Lembra da coorte Visconti? Foi um estudo conduzido em diversas clínicas de saúde na França, publicado em 2013, sobre 14 pessoas, dez homens e quatro mulheres, que iniciaram a terapia antirretroviral logo após o diagnóstico, mas, depois, interromperam o tratamento. E foi aí que veio a surpresa! Ao invés do esperado retorno da carga viral, estes 14 pacientes mantiveram seu controle da carga viral, mesmo na ausência dos antirretrovirais. Isso quer dizer que eles controlaram a carga viral após o tratamento — daí o nome do estudo Virological and Immunological Studies in CONtrollers after Treatment Interruption, Visconti, algo como Estudos Virológicos e Imunológicos em Controladores pós Tratamento.

Uma das conclusões do Viconti foi a de que uma em cada seis pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral menos de seis meses após a infecção poderiam ser capaz de controlar suas cargas virais por pelo menos um ano após a interrupção do tratamento. Pessoas assim receberam o nome de “controladores pós-tratamento”.

Contudo, desde o Visconti, pouco avançou-se no estudo de controladores pós-tratamento. Até agora. Um novo estudo, uma colaboração dos Estados Unidos, reuniu dados de 14 estudos científicos contendo, no total, observações sobre mais 600 pessoas soropositivas e descobriu que 67 delas foram capazes de manter ou restabelecer uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml por pelo menos 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Este é o primeiro grande estudo, desde a coorte Visconti, em 2013, a estimar a proporção de pessoas que poderiam ser controladores pós-tratamento. Chamado de Champ, acrônimo de Control of HIV after Antiretroviral Medication Pause, analisou dez ensaios clínicos randomizados e quatro estudos de coorte realizados nos Estados Unidos e  Canadá, com resultados publicados de 2000 a 2017.

A maioria destes estudos foi de interrupção do tratamento, por si só, ou de vacinação terapêutica ou outro tratamento imunológico. Três dos quatro estudos de coorte foram de pessoas tratadas em infecção precoce, enquanto o último estudo de coorte foi com pessoas já sabidamente controladoras virais.

A idade média dos participantes foi de 41 anos, sem diferença entre os tratados em infecção precoce ou crônica. 19% eram mulheres. 69% eram brancos e 25% negros. A definição usada pelo Champ para definir um controlador de pós-tratamento foi a de que a pessoa tinha que ter uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml ao longo de, pelo menos, dois terços do tempo e, pelo menos, por 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Seguindo essa definição, os pesquisadores descobriram que 13% das pessoas que iniciaram o tratamento antirretroviral logo após a infecção foram capazes de alcançar o controle viral pós-tratamento. Esta é uma estimativa muito próxima daquela dos pesquisadores do Visconti, que disseram que 15% das pessoas tratadas na infecção precoce poderiam ser controladoras pós-tratamento.

Mas o Champ não parou por aí. O estudo também procurou por controladores pós-tratamento que não iniciaram a terapia antirretroviral até que estivessem em infecção crônica — e encontrou 25 deles, representando 4% das pessoas que iniciaram o tratamento na fase de infecção crônica. Esta é a primeira vez que um estudo apresenta uma estimativa para a proporção de pessoas que iniciam o tratamento na infecção crônica pelo HIV e que podem vir a ser controladores pós-tratamento.

O tempo médio que as pessoas estavam em terapia antirretroviral antes de interromperem o tratamento foi 89 semanas, equivalente a um ano e nove meses. 75% das pessoas mantiveram controle por pelo menos um ano, 22% destas chegaram a cinco anos. Dois indivíduos tratados precocemente estão controlando sua carga viral há mais de dez anos, sem antirretrovirais. Todos os controladores pós-tratamento observados geralmente mantiveram suas contagens médias de CD4, com apenas um leve declínio de 32 células/mm³ por ano, em média, em comparação uma queda de 221 células/mm³ entre os não-controladores.

Há um detalhe interessante: 42% dos controladores de pós-tratamento que iniciaram a terapia antirretroviral já na infecção crônica vieram de um único estudo, o ACTG 5068. 10% das pessoas neste estudo foram identificadas controladoras pós-tratamento, em comparação com 3% em todos os outros estudos de pessoas iniciando tratamento em infecção crônica.

A característica distintiva deste estudo está no fato dele ter usado a chamada “interrupção de tratamento pulsada”. Isto significa que, depois de parar inicialmente a terapia antirretroviral, as pessoas foram colocadas em duas interrupções curtas de tratamento, de 4 a 6 semanas, com um período de tratamento entre elas, antes que este fosse descontinuado indefinidamente. O resultado foi que 15% tornaram-se controladoras pós-tratamento — uma proporção tão alta quanto aqueles que iniciaram o tratamento no início da infecção.

Esse é um detalhe que sugere (mas não confirma) que as interrupções pulsadas possam ter sido suficientes para permitir que pequenos surtos de carga viral levem, segundo os pesquisadores, ao que eles chamam de “autoimunização” contra o HIV. Mesmo assim, se esta teoria estive correta, o fato é autoimunização só ocorreu em apenas 15% das pessoas. A combinação de fatores que as levou a se tornarem controladoras pós-tratamento, enquanto a maioria das pessoas não, ainda é um mistério.

Enquanto isso, apenas uma pequena proporção de pessoas passará pelas interrupções estruturadas de tratamento, trazendo eventualmente algum luz sobre o assunto. Por enquanto, o fato é que este estudo americano nos confirma que o controle pós-tratamento não é um fenômeno especialmente raro.

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