No próximo dia 22 de setembro de 2018, das 13h às 18h, acontece o evento “Suicídio: Saber, Agir & Prevenir”, organizado pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, a RNAJVHA, na Escola Superior de Ciências da Saúde, em Manaus.

A RNAJVHA é um coletivo de pessoas que atua como movimento social, reivindicando direitos e funcionando como um espaço de acolhimento para adolescentes e jovens com sorologia positiva para o HIV. É uma rede nacional que possui bases em vários estados do Brasil. Em Manaus, a RNAJVHA – Amazonas realiza encontros mensais, no segundo domingo de cada mês, buscando fortalecer a juventude que vive com HIV/Aids por meio da informação entre pares, incentivando a adesão ao tratamento, promoção de direitos e quebra do estigma e discriminação, trazendo um novo olhar para a vida da juventude após a descoberta do diagnóstico. E trabalhamos com políticas públicas e controle social da juventude vivendo com HIV/Aids no Estado.

A ideia do evento foi de Felipe Medeiros, um dos coordenadores da RNAJVHA – Amazonas, que movimentou muita coisa pra que isso acontecesse. Na verdade, não existe nenhum estudo que relacione diretamente o suicídio ao diagnóstico positivo para o HIV, mas vimos neste setembro amarelo uma oportunidade de desmistificar o tema e falar sobre a importância do cuidado com a saúde mental. Existem alguns estudos que mostram que uma parcela significativa das pessoas que vivem com HIV possuem algum tipo de transtorno psiquiátrico, diagnosticado ou não. Por isso, hoje em dia, fala-se em atendimento biopsicossocial da pessoa que vive com HIV: uma forma de encarar o tratamento para além de apenas tomar a medicação. Ou seja, oferecendo suporte para cuidado com a saúde mental e meios para que aqueles que não possuem dinheiro possam dar continuidade ao tratamento desta enfermidade.

Neste evento, haverá dois palestrantes de Manaus: Um é um psicólogo que conhece muito bem o tema, o Clovis Coelho. Outra é a Consuelena Lopes. Ela é psicóloga com doutorado em Antropologia Social e já atuou por muito tempo no atendimento de pessoas que vivem com HIV aqui em Manaus, em uma policlínica. Também teremos uma psicóloga da Fiocruz Brasília que vem pra cá apenas pra este evento, a Karine Dutra. Ela já trabalhou muito na construção de políticas públicas diretamente no ministério da saúde.

Hoje em dia existem outras formas de se prevenir o HIV além da camisinha, como a PEP e a PREP, e também existem estudos internacionais que comprovam que pessoas com carga viral indetectável há pelo menos seis meses, e sem nenhuma ist não transmite o vírus do HIV mesmo em relações sexuais desprotegidas. Por isso, para além da camisinha podemos considerar a adesão ao tratamento uma forma eficaz de prevenção ao HIV.

Sobre o HIV e o suicídio, eu penso que ambos os assuntos são envolvidos por tabus. Ainda existem pessoas que, mesmo nos dias de hoje, encaram o HIV como um diagnóstico de morte. Além disso muita gente não sabe exatamente como ocorre a transmissão, imaginando que só de compartilhar talheres, beijar ou abraçar pode se infectar, pois a nossa sociedade não fala abertamente sobre sexo. Da mesma forma, o suicídio envolve alguns temas delicados: evita-se falar de morte, pois achamos que isso pode atrair coisas ruins. As vezes a pessoa com ideação suicida é vista como alguém dramático, fraco, inconveniente. Tudo isto impede um diálogo aberto sobre o tema. E como você mesmo falou, é um tema que precisa da nossa atenção pois é uma das principais causas de morte entre jovens.

Se o suicídio passar a ser encarado como um problema de saúde pública e se forem pensadas estratégias para combatê-lo a partir de estudos sérios, penso que essa triste situação pode ser revertida. Mas pra isso, é preciso que as pessoas lancem um novo olhar sobre o suicídio e os transtornos associados a ele. É isso que buscamos com esse evento.

Este slideshow necessita de JavaScript.

RNAJVHA – Amazonas | Coordenadores: Bruno Cortez, Felipe Medeiros, Hadassa Brasil | E-mail para contato: jovenspositivosam@gmail.com
Anúncios

Depressão grave é um raro efeito colateral do Dolutegravir. Médicos holandeses relataram dois casos de rápido início de uma grave depressão após o começo do tratamento com o antirretroviral, e estão convencidos de que o Dolutegravir foi a causa. Nenhum dos pacientes tinha predisposição à depressão e nenhum deles foi tratado com antidepressivos. Em ambos os casos, os sintomas rapidamente desapareceram após a descontinuação do Dolutegravir. “Isto sugere fortemente uma relação causal”, dizem os especialistas. A notícia foi publicada na revista Poz e no Aidsmap, baseada em um estudo divulgado em 26 de julho.

Dolutegravir

O Dolutegravir pertence à classe dos inibidores da integrase, o que quer dizer que ele bloqueia a enzima usada pelo HIV para integrar seu material genético dentro das células. Este antirretroviral foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) americana em 13 de agosto de 2013.

No Brasil, a decisão da incorporação do Dolutegravir ao Sistema Único de Saúde (SUS) como terceira linha de tratamento foi publicada em 29 de outubro de 2015 no Diário Oficial da União. Desde o começo de 2017, o Dulegravir passou a oferecido como primeira opção de tratamento para “todos os pacientes que estão começando o tratamento e também aos pacientes que apresentam resistência aos antirretrovirais mais antigos” e foi anunciado como “o melhor tratamento contra o HIV/aids no mundo”. Há um estudo relacionando o Dolugravir à uma redução mais rápida da carga viral no sêmen.

Triumeq

Em muitos países, o Dolutegravir é distribuído sob o nome comercial Tivicay e, em combinação com Abacavir e Lamivudina, é parte de um potente tratamento contra o HIV oferecido em muitos países em uma única pílula, chamada Triumeq — os dois pacientes holandeses com a depressão grave estavam tomando Triumeq.

Um dos pacientes que sofreu com a depressão severa é um homem recém-diagnosticado de 58 anos de idade, com boa saúde mental e física e sem outras infecções ou condições médicas relevantes. Ele começou o tratamento com Triumeq um mês após o seu diagnóstico positivo para o HIV, tomando o comprimido antes de dormir. Os sintomas de depressão surgiram logo, junto com paranoia e mau humor. Testes de laboratório não conseguiram identificar a causa dessa mudança na saúde mental, o fez seu médico optar por mudar o tratamento para o medicamento Stribild, composto por Elvitegravir, Cobicistat, Emtricitabina e Tenofovir. Uma semana depois da mudança de tratamento, os sintomas de depressão, paranoia e irritabilidade começaram a melhorar e, depois de 20 dias, desapareceram por completo.

O outro homem, de 52 anos de idade, estava tomando uma combinação baseada em Efavirenz e mudou para o Triumeq por conta de fadiga. Ele não tinha antecedentes de doenças psiquiátricas, outras infecções graves e nem quaisquer outras condições de saúde. Este  homem desenvolveu uma depressão leve dois meses depois de começar Triumeq, mas não alertou seu médico. Quatro meses após o tratamento com essa medicação, começou a desenvolver pensamentos suicidas, que se tornaram graves o suficiente para levá-lo à internação em hospital psiquiátrico, a fim de evitar uma tentativa de suicídio. Testes de laboratório não indicaram nenhuma outra explicação para seus sintomas psiquiátricos e, no dia da internação hospitalar, ele mudou de tratamento para Darunavir, Tenofovir e Emtricitabina. Em cinco dias, o homem recebeu alta do hospital e, após duas semanas, sua depressão já estava quase resolvida. Depois de três meses, não apresentava mais qualquer sintoma psiquiátrico.

Os médicos estão convencidos de que a ausência de problemas de saúde mental pré-existentes e o rápido início dos sintomas depressivos após o início do tratamento com o Dolutegravir, bem como a melhora destes pacientes logo após a interrupção do medicamento, sugerem uma relação causal entre este remédio e a depressão severa. Eles observam que seus pacientes não são os únicos a sofrerem com este efeito colateral e que outros casos já foram relatados, a partir de pessoas que descontinuaram o Dolutegravir pelo mesmo motivo. Nos estudos clínicos que antecederam o licenciamento do Dolutegravir, menos de 2% dos participantes interromperam o tratamento por conta de qualquer efeito colateral e menos de 1% por conta de pensamentos suicidas. Surpreendemente, a taxa de descontinuação do Dolutegravir fora destes estudos chegou a 14% no ano passado. A maioria das pessoas que interromperam o tratamento com o Dolutegravir são mulheres e pessoas mais velhas.

Em 50 casos de pessoas com pensamentos suicidas que foram relatados ao fabricante do Dolutegravir, somente 20 tinham histórico psiquiátrico detalhado. 16 destas 20 pessoas, tinham histórico de problemas na saúde mental. Cinco pessoas cometeram suicídio dentro de seis meses do início do tratamento com o Dolutegravir, das quais quatro tinham histórico de depressão. Em contraste, nos dois casos recém-relatados, não havia histórico de má saúde mental. Os médicos autores do estudo acreditam que uma concentração mais elevada do fármaco no organismo pode estar associada aos efeitos colaterais neuropsiquiátricos. “Precisamos de estudos clínicos e farmacocinéticos para determinar com precisão o desempenho geral do Dolutegravir na prática clínica, em relação a efeitos colaterais neuropsiquiátricos, especialmente em populações sub-representadas nos estudos clínicos”, escreveram os autores.

Uma vez que estes casos de depressão ainda são raros, a notícia não me desanima em relação ao Dolugravir, mas serve de alerta para qualquer sintoma depressivo associado ao tratamento. Se você toma Dolutegravir, avise seu médico sobre qualquer pensamento suicida, depressão ou irritabilidade.


the-new-yorker-logo

Norman Garmezy, um psicólogo da Universidade de Minnesota, acompanhou milhares de crianças em suas quatro décadas de pesquisa. Mas um garoto em particular o marcou. Ele tinha nove anos, uma mãe alcoólatra e um pai ausente. Todos os dias, chegava à escola com o mesmo sanduíche: duas fatias de pão, sem nada dentro. Em sua casa, não havia outros alimentos e ninguém que pudesse preparar alguma coisa. Mesmo assim, conforme Garmezy se lembra, o garoto queria ter certeza de que “ninguém sentiria pena dele e de que ninguém saberia da inaptidão de sua mãe”. Todos os dias, sem falta, ele entrava com um sorriso no rosto e um “sanduíche de pão” guardado em sua lancheira.

“Você consegue identificar crianças que estão sob tensão mas que estão dando a volta por cima?”

O garoto com o sanduíche de pão fazia parte de um grupo especial de crianças. Ele pertencia a uma coorte de crianças — a primeira de muitas — a quem Garmezy iria identificar como tendo sucesso, até se superando, apesar de circunstâncias incrivelmente difíceis. Estas crianças exibiram um traço ao qual Garmezy mais tarde referiria como “resiliência”. (Ele é amplamente creditado como o primeiro a estudar este conceito em um ambiente experimental.) Durante muitos anos, Garmezy visitou escolas em todo o país, com foco em regiões economicamente deprimidas, onde seguiu um protocolo padrão. Ele organizava reuniões com o diretor da escola, ao lado de um assistente social ou uma enfermeira, e fazia a mesma pergunta: há aqui alguma criança cuja origem chamou atenção — uma criança que parecia estar no caminho de se tornar uma criança problemática —, mas a qual, em vez disso, tornou-se surpreendentemente uma fonte de orgulho? “O que eu estava perguntando era: ‘Você consegue identificar crianças que estão sob tensão mas que estão dando a volta por cima?'”, contou Garmezy, em uma entrevista concedida em 1999. “Havia sempre uma longa pausa depois da minha pergunta, antes que a resposta viesse. Se eu tivesse dito: ‘Há crianças nesta escola que parecem estar não estar bem?’, não haveria demora na resposta. Mas, ao perguntar por crianças que eram adaptáveis e boas cidadãs na escola, mesmo vindo de uma origem bastante perturbada, eu trazia uma pergunta complemente nova. Foi assim que comecei.”

Resiliência é um desafio para os psicólogos. Não é possível dizer se você a tem ou não a partir de um teste psicológico qualquer, mas pela forma como a sua vida se desenrola. Se você tiver a sorte de nunca experimentar qualquer tipo de adversidade, não saberemos se você é resiliente. É somente quando você se depara com obstáculos, estresse e outras ameaças ambientais que a resiliência, ou a falta dela, emerge: Você sucumbe ou você supera?

O estresse resultante da adversidade crônica pode ser menor, mas “exerce um impacto repetido e cumulativo”.

Ameaças ambientais podem vir de várias formas. Algumas são o resultado do baixo nível socioeconômico e de condições domésticas desafiadoras. (Essas são as ameaças estudadas no trabalho de Garmezy.) Muitas vezes, tais ameaças — pais com problemas psicológicos ou outros tipos de problemas, exposição à violência ou maus tratos, ser criança de um divórcio problemático — são crônicas. Outras ameaças são agudas: experimentar ou testemunhar um encontro violento e traumático, por exemplo, ou sofrer um acidente. O que importa é a intensidade e a duração do agente estressor. No caso de estressores agudos, a intensidade é geralmente alta. O estresse resultante da adversidade crônica, segundo Garmezy, pode ser menor, mas “exerce um impacto repetido e cumulativo sobre os recursos e sobre a adaptação e persiste por muitos meses, muitas vezes até por um tempo consideravelmente mais longo.”

Antes do trabalho de Garmezy a respeito da resiliência, a maioria das pesquisas sobre trauma e eventos negativos da vida tinham o foco inverso. Ao invés de olhar para as áreas de força, olhavam para as áreas de vulnerabilidade, investigando as experiências que tornam as pessoas suscetíveis a resultados ruins em suas vidas (aquilo que leva as crianças a serem “perturbadas”, segundo Garmezy). O trabalho de Garmezy abriu a porta para o estudo dos fatores protetores: os elementos de fundo ou da personalidade de um indivíduo que poderiam permitir o sucesso, apesar dos desafios que enfrentavam. Garmezy se aposentou da pesquisa antes de chegar a conclusões definitivas — sua carreira foi interrompida por Alzheimer de início precoce —, mas seus alunos e seguidores foram capazes de identificar elementos que se dividiam em dois grupos: fatores psicológicos individuais e fatores externos ambientais, a disposição de um lado e a sorte do outro.

(Ilustração por Gizem Vural)

Em 1989, uma psicóloga do desenvolvimento chamada Emmy Werner publicou os resultados de um projeto longitudinal de trinta e dois anos. Ela havia acompanhado um grupo de seiscentas e noventa e oito crianças, em Kauai, no Havaí, desde o nascimento até a terceira década de vida. Ao longo do caminho, ela os monitorou para qualquer exposição ao estresse: estresse materno no útero, pobreza, problemas na família e assim por diante. Dois terços das crianças tinham origens que eram, essencialmente, estáveis, bem-sucedidas e felizes; um terço era classificado como “em risco”. Assim como Garmezy, ela logo descobriu que nem todas as crianças em risco reagiam ao estresse da mesma maneira. Dois terços delas “desenvolveram sérios problemas de aprendizagem ou de comportamento aos dez anos de idade, ou tiveram registros de delinquência, problemas de saúde mental ou gravidez na adolescência, até os dezoito anos de idade”. Mas o terço restante se transformou em “jovens adultos competentes, confiantes e carinhosos”. “Eles haviam alcançado o sucesso acadêmico, doméstico e social — e estavam sempre prontos para capitalizar as novas oportunidades que surgiam.

O que tornava estas crianças resilientes? Uma vez que os indivíduos desta amostra tinham sido acompanhados e testados consistentemente por três décadas, Werner tinha um tesouro de dados à sua disposição. Ela descobriu que vários elementos previam a resiliência. Alguns elementos tinham a ver com sorte: uma criança resiliente poderia ter um forte vínculo com um cuidador, alguém que lhe oferecesse apoio, um pai, professor ou outra figura de mentor. Mas um outro conjunto bastante grande de elementos era psicológico e tinha a ver com a maneira como as crianças reagiam ao meio ambiente. Desde cedo, as crianças resilientes tendiam a “lidar com o mundo sob seus próprios termos”. Eram autônomas e independentes, buscavam novas experiências e tinham uma “orientação social positiva”. “Embora não fossem especialmente inteligentes, estas crianças usavam quaisquer habilidades que tivessem de maneira eficiente”, escreveu Werner. Talvez o mais importante, as crianças resilientes tinham aquilo que os psicólogos chamam de “locus interno de controle”: elas acreditam que são elas, e não as circunstâncias, que afetam suas realizações. As crianças resilientes tornam-se como orquestradores de seus próprios destinos. De fato, em uma escala que mediu o locus interno de controle, elas marcaram um desvio de mais de dois pontos acima do padrão.

Qual lado da equação pesa mais, da resiliência ou dos estressores? Os estressores podem se tornar tão intensos que a resiliência é esmagada.

Werner também descobriu que a resiliência poderia mudar ao longo do tempo. Algumas crianças resilientes foram especialmente azaradas: experimentaram fortes estressores múltiplos em pontos vulneráveis e sua resiliência evaporou. Resiliência, ela explicou, é como um cálculo constante: Qual lado da equação pesa mais, da resiliência ou dos estressores? Os estressores podem se tornar tão intensos que a resiliência é esmagada. A maioria das pessoas, em suma, tem um ponto de ruptura. Por outro lado, algumas pessoas que não eram resilientes quando eram crianças de alguma forma aprenderam as habilidades de resiliência. Elas foram capazes de superar adversidades mais tarde na vida e passaram a florescer tanto quanto aqueles que tinham sido resilientes o tempo todo. Isto, naturalmente, levanta a questão de como a resiliência pode ser aprendida.

konnikova-how-minds-deceive-1200
(Ilustração por Boyoun Kim)

George Bonanno é psicólogo clínico na Columbia University’s Teachers College; ele dirige o Laboratório de Perda, Trauma e Emoção e tem estudado a resiliência há quase vinte e cinco anos. Garmezy, Werner e outros mostraram que algumas pessoas são muito melhores do que outras em lidar com a adversidade; Bonanno, por sua vez, tem tentado descobrir de onde essa variação pode vir. A teoria da resiliência de Bonanno começa com uma observação: todos nós possuímos o mesmo sistema fundamental de resposta ao estresse, que evoluiu ao longo de milhões de anos e que compartilhamos com outros animais. A grande maioria das pessoas é muito boa em usar esse sistema para lidar com o estresse. Quando se trata de resiliência, a questão é: por que algumas pessoas usam o sistema com mais frequência ou eficácia do que outras?

“Os eventos não são traumáticos até que os vivenciemos como traumáticos.”

Um dos elementos centrais da resiliência, segundo Bonanno, é a percepção: você conceitua um evento como traumático ou como uma oportunidade de aprender e crescer? “Os eventos não são traumáticos até que os vivenciemos como traumáticos”, disse Bonanno, em dezembro. “Chamar algo de ‘evento traumático’ desmente esse fato.” Ele cunhou um termo diferente: EPT, ou evento potencialmente traumático, que ele argumenta ser mais preciso. A teoria é direta. Qualquer evento assustador, não importa o quão negativo possa parecer, tem o potencial de ser traumático ou não para a pessoa que o está experimentando. (Bonanno foca em eventos negativos agudos, nos quais podemos ser seriamente prejudicados, enquanto outros que estudam a resiliência, incluindo Garmezy e Werner, olham mais amplamente.) Considere algo terrível, como a morte repentina de um amigo próximo: você pode ficar triste, mas também pode encontrar uma maneira de interpretar esse evento como algo cheio de significado — talvez, isso leve a uma maior consciência sobre uma determinada doença, digamos, ou a laços mais estreitos com a comunidade —, fazendo com que este evento possa não ser visto como um trauma. (De fato, Werner descobriu que os indivíduos resilientes eram muito mais propensos a relatar ter fontes de apoio espiritual e religioso do que aqueles que não eram.) A experiência não é inerente ao evento, mas reside na interpretação psicológica do evento.

É por essa razão, segundo Bonanno, que os eventos “estressantes” ou “traumáticos” em si e por si mesmos não têm muito poder preditivo quando se trata de resultados da vida. “Os dados epidemiológicos prospectivos mostram que a exposição a eventos potencialmente traumáticos não prevê seu desdobramento posterior”, disse ele. “Só é preditivo se há uma resposta negativa.” Em outras palavras, viver a adversidade, seja ela endêmica ao seu ambiente ou em decorrência de um evento negativo agudo, não garante que você vai sofrer adiante. O que importa é se essa adversidade se torna traumatizante.

konnikova-pain-1200
(Ilustração por Rebekka Dunlap)

“Podemos nos tornar mais ou menos vulneráveis de acordo com a forma como pensamos sobre as coisas.”

A boa notícia é que a interpretação positiva pode ser ensinada. “Podemos nos tornar mais ou menos vulneráveis de acordo com a forma como pensamos sobre as coisas”, disse Bonanno. Em pesquisas feitas em Columbia, o neurocientista Kevin Ochsner mostrou que ensinar as pessoas a pensar com estímulos de maneiras diferentes — reestruturando-os em termos positivos quando a resposta inicial é negativa ou de forma menos emocional quando a resposta inicial é emocionalmente “intensa” — muda a maneira como eles experimentam e reagem ao estímulo. Você pode treinar as pessoas para melhor regular suas emoções, e este treinamento parece ter efeitos duradouros.

Um trabalho semelhante foi feito com relação aos estilos de explicação — as técnicas que usamos para explicar eventos que aconteceram conosco. Martin Seligman, psicólogo da Universidade da Pensilvânia foi pioneiro no campo da psicologia positiva: ele descobriu que treinar as pessoas a mudar seus estilos de explicação de interno para externo (“Eventos ruins não são minha culpa”), de global para específico (“Isso é uma coisa pequena, e não uma indicação maciça de que tudo está errado com a minha vida”) e de permanente para impermanente (“Eu posso mudar a situação, em vez de assumir que ela é fixa”), levou ao sucesso psicológico e a menor propensão à depressão. O mesmo vale para o locus de controle: um locus mais interno não está ligado somente à menor percepção de estresse e de melhor desempenho, mas também à mudanças positivas no bem-estar psicológico e no desempenho objetivo do trabalho. As habilidades cognitivas que sustentam a resiliência, portanto, parecem poder ser de fato aprendidas ao longo do tempo, criando resiliência onde não havia nenhuma.

“Nós podemos criar ou exagerar estressores muito facilmente em nossas próprias mentes. Esse é o perigo da condição humana.”

Infelizmente, o oposto também pode ser verdade. “Podemos nos tornar menos resilientes ou menos propensos a ser resilientes”, diz Bonanno. “Nós podemos criar ou exagerar estressores muito facilmente em nossas próprias mentes. Esse é o perigo da condição humana.” Os seres humanos são capazes de preocupação e ruminação: podemos pegar uma coisa pequena e explodi-la em nossas cabeças, revivê-la mais e mais, nos deixando loucos até o ponto em que aquela coisa pequena passa a ser a maior coisa que já aconteceu. Em certo sentido, é uma profecia autorrealizável.

Se você enquadrar a adversidade como um desafio, você se tornará mais flexível e capaz de lidar com ele, de seguir em frente, aprender com ele e crescer. Se você se concentrar na adversidade como uma ameaça, um evento potencialmente traumático, ela se tornará um problema duradouro e você se torna mais inflexível e mais propenso a ser afetado negativamente.

Em dezembro, a New York Times Magazine publicou um ensaio chamado “O Profundo Vazio da Resiliência”, o qual dizia que esta palavra é agora usada em todos os lugares, muitas vezes de forma a drená-la de seu significado e a ligá-la a conceitos vagos, como “caráter”. Mas a resiliência não tem de ser um conceito vazio ou vago. Na verdade, décadas de pesquisas revelaram muito sobre como ela funciona. Estas pesquisas mostram que a resiliência é, em última análise, um conjunto de habilidades que podem ser ensinadas. Nos últimos anos, adotamos esse termo negligentemente — mas nosso uso desleixado não significa que ele não tenha sido útil e definido com precisão. É hora de investir tempo e energia para entender o que significa realmente “resiliência”.

maria-konnikovaMaria Konnikova é uma escritora colaboradora do New Yorker, onde escreve regularmente sobre psicologia e ciência. Ela é a autora do best-seller do Times “Mastermind: How to Think Like Sherlock Holmes”, que foi nomeado para um Prêmio Agatha de Melhor Não-Ficção, e “The Confidence Game”, sobre a psicologia do contra.
Em 11 de fevereiro de 2016 por  para The New Yorker


Aidsmap

Uma combinação de simples exames de sangue de rotina pode ser capaz de prever quais as pessoas que vivem com o HIV que estão especialmente mais vulneráveis ao declínio neurocognitivo, de acordo com pesquisa americana publicada no Clinical Infectious Diseases. Pessoas com pontuação elevada no Índice VACS* (Veterans Aging Cohort) têm risco aumentado de sofrer declínio na função cognitiva e também se mostraram significativamente mais propensas a desenvolver novos problemas cognitivos.

“Mudanças no Índice VACS representaram alterações na função cognitiva ao longo do tempo em uma coorte, grande e bem caracterizada, de pessoas infectadas pelo HIV”, escrevem os autores. Apesar dos grandes avanços no tratamento e cuidado de saúde, a deficiência neurocognitiva (NCI) continua a ser comum em pessoas com HIV, ocorrendo em 30% a 50% dos indivíduos. Na maioria das pessoas com HIV ela é leve. No entanto, mesmo as formas mais leves de deficiência podem ter um impacto negativo no dia-a-dia.

Por conseguinte, é importante identificar as pessoas que já estão sob risco de desenvolver deficiência cognitiva e também aqueles que estão no limiar de desenvolvê-la e com inclinação a aumento desse risco. O Índice VACS foi desenvolvido como um marcador da gravidade da doença em pessoas vivendo com HIV. Ele se baseia nos resultados de análises do sangue que são executadas como parte do tratamento de rotina, tais como a contagem de CD4, carga viral, função renal e do fígado, anemia e detecção da hepatite C. Uma maior pontuação do índice VACS tem sido consistentemente associada a um risco aumentado de morte em pacientes, hospitalização e também doenças normalmente associadas à idade mais avançada, como a fragilidade, fraturas e força muscular baixa.

Agora, pesquisadores buscaram determinar se a pontuação do Índice VACS poderia prever as alterações neurocognitivas e incidentes de deficiência neurocognitiva. Assim, desenharam um estudo envolvendo 655 adultos que vivem com HIV e que recebem cuidados na Universidade da Califórnia, San Diego. Os participantes do estudo foram acompanhados por até seis anos.

brain

Três possibilidades de desfecho foram pesquisadas:

  • A associação entre a linha de base da pontuação do Índice VACS e as subsequentes alterações neurocognitivas.
  • Se mudanças nas pontuações do Índice VACS ao longo do tempo estavam correlacionadas com alterações na função cognitiva.
  • Se a pontuação do Índice VACS poderia prever o momento do incidente de deficiência neurocognitiva em pessoas com função neurocognitiva normais na linha de base.

Participantes com graves transtornos psiquiátricos ou lesão cerebral foram excluídos do recrutamento. A função neurocognitiva foi avaliada utilizando uma bateria completa de testes. Contagens dos exames foram convertidas em pontuação ajustadas à idade, escolaridade, sexo e raça. A partir das pontuações ajustadas foi feito o cálculo para obter a pontuação média global.

Os participantes tinham uma idade média de 43 anos, 83% eram do sexo masculino, 60% eram brancos, com contagem média de células CD4 de 346 células/mm³, 67% tinha um diagnóstico de aids, 61% estavam sob tratamento antirretroviral e 51% tinham carga viral indetectável. Três quartos relataram histórico de abuso de substâncias. No início do estudo, 40% foram avaliados com disfunção cognitiva. A pontuação mediana no Índice VACS foi de 22. Participantes com e sem deficiência neurocognitiva foram comparados.

Não houve associação significativa entre uma pontuação baixa no Índice VACS e alterações neurocognitivas. No entanto, houve uma associação significativa entre maior Índice VACS e pior desempenho global de domínio neurocognitivo, mesmo após o ajuste para possíveis fatores de confusão (p<0,01). Um maior índice de VACS foi associado à pior pontuação de memória em pessoas que não tomam antirretrovirais (p<0,01), mas não em pessoas que fazem o tratamento.

Análise de 60% das pessoas sem deficiência neurocognitiva no início do estudo mostraram que pontuações mais altas do Índice VACS estavam associadas à maiores chances de desenvolver algum transtorno (p<0,01). Depois de controlar fatores como a contagem de células CD4 e depressão, esta associação deixou de ser significativa. Contudo, nas análises dependentes do tempo, maiores pontuações do Índice VACS estavam associadas a um risco significativamente aumentado de incidentes de deficiência neurocognitiva (HR, 1,17; 95% CI, 1,06-1,29, p<0,01).

Os participantes do estudo com maiores pontuações do Índice VACS se mostraram significativamente mais propensos a desenvolver disfunção cognitiva em comparação com aqueles com baixa ou moderada pontuação do Índice VACS. Além disso, as pessoas com pontuações mais altas do Índice VACS também se mostraram significativamente mais propensas a experimentar declínio neurocognitivo (p=0,02).

“No geral, uma pontuação baixa do Índice VACS pode não ser um bom indicador da mudança cognitiva a longo prazo. Alterações na pontuações do Índice VACS, no entanto, correspondem a mudanças na neurocognição”, concluem os autores. “Ter pontuação muito alta do Índice VACS pode indicar um aumento notável do risco de declínio neurocognitivo e incidentes correlacionados. Estes resultados usam o Índice VACS como uma ferramenta simples para a identificação de pacientes infectados pelo HIV que estão sob alto risco de declínio neurocognitivo e para justificar ainda mais acompanhamento neurocognitivo.”

Por Michael Carter em 4 de julho de 2016 para Aidsmap

*Calcule seu próprio Índice VACS na MD+Calchttp://www.mdcalc.com/veterans-aging-cohort-study-vacs-index/


Aidsmap

Até que ponto os homens gays modificam seu comportamento sexual de risco após um resultado positivo no teste de HIV? Duas pesquisas australianas realizadas ao longo dos últimos anos descobriram que, no período a seguir do diagnóstico, os homens homossexuais reduzem consideravelmente o número de parceiros com quem têm relações sexuais — muitos param a atividade sexual completamente — e também reduzem a quantidade de sexo sem preservativo que têm com parceiros de sorologia desconhecida para o HIV. Há também um aumento na divulgação do status positivo para o HIV para seus parceiros.

Nenhuma dessas alterações pode ser considerada particularmente como surpreendente e esta pesquisa não pode determinar se essas mudanças são sustentadas. O mais interessante foi observar que o único fator associado à uma maior probabilidade de tais reduções nos comportamentos de risco foi o apoio de outros semelhantes com HIV (e não de qualquer outra pessoa).

 

Contexto

Descobrir se as pessoas soropositivas reduzem ou aumentam o seu comportamento de risco depois que são diagnosticadas é de óbvia relevância para a prevenção do HIV, especialmente se elas não seguem para a terapia antirretroviral, uma vez que assim não conseguem atingir uma carga viral indetectável.

No entanto, essa nunca foi uma questão resolvida, porque diferentes pesquisas descobriram coisas muito diferentes. Essa situação de dúvida é agravada pelo fato de que muitas pesquisas têm apenas medido o sexo sem preservativo, o número de parceiros sexuais sem verificar sua condição sorológica para o HIV desses parceiros de sexo sem preservativo ou mesmo se a pessoa soropositiva tem carga viral indetectável.

Por conta disso, os resultados dessas pesquisas têm variado enormemente: desde um estudo de São Francisco, que estimou que homens gays com HIV tinham reduzido suas chances de transmissão do vírus em 97% em dois anos após o diagnóstico, a um estudo do Reino Unido, que encontrou taxas mais elevadas de sexo de risco em pessoas que receberam o diagnóstico positivo para o HIV do que em pessoas soropositivas ainda não diagnosticadas.

Além disso, menos estudos foram realizados nos últimos anos, quando uma taxa mais elevada de pessoas diagnosticadas puderam seguir o tratamento imediato e alcançar a supressão viral.

 

As duas pesquisas

Entre 2008 e 2015, pesquisadores australianos realizaram dois questionários com homens gays que vivem com HIV e que tinham sido diagnosticados há menos de dois anos — um dos questionários nos anos antes do tratamento ser recomendado no momento do diagnóstico (2008-2010) e outro nos anos seguintes (2011-2015). No total, 712 homens, ou cerca de 10% de todos os homens gays diagnosticados com HIV durante este período, responderam um dos questionários, embora apenas 564 completaram as perguntas a respeito de seu comportamento sexual, 263 no primeiro período e 301 no segundo período. Embora os dois questionários tenham perguntas diferentes, eles foram concebidos como uma peça única da pesquisa e os homens só poderiam respondê-los uma vez.

No primeiro questionário, os homens foram convidados a comparar o número de parceiros casuais com quem tiveram relações sexuais nas quatro semanas antes e nas quatro semanas após o diagnóstico. Também deveriam comparar o número de parceiros que eles sabiam ter HIV e com quem eles tiveram relações sexuais com ou sem preservativo, especialmente sendo “ativos”. Eles também foram convidados a avaliar, em uma escala de um a dez, a quantidade de apoio pós-diagnóstico que receberam de amigos gays, de um parceiro regular, dos pais, do seu médico e de outras pessoas com HIV.

Mais adiante, essas questões foram substituídas por perguntas simples diretas, como: “Você reduziu o número de parceiros sexuais?”, “Você evitou sexo com parceiros soronegativos?”, “Você já revelou sua condição sorológica para o HIV à outras pessoas antes do sexo?”. E, por fim: “Uma vez que recebeu o diagnóstico, você procurou o apoio de outros soropositivos através de alguma organização, grupos de apoio ou fóruns on-line?”

 

Resultados

Levando ambas as pesquisas em conjunto, a maioria dos homens estava com idades entre 30 a 50 anos e a maioria tinha graduação. Quase dois terços (63%) dos entrevistados tinham sido diagnosticados há menos um ano, antes de responderam à pesquisa, e um terço há menos de três meses. Três quartos estimaram terem se infectado com o HIV há menos de um ano antes do diagnóstico, enquanto a outra metade há menos de três meses antes do diagnóstico.

Um quarto dos homens não eram nativos australianos e um terço tinha um parceiro regular quando foram diagnosticados. Mais de um em cada cinco tinha depressão significativa, um em cada sete tinha depressão grave e 70% disseram que estavam mais deprimidos do que antes, depois de serem diagnosticados.

Respondentes do questionário de 2008-2010 relataram menos sexo sem preservativo com parceiros casuais após o diagnóstico do que antes — 27% (14% como parceiro insertivo) versus 16% (6,2% como parceiro insertivo). Antes do diagnóstico, quase tudo isso foi feito com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida, mas, após o diagnóstico, menos de 10% relataram isso, indicando que a proporção de relações sexuais sem preservativo com parceiros sabidamente soropositivos tinha mudado de 0,9% para 6,2%.

No entanto, a redução do sexo sem preservativo com parceiros ocasionais foi, em grande parte, devido aos entrevistados que relataram ter parado o sexo completamente após o diagnóstico. Nas quatro semanas antes do diagnóstico, 46% relataram ter feito sexo com parceiros casuais, 30,5% nas quatro semanas depois e 22% pararam de fazer sexo sem preservativo com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida para o HIV.

O único fator estatisticamente associado à redução no número de parceiros casuais foi maior apoio pessoal de outras pessoas com HIV. Pessoas que relataram apoio maior do que a média de seus semelhantes soropositivos se mostraram quase 40% mais propensas a reduzir o número de parceiros sexuais casuais ou de interromper o sexo casual completamente.

Na segunda pesquisa, 56% dos entrevistados disseram ter reduzido o número de homens com quem tinham relações sexuais desde o seu diagnóstico e 47% disseram ter parado de fazer sexo por completo, pelo menos por um tempo. 38% disseram ter parado de ter relações sexuais com parceiros soronegativos ou de sorologia desconhecida e um terço disse que agora estavam mais propensos a revelar a sua condição sorológica para o HIV antes do sexo. Menos de um em cada sete não tinha feito qualquer ajuste no seu comportamento de risco.

Aqueles que reduziram seu número de parceiros casuais ou pararam o sexo completamente tinham quase duas vezes mais probabilidade de relatar ter recebido apoio recebido de colegas soropositivos, e o mesmo se passou com os homens que disseram ser mais propensos a revelar a sua soropositividade. A minoria dos homens que não tinham feito qualquer mudança no seu comportamento de risco se mostraram 70% menos propensos a relatar o apoio de outras pessoas com HIV. Reduzir a quantidade de sexo casual ou interrompê-lo por completo também foi associado à maior depressão —  o que não é surpreendente, uma vez que a depressão significativa está associada com menos atividade sexual.

 

Discussão e conclusões

Este é um dos primeiros estudos comportamentais, desde que o tratamento universal passou a ser recomendado, a tentar capturar as mudanças no comportamento dos homens soropositivos após o diagnóstico e descobriu que seus semelhantes soropositivos — e somente eles, e não os amigos, parceiros, família ou médico —  têm um papel significativo no apoio.

É importante salientar que essas pesquisas só capturaram o comportamento no período pós-diagnóstico imediato — na primeira pesquisa apenas nos quatro meses depois e, na segunda, dois terços tinham sido diagnosticados há menos de um ano.

Como os próprios pesquisadores comentam, “após o diagnóstico de HIV, alguns indivíduos se fecham ou para passam o tempo considerando o que o futuro reserva para eles. Um dos aspectos decorrentes pode ser um período de celibato ou de interesse sexual reduzido.”

Outra consideração importante é que nenhuma das pesquisas perguntou aos participantes se eles estavam em tratamento ou tinham carga viral indetectável. Isto é importante porque a percepção de uma pessoa a respeito de sua infecciosidade pode fazer diferença considerável para saber se eles escolhem seus parceiros de acordo com a sorologia para o HIV, se usam preservativos ou mesmo se fazem sexo.

Como é que se concilia essas descobertas com outras pesquisas que mostram que as pessoas soropositivas, em geral, tendem a praticar mais sexo casual e sem preservativo e ter níveis altos de infecções sexualmente transmissíveis? Uma razão pode ser que, após o período pós-diagnóstico, homens soropositivos simplesmente revertam, ou mesmo ultrapassem, os níveis anteriores de atividade sexual. Embora este possa ser mesmo o caso, a escolha de parceiros com base na sua sorologia para o HIV parece continuar e, enquanto os homens soropositivos pareçam fazer mais sexo sem preservativo, uma boa quantidade desse sexo é com outros homens com HIV, tal como ambas as pesquisas de São Francisco e Londres sugerem.

Em geral, isso pode ter efeitos positivos na comunidade gay, uma vez que reduz a quantidade de sexo que oferece risco de transmissão do HIV, mas aumenta os efeitos negativos sobre os próprios homens soropositivos, uma vez que os restringe para um grupo menor de parceiros com taxas muito mais elevadas de circulação de DSTs.

O que esta pesquisa australiana mostra, no entanto, é que o apoio dos semelhantes com HIV pode ter um efeito positivo.

Em 2 de maio de 2016 por Gus Cairns para o Aidsmap

Referência: Prestage G et al. Impact of peer support on behavior change among newly diagnosed Australian gay men. JAIDS, early online publication, DOI:10.1097/QAI.0000000000001017. Abstract here. 2016.