Os exames para diagnóstico da infecção por HIV são produzidos pela Fundação Oswaldo Cruz, do Ministério da Saúde, e realizados gratuitamente nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e em outras unidades das redes pública de saúde, incluindo um grande número de maternidades. Ligue para o Disque Saúde (136) e veja o melhor local para fazer o teste.

Existe um exame de sangue específico para o diagnóstico da aids, chamado teste Elisa. Em média, ele começa a registrar que a pessoa está infectada 20 dias após o contato de risco. Se depois de três meses o resultado for negativo, não há mais necessidade de repetir o exame, porque não houve infecção pelo HIV. No Centro de Referência em Treinamento em DST/aids é possível realizar um teste laboratorial mais rápido, cujo resultado sai algumas horas depois da coleta de sangue.

“Olá, Jovem Soropositivo. Me desculpe a falta de ponto de exclamação no cumprimento, mas não é com alegria que alguém recebe esse resultado, positivo em alguns testes e reagente em outros.

Sou mais um na estatística para o HIV. Mais um que dependerá do governo com as medicações e exames e mais um ser no estigma e na escuridão da doença. Mas não serei mais um na vida de minha família e amigos. Para eles, percebo que eu continuo sendo o mesmo — ainda que eles não saibam desse detalhe e eu nem pense em contar!

“Aceitar o HIV parece levar mais tempo do que para assimilar qualquer outra doença.”

Descobrir e aceitar o HIV parece levar mais tempo do que para assimilar qualquer outra doença. Eu descobri que era soropositivo numa sexta-feira, e minha simplesmente vida parou! Na sexta-feira seguinte, vim a descobrir que minha mãe está com um tumor no cérebro, que causa sintomas devastadores sobre todo o corpo dela. Como eu poderia achar que meu problema era maior que o dela?

Minha mãe descobriu seu tumor da pior maneira: estava tão grande e desenvolvido que já não havia mais espaço dentro da cabeça para expandir, o que explicava as cansadas vezes que tinha dores de cabeça e se tratava com analgésicos. Mas o que a levou a ser internada foi um sangramento decorrente do tumor, confundindo com um diagnostico AVC. Os médicos não foram muito otimistas e isso repercutiu como um maremoto na minha vida e na de minha família.

A Grande Onda de Kanagawa

Nos dias da internação, antes da cirurgia, ela perdeu a fala, a memória, sua fala não estava coerente e ela não mais se equilibrava ao ficar em pé. Hoje, 20 dias depois, ela fala, come, toma banho e caminha, tudo sozinha. Os médicos conseguiram retirar grande parte do tumor. Agora, ela pouco a pouco recupera suas funções, o que parece mesmo um verdadeiro milagre de Deus. Enquanto isso, aguardamos o resultado da biópsia, que dirá se ela precisará de quimioterapia e radioterapia vitalícios. Então, diante desses dois diagnósticos e, mesmo assim, ainda ter minha mãe aqui, comigo, viva e bem, o que mais eu posso esperar?

“Agradeci pelo fato de hoje ter HIV e não um tumor.”

Agradeci pelo fato de hoje ter HIV e não um tumor. Sei que, com tratamento antirretroviral, vou viver bem. Ainda que possa vir conviver com algum problema pontual decorrente da doença, sei que estarei vivo. Gostaria de dizer o mesmo da minha mãe. Estou lutando junto com ela para fazer com que seu tratamento seja um sucesso, como o meu, e que ela ainda viva por muitos anos, como eu planejo viver. Mas não posso negar que é uma doença dolorida, com uma carga emocional forte, daquelas que só de mencionar parece como uma sentença de morte, que não respeita ninguém, nem a pessoa mais honesta e trabalhadora, como a minha mãe.

Por isso, pensar positivo e, sim, acreditar em Deus, tem feito a diferença nessas horas. Essa tem sido a minha experiência pessoal e o meu conforto para aceitar a doença. Seria hipócrita dizer que aceitei o HIV numa boa, mas ao menos sou grato por estar vivo e ter a chance de realizar meus sonhos. Espero que, assim como eu, muitos vençam a barreira do diagnóstico e sejam felizes, com o que temos hoje, pois, como diz um provérbio chinês:

‘O passado é história, o futuro é mistério, e hoje é uma dádiva. Por isso é chamado de presente!’

Abraços!

B.”

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Uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e Yale descobriu que metade das pessoas recém-infectadas pelo HIV experimentam problemas neurológicos. Estes efeitos neurológicos geralmente não são graves e desaparecem logo depois do início da terapia antirretroviral.

“Nosso estudo reforça as recomendações para que as pessoas iniciem o tratamento antirretroviral imediatamente caso estejam infectadas.”

“Ficamos surpresos com o fado dos sintomas neurológicos serem tão generalizados entre aqueles com diagnóstico de infecção recente pelo HIV”, disse a autora do estudo, Dra. Joanna Hellmuth, do Departamento de Neurologia da UCSF. “Embora os sintomas sejam leves, é claro que o HIV afeta o sistema nervoso dias após o começo da infecção. Uma vez que a maioria destes problemas neurológicos são resolvidos com o tratamento, nosso estudo reforça as recomendações para que as pessoas em situação de risco façam o teste de HIV e iniciem o tratamento antirretroviral imediatamente caso estejam infectadas.” A pesquisa foi publicada em 10 de junho de 2016 na edição de Neurology, o jornal médico da Academia Americana de Neurologia.

A equipe examinou 139 participantes na coorte tailandesa RV254 que foram recentemente infectados com o HIV. O tempo de infecção para a entrada no estudo variou de 3 a 56 dias, com uma mediana de 19 dias. Nesta fase, os participantes não testaram positivo nos testes de anticorpos comuns para o HIV, uma vez que não foram infectados a tempo suficiente para que uma resposta imunitária específica robusta pudesse chegar a acontecer. 53% tinham sintomas neurológicos, um terço enfrentando déficit cognitivo, um quarto com problemas motores e quase 20% experimentando neuropatia. Muitos experimentavam mais do que um sintoma. Um dos participantes foi diagnosticado com Síndrome de Guillain-Barré, o único caso grave encontrada na coorte.

“Estamos adquirindo uma percepção mais profunda sobre o grau em que o HIV afeta o sistema nervoso no começo da infecção.”

“Nos primeiros dias da epidemia, em São Francisco, cerca de 10% dos pacientes com infecção recente pelo HIV apresentavam doença neurológica grave. Mas isso era provavelmente devido a pacientes sendo diagnosticados em decorrência da gravidade dos sintomas que estavam experimentando. A coorte tailandesa nos deu uma oportunidade de olhar para uma ampla gama de pacientes recém-infectados, analisar o seu funcionamento neurológico sistematicamente e segui-los ao longo do tempo. Estamos adquirindo uma percepção mais profunda sobre o grau em que o HIV afeta o sistema nervoso no começo da infecção”, disse a autora sênior do estudo, Dra. Serena Spudich, professora associada de neurologia em Yale.

O tratamento antirretroviral foi oferecido e iniciado por todos participantes no momento do diagnóstico. 90% dos sintomas presentes no momento do diagnóstico foram resolvidos após um mês de tratamento, mas 9% dos participantes tinham sintomas neurológicos que ainda não tinham sido resolvidos seis meses após o início da terapia. Além disso, os sintomas neurológicos foram associados com níveis mais elevados de HIV encontradas no sangue dos participantes.

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Os participantes do estudo foram submetidos à extensas avaliações neurológicas. Sintomas auto-relatados foram correlacionados com testes neuropsicológicos objetivos. Além disso, um quarto dos participantes optou por submeter a uma punção lombar e quase metade dos pacientes concordaram em submeter a uma ressonância magnética.

“Este é um dos primeiros estudos abrangentes examinando o envolvimento do sistema nervoso no início da infecção.”

“Este é um dos primeiros estudos abrangentes examinando o envolvimento do sistema nervoso no início da infecção. Uma vez que fomos capazes de manter a coorte por cinco anos até agora, nós seremos capazes de estudar se existem quaisquer anomalias persistentes que precisam ser abordadas. Além disso, a onipresença de sintomas na fase inicial da infecção encontrada neste estudo reforça a necessidade do cérebro ser considerado como um compartimento contendo HIV latente, como parte dos estudos de cura”, disse o coautor do estudo, Dr. Victor Valcour, PhD, professor de neurologia na UCSF.

Em 13 de junho de 2016 por Science Daily

Fonte: Joanna Hellmuth, James L.K. Fletcher, Victor Valcour, Eugène Kroon, Jintanat Ananworanich, Jintana Intasan, Sukalaya Lerdlum, Jared Narvid, Mantana Pothisri, Isabel Allen, Shelly J. Krebs, Bonnie Slike, Peeriya Prueksakaew, Linda L. Jagodzinski, Suwanna Puttamaswin, Nittaya Phanuphak, Serena Spudich. Neurologic signs and symptoms frequently manifest in acute HIV infection. Neurology, 2016; 10.1212/WNL.0000000000002837 DOI: 10.1212/WNL.0000000000002837

“Olá, Jovem! Tudo bem contigo?

Tive uma conversa recente com um amigo, que me contou ser soropositivo. Enquanto ele ia me contando sobre os fatos e sentimentos desde o momento em que teve o fatídico sexo no qual se contaminou, passando pela descoberta até os dias de hoje, fui me identificando e relembrando momentos da minha própria história, como se eu estivesse diante de um espelho — pois eu também sou soropositivo. É claro que as circunstâncias dele foram outras e são outras. Nossos caminhos são diferentes. Mas há algo que permeia nossas vivências como um cerne, que faz com que eu me identifique e me empatize facilmente com ele.

“Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição.”

A reação unânime das pessoas ao ouvirem de mim sobre a minha condição é, primeiro, de perguntar como aconteceu. Trocando em miúdos, querem saber com quem eu transei para que isso acontecesse, e quando. É uma pergunta indiscreta, chata, inapropriada, desnecessária e, em alguns momentos, até mesmo dolorosa. A resposta à essa pergunta ganha os mesmos adjetivos, mas eu tenho aprendido a simplesmente dizer: ‘eu fiz sexo sem camisinha e aconteceu’. Não me vejo obrigado a expor minha vida privada, tampouco momentos tão íntimos para alguém que não fez parte deles, por mais que eu esteja disposto a expor a respeito da minha condição, sob a boa vontade moralmente chamada de ‘honestidade’.

Porque é que, assim que conto ter HIV, os homens me dizem: ‘Fico feliz que tenha me contado e que tenha sido honesto. Isso me encanta! Mostra o seu bom caráter. Mostra que que quer cuidar de mim’? Fazendo uma reflexão detida, está aí um julgamento perverso e opressor, que diz que o valor do meu caráter e o tamanho do meu carinho podem ser medidos a partir do fato de eu contar ou não que tenho HIV para o homem com quem vou transar.

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Mas e se eu não contasse? E se eu simplesmente dissesse que meus sexos têm de ser com camisinha do início ao fim, eu seria menos honesto ou menos bom? Então significa que os homens com os quais eu transei e não contei a respeito podem me chamar de desonesto ou cruel por não ter contado, mesmo eu tendo cuidado para que eles não fossem expostos, assim como eu me expus? E se, hipoteticamente, eles tivessem sido expostos de alguma forma, a responsabilidade não seria deles também? É claro que entra aí uma obrigação ética na qual, dada a exposição, eu tenho que orientar o sujeito a tomar os cuidados e ações necessárias, como a profilaxia pós-exposição (PEP). Mas isso, ainda assim, não me tornaria mais ou menos bondoso. Eu não faço tal julgamento do homem com quem transei e me contaminei, seja lá quem for — e não mereço ser medido assim.

Quando meu amigo me contou a história dele, me senti tão confortável em ouvir e que fiquei mais confortável em contar. Essa foi uma sensação de alívio: como a de estar em casa após uma longa viagem, a qual comecei em outubro de 2014, quando tinha 24 anos. Pela primeira vez, não me senti julgado ou culpado por mim mesmo por ter feito sexo, por ter gozado sem camisinha. Eu apenas pude ouvir aquela história, contar a minha e abraçá-lo. Depois, ser abraçado.

“Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.”

Eu não estava me justificando ou provando nada para ninguém. Não estava ‘sendo honesto’ como nas outras vezes. Estava apenas contando sobre a minha história e ouvindo a do outro. Foi algo gratuito e livre e, por isso, foi tão bom! Eu sei que é estranho dizer que é ‘bom’ que ambos possamos contar um para o outro sobre o HIV — melhor seria se não tivéssemos essas histórias para contar, é verdade, mas é bom saber que, na adversidade, eu posso encontrar alguém com quem eu possa ser simplesmente humano, sem necessidade de justificativas, sem medo de julgamentos e nem culpa por isso. Começo a ver que eu não sou um homem menos interessante ou menos bom por ser soropositivo.

“Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.”

Meu Deus, tenho me autoflagelado há quase dois anos, pensando que não sou digno de ser amado por conta disso! Sempre que me interesso por alguém, sou interrompido em meus devaneios felizes por pensamentos que dizem que a condição tenho, positiva para o HIV, me faz menos atraente ou que um relacionamento comigo é, por essa razão, mais custoso. Porém, eu não quero mais pensar assim sobre mim. Não quero mais me importar com o que vem de fora. Não quero que o momento de contar sobre a minha condição sorológica vire um momento de medo, no qual eu fico à mercê de ser aceito.

“Quero que o HIV seja um detalhe.”

Eu não tenho que ser aceito, perdoado, nem absolvido. Quero que o HIV seja um detalhe. Sei que corro o risco de receber uma negativa — embora eu tenha tido a sorte de nunca a ter recebido. Mas eu não vou mais sentir pena de mim mesmo. E tenho que lutar por isso. Tenho crescido muito nos últimos anos, como qualquer ser humano, mas tenho certeza que o que me aconteceu comigo me obrigou a crescer mais rápido em alguns aspectos e de formas ainda mais maduras.

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Tenho aprendido, desde então, a respeitar meu espaço, meu tempo, meu corpo e meus sentimentos, assim como o dos outros. Tenho aprendido a julgar menos as circunstâncias da vida dos outros, a ouvir mais, a parar de falar quando me pego falando muito. Tenho aprendido a cuidar mais e melhor da minha saúde, a comer e dormir melhor, a sorrir mais, a não beijar e transar quando percebo que não tem significado para mim naquele momento, a beber menos e inclusive eu parei de fumar. Tenho aprendido a priorizar coisas e pessoas que antes eu não priorizava e a retirar a importância de outras. Tenho aprendido a apreciar mais e melhor o pôr do sol, as conversas com meus pais, meu irmão e meus amigos, bem como o tempo que tenho com eles e com os estranhos que encontro nessa vida.

“A juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós.”

Tenho até aprendido a ser mais agressivo quando me sinto desrespeitado. A ser mais sério e firme quando sinto que invadem meu espaço e ferem o meu direito. Tenho aprendido a me julgar menos, a me permitir ser mais humano. A viver cada momento, porque descobrir o que descobri sobre mim me fez perceber algo: a juventude nos dá uma ilusão de eternidade e nos faz pensar que a morte está sempre longe de nós, sempre com o outro — e não é assim. A morte, o infortúnio, o acidente, a má notícia, a dor e o sofrimento estão aqui, agora, presentes e nos rondando o tempo todo.

Essa é uma condição humana desesperadora, mas é a verdade. Isso não significa que devemos nos angustiar e paralisar ante ao medo, mas que devemos ainda mais desenvolver as potencialidades que postergamos, enquanto passamos a juventude pensando que sempre haverá o amanhã.

“Nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos.”

É claro que nossa condição específica já não é sinônimo de morte iminente, tal como era há 30 anos. Porém, logo que descobri o vírus em mim, no momento do diagnóstico, percebi que o estigma — o mesmo que atravessou esses mesmos 30 anos — continua, junto com o medo da morte e da doença, bem próximos. Ao longo do tempo é que fui me acalmando, conhecendo mais sobre o HIV/aids, me cuidando e percebendo que estou bem, que vou continuar bem e que viverei, salvo qualquer acidente, longos anos de próspera saúde. Essa é a minha fé e esperança.

Muita gratidão a você por manter esse blog que tem sido parte importante nessa minha viagem e nas minhas reflexões, desde o diagnóstico. Sem seus textos, sem a equipe multiprofissional do CTA, onde sou tão carinhosamente bem atendido, e sem o suporte de minha família e dos amigos queridos, eu não teria chegado até aqui, tal como estou: bem. Com tudo isso, chegarei ainda mais longe.

Vida longa e saúde a todos nós!

A.”


Aidsmap

Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e pelo Hospital Universitário de Copenhagen traz a primeira evidência inequívoca da ligação entre altas taxas de supressão viral em homens homossexuais e a queda na incidência de novos casos de HIV — a proporção de homens que pegam HIV a cada ano.

Os pesquisadores dizem que a incidência de HIV entre homens homossexuais, uma taxa de 0,14% ao ano, ou um em cada 700 homens homossexuais infectados anualmente, é atualmente tão baixa que se aproxima da taxa de incidência anual de um por 1000 que a Organização Mundial de Saúde definiu como meta para, assim, acabar com a epidemia de HIV. Eles calculam que a percentagem de homens gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH) na Dinamarca que têm HIV, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral indetectável é atualmente de 72,1% — muito perto dos 72,9% que a meta 90/90/90 do Unaids estabelece para acabar com a epidemia de HIV.

Na Dinamarca, a epidemia de HIV tem se concentrado em HSH e, em particular, tem tido prevalência muito baixa de HIV em pessoas que injetam drogas, devido aos programas de redução de danos que estão disponíveis há décadas. A redução de HIV entre HSH, portanto, permitiria reduzir a incidência do vírus em todo o país.

Os pesquisadores acham que a redução na incidência do HIV não foi impulsionada pelas alterações nos limites de CD4 para iniciar o tratamento, uma vez que começou a cair antes que essas orientações fossem alteradas. Em vez disso, o aumento das taxas de testes atraiu mais pessoas diretamente para o atendimento médico, fazendo com que fossem diagnosticadas mais cedo, com contagens de células CD4 ainda altas.

Eles também acham que, apesar da incidência estar em queda, a taxa de transmissão — o número de pessoas infectadas por um homem com carga viral não-suprimida — quase duplicou durante o período do estudo. Eles comentam que isso provavelmente se deu devido ao aumento do comportamento de risco; contudo, o aumento do número de pessoas em terapia antirretroviral tem mais do que compensado. Acrescentam, no entanto, que será necessário utilizar outras intervenções de eficácia comprovada, tal como a profilaxia pré-exposição (PrEP), a fim de reduzir as taxas de transmissão e infecção entre os não-diagnosticados e aqueles com alto risco de contrair HIV.

 

Detalhes dos resultados

A Dinamarca mantém uma base de dados nacional sobre HIV desde 1995, que inclui todas as pessoas diagnosticadas com HIV no país e um estudo de coorte nacional, que incluiu a maioria das pessoas diagnosticadas desde 1991. Este registro mostra que o número de novos diagnósticos de HIV por ano entre HSH caiu de 152 em 1991 para 68 no ano 2000. Em seguida, subiu novamente para um pico de 139, em 2007. Em seguida, voltou a diminuir, para 76 diagnósticos em 2013 e apenas 58 em 2012.

A Dinamarca instituiu rapidamente a terapia antirretroviral no país e quase três quartos dos HSH diagnosticados estavam em tratamento em 1998; mais de 50% dos HSH diagnosticados tinham conseguido cargas virais indetectáveis até 2001.

O aumento dos testes levou a uma rápida queda na proporção de HSH diagnosticados com contagens de células CD4 abaixo de 200 células/mm³, de cerca de 40% antes do ano 2000 para menos de 20% após 2003. A proporção de diagnosticados com contagens de CD4 acima de 500 células/mm³ aumentou paralelamente a estes, embora um pouco mais gradualmente, a partir de cerca de 20% antes de 2000 à cerca de 40% depois de 2005. O ano de 2002 foi crucial, depois que mais HSH foram diagnosticados com contagens elevadas de CD4 e isso coincidiu com um salto repentino na contagem média de CD4 no momento do diagnóstico, de cerca de 230 células/mm³ para cerca de 400 células/mm³ (com discrepantes 560 células/mm³ em 2012).

Tomando como denominador a estimativa da população de HSH na Dinamarca, de 55.000 indivíduos, os pesquisadores estimaram que o número de HSH com HIV que não são diagnosticados caiu de cerca de 1400 em 1995 para apenas pouco mais de 600 em 2013, enquanto o número de indivíduos com CD4 abaixo de 200 células/mm³ caiu de 190 a 40. Esses 600 representam 20% de todos os HSH com HIV no país.

Os pesquisadores calcularam que o número de homens homossexuais na população que, em qualquer ano, são soropositivos e não tem carga viral indetectável e, portanto, são infecciosos, caiu de pouco mais de 2200 em 1996 para pouco mais de 800, atualmente. Em 1996, metade desses potenciais transmissores foram diagnosticados, os quais não estavam em tratamento ou o tratamento não estava sendo bem sucedido. Em 2013, apenas um terço (cerca de 230 homens) estava nessa categoria, e um pequeno número — cerca de apenas 35 homens — estava com falha no tratamento.

Os números obtidos até agora referem-se aos diagnósticos anuais e não à verdadeira taxa de incidência e nem a outros fatores, como o aumento nas taxas de testes. No entanto, fazendo uma estimativa grosseira do tempo desde a infecção, com base na contagem média de CD4 no momento do diagnóstico, os pesquisadores foram capazes de calcular que o número absoluto de HSH infectados na Dinamarca por ano diminuiu de 117 em 1994 para 70 em 2013 (o número diagnosticados nesse ano foi de 76).

Os pesquisadores notaram então uma variante: eles observaram que a incidência só começou a diminuir quando a proporção de todos os HSH soropositivos (incluindo os não-diagnosticados) que estavam sob tratamento subiu para mais de 35%.

Um achado importante é que, embora a incidência tenha caído, ela não caiu tanto quanto os diagnósticos. E a taxa de transmissão — o número de vezes que cada HSH viralmente não-suprimido e, portanto, potencial transmissor, transmitiu HIV — aumentou. Em 1996, os pesquisadores calcularam que pouco mais de cinco em cada 100 HSH soropositivos viralmente não-suprimidos transmitiam HIV a outro parceiro (0,05 ao ano). Em 2012, este número quase dobrou, para nove em cada 100. Isto provavelmente é devido ao aumento dos níveis de comportamento de risco e também à concentração do comportamento de risco em um conjunto cada vez menor de homens homossexuais com alta prevalência de HIV.

 

Conclusões

Esta pode ser a explicação para uma outra variante que os pesquisadores mostram num gráfico, mas não fazem referência. A incidência permaneceu estável em 80 infecções por ano assim que a proporção de HSH soropositivos em tratamento subiu para mais de 55%. Em seguida, ela começou a diminuir ainda mais quando a proporção subiu para mais de 70%. Já observamos que os diagnósticos aumentaram temporariamente entre 2000 e 2007, antes de cair novamente. Isto pode demonstrar que, em uma população com alto nível de comportamento de risco e de vulnerabilidade biológica, uma proporção maior de pessoas precisa atingir a supressão viral antes da incidência começar a cair.

Isso poderia explicar porque em KwaZulu-Natal, na África do Sul, num dos poucos outros estudos feitos para demonstrar uma correlação direta entre a proporção de pessoas com supressão viral e a incidência de HIV, os novos casos de infecção começaram a cair quando a cobertura do tratamento chegou a 30%, enquanto a incidência continuou a aumentar em países como o Reino Unido, que têm as mesmas taxas de supressão viral que a Dinamarca. Alguns pesquisadores estimam que as taxas de supressão viral precisariam ser de 90% para que a incidência comece a cair no Reino Unido, na ausência de PrEP ou de mudança no comportamento de risco.

Os pesquisadores salientam que tudo isso só foi possível na Dinamarca porque “há acesso universal a cuidados de saúde na Dinamarca, com tratamento gratuito para o HIV e muitas clínicas de fácil acesso que oferecem testes de HIV.”

Por Gus Cairns em 18 de maio de 2016 para o Aidsmap

Referência: Okano JT et al. Testing the hypothesis that treatment can eliminate HIV: a nationwide population-based study of the Danish HIV epidemic in men who have sex with men. The Lancet Infectious Diseases, early online publication. http://dx.doi.org/10.1016/S1473-3099(16)30022-6. Maio de 2016.


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O que é que perderíamos ao nos libertar da palavra “aids” — ou o que ganharíamos? É uma questão provocada pelos avanços no tratamento do HIV e nos cuidados e mudanças na forma como as pessoas vivem com HIV e aids.

“Um diagnóstico de aids em 2016 não é o mesmo que um diagnóstico de aids em 1986.”

“Eu acho que o diagnóstico de aids, e o que ele significa, é, em muitas maneiras, histórico”, disse o Dr. Hyman Scott, médico infectologista especializado em HIV no Departamento de Saúde Pública de São Francisco. “Um diagnóstico de aids em 2016 não é o mesmo que um diagnóstico de aids em 1986, se essa pessoa começa o tratamento imediatamente.”

“O CDC não está mais acompanhando os casos ‘aids’.”

No ano passado, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) mudaram a terminologia utilizada na vigilância epidemiológica de HIV e aids, substituindo “aids” por “HIV Fase 3”, adicionando a nova “Fase 0” para classificar a infecção recente pelo HIV. “Essa foi, para mim, uma espécie de prova fundamental de que o CDC não está mais acompanhando os casos ‘aids'”, disse o Dr. Christopher Pilcher, durante uma grande apresentação sobre aids no San Francisco General Hospital.

Embora o sistema de vigilância do CDC seja destinado principalmente à monitorar e reportar casos de HIV na população — e não como base para decisões clínicas —, esta alteração no relatório destaca uma questão interessante. Concretamente, diz sobre como especialistas em saúde pública, entre outros, estão pensando a respeito do que um diagnóstico de aids realmente significa e se há algum valor em desenhar uma linha divisória entre o HIV e a aids.

 

Qual é a relevância clínica de um diagnóstico de “aids”?

Independentemente do estágio da doença, há relevância em fazer distinção entre os estágios da infecção pelo HIV para a saúde pública ou por motivos clínicos. Fazer isso cria uma ferramenta para especialistas em saúde pública definir e medir quantas pessoas são diagnosticadas tardiamente em sua infecção e a rapidez com que o HIV progride de um estágio para o próximo.

Para os médicos, um diagnóstico de aids significa que a contagem de células CD4 de uma pessoa caiu para abaixo de 200 células/mm³ ou que houve uma infecção oportunista — um indicador importante de que, se retirada dos antirretrovirais, sua contagem de CD4 pode rapidamente diminuir novamente. O estágio avançado da infecção pelo HIV que um diagnóstico de aids é capaz de identificar é especialmente importante, segundo Scott, para as pessoas que são diagnosticadas tardiamente, com infecção avançada.

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Dr. Hyman Scott

“Embora em declínio, aproximadamente 18% das pessoas diagnosticadas com HIV em São Francisco são diagnosticadas com aids no prazo de três meses — um sinal de infecção pelo HIV de longa data não diagnosticada. Nós ainda vemos pessoas com pneumonia [uma infecção oportunista], que são diagnosticadas com aids. Os médicos ainda usam o termo ‘aids’ para descrever um estágio de HIV. Pode ser útil para descrever o quão doente alguém está”, disse ele.

Normalmente, as pessoas que recebem um diagnóstico de aids carregam esse diagnóstico para o resto de suas vidas, mesmo se a sua contagem de CD4 se recuperar ou se eles suprimirem suas cargas virais e ficarem saudáveis.

 

“Aids” pode não refletir o quão bem uma pessoa se sente e nem em quanto tempo ela pode morrer

Atualmente, o tratamento para o HIV, melhor tolerado e mais potente, permite que pessoas que são diagnosticadas com aids respondam bem à terapia antirretroviral, recuperem seu sistema imunológico e vivam muitos anos.

“Aids não é mais uma sentença de morte.”

“Antes, na ausência de tratamento antirretroviral, um diagnóstico de aids era associado à mortalidade muito alta em curto prazo. Mas, agora, embora um diagnóstico de aids esteja associado a um maior risco de mortalidade, com o início imediato da terapia antirretroviral e uma boa adesão ao tratamento, as pessoas podem ter uma recuperação extraordinária. Aids não é mais uma sentença de morte, de modo algum”, disse Scott.

Vince Crisostomo
Vince Crisostomo

Vince Crisostomo, gerente da Elizabeth Taylor 50-Plus Network na San Francisco Aids Foundation, vive com aids há mais de vinte anos. “Lembro-me de estar em minha mesa de trabalho quando recebi o meu diagnóstico de aids, em 1995. Eu pensei: o que o que devo fazer agora? Ir para casa? De ‘vivendo com o HIV’ fui para para ‘vivendo com aids’ e, de repente, as pessoas pensavam de mim como alguém morrendo. Hoje, eu tecnicamente ainda tenho aids, mas já passou mais de vinte anos desde o diagnóstico e eu estou em boa saúde. Em certa altura, abandonei meu adesivo de deficiente no carro que dá direito a estacionamento especial [um direito de quem vive com HIV/aids nos Estados Unidos], porque eu estava ouvindo comentários de pessoas, como: ‘por que você usa isso?'”

Jonathon, nome fictício de um habitante de São Francisco, diagnosticado com aids em 2007, disse que sempre tem que dar uma explicação mais longa se ele diz a alguém que tem um diagnóstico clínico de aids. “Eu digo às pessoas que eu tenho um diagnóstico clínico de aids porque eu tenho sarcoma de Kaposi. Então, eu tenho que seguir dizendo que sou indetectável, que tenho uma contagem muito elevada de células T e que espero estar vivo ainda por muito tempo. Não estou à beira da morte e meu sarcoma de Kaposi não é como em 1991. Mas não há nenhum jeito fácil de explicar isso.”

 

Tirar aids da mesa pode reduzir o estigma

“Aids é uma palavra que, por muitos anos, nenhum de nós queria ouvir”, disse Matt Sharp, sobrevivente e ativista do HIV em São Francisco. “Era uma palavra tão temida, horrível. Em alguma altura, eu quase pensei: ‘não seria ótimo se não tivéssemos que usar mais essa palavra?'”

“Acabar com o diagnóstico de ‘aids’ iria mostrar o progresso no tratamento do HIV.”

Um benefício de largar o termo “aids” é a possibilidade dele mudar a forma como as pessoas pensam sobre o HIV em geral. “Há tanto estigma associado à palavra ‘aids'”, disse Crisostomo. “Devido à forma como falamos de coisas como ‘a epidemia da aids’, em termos de redução do estigma, pode ser útil unir todos os que vivem com HIV numa única população. De muitas maneiras, acabar com o diagnóstico de ‘aids’ iria mostrar o progresso que estamos fazendo no tratamento do HIV.”

“Acho que chegou o momento”, disse Sharp. “Pois o padrão de tratamento mudou. E, com isso, às vezes, os nomes das coisas também mudam. “

 

Sem ‘aids’, perdemos nossa história?

“As pessoas perderam o emprego, perderam suas moradias, perderam suas identidades.”

Pessoas que viveram o começo da epidemia podem ser particularmente sensíveis à mudanças na linguagem que sentem como marginalizadoras, disse Crisostomo. “A epidemia de aids não era apenas sobre a perda de pessoas. As pessoas perderam o emprego, as pessoas perderam suas moradias, as pessoas perderam suas identidades. Decidir simplesmente se livrar do termo ‘aids’ também pode soar como uma perda. As pessoas podem equiparar o ‘vamos nos livrar da aids’ com ‘vamos nos livrar de mim’. Algumas pessoas podem pensar: ‘eu não importo, mais uma vez’.”

Um diagnóstico de “aids” pode ser simbólico, disse Sharp. “Pode haver algumas pessoas que agarram-no como uma espécie de distintivo de honra.” Segundo Crisostomo, “há história e identidade embrulhados na palavra ‘aids’. Como uma questão emocional, algumas pessoas vêem como um sinal de coragem carregar o diagnóstico. É um indicador de que você viveu durante o começo da epidemia.”

“Eu preciso de um novo termo, que reflita onde estamos agora.”

“Acho que, talvez, subconscientemente, sinto que a aids é parte da minha identidade. Certamente é parte da ansiedade que eu sinto. A aids me amarra à história, que não é boa, se estamos falando de algum tempo atrás”, disse Jonathan. “Quando eu digo que tenho aids, as pessoas olham para mim e não há nenhuma compreensão por parte delas de como isso é possível. Elas estão segurando a imagem do que essa palavra significava em 1980 e 1990. Eu preciso de um novo termo, que reflita onde estamos agora. Eu não quero tirar a gravidade do que estou lidando, e sobre algo que ainda há muito a aprender.”

Por Emily Newman em 5 de maio de 2016 para o Beta


Aidsmap

Até que ponto os homens gays modificam seu comportamento sexual de risco após um resultado positivo no teste de HIV? Duas pesquisas australianas realizadas ao longo dos últimos anos descobriram que, no período a seguir do diagnóstico, os homens homossexuais reduzem consideravelmente o número de parceiros com quem têm relações sexuais — muitos param a atividade sexual completamente — e também reduzem a quantidade de sexo sem preservativo que têm com parceiros de sorologia desconhecida para o HIV. Há também um aumento na divulgação do status positivo para o HIV para seus parceiros.

Nenhuma dessas alterações pode ser considerada particularmente como surpreendente e esta pesquisa não pode determinar se essas mudanças são sustentadas. O mais interessante foi observar que o único fator associado à uma maior probabilidade de tais reduções nos comportamentos de risco foi o apoio de outros semelhantes com HIV (e não de qualquer outra pessoa).

 

Contexto

Descobrir se as pessoas soropositivas reduzem ou aumentam o seu comportamento de risco depois que são diagnosticadas é de óbvia relevância para a prevenção do HIV, especialmente se elas não seguem para a terapia antirretroviral, uma vez que assim não conseguem atingir uma carga viral indetectável.

No entanto, essa nunca foi uma questão resolvida, porque diferentes pesquisas descobriram coisas muito diferentes. Essa situação de dúvida é agravada pelo fato de que muitas pesquisas têm apenas medido o sexo sem preservativo, o número de parceiros sexuais sem verificar sua condição sorológica para o HIV desses parceiros de sexo sem preservativo ou mesmo se a pessoa soropositiva tem carga viral indetectável.

Por conta disso, os resultados dessas pesquisas têm variado enormemente: desde um estudo de São Francisco, que estimou que homens gays com HIV tinham reduzido suas chances de transmissão do vírus em 97% em dois anos após o diagnóstico, a um estudo do Reino Unido, que encontrou taxas mais elevadas de sexo de risco em pessoas que receberam o diagnóstico positivo para o HIV do que em pessoas soropositivas ainda não diagnosticadas.

Além disso, menos estudos foram realizados nos últimos anos, quando uma taxa mais elevada de pessoas diagnosticadas puderam seguir o tratamento imediato e alcançar a supressão viral.

 

As duas pesquisas

Entre 2008 e 2015, pesquisadores australianos realizaram dois questionários com homens gays que vivem com HIV e que tinham sido diagnosticados há menos de dois anos — um dos questionários nos anos antes do tratamento ser recomendado no momento do diagnóstico (2008-2010) e outro nos anos seguintes (2011-2015). No total, 712 homens, ou cerca de 10% de todos os homens gays diagnosticados com HIV durante este período, responderam um dos questionários, embora apenas 564 completaram as perguntas a respeito de seu comportamento sexual, 263 no primeiro período e 301 no segundo período. Embora os dois questionários tenham perguntas diferentes, eles foram concebidos como uma peça única da pesquisa e os homens só poderiam respondê-los uma vez.

No primeiro questionário, os homens foram convidados a comparar o número de parceiros casuais com quem tiveram relações sexuais nas quatro semanas antes e nas quatro semanas após o diagnóstico. Também deveriam comparar o número de parceiros que eles sabiam ter HIV e com quem eles tiveram relações sexuais com ou sem preservativo, especialmente sendo “ativos”. Eles também foram convidados a avaliar, em uma escala de um a dez, a quantidade de apoio pós-diagnóstico que receberam de amigos gays, de um parceiro regular, dos pais, do seu médico e de outras pessoas com HIV.

Mais adiante, essas questões foram substituídas por perguntas simples diretas, como: “Você reduziu o número de parceiros sexuais?”, “Você evitou sexo com parceiros soronegativos?”, “Você já revelou sua condição sorológica para o HIV à outras pessoas antes do sexo?”. E, por fim: “Uma vez que recebeu o diagnóstico, você procurou o apoio de outros soropositivos através de alguma organização, grupos de apoio ou fóruns on-line?”

 

Resultados

Levando ambas as pesquisas em conjunto, a maioria dos homens estava com idades entre 30 a 50 anos e a maioria tinha graduação. Quase dois terços (63%) dos entrevistados tinham sido diagnosticados há menos um ano, antes de responderam à pesquisa, e um terço há menos de três meses. Três quartos estimaram terem se infectado com o HIV há menos de um ano antes do diagnóstico, enquanto a outra metade há menos de três meses antes do diagnóstico.

Um quarto dos homens não eram nativos australianos e um terço tinha um parceiro regular quando foram diagnosticados. Mais de um em cada cinco tinha depressão significativa, um em cada sete tinha depressão grave e 70% disseram que estavam mais deprimidos do que antes, depois de serem diagnosticados.

Respondentes do questionário de 2008-2010 relataram menos sexo sem preservativo com parceiros casuais após o diagnóstico do que antes — 27% (14% como parceiro insertivo) versus 16% (6,2% como parceiro insertivo). Antes do diagnóstico, quase tudo isso foi feito com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida, mas, após o diagnóstico, menos de 10% relataram isso, indicando que a proporção de relações sexuais sem preservativo com parceiros sabidamente soropositivos tinha mudado de 0,9% para 6,2%.

No entanto, a redução do sexo sem preservativo com parceiros ocasionais foi, em grande parte, devido aos entrevistados que relataram ter parado o sexo completamente após o diagnóstico. Nas quatro semanas antes do diagnóstico, 46% relataram ter feito sexo com parceiros casuais, 30,5% nas quatro semanas depois e 22% pararam de fazer sexo sem preservativo com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida para o HIV.

O único fator estatisticamente associado à redução no número de parceiros casuais foi maior apoio pessoal de outras pessoas com HIV. Pessoas que relataram apoio maior do que a média de seus semelhantes soropositivos se mostraram quase 40% mais propensas a reduzir o número de parceiros sexuais casuais ou de interromper o sexo casual completamente.

Na segunda pesquisa, 56% dos entrevistados disseram ter reduzido o número de homens com quem tinham relações sexuais desde o seu diagnóstico e 47% disseram ter parado de fazer sexo por completo, pelo menos por um tempo. 38% disseram ter parado de ter relações sexuais com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida e um terço disse que agora estavam mais propensos a revelar a sua condição sorológica para o HIV antes do sexo. Menos de um em cada sete não tinha feito qualquer ajuste no seu comportamento de risco.

Aqueles que reduziram seu número de parceiros casuais ou pararam o sexo completamente tinham quase duas vezes mais probabilidade de relatar ter recebido apoio recebido de colegas soropositivos, e o mesmo se passou com os homens que disseram ser mais propensos a revelar a sua soropositividade. A minoria dos homens que não tinham feito qualquer mudança no seu comportamento de risco se mostraram 70% menos propensos a relatar o apoio de outras pessoas com HIV. Reduzir a quantidade de sexo casual ou interrompê-lo por completo também foi associado à maior depressão —  o que não é surpreendente, uma vez que a depressão significativa está associada com menos atividade sexual.

 

Discussão e conclusões

Este é um dos primeiros estudos comportamentais, desde que o tratamento universal passou a ser recomendado, a tentar capturar as mudanças no comportamento dos homens soropositivos após o diagnóstico e descobriu que seus semelhantes soropositivos — e somente eles, e não os amigos, parceiros, família ou médico —  têm um papel significativo no apoio.

É importante salientar que essas pesquisas só capturaram o comportamento no período pós-diagnóstico imediato — na primeira pesquisa apenas nos quatro meses depois e, na segunda, dois terços tinham sido diagnosticados há menos de um ano.

Como os próprios pesquisadores comentam, “após o diagnóstico de HIV, alguns indivíduos se fecham ou para passam o tempo considerando o que o futuro reserva para eles. Um dos aspectos decorrentes pode ser um período de celibato ou de interesse sexual reduzido.”

Outra consideração importante é que nenhuma das pesquisas perguntou aos participantes se eles estavam em tratamento ou tinham carga viral indetectável. Isto é importante porque a percepção de uma pessoa a respeito de sua infecciosidade pode fazer diferença considerável para saber se eles escolhem seus parceiros de acordo com a sorologia para o HIV, se usam preservativos ou mesmo se fazem sexo.

Como é que se concilia essas descobertas com outras pesquisas que mostram que as pessoas soropositivas, em geral, tendem a praticar mais sexo casual e sem preservativo e ter níveis altos de infecções sexualmente transmissíveis? Uma razão pode ser que, após o período pós-diagnóstico, homens soropositivos simplesmente revertam, ou mesmo ultrapassem, os níveis anteriores de atividade sexual. Embora este possa ser mesmo o caso, a escolha de parceiros com base na sua sorologia para o HIV parece continuar e, enquanto os homens soropositivos pareçam fazer mais sexo sem preservativo, uma boa quantidade desse sexo é com outros homens com HIV, tal como ambas as pesquisas de São Francisco e Londres sugerem.

Em geral, isso pode ter efeitos positivos na comunidade gay, uma vez que reduz a quantidade de sexo que oferece risco de transmissão do HIV, mas aumenta os efeitos negativos sobre os próprios homens soropositivos, uma vez que os restringe para um grupo menor de parceiros com taxas muito mais elevadas de circulação de DSTs.

O que esta pesquisa australiana mostra, no entanto, é que o apoio dos semelhantes com HIV pode ter um efeito positivo.

Em 2 de maio de 2016 por Gus Cairns para o Aidsmap

Referência: Prestage G et al. Impact of peer support on behavior change among newly diagnosed Australian gay men. JAIDS, early online publication, DOI:10.1097/QAI.0000000000001017. Abstract here. 2016.

HuffPost Brasil

Era 28 de janeiro. Eu saía do metrô quando notei que o céu começava a clarear, depois de uma manhã de vento e chuva. O termômetro da cidade marcava 12 graus. Dobrei a segunda rua à direita, e alcancei o Culturgest, prédio da Caixa Geral de Depósitos de Lisboa. Vesti o crachá que me entregaram na recepção e atravessei o saguão de carpete vermelho-sangue.

À minha volta, os stands dos fabricantes de medicamentos antirretrovirais. Bristol-Myers Squibb, Gilead, Janssen, Merck Sharp & Dohme, ViiV Healthcare e AbbVie — esta última, fazendo propaganda do Kaletra, o primeiro antirretroviral que tomei, logo após o meu diagnóstico positivo para o HIV, em outubro de 2010. Impossível não lembrar de seus terríveis efeitos colaterais, vômitos e diarreia que perduraram incessantemente pelos quatro meses seguintes e me fizeram perder um total de 15 quilos. Só vim a melhorar com meu novo médico infectologista, o Dr. Esper Kallás, que, logo em nossa primeira consulta, recomendou a imediata troca do coquetel antirretroviral para outra combinação, e os efeitos colaterais cessaram totalmente.

Agarrei um copo de café e entrei no auditório, a tempo da mesa redonda sobre o ebola, vírus que trouxe preocupação para Portugal, um pequeno país com considerável imigração africana, oriunda especialmente de regiões que foram colônias no passado, e territorialmente próximo à África. O Prof. Dr. Amadou Sall, do Institut Pasteur de Dakar, Senegal, falava sobre a razão dos surtos de ebola não terem sido contidos em seus estágios iniciais: foi por puro medo da doença que médicos e sanitaristas negavam-se a se dirigir às regiões afetadas, atrasando assim uma resposta imediata ao controle do vírus, a qual, ensinava o doutor, é fundamental para conter a epidemia.

Cartaz de 1987 da organização Act Up.

A história dos surtos de ebola traz alguma semelhança com o começo da epidemia de aids, quase totalmente negligenciada nos Estados Unidos até 1986, quando o então presidente americano Ronald Reagan finalmente veio a falar publicamente sobre o HIV, exatamente quando a doença começava a seguir para além da comunidade gay, alcançando os heterossexuais.

Também aprendi que não é de todo incomum que profissionais de saúde que cuidam de pacientes com ebola acabem contaminados. E este era precisamente o caso do Dr. Craig Spencer, médico do Columbia University Medical Center, de Nova York, que subia ao palco logo em seguida para contar sua experiência como sobrevivente do ebola, infectado enquanto trabalhava para a organização Médicos Sem Fronteiras nas regiões mais afetadas pelo surto do vírus, em 2014.

daily-news-Craig Spencer

Spencer disse ter sempre seguido todos os protocolos de segurança ao cuidar dos pacientes e, inclusive, acabou conhecido por sua constante atenção aos procedimentos de segurança entre seus colegas, os quais, segundo ele, acabavam relaxando nestes mesmos procedimentos depois de alguns meses. Spencer acredita que foi contaminado fora do hospital, com alguém que carregava o vírus sem saber, talvez, sem ainda apresentar sintomas. Ele mesmo só percebeu que carregava a doença quando estava de volta à Nova York, onde, graças ao tratamento imediato e adequado, sobreviveu.

Mas esse assunto todo não era o que me levava a estar ali, nas 10as Jornadas de Actualização em Doenças Infecciosas do Hospital de Curry Cabral. A palestra a respeito da pesquisa da cura do HIV é o que mais me interessava. Contava com o Prof. Daniel Kuritzkes, do Brigham and Women’s Hospital e Harvard Medical School, de Boston, Estados Unidos, e, por fim, Timothy Ray Brown, por muito tempo conhecido apenas como o “Paciente de Berlim”, o único homem no mundo até hoje considerado curado do vírus da aids.

Timothy foi diagnosticado positivo para o HIV em 1995, um ano antes do surgimento do coquetel antirretroviral, quando ainda vivia em Berlim, na Alemanha. Em 2006, foi diagnosticado com outra doença, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda, enquanto ainda morava em Berlim. Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Timothy desenvolveu pneumonia e teve de interromper a quimio em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração.

Apesar de tudo isso, Timothy sobreviveu, e o câncer parecia estar em remissão — pelo menos, até 2007, quando ele foi novamente diagnosticado com leucemia. As novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas e um transplante de medula óssea se mostrou a última e viável opção. O Dr. Gero Hütter teve então uma ideia inovadora: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador de uma mutação genética chamada CCR5delta32, comum em apenas 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer a infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue entrar nas células, e as pessoas com essa mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse essa característica não só curasse a leucemia de Timothy, mas também o tornasse imune ao HIV. Por sorte, esse doador foi encontrado. E, três meses depois do procedimento, já não havia mais qualquer sinal do vírus no organismo do Paciente de Berlim.

Receptor CCR5.
Receptor CCR5.

Porém, o mesmo não poderia ser dito sobre sua leucemia, que retornou em 2008 — depois de meses de extensos testes para que pudessem confirmar a veracidade de sua cura para o HIV. Nestes testes, examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e “qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido”, contou Brown, mais tarde naquele mesmo dia. No meio de tantos exames, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu a visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Quando as complicações foram controladas, o mesmo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. “Graças a Deus, eu tive um doador muito generoso”, contou Brown, que foi curado da leucemia e, até hoje, nove anos depois do procedimento, continua sem qualquer sinal do HIV em seu organismo. Timothy viria a aprender só depois, em uma conferência sobre terapia genética em St. Louis, na Washington University, que sua chance de sobrevivência beirou os 5%.

Outros pacientes com HIV e leucemia receberam o mesmo tratamento, mas não tiveram a mesma sorte. Alguns simplesmente não foram curados do HIV. Outros, como Eric Blue, um jovem soropositivo de Louisiana que corajosamente concordou em se submeter a um transplante de células-tronco — semelhante ao que Brown fez, mas, em seu caso, usando o sangue do cordão umbilical —, faleceram, razão pela qual a cura de Timothy Ray Brown mostrou-se irreproduzível em larga escala, e ainda lhe deixou algumas sequelas.

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Timothy Ray Brown

Não foi difícil identificá-lo no meio ao saguão da conferência: um homem magro e alto, que caminhava com os ombros contraídos e flexionava os joelhos com certa dificuldade. Olhei mais atentamente e não tive dúvidas: era Timothy Ray Brown. Os primeiros repórteres logo começaram a se aproximar. E não demorou para que todos os demais jornalistas, que naquela altura circundavam o Dr. Craig Spencer, sobrevivente do ebola, abandonassem o médico e viessem correndo em direção ao Paciente de Berlim.

Timothy era a verdadeira estrela do evento. O assedio era tanto que foi organizada uma sala em reservado, onde alinhou-se uma fila com os repórteres. Todos queriam uma entrevista exclusiva, mesmo que as perguntas fossem, em sua maioria, exatamente as mesmas. Timothy não reclamou. Repetia sua história incansavelmente e posava para as câmeras. Coloquei-me ao final da fila e, pouco mais de uma hora depois, chegou a minha vez.

Jovem Soropositivo — Quando eu fui diagnosticado positivo para o HIV, em 2010, sua história foi uma das primeiras que li a respeito do HIV…
Timothy Ray Brown — E isso te trouxe uma sensação de esperança?

JS — Sim.
TRB — Que bom!

JS — Você hoje tem 49 anos de idade, certo? E mora em Palm Springs, na Califórnia?
TRB — Sim, tenho quase 50 anos. Quase meio século de idade! Faço aniversário em 11 de março.

JS — Você está livre do vírus?
TRB — Sim.

JS — Quantos testes você fez para confirmar isso?
TRB — Muitos, muitos, muitos! Por algum tempo, morei em São Francisco e ia a um médico especializado em HIV, no San Francisco General Hospital, bastante conhecido: Dr. Steven Deeks. Depois, visitei o Dr. Jay Levy, da University of California, San Francisco (UCSF). Eles tiravam tanto sangue de mim que tiveram que checar as diretrizes da Food and Drug Administration (FDA) a respeito dos limites permitidos para retirada de sangue de um único paciente. Meu sangue foi levado do San Francisco General Hospital para o National Institutes of Health (NIH), onde fizeram testes muito precisos. E… essa história é engraçada: eu estava na International Aids Conference (IAS) em Washington, D.C., em 2012, e conheci um cientista de Rotterdam, que me disse:

“— Eu conheço você intimamente!”

Ao que eu respondi: “— Mas você me parece ser hetero…”

“— Sim, mas eu tenho 8 mil cópias do seu sangue no congelador do meu laboratório.”

HeLa

Meu sangue é igual ao… Você já ouvir falar das “células HeLa”? Foram descritas num livro biográfico publicado há alguns anos, chamado A Vida Imortal de Henrietta Lacks, a respeito de uma mulher que tinha câncer cervical. Seus médicos em Baltimore, nos Estados Unidos, retiraram parte de seu colo do útero. Então, eles perceberam que as células desse tecido, mesmo fora do corpo de Henrietta, multiplicavam-se tanto que foi possível dissecá-las e fazê-las multiplicar em outros lugares, permitindo que fossem usadas em pesquisa sobre câncer cervical no mundo todo! Meu sangue é mais ou menos assim também.

JS — Então, os cientistas conseguem replicar suas células? Será que vão fazer um outro Timothy Brown?
TRB — Uma réplica de mim seria ótimo! (Risos.) Talvez seja o que eles querem dizer quando falam que vão replicar a cura no futuro!

JS — Me lembro de assistir a uma declaração sua em que dizia que estava doando seu corpo à ciência. Por que você decidiu fazer isso?
TRB — Primeiro, eu queria de fato provar ao mundo que a minha cura é esterilizante, e não apenas funcional. Mas outra razão importante é porque eu queria que houvesse mais pesquisa, para que os cientistas pudessem encontrar uma cura para mais pessoas. Eu não acho que o método que me levou à cura é o melhor, porque foi muito arriscado e eu quase morri várias vezes, durante os diversos procedimentos.

JS — Doar seu corpo para que outros alcancem a cura é generoso da sua parte.
TRB — Obrigado. Sim, é verdade. Mas eu tenho um pouco de “culpa do sobrevivente”. O que quero dizer com isso é que eu não apenas sobrevivi ao HIV, que matou muitas pessoas — e isso me deixa muito triste —, enquanto eu estou vivo e, como se não bastasse, estou curado! Eu realmente não quero ser o único curado.

JS — Você pensa que existe alguma razão para ser o único curado?
TRB — Eu… Eu acho que sou apenas sortudo. Uma parte de mim quer acreditar que eu fui escolhido para isso, pelo fato de ser uma pessoa generosa. Mas no fundo eu não acho que isso é verdade. Acho que é por acaso que sou muito generoso e que a cura aconteceu à pessoa certa.

JS — Nas suas entrevistas aqui, antes de chegar a minha vez, escutei você dizer que é difícil ser o único curado do HIV. Por que você sente isso?
TRB — Porque existe muita pressão sobre mim. Eu andei por aí dando entrevistas como essas e acabei sentindo que precisava ser um certo tipo de pessoa. Hoje, me sinto mais livre: moro em Palm Springs e sinto que posso fazer o que eu quero fazer. No começo, eu impunha alguns limites a mim mesmo, a respeito do que eu poderia fazer, mas depois eu rejeitei esses limites.

JS — Nas entrevistas anteriores, você disse que não acreditou que estava curado de imediato, e que foi um processo acreditar na sua cura. É isso mesmo?
TRB — Sim, foi um processo. Eu não acreditei logo de cara. O Dr. Gero Hütter foi o principal médico que trabalhou no meu caso e que teve a ideia de fazer o procedimento que me levou à cura. Ele mandou um relatório do meu caso para o New England Journal of Medicine, mas o artigo foi rejeitado. Então, eu pensei que deveria haver um motivo para o artigo ter sido rejeitado. Pensei: “talvez eu não esteja curado!” Mas algum tempo depois eles finalmente aceitaram o artigo, que foi publicado.

JS — Você só acreditou na sua cura quando o artigo foi publicado?
TRB — Sim, exatamente.

JS — O que você sentiu quando percebeu que era a primeira pessoa curada do HIV, em toda a história da epidemia?
TRB — Eu fiquei feliz. E há uma certa quantidade de orgulho nisso. Porém, eu sou muito humilde e não gosto de expressar orgulho.

JS — Quando leio os comentários dos meus leitores no blog falando a respeito da possível cura, percebo que, na maioria deles, existe a sensação de que a cura os traria alívio. Você sentiu isso?
TRB — Sim. Senti uma quantidade enorme de alívio, por não ter que tomar nunca mais os medicamentos para o HIV. Você deve saber que parei de tomar os remédios no dia do meu transplante e, desde estão, nunca mais os tomei.

JS — Como é estar livre dos antirretrovirais?
TRB — É muito bom! (Sorrindo.)

JS — Você sofria com efeitos colaterais?
TRB — Eu tive alguns. Tomei Crixivan (Indinavir) e fiquei com a “Crix belly” (apelido para lipodistrofia abdominal causada pelo Crixivan) e lipoatrofia na face. Mas eu estava na Alemanha e lá eles têm um ótimo sistema de saúde: eu nunca paguei por nada. Nunca! Nem mesmo quando um cirurgião plástico retirou gordura da minha barriga e aplicou nas minhas bochechas. Foi tudo gratuito. Bastou o pedido médico indicando que era preciso fazer a cirurgia.

JS — Você disse aqui aos outros jornalistas que nunca sofreu com estigma.
TRB — Muito pouco. Berlim tem uma mente muito aberta. Na época do meu diagnóstico, eu trabalhava num café e contei para meus colegas de trabalho e para os meus chefes. Ninguém demonstrou qualquer estigma. Acho que esse é um problema mais comum nos Estados Unidos e em outro lugares.

JS — E hoje, você sofre algum tipo de estigma?
TRB — Não. Minha mãe é cristã, muito conservadora, e contou minha história para vários amigos dela. Mesmo eles têm se mostrado muito receptivos. Uma vez, fui a um encontro na igreja dela e fui muito bem recebido por todos.

JS — Será que eles acreditam que foi Deus quem te curou?
TRB — Sim. Até certo ponto, sim.

JS — Você paga algum preço pela cura?
TRB — Quero que meu corpo volte a funcionar tal como funcionava antes de tudo isso começar. Antes, eu conseguia patinar no gelo, patinar com rodinhas, até mesmo andando de costas. Hoje, se subo em cima de qualquer tipo de patins, eu caio. Mas ainda quero conseguir patinar novamente. Desde que fui curado do HIV ainda não tentei, mas também quero voltar esquiar — esse era meu esporte preferido.

JS — Além de não ter que tomar mais os antirretrovirais, quais são os benefícios de ter sido curado do HIV?
TRB — Essa é uma boa pergunta. (Pausa.) Poder ser uma voz que traz esperança às pessoas.

JS — Atualmente você toma algum tipo de medicamento diário?
TRB — Eu tenho problemas com diarreia. Então, tenho que tomar pílulas antidiarreicas.

JS — Você ainda faz algum acompanhamento médico da sua saúde?
TRB — Faço, a cada seis meses. No último exame, a contagem do meu CD4 estava em 1.200. E a carga viral, claro, nada — mesmo com os testes precisos, de menos de 20 cópias. Aliás, no que diz respeito ao tratamento como prevenção para quem tem HIV, li que abaixo de 100 cópias é considerado indetectável e, assim, é impossível de transmitir o vírus a outras pessoas.

JS — O que você pensa a respeito das novas abordagens de prevenção ao HIV, como: tratamento como prevenção (TasP), profilaxia pré-exposição (PrEP) e profilaxia pós-exposição (PEP)?
TRB — Acho muito positivo. Acho que qualquer coisa que previna mais pessoas de contrair o HIV é importante. Os números de novas infecções precisam cair. Por isso, acho importante que as pessoas façam o teste, porque muitas das novas infecções vêm de pessoas que não sabem que são soropositivas e fazem sexo desprotegido com outras pessoas. E acho que a PrEP pode certamente ser considerada como sexo seguro.

JS — Você considera o tratamento como prevenção (TasP) como sexo seguro?
TRB — Sim, definitivamente. Quisera eu saber disso no passado! As coisas teriam sido muito mais fáceis. (Suspiro.)

JS — Você se lembra do dia em que recebeu o diagnóstico positivo para o HIV?
TRB — Era um dia cheio: eu estava terminando a inscrição em um programa para poder estudar na Alemanha. Ir buscar o resultado do teste na clínica atrapalhou tudo! Em geral, eu não processo as coisas no coração, e sim na cabeça. E, mentalmente, foi difícil. Mas decidi que ia continuar a fazer o que eu estava fazendo: estudar na Alemanha, ir à universidade e seguir com a minha vida. E fiz isso, mesmo depois do parceiro que sugeriu que eu fizesse o teste de HIV — pois ele tinha testado positivo — dizer para mim: “Você sabe que temos só mais dois anos de vida, não sabe?” Quando ele disse isso, eu fiquei assustado, fiquei chocado! Mas respondi: “Ok, mas mesmo assim eu vou continuar a seguir os meus planos.”

Por sorte, os inibidores de protease foram lançados em 1996, e comecei a tomá-los. Então, o número de alternativas de medicamentos antirretrovirais cresceu exponencialmente. Depois, surgiu o teste de carga viral e descobri que eu estava indetectável — eu não tinha vírus no meu sangue. Só vim a saber mais tarde que, se não estivesse indetectável, os médicos não teriam feito o procedimento que me curou e nem permitido que eu interrompesse o tratamento antirretroviral antes do transplante de medula.

Aliás, essa história é engraçada: meu parceiro àquela época, Michel, não queria que eu tomasse os antirretrovirais durante a recuperação da cirurgia. Ele achava que isso poderia prejudicar o crescimento das células-tronco no meu corpo — o que hoje eu sei que não é verdade. Mas, naquela altura, eu não sabia, e os médicos me apresentaram o protocolo que deveria ser seguido nos dias seguintes à cirurgia, e incluía manter os antirretrovirais. Então, eu disse aos médicos o que o meu parceiro pensava a respeito disso e disse a eles que eu não faria o transplante se tivesse que tomar os antirretrovirais. Isso fez com que o Dr. Hütter tivesse uma reunião emergencial com o time de médicos e, no dia seguinte, trouxe um novo protocolo, dizendo que eu poderia interromper os antirretrovirais. Ou seja: foi tudo graças ao meu parceiro, Michel. Se eu tivesse continuado com a medicação, por muito, muito tempo ninguém saberia que eu não tinha mais HIV em meu organismo. Então, provavelmente foi bom que aconteceu dessa forma.

JS — Você tem uma fundação em prol da cura do HIV. Então, presumo que você acompanhe de perto os estudos a respeito da cura. Qual você acha que é hoje a abordagem mais promissora, que vai nos trazer a cura?
TRB — Eu penso que a abordagem da Sangamo é a mais próxima da cura. Mas talvez eu esteja sendo orgulhoso, pois eles usam um método para remover o CCR5, que é a razão pela qual eu estou curado — embora ainda haja muito debate sobre o que de fato me levou à cura. Você sabia que eu sou heterozigoto para o CCR5? Isso quer dizer que ou meu pai ou minha mãe é imune ao HIV. Eu não sei qual deles, também não insisti que minha mãe fizesse o teste e nunca conheci meu pai. Mas é possível que a minha cura tenha a ver com a minha genética.

JS — Você acha podemos ter esperança quanto à cura?
TRB — Sim. Meu caso é uma prova de conceito de que o HIV pode ser curado e que vai ser curável. Espero que isso aconteça em meu tempo de vida.

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“Eu não vou ser o único curado” — Timothy Ray Brown

Timothy deu então mais um pequeno gole de sua garrafa d’água, algo que fizera por diversas ao longo da entrevista — e seria natural mesmo que o fizesse, afinal, há horas ele era o único que ali falava! Só comigo, foram 25 minutos. Ainda assim, esse último gole fez parecer que ele bebia água demais, mais do que uma pessoa que concedeu tanto tempo de entrevistas precisaria. No inverno úmido de Lisboa, o ar tampouco estava seco.

Era como se ele estivesse muito cansado e fosse um esforço tremendo estar ali, embora muito bem disfarçado. Dito isso, me ocorreu que o jeito de falar de Timothy, sempre pausando entre cada frase, cada raciocínio e cada palavra, algumas vezes confuso, talvez não fosse apenas sequela do intenso tratamento que o levou à cura e nem somente resultado do acidente médico que lhe deixou uma bolha de ar dentro do cérebro. Naquele momento, me pareceu que era sua saúde que estava mesmo frágil. Algo irrecuperável, como o preço da batalha que um herói experimenta, antes de retornar com a vitória.

Timothy deitou a garrafa na mesa e levantamos das poltronas — movimento que ele fez cuidadosa e lentamente —, antes de apertarmos as mãos. Mas nosso cumprimento de despedida foi interrompido pela organizadora do congresso, que, de supetão, adentrou na sala. “Ele está a dar entrevistas até agora?!”, exaltou a senhora, em claro tom de preocupação. Em seguida, os dois homens de terno e gravata que a acompanhavam, vestindo crachás da organização do evento, abriram as portas para o famoso Paciente de Berlim, escoltando-o para o palco do auditório onde em breve ele faria seu discurso. No caminho, algumas últimas e breves interrupções para fotos, de pessoas ali presentes e dos repórteres retardatários. Timothy concordava, sempre com o mesmo sorriso no rosto.

Seguindo a pequena comitiva que formava-se atrás do Paciente de Berlim, fomos levados ao grande auditório, que estava todo e completamente lotado. Sentamo-nos na primeira fileira e, depois de algumas apresentações e discursos dos outros que estavam no palco, chegou a vez de Timothy Ray Brown. Fez-se silêncio. Então, ele se dirigiu ao púlpito, sacou os óculos pretos de um bolso do paletó e, doutro, tirou um papel com anotações. Antes de começar lê-lo, preveniu a plateia de que era homossexual e pediu desculpas antecipadamente, se porventura qualquer coisa que viesse a dizer pudesse a ofendê-los.

“Gostaria de dizer que é uma honra para mim estar aqui hoje, na conferência portuguesa de doenças infecciosas. Pouca gente sabe que a identificação do vírus HIV-2, publicada em 1986, foi resultado de uma estreita colaboração entre pesquisadores portugueses, daqui de Lisboa, com pesquisadores franceses do Instituto Pasteur. Mas eu não quero reconhecer apenas o trabalho deles. Quero também reconhecer, em especial, todos aqueles que estão hoje na linha de frente da pandemia do HIV/aids.

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Desde que assumi publicamente que sou o Paciente de Berlim, costumava preferir ler meu discurso, pois achava que ficaria petrificado diante da plateia, estragar tudo e me esquecer de algo importante. Depois, decidi memorizar o discurso. Contudo, hoje estou diante de outro desafio. Chama-se: ‘estou tão apaixonado por Lisboa que não consigo falar!’

Esta é a segunda vez que eu tenho o prazer de visitar Lisboa. A primeira vez foi quando eu tinha 24 anos de idade. Eu era um homem gay, orgulhoso e assumido. Minha companheira de viagem conheceu um rapaz, e nossos planos de ficar aqui por apenas alguns dias se transformaram em uma semana. Ah, o amor! Então, acabei eu por também conhecer um rapaz bonitão. Eu amo Lisboa!”

O Paciente de Berlim prosseguiu contando que, em 2014, a CNN teria dito que esta é a cidade mais legal da Europa. E eu compreendi perfeitamente o que ele queria dizer: não é difícil apaixonar-se por Lisboa, tampouco encontrar pessoas caminhando por suas ruas que sentem exatamente dessa mesma forma. Cheguei a conhecer um homem que havia trocado um bom emprego em sua cidade natal para trabalhar com telemarketing na capital portuguesa — e o fez, dizia ele, por pura paixão por Lisboa.

“— Essa cidade tem esse poder, não tem?”, me disse Timothy, alguns dias depois do congresso, quando brindávamos com uma cerveja, sentados num bar rebuscado de art déco, que ocupa todo um andar de um dos pequenos edifícios do bairro do Chiado. “Eu realmente amo essa cidade”, repetiu ele, já sem qualquer resquício da aparência de fraqueza que tanto sobressaía no dia anterior.

É possível que seu visível cansaço não fosse nada além de puro jet lag, aquela estafa tão comum depois de voos longos, especialmente os que atravessam demasiados fusos horários. Algo que eu mesmo experimentara na primeira manhã do congresso. O fato é que, fora daquele ambiente, o Paciente de Berlim parecia muito mais bem disposto. Sua fala fluía muito mais facilmente e seu modo de andar já não parecia ser sequela de um procedimento tão dramático.

“— Mas eu gostaria de conhecer o Brasil, também. Sabe… aquele rapaz que conheci na primeira vez em que vim para Lisboa era um brasileiro, do Rio de Janeiro. Me lembro bem dele!”, me confidenciou Timothy. “Mas acabamos perdendo contato. Voltei para Berlim, onde fiquei até depois do transplante. E nunca mais soube desse brasileiro.”

Tim, o homem que o acompanhava desde o congresso, voltou à mesa, trazendo-nos uma segunda rodada de cervejas.

“— E vocês?”, perguntei, “onde se conheceram?”

Os dois deram as mãos, e se entreolharam, carinhosamente.

“— Pela internet, num aplicativo de relacionamento chamado Scruff”, respondeu Tim, que vive com HIV desde 1989. “Eu o reconheci pelas fotos. Disse que queria conhecê-lo. Então, acabamos ficando juntos.”

Indaguei se Timothy era reconhecido nas ruas. Encostado no muro da parte de fora do bar, entre uma tragadela e outra de seu cigarro — e sob olhar de reprovação de seu parceiro —, o Paciente de Berlim me disse que não.

“— Por algum tempo, pensei que as pessoas estavam interessadas na minha história porque sou uma aberração, resultado de um experimento científico que funcionou. Porém, pessoas do mundo inteiro me dizem que a minha história é uma história de esperança.”

“— Você fala bastante sobre esperança”, disse eu, pouco antes de nos despedirmos, já depois de horas a conversar durante o jantar, na saída do restaurante para o qual fomos em sequência ao bar.

Foi quando Timothy parou por um instante. Ali, na porta do restaurante, vestiu vagarosamente seu casaco, como se refletisse profundamente sobre o que acabara de escutar. Em seguida, virou-se para mim. Tinha o olhar de alguém ávido por uma opinião sincera. Então, perguntou, sério:

“— Jovem, você acha que é falsa esperança?”

Me lembro de sentir um leve frio na espinha. Percebia ali que o próprio Paciente de Berlim, o único homem do mundo curado do HIV — e, por isso, a mais alta prova de que a cura para todos os soropositivos é uma possibilidade real —, tinha lá uma discreta dúvida. Discreta, sim, mas havia. Se não era uma dúvida, no mínimo era uma leve hesitação, suficiente para por em cheque todo meu próprio sentimento de esperança, nutrida desde o meu diagnóstico, em outubro de 2010.

Contudo, o frio que senti na espinha não aumentou, não cresceu em nada. Tampouco se transformou em medo. O que se deu foi que, naquele exato instante, me dei conta de que estava diante de um homem como qualquer outro, com seus medos e anseios, assim como todos nós. Então, a cura me pareceu ainda mais próxima. Afinal, se ela foi possível para alguém tão semelhante, tão comum e tão humano, pensei, ela certamente será possível para todos nós, em algum dia que não deve tardar. Foi com isso em mente, que respondi:

“— Não. Não acho que é falsa esperança. Acho que veremos a cura em nosso tempo de vida.”

Timothy sorriu, me deu um forte abraço, um beijo na bochecha e disse:

“— Que bom! Eu acho isso também!”

De fato, a cura não vem de um único homem e, talvez exatamente por isso, o mesmo se passa com a esperança. É como se fosse preciso que a troquemos uns com os outros, espalhando-a entre as pessoas que mais precisam dela. No fim de seu discurso, ainda no palco das 10as Jornadas de Actualização em Doenças Infecciosas, Timothy não poderia ter sido mais preciso:

“Juntos, podemos transformar esperança em ação — a qual, então, vai nos levar à uma cura. Mas, temos que trabalhar em conjunto. Eu aprendi que temos uma escolha. Você tem uma escolha. E é muito inspirador saber que vocês, aqui, escolheram continuar a lutar contra esta doença, assim como no início da epidemia, mais de 30 anos atrás.

Meu nome é Timothy Ray Brown — e costumavam me chamar de o ‘Paciente de Berlim’. Eu prometo a vocês aqui, hoje, que vou continuar a dedicar o meu corpo, minha mente e minha alma para encontrar uma cura para o HIV/aids. E eu não vou te decepcionar.”

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“Meu querido desconhecido,

Há muitas expressões que definem o lugar onde você crê que está nesse momento, tentando se manter firme sobre suas pernas, com seu resultado na mão, pensando, talvez pela primeira vez com a devida seriedade, a respeito do que será da sua vida, do seu futuro como soropositivo.

Fundo do poço? Na lama? Fim da linha? Nada disso. Você ainda não sabe, mas a verdade é que está se preparando para realmente começar a viver. O sofrimento vai passar — deixe passar. Para isso, há que se emagrecer muitos sentimentos ruins para sobreviver ao HIV. Há que se dedicar ao conhecimento para combater ignorância e preconceito. Vão ser muitas idas ao médico, aos laboratórios, às farmácias, ao psicólogo, a grupos de apoio. É uma luta diária que, por enquanto, ainda não tem fim.

Mas a primeira guerra a ser travada é consigo mesmo. Nesse momento, não há ninguém que possa lhe fazer mal maior do que seu apego ao fantasma do passado, de si mesmo quando era soronegativo. Você não é mais essa pessoa. Assim como na natureza, os primeiros momentos de qualquer ser vivo são repletos de medo e angústia, e você se sente preso por inúmeras paredes que agora se construíram à sua frente. Lembre-se: ninguém nasce feliz. A felicidade é um conceito que a gente aprende a querer quando descobrimos que ela está ligada à paz de espírito. Mas existe tal coisa?

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Há muitos conselhos práticos que podem ser repassados nesse momento, mas talvez você não ouça nenhum. Contudo, independentemente se você é gay ou não, a verdade é que você está no armário. E ele é escuro, é silencioso, é frio. A solidão é imprescindível para que se reconheça nesse novo ambiente, mas é preciso buscar a luz. Calma: não é a mesma luz que se via há 30 anos, quando as pessoas ainda morriam por doenças oportunistas decorrentes da infecção pelo vírus. Hoje, não há nenhum túnel para se entrar, mas uma estrada para se percorrer. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.

Quando fui à primeira consulta com meu infectologista percebi que seu consultório, aqui em São Paulo, está num prédio vizinho do cemitério da Consolação. Foi muito alegórico, pelo menos para mim, ao chegar ali, compreender que eu tinha duas escolhas: enfrentar meu diagnóstico com a ajuda do meu médico ou virar à esquerda e ir parar no campo-santo. Essa parece ser uma escolha lógica, mas eu entendo o desespero que anda lhe nublando essa visão bem clara do quão bom pode ser o futuro. E é por isso que eu lhe peço: exercite-se! Não apenas com duplo-twist-carpados, zumba ou corridinhas no parque, mas trabalhe esse novo ser que agora carrega uma marca, reconstrua a imagem que você tem de si mesmo, redimensione seus planos, dê um novo significado para seus dias.

Parece muito simples no papel e claramente mais difícil no mundo prático — sim, você tem toda razão. No entanto, esse não foi, não é e não será o único desafio da sua vida. Para cada vez que você pensar em se esconder, conte para um amigo; para cada vez que você acreditar não passar de estatística, tente enxergar mais a sua missão vital; para cada momento de raiva que você tiver, entregue-se nos braços de alguém que lhe ama; para todas as chances que você tiver de se perguntar ‘por que eu?’, lembre-se de tudo aquilo que lhe faz especial; para quando você pensar que está sendo difícil, ajude alguém em situação de dificuldade maior que a sua.

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Com tratamento, o HIV não mata — portanto, a inação é que mata. Nesse sentido, o maior perigo não é o vírus que se reproduz no seu corpo, mas sua atitude em relação à vida. É óbvio que você precisa começar seu tratamento e cumpri-lo feliz. Os remédios são amigos. Por enquanto, não há cura — mas um dia haverá. Por hora, concentre-se em ser uma pessoa melhor, principalmente para si mesmo. De resto, as coisas se resolvem e tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Com amor,

F.F.”