Dá nos nervos

Sabemos que o HIV se esconde e se espalha pelo sistema nervoso central. A barreira hematoencefálica, uma membrana que protege o cérebro de substâncias potencialmente neurotóxicas, consegue impedir a entrada de muitos químicos, drogas, bactérias, vírus e de 98% dos medicamentos que estão na corrente sanguínea, mas não é capaz de reter o HIV. O vírus da aids dá um jeito de entrar no compartimento do cérebro logo no começo infecção, geralmente, em algum momento dentro das duas primeiras semanas.

“Com o passar do tempo, as pessoas desenvolvem um vírus em seu cérebro que é diferente do que no resto do corpo.”

Foi isso o que explicou a Dra. Joanna Hellmuth, médica neurologista da Universidade da Califórnia em São Francisco, num evento bimensal organizado pela San Francisco Aids Foundation.  Imagina-se que o vírus consiga atravessar essa barreira protetora do cérebro infectando os monócitos, um tipo de célula do sistema imunológico. Uma vez dentro do tecido cerebral, o HIV não afeta as células nervosas, os neurônios, mas infecta e usa outros tipos de células no cérebro, como astrócitos e outras células do sistema imune, usando-as para se replicar. Uma vez que o HIV estabelece sua infecção no cérebro, o vírus se replica e muta separadamente do vírus que está na corrente sanguínea. “Com o passar do tempo, as pessoas desenvolvem um vírus no cérebro que é diferente do que está no resto do corpo. Se genotiparmos o vírus no cérebro e o vírus no sangue, muitas vezes é bastante diferente”, explicou a médica.

Mas e os antirretrovirais? A Dra. Joanna conta que, quando atende pessoas vivendo com HIV que reclamam de problemas cognitivos, uma coisa que ela tenta determinar é se o vírus está se replicando no cérebro. “Pode parecer estranho, mas a maioria das pessoas que atendo estão em tratamento antirretroviral. E, se você estiver sob antirretrovirais, você terá sua carga viral suprimida muito rapidamente. Mas há um fenômeno chamado de escape para o sistema nervoso central, onde você pode ter vírus replicantes em seu cérebro, mas não no seu sangue”, explica a doutora. Para verificar o escape para o sistema nervoso central, ela executa um procedimento de extração de uma amostra de líquido cefalorraquidiano e aplica neste líquido o fomoso teste de carga viral.

“Tudo o que podemos fazer é mudar seu regime antirretroviral.”

Uma das coisas que Joanna descobriu é que, dentre seus pacientes testados, cerca de 10% daqueles que têm o vírus controlado no sangue têm um baixo nível de replicação do vírus no cérebro. “Tudo o que podemos fazer é mudar seu regime antirretroviral”, disse ela. Supõe-se — e é importante frisar o termo supor — que este vírus presente no cérebro de soropositivos seja responsável por sintomas cognitivos em algumas pessoas.

Cerca de metade das pessoas com infecção aguda apresentam sinais de alguns problemas neurológicos. Cerca de um terço relatam problemas cognitivos: a sensação de que a concentração foi “desligada” ou de que há demora para lembrar das coisas. Cerca de um quarto das pessoas tem os movimentos desacelerados. E cerca de um quinto apresentam neuropatia: uma dor nos nervos ou formigamento. A maioria destes problemas neurocognitivos se resolve após os primeiros seis meses do início da terapia antirretroviral, entretanto, segundo a doutora, “muitos pacientes que têm suas cargas virais suprimidas há 10 ou 20 anos estão começando a ter problemas cognitivos”.

Os problemas neurocognitivos associados ao HIV são diferentes das alterações neurocognitivas observadas no envelhecimento normal. No envelhecimento normal, as pessoas podem notar que têm mais dificuldade em fazer diversas tarefas ao mesmo tempo ou recuperar informações — como, por exemplo, lembrar o nome daquele ator, de cabelos grisalhos, olhos castanhos, que fez aquele filme… sabe? Dá nos nervos não lembrar do nome de alguém! Mas será que isso é mesmo específico de quem tem HIV?

“Com o HIV, há um padrão diferente”, explica Joanna. “Parte da mudança pode estar na cognição — como seu cérebro funciona em termos de pensamento e memória. Nós vemos mudanças em como as pessoas conseguem se concentrar. Observamos também mais desaceleração cognitiva do que vemos no envelhecimento normal: as pessoas não são tão rápidas nas tarefas quanto antes. Outras pessoas também experimentam mudanças comportamentais: podem sentir-se mais irritáveis ​​do que costumavam ser, ou podem ficar mais agitadas. Observamos também sintomas motores, como movimentos mais lentos.”

De acordo com um estudo conduzido por pesquisadores canadenses, publicado no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes e no Aidsmap, quatro fatores estão associados ao declínio neurocognitivo em pessoas vivendo com HIV. Segundo os autores, o fator de risco mais grave é a função renal prejudicada, indicada por uma taxa de filtragem glomerular inferior a 50 ml/min. Tempo de infecção superior à 15 anos, baixa escolaridade e presença de proteínas no fluído cerebrospinal acima de 45 mg/dl são outros fatores de risco. Neste estudo, as pessoas com os quatro fatores de risco apresentaram um risco de 95% de declínio neurocognitivo em três anos, em comparação com um risco de 2% para pessoas sem estes fatores de risco.

Este estudo reuniu 191 adultos soropositivos na Universidade McGill, no Canadá, e os monitorou ao longo de três anos. No começo do estudo, os participantes tinham uma idade média de 45 anos, 74% eram do sexo masculino e 52% eram não-caucasianos. A contagem média média de células CD4 foi de 514 células/mm³. 94% dos participantes estavam tomando terapia antirretroviral.

“A função renal reduzida tem sido associada a um menor fluxo sanguíneo cerebral”

Os pesquisadores sugerem que a função renal prejudicada pode ser um indicativo de doença vascular no rim e no cérebro. Eles lembram que, “em indivíduos sem HIV, a função renal reduzida tem sido associada a um menor fluxo sanguíneo cerebral, declínio cognitivo, maior risco de AVC recorrente e de pequenos infartos do cérebro, ambos possíveis fatores de risco para o declínio cognitivo”. No entanto, eles enfatizam que é preciso mais pesquisas para entender a relação entre o declínio da função renal e as alterações neurocognitivas. Os pesquisadores também ponderam que as pessoas que têm HIV há mais tempo certamente estiveram por algum período sem tratamento eficaz contra o HIV.

Um outro estudo, europeu, também publicado no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes e no Aidsmap, afirma que uma em cada cinco pessoas que vivem com HIV relatam algum declínio no funcionamento cotidiano como resultado de problemas cognitivos, como perda de memória, dificuldades em resolver problemas, baixa concentração ou redução da capacidade de atenção. Entretanto, os pesquisadores, do grupo de estudo CIPHER, observam que as pessoas que relataram esses problemas também eram mais propensas a ter condições comórbidas, estarem deprimidas ou ansiosas, desempregadas e a ter dificuldades para satisfazer suas necessidades básicas. Por isso, os autores acreditam que elas deveriam ser avaliadas também por esses problemas, antes de concluir qual a razão da redução em sua função cognitiva.

“A associações que observamos podem ter múltiplas explicações e a causalidade pode estar em qualquer direção”

“Todas as associações que observamos podem ter múltiplas explicações e a causalidade pode estar em qualquer direção”, comentam os cientistas. “Pacientes que relatam sintomas de comprometimento cognitivo ou diminuição da cognição no dia-a-dia, devem ser avaliados quanto à depressão, ansiedade, condições médicas concomitantes e dificuldades financeiras. A incapacidade de reconhecer esses elementos importantes das experiências vividas pelos pacientes pode acarretar em atraso de diagnóstico, falta de atendimento de necessidades importantes, pesquisas desnecessárias e aumento de ansiedade.”

As pesquisas que detectam uma alta prevalência de comprometimento cognitivo em pessoas com HIV nem sempre são claras em dizer que estes comprometimentos costumam ser pequenos, sem grande impacto no dia-a-dia. Em outras palavras, apesar de ser comum haver algum impacto, ele é baixo. O teste padrão usado para diagnosticar a progressão de um comprometimento neurocognitivo de assintomático para leve consiste em ​​uma avaliação das dificuldades auto-relatadas dentre as atividades da vida diária de uma pessoa. O teste inclui uma avaliação de 16 atividades separadas e a progressão é definida como declínio em duas ou mais atividades, consideradas pelo indivíduo como dificuldades cognitivas. Isso quer dizer que, neste teste, aqueles que reclamam de declínio cognitivo são avaliados partindo do pressuposto de que estão certos em sua presunção, de que há de fato um declínio cognitivo.

Por isso, o objetivo dos pesquisadores do estudo CIPHER era avaliar a validade deste teste, determinar os fatores associados à diminuição na qualidade das atividades do dia-a-dia e os sintomas de comprometimento cognitivo. 448 adultos, recrutados entre 2011 e 2013, completaram uma série de testes e questionários, onde eles auto-relataram dados sobre emprego, renda, escolaridade e uso de drogas. Os pesquisadores também coletaram dados clínicos dos pacientes. 87% dos participantes eram brancos, 84% eram do sexo masculino, com idade média de 46 anos. 89% estavam tomando terapia antirretroviral, 81% dos quais com carga viral indetectável. A mediana da contagem de células CD4 foi de 550 células/mm³ e a duração média da infecção do HIV foi de dez anos.

31% das pessoas declararam algum problema que impactou suas atividades diárias, dos quais 21% atribuíram a problemas cognitivos. As dificuldades mais comumente relatadas foram experimentadas em atividades sociais, trabalho, organização e atenção para ler ou assistir televisão. Os fatores associados pelos participantes como causas destas dificuldades incluíram dificuldade para satisfazer necessidades básicas, incapacidade de trabalhar, depressão, ansiedade e o impacto do diagnóstico do HIV por pelo menos cinco anos.

“A relação entre comprometimento cognitivo, baixo humor e declínio funcional é complexa e multidirecional”

“A relação entre comprometimento cognitivo, baixo humor e declínio funcional é multidirecional e complexa”, escrevem os pesquisadores. Segundo eles, os testes utilizados para avaliar o declínio nas atividades diárias e o comprometimento cognitivo não apresentam níveis de precisão que seriam aceitáveis ​​para fins de diagnóstico. Se eles estiverem certos, isso quer dizer que nem todos os verdadeiros casos de deficiência cognitiva são diagnosticados e que muitas pessoas podem ser incorretamente classificadas como tendo deficiência cognitiva, quando não a tem.

“As pessoas podem ter HIV e não ter nenhum desses sintomas”, disse a Dra. Joanna. “Mas você também pode ter cada uma dessas coisas, as quais acreditamos estar relacionadas ao HIV.” Ela lembra que todo mundo sofre lapsos de memória de vez em quando. Para descobrir se o HIV realmente pode estar causando problemas cognitivos, ela sugere a seus pacientes que reflitam se há um padrão nos problemas que estão enfrentando. “Seus sintomas têm piorado recentemente? Está tendo mais lapsos de memória do que costumava? Sua memória ou problemas cognitivos prejudicam sua capacidade de fazer as coisas?”

Mas me parece há uma outra pergunta, mais fundamental, que deveria vir antes: afinal, o HIV é biologicamente responsável pelo declínio neurocognitivo ou os fatores sociais e ambientais, eventualmente associados à condição de soropositivo, é que são? Em outras palavras, é culpa do vírus ou do estigma? Se as conclusões entre os médicos e cientistas nesse aspecto parecem um tanto imprecisas, é preciso lembrar, em defesa deles, que pouco sabemos sobre o cérebro e que nem sempre é fácil examiná-lo. (Um estudo que pode vir a esclarecer mais sobre a presença do HIV dentro do cérebro é o Last Gift, que vai examinar soropositivos que estão no fim de suas vidas, incluindo a autópsia de seus corpos dentro de 6 horas após a morte, para que as proteínas e ácidos nucleicos possam ser estudados.)

Ao meu ver, um ponto em comum, e interessante de se notar, entre as observações da Dra. Joanna e a conclusão do estudo canadense, está na associação do declínio neurocognitivo à redução da capacidade vascular. Enquanto os canadenses alertam para a relação da vascularidade dos rins com o cérebro como um possível preditor de declínio neurológico, a Dra. Joanna terminou sua palestra recomendando a prática de 150 minutos de esporte por semana (cinco dias por semana por 30 minutos de cada vez, fazendo o coração acelerar) e a socialização. “As pessoas que são ativas, fisicamente ativas e socialmente ativas, têm melhor cognição”, disse ela. Em resumo, a grande conclusão parece ser que, para prevenir o declínio neurocognitivo, precisamos nos exercitar e socializar. Dá nos nervos dar tantas voltas para terminar numa recomendação tão simples, não dá?

(In)evitáveis problemas cardíacos

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Priscilla Hsue, a mesma cientista que apresentou na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2017, um estudo animador sobre o anticorpo canakinumab, possivelmente eficaz contra a inflamação crônica — publicado aqui no blog — também apresentou um outro estudo, porém, que parece ter resultados não tão animadores sobre a saúde cardiovascular de soropositivos e a crescente preocupação de doenças cardiovasculares entre as pessoas que envelhecem com HIV.

Neste estudo, a infecção pelo HIV foi associada a um maior risco de infarto do miocárdio, o ataque cardíaco. O motivo para o HIV aumentar o risco de infarto ainda não está completamente compreendido. O que se sabe é que o HIV pode alterar a flora intestinal e, com isso, algumas pequenas moléculas que são metabolizadas ou produzidas por este microbioma intestinal também são alteradas. Entre elas, o n-óxido de trimetilamina, uma molécula já associada ao infarto entre adultos sem HIV, a carnitina e a betaína, associadas à espessura da artéria carótida em indivíduos infectados pelo HIV.

O objetivo do estudo era verificar a hipótese destas moléculas associadas à flora intestinal poderem de fato prever o risco de infarto em adultos infectados pelo HIV. O estudo incluiu indivíduos soropositivos com carga viral indetectável sob terapia antirretroviral que recebem tratamento em oito diferentes clínicas nos Estados Unidos e que tiveram infarto do miocárdio “tipo 1” entre 2001 a 2012. Estes casos foram comparados por amostragem de densidade de incidência para cada caso, por idade, sexo, raça, duração da supressão de carga viral e contagem de CD4. Os níveis plasmáticos de n-óxido de trimetilamina, betaína, carnitina e colina foram medidos em amostras de plasma sanguíneo coletadas antes do infarto. A associação entre as pequenas moléculas produzidas pela flora intestinal e o infarto foi então avaliada utilizando regressão logística condicional.

Esse estudo não foi muito abrangente — com apenas 36 casos e 69 controles, com idade mediana de 49 anos, variando entre 46 a 58, e 77% do sexo masculino –, mas serviu para concluir que, dentre as moléculas analisadas, a carnitina é que mais parece ser preditiva de infarto do miocárdio em indivíduos infectados com HIV, tratados com antirretrovirais e com carga viral indetectável. Esta descoberta sugere que o mecanismo de aterosclerose em soropositivos é diferente daquele que ocorre em indivíduos não infectados, os soronegativos. Se esta hipótese se confirmar na repetição deste estudo ou em estudos mais abrangentes, é possível que as intervenções médicas relativas à saúde cardiovascular das pessoas com HIV passem a ser diferentes das que são feitas em soronegativos.

Mas Priscilla Hsue não terminou por aí. Segundo o Betablog, ela apresentou outra pesquisa a respeito de infarto do miocárdio, morte cardíaca súbita, mortalidade associada à doenças cardiovasculares e outros problemas cardiovasculares num outro evento, mais recente, organizado pela San Francisco Aids Foundation.

Ela citou um estudo com milhares de pessoas que receberam cuidados através da Associação de Veteranos nos Estados Unidos. Esse estudo descobriu que as pessoas vivendo com HIV parecem ter um risco 50% maior de infarto do miocárdio (um ataque cardíaco ou um bloqueio agudo em um vaso cardíaco) do que as pessoas soronegativas. Este risco manteve-se igual mesmo quando as pessoas com HIV estavam sob tratamento antirretroviral e com carga viral suprimida. O texto publicado pelo Betablog não traz referências diretas para o estudo citado por Priscilla, mas tudo indica que trata-se de um estudo publicado em 2014, intitulado “Epidemiologia da Doença Coronariana em Pacientes com HIV”, o qual mostrou que, entre o período analisado, 1999 a 2013, o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou.

Priscilla também disse que a morte cardíaca súbita (quando uma pessoa morre subitamente de um problema cardíaco) é um problema significativo. Um estudo realizado entre 2001 e 2009 no Zuckerberg San Francisco General Hospital descobriu que a morte súbita cardíaca entre pessoas vivendo com HIV era mais de 4,5 vezes maior do que entre pessoas soronegativas. Um dos colegas de Priscilla está agora conduzindo um estudo de autópsia em pessoas vivendo com HIV que morreram de problemas cardíacos, a fim de tentar identificar a causa da morte. O objetivo, segundo Priscilla, é aprender a identificar as pessoas que estão sob alto risco, para que, assim, os médicos possam intervir mais cedo, evitando problemas cardíacos graves.

“Ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”

“Nós ainda não somos bons em prever as pessoas que vão ter um ataque cardíaco”, disse Priscilla. Atualmente, os médicos usam “calculadoras de risco”, que levam em conta fatores como sexo, colesterol e histórico de tabagismo para estimar o risco cardíaco. Contudo, é bem possível que estas calculadoras atuais subestimem o risco para as pessoas que vivem com o HIV.

Uma das variáveis que ainda não pode ser bem computada entre todos estes estudos é o tratamento precoce, iniciado logo depois do diagnóstico. Afinal, até agora, todos estes voluntários, em virtude de sua idade, certamente não começaram o tratamento imediatamente após o diagnóstico positivo para o HIV, tal como passou a ser recomendado desde há alguns anos. Por isso, os pesquisadores ainda não sabem qual é o risco de problemas cardiovasculares para pessoas que começaram a tomar medicamentos para o HIV logo após o diagnóstico de HIV.

Ainda assim, é inevitável não pensar que, uma vez que o estudo com os veteranos mostrou que entre 1999 a 2013 — isto é, recentemente — o risco de doenças cardíacas entre soropositivos aumentou, será que não seriam os medicamentos antirretrovirais os causadores destes problemas cardíacos?

“Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”

Os médicos já sabem alguma coisa sobre o efeito dos antirretrovirais sobre a saúde cardíaca. Alguns estudos de longo prazo de fato descobriram que a exposição a longo prazo a inibidores de protease — grupo que inclui Atazanavir, Darunavir, Fosamprenavir, Lopinavir, Ritonavir, Saquinavir e Tipranavir — podem aumentar o risco de ataque cardíaco. Alguns estudos — mas não todos — concluíram que o Abacavir aumenta bastante este risco. O risco oferecido pelos novos medicamentos, como os inibidores da integrase — grupo que inclui o Dolutegravir –, ainda não é conhecido. “Ainda não sabemos qual é o regime antirretroviral que mais protege o coração”, disse Priscilla.

Mas há fortes evidências de que começar medicamentos antirretrovirais o mais cedo possível e manter boa adesão no tratamento é o melhor para a saúde do coração. A razão, segundo Priscilla, provavelmente está ligada ao efeito dos antirretrovirais sobre a famosa inflamação crônica — assunto daquele outro estudo de Priscilla divulgado na CROI.

Priscilla Hsue

Disso tudo, a pergunta que parece não querer calar é: será que os problemas cardíacos são inevitáveis em nós, soropositivos? “Eu acho que inevitável é uma palavra forte demais”, foi o que disse Priscilla, respondendo à plateia do evento em São Francisco. “Nada é inevitável.” É importante, ela enfatizou, que as pessoas mudem as coisas que estão ao seu alcance, sob seu controle — como, por exemplo, parar de fumar. “Estudos mostram que as pessoas que vivem com o HIV perdem mais anos por fumar do que pela própria doença.”

Reduzir a inflamação crônica e o colesterol parece ser um dos principais caminhos para diminuir o risco de problemas cardíacos entre pessoas com HIV. Segundo Priscilla, novos medicamentos para baixar o colesterol, que podem ser injetados uma vez por mês, estão sendo estudados. Um destes medicamentos baixou o colesterol em 60%. A terapia baseada no anticorpo canakinumab também está sendo estudada pela equipe de Priscilla, como uma alternativa para reduzir a inflamação crônica. Os resultados mostraram que este tratamento reduziu a inflamação nas artérias e na medula óssea.

É verdade, os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre o risco cardiovascular e a inflamação crônica em nós, soropositivos. Mas as pesquisas, como estas de Priscilla, seguem em andamento justamente para responder estas questões.

Ômega-3 melhora inflamação crônica


Aidsmap

O uso prolongado de suplementos de ácidos graxos ômega-3 foi associado a níveis reduzidos de triglicérides e de proteína C reativa, um dos biomarcadores da inflamação em pessoas soropositivas com carga viral suprimida, de acordo com uma pesquisa apresentada na semana passada na IDWeek 2016 in New Orleans.

Com as pessoas com HIV vivendo mais tempo graças à terapia antirretroviral, doenças crônicas, como doenças cardiovasculares e câncer são uma preocupação crescente. Pesquisas sugerem que a inflamação crônica e a ativação imune excessiva contribuem para o aumento do risco de condições não-relacionadas à aids nessa população, mesmo quando se o tratamento antirretroviral é eficaz.

Gretchen Volpe da Tufts University School of Medicine e seus colegas realizaram um estudo randomizado, controlado por placebo — o mais longo feito até hoje — de alta dose de ácidos graxos ômega-3 em pessoas com HIV, avaliando seus efeitos a longo prazo sobre os níveis de lipídios no sangue, inflamação e função vascular. Ácidos graxos ômega-3 — encontrados no óleo de peixe — são muitas vezes tomados para reduzir os triglicérides.

O estudo incluiu 117 participantes em tratamento antirretroviral estável com triglicérides elevados (em jejum o nível estava entre 150 e 2500mg/dl ou em nível aleatório >200mg/dl). Cerca de 80% eram homens e a idade média era de 51 anos. A contagem média de CD4 foi de 648 células/mm³ e 95% apresentaram carga viral indetectável. Fatores metabólicos, tabagismo, uso de álcool, status do HIV, lipídios basais e função vascular foram semelhantes em ambos os grupos. Cerca de 30% em ambos os grupos usaram estatinas, mas as pessoas que já usavam regularmente óleo de peixe foram excluídas.

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Os participantes foram aleatoriamente designados para receber 4 gramas diárias de ácidos gordos ômega-3 ou placebo durante 24 meses. Eles usaram a formulação Lovaza, que contém uma combinação de ésteres etílicos de ácido ômega-3, principalmente ácido eicosapentaenóico e ácido docosahexaenóico (465mg e 375mg, respectivamente, por cápsula de 1 grama). A formulação é aprovada para reduzir os níveis de triglicérides em pessoas com hipertrigliceridemia grave. Todos os participantes também foram aconselhados a mudar para uma dieta com redução de lipídios e a manter um peso estável.

Após 33 pessoas perderem as consultas de acompanhamento (um número semelhante em ambos os braços), os pesquisadores analisaram 43 pessoas randomizadas do braço ômega-3 e 40 do braço do placebo. Os resultados primários foram alterações nos triglicérides, colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL) e marcador de inflamação proteína C reativa. Os pesquisadores também analisaram o colesterol total e a lipoproteína de baixa densidade (LDL), bem como indicadores de função vascular, incluindo a reatividade da artéria braquial e a rigidez arterial medida pela velocidade da onda de pulso.

Aos 24 meses, os níveis médios de triglicérides diminuíram significativamente mais no braço ômega-3 em comparação com o braço placebo (-68 contra -22mg/dl). Os triglicérides diminuíram ao longo de 12 meses em ambos os braços, mas continuaram a diminuir entre os meses 12 e 24 no braço ômega-3, enquanto atingiam um patamar no braço do placebo. A proteína C reativa diminuiu significativamente no braço ômega-3 por 24 meses, mas não no braço placebo (-0,3 vs +0,6 mg/l). Em ambos os braços, a proteína C reativa diminuiu nos primeiros 12 meses, mas depois aumentou entre os 12 e os 24 meses. A proteína C reativa permaneceu abaixo do nível basal no braço ômega-3, mas subiu acima do grupo placebo.

Não houve diferença significativa nos níveis de HDL entre os dois grupos de tratamento. Também não houve diferença significativa nos níveis de colesterol total ou LDL a qualquer momento, porém houve uma tendência para uma maior redução do colesterol total no grupo ômega-3 em 24 meses (-9,2 vs +3,9 mg/dl). A reatividade da artéria braquial não diferiu significativamente entre os dois grupos. Houve uma tendência para redução da rigidez arterial carótida-femoral durante 24 meses no braço ômega-3, mas a diferença não atingiu significância estatística (-46 vs +18 ms-1).

Os ácidos graxos ômega-3 se mostraram em geral seguros e bem tolerados, enquanto os eventos adversos graves não diferiram entre os dois grupos de tratamento, segundo Volpe. Verificou-se que a adesão foi “viável” durante o período de dois anos. A suplementação prolongada de ácidos graxos ômega-3 parece benéfica para as pessoas com HIV e sua eficácia pode aumentar ao longo do tempo, concluíram os pesquisadores.

Ácidos graxos ômega-3 “podem reduzir a inflamação, medida pela proteína C reativa, mesmo para aqueles cuja proteína C reativa está dentro da faixa normal na linha de base. Tendo em vista o nosso sucesso na gestão da infecção pelo HIV, estamos agora com o objetivo de otimizar a duração e a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/aids, para quem estas intervenções, como os ácidos gordos ômega-3, podem ser benéficas”, escreveram os autores.

Por Liz Highleyman em 9 de novembro para Aidsmap

Referência: Volpe G et al. A randomized controlled trial of omega-3 fatty acids in HIV: long term effects on lipids and vascular function. IDWeek, New Orleans, abstract 951, 2016.

Bactérias e vírus no intestino ligados à gravidade da infecção pelo HIV


MNT

O advento da terapia antirretroviral — uma combinação de medicamentos utilizados para retardar a progressão do HIV — permitiu muitas pessoas infectadas com o vírus a viver vidas longas e produtivas. Mas a terapia não os cura e mesmo aqueles que tomam esses medicamentos ainda têm um risco maior de doença cardiovascular, câncer, doença renal e hepática, entre outros distúrbios observados em pacientes com HIV.

A infecção pelo HIV também pode levar à doenças que afetam os intestinos, como o aumento da inflamação gastrointestinal, diarreia e problemas com a absorção de nutrientes. O papel dos micróbios do intestino nessas questões ainda não é completamente compreendido, mas, agora, em dois estudos conduzidos por pesquisadores da Washington University School of Medicine, em St. Louis, os cientistas identificaram bactérias e vírus intestinais como possíveis fontes de inflamação e doenças.

A identificação dessa origem pode abrir a porta para as estratégias que limitem os danos no trato gastrointestinal, reduzam a inflamação e problemas afins, que afetam os pacientes com HIV. Os dois estudos — um em pessoas e outro em primatas — foram publicados na revista Cell Host & Microbe.

“Danos no microbioma viral e bacteriano do intestino permitem que bactérias e vírus vazem para os tecidos e sangue circundantes, contribuindo para a inflamação.”

“As pessoas com infecção pelo HIV avançada têm doença intestinal e inflamação sistêmica significativas, que podem causar danos progressivos na imunidade e acelerar a progressão da infecção pelo HIV até a aids”, disse o pesquisador sênior, Dr. Herbert W. Virgin IV, PhD. “Acreditamos que danos no microbioma viral e bacteriano do intestino permitem que bactérias e vírus vazem para os tecidos e sangue circundantes, contribuindo para a inflamação.” Acredita-se que a inflamação desempenhe um papel numa variedade de desordens, incluindo doenças cardiovasculares, lipídeos sanguíneos anormais, diabetes e outras anormalidades relacionadas com a insulina.

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Um dos estudos monitorou primatas infectados, enquanto o outro acompanhou pessoas soropositivas em Uganda, na África. Ambos mostraram que as alterações na composição bacteriana e viral do trato gastrointestinal estavam ligadas à imunodeficiência grave devido à progressão do HIV em pacientes humanos e ao SIV (vírus da imunodeficiência símia) em primatas. Os pesquisadores estudaram 36 macacos rhesus, alguns dos quais foram infectados com SIV. Eles também seguiram 82 pessoas infectadas pelo HIV em Uganda, 40 das quais tomavam a terapia antirretroviral e 42 não a tomavam.

Nas pessoas e nos primatas, a aids resultante da imunodeficiência se mostrou ligada à uma quantidade maior de vírus no intestino, em comparação com o número de vírus do intestino em pessoas e primatas que tinham resposta imune normal. Aqueles com sistemas imunológicos severamente enfraquecidos também tinham mais patógenos e mais bactérias no intestino. No estudo do SIV em macacos, os pesquisadores descobriram que a vacinação contra o SIV impediu o desenvolvimento dessas anormalidades.

A gravidade da imunodeficiência é determinada em humanos medindo as contagens de células do sistema imunológico, as chamadas células CD4. Uma contagem de 200 ou menor significa que o sistema imunológico da pessoa está deficiente. A infecção pelo HIV, por si só, na ausência de imunodeficiência, teve um efeito mínimo sobre o número de agentes patogênicos virais e bacterianos no intestino.

“Identificamos bactérias potencialmente causadoras de doenças no intestino que só aparecem em pessoas e animais gravemente imunocomprometidos.”

Virgin, professor e chefe do Departamento de Patologia e Imunologia, disse que controlar a proliferação de vírus e bactérias no intestino pode reduzir os danos no trato gastrointestinal e, como resultado, controlar os problemas que afetam pacientes com infecção crônica pelo HIV. “Nestes estudos, nós aprendemos mais sobre quais vírus emergem e quando eles surgem após a infecção por SIV e HIV”, disse Scott Handley, PhD, professor assistente de patologia e imunologia e o primeiro autor do estudo sobre as infecções em primatas. “Nós também identificamos bactérias potencialmente causadoras de doenças no intestino que só aparecem em pessoas e animais gravemente imunocomprometidos.”

Enterobacteriaceae e adenovírus.
Enterobacteriaceae e adenovírus.

Concretamente, os pesquisadores descobriram que a aids e a imunodeficiência resultante estão associados com a expansão de adenovírus e da bactéria Enterobacteriaceae. Ambos são enteropatógenos, o que significa que têm o potencial de causar a doenças.

“Pode ser possível, através do tratamento de pacientes com probióticos, ajudar a restaurar a saúde intestinal e a prevenir o dano das células do intestino.”

“Eventualmente, pode ser possível, talvez através do tratamento de pacientes com uma mistura especializada de probióticos, ajudar a restaurar a saúde intestinal e a prevenir o dano das células do intestino, que contribui para a inflamação e evita que a infecção pelo HIV se torne aids”, disse o coinvestigador do estudo, Guoyan Zhao, PhD e professor assistente de patologia e imunologia.

“Há múltiplos e novos vírus nos ecossistemas intestinais daqueles com SIV e com infecção pelo HIV”, acrescentou Virgin. “Alguns desses vírus, particularmente os adenovírus, podem danificar as células intestinais e também ter a capacidade de agir como vetores para a aplicação de vacina. Alguns dos nossos colaboradores estão pesquisado essa estratégia e estão trabalhando para desenvolver uma vacina.”

Em 10 de março de 2016 por Medical News Today