Pensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

Nenhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

Fui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

Eu tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

Em trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

Eu sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”

Anúncios

Cientistas da Lewis Katz School of Medicine da Universidade de Temple e da Universidade de Pittsburgh conseguiram extrair o DNA do HIV dos genomas de animais vivos, deixando-os livres do vírus. Foi a primeira a demonstração de que a replicação do HIV pode ser completamente desligada.

O estudo mostrou que o HIV foi eliminado de células infectadas em modelos animais diferentes, incluindo um modelo “humanizado” de ratos (transplantados com células imunes humanas e, em seguida, infectados com o HIV), utilizando uma poderosa tecnologia de edição de genes, conhecida como CRISPR/Cas9. O estudo foi publicado em 3 de maio na revista Molecular Therapy.

O trabalho foi conduzido pelo Dr. Wenhui Hu, do Centro de Pesquisa de Doenças Metabólicas e do Departamento de Patologia. “Confirmamos os dados de nosso trabalho anterior e melhoramos a eficiência de nossa estratégia de edição de genes”, disse Hu. “Também mostramos que a estratégia é eficaz em dois modelos diferentes de ratos: um representando infecção aguda e outro representando crônica, ou latente, em células humanas.”

Em resumo, a equipe de Hu conseguiu inativar geneticamente o HIV-1 em camundongos transgênicos, reduzindo a expressão de RNA dos genes virais em cerca de 60 a 95%, confirmando descobertas anteriores. Em seguida, os pesquisadores testaram o método em ratos infectados agudamente com “EcoHIV”, o equivalente ao HIV-1 humano em ratos. “Esses animais carregavam HIV latente em genomas de células T humanas, onde o vírus poderia escapar à detecção”, explicou o Dr. Hu.

Para determinar o sucesso da estratégia, a equipe mediu os níveis de RNA do HIV-1 e usou um novo sistema de imagem de bioluminescência viva. Após um único tratamento com CRISPR/Cas9, os fragmentos virais foram totalmente extirpados das células humanas latentemente infectadas, incorporadas nos tecidos e órgãos dos ratos.

Este estudo é um grande passo na busca de uma cura permanente para a infecção pelo HIV. “A próxima etapa é repetir o estudo em primatas, um modelo animal mais adequado, onde a infecção pelo HIV induz à doença, a fim de demonstrar ainda mais a eliminação do DNA do HIV-1 em células T latentemente infectadas e em outros locais que escondem o HIV-1, incluindo as células cerebrais”, disse o Dr. Kamel Khalili, que colaborou com o Dr. Hu neste estudo. “Nosso objetivo final é um estudo clínico em pacientes humanos.”


nature

Um grupo chinês tornou-se o primeiro a injetar células que contêm genes editados usando a revolucionária técnica CRISPR-Cas9 em uma pessoa. Em 28 de outubro, uma equipe liderada pelo oncologista Lu You, da Universidade de Sichuan, em Chengdu, aplicou as células modificadas em um paciente que sofre de câncer de pulmão agressivo, como parte de um estudo clínico feito pelo West China Hospital, também em Chengdu.

A edição de genes pode melhorar a capacidade das células do sistema imune de atacar o câncer.
A edição de genes pode melhorar a capacidade das células do sistema imune de atacar o câncer.

Estudos clínicos anteriores usando células editadas através de uma técnica diferente animaram os cientistas. A introdução da CRISPR, que é mais simples e mais eficiente do que outras técnicas, provavelmente acelerará a corrida para obter células editadas geneticamente em laboratórios clínicos em todo o mundo, diz Carl June, especialista em imunoterapia na Universidade da Pensilvânia, Filadélfia, e quem conduziu um dos estudos anteriores. “Acho que isso vai desencadear algo semelhante à corrida espacial: um duelo de progresso biomédico entre China e Estados Unidos. Isso é ótimo, uma vez que a concorrência geralmente melhora o produto final”, diz ele.

June é o conselheiro científico de um estudo americano que usará a CRISPR para modificar três genes nas células dos participantes, com o objetivo de tratar vários tipos de câncer. Ele espera que seu estudo comece no início de 2017. Enquanto isso, em março de 2017, um grupo na Universidade de Pequim espera iniciar três estudos clínicos usando a CRISPR contra o câncer de bexiga, próstata e de células renais. Esses estudos ainda não têm aprovação ou financiamento.

 

Proteína é o alvo

Em julho, o estudo de Lu recebeu aprovação ética do comitê do hospital. As injeções nos participantes deveriam ter começado em agosto, mas a data foi adiada, diz Lu, porque a cultura e a amplificação das células levaram mais tempo do que o esperado e, em seguida, a equipe saiu para as férias de outubro da China.

Os pesquisadores removeram as células imunológicas do sangue do receptor e, em seguida, desativaram um gene nelas usando a CRISPR-Cas9, que combina uma enzima de corte de DNA com um guia molecular que pode ser programado para dizer à enzima exatamente onde cortar. O gene desativado codificava a proteína PD-1, que normalmente põe os freios na resposta imune de uma célula — os cânceres aproveitam essa função para proliferar.

Em seguida, a equipe de Lu cultivou as células editadas, aumentando sua quantidade, e as injetou de volta no paciente, que tem câncer de pulmão metastático. A esperança é que, sem a PD-1, as células editadas irão atacar e derrotar o câncer.

 

Segurança em primeiro lugar

Lu diz que o tratamento correu bem e que o participante receberá uma segunda injeção, mas se recusou a dar detalhes por causa da confidencialidade do paciente. A equipe planeja tratar um total de dez pessoas: cada uma receberá duas, três ou quatro injeções. Este estudo é principalmente um teste de segurança e os participantes serão monitorados por seis meses para determinar se as injeções estão causando algum efeito colateral grave. A equipe de Lu também vai monitorá-los além desse período, para verificar se eles parecem estar se beneficiando do tratamento.

Outros oncologistas estão entusiasmados com a entrada da CRISPR na luta contra o câncer. “A tecnologia para ser capaz de fazer isso é incrível”, diz Naiyer Rizvi, da Centro Médico da Universidade de Columbia, em Nova York. Antonio Russo, da Universidade de Palermo, na Itália, observa que os anticorpos que neutralizam o PD-1 já se mostraram capazes de controlar o câncer de pulmão em outros estudos, o que é um bom presságio para um ataque ativado pela CRISPR. “É uma estratégia animadora”, diz ele. “A lógica é sólida.”

Ainda assim, Rizvi questiona se este estudo em particular terá sucesso. O processo de extração, modificação genética e multiplicação de células é “uma tarefa enorme e não muito escalável”, diz ele. “A menos que demonstre um grande ganho em eficácia, será difícil justificar prosseguir com esta técnica”. Ele duvida que esta técnica seja superior ao uso de anticorpos, os quais podem ser amplificados até quantidades ilimitadas, em laboratórios. Lu diz que esta questão está sendo avaliada no estudo, mas que é muito cedo para dizer qual abordagem é melhor.

Por David Cyranoski em 15 de novembro de 2016 para Nature


the-telegraph

Uma cura para o HIV/aids pode estar a apenas alguns anos de distância, depois que cientistas provaram que conseguem fazer o vírus escorregar para fora das células infectadas e prevenir a doença de retornar. O HIV ataca e mata as células do sistema imunológico, deixando os pacientes altamente vulneráveis à outras infecções. Mas cientistas americanos têm mostrado que é possível usar tecnologia de edição genética de ponta para, literalmente, cortar o vírus para fora do DNA das células.

Embora os experimentos até agora tenham sido realizados somente em laboratório, os pesquisadores da Lewis Katz School of Medicine na Universidade de Temple, estão confiantes de que, dentro de três anos, serão capazes de começar os testes em seres humanos. Especialistas britânicos disseram que o tratamento é capaz de “programar o corpo para curar-se de dentro”, enquanto instituições beneficentes disseram que a descoberta era “muito emocionante.”

Havia temores de que o DNA alterado poderia desencadear uma cascata de falhas genéticas que seriam prejudiciais ou até mesmo letais para seres humanos. Mas, fundamentalmente, as células imunológicas humanas que foram testadas em laboratório não mostraram quaisquer outras alterações em outras partes do código genético.

“Os resultados demonstram a eficácia do nosso sistema de edição de genes na eliminação do HIV do DNA de células do sistema imunológico.”

“O fato de que, pela primeira vez, fomos capazes de eliminar completamente os segmentos do genoma viral em laboratório demonstra que devemos ser capazes de eliminá-lo no corpo humano”, disse o pesquisador e professor Kamel Khalili. “Os resultados são importantes em vários níveis. Eles demonstram a eficácia do nosso sistema de edição de genes na eliminação do HIV do DNA de células do sistema imunológico e a permanentemente inativação de sua replicação. Além disso, mostram que o sistema pode proteger as células de reinfecção e que a tecnologia é segura para as células, sem efeitos tóxicos. Tem um enorme potencial. Com base nessas conclusões, devemos entrar em estudos clínicos dentro de três anos.”

O HIV tem como alvo as células do sistema imunológico.
O HIV tem como alvo as células do sistema imunológico.

Existem mais de 100.000 pessoas que vivem com HIV no Reino Unido e cerca de 600 morrem a cada ano. Atualmente, os medicamentos antirretrovirais são muito bons em controlar a infecção, mas os pacientes precisam manter o uso da medicação por toda a vida e, se interromperem o tratamento, o vírus se replica rapidamente, eventualmente causando a síndrome da imunodeficiência adquirida, ou aids.

A nova técnica — chamada de CRISPR/Cas9 — envolve a segmentação do código genético do HIV que se insere nas células. Os cientistas usam uma proteína chamada Cas9 e a modificam para que possa reconhecer o código viral. O sangue do paciente é então extraído e a proteína Cas9 é adicionada, onde ela procura pelo HIV dentro das células do sistema imunológico. Uma vez que o encontra, libera uma enzima que remove a sequência genética viral, efetivamente cortando o vírus. Por fim, as células modificadas saudáveis são transfundidas de volta para o paciente. Os cientistas acreditam que a substituição de apenas 20% das células imunes por células geneticamente alteradas seria suficiente para curar a doença.

“Faz sentido incorporar este procedimento juntamente com o tratamento antiviral atual.”

O professor Khalili disse que pode também ser possível usar os medicamentos anti-HIV junto com a proteína, ao mesmo tempo, até que este já não seja mais necessário. “Faz sentido incorporar este procedimento juntamente com o tratamento antiviral atual por algum período de tempo, com a expectativa de que, após a cessação da terapia antiviral, não haverá retorno da infecção, graças à erradicação do vírus pela estratégia ablação”, disse ele.

“Esta é uma tecnologia que permite alterar os genes. Você pode programar o corpo para curar-se de dentro.”

Após a sequência viral ser removida do DNA, as extremidades soltas do genoma estão reunidas pelo próprio maquinário de reparação da célula. As células são então bombeadas de volta para o paciente. “É um passo importante. Faz parte de uma onda de pesquisas que estão sendo feitas usando essas novas técnicas para atacar o HIV em particular, mas também em uma série de outras doenças”, disse o professor Matthew Cobb, da Universidade de Manchester, ao programa Radio 4 Today. “Esta é uma tecnologia que permite alterar os genes. Você pode efetivamente programar o corpo para curar-se de dentro.”

Shaun Griffin, diretor executivo de relações externas do Terrence Higgins Trust, acrescentou: “Este é um estudo de laboratório realmente emocionante, que mostra que o HIV pode ser eliminado do DNA de células do sistema imunológico humano. Esperamos que futuras pesquisas possam mostrar uma redução na quantidade de vírus em pessoas vivendo com HIV, tal como foi visto no tubo de ensaio.” A pesquisa foi publicada na revista Nature, em Scientific Reports.

Por 


Cientistas descobrem maneira de expulsar o HIV de células infectadas

Por Alice Park @aliceparkny em 21 de junho de 2014

A técnica aborda o problema dos reservatórios de HIV escondidos no corpo e pode vir a ser uma nova maneira de combater a infecção viral

Uma vez que o HIV entra no organismo, ele não quer mais sair. Toda estratégia que os cientistas desenvolveram ou estão desenvolvendo para combater o vírus — de poderosos medicamentos anti-HIV à vacinas promissoras que agem contra ele — sofre do mesmo problema. Nenhuma consegue desentocar todo vírus no organismo e o HIV tem a tendência de se esconder, permanecendo inerte por anos, até irromper e causar a doença.

Nenhuma estratégia conseguiu desentocá-lo, até hoje. Kamel Khalili, diretor do Comprehensive NeuroAIDS na Temple University School of Medicine, e seus colegas, usaram uma nova técnica de edição genética para recortar o vírus das células nas quais ele havia infectado — fazendo-o voltar a seu estado pré-infecção. A estratégia é baseada na detecção e ligação do material genético do HIV e representa a primeira plataforma anti-HIV que poderia encontrar até mesmo vírus dormentes isolados dentro de células imunes.

Ainda mais encorajador é o fato de que os cientistas também usaram este sistema para proteger as células saudáveis ​​de ser infectadas, através da construção de bloqueios genéticos que repelem o material genético do HIV. “É o que chamamos de uma cura por esterilização”, diz Khalili.

Seu trabalho foi feito em células humanas infectadas pelo HIV em uma cultura de células em laboratório. No entanto, ele acredita que os resultados são robustos o suficiente para seguirem para testes com animais e, eventualmente, em pacientes humanos.

A chave para a estratégia é a técnica de edição de gene conhecida como CRISPR, uma maneira de cortar o DNA com precisão, em locais pré-especificados. A CRISPR atua como uma tesoura molecular customizável que pode ser programada para encontrar certas sequências de DNA e, em seguida, utilizando uma enzima, fazer cortes nesses locais. Como o HIV é um retrovírus, seu material genético vem sob a forma de RNA; o vírus coopta a célula de um hospedeiro para transformar seu RNA em DNA, o qual, em seguida, é inserido no genoma da própria célula. Então, os genes do HIV, que ele precisa para sobreviver, são produzidos pela célula.

Khalili projetou um CRISPR que reconhece o início e o fim do DNA do HIV e, em seguida, viu a enzima cortar o genoma de HIV para fora da célula. “Eu tenho trabalhado com HIV quase desde o dia 1 [da epidemia] e nós desenvolvemos uma série de moléculas que podem suprimir a transcrição ou diminuir a replicação do vírus. Mas eu nunca vi esse nível ou erradicação”, diz ele. “Quando você remove os genes virais de cromossomos, você basicamente converte as células ao seu estado pré-infecção.”

A vantagem do sistema reside no fato de que o CRISPR pode reconhecer os genes virais onde quer que estejam — em células infectadas ativas ou dormentes. Estratégias baseadas nos medicamentos atuais só podem atingir as células que se dividem e liberam cópias do HIV, razão pela qual o vírus ativo se torna indetectável, mas, depois,  [se interrompido o tratamento antirretroviral] os níveis de HIV podem subir novamente. Esse é o caso da bebê Mississippi, que nasceu soropositiva e recebeu um poderoso coquetel anti-HIV horas após seu nascimento. Ela parecia estar funcionalmente curada do HIV. O vírus não pode ser detectado por quase quatro anos, mas depois voltou.