Inevitavelmente, a cura do HIV vai precisar envolver uma vacina capaz de melhorar a habilidade natural do organismo para controlar o vírus. Pelo menos, é isso o que foi discutido no seminário Steps, durante a 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, de acordo com o Aidsmap. Giulio Maria Corbelli, membro do European Aids Treatment Group (EATG) disse que “a pesquisa da cura nos lembra da importância do envolvimento do paciente, desde as primeiras fases do desenvolvimento de tratamento e prevenção.”

 

A cura do HIV: um objetivo elusivo

Giulia Marchetti, da Universidade de Milão, abriu o seminário com uma apresentação geral sobre as vacinas contra o HIV, especialmente as vacinas terapêuticas. Ela chamou a atenção para um paradoxo desconfortável na cura do HIV: por um lado, existem casos como o da “Bebê do Mississippi” e dos “Pacientes de Boston”, em que, respectivamente, a jovem paciente foi tratada poucas horas depois da infecção inicial e nos quais os pacientes com câncer tiveram seu sistema imunológico aparentemente todo substituído. Em ambos os casos, apesar dos repetidos estudos que não conseguiram encontrar o menor vestígio de DNA do HIV no meio das células, o vírus, mesmo assim, voltou.

Timothy Ray Brown

Por outro lado, temos o caso de Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim” — com quem conversei pessoalmente em Lisboa. Já faz uma década desde o procedimento que levou Timothy à cura e, até agora, não há qualquer sinal do HIV em seu organismo. Também temos, ainda segundo Giulia Marchetti, o caso dos controladores de elite: os raros soropositivos que são capazes de controlar a carga viral do HIV mesmo sem tomar antirretrovirais. Por fim, há ainda os casos dos “controladores pós-tratamento”, como os dos pacientes da coorte Visconti, entre outros relatados na Alemanha e na França, que sugerem que algumas pessoas que recebem o tratamento cedo podem, posteriormente, serem capazes de passar por longos períodos sem tratamento e sem retorno da carga viral do HIV — estes foram casos espontâneos e ainda não sabemos exatamente porque é que isso acontece com algumas pessoas e não com outras.

Apesar destes casos pontuais de sucesso, as tentativas de induzir o controle viral sem ajuda da terapia antirretroviral não têm sido inteiramente bem sucedidas. Em um estudo com uma vacina terapêutica espanhola, os cientistas conseguiram manter alguns pacientes fora dos antirretrovirais por um longo período de tempo e sem rebote do HIV. Mas estudos semelhantes tiveram resultados decepcionantes. Outros estudos, ainda in vitro ou em animais, tiveram resultados mais animadores, com vacinas e medicamentos indicando que pelo menos a supressão viral por longos períodos pode ser possível, senão a cura completa do HIV.

 

Como sabemos qual estratégia é que vai funcionar?

É quase impossível prever antecipadamente qual abordagem contra HIV realmente vai funcionar. O Dr. Felipe Garcia, do Hospital da Universidade de Barcelona, um dos pesquisadores colaboradores da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV, disse que o problema das vacinas contra o HIV é que “aquilo que protege não é capaz de controlar e aquilo que controla não é capaz de proteger”.

O que ele quer dizer com isso é que, por um lado, os chamados anticorpos amplamente neutralizantes e as vacinas que os geram — as vacinas de células B — podem bloquear completamente a infecção pelo HIV nas células, mas tendem a perder a eficácia rapidamente, uma vez que o HIV é capaz de mutar o suficiente para desenvolver resistência a estas estratégias. Mesmo assim, uma destas ferramentas, chamada Pro 140, levou à supressão da carga viral por mais de um ano. Experiências com combinações de anticorpos amplamente neutralizantes que já existem, incluindo algumas com design inovador, mostraram maior eficácia em estudos em humanos e em macacos. Entretanto, estes anticorpos foram injetados passivamente, funcionando tal como medicamentos, sem induzir o corpo a produzir estes anticorpos por conta própria, tal como uma vacina faz.

As vacinas que estimulam uma resposta imune das células contra o HIV — as vacinas de células T — poderiam, potencialmente, gerar uma resposta imune muito mais duradoura contra HIV. No entanto, até agora, essa resposta se mostrou muito fraca e estreita, pelo menos nos estudos em humanos, sem produzir mais do que uma ligeira redução na carga viral — geralmente, uma redução de três a dez vezes (0,5 a 1log) no tamanho do reservatório de células latentemente infectadas pelo HIV. Um estudo com uma vacina em macacos levou à reduções de carga viral muito mais significativas e até à uma aparente cura em cerca de metade dos macacos — o problema é que esta vacina parece ser complicada de se adaptar em humanos.

Garcia citou um modelo matemático que sugere que uma resposta imune teria que produzir uma redução contínua de dez mil vezes nas células infectadas (4 logs) para produzir uma remissão que dure toda uma vida. Ele acrescentou que um problema fundamental nos estudos de vacinas contra o HIV é o fato de que ainda não temos correlatos reais de imunidade: estudos que previram a eficácia de outras vacinas no passado não têm funcionado no caso das vacinas contra o HIV. “Só depois que uma resposta imune é validada por um estudo”, disse Garcia, “é que podemos tirar uma conclusão.”

Estes correlatos de eficácia ou imunidade emergiram em estudos clínicos de grande escala, disse ele. No caso das vacinas contra o HIV, isto é um problema, uma vez que estes estudos são muito caros: o estudo RV144, o único estudo de fase III sobre eficácia, envolveu 16 mil participantes e custou 100 milhões de euros. Foram necessários múltiplos estudos para encontrar uma vacina eficaz contra o HIV e estima-se que mais de 35 mil voluntários por ano sejam necessários nos testes de vacinas contra o HIV de fase I a III, em todo o mundo, para atingir seu objetivo final.

Foi preciso encontrar um jeito mais fácil de selecionar quais das novas vacinas são as melhores candidatas para desenvolvimento, explicou Garcia, e as vacinas terapêuticas trouxeram essa solução, com estudos que não necessitaram de muitas pessoas. Mesmo assim, em um estudo que ele participou da pesquisa, o RISVAC02, foram selecionados 3056 voluntários, dos quais apenas 41 eram candidatos elegíveis e, destes, só 30 foram matriculados no estudo. Outra alternativa tem sido utilizar uma vasta gama de proteínas diferentes num único estudo, caso uma delas mostre eficácia. Em um estudo de vacinas de células dendríticas, no qual Garcia foi o pesquisador principal, avaliou-se a atividade de mais de 50 mil moléculas.

 

Estratégias combinadas

A possibilidade de combinar estratégias tem sido uma tarefa formidável para os pesquisadores de vacinas, que têm mais chances de ver sua vacina ser bem sucedida. Dentre as estratégias recentemente estudadas, estão:

O Dr. Felipe Garcia tem mais interesse nesta última. “As células dendríticas são a primeira linha de defesa contra a infecção. Elas capturam moléculas estranhas e as apresentam para as células do sistema imunológico como antígenos. É preciso acompanhar estas células dendríticas, porque se estas células não alertam o corpo sobre a infecção, o corpo não sabe disso”, disse ele. “O problema com o HIV é que ele desenvolveu a habilidade de se ligar à célula dendrítica, que então os transporta para dentro dos gânglios linfáticos como um Cavalo de Troia. Isso significa que, se desenvolvermos uma vacina que se associe às células dendríticas, podemos gerar uma forte resposta imune celular nos gânglios linfáticos, que é exatamente onde é preciso que ela aconteça.”

Além de fazer parte da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV — um consórcio que reúne 39 parceiros de onze países europeus, quatro da África subsaariana e um dos Estados Unidos que apoia o estudo de diversas estratégias de vacinas preventivas, que incluam vetores virais melhorados, versões modificadas de proteínas do envelope do HIV e vacinas de células dendríticas —, Garcia também é o principal pesquisador no consórcio HIVACAR, que envolve três diferentes estratégias de vacinas terapêuticas que serão usadas em pessoas soropositivas, separadamente e em combinação. A primeira se concentra no desenvolvimento de antígenos direcionados não apenas contra as partes estáveis do vírus, mas também contra o perfil genético do HIV de cada indivíduo — trata-se de uma vacina verdadeiramente individualizada. A segunda etapa é a injeção de anticorpos amplamente neutralizantes. E a terceira inclui moléculas de RNA mensageiro, um procedimento já utilizado em medicamentos experimentais contra o câncer, injetadas após os antígenos e anticorpos contra o HIV. Essa sequência visa sensibilizar as células dendríticas para os antígenos do HIV e estimular ainda mais uma resposta imune que, esperara-se, possa matar as células infectadas pelo HIV dentro dos reservatórios, aonde outras estratégias não conseguiram chegar.

Gânglios linfáticos.

Estas vacinas serão aplicadas intranodicamente — isto é, injetadas nos gânglios linfáticos — com a esperança de que a vacinação direta no local de integração e replicação do HIV inicie uma resposta imune mais forte contra HIV e, espera-se, reduza a replicação do vírus até o ponto em que os indivíduos possam ser retirados da terapia antirretroviral. Os protocolos da HIVACAR estão em estudos de fase I e II, avaliando sua segurança e imunogenicidade, com resultados esperados para 2021.

 

Outras abordagens

O seminário também contou com detalhes sobre o estudo River, parte do consórcio britânico CHERUB. Este estudo reúne combinações de inoculações iniciais com vacinas baseadas em vetores com doses subsequentes de medicamentos denominados inibidores de HDAC para verificar se as duas estratégias funcionam melhor juntas. Os inibidores de HDAC, que despertaram as células dormentes do reservatório de HIV, estavam entre os primeiros fármacos experimentados como agentes de cura do HIV. No entanto, embora eles tenham se mostrado capazes de reverter a latência viral, não produziram uma diminuição útil no tamanho do reservatório de HIV. Espera-se que, ao estimular o sistema imunológico para reconhecer o vírus que é produzido pelas células despertadas do reservatório, essa diminuição do reservatório seja alcançada. O River inlcui 50 voluntários de seis regiões da Inglaterra e deve anunciar seus resultados no próximo ano.

O seminário também trouxe uma atualização sobre a coorte ICISTEM, que reúne pacientes soropositivos com câncer que receberam transplantes de medula óssea — uma abordagem de cura semelhante à de Timothy Ray Brown e dos pacientes de Boston. O ICISTEM conseguiu coletar dados de 23 pacientes, 11 dos quais morreram. Seis pacientes dos 12 restantes foram acompanhados ao longo de dois anos: em cinco deles, as células-tronco da medula óssea transplantada sem HIV substituiu rapidamente as células cancerosas e infectadas pelo HIV. Testes ultrassensíveis não encontraram RNA do HIV no sangue desses pacientes e a carga viral deles se aproxima de zero. Outros testes também não encontraran DNA de HIV nas células do reservatório.

Os pacientes ICISTEM foram curados? Nós ainda não sabemos. Embora os pesquisadores não tenham conseguido encontrar uma única cópia do DNA do HIV em um milhão de células do reservatório destes pacientes, o verdadeiro teste será tirá-los da terapia antirretroviral, o que ainda não foi feito.

 

Envolvendo a comunidade

Fred Verdult é uma pessoa vivendo com HIV que vive na Holanda e que usou sua experiência em publicidade e marketing para fazer uma série de pesquisas de opinião dentro da comunidade de pessoas com HIV, especialmente sobre a pesquisa de cura do HIV e o seu potencial. Ele descobriu que 72% dos seus entrevistados, num grupo de 457 pessoas com HIV, acreditam que uma cura para o HIV seria “muito importante” e apenas 6% achavam que não seria importante.

Quando os entrevistados foram perguntados sobre qual seria a maior desvantagem de viver com o HIV, 91% responderam que era o risco dos possíveis efeitos adversos prejudiciais à saúde no futuro, como efeitos colaterais decorrentes do longo uso da terapia antirretroviral ou problemas de saúde devido à inflamação crônica. 66% disseram se incomodar com os efeitos colaterais dos medicamentos, e outros 66% disseram sofrer com ansiedade sobre o risco de infectar alguém.

Verdult disse que a questão de quando interromper o tratamento é um importante problema ético na pesquisa da cura do HIV — um dilema que já está sendo considerado pelo ICISTEM. Outro dilema é o seguinte: quando a cura chegar, quem devem ser os primeiros beneficiados com ela? Eticamente, se fosse preciso escolher quais pessoas deveriam se beneficiar primeiro da cura do HIV, deveríamos logicamente chamar primeiro as pessoas cronicamente infectadas que sofreram mais que a maioria, por anos de imunossupressão e de terapia subótima contra o HIV — primeiro a entrar, primeiro a sair. No entanto, pelo que se sabe hoje, estas provavelmente serão as pessoas mais difíceis de curar, portanto, com a exceção dos pacientes com câncer, a pesquisa da cura concentrou-se nas pessoas infectadas mais recentemente, com sistemas imunes ainda intactos. Isso pode levar a cura que beneficie antes os últimos infectados — últimos a entrar, primeiros a sair. Será que é justo?

Por fim, há ainda a questão do tratamento como prevenção e da profilaxia pré-exposição (PrEP), que podem trazer grande redução na incidência de HIV no mundo todo — tal como já tem sido observado em São Francisco, por exemplo. Se essa tendência se mantiver, será que o interesse científico e dos financiadores das pesquisas da cura vai diminuir?

Anúncios

Nos últimos anos, a International Aids Society Conference on HIV Science, a IAS, incluiu um simpósio especializado na pesquisa da cura do HIV, que sempre antecedeu o evento principal. E este ano não foi exceção, com apenas uma pequena mudança, a começar pelo nome: HIV Cure and Cancer Forum — isto é, um fórum sobre o câncer e a cura do HIV.

O título do evento parece reafirmar uma percepção atual entre muitos cientistas sobre aspectos comuns entre duas doenças distintas: o HIV e o câncer. Antes de falar das semelhanças entre elas, é importante ter em mente que estas são doenças distintas entre si porque há muitas diferenças entre elas. Foi isso o que bem lembrou Monsef Benkirane, do Instituto Francês de Genética Humana, na sua palestra de abertura. Enquanto o HIV é causado por uma infecção, o câncer é geralmente decorrente do mau comportamento espontâneo de algumas células. A exceção está apenas em alguns tipos específicos câncer, cujo mau comportamento das células pode mesmo ser provocado por infecções.

No entanto, no coração das células é que surge a semelhança entre estas duas doenças: tanto para o HIV quanto para o câncer, a questão parece ser a mesma: ambas células cancerosas e células infectadas pelo HIV possuem um material genético trapaceiro. No caso do câncer, este material genético leva as células a crescer incontrolavelmente. No caso do HIV, à derrubar o sistema imunológico. O fato de ambas estas doenças concentrarem-se em uma disfunção do núcleo celular é o que as torna difíceis de curar: basta uma célula infectada pelo HIV ou uma célula cancerígena para propagar a doença.

Não é por acaso que as mesmas ferramentas que agora estão levando à cura de alguns tipos de câncer e à maior remissão de outros tipos, incluindo medicamentos sofisticados capazes de direcionar marcadores biológicos específicos para agir contra células cancerosas, podem também ser usadas contra o HIV. Aliás, esta relação entre os medicamentos para câncer e para o HIV não vem de agora: o próprio AZT, a Zidovudina, o primeiro antirretroviral usado no tratamento de HIV/aids, foi inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade, conforme lembra uma matéria publicada pelo The New Yorker.

Foi em 1987 que a Food and Drug Administration americana aprovou o AZT para uso em pacientes com HIV, depois que seu estudo inicial já mostrava alguma habilidade da droga em controlar o vírus. Esse estudo começou como um “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que eles saibam quem é que está tomando o quê.

Então, os benefícios que começaram a ser observados em quem estava tomando o AZT foram tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento e, também, o restante das pessoas diagnosticadas com HIV. Não havia tempo a perder: naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam muito doentes ou morrendo. O desespero era enorme! Para salvar a própria vida, muita gente estava disposta a assumir o risco de tomar um medicamento promissor, mas que ainda não tinha completado formalmente todos os estudos habitualmente necessários e os rituais de aprovação e regulação pelas autoridades — você já assistiu Clube de Compras Dallas (2013)?

É verdade que, naquela época do começo da epidemia, qualquer semelhança entre o câncer e o HIV estava mais para um coincidência casual do que um resultado de uma observação meticulosa. O próprio apelido de “câncer gay”, que a aids recebeu antes de ser batizada de aids, em nada tem relação com a semelhança celular observada nos dias de hoje. Esse apelido nasceu por ignorância sobre a doença e por preconceito contra os homossexuais, junto com o fato do diagnóstico ser feito sem o teste de HIV, que ainda nem existia, mas com o aparecimento doenças oportunistas, incluindo cânceres típicos de sistemas imunológicos abalados.

Uma célula cancerígena.

Hoje sabemos que as células infectadas pelo HIV e pelo câncer compartilham um mesmo truque mortal: ambas conseguem se “des-diferenciar” quando estão sob ataque, seja por medicamentos ou pelo sistema imunológico. Ambas são capazes de retroceder para um estágio anterior de evolução celular, onde são invisíveis ao sistema imunológico.

No caso do HIV, as células imunes infectadas que produzem ativamente cópias de vírus se esgotam e morrem. Mas não todas. Uma parte delas retorna a um estado dormente, prontas para entrar em ação se a pressão da terapia antirretroviral for aliviada. Estas células dormentes, ou latentes, é que formam o famoso “reservatório de HIV”. O obstáculo atual da cura do HIV é exatamente este: a identificação e destruição destes reservatórios para uma cura completa ou, pelo menos, sua redução e contenção para uma remissão de longo prazo, conforme lembra uma matéria publicada recentemente pelo Aidsmap.

Continue reading

Uma criança sul-africana de nove anos de idade, que foi diagnosticada soropositiva já no primeiro mês de idade e que recebeu um tratamento anti-HIV ao longo de 40 semanas, mantém o vírus controlado sem a necessidade de antirretrovirais há oito anos e meio, de acordo com o que os cientistas relataram na 9th IAS Conference on HIV Science (IAS 2017), em Paris, e publicado no Aidsmap.

Esta criança sul-africana é agora o terceiro exemplo de uma criança que iniciou o tratamento do HIV logo após o nascimento, interrompeu o tratamento depois de meses ou anos e mostrou conseguir controlar a infecção pelo HIV por um período prolongado, sem a necessidade de medicamentos antirretrovirais.

A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses.

Os outros dois casos de crianças que atualmente estão controlando a infecção sem a necessidade de antirretrovirais são: uma criança francesa, diagnosticada aos três meses de idade e tratada por mais ou menos 5 ou 7 anos, e a “Bebê do Mississippi”, tal como ficou conhecida, que começou a receber tratamento 30 horas após o nascimento e nele permaneceu por 18 meses, antes de interrompê-lo. A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses, antes do reaparecimento do vírus.

A criança sul-africana apresentada na IAS 2017 foi tratada por um curto período após o nascimento, como participante do estudo CHER, que comparou duas estratégias de tratamento precoce para bebês com HIV na África austral. A criança foi diagnosticada no primeiro mês de idade e iniciou o tratamento aos dois meses de idade com Lopinavir, Ritonavir, Zidovudina (AZT) e Lamivudina por 40 semanas. Depois, interrompeu o tratamento no primeiro ano de idade. A criança tinha uma carga viral indetectável, abaixo de 20 cópias/ml, no momento da interrupção do tratamento.

Depois disso, a criança foi testada a cada três meses até seus quatro anos de idade, para verificar a sua contagem de células CD4. Análises das amostras de sangue armazenadas mostram que a criança manteve sua carga viral indetectável durante todo esse período. O teste feito aos 9 anos de idade mostram que o HIV ainda se mantém indetectável e que o número de células que contêm o DNA do HIV, o reservatório viral, não mudou desde a interrupção do tratamento.

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV, indicando que seu sistema imunológico é capaz de montar uma resposta contra o vírus, enquanto não possui resposta de células CD8 contra o HIV. Isso pode significar que níveis muito baixos de vírus estão presentes, mas não podem ser detectados pelos métodos atualmente disponíveis. Nenhum vírus competente de replicação foi isolado usando dois métodos diferentes para cultivar vírus de células potencialmente infectadas.

“Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”

Pesquisadores da África do Sul e dos Estados Unidos ainda estão tentando explicar como a criança é capaz de controlar o HIV. Eles são cautelosos em não descrever o caso como uma cura — em vez disso, dizem que a infecção pelo HIV na criança está em remissão, controlada por fatores que ainda precisam ser entendidos. “Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”, disse a Dra. Caroline Tiemessen do laboratório do Centro de HIV e DSTs do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis, em Joanesburgo, o qual está estudando o sistema imunológico desta criança.

Um grande estudo chamado IMPAACT P1115 está testando a hipótese de que a terapia antirretroviral em recém-nascidos infectados pelo HIV iniciada dentro de 48 horas do nascimento pode permitir o controle a longo prazo da replicação do HIV, mesmo após o tratamento ser interrompido, possivelmente levando à remissão do HIV. O IMPAACT P1115 começou em 2014 e inscreveu 42 crianças infectadas pelo HIV. As primeiras crianças podem tornar-se elegíveis para o tratamento antirretroviral no final de 2017.


Referência: Violari A et al. Viral and host characteristics of a child with perinatal HIV-1 following a prolonged period after ART cessation in the CHER trial. 9th IAS Conference on HIV Science, Paris, 23-26 July, 2017, abstract TuPDB0106.

Um estudo clínico feito pelo Institut de Recerca de la Sida IrsiCaixa e pela Fundació Lluita contra la Sida, na Espanha, conseguiu induzir o controle do HIV em 5 pessoas que estavam sem tratamento antirretroviral — as interrupções de tratamento duraram 5, 13, 17, 20 e 27 semanas. Normalmente, sem a presença de antirretrovirais, o vírus recupera sua quantidade e aumenta a carga viral no plasma sanguíneo durante as primeiras 4 semanas após a interrupção do tratamento.

Institut de Recerca de la Sida IrsiCaixa em Barcelona, Espanha.

“Parece que conseguimos enfraquecer o vírus e fortalecer o sistema imunológico dos pacientes”

Esta foi a primeira intervenção terapêutica contra o HIV que provou ser bem sucedida na reeducação do sistema imunológico de pessoas infectadas pelo HIV, permitindo manter o vírus sob controle sem uso de medicamentos antirretrovirais. Estudos anteriores realizados por outros centros para testar diferentes vacinas e medicamentos em pacientes com HIV não tiveram resultados semelhantes. “Parece que conseguimos enfraquecer o vírus e fortalecer o sistema imunológico dos pacientes, permitindo que este reaja de forma eficaz contra as tentativas de rebote do vírus”, explica a Dra. Beatriz Mothe, pesquisadora associada da IrsiCaixa e coordenadora do estudo.

“A vacinação terapêutica contra o HIV é possível.”

Este comportamento é semelhante ao observado nos chamados “controladores de elite”, indivíduos cujo sistema imunológico é capaz de controlar a carga viral sem a necessidade de antirretrovirais. “É a primeira vez que um número tão relevante de participantes de um estudo se tornaram controladores de elite após uma intervenção terapêutica, seja por vacina ou outra imunoterapia”, disse a Dra. Mothe. “Este é um passo muito importante porque mostra que a vacinação terapêutica contra o HIV é possível. Agora, nós queremos compreender como melhorar a eficácia desta estratégia ainda mais, seja com uma vacina melhor, repetindo os ciclos com doses mais baixas, associando o uso de agentes de reversão de latência ou com outros produtos em desenvolvimento — ainda há muitas perguntas a serem respondidas”, explicou o Dr. José Moltó, pesquisador da Fundació Lluita contra la Sida.

Laboratório do Institut de Recerca de la Sida IrsiCaixa em Barcelona, Espanha.

O estudo BCN 02 foi iniciado como um estudo de repetição em pacientes que participaram do estudo BCN 01, o qual incluiu voluntários que iniciaram o tratamento antirretroviral durante os primeiros seis meses após a infecção pelo HIV, recebendo aquilo que se chama de “tratamento precoce”. Estes voluntários também receberam doses das vacinas ChAdV63.HIVconsv e MVA.HIVconsv, projetadas pela Universidade de Oxford. Depois de demonstrar uma forte resposta imune induzida pelas vacinações, todos os pacientes foram mantidos sob tratamento antirretroviral até o estudo BCN 02 ser iniciado, quando os quinze pacientes receberam duas doses de reforço da vacina MVA.HIVconsv seguida por três doses de Romidepsina, um medicamento usado na quimioterapia de doenças hematológicas e que mostrou-se capaz, em estudos anteriores, de reverter a latência do HIV.

Os participantes que mostraram uma resposta imune positiva à vacina foram convidados a interromper o tratamento antirretroviral e, com isso, a serem avaliados semanalmente. Até à data, há cinco potenciais controladores de elite e oito indivíduos que tiveram de reiniciar o tratamento antirretroviral, após o vírus voltar a ser detectado. Um outro voluntário deve interromper o tratamento antirretroviral em breve e outro não teve uma respostas imunológica satisfatória após a vacinação.

Dentre os quinze participantes do estudo, com idade média de 40 anos e tratamento iniciado em no máximo 5,5 meses após a data estimada da infecção pelo HIV, todos estavam em tratamento há mais de três e a menos de quatro anos. Todos estavam em regimes contendo inibidores de integrase e tinham contagem média de CD4 de 728 células/mm³. Segundo o Aidsmap, os efeitos colaterais da vacina foram semelhantes aos de uma gripe, incluindo dor de cabeça, fadiga e dores musculares.

As três infusões de Romidepsina foram acompanhadas por curtos surtos de produção viral, mesmo sob antirretrovirais, na ordem de 50 à 400 cópias/ml, e por aumentos na produção de células CD4, que subiram cerca de 200 células/mm³ a cada infusão e, depois de três dias, voltaram para onde estavam antes. Apesar destes surtos de produção viral, a quantidade de DNA viral nas células do reservatório não mudou: uma das esperanças do conceito de “chutar e matar” era que o aumento de produção viral diminuísse o reservatório de células latentemente infectadas, algo que parece não ter acontecido neste estudo.

A quantidade de células CD8 também aumentou durante o estudo, tanto após a dose inicial da vacina como após a Romidepsina. Igualmente importante, o tipo de resposta imune também mudou: de uma resposta caracterizada por ser ampla contra todas as proteínas do HIV à uma situação em que três quartos da resposta imune se concentraram em regiões virais específicas, induzidas pela vacina.

 

Ao que parece, a HIVconsv tem ajudado a fortalecer um fenômeno às vezes observado em pessoas que iniciam o tratamento logo após a infecção: o controle pós-tratamento. Essas pessoas desenvolvem reservatórios de HIV naturalmente menores e, por isso, preservam algum grau de controle imunológico efetivo sobre o HIV, pois não possuem a proliferação de estirpes virais tal como ocorre em pessoas cronicamente não tratadas, nas quais capacidade do sistema imunológico é ultrapassada pelo vírus. A HIVconsv não só fortaleceu a resposta imune, mas também a redirecionou para um alvo mais eficiente.

“Este estudo é o primeiro a demonstrar o controle pós-tratamento”

“Este estudo é emocionante porque é o primeiro a demonstrar o controle pós-tratamento — ou seja, o vírus está presente, mas não há rebote após parar a terapia antirretroviral”, disse Sharon Lewin, diretora do Instituto Peter Doherty da Universidade de Melbourne, Austrália. “No entanto, também precisamos ser cautelosos: não havia grupo de controle e não sabemos qual parte da intervenção foi importante — A vacina precoce? A segunda vacina? Romedepsina? Ou todas as anteriores?”

“Precisamos de um estudo maior”

“Ao mesmo tempo, até hoje, em todos os outros estudos envolvendo a interrupção do tratamento, o controle pós-tratamento tem sido raro e, no máximo, ocasional. Portanto, este é um passo promissor e significativo. Precisamos agora de um estudo maior, que tenha um grupo de controle que não receba nenhuma intervenção. Queremos entender por que algumas pessoas controlaram o HIV e outras  não — atualmente não temos resposta para isso.”


Aidsmap

No último domingo, o Sunday Times noticiou que o HIV ficou indetectável no sangue de um homem que faz parte do River, um estudo sobre um regime de tratamento intensivo, destinado a testar se é possível reduzir os níveis de células infectadas pelo HIV no corpo das pessoas recentemente infectadas com HIV. Os pesquisadores esperam que o tratamento possa erradicar por completo a infecção pelo HIV.

O Sunday Times disse que os cientistas britânicos estão na “beira da cura do HIV”. Na verdade, o estudo está em seus estágios iniciais e ainda não é capaz de descrever os participantes como “curados” até que extensos acompanhamentos sejam concluídos. A professora Sarah Fidler, pesquisadora do Imperial College, em Londres, disse ao Sunday Times que os participantes do estudo serão acompanhados durante cinco anos.

 

Sobre o estudo River

O estudo River significa “Research in Viral Eradication of HIV Reservoirs” — ou Estudo sobre a Erradicação dos Reservatórios Virais, em tradução livre. O estudo está sendo realizado pela colaboração CHERUB, um consórcio de equipes de pesquisa no Imperial College, King’s College, Oxford University e Cambridge University, financiado pelo National Institute for Health (NIH).

river

O estudo recrutou pessoas que foram recentemente infectadas com o HIV — a chamada “infecção recente”. Nessas condições, é provável que o HIV tenha infectado menos células no corpo e, por isso, em teoria, pode ser mais fácil de erradicar o HIV neste grupo de pessoas e interromper a terapia antirretroviral sem causar retorno nos níveis de HIV.

Os participantes do estudo recebem uma combinação de quatro medicamentos de antirretrovirais, incluindo o Raltegravir, que é capaz de reduzir os níveis de HIV no sangue mais rapidamente do que outros antirretrovirais. O tratamento antirretroviral iniciado durante a infecção primária demonstrou permitir que o tratamento seja interrompido por completo, sem rebote viral, em cerca de 15% das pessoas em um estudo da coorte francesa Visconti.

Após 22 semanas de tratamento antirretroviral, os participantes do estudo são distribuídos aleatoriamente para continuar a receber o regime antirretroviral de quatro medicamentos ou para receber o regime antirretroviral em combinação com uma vacinação destinada a melhorar as respostas imunes contra as células infectadas pelo HIV. Os participantes deste braço do estudo também recebem dez doses de Vorinostat, um medicamento que ativa as células infectadas pelo HIV.

Se o regime experimental for mesmo eficaz, o Vorinostat deve “chutar” as células latentes infectadas, fazendo-as produzir o próprio HIV. O aumento na produção de vírus como resultado da ativação deve então ser suprimido pela combinação dos antirretrovirais. As células infectadas devem ser detectadas pelo sistema imunológico acordado pela vacinação, a qual deve melhorar a capacidade do sistema imunológico de procurar e matar as células infectadas. Esta estratégia de “chutar e matar” — dez rodadas de Vorinostat ao longo de mais de 28 dias — é projetada para eliminar as células infectadas e matá-las, deixando pouco ou nenhum DNA do HIV no corpo.

O estudo foi concebido para testar se a abordagem de fato é capaz de reduzir os níveis de DNA do HIV nas células ou mesmo de erradicar a infecção por completo. O estudo deve medir os níveis de DNA de HIV entre 40 e 42 semanas depois do início do tratamento, mas não deve testar se o tratamento pode ser interrompido por completo após 42 semanas. O estudo River pretende recrutar 52 pessoas diagnosticadas com infecção recente pelo HIV. O recrutamento acontece em clínicas em Londres e Brighton.

 

O que o estudo relatou?

O Sunday Times informou que um dos participantes do estudo não tem HIV detectável depois de completar o regime do estudo. Este participante continua a tomar terapia antirretroviral. Neste momento, este participante ainda não foi curado da infecção pelo HIV: o acompanhamento prolongado é necessário para determinar se o vírus foi erradicado completamente pelo tratamento experimental.

A professora Sarah Fidler, do Imperial College, disse ao Sunday Times: “Vamos continuar com os exames médicos ao longo dos próximos cinco anos e, no momento, não estamos recomendando interromper o tratamento antirretroviral, mas, no futuro, dependendo dos resultados dos testes, podemos explorar isso.”

O estudo River não deve terminar os testes em todos os participantes antes de dezembro de 2017. Por isso, o mais provável é que qualquer resultado do estudo esteja disponível somente no primeiro semestre de 2018. Nessa fase, os pesquisadores serão capazes de dizer se o regime experimental eliminou todos os vestígios de DNA do HIV nos participantes do estudo. Ainda assim, o verdadeiro teste para este regime de erradicação será ver o que acontece quando o tratamento antirretroviral é interrompido.

Até agora, a única pessoa que parece ter sido curada da infecção pelo HIV é Timothy Ray Brown, o famoso “Paciente de Berlim”, que perdeu todos os sinais de uma infecção pelo HIV após um transplante de medula óssea. Um estudo mais recente entre receptores de transplante de medula óssea também com HIV identificou que tinham carga viral indetectável e nenhum DNA do HIV detectável em suas células. No entanto, eles experimentaram rebote viral após o tratamento ser interrompido — às vezes, depois de um longo intervalo. O acompanhamento de longo prazo é essencial para qualquer um que interrompe o tratamento, a fim de determinar se o HIV foi realmente erradicado do corpo.

Se os participantes vão mesmo interromper o tratamento antirretroviral após o término do estudo — assumindo que o regime de erradicação seja bem sucedido em fazer o DNA do HIV cair para um nível indetectável — é uma questão que deve ser discutida entre os pesquisadores e os participantes do estudo e vai depender da melhor informação disponível no momento a respeito das consequências da interrupção do tratamento. Em outras palavras, é muito cedo para reportar um avanço na pesquisa da cura do HIV.

Por Keith Alcorn em 3 de outubro de 2016 para o Aidsmap


medpagetoday

A história sugere que encontrar uma cura “clássica” para o HIV — limpar o vírus do corpo — vai ser uma tarefa difícil, disse um alto funcionário americano.

Por outro lado, um objetivo menos aspiracional — o de alcançar a remissão sustentada do vírus — parece ser mais provável, no estado atual da ciência médica, de acordo com o Anthony Fauci, médico e diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos..

O sistema imunológico humano pode lidar com outros vírus, mas o HIV quase nunca é vencido para curar a infecção, “nós temos que fazer coisas que a natureza nunca antes fez”, disse Fauci a repórteres que se reuniam na Conferência Internacional de Aids. Uma cura clássica “certamente não é impossível, mas muito desafiadora, por causa da natureza muito especial do HIV”, disse Fauci antes de dar um discurso em um simpósio pré-conferência, dedicado à ciência da cura do HIV.

Essa “natureza especial” do HIV é um enigma bem conhecido — o vírus se insere no genoma das células do sistema imunológico, o próprio mecanismo que o corpo usa para se livrar de patógenos. Muitas dessas células morrem produzindo novas partículas virais, o que conduz à deficiência imune, se o processo não for interrompido por medicação, enquanto outras continuam dormentes.

Se o tratamento for interrompido, este reservatório de células infectadas é capaz de reiniciar a proliferação do HIV, geralmente dentro de dias ou semanas. Atualmente, não há nenhuma maneira conhecida para se livrar destes reservatórios virais. Fauci observou que há quatro principais abordagens para a cura clássica, algumas mais promissoras do que outras. Todas têm sido tentadas, mas até agora sem sucesso.

  • Tentativas de esgotar os reservatórios com diversos medicamentos já remontam duas décadas; todos os pacientes tiveram volta da infecção assim que os medicamentos anti-HIV são interrompidos.
  • Atacar as células dos reservatório com terapias imunotóxicas, uma abordagem emprestada da oncologia, está mostrando “alguma promessa” nos primeiros estudos aplicados ao HIV.
  • Tentativas de transplantar células-tronco do sistema imunológico que carecem de uma proteína necessária para o HIV infectá-las; o “Paciente de Berlim”, Timothy Brown, foi o primeiro — e até agora o único — caso em que a abordagem foi bem sucedida.
  • “Editar” células do sistema imunológico para torná-las imunes ao HIV, uma ideia inspirada no caso de Timothy Brown; é muito cedo para dizer se o procedimento a ser feito vai funcionar ou se ele pode ser amplamente aplicado.

HIV_3D_modelo

Alcançar a remissão viral sustentada, a qual permitiria que os medicamentos anti-HIV fossem interrompidos por longos períodos de tempo sem medo de rebote viral, é “provavelmente mais viável”, disse Fauci. Para que essa abordagem funcione, “você precisa ter um pequeno reservatório e um sistema imunológico competente”, disse ele. Em outras palavras, os pacientes precisam de ser tratados tão rapidamente quanto possível após a infecção, algo que agora é reconhecido nas diretrizes de tratamento, para reduzir o crescimento do reservatório e o dano sobre o sistema imunológico. Em casos raros, observou, o tratamento precoce por si só pode ser suficiente para que o sistema imunológico de um paciente consiga mais tarde controlar o vírus.

Fauci disse que outra abordagem consiste em desenvolver uma vacina terapêutica — um medicamento que iria estimular o sistema imunológico e permitir-lhe lutar contra o vírus. Nenhuma tentativa dessas teve sucesso até agora, mas os estudos clínicos estão em andamento, disse ele.

Mas a descoberta de mais de 200 anticorpos amplamente neutralizantes contra o HIV sugere que eles poderiam formar a base de uma terceira abordagem, acrescentou. No decurso da maior parte das outras infecções, tais anticorpos são produzidos dentro de dias ou semanas, mas no caso do HIV eles levam anos, e por vez eles são de pouca utilidade para um paciente. Fauci disse que vários laboratórios, inclusive o dele próprio, estão realizando estudos para ver se a transferência passiva de anticorpos amplamente neutralizantes pode induzir a remissão de longa duração.

vrc01

A resposta? Ainda não. Porém, em um pequeno grupo de pacientes com o vírus totalmente controlado por medicação, infusões de um anticorpo apelidado de VRC01 estendeu o tempo que os pacientes poderiam permanecer fora de seus medicamentos anti-HIV, para uma média de 39 dias. Dados históricos sugerem que o rebote viral começa geralmente entre 11 e 28 dias. O resultado é “não um ‘golasso'”, disse Fauci, mas sugere que houve um avanço.

Quando ele e seus colegas mergulharam mais profundamente sobre os dados, descobriram que os pacientes que tinham resistência pré-existente para VRC01 tendiam a se recuperar no mesmo momento que os controles históricos, enquanto aqueles cujo vírus era sensível ao anticorpo tiveram mais tempo para se recuperar. É possível que o anticorpo tenha de ser mais potente e de longa duração, segundo ele, ou — em paralelo com a atual terapia do HIV de três medicamentos — mais anticorpos têm de ser utilizados.

A perspectiva de uma cura para o HIV, por muito tempo considerada impossível, tem ressonado há vários anos. Ela é especialmente importante para as crianças soropositivas, que enfrentam uma vida que jamais será livre de fortes medicamentos poderosos, comentou a Dra. Jintanat Ananworanich, PhD, do Programa de Pesquisa em HIV das Forças Armadas dos EUA. “Ter uma remissão, ter uma cura seria um impacto enorme”, afirmou.

Segundo Ananworanich, as crianças são candidatas ideais para uma cura utilizando os critérios de Fauci, uma vez que elas quase sempre podem ser tratadas muito cedo no curso da doença. E uma que o seu sistema imunológico está se desenvolvendo, pode ser mais difícil do vírus se esconder em um reservatório.

Embora muitas pessoas ainda não esetjam em tratamento em todo o mundo, as terapias atuais são altamente eficazes, fáceis de tomar, geralmente bem toleradas e oferecem uma vida quase normal. Segundo Fauci, médico e cientistas “tem de ter certeza de que a cura seja melhor para o paciente do que o que eles estão recebendo agora”.

Por Michael Smith para o MedPage Today em 16 de julho de 2016

HuffPost Brasil

north-korea-kim-jong-un

Foi nesse ano de 2015 que Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, afirmou ter descoberto a cura do HIV, ebola, diabetes, alguns tipos de câncer e uma série de outras condições médicas, com um único novo medicamento revolucionário que ele quer vender para o mundo todo. As instruções de dosagem são incrivelmente confusas e discorrem em mais de 2.500 palavras, mas, com muito esforço, é possível deduzir que, teoricamente, para prevenir o HIV seria preciso algo entre 40 a 56 injeções — ao custo de 50 dólares por injeção.

Ainda bem, a comunidade científica não se convenceu e continuou a pesquisar! E, nesse ano, aprendemos muita coisa sobre o HIV. Aprendemos que, em geral, mulheres portadoras do HIV combatem naturalmente o vírus melhor do que os homens. Aprendemos que anticorpos amplamente neutralizantes podem vir a ser a solução para a prevenção do HIV no futuro. Outros estudos com vacinas preventivas também tiveram resultados promissores, incluindo uma vacina brasileira. E a Fiocruz deve em breve começar a testar seu próprio medicamento para prevenir o HIV.

Na pesquisa pela cura do HIV, começamos a desenvolver uma técnica que pode vir a revelar exatamente onde o vírus se esconde dos potentes medicamentos atuais, que vem driblando os cientistas há anos. Aprendemos que um medicamento para tratar alcoolismo pode ser uma das chaves para a tão sonhada cura do HIV no futuro. Outros cientistas criaram uma proteína que, em laboratório, se mostrou capaz de despertar as células imunes dormentes infectadas pelo HIV e, por isso, também pode potencialmente vir a fazer parte da cura. Pesquisadores descobriram que um outro composto, chamado de PEP005 e que já está aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) americana, também é capaz de ativar este HIV latente.

Mas duas cientistas acham que, com base nos dados disponíveis hoje, é pouco provável que as terapias individuais representem uma promessa em alcançar a remissão de longo prazo do HIV. A Dra. Françoise Barre-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, uma das descobridoras do HIV, e a Dra. Jintanat Ananworanich, do U.S. Military HIV Research Program (MHRP), acreditam que, nos próximos cinco anos, a pesquisa da cura do HIV precisa mudar seu modelo clássico de desenvolvimento e sugerem que a pesquisa deve partir de uma estratégia de combinação.

Os National Institutes of Health prometeram mais esforços em concentrar as pesquisas para acabar com a epidemia e a empresa farmacêutica britânica GlaxoSmithKline disse que vai colaborar com cientistas norte-americanos no desenvolvimento da cura da aids. Afinal, hoje sabemos que a cura é possível. Talvez só demore um pouco, mas é possível. E, enquanto isso — por que não? —, continuemos na contagem regressiva, junto com a amfAR.

A amfAR, aliás, fez uma doação de 96 mil dólares ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), para continuar sua participação no estudo Opposites Attract, uma pesquisa internacional que explora mais a eficácia já demonstrada anteriormente do “tratamento como prevenção” em casais sorodiscordantes, quando só um dos parceiros é positivo para o HIV. Assim como em outros estudos que visam medir exatamente a redução do risco de transmissão do HIV pelo tratamento antirretroviral, são recrutados casais sorodiscordantes que, deliberada e consensualmente, optam por não fazer uso consistente do preservativo — e, talvez por isso, o Vaticano tenha abençoado o tratamento como prevenção!

A ideia de que soropositivos em tratamento e a com carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, tão baixa que é indetectável são parceiros sexuais que não apresentam risco consistente de transmissão do HIV pode ser difícil de engolir, mas começa a fazer mais sentido quando levamos em conta que esse mesmo coquetel de medicamentos é capaz de prevenir a transmissão dentro do próprio corpo, da mãe portadora do vírus para o próprio bebê.

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser”, explicou Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu em abril deste ano, na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. “Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê”, disse Fábio. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

drauzio-varella

O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois, também comentou sobre a eficácia comprovada do tratamento como prevenção: “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente ‘zerasse’ a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno-fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Aprendemos que, em geral, 44% das transmissões do HIV podem ser associadas à infecção recente, isto é, até um ano depois do contágio. Por isso, é importante fazer o teste de HIV e, em caso de diagnóstico positivo, quanto antes for iniciado o tratamento, melhor! Um outro estudo sobre esse mesmo assunto, o HPTN 052, concluiu este ano sua análise e continuou não encontrando qualquer evidência de transmissão do HIV a partir de pessoas com carga viral indetectável, aumentando ainda mais a segurança que temos diante da segurança oferecida pelo tratamento antirretroviral. Vale dizer que 78% das pessoas que vivem com o vírus e sob tratamento no Brasil têm carga viral indetectável.

Grafico CV indetectável no Brasil

A propósito, este ano no Brasil, recebemos a visita de importantes especialistas em HIV/aids estrangeiros. O professor Frank Kirchhoff, diretor do Instituto de Virologia Molecular da Universidade de Ulm, na Alemanha, ganhador do Prêmio Leibniz em 2009, esteve na Fapesp, em São Paulo, explicando sobre como o HIV causou a pandemia de aids. E Julio Montaner, o próprio criador do tratamento como prevenção, foi convidado de honra para a abertura do X Congresso de HIV/Aids, realizado agora, em 17 de novembro de 2015, onde falou sobre como reduzir os níveis epidêmicos do HIV/aids.

O País também atualizou seu protocolo para prevenção da transmissão vertical, isto é, da mãe para o bebê, bem como o protocolo de profilaxia pós-exposição (PEP), que é a medida emergencial de prevenção ao HIV que pode ser adotada em até 72 horas a contar de uma possível exposição ao vírus — e que está disponível em todo o Brasil. A Europa, por sua vez, atualizou os avisos nas bulas dos antirretrovirais sobre efeitos colaterais: advertências sobre lipodistrofia, uma alteração na gordura corporal que era mais comum nos primeiros remédios contra HIV, foram removidas dos atuais medicamentos, assim como avisos sobre acidose láctica, que é o acúmulo nocivo de ácido láctico no corpo — numa clara confirmação de que os antirretrovirais de hoje são muito menos tóxicos.

1238-20150701145356

Essa evolução toda, diga-se de passagem, está bem registrada no livro Histórias da Aids (Editora Autêntica), do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães, lançado em julho. Beto Volpe, diagnosticado positivo para o HIV em 1989, também deve publicar em breve seu livro: recentemente ele abriu a campanha de crowdfunding e pré-venda para o lançamento de sua autobiografia, o Morte e Vida Posithiva. Assim como Beto, Gabriel Estrëla, artista e ativista do HIV/aids, lançou a campanha de financiamento coletivo de seu projeto, o Boa Sorte — e você deve se lembrar dele, que fez um ótimo vídeo junto com a vlogueira Jout Jout.

Nesse ano, também assistimos ao programa Sportv Repórter falar sobre o papel fundamental da prática de esportes no tratamento de portadores do HIV e ao lançamento do documentário sobre o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, um dos protagonistas das primeiras campanhas pelos soropositivos.

Mas a mídia — e as pessoas — nem sempre foram bondosas. Ao contrário, foram cruéis, ao coagir Charlie Sheen a revelar publicamente sua condição sorológica para o HIV, quando todo portador do vírus tem direito ao sigilo sobre o seu diagnóstico. Freddie Mercury, por exemplo, optou por resguardar sua condição sorológica quase até o fim de sua vida.

20150918_welcomenot_900

Pelo menos, alguns outros direitos começam a ser melhor respeitados. Singapura suavizou a restrição de viagem que mantém contra visitantes soropositivos, a Lituânia confirmou não ter mais qualquer restrição e a Ucrânia revogou suas leis restritivas, diminuindo ainda mais o número de países que ainda impõe algum tipo de segregação de viagem contra soropositivos. No Brasil, uma decisão da 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região decidiu que o Exército não pode mais discriminar seus candidatos, até então excluídos em processos seletivos em razão de limite de altura, saúde bucal ou diagnóstico positivo para o HIV.

Aprendemos mais sobre o que determina a possibilidade de interrupção no tratamento antirretroviral e porque, depois disso, algumas pessoas conseguem controlar o vírus naturalmente e outras não. Aliás, tivemos mais um caso documentado de “controle pós-tratamento”. Um estudo mostrou que um novo medicamento semanal pode vir, num futuro próximo, a substituir os comprimidos que tomamos diariamente. Aprendemos que bebês de mães portadoras do HIV ao redor do mundo podem vir a se beneficiar da profilaxia pré-exposição pediátrica, composta por uma fórmula líquida de medicamentos anti-HIV, e serem amamentados até 12 meses após o nascimento, virtualmente sem risco de contaminação.

Aprendemos mais sobre a interação de drogas, lícitas e ilícitas, com antirretrovirais. Aprendemos que a infecciosidade do HIV é regulada pelos movimentos de uma proteína chamada “ciclofilina A”, ou CypA, apontando para um novo caminho no desenvolvimento de possíveis estratégias para frustrar a replicação do vírus. Aprendemos que podemos estimular o sistema imunológico para agir contra o HIV e que há vasos, recém-descobertos, que podem ligar o cérebro ao sistema imune! “Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas e nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão”, explicou Andrés Finzi, pesquisador da Universidade de Montreal.

“Para quem é diagnosticado positivo para o HIV nos dias de hoje, explico que estão recebendo o diagnóstico num momento muito oportuno da história da epidemia”, diz Ricardo Vasconcelos, médico infectologista e coordenador médico do PrEP Brasil no centro da FMUSP, em São Paulo. “Se houver comprometimento por parte de ambos, paciente e profissional da saúde, hoje podemos assumir o controle da evolução da doença. Sempre digo aos meus pacientes que só escolhi trabalhar com HIV porque sou um cara otimista, que gosta das coisas que dão certo.”


UNSW

Depois de uma descoberta de pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Austrália, e da Universidade de Oxford, na Inglaterra, os cientistas estão mais capazes de prever a rapidez com que o HIV retornará, após indivíduos interromperem o tratamento antirretroviral.

Esse avanço significativo, resultante de uma parceria que durou uma década entre as duas instituições e outros parceiros internacionais, abre novos caminhos para entender por que o HIV persiste em alguns pacientes e permanece dormente e indetectável em outros. O estudo foi publicado na prestigiada revista Nature Communications.

Embora a atual terapia antirretroviral impeça o HIV de se replicar, ela não elimina completamente o vírus. Destruir os reservatórios “escondidos” do vírus continua a ser um dos “Santos Graal” da pesquisa do HIV.

HIV atacando uma célula (iStock).

Pesquisas anteriores mostraram que o tratamento antirretroviral iniciado logo nas semanas seguintes à infecção produz um estado de “controle pós-tratamento” em alguns pacientes. No entanto, os mecanismos que induzem a manter esse estado de remissão permanecem obscuros. Este estudo fornece uma nova possibilidade de compreensão sobre os processos que mantêm a persistência viral no organismo, o que é crucial para erradicar o HIV.

Liderados pelo pesquisador John Frater, professor em Oxford, a equipe de pesquisa internacional analisou ​​retrospectivamente os dados de um estudo randomizado de pacientes com infecção recente pelo HIV, envolvidos no estudo Spartac. Eles compararam as células T de 154 pacientes na Europa, Brasil e Austrália que tiveram seu tratamento antirretroviral interrompido depois de 12 ou 48 semanas. As células T desempenham um papel central na proteção do sistema imune.

A partir de uma lista de 18 biomarcadores do sistema imune, os pesquisadores descobriram que três deles — PD-1, Tim-3 e LAG-3 — foram estatisticamente preditores significativos de quando o vírus iria retornar. Os pesquisadores descobriram que altos níveis destes marcadores, ligados à células T “esgotadas” antes dos pacientes iniciarem a terapia antirretroviral, estavam associados à recuperação do vírus brevemente após a interrupção do tratamento. Isso nunca havia sido demonstrado antes.

Decano em Medicina na UNSW, o professor Rodney Phillips desempenhou um papel fundamental na descoberta da associação dos biomarcadores ao retorno do vírus (Foto: Miles Standish).

O ex-professor de Oxford e agora Decano em Medicina na UNSW, professor Rodney Phillips, desempenhou um papel fundamental na descoberta da associação dos biomarcadores ao retorno do vírus. Em 2003, ele propôs acompanhar a imunologia e a virologia dos pacientes que receberam tratamento antirretroviral durante o estudo Spartac, o que trouxe os dados que os pesquisadores precisavam para fazer essa descoberta hoje, mais de 10 anos depois.

“O estudo Spartac nunca poderá ser replicado novamente e ele nos trouxe uma oportunidade única para observar as causas do rebote viral neste grupo específico de pacientes com HIV”, disse o professor Phillips. “Focalizar nos marcadores de exaustão foi um passo importante, pois nos deu pistas vitais sobre por que algumas pessoas são capazes de controlar melhor o vírus após a terapia ser interrompida.”

O professor Anthony Kelleher, do Instituto Kirby da UNSW e um dos coautores do estudo, disse que a compreensão dos mecanismos que permitem que o HIV permaneça em remissão é essencial para que o vírus seja erradicado. “Queremos ser capazes de prever como o vírus vai se comportar antes de suspendermos o tratamento antirretroviral em pacientes para testar terapias com [novas] drogas que visam erradicar o HIV”, disse o professor Kelleher.

David Cooper, professor da UNSW e diretor do Instituto Kirby, e o Dr. Kersten Koelsch foram também os principais membros da equipe de pesquisa.

As diretrizes clínicas atuais recomendam que os pacientes continuem em terapia antirretroviral, em grande parte, em virtude resultado de outro estudo liderado pelo Instituto Kirby, conhecido como o Start (Strategic Timing of antiRetroviral Treatment). Os resultados desse estudo forneceram provas conclusivas dos benefícios extras do início imediato da terapia antirretroviral.

As células imunes com o biomarcador PD1 já haviam sido identificadas como um alvo para os medicamentos para tratamento de melanoma em fase 4 ou câncer em fase terminal. Os pesquisadores estão agora considerando como manipular células imunes com o marcador PD1 em suas pesquisas no campo do HIV. Os autores do estudo estão recomendando que os biomarcadores sejam considerados em pesquisas futuras, investigando como controlar o HIV após os antirretrovirais.

Por Dan Wheelahan para a UNSW Newsroom em 9 de outubro de 2015


Por Liz Highleyman para o Beta em 11 de agosto de 2015

logo_bodypro

Uma adolescente francesa com HIV que tem conseguido manter sua carga viral indetectável há 12 anos sem tratamento antirretroviral foi o principal assunto durante a 8ª Conferência Internacional da Aids Society, que aconteceu no mês passado, em Vancouver. Embora ninguém esteja se referindo ao seu caso como uma cura, ele certamente levanta questões interessantes sobre o “controle pós-tratamento” e pode oferecer pistas a respeito da cura funcional e da remissão do HIV a longo prazo.

Asier Saez-Cirion
Asier Saez-Cirion

Asier Saez-Cirion, do Instituto Pasteur de Paris, descreveu o caso durante uma coletiva de imprensa que aconteceu antes da conferência, no simpósio “A Caminho da Cura”. A jovem, que agora tem 18 anos de idade, foi infectada pelo HIV durante ou antes do parto. Sua mãe, que recebeu os primeiros cuidados médicos somente no final da gravidez, apresentava carga viral alta no momento do parto e, por isso, a bebê recebeu preventivamente doses de Zidovudina (AZT) logo após o nascimento. Depois de seis semanas sob AZT, sua carga viral aumentou a um nível alto, comprovando que ela de fato estava infectada. O tratamento com a terapia antirretroviral foi então iniciado, aos três meses de idade.

Com aproximadamente seis anos idade, a criança foi retirada do acompanhamento médico e do tratamento. Quando retornou, um ano depois, a carga viral em seu sangue estava indetectável, apesar da criança não estar sob terapia antirretroviral. Assim, ela foi mantida sem tratamento. Aos 12 anos de idade ela apresentou um “blip” significativo de replicação viral, que alcançou 500 cópias/ml, e então novamente retornou a níveis indetectáveis.

Hoje, a jovem contabiliza 12 anos sem tratamento e com carga viral indetectável no plasma sanguíneo, de acordo com testes ultrassensíveis, capazes de medir 4 cópias/ml. Sua contagem de células T CD4 se mantém alta e estável. Contudo, os pesquisadores conseguem detectar o DNA do HIV (o material genético viral) em suas células — e células isoladas podem ser reativadas e produzir vírus em laboratório –, mostrando que ela não foi curada.

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional.”

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional”, alertou Saez-Cirion durante a coletiva. “A maioria dos pacientes soropositivos, crianças ou adultos, perdem o controle da infecção sempre que interrompem o tratamento, mesmo que este tenha sido iniciado cedo.”

“Esta jovem continua infectada pelo HIV e é impossível prever como seu estado de saúde se comportará com o passar do tempo”, explicou Jean-François Delfraissy, diretor da Agence Nationale de Recherche sur le Sida (ANRS). “O caso dela, contudo, constitui mais um forte argumento a favor do início imediato da terapia antirretroviral em todas as crianças nascidas de mães soropositivas.”

O que esse caso nos diz?

No ano passado, nós tivemos notícias decepcionantes na busca pela cura do HIV. Em julho de 2014, cientistas anunciaram que a “Bebê do Mississippi” — uma criança que muitos especialistas acreditavam estar curada do HIV — ainda tinha o vírus. Além disso, dois pacientes em Boston que receberam transplantes de medula óssea e que não mostravam qualquer sinal do HIV em seu sangue e nas células brancas, tiveram um rebote alguns meses depois da interrupção do tratamento antirretroviral.

Com isso, Timothy Brown, o “Paciente de Berlim”, continua a ser a única pessoa aparentemente curada do HIV. Quase há uma década, Brown recebeu transplantes de medula óssea para tratar leucemia, usando as células de um doador com uma mutação natural (CCR5-delta-32) que protege as células T da infecção pelo HIV. Embora Brown tenha interrompido o tratamento antirretroviral, o HIV não voltou. Depois de mais de sete anos de testes, os cientistas não foram capazes de detectar vírus competente a replicação em seu plasma sanguíneo, nas células do sangue periférico ou em qualquer outro lugar pesquisado.

A jovem francesa não entra para o rol das pessoas curadas pelo HIV, mas faz parte de um pequeno grupo chamado de “controladores pós-tratamento”, (assim como os franceses da Coorte Visconti) os quais aparentam ser capazes de controlar o vírus mesmo depois de interromper o tratamento antirretroviral.


Leia o artigo completo em BETAblog.org