dieta
di.e.ta
sf (gr díaita, pelo lat) 1 Regime alimentício prescrito a um doente ou convalescente. 2 Privação de todos ou de alguns alimentos, em caso de doença. 3 Emprego metódico das coisas úteis para a conservação da saúde. 4 Predominância de um alimento na nutrição.
 

Uma alimentação saudável aumenta a resistência à aids, fornecendo energia para as atividades diárias e, também, vitaminas e minerais que o organismo precisa. Além de tornar a pessoa mais disposta, uma alimentação equilibrada fortalece o sistema de defesa, ajuda no controle das gorduras e açúcares do sangue, a absorção intestinal e melhora os resultados do tratamento.

A alimentação saudável é aquela que tem todos os alimentos necessários, de forma variada e equilibrada. Para se ter uma alimentação saudável, o ser humano precisa consumir alimentos de todos os três grupos:

Carboidratos
Fornecem a energia necessária para as atividades do dia a dia, como andar, falar, respirar etc.
Encontrados em: arroz, açúcar, massas, batata, mandioca, cereais, farinhas e pães.

Proteínas
Todos os tecidos do corpo são formados por elas. São as principais componentes dos anticorpos e dos músculos. Constroem, “consertam” e mantêm o corpo, além de aumentarem a resistência do organismo às infecções.
Encontradas em: carnes bovinas, suína, frango, peixes, miúdos, ovos, leite, iogurtes e queijos (animais) e feijão, soja e derivados, castanhas, amendoim, amêndoa (vegetais).

Gorduras
Fornecem energia. O organismo precisa delas em pequenas quantidades. Algumas vitaminas usam-nas para serem transportadas no organismo, assim como alguns medicamentos antirretrovirais também.
Encontrados em: manteiga, óleos, azeite de oliva, margarina, gordura animal (presente nas carnes).

(com legendas disponíveis em Português Brasileiro)
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Pipoca é saudável? E pizza, suco de laranja ou sushi? E frozen yogurt, costeletas de porco ou quinoa? Quais alimentos são saudáveis? Em princípio, essa é uma pergunta bastante simples e uma pessoa que deseja comer de maneira mais saudável deve saber quais alimentos escolher no supermercado e quais deve evitar. Infelizmente, a resposta não é tão simples.

A Food and Drug Administration americana recentemente concordou em rever seus padrões para os quais os alimentos podem ser considerados “saudáveis”, um movimento que destaca o quanto o conhecimento nutricional mudou nos últimos anos — e o quanto permanece desconhecido.

Morning Consult, uma empresa de mídia e pesquisa, pesquisou centenas de nutricionistas — membros da Sociedade Americana de Nutrição –, perguntando-lhes se achavam que certos alimentos (cerca de 50) eram saudáveis. A Morning Consult também pesquisou uma amostra representativa do público americanos, questionando a mesma coisa.

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Os resultados sugerem uma surpreendente diversidade de opiniões, mesmo entre especialistas. Sim, alguns alimentos, como couve, maçãs e aveia, são considerados “saudáveis” por quase todos. E outros, como refrigerantes, batatas fritas e biscoitos de chocolate, não são. Mas há alguns alimentos que parecem ter uma percepção pública positiva, enquanto outros confundem tanto o público quanto os especialistas. (Sim, nós estamos falando de você, manteiga.)

“Há vinte anos, eu acho que sabíamos cerca de 10% do que precisamos saber sobre nutrição”, disse Dariush Mozaffarian, reitor da Escola de Ciências e Políticas Nutricionais Tufts Friedman. “E agora nós sabemos 40 ou 50%.” Aqui está o que descobrimos.

 

Alimentos considerados mais saudáveis pelo público do que por especialistas:

 Porcentagem que descreve como “saudável” Nutricionistas Público
granola-barBarra de cereais 28%
71%
coconutoilÓleo de côco 37%
72%
frozen-yogurtFrozen yogurt 32%
66%
1606wtopancakes1Granola 47%
80%
slimfast_cmykShake dietético 21%
47%
orange-juiceSuco de laranja 62%
78%
americancheeseQueijo 24%
39%

Dos 52 alimentos que pedimos para especialistas e para o público para avaliar, nenhum tinha tanta diferença quanto à barra de cereais. Mais de 70% dos americanos a descreveu como saudável, enquanto menos de um terço dos especialistas em nutrição fez o mesmo. Uma diferença semelhante existe para a granola, a qual menos de metade dos nutricionistas inquiridos a descreve como saudável.

Vários dos alimentos considerados mais saudáveis por americanos do que por especialistas, incluindo frozen yogurt, um shake dietético e barras de cereais, têm algo em comum: eles podem ser acrescidos de montes de açúcar. Em maio, a Food and Drug Administration anunciou um novo modelo de rótulos nutricionais: uma das prioridades era permitir ao distinguir claramente entre os açúcares naturalmente presentes nos alimentos e os açúcares que são adicionados mais tarde, para aumentar os sabor. (Você ficaria surpreso com quantos alimentos têm açúcar adicionado.) Muitos nutricionistas sabem disso, mas em geral o público ainda não.

 

Alimentos considerados mais saudáveis por especialistas do que pelo público:

 Porcentagem que descreve como “saudável” Nutricionistas Público
quinoaQuinoa 89%
58%
flextariantofu30Tofu 85%
57%
sushiSushi 75%
 49%
hummusHummus 90%
66%
wineglassVinho 70%
52%
shrimpCamarão 85%
69%

No outro extremo do espectro, vários alimentos receberam um selo de aprovação do painel de especialistas, mas deixaram os inexperientes incertos. O mais surpreendente foi a reação à quinoa, um grão considerado um “superalimento”, tão freqüentemente elogiado como saudável que parece ter virado piada. (Atualmente, o site de culinária do New York Times oferece 167 receitas com quinoa, das quais cerca de um terço é explicitamente marcada como “saudável”.)

Além disso, tofu, sushi, hummus, vinho e camarão foram classificados como significativamente mais saudáveis por nutricionistas do que pelo público. Por quê? Uma razão pode ser que muitos deles são alimentos novos na dieta americana popular. Nosso colega Neil Irwin mediu as menções de alimentos na moda ao longo dos anos e descobriu que a quinoa só recentemente ficou famosa. Outros podem se confundir com mensagens ambíguas da imprensa sobre alimentos saudáveis. O camarão foi demonizado por conta de sua taxa elevada de colesterol, embora as diretrizes recentes tenham mudado. Por sua vez, as mensagens públicas sobre os benefícios do álcool são conflitantes: enquanto beber moderadamente parece trazer alguns benefícios à saúde, um consumo maior, obviamente, pode causar danos à saúde.

Não é surpreendente encontrar áreas em que tanto o público americano quanto os especialistas discordam. Espera-se que os pesquisadores estejam mais bem informados sobre as pesquisas atuais e que os consumidores comuns sejam mais suscetíveis às afirmações dos comerciantes de alimentos, mesmo que estas alegações sejam duvidosas. Ainda assim, alguns dos alimentos dividem tanto o público quanto os especialistas.

 

Alimentos em que especialistas e público se dividem:

Porcentagem que descreve como “saudável” Nutricionistas Público
popcornPipoca 61%
52%
pork-chopCostela de porco 59%
52%
milkLeite integral 63%
59%
steakBife 60%
63%
cheddarcheeseQueijo cheddar 57%
56%

Quatro dos alimentos listados acima — bife, queijo cheddar, leite integral e costelas de porco — tendem a ter muita gordura. E a gordura é um tópico que poucos especialistas parecem concordar. Anos atrás, o consenso nutricional era que a gordura, e particularmente a gordura saturada encontrada na carne vermelha, era ruim para o coração. Porém, novos estudos são menos claros a respeito disso e muitas das discordâncias entre os nutricionistas tendem a ser sobre a quantidade certa de proteína e gordura em uma dieta saudável.

A incerteza sobre esses alimentos, expressa tanto por especialistas quanto pelos americanos comuns, reflete a falta de evidência nutricional sobre eles. (Se você é um amante de bife e sente-se desencorajado por esta notícia, nosso colega Aaron Carroll escreveu que a carne vermelha é provavelmente saudável desde que com moderação.)

Muitos consumidores querem comer alimentos saudáveis, mas não sabem o que escolher. Para obter alguma perspectiva sobre isso, perguntamos ao Google quais alimentos mais frequentemente são pesquisados — “[Nome do alimento] é saudável?” A comida que as pessoas mais têm dúvidas foi uma que os nutricionistas geralmente mais aprovam: sushi.

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Existem algumas áreas de consenso nutricional. Quase todos concordaram que laranjas, maçãs, aveia e frango podem seguramente ser descritas como saudáveis e concordaram também que biscoitos de chocolate, bacon, pão branco e refrigerante não podem.

 

Alimentos que ambos os grupos consideram não saudáveis:

 Porcentagem que descreve como “saudável” Nutricionistas Público
cheeseburgerHamburgers 28%
29%
jerkyCarne seca 23%
27%
pepsiRefrigerante 18%
 16%
whitebreadPão branco 15%
18%
cookieBiscoito de chocolate 6%
10%

 

Alimentos que ambos os grupos acham saudáveis:

 Porcentagem que descreve como “saudável” Nutricionistas Público
appleMaçã 99%
96%
orangeLaranja 99%
96%
nongmo-2Aveia 97%
 92%
roastchickenFrango 91%
91%
turkeyPeru 91%
90%
peanutbutterManteiga de amendoim 81%
79%
potatoBaked potatoe 72%
71%

 

Como é que tudo isso deixa um consumidor bem-intencionado e ocasionalmente confuso? Possivelmente mais tranquilo. Mas, às vezes, a ciência da nutrição é confusa até para os especialistas.

Muito provavelmente, sua dieta do dia a dia é muito mais importante do quaisquer regras rígidas que ditam um alimento como “bom” ou “ruim”. Nosso colega Aaron Carroll publicou uma lista de regras de bom senso para comer de maneira saudável, o que já é um bom começo.

Aproveitamos a pesquisa para perguntar aos especialistas se eles consideravam sua própria dieta saudável e como eles a descreveriam. 99% dos nutricionistas disseram que ter uma dieta muito ou relativamente saudável. O tipo de dieta mais comum foi a “mediterrânea”: 25% dos nutricionistas a escolheu como a mais saudável de todas. Mas também houve uma resposta muito comum, mesmo entre os especialistas, que disseram não seguir “nenhuma regra ou restrição especial”.

Sobre esta pesquisa:

O New York Times fez uma lista de alimentos em consulta com especialistas em nutrição e a partir das tendências de pesquisas no Google. A pesquisa pública foi realizada on-line pela Morning Consult e incluiu 2.000 eleitores registrados. Você pode ler os resultados completos aqui, com tabelas de referência cruzada aqui. A pesquisa com nutricionistas foi enviada para os membros da Sociedade Americana de Nutrição, um grupo profissional de nutricionistas. Nem todos os membros completaram a pesquisa, mas 672 nutricionistas o fizeram. O New York Times entende que o resultado dessa pesquisa não é uma medida científica de todos os nutricionistas, mas como uma medida útil e imperfeita dos alimentos que estes profissionais consideram ser saudáveis.

Por

Timothy Ray Brown

“Caro Jovem Soropositivo, tudo bem contigo? Espero que sim. Antes de qualquer coisa, queria te dizer que a postagem na qual você relata sua conversa com o Paciente de Berlim, Timothy Ray Brown, foi provavelmente a minha leitura preferida do blog neste ano de 2016.

Acho que não só eu, mas grande parte do público, estava saudoso das postagens que expõem suas perspectivas pessoais acerca do HIV. Tenho a impressão que isto cria uma atmosfera de empatia e cria mecanismos capazes de apresentar formas diferentes de olhar para a nossa infecção crônica. O simples fato de ler o relato, de um adulto desconhecido que passa por uma experiência interessante como a que foi descrita na postagem, deve produzir, imagino, em grande parte dos leitores, algum nível de alívio. Uma forma primitiva de reconhecimento social, antes presente, por exemplo, nos bordéis alemães da segunda guerra mundial, onde homens e mulheres homossexuais, juntamente com transgêneros, compartilhavam e ansiavam por encontrar e saber da vida de pessoas que sofriam de experiências de exclusão social. Ali, no subsolo da cidade, podiam, ao deparar-se com seus semelhantes, vislumbrar a possibilidade de uma vida melhor.

Venho compartilhar, por meio desta carta, mais uma impressão de algumas coisas. Lembro de uma reação curiosa de um dos leitores quando este sinalizou, no espaço de comentários, um desinteresse sobre o compartilhamento de uma carta de um leitor, acerca de uma experiência amorosa na cidade de São Paulo, na qual o rapaz tentava narrar algo que o havia marcado. Seu comentário sugeria que a postagem não representava qualquer relevância — o que, em parte, é justo. Imagino que muitos de nós tenham o blog Diário de um Jovem Soropositivo salvo nos ‘favoritos’ de seus navegadores, ou mesmo como um site de grande ou razoável frequência de visitações atestada pelo Google Now ou qualquer outra ferramenta que indique ao usuário assim que uma nova postagem é publicada no site. Imagino a ansiedade de cada um em ler as novas matérias, procurando nelas a tradução de um artigo científico complicado, um estudo experimental promissor, ou, quem sabe, uma nova classe de antirretrovirais a ponto de ser aprovada para as próximas fases dos órgãos regulatórios dos países que hospedam as maiores indústrias farmacêuticas do mundo.

cometa

Um soropositivo em tratamento e indetectável tem tantas chances de contaminar alguém soronegativo quanto eu tenho chances de ser atingido por um cometa.

Lembro também de uma postagem na qual você descreve um estudo feito com soropositivos, onde estes superestimam sua infecciosidade, em comparação a um dado já comprovado e divulgado em alguns meios midiáticos: a remota chance de contaminação entre um soropositivo em tratamento e indetectável e um soronegativo. O estudo tinha a intenção de mostrar como esses dados experimentais ainda não haviam sido assimilados pelos soropositivos, que sempre assinalavam suas chances de contaminar parceiros em uma percentagem maior do que a fornecida pelos mais recentes estudos. Deu-se alguma confusão pela distinção entre o que o público soropositivo entendia como sendo seu grau de infecciosidade e o que os estudos epidemiológicos já haviam concluído — os quais já desenvolveram, inclusive, nomenclaturas específicas, como a relativamente famosa ‘TasP’ (do inglês treatment as prevention), na qual um soropositivo em tratamento e indetectável tem tantas chances de contaminar alguém soronegativo, quanto eu tenho chances de ser atingido por um cometa, atraído pelo campo gravitacional da terra, neste exato momento.

O que quero dizer é que as notícias relacionadas ao estigma, os experimentos sociais que demonstram a segurança da relação sorodiscordante quando o parceiro soropositivo é indetectável, ou mesmo a desproporção da percepção do grau de infecciosidade relatados pelos soropositivos em tratamento acerca de sua própria capacidade de contaminar alguém próximo, tem me parecido uma preocupação de segundo grau. A primeira é, naturalmente, a cura — o que é compreensível e não necessita de justificativas.

Como parte de um segmento da população infectado cronicamente com um agente patológico que confere ao seu hospedeiro uma condição estigmatizante, nada mais natural, nada mais compreensível, do que desejar a cura. Esperamos todos que ela venha o mais rápido possível, enquanto as estratégias de controle virêmico atóxicas apareçam disponíveis o quanto antes. Tudo muito natural. Tudo muito compreensível. Eu mesmo ignorei no blog, a princípio, os textos menos científicos, desejando somente encontrar duas palavras juntas em uma mesma estrutura sintática:

cura + prazo

Eu realmente gostaria de saber quanto tempo eu iria ter de me submeter ao tratamento antirretroviral até que minha vida, de fato, começasse de novo. Queria saber quando eu poderia reviver meus momentos de total despreocupação com meu corpo, a minha disponibilidade de me relacionar com outras pessoas e mesmo de diminuir a distância entre mim e minha família. Resumindo, gostaria de saber quando tudo isto iria acabar.

Soropositivos, vocês estão liberados para viverem suas vidas.

Na época, a um ano e alguns meses atrás, eu estava convencido de que eu seria capaz de colocar minha vida, meus planos e meus desejos em suspensão, contanto que alguma garantia fosse dada para mim. Estava disposto a esperar cinco, talvez dez anos, parado, olhando para as coisas como um expectador estrangeiro, até que alguma notificação no celular anunciasse no seu blog, ou em qualquer outro meio de divulgação, a tão esperada notícia: achamos a cura! Mas, com o passar do tempo, o que eu não esperava concluir é a péssima notícia de que viver tem efeitos colaterais — seja você soropositivo, ou não. Portanto, soropositivos, vocês estão liberados para viverem suas vidas.

HIV

Me lembro de uma carta que enviei para você, poucos meses após a descoberta do meu diagnóstico, quando eu estava bastante preocupado com os efeitos a longo prazo da infecção crônica que havia descoberto. Minha inquietação era a respeito dos biomarcadores que indicavam mudanças discretas de processos inflamatórios persistentes, em comparação aos soronegativos, sugerindo, a partir das minhas leituras na época, que os riscos associados ao envelhecimento precoce poderiam representar uma desvantagem e uma vida menos ‘normal’ ao longo dos anos.

Alguns meses se passaram até que outras notícias foram divulgadas a esse respeito, como aquela em que você conclui, ao final das contas, que todos nós envelhecemos. Vi alguns estudos sendo repetidos e apresentando resultados bastante similares: soropositivos tem uma expectativa de vida parecida com a de soronegativos e ficam doentes em idades similares. Mas, vez ou outra, outros estudos, como acontece com toda boa ciência, ainda insistem na diferença — pequena, mas expressiva, de cinco anos ou menos, entre os portadores de HIV e os que não possuem HIV. Sempre que lia essas notícias tinha a impressão de que o peso que eu havia levantado, com a ajuda de textos, relatos, compartilhamento de histórias, havia caído novamente nas minhas costas.

Todos os textos que apresentam uma tentativa de dissolver o estigma, representam uma melhora não só na qualidade, mas no aumento da nossa esperança de vida.

E foi aí que me dei conta de algo: todos os textos que apresentam uma tentativa de dissolver o estigma, seja a partir de um relato de uma experiência amorosa bem sucedida, seja a partir da segurança de que a vida volta ao normal, ou, ainda, pela carinhosa carta de um leitor recomendando paciência e abertura para essa nova fase das nossas vidas, representam também uma melhora não só na qualidade, mas no aumento da nossa esperança de vida. Então, entendi que eu deveria não somente me manter atualizado das novíssimas tecnologias que um dia irão nos curar da infecção crônica, ou, no pior dos cenários, induzir remissões de longa duração sem a utilização de medicamentos, mas também me ater à luta contra o estigma.

‘Mas qual a relação entre o estigma e a minha expectativa de vida?’, já escuto algum leitor seu perguntar. Eu mesmo me coloquei essa questão várias vezes, tentando unir esse aspecto inútil e banal às evidências sólidas dos estudos comparados. O primeiro dado com o qual me detive foi que:

  1. expectativa de vida do soropositivo ainda é menor que a do soronegativo, na maioria dos estudos realizados; e também que,
  2. nenhum, ou quase nenhum, desses estudos epidemiológicos levam em consideração o aspecto orgânico da vivência de uma experiência difícil como a do estigma.

Dito isso, fui buscar, muito discretamente, modelos experimentais com símios superiores, macacos, nossos parentes mais próximos na escala evolutiva, que descrevessem os riscos envolvidos na experiência de solidão e do isolamento. Confesso que, sem muitas surpresas, vi, nos estudos que li, um crescimento da frequência de doenças cardiovasculares nos grupos que se mantinham à distância da experiência social, por pelo menos duas razões.

Indivíduos solitários tendem a desenvolver hábitos pouco saudáveis.

A primeira razão é uma variável comportamental. Os animais que estavam diante de uma rede de suporte social, mesmo sob uma dieta artereogênica — isto é, que aumenta a quantidade de lipídeos na corrente sanguínea —, apresentavam índices menores de arteriosclerose do que o grupo de controle que tinha a mesma alimentação, mas experiências de grupo pouco coesas. É como diz aquele senhor na primeira postagem de 2016: ‘a solidão é tóxica’. Além do mais, a solidão, segundo o estudo publicado num livro chamado ‘Tratado de Medicina Cardiovascular’, sugere que indivíduos solitários tendem a desenvolver hábitos pouco saudáveis, como a ingestão de dietas ricas em carboidratos simples e lipídeos, bem como a utilização de tabaco ou outras substâncias tóxicas para o organismo.

A segunda razão, publicada em alguns estudos, dentre eles, um da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chamado ‘Neuroendocrinologia do Estresse: História e Conceitos’, sugere que existem alterações significativas de aspectos neuroendócrinos, psicológicos e, portanto, fisiológicos em organismos que são expostos à situações constantes de estresse. O que o estudo sugere, ao final das contas, é uma tese simples: organismos submetidos à situações de estresse agudo apresentam rápida recuperação e até vantagens ante aos organismos que não experimentam situações de desgaste, enquanto organismos que são expostos à situações de estresse constante apresentam dificuldades de suplantar as alterações produzidas diante do quadro de deterioração, sendo mais suscetíveis à patologias.

lonely crowded

Independente de esta pequena pesquisa ser definitiva ou não, o que eu entendi foi que não há um consenso à respeito dos tipos de complicação em seres vivos expostos diante de situações de estresse durante longos períodos de tempo, e os efeitos podem ser variados. Isso me diz também que não só devemos pensar duas vezes antes de nos assustar com os estudos que afirmam que a inflamação persistente é a causa de uma suscetibilidade maior à doenças do que em soronegativos, quanto incluir o combate ao estigma, uma vez que este parece estar ligado à boa parte do enfrentamento dos riscos presentes para a maioria dos soropositivos.

Um outro artigo publicado no portal HIV Equal, que se chama How an HIV Diagnosis can Sometimes Lead to a Longer Life (em tradução livre: ‘Como um diagnóstico de HIV pode eventualmente levar à uma vida mais longa’), sugere, como o próprio título diz, que os frequentes monitoramentos que fazemos, de no máximo de seis em seis meses, levam a uma esperança de vida em soropositivos, em países desenvolvidos, em alguns casos, maior do que a dos soronegativos.

A distinção entre soronegativos e soropositivos se mantém, apesar de todo o avanço tecnológico em que nos encontramos.

Finalmente, me convenci de que a distinção entre soronegativos e soropositivos se mantém, apesar de todo o avanço tecnológico em que nos encontramos, não só objeto da investigação epidemiológica, quanto um produto da própria sociedade em relação à persistente diferença que recai frequentemente em nós. Não satisfeitos na brutal diferença entre ‘aidéticos’ e não aidéticos, transitamos para a diferença entre os lipodistróficos e os não lipodistróficos. Superada a alta incidência de redistribuição de gordura corporal no corpo dos soropositivos usuários de coquetéis com a entrada de novos antirretrovirais no mercado, procuraram em biomarcadores índices da diferença entre uma vida normal e uma vida com HIV, e acharam na inflamação persistente a garantia de que a diferença permanece.

E se a expectativa de vida um pouco reduzida fosse um produto de uma sociedade que, ainda cheia de preconceitos, induz estados de isolamento e maus hábitos em soropositivos ao redor do mundo?

Mas e se a inflamação persistente, e a eventual expectativa de vida um pouco reduzida, fosse um produto de uma sociedade que, ainda cheia de preconceitos, induz estados de isolamento e maus hábitos em soropositivos ao redor do mundo? Se isso for verdade e a fragilidade do soropositivo se der, também, pelo alto grau de estresse que o paciente portador do vírus experimenta, não só no diagnóstico, mas ao longo de sua vida, temos uma notícia boa e uma ruim. A boa é que a justificação da inflamação persistente parece insuficiente para explicar o coro dos especialistas que ignoram um quadro socialmente determinado, que não se dissolveu nem mesmo à porta da 40ª década de descoberta do vírus, podendo ser remediado individualmente pela escolha de bons hábitos. A má notícia é sobre a persistência, depois de tanto tempo, de uma diferença que coloca soropositivos de um lado e soronegativos do outro.

Discipline and Punish

Mas acho que essa já era uma suposição sua — não era? —, ao trazer, a partir da leitura de Vigiar e Punir, de Michel Foucault, que traz a experiência da lepra como uma forma de segregação, um modelo insistente de representação social dos soropositivos e que produz e serve de objeto de um estado global de fragilidade, menos por sua condição virológica, do que por uma experiência de exclusão tão radical, que atravessa quase quarenta anos sem muitas diferenças.

Um grande abraço,

V.”


Aidsmap

Limites seguros para o consumo de álcool para pessoas que vivem com HIV, especialmente aqueles que não estão sob terapia antirretroviral, podem ser menores do que as recomendações para o resto da população, de acordo com o que sugere um grande estudo feito nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados no jornal Drug and Alcohol Dependence.

As descobertas do estudo indicam que apenas um único país — o Reino Unido — recomenda um nível de consumo de álcool para a população em geral que também minimiza os danos do consumo de álcool nas pessoas que vivem com o HIV. Todos os limites de consumo seguro de álcool recomendados por outros países ainda colocam as pessoas com HIV sob maior risco de sofrer com os efeitos nocivos do álcool, em comparação com os seus homólogos sem HIV. O estudo descobriu que beber mais de 14 unidades por semana — equivalente à cerca de uma dose por dia em termos norte-americanos — aumenta o risco de morte para os homens com HIV. O risco aumentado de morte só se tornou evidente para os homens sem HIV em níveis mais elevados de consumo de álcool.

Atualmente, as recomendações sobre o consumo seguro de álcool variam muito de país para país. Recentemente, o Reino Unido publicou uma recomendação de consumo máximo de 14 unidades de álcool por semana, para homens e mulheres, em comparação com o equivalente de 24 unidades por semana para homens nos Estados Unidos (equivalente à 14 bebidas por semana) e 35 unidades por semana na Espanha. A orientação dos Estados Unidos sugere que as mulheres restrinjam a ingestão de álcool para 12 unidades por semana, enquanto a orientação espanhola não recomenda mais de 21 unidades por semana para mulheres.

O alto consumo de álcool aumenta o risco de desenvolvimento de uma ampla gama de tipos de câncer, particularmente câncer de mama em mulheres e câncer de intestino, esôfago, boca e garganta em ambos os sexos. O risco de câncer na boca, garganta e esôfago pode ser ainda maior por conta de tabagismo. O álcool também aumenta o risco absoluto de câncer de fígado. O alto consumo de álcool também aumenta o risco de acidente vascular cerebral e doença cardiovascular, através do aumento da pressão arterial. Há um grande debate a respeito da eventual proteção que uma pequena quantidade de álcool poderia oferecer contra doenças cardíacas.

Em suas novas recomendações, o Reino Unido calculou que, para uma pessoa que bebe 14 unidades ou menos por semana, o risco de morrer de uma condição relacionada ao álcool é de 1 em 100. Em um comunicado para a imprensa emitido pela Science Media Centre, no mês passado, o professor Matt Field do Liverpool University’s UK Centre for Tobacco and Alcohol Studies estabeleceu o risco absoluto de alguns tipos de câncer em níveis mais elevados de consumo de álcool:

“Entre os homens, cerca de 8 em 1.000 não-bebedores ou bebedores que aderem ao limite semanal (de não mais que 14 unidades por semana) estão em risco de desenvolver câncer de fígado. Essa taxa sobe para 11 em 1.000 para os homens que bebem entre 14 e 35 unidades por semana. Mas, para o câncer do esôfago, as taxas são aumentadas para os homens que bebem até mesmo dentro da orientação semanal (13 em 1.000), em comparação com aqueles que se abstêm completamente (6 em ​​1.000), e ainda maior para aqueles que excedem a diretriz (25 por 1.000 em homens que bebem entre 14 e 35 unidades por semana).”

 

O Veterans Aging Cohort Study

O estudo dos Estados Unidos foi concebido para testar se o consumo de álcool está associado a um maior grau de danos na população de soropositivos, em comparação com uma população não infectada com características semelhantes. A população do estudo consistiu de veteranos militares que recebem cuidados de saúde através da Veterans Health Administration, nos Estados Unidos, e que tinham sido inscritos no Veterans Aging Cohort Study (VACS). O estudo envolveu 18.145 pessoas com HIV e 42.228 indivíduos não infectados que relataram qualquer consumo de álcool, num questionário que incluía uma série de perguntas sobre o uso do álcool, como parte da rotina acompanhamento médico. As mulheres do estudo, que constituíam apenas 3% da população do VACS, foram excluídas do estudo e, portanto, tornando mais difícil tirar quaisquer conclusões confiáveis ​​sobre os resultados em mulheres.

Os pesquisadores olharam para a mortalidade e “lesão fisiológica” — marcadores laboratoriais que predizem doenças físicas. Este último foi calculado usando o Índice VACS, um sistema de pontuação que contabiliza hospitalização e morbidade, incluindo fraturas. A pontuação do Índice VACS pareceu sofrer alterações diante do consumo de álcool e uso de drogas, bem como às mudanças na adesão ao tratamento. A pontuação é calculada utilizando as seguintes medidas: hemoglobina, função renal, infecção para hepatite C, carga viral, contagem de CD4 e FIB-4 pontuação calculada com referência a ALT/AST e contagem de plaquetas.

A idade média dos participantes do estudo era de 52,5 anos para os homens que vivem com HIV e 54 anos para os homens não infectados. 31% das pessoas com HIV e 16% daqueles sem HIV tiveram infecção por hepatite C. Aproximadamente três quartos dos homens com HIV (76%) tinham carga viral indetectável.

Embora a maioria das pessoas com HIV que relataram uso de álcool eram bebedores leves ou moderados, que consomem menos de 14 bebidas por semana (81%), os pesquisadores classificaram 24% dos homens com HIV como tendo um nível “não saudável” de consumo de álcool, com base em suas respostas ao questionário, o qual perguntava sobre o número de dias em que o consumo de álcool ocorria, a quantidade de bebida e a frequência de abuso da bebida (seis ou mais bebidas em um dia). Um bebedor do sexo masculino se enquadraria nesta categoria se relatasse beber não mais do que duas a três vezes por semana, ter bebido pelo menos três bebidas em cada ocasião, ou ter relatado nunca consumir seis ou mais bebidas em uma ocasião. Os limites “não saudáveis” para beber eram mais baixos para as mulheres e para as pessoas com idade superior a 65 anos.

Durante um período médio de acompanhamento de 4,8 anos, a taxa de mortalidade foi de 2,7 óbitos por 100 pessoas-ano entre os homens com HIV e 1,8 por 100 pessoas-ano entre os homens sem HIV. Quando as taxas de mortalidade foram plotadas pelo consumo de álcool, os homens que vivem com o HIV com maior gama de consumo, seja pelo número total de bebidas (70 ou mais bebidas por mês), pela pontuação do questionário ou pelo consumo diário, apresentaram taxas de mortalidade quase duas vezes mais altas que aqueles com menor consumo (cerca de 5 mortes por 100 pessoas-ano). A diferença na mortalidade foi muito menos evidente para os homens sem infecção pelo HIV (os quais apresentaram um aumento aproximado de 25% na mortalidade).

A mortalidade em todos os níveis de consumo de álcool foi maior para os homens com HIV do que aqueles sem HIV, e a diferença nas taxas de mortalidade tornou-se maior à medida que o consumo de álcool aumentou.

Um padrão semelhante ficou evidente quando os valores médios do Índice VACS foram comparados com os diferentes níveis de consumo de álcool. O uso do Índice VACS — que se correlaciona com lesão fisiológica — mostrou que não havia nenhum nível de consumo de álcool que se mostrou protetor em homens com HIV, enquanto que beber entre 3 a 29 bebidas por mês oferecia proteção para as pessoas sem infecção pelo HIV.

A análise multivariada ajustada de acordo com raça, tabagismo e hepatite C mostrou que os homens com HIV que bebiam de 30 a 69 drinques por mês tiveram um risco 30% maior de morte, durante o período de acompanhamento do estudo, do que homens que bebiam apenas 1 ou 2 drinques por mês. Homens com HIV que bebiam mais de 70 bebidas por mês apresentaram 50% maior risco de morte. Em comparação, aqueles sem HIV tiveram um risco aumentado de mortalidade somente quando consumiram mais de 70 drinques por mês.

 

Por que o álcool é mais prejudicial para as pessoas com HIV?

Os pesquisadores dizem que as pessoas com HIV provavelmente são mais vulneráveis ​​aos efeitos nocivos do álcool, porque têm maiores níveis de álcool no sangue para cada unidade de exposição — uma explicação apoiada por um estudo separado da coorte VACS, que mostrou que as pessoas com HIV relatam intoxicação mesmo em níveis mais baixos do consumo de álcool, com efeito ainda mais pronunciado em pessoas com carga viral detectável. Os autores desse estudo sugerem que a absorção de álcool pode ser maior em pessoas com infecção pelo HIV não tratada devido à “disfunção da barreira intestinal”, e ao fato do índice de massa corporal ser, em média, menor em pessoas com HIV. Outro estudo descobriu que os níveis de álcool no sangue são mais elevados em infecções por HIV não tratadas. Os pesquisadores concluíram que “indivíduos soropositivos que consomem mais de 30 drinques por mês estão em maior risco de mortalidade, por todas as causas e fragilidade fisiológica.”

 

Implicações para as recomendações sobre consumo de álcool

Trinta doses por mês pode não parecer muito, mas diferentes países têm diferentes formas de calcular o consumo de álcool. Nos Estados Unidos, uma “dose padrão” contém 14g de álcool. Na Austrália, uma “bebida padrão”contém 10g de álcool. No Reino Unido, uma “unidade” de álcool contém 8g de álcool. Em unidades do Reino Unido, 70 drinques por mês é o equivalente a 30 unidades por semana, enquanto 30 drinques por mês — o nível em que o dano se tornou evidente na coorte de veteranos norte-americanos — é o equivalente a 13 unidades por semana — quase o mesmo que o novo limite para consumo mais seguro de álcool recomendado para a população em geral pelo Departamento de Saúde do Reino Unido no mês passado (de 14 unidades).

Em termos práticos, o Reino Unido recomenda beber não mais do que seis copos de vinho, ou seis litros de cerveja, ou 14 pequenas medidas de bebida, a cada semana, distribuídos por vários dias.

Como as pessoas escolhem interpretar estes resultados vai depender de sua atitude diante do risco. Para alguns, a abstinência total pode ser a única maneira confortável de lidar com o risco relacionado ao álcool, mas outros podem concluir que o aumento do risco absoluto de efeitos nocivos do álcool para pessoas com HIV detectado neste estudo é pequeno o suficiente para fazer pouca diferença sobre seus pontos de vista a respeito do consumo de álcool.

A principal limitação deste estudo é que ele olhou para o consumo de álcool apenas em homens. Mais pesquisas são necessárias em uma grande coorte de mulheres com HIV, onde possam ser gravadas informações confiáveis ​​sobre o consumo de álcool. No entanto, o maior dano causado por uma unidade de álcool em mulheres já está bem estabelecido, o que sugere que os resultados para os homens são susceptíveis de serem aplicados às mulheres, embora em níveis mais baixos de consumo de álcool.

Em 10 de fevereiro de 2016 por Aidsmap

Referências: Justice A et al. Risk of mortality and physiologic injury evident with lower alcohol exposure among HIV infected compared with uninfected men. Drug and Alcohol Dependence, advance online publication, February 2016. McGinnis K et al. Number of drinks needed to “feel a buzz” by HIV status and viral load in men. AIDS & Behavior, advance online publication 17 April 2015.

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Se houver um santo graal da perda de peso, seria um programa que permitisse que alguém perdesse gordura rapidamente, enquanto mantivesse ou até mesmo aumentasse a massa muscular. Melhor ainda se esse programa fosse fácil.

Um novo estudo descreve um regime de treino e dieta que realiza essas duas metas, e de maneira notavelmente bem. Porém, pode não ser tão fácil. Para a maioria de nós, perder peso e assim mantê-lo é difícil. Se você consumir menos calorias do que seu corpo necessita para as funções diárias, as fontes internas são transformadas em combustível. Essas fontes consistem em gordura corporal e massa magra, o que significa massa muscular. Quando alguém em uma dieta perde um quilo de massa corporal (uma medida que não inclui a água), muito do que este quilo consiste é de gordura. Mas cerca de um terço ou mais pode ser composto por músculo.

O problema com a perda muscular é que, ao contrário do tecido adiposo, o músculo queima calorias. Ter menos músculo significa ter uma taxa metabólica de repouso mais baixa e, assim, você queima naturalmente menos calorias ao longo do dia. Perder músculo também pode desencorajar a atividade física, que é importante para manter a perda de peso. Assim, pesquisadores têm ido à procura de programas de perda de peso que proporcionam grandes quantidade de perda de gordura, mas diminuem qualquer declínio muscular.

Para os cientistas da Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá, esse objetivo parecia exigir uma alta dose de proteína e também abundância de exercícios. Como os cientistas sabiam, os aminoácidos da proteína ajudam a manter os músculos e fazê-los crescer. Muitos estudos anteriores sugeriram que dietas de baixa caloria, mas de alta quantidade proteína podem resultar em menos perda de massa muscular do que dietas com o mesmo número de calorias, mas menos proteína. No entanto, a dosagem ideal de proteína era incerta, assim como o papel dos exercícios físicos.

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Neste novo estudo, que foi publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, os pesquisadores da McMaster reuniram 40 homens jovens com sobrepeso que estavam dispostos a se comprometer em um programa de perda de peso intensivo e, então, dividiu-os em dois grupos. Todos os jovens começaram uma dieta em que suas calorias diárias foram reduzidas em cerca de 40% (em comparação com o que eles precisavam para manter o peso). Mas, para a metade deles, a dieta consistiu em cerca de 15% de proteína, 35% de gordura e 50% de carboidratos. Os outros 20 voluntários começaram uma dieta que imitava a do primeiro grupo, exceto pelo fato de que as proporções de proteína e gordura foram trocadas, de modo que 35% de suas calorias vinham de proteína e 15% de gordura. Além disso, a ingestão de proteínas foi cerca de três vezes maior que a ingestão diária recomendada para a maioria das pessoas.

Os pesquisadores controlaram essa dieta mudando a composição de uma bebida fornecida no estudo. No grupo de baixa proteína, a bebida continha leite de alta gordura e nenhuma proteína acrescida. Para os outros, consistia de leite com baixo teor de gordura e uma grande dose de proteína de soro de leite.

Todos os homens também começaram uma rotina extenuante de exercícios. Seis dias por semana eles compareciam ao laboratório de exercícios e completavam um circuito intenso de treinamento de peso para o corpo inteiro, com intervalos de alta intensidade ou uma série de saltos explosivos e outros exercícios conhecidos como treinamento de pliometria. A dieta e a rotina de exercícios duraram quatro semanas. Ao final desse período, “os caras estavam esgotados”, conta Stuart Phillips, que ocupa uma cadeira pesquisa em saúde muscular e esquelética na Universidade McMaster e quem supervisionou o estudo. “Tudo o que eles conseguiam falar era: ‘comida!'”

Todos os participantes tinham conseguido queimar alguns quilos. Homens em ambos os grupos pesavam, em média, cerca de 5 quilos a menos. Mas foi a composição do que consistia a perda de peso que diferia. Diferentemente da maioria das pessoas em dietas de baixa caloria, os homens no regime de alta proteína tinham realmente ganhado massa muscular durante o mês, em torno de 1,3 quilo. Assim, nestes homens, quase todos os 5 quilos que tinham perdido consistiam em gordura.

Estes resultados sugerem fortemente que, para evitar perder músculo, a proteína extra é aconselhável durante a perda de peso, disse o Dr. Phillips. Contudo, o exercício também é fundamental, em particular exercícios com peso, uma vez que este é conhecido por construir músculos. Mesmo os homens na dieta baixa em proteínas perderam pouca massa muscular, ressaltou o Dr. Phillips, o que foi inesperado e quase certamente devido, segundo ele e seus colegas concluíram, ao exercício.

Naturalmente, até ao final do mês do estudo, nenhum dos homens pretendia continuar. Este tipo de corte de calorias extrema combinada com exercício intenso “não é um programa sustentável a longo prazo”, disse o Dr. Phillips. “É mais uma espécie de período de treinamento”, prosseguiu ele, controlável a curto prazo por pessoas que estão muito empenhadas e geralmente muito saudáveis.

Ele e seus colegas planejam realizar experimentos de acompanhamento para encontrar um programa mais realista e sustentável. Eles planejam, também, estudar voluntários do sexo feminino e brincar com a composição das dietas, a fim de estabelecer definitivamente se é a proteína extra, e não a redução de gordura, que de fato promove ganhos musculares.

Entretanto, para aqueles que desejam se tornar magros, mas não magrelos, diversos aplicativos permitem determinar a porcentagem de sua dieta que deve ser composta por proteína. Se for inferior a 10 ou 15%, você pode querer mudar as calorias provenientes de gordura para proteína. Renovar a sua inscrição na academia de ginástica também é importante.

Por Gretchen Reynolds para The New York Times em 3 de fevereiro de 2016


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Fique atento ao açúcar, tenha cuidado com o saleiro e limite as gorduras saturadas. Esse é o conselho das orientações nutricionais norte-americanas atualizadas, divulgadas na quinta-feira pelo Departamento de Agricultura e pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. As orientações são publicadas a cada cinco anos e tem como objetivo refletir as últimas evidências com base científica a respeito do que comer.

“A dieta é uma das ferramentas mais poderosas que temos para assumir o controle de nossa própria saúde.”

“A dieta é uma das ferramentas mais poderosas que temos para assumir o controle de nossa própria saúde”, disse a secretária de Saúde e Serviços Humanos Sylvia Burwell a repórteres, em uma coletiva de imprensa feita nesta quinta-feira. “Há muitas maneiras de se manter saudável, mas a nutrição será sempre a base da boa saúde.”

Enquanto alguns grupos, como a American Medical Association, louvam e apoiam as novas orientações, os críticos dizem que essas recomendações não vão suficientemente longe e acusam o governo de fazer politicagem com a saúde dos americanos. “É realmente uma traição política contra a ciência”, diz o Dr. David Katz, diretor fundador do Yale Prevention Research Center, um programa financiado pelo governo federal americano que estuda como as mudanças no estilo de vida podem prevenir doenças. “A saúde pública, que representa a vida de pessoas reais, está sendo jogada debaixo da política.”

Uma das maiores controvérsias está centrada naquilo que não consta nas orientações: a recomendação para comer menos carne vermelha e processada. O Comitê de Diretrizes Dietéticas Consultivo, um painel de peritos independentes, afirmou que comer grande quantidade de carne vermelha e processada é “prejudicial”.

As novas orientações não recomendam comer carnes magras e aves, e observam que comer menos carne, incluindo carne vermelha e de aves processadas, tem sido associado a um menor risco de doença cardíaca. Contudo, não oferece instruções ou limites específicos em torno de carnes vermelhas e processadas. Ao invés disso, afirma que podemos consumir carne vermelha e de aves processadas, desde que os padrões alimentares permaneçam dentro dos limites de quantidade de sódio, gorduras saturadas, quantidade de açúcar e de calorias recomendados pelas novas orientações.

“A ciência sobre a relação entre câncer e dieta é extensa.”

“A ciência sobre a relação entre câncer e dieta é extensa”, diz o Dr. Richard Wender, diretor de controle do câncer da American Cancer Society. “Ao omitir recomendações dietéticas específicas, como comer menos vermelha e carne processada, estas orientações perdem uma oportunidade única e significativa para reduzir o sofrimento e a morte por câncer.”

Center for Science in the Public Interest (CSPI) disse em um comunicado que, após o comitê consultivo ter feito essa recomendação, “o relatório científico foi atacado pela indústria da carne e seus aliados no congresso americano.” Porém, o CSPI também disse que a recomendação para comer menos carne presente nas orientações  indica que o Departamento de Agricultura e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos “resistiram parcialmente à pressão política”.

Ainda assim, a Associação Nacional de Pecuaristas americana elogiou as novas diretrizes alimentares. “A carne bovina magra é um alimento rico em nutrientes saudáveis que no ajuda a voltar ao básico de uma alimentação saudável, que fornece muitos nutrientes essenciais como zinco, ferro, proteínas e vitaminas do complexo B, com menos calorias do que muitas fontes à base de proteínas vegetais”, diz Richard Thorpe, identificado como um médico e produtor de gado no Texas, em um comunicado divulgado pela associação.

Na coletiva de imprensa de quinta-feira, funcionários das agências americanas defenderam a diretriz a respeito da carne tal como está, dizendo que as recomendações refletem a melhor evidência científica, muito embora homens e jovens adolescentes ainda comam muita carne vermelha, carne de aves e ovos.

Mas o Dr. David Katz não concorda. Em um post publicado em mídia social, ele chama as diretrizes alimentares de “uma vergonha nacional”. “Este é um dia triste para a política de nutrição nos Estados Unidos”, ele escreve. “É um dia triste para a saúde pública. É um dia de vergonha.” Em comparação com o relatório da comissão consultiva, Katz diz que as orientações “representam um substituto vergonhoso de orientações específicas com a linguagem mais vaga possível”. “Um termo que se repete muitas vezes, claramente destinado a falar muito e dizer pouco, é ‘alimentos ricos em nutrientes'”, ele escreve. “Pode significar brócolis… Eu acho que pode até significar pepperoni. Quem lê simplesmente não consegue deduzir — e isso foi feito com um objetivo: substituir referências a alimentos específicos, que povoavam o documento original.”

Pela primeira vez, as orientações de 2015 enfrentam os açúcares adicionados — os quais não incluem açúcares de ocorrência natural, como o presente em leite ou em frutas –, recomendando que eles representem menos de 10% da dieta dos americanos. A nova orientação também recomenda que ingiramos menos de 10% de nossas calorias diárias a partir de gorduras saturadas — as quais incluem: manteiga, leite integral, carnes que não são magras e óleos tropicais, como coco ou óleo de palma.

As recomendações sugerem que comamos não mais do que 2.300 miligramas de sódio, se você tem 14 anos de idade ou mais — e uma quantidade menor para aqueles com menos de 14 anos. Quase 90% dos americanos comem mais do que a quantidade diária recomendada de sódio, segundo Burwell. Em uma mudança das diretrizes passadas, os ovos agora são incluídos entre os alimentos ricos em proteínas recomendadas. Também estão incluídos frutos do mar, carnes magras e aves, leguminosas (feijões e ervilhas) e produtos de soja, juntamente com nozes e sementes. O CSPI diz que está desapontado que as recomendações “minimizem a importância de um menor consumo de colesterol, especialmente a partir de ovos”, mas ressaltou que as orientações não recomendam uma qualidade ilimitada de ovos, aconselhando os americanos a comer “tão pouco colesterol quanto possível”, como parte de um padrão alimentar saudável.

Também pela primeira vez, as diretrizes não propõem restringir a quantidade de gordura total. Durante a última década, a ciência mostrou os benefícios para saúde em dietas como a mediterrânea, que é rica em gorduras insaturadas, como azeite de oliva, nozes e peixes gordos. A decisão de abandonar o limite de gordura total foi saudada no início deste ano. E há uma boa notícia para você que gosta de tomar um cafezinho: as diretrizes mencionam o café pela primeira vez e dizem que tomar uma quantidade moderada pode ser parte de uma dieta de alimentação saudável.

As orientações exortam os americanos a se concentrar em comer:

  • Uma variedade de legumes (verde escuro, vermelho e laranja)
  • Frutas, especialmente frutas inteiras
  • Grãos,  sendo pelo menos metade dos quais grãos integrais
  • Laticínios livre de gordura ou com baixo teor de gordura, incluindo leite, iogurte e queijo
  • Alimentos ricos em proteínas e óleos, em especial óleos vegetais ou à base de castanhas

“Se as pessoas comerem seguindo essas recomendações, seria uma grande vitória.”

O CSPI diz que as recomendações são “boas, sensatas e baseadas em ciência”. “Se as pessoas comerem seguindo essas recomendações, seria uma grande vitória para a saúde pública”, diz Michael Jacobson, PhD, presidente do CSPI. “Dito isso, os conselhos de nutrição básicas do governo federal americano se mantiveram praticamente inalterados nos últimos 35 anos. O problema é que a indústria de alimentos continua a pressionar e tentar-nos a comer uma dieta de hambúrgueres, pizzas, burritos, biscoitos, donuts, refrigerantes e outros alimentos carregados com farinha branca, carne vermelha e processada, sal, gordura saturada e açúcares adicionados, e não a quantidade suficiente de legumes, frutas e grãos integrais.”

Por Ashley Hayes para o MedScape em 7 de janeiro de 2016

Acontece uma estranha sensação depois de ler “reagente” no resultado do teste de HIV. Pelo vírus incurável, a presunção de que a vida jamais será a mesma e, por sua história, a certeza do sofrimento, com um novo corpo alterado pela doença e seu tratamento. A vontade de arrancar de si um micróbio que, agora, é inarrancável e, por isso, a frustração. A nova identidade, de soropositivo.

Esse é um sentimento que só se esvai com o tempo, quando, pouco a pouco, percebemos que o tratamento não é tão terrível, que o corpo não muda por causa dele, que a doença é controlada, que, com os remédios, o vírus não mais se replica em nosso organismo. Não nos sentimos doentes. Nos olhamos no espelho e vemos alguém saudável. A história da epidemia da aids não é mais aquela que assistimos na televisão nos anos 80 e 90. É outra. Hoje, no dia a dia, podemos esquecer do vírus, tão pequeno. E a nova identidade não é mais necessária — se fosse, logo aprendemos que não importa tanto o soropositivo, mas o indetectável.

Contudo, o vírus persevera, escondido, dentro de alguma célula de memória do sistema imune que nos faz lembrar que, embora não estejamos doentes, tampouco estamos curados. Como uma pequena semente distante da terra, o vírus não germina, mas está lá, pronto para fazer o mal caso o tratamento seja abandonado. Uma lembrança distante, e forte, do torvo momento do diagnóstico e de todo o assombroso momento que experimentamos quando recebemos aquele resultado reagente do teste de HIV. O vírus, controlado, é uma fagulha de sofrimento potencial, que faísca sempre que remexemos no assunto do diagnóstico. Contar para alguém que somos HIV positivo é um desses momentos. Um dos últimos redutos do trauma que o vírus traz, ainda resistente à toda a normalidade que a vida de soropositivo e indetectável pode oferecer.

Quando chega a hora de contar, é como se o HIV deixasse de ser pequeno. Como uma memória acendida, vem à tona e cresce. Enxergamo-lo grande, como se estivesse bem de perto, como se pudéssemos avistá-lo a partir de algum olho que habita dentro daquela célula de memória do sistema imune. Então, vemos que o vírus ainda está lá. Pronto para assustar a quem contarmos que temos HIV. Pronto para despertar, no outro, a memória do pavoroso passado da epidemia de aids, seu antigo conceito de doença monstruosa que, embora não o seja mais, é revivida no estigma, discriminação e preconceito. O pesadelo do soropositivo, hoje, é este.

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Quando na manhã seguinte acordei de sonhos intranquilos, era impossível não lembrar dos dias após o meu diagnóstico. Antes de me levantar, olhei pela janela, tentando discernir se a textura do mundo real era a mesma do pesadelo que acabava de acordar, logo depois da primeira noite em que experimentei uma rejeição amorosa por causa da minha condição sorológica, por causa do HIV. Uma negativa que encerrava bruscamente o romance, numa mensagem que dizia:

“Jovem, eu acho melhor não nos vermos mais.”

Nesses sonhos intranquilos, estava o Dr. O., meu primeiro infectologista. Em seu consultório, todo branco e com poucos objetos, ele prescrevia meus primeiros antirretrovirais: Lamivudina, AZT, o primeiro antirretroviral do mundo contra o HIV, e o potente Kaletra. Lembrei do gosto metálico destes remédios, que surgia na boca logo após as primeiras doses deglutidas. E da diarreia incessante que se sucedeu e perdurou, sem trégua, pelos quatro meses seguintes. A manhã de hospitalização por vômito incessante. A irritação na pele e o dermatologista que preferiu não tocar nelas, examinando-as à distância de sua mesa, assim que informei ser portador do vírus. As calças defecadas no meio da rua. A anemia. Os quilos sumindo na balança. As pernas finas e as nádegas murchas, pela súbita magreza.

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Um corpo novo, enfim transformado pelo forte tratamento a que o doutor insistia em me submeter, sem deixar espaço para qualquer alternativa. Amigos comentavam meu emagrecimento repentino e minha mãe, quando a encontrava, chorava escondida pelos cantos, aterrorizada pela minha nova aparência, tão semelhante aos soropositivos que viveram os anos do começo da epidemia. Me sentia desumanizado, e, agora, naquela manhã, depois de rejeitado por causa do HIV, voltava a me sentir assim, pela primeira vez desde o diagnóstico. Compreendi que, por causa do HIV, eu causava repugnância. Era como a de um inseto, sujo e contaminado. Uma barata, ou, quem sabe, uma aranha peçonhenta, tal como aquela retratada nas primeiras peças publicitárias de prevenção ao HIV.

“— Mas, quando conheceu essa menina, você já não tinha mais a aparência alterada pelos efeitos colaterais dos medicamentos, certo?”, perguntou B., a jovem jornalista de sotaque sulista que me entrevistava. “Já tinha retomado sua aparência saudável, como está hoje, não?”

“— Sim, eu estava ótimo há muito tempo. Bastou mudar de médico: meu novo infectologista, o Dr. Esper, trocou meu coquetel logo em nossa primeira consulta. De Kaletra para Efavirenz. No dia seguinte, exatamente 24 horas depois, a diarreia cessou, finalmente, depois de quatro meses. Voltei a comer. A anemia sarou. Ganhei peso. E entendi que o começo, o diagnóstico, não precisava ser nem de perto tão trágico como foi. O primeiro médico foi duro comigo por alguma razão que me escapa até hoje. Não precisava ser assim. Percebi que a vida depois do diagnóstico podia voltar a ser completamente normal, em todos os aspectos — exceto, eu aprendia àquela altura, pela rejeição amorosa por causa do HIV.”

“— Você nunca mais encontrou essa menina que o rejeitou?”, perguntou B.

“— Nos encontramos, sim, um mês depois. Ela me ligou no meio da noite. Acontecia uma festa em sua casa e ela provavelmente já tinha bebido alguns drinks. Insistia para que eu fosse visitá-la. Quando me dei conta, estava em seu quarto. Ela se despia rapidamente e dizia: ‘Vamos para a cama agora! Mas será essa a única vez que iremos transar!’, me deixando então tão nervoso que acabei broxando na nossa pouco romântica noite de núpcias”, contei, tentando trazer um pouco de humor à conversa.

Mas não foi possível: B. não sorria. A luz do pôr do sol penetrava lateralmente pela janela de vidro, acendendo ainda mais seus cabelos louros e incidindo precisamente em seus olhos azuis. Não pude deixar de notar, ali, algumas lágrimas, contidas, que se acumulavam no canto inferior das pálpebras. Ela então virou o rosto, como se tentasse disfarçar. E escreveu algo em seu bloco de notas, antes de fechá-lo.

“— Sabe, há muito tempo, eu tive um namorado com HIV”, confessou a jornalista. “Eu tinha dezoito anos e ele era um pouco mais velho. Namoramos por anos e ele nunca me contou que tinha o vírus. Descobri por acaso, porque encontrei seus remédios enquanto viajávamos juntos para praia, escondidos em sua nécessaire. Questionei pra que eram e ele disse que eram vitaminas. Mas não pareciam vitaminas. Algum tempo depois, a irmã dele acabou vindo me contar que eram remédios de HIV.”

“— Que história…”, suspirei.

“— E também não teve um final feliz, como a tua.”

“— O que você fez, quando descobriu que ele tinha HIV?”

“— Eu terminei o namoro”, disse B., num suspiro. “Mas tenho para mim que terminei porque ele mentiu”, completou. “Sabe, quando encontrei seu blog, achei que tu foste ele, este meu ex-namorado soropositivo. Depois que rompemos, ele sumiu. Ouvi dizer, por outras pessoas, que ele parou de se cuidar. E por muito tempo eu me senti culpada por isso. Foi buscando informações sobre ele e sobre o HIV que caí no teu blog.”

Sua tristeza já não se continha. B. não chorava, mas também não escondia as poucas lágrimas que começavam a escorrer de seus olhos. Ela já não mais parecia uma profissional a entrevistar seu objeto de pesquisa. E sua aparência de jornalista foi gradativamente desvanecendo.

“— B., isso não é exatamente uma entrevista, é?”, questionei.

“— Não. Me desculpe. Não é”, respondeu ela. “Mas não estou desapontada por confirmar que você não é ele. É muito bom conhecê-lo.”

Assim como num filme, o texto pode cortar para o ponto que interessa ao espectador. Em geral, isso quer dizer que, a partir do que sucede o encontro, o tempo voa na tela. Suprime-se o caminhar ao lado, quando fomos em direção ao parque, agora conversando amenidades. Deixa-se de lado que paramos sobre a ponte, que liga os dois lados daquele oásis arborizado no meio da Avenida Paulista, cortados pela retilínea alameda. A conversa sentados sobre o banco de madeira, debaixo da copa das árvores que batiam com o vento frio. E o caminhar para o bar, já à noite, aonde uma banda tocava jazz. Depois de alguma cervejas, nos beijamos. B. aproveitou para perguntar como funcionava meu tratamento, os riscos de transmissão e se a camisinha bastava para que o sexo comigo fosse seguro.

Seguimos juntos para seu hotel, ela cambaleando com as pernas, enquanto me ocorria que, talvez, a total abertura e divulgação da minha condição sorológica era mesmo a melhor opção. O dilema, de quando e como contar que tenho HIV, seria substituído pela praticidade de um filtro prévio, natural, através do qual só se aproximariam as pessoas em que o estigma, a memória antiga do que é o HIV/aids, já estivesse superado. Dessa maneira, não poderia haver preconceito! E muito menos rejeição amorosa! Uma nova vida de soropositivo, isenta de sofrimento por causa do HIV, se desabrocharia para mim.

“– Qual é o número do seu quarto, B.?”, perguntei, percebendo que ela já se recostava em meu ombro, ébria.

Abri a porta e depositei o cartão magnético no interruptor; as luzes se acenderam. Dei a ela dois copos d’água e a recostei na cama. Tirei seus sapatos. Puxei o lençol sobre seu corpo. Me preparava para deixar o quarto de seu hotel, depois de apagar as luzes, quando B. se levantou e virou em minha direção:

“– Onde você pensa que vai?”, perguntou ela, incisiva. “Durma comigo!”

“– B., você está bêbada”, respondi.

“– Só um pouco. Mas com a água já estou bem melhor. Fique aqui. Deite comigo.”

Depois de pouco pensar, fechei a porta.

Camisinha

Na manhã seguinte, acordamos nus e entrelaçados. Sua pele alva mesclava com seus cabelos louros. Algumas pintas. Seus seios acompanhavam o movimento de sua respiração sonolenta, erguendo-se para cima e para baixo. Lembrei de toda a noite anterior. Do tato, do cheiro e dos gemidos. O orgasmo. Foi quando B. abriu os olhos.

“– Estamos nus!”, exclamou ela, depois de recobrar a consciência por um instante.

“– Sim”, respondi.

“– Nós transamos?”

“– Sim. Você não lembra?!”, perguntei, surpreendido.

“– Não! Não lembro!”

“– B., você insistiu para que eu ficasse. Disse que não havia bebido muito e queria…”

“– Você usou camisinha?”, interrompeu ela.

“– Claro que usei camisinha.”

“– Cadê? Onde está a camisinha?”, questionou, assustada.

“– Joguei no lixo do banheiro.”

“– Então deve estar lá…”, sugeriu ela.

“– Sim, está lá”, respondi, percebendo em sua face que ainda faltava alguma comprovação.

“– Você pode ir lá pegar e me mostrar?”

O pequeno banheiro do hotel não dava muito espaço para manobras. Ali, ainda nu e de cócoras, me espremi debaixo da pia, com as costas viradas para a privada. B. plantou-se na porta, como se averiguasse meu procedimento. Tirei a tampa do pequeno cesto e me pus a procurar pela camisinha usada.

“– Enrolei dentro de um pouco de papel higiênico”, expliquei.

Um a um, desdobrava os papéis do lixo, vigiado pelos olhos de B., enquanto dali começava a exalar um cheiro de urina ressecada. Desviei as mãos dos restos de cabelo. E avistei um outro papel com um rastro de fezes. Foi quando senti algo estranho. Um incômodo. Me dei conta que, ali, agachado e remoendo pelo lixo, eu era tal e qual o jovem Gregor Samsa, o personagem de Franz Kafka, quem, depois de sonhos intranquilos, acordou transformado numa barata. Um inseto asqueroso para quem o primeiro benefício é a acusação. Para seres assim, é necessária a prova de boa conduta. Mas eu não queria ser Gregor Samsa.

“– A camisinha está no lixo, bem aqui, em algum lugar”, apontei. “Mas os excrementos do resto do lixo são seus, e eu não me sinto confortável em revirar por eles”, expliquei, depois de me levantar, lavar as mãos e por a me vestir.

Antes de fechar a porta, B. sentenciou:

“– Jovem, eu acho melhor não nos vermos mais.”

kafka

Por que somos postos em condição tão desumana? Não deveria a camisinha selar todo o medo e prevenir (também) o preconceito? É justo nos adiantar a desconfiança, só por causa da sorologia positiva? Será que as campanhas de prevenção do começado da epidemia estavam certas: somos mesmos criaturas tão asquerosas, quanto insetos peçonhentos? É assim que o mundo dos soronegativos, que por tanto tempo fiz parte, nos enxerga?

Preferi pensar que não e, meses depois — e depois de receber uma carta de B. pedindo desculpas pelo ocorrido, propondo selar as pazes e, quem sabe, voltar a nos ver — conheci R., para quem contei logo de cara que era portador do HIV. Percebi seu rosto paralisado por um instante, como se a minha revelação fosse a última coisa que pudesse passar por sua cabeça. Seus olhos arregalados e queixo levemente caído. R. então se levantou e disse que precisava dar uma volta. Retornou muitas horas depois, quase no fim do dia, com o veredito:

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Depois, pôs-se a disparar perguntas: a origem da minha infecção, como funcionava meu tratamento, os riscos de transmissão e o que ela deveria fazer para que o sexo comigo fosse seguro. Por último, perguntou sobre como deveria fazer para ter filhos comigo.

“– Filhos?!”, retruquei, assustado, com queixo caído e os olhos arregalados. Afinal, essa era a última coisa que passava pela minha cabeça.