos também precisa ser enfrentada como solução, nem que seja provisória. Este é o princípio de uma sociedade e de bem estar que se pretende construir, ou então vamos para a barbárie”, afirma Funcia.

Por Viviane Claudino em 7 de outubro de 2016 para a Assessoria CNS


planalto

O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, explicou que a proposta que cria um limite para a expansão dos gastos públicos protege o orçamento da saúde e da educação. “Essas duas áreas terão tratamento prioritário”, observou.

Almeida reforçou que, com a atual redação da PEC, as duas áreas não perderão verbas. “Não existe teto para a saúde e para a educação, existe só um valor mínimo a ser aplicado. Espero que os deputados e senadores, no futuro, venham a aprovar orçamentos para a saúde e para a educação superiores a esse mínimo”, afirmou.

Mansueto Almeida demonstra, em vídeo, os impactos da medida e a importância dela para as contas públicas Reprodução/Portal Planalto
Mansueto Almeida demonstra, em vídeo, os impactos da medida e a importância dela para as contas públicas (Reprodução/Portal Planalto)

O texto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 permite organizar as contas públicas. Com a aprovação dela, o Orçamento poderá crescer apenas o equivalente à inflação do ano anterior. Isso, na prática, significa um avanço real zero. Ou seja, em algum momento, o País deixará de ter déficit primário.

Mansueto ponderou que a nova regra não tem qualquer impacto na educação para 2017, o primeiro ano de vigência da PEC. “O gasto da educação vai seguir a regra constitucional que determina que 18% de tudo o que o governo arrecada tem de ser aplicado em educação. Nos anos seguintes, o valor mínimo a ser aplicado será corrigido pela inflação”, explicou.

No caso da saúde, informou o secretário, o orçamento da área aumentará. A regra atual determina que 13,7% da arrecadação deveria ser aplicada na área. Com a PEC, o percentual de 15%, que estava previsto anteriormente para ser atingido em 2020, vira realidade no próximo ano. Assim, o valor mínimo a ser investido em saúde vai crescer R$ 10 bilhões. O secretário ressaltou, porém, que, a partir de 2018, os pisos para educação e saúde passam a ser corrigidos pela inflação do ano anterior.

Em 10 de outubro de 2016 pelo Portal do Planalto


businesswire

Abivax, uma empresa de biotecnologia que quer usar o sistema imunológico para eliminar doenças virais, concluiu um segundo marco importante em seu projeto estratégico de inovação, chamado CaReNa.

Iniciado em 2013, este projeto colaborativo, liderado pela Abivax e com a participação de CNRS e Theradiag, pretende desenvolver novas soluções terapêuticas e de diagnóstico que visam combater as interações proteicas com o RNA do HIV. O custo total do projeto é de 18,2 milhões de Euros, dos quais 13,6 milhões serão aportados pela Abivax. O projeto tem a ajuda da Bpifrance com empréstimos reembolsáveis e subsídios, no total de 7,3 milhões de Euros, dos quais 5,2 milhões são usados em operações da Abivax. Até agora, a empresa recebeu 3,4 milhões e 1,8 milhão devem ser aportados até o final de 2018.

A conclusão deste segundo marco no CaReNa é a consequência dos progressos alcançados no desenvolvimento do projeto emblemático da companhia, a ABX464, um candidato terapêutico em estágio de estudo clínico que pode vir a se tornar uma parte essencial na cura funcional do HIV/aids.

A Abivax desenvolveu a ABX464 usando sua plataforma tecnológica antiviral única e patenteada, criada em colaboração com o CNRS e do Instituto Curie, dedicada a produzir pequenas moléculas antivirais com um novo modo de ação. A plataforma é baseada em sistemas de rastreamento biológico, construída para que possamos compreender os processos envolvidos nas emendas do RNA viral dentro das células hospedeiras humanas, as quais podem revelar a capacidade de compostos químicos desenvolvidos pela da Abivax para inibir as interações entre RNA e proteína.

A ABX464 é uma pequena molécula pioneira e com propriedades únicas de ação. Ela não apenas demonstrou ser capaz de inibir a replicação virai in vitro e in vivo, como também em induzir uma redução de longa duração da carga viral do HIV, após a interrupção do tratamento, em modelos animais. Como resultado, os cientistas acreditam que esta molécula pode ser a primeira de uma nova classe de medicamentos antirretrovirais, os quais podem vir a conduzir a uma cura funcional para pacientes com HIV.

A ABX464 está atualmente em estudos clínicos de fase intermediária e pode ser aprovado para uso em pacientes já em 2020. Em 2014, dois estudos de Fase I realizados em indivíduos saudáveis demonstrou que o produto foi bem tolerado nas doses terapêuticas previstas. Em 2015, um estudo de fase IIa em 80 pacientes infectados com o HIV mostraram a primeira evidência da atividade da ABX464 em seres humanos. Os dados deste estudo de escalonamento de dose, controlado por placebo, apresentados em fevereiro 2016 durante a CROI (Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas), em Boston, e em julho 2016 durante a 21ª Conferência de Aids, em Durban, África do Sul, demonstraram a segurança e eficácia da ABX464 em monoterapia no tratamento de pacientes infectados com o HIV não tratados previamente. Uma redução da carga viral de pelo menos 0,5 log (mais do que 68% de redução) foi observada em 1 paciente entre 6 sob 75mg, 2 pacientes de 6 no grupo de 100mg e 4 pacientes de 6 sob 150mg. Não houve variação significativa na carga viral nos 6 pacientes que receberam placebo. Os efeitos indesejáveis observados foram aqueles normalmente observados no contexto de tratamentos antivirais.

Para demonstrar o efeito de longa duração em pacientes com HIV, um segundo estudo de Fase IIa foi iniciado na Espanha, França e Bélgica. Conhecido como ABX464-004, este estudo foi concebido para demonstrar o efeito a longo prazo da ABX464 que havia sido observada anteriormente, durante os estudos pré-clínicos, sobre a carga viral. O novo estudo pretende recrutar 28 pacientes que vivem com HIV, cuja infecção está bem controlada com Darunavir, um dos medicamentos referência tratamentos antirretrovirais contra a aids. ABX464 está sendo administrada em 21 destes pacientes em adição ao seu tratamento antirretroviral normal. Os 7 pacientes restantes recebem placebo em adição ao seu antirretroviral. Após 28 dias, todos os tratamentos são interrompidos e o estudo, em seguida, mede o tempo até o reaparecimento do vírus no sangue destes pacientes. O principal critério de eficácia do estudo é o momento de rebote da carga viral. Este rebote tem sido estudado e demonstrado que provêm dos “reservatórios de HIV”, as áreas em que o vírus está escondido no corpo e que não é afetada pelos diferentes tipos de antirretrovirais atuais. Os resultados preliminares deste estudo estarão disponíveis antes do final de 2016.

“A validação que recebemos da Bpifrance para a conclusão deste segunda importante etapa do CaReNa representa um reconhecimento dos avanços alcançados no desenvolvimento da ABX464 e traz um financiamento adicional para avançar em nossas metas futuras”, disse o Dr. Hartmut Ehrlich, professor e CEO da Abivax. Somos gratos a Bpifrance, que tem apoiado o projeto desde o início e continua a nos trazer recursos importantes para este programa de desenvolvimento e expansão da nossa plataforma de tecnologia antiviral.”

 

Sobre a Abivax:

A Abivax é uma empresa inovadora de biotecnologia, focada em estimular o sistema imunológico para eliminar doenças virais. a Abivax utiliza três plataformas tecnológicas para o desenvolvimento de medicamentos: antiviral, adjuvante e uma plataforma de hiper-imunes. O ABX464, seu composto mais avançado, está atualmente na fase II de estudos clínicos e é uma pequena molécula antiviral oral pioneira em bloquear a replicação do HIV através de um único mecanismo de ação. Além disso, a Abivax está avançando em estudos pré-clínicos contra outros alvos virais, coom chikungunya, ebola e dengue, bem como um adjuvante (um intensificador imune). Vários desses compostos estão previstos para entrar desenvolvimento clínico dentro dos próximos 12 a 18 meses.

Em 13 de setembro de 2016 por BusinessWire

 

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Glaxo
Se o Dolutegravir da Glaxo for capaz de tratar o HIV com um regime de dois medicamentos, em vez de uma combinação de três medicamentos, seria um divisor de águas, disse Andrew Witty, CEO da farmacêutica. Foto por Luke MacGregor/Reuters.

A GlaxoSmithKline está direcionando o futuro do seu negócio de HIV em uma aposta audaciosa: derrubar a estratégia de tratamento atual, que há décadas transformou uma doença fatal em uma condição crônica.

O tratamento contra o HIV pouco mudou desde meados dos anos 1990.

O tratamento contra o HIV, o vírus que causa a aids, pouco mudou desde meados dos anos 1990, quando a introdução de uma nova classe de medicamentos melhorou dramaticamente a terapia contra o HIV. Os médicos descobriram que a combinação de um novo tipo de medicamento antirretroviral com dois medicamentos de uma classe mais antiga impediam o vírus de desenvolver resistência.

Desde então, o regime de três medicamentos manteve-se a abordagem padrão, com os esforços no desenvolvimento de drogas focados em sempre fazer combinações triplas mais poderosas.

Tomar menos medicamentos vai resultar em menos efeitos colaterais.

Mas os executivos da Glaxo querem mudar isso. Eles esperam que a mais recente pílula contra o HIV, da empresa sediada no Reino Unido, seja poderosa o suficiente para suprimir o vírus com a ajuda de apenas uma outra droga. Segundo o presidente-executivo Andrew Witty, este seria um “divisor de águas”, uma vez que tomar menos medicamentos vai resultar em menos efeitos colaterais. Agora, a ViiV Healthcare, empresa de propriedade majoritária da Glaxo e em que a Pfizer americana e a Shionogi & Co. japonesa detém participações minoritárias, está começando o longo processo de prová-lo.

Até agora, não há casos relatados de resistência viral sob o Dolutegravir em pacientes novos no tratamento.

O medicamento em questão, o Dolutegravir, é de uma classe de medicamentos conhecidos como inibidores de integrase, que reduzem rapidamente o nível de vírus no sangue. Ele já está aprovado para uso como parte de terapia tripla tradicional e, até agora, não há casos relatados de resistência viral sob o Dolutegravir em pacientes novos no tratamento. Isso faz dele o único entre os inibidores da integrase, de acordo com David Hardy, médico especialista em HIV e porta-voz do grupo ativista HIV Medicines Association.

Enquanto o perfil de Dolutegravir sugere que ele poderia suprimir o HIV sem a ajuda de qualquer outro medicamento, a Glaxo está seguindo uma abordagem passo a passo de precaução para confirmar sua promessa, disse uma porta-voz da empresa.

O benefício mais importante de um regime de duas drogas é que ele resultaria em menos efeitos colaterais. Tais efeitos incluem náuseas, diarreia, problemas renais e ósseos — as razões mais comuns para os pacientes alterarem seu regime de tratamento. Além disso, poderia aliviar o fardo financeiro do tratamento.

Mudar apenas um quarto dos pacientes para Dolutegravir mais Lamivudina iria abater mais de US$ 3 bilhões do custo do tratamento.

Rochelle Walensky, professora associada de medicina na Harvard Medical School, estima que mudar apenas um quarto dos pacientes atualmente em terapia tripla para Dolutegravir mais Lamivudina (3TC) — um fármaco mais antigo e genérico contra o HIV — iria abater mais de US$ 3 bilhões do custo do tratamento de HIV ao longo de um período de cinco anos. A redução de custos é menos evidente se as duas medicações parte do esquema ainda estiverem sob proteção de patente.

A Glaxo está colocando “enorme foco e prioridade” no desenvolvimento de regimes de dois medicamentos, disse Witty. De acordo com a análise do UBS, a oportunidade é significativa: se a terapia dupla tornar-se a estratégia que os médicos preferem, a Glaxo poderia pegar uma fatia muito maior do mercado e ultrapassar a Gilead Sciences, se tornando a mais importante no tratamento do HIV dentro de três anos.

Durante o ano passado, a Glaxo começou vários grandes estudos clínicos que visam mostrar que a combinação de Dolutegravir com apenas um outro medicamento contra o HIV funciona tão bem em suprimir o vírus como a terapia tripla tradicional.

Dentre o conjunto de estudos, está o teste do Dolutegravir ao lado de Rilpivirina, um medicamento feito pela Janssen Pharmaceuticals, parte da Johnson & Johnson. Em outro, testa-se a combinação do Dolutegravir com Lamivudina, o medicamento genérico utilizado na análise do Dr. Walensky.

Ele também planeja iniciar um estudo de fase final para avaliar a combinação de uma versão injetável de Dolutegravir com Rilpivirina. Um estudo anterior demonstrou que esta combinação é tão eficaz quanto um regime de três drogas, quando o vírus já foi suprimido por um período inicial de terapia tripla.

Os ensaios só devem começar a dar resultados no próximo ano, mas um pequeno estudo liderado por Pedro Cahn, um médico argentino, já traz motivo para otimismo. Em 48 semanas de estudo, o Dolutegravir com Lamivudina suprimiu os níveis de HIV em 18 dos 20 pacientes não tratados previamente.

Mesmo se os grandes estudos clínicos da Glaxo tiverem sucesso, eles poderiam enfrentar outro desafio: a inércia. No ano passado, a Gilead lançou uma série de terapias triplas usando um novo fármaco para o HIV, chamado TAF, que pode ser administrado em uma dose muito menor do que o seu antecessor, causando menos danos para os rins.

Christoph Wyen, especialista em HIV do Hospital Universitário de Cologne, na Alemanha, disse que o advento destas terapias triplas menos tóxicas reduz o incentivo para os médicos mudarem o regime de seus pacientes para esquemas mais simples. Ele disse que a terapia dupla pode decolar mais rapidamente em pacientes mais velhos, que são mais propensos a ter complicações de saúde relacionadas com a idade.

Ambas Gilead e Glaxo têm posições fortes no mercado do HIV, com TAF e Dolutegravir, respectivamente. Mas a Gilead está desenvolvendo um novo inibidor da integrase que, se comprovado igual ao Dolutegravir, poderia dar uma vantagem importante no mercado da terapia tripla.

O pior cenário para a Glaxo seria se as suas terapias duplas falharem e se o inibidor de integrase da Gilead for bem sucedido — o qual tem previsão de lançamento para 2018 –, roubando a quota de mercado do Dolutegravir. Isso poderia colocar o negócio da Glaxo relacionado ao HIV em declínio depois de 2018, de acordo com a UBS, embora Witty diga que essa desvantagem seja limitada, uma vez que o Dolutegravir já estará bem estabelecido na época em que chegar seu concorrente da Gilead.

“Não é uma conclusão precipitada dizer que [a terapia dupla] vai funcionar”, disse Hardy. “Eu assisti o desenvolvimento do Dolutegravir o suficiente para entender por que eles estão tentando fazer isso.”

Por Denise Roland em 28 de agosto de 2016 para The Wall Street Journal


fierce biotech

A Gilead fechou um acordo para ter acesso à tecnologia de anticorpos específicos da Genmab. O acordo dá a Gilead uma licença exclusiva para usar a plataforma da farmacêutica dinamarquesa para criar uma terapia para tratar o HIV, além da opção de ocupar uma licença exclusiva sobre a tecnologia.

Como retorno pela licença exclusiva, a Gilead está pagando US$ 5 milhões (€ 4,5 milhões) iniciais e se comprometendo a até US$ 277 milhões no final de todas as etapas. Caso um medicamento contra o HIV chegue ao mercado, a Genmab também vai embolsar royalties menores. O acordo estabelece condições semelhantes para uma opção ainda não exercida da Gilead ter uma segunda licença exclusiva.

A Gilead entrou neste acordo comercial há pouco mais de dois anos, após ter acesso à plataforma específica da Genmab, em uma colaboração de pesquisa. Na época, a Genmab se referiu a Gilead como uma “empresa de biotecnologia que não pode ser revelada”. Agora, a Gilead deu um passo além, revelando os seus planos para a plataforma.

gilead

Ao ganhar acesso à plataforma de anticorpo específico, a Gilead reforça sua presença em um campo de pesquisa de HIV que é objeto de crescente pesquisa científica. Equipes do National Institutes of Health (NIH), The Rockefeller University e da Universidade de Duke estão entre os principais agentes nesta área. O grupo da Duke fechou uma parceria com a MacroGenics e Johnson&Johnson para parceria em biotecnologia.

Os programas de pesquisa do NIH com a MacroGenics envolvem uma proteína do HIV que se liga ao receptor CD3. Alcançar ambos os alvos pode permitir reunir as células T assassinas e as células infectadas pelo HIV. Ao fazer isso, o sistema imunológico pode atacar os reservatórios do vírus. Por sua vez, a equipe da Rockefeller está buscando um mecanismo envolvendo uma glicoproteína do envelope do HIV-1.

Até agora, nem a Gilead e nem Genmab revelaram as metas cobertas em seu acordo, mas o interesse em anticorpos específicos mostra que a tecnologia está sendo levada a sério no campo do HIV. Enquanto o boom da hepatite C ajudou a Gilead nos últimos anos, seu setor de HIV gerou vendas de cerca de US$ 10 bilhões, no ano passado. Se o desenvolvimento com a Gilead resultar em uma franquia, a Genmab terá outra fonte de receita para fazer seu negócio crescer.

Genmab, que é de Copenhagen, Dinamarca, agora está ao lado da Johnson&Johnson, Novartis, Novo Nordisk e Gilead na lista das principais companhias farmacêuticas que possuem licenças de uso de sua plataforma de anticorpos específicos. Ao firmar o acordo com a Gilead, outras ofertas foram interrompidas. Ainda assim, permanece o potencial de receitas para a Genmab.

Por Nick Paul Taylor em 11 de agosto de 2016 para Fierce Biotech


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O mundo fez tanto progresso na redução da propagação da aids e no tratamento de pessoas com HIV que a epidemia tem recuado dos holofotes. No entanto, por quaisquer medidas, a doença continua a ser uma grande ameaça — 1,1 milhão de pessoas morreram no ano passado devido à causas relacionadas com a aids e 2,1 milhões de pessoas foram infectadas com o vírus. Embora as mortes estejam em queda ao longo dos últimos cinco anos, o número de novas infecções tem, essencialmente, atingido um patamar.

A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou uma meta na semana passada de acabar com a propagação da doença até 2030. Este é um objetivo louvável e ambicioso, alcançável apenas se as nações individuais fizeram campanha vigorosa para tratar a todos os que tem o vírus e limitar as novas infecções.

Os medicamentos e o conhecimento já existem, mas, em muitos países, o dinheiro e a vontade política não. Além de voltar o holofote sobre a doença, é crucial que países ricos, como os Estados Unidos, continuem a desembolsar quantias generosas para reforçar o que deveria ser empenho global. Doadores e países de baixa e média renda precisam aumentar os gastos para US$ 26 bilhões por ano até 2020, de acordo com a ONU, acima dos US$ 19,2 bilhões em 2014.

ONU aids

Embora ainda elevadas, as mortes atribuíveis à aids caíram 36% desde 2010. Em grande parte, isso se deu porque muitas pessoas estão recebendo medicamentos antirretrovirais — 17 milhões de pessoas em 2015, em comparação com 7,5 milhões cinco anos antes. Estes medicamentos permitem que as pessoas vivam vidas quase normais e reduzem o risco de transmissão do vírus para outras pessoas.

Alguns países, como África do Sul (antes uma zona de calamidade) e Quênia, têm feito enorme progresso em aumentar o tratamento, mas muitas pessoas que precisam da terapia salva-vidas não têm acesso a ela. Apenas 28% das pessoas infectadas na África ocidental e central estavam sendo tratados em 2015, de acordo com um recente relatório da ONU. Os números eram ainda mais baixos no Oriente Médio e no norte da África (17%), Europa oriental e da Ásia central (21%). Segundo Sharonann Lynch, assessor de políticas para o HIV dos Médicos Sem Fronteiras, em alguns países, as pessoas que recebem um diagnóstico positivo para o HIV recebem a instrução de voltar ao médico só quando ficarem doentes, devido à restrições orçamentárias. Muitos nunca mais voltam.

Em outros lugares, pode ser difícil chegar até as pessoas que precisam de medicamentos por causa de guerra ou por falta de um sistema público de saúde funcional. E muitos dos que precisam de ajuda não estão dispostos a pedi-la, porque temem ser condenados ao ostracismo ou, pior, porque são gays, usuários de drogas ou estão envolvidos em trabalho sexual. Leis e atitudes discriminatórias em países como Nigéria, Rússia e Uganda provavelmente forçaram dezenas de milhares de pessoas que precisam de ajuda a se esconder.

Em alguns países, as infecções têm de fato aumentado, o que ajuda a explicar por que o avanço no controle da epidemia atingiu um patamar. Na Europa oriental e na Ásia central, por exemplo, 190.000 pessoas foram infectadas no ano passado, contra 120.000 em 2010. Enquanto o número de mortes tem se mantido muito baixo, o número de novas infecções se manteve estável ou modestamente baixo, nos últimos cinco anos. Isso é verdade para os Estados Unidos, onde estima-se que 44.073 pessoas foram diagnosticadas em 2014, o ano mais recente para o qual os Centros de Controle e Prevenção de Doenças têm dados publicados, abaixo de 44.940 em 2010.

Esses números não abrem espaço para complacência, mas para campanhas de saúde pública mais vigorosas, mais acesso a preservativos, agulhas limpas para usuários de drogas e prescrições de medicamentos pré-exposição. Ainda não há cura para a aids. Mas há muitas maneiras de minimizar suas consequências mortais.

Pelo Conselho Editorial do New York Times em 13 de junho de 2016