Carga viral ou PCR Quantitativo para o HIV é um exame que conta indiretamente a quantidade de vírus presente no organismo através da quantificação de RNA viral presente no plasma sanguíneo. Esse processo é feito por amostragem. O ideal é que a carga viral seja sempre “indetectável”, “indeterminada”, “zero” ou próxima disso.


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Mais de 2 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) em 2015, sendo a transmissão sexual o principal canal de infecção. Pesquisadores do Grupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do Instituto de Pesquisa Biomédica de Bellvitge (IDIBELL), liderados pelo Dr. Daniel Podzamczer, avaliaram a velocidade com que um novo medicamento antirretroviral, o Dolutegravir, é capaz de reduzir a carga viral no sêmen, uma área do corpo considerada um reservatório do vírus e os medicamentos têm mais dificuldade em chegar. Os resultados, publicados no Journal of Infectious Diseases, mostram o potencial desses novos tratamentos em reduzir as chances de transmissão sexual do vírus.

“No caso de casais sorodiscordantes, enquanto a carga viral do parceiro diminui, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome profilaxia, além dos preservativos”

Os tratamentos antirretrovirais atuais são capazes de diminuir a carga viral do sangue e torná-la indetectável dentro de seis a nove meses do início do tratamento na maioria dos pacientes, embora se estime que cerca de 5 a 25% dos pacientes mantenham níveis detectáveis de vírus no sêmen após este período, devido a vários fatores que nem sempre são conhecidos. “Portanto, no caso de casais sorodiscordantes ,nos quais apenas um dos parceiros é portador do vírus, enquanto a carga viral do parceiro diminui tanto no sangue quanto nos reservatórios, recomenda-se que a pessoa soronegativa tome medicamentos antirretrovirais como profilaxia, além dos preservativos”, diz o Dr. Podzamczer.

No entanto, existem novos fármacos, conhecidos como inibidores da integrase, que podem agir muito mais rapidamente. “Neste estudo, nos concentramos em avaliar a taxa de queda da carga viral em pacientes que receberam esses novos tratamentos, em especial o Dolutegravir”, explica o Dr. Arkaitz Imaz, primeiro autor do estudo. “Medimos a carga viral no sangue e no sêmen antes de iniciar o tratamento, aos 3 dias, aos 7, aos 14, no primeiro mês, no terceiro mês e no sexto mês. Sabemos que a carga viral cai rapidamente durante os primeiros dias e semanas. Adaptando um modelo matemático-estatístico complexo aos nossos dados e às características dos nossos pacientes, foi possível obter um modelo cinético específico da carga viral para cada fluído, sangue e sêmen, sob este regime de tratamento.”

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Os pesquisadores observaram que, embora a taxa de queda na carga viral seja significativamente maior no sangue do que no sêmen durante os primeiros dias, ela é é igual durante a segunda fase de queda. No entanto, apesar da diferença de velocidade, a carga viral se torna indetectável mais rapidamente no sêmen do que no sangue porque os valores de base são muito mais elevados no sangue, ou seja, há muitos mais vírus a eliminar. “Esses resultados sugerem a possibilidade de reduzir o tempo de profilaxia ao usar esses novos tratamentos”, observam os pesquisadores.

“A concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”

Por outro lado, o padrão de queda é muito mais homogêneo no sangue do que no sêmen. A heterogeneidade no sêmen demonstra a natureza diferencial e mais imprevisível deste fluído como reservatório do vírus. Nesse sentido, é interessante notar que não existe uma correlação clara entre a concentração de medicamento no sêmen e a diminuição da carga viral: “a concentração de Dolutegravir no sêmen é mais que suficiente para garantir a queda da carga viral neste reservatório”, explica o Dr. Podzamczer, “porque mesmo que apenas 7 a 8% do medicamento do sangue chegue ao sêmen, a proporção de medicamento ativo no sêmen é muito maior do que a observada no sangue. Isso era algo que não sabíamos até agora.”

“Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão”

Atualmente, inibidores de integrase são recomendados por todas as diretrizes clínicas como a primeira linha de tratamento. “Nosso estudo reforça essa decisão, especialmente à luz do cenário atual de transmissão do HIV. Se reduzimos o tempo de queda da carga viral, reduzimos claramente a possibilidade de transmissão, especialmente entre os grupos de alta prevalência do HIV”, argumenta o Dr. Imaz. No editorial que o Journal of Infectious Diseases dedica ao artigo, ressalta-se a necessidade de replicar este estudo com outros novos fármacos atualmente em desenvolvimento, tal como os antirretrovirais de longa duração, para avaliar o potencial destas novas terapias e sua atividade neste reservatório viral.

O trabalho foi realizado em colaboração com o Dr. Jordi Niubó, também membro doGrupo de Infecções do Trato Respiratório e Pacientes Imunocomprometidos do IDIBELL, e com os grupos de pesquisa da Dra. Angela D. Kashuba, do Centro de Pesquisas sobre Aids da Carolina do Norte,  e o Dr. Javier Martínez-Picado, do IrsiCaixa Aids Research Institute.

Em 22 de novembro por IDIBELL

Fonte:  Imaz A, Martinez-Picado J, Niubó J, Kashuba AD, Ferrer E, Ouchi D, Sykes C, Rozas N, Acerete L, Curto J, Vila A, Podzamczer D. HIV-1-RNA Decay and Dolutegravir Concentrations in Semen of Patients Starting a First Antiretroviral Regimen. J Infect Dis. 201
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A autoridade nacional de medicamentos da China analisou nesta quarta-feira os resultados da última fase de uma pesquisa clínica sobre um medicamento anti-HIV produzido no país, antes de sua aprovação oficial.

Uma vez aprovado, o medicamento de nova geração, chamado Albuvirtide Injetável, deve ser a primeira injeção de longa duração do mundo para o tratamento do HIV. Desenvolvido pela Frontier Biotechnologies, sediada em Nanjing, o medicamento pode bloquear a fusão das membranas das células virais e hospedeiras, interrompendo o ciclo de vida do HIV em seu estágio inicial. O medicamento está em estudo clínico de fase III em 12 centros clínicos em todo o país desde fevereiro de 2014, segundo afirmou a Agência de Notícias Xinhua.

O medicamento é um inibidor de fusão que deve ser usado junto com antirretrovirais para tratar pessoas com HIV que fazem a terapia antirretroviral, afirma o site da Agência. Segundo este mesmo site, trata-se do primeiro medicamento anti-HIV de longa duração do mundo que entrou em estudos clínicos de fase III, o qual, com um mecanismo de ação molecular, é eficaz tanto contra o vírus HIV-1 como contra outros vírus resistentes.

“Os dados mostram que o estudo alcançou todas as expectativas”

Na quarta-feira, a China Food and Drug Administration verificou os dados experimentais de médio prazo do estudo clínico de fase III do medicamento no Hospital Beijing Youan, que se encarregou de conduzir os estudos clínicos nacionais deste medicamento. “Os dados experimentais de médio prazo mostram que o estudo alcançou todas as expectativas, com 80,4% da concentração de HIV dos pacientes nos grupos experimentais sendo reduzida para menos de 50 cópias por mililitro, que é o limite de detecção do HIV”, disse Wu Hao, decano do centro de doenças infecciosas do Hospital Beijing Youan, a Agência de Notícias Xinhua.

Wu disse que o medicamento, que é aplicado uma vez por semana, é muito mais eficaz e mais seguro do que os remédios atuais e que faz menos danos aos rins. Os dados foram coletados entre as semanas 24 e 48 dos estudos que incluem 83 grupos experimentais e 92 grupos de controle, segundo um documento enviado ao Global Times. Não houve qualquer relato de efeitos colaterais do medicamento. Li Dun, professor do Centro Universitário Tsinghua para Estudo da China Contemporânea, observou que, se houver efeitos colaterais, estes devem ser tornados públicos.

“Estamos dispostos a promover este medicamento no mercado o mais rapidamente possível”

“Uma vez aprovado, estamos dispostos a promover este medicamento no mercado o mais rapidamente possível”, disse o gerente de assuntos governamentais da empresa, de sobrenome Zhang. “Atualmente, os tratamentos do HIV usados na China são genéricos ou importados, foram desenvolvidos uma ou duas décadas atrás e são comparativamente ineficazes sob as condições atuais”, disse Zhang.

china

Seis em cada 10.000 pessoas na China estão afetadas pelo HIV/aids. Mais de 570.000 pessoas na China foram diagnosticadas com HIV até o final de 2015 e cerca de 32% dos soropositivos do país ainda não foram diagnosticados, disse Liang Xiaofeng, vice-diretor do CDC em um fórum realizado em outubro. Liang observou que a China tomou medidas, como a ampliação do escopo de exames médicos, para lidar com a doença.

“O país reduziu os custos do tratamento do HIV e expandiu o alcance do tratamento gratuito para apoiar as pessoas que vivem com HIV”, disse Peng Xiaohui, sexólogo da Universidade da China Central, em Wuhan. Peng disse que o custo médio para o tratamento de pessoas soropositivas foi reduzido de 30.000 yuan (4.337 dólares) para entre 3.000 e 5.000 yuan por ano.

A terapia atual de antirretrovirais. amplamente utilizada nos tratamentos contra o HIV, pode trazer o vírus HIV sob controle, mas não pode curar a doença. Especialistas disseram que uma vacina contra o HIV/aids foi desenvolvida por cientistas chineses, que concluíram sua fase de testes de segurança durante a Conferência Nacional sobre HIV/Aids, em Pequim, em outubro de 2014.

Por Leng Shumei em 24 de outubro de 2016 para Global Times


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Cientistas desenvolveram um exame de HIV que pode ser feito através de um drive USB. O dispositivo, criado por cientistas do Imperial College London e da DNA Electronics, usa uma gota de sangue para detectar o HIV através de um sinal elétrico que pode ser lido por um computador, laptop ou por um dispositivo portátil. O exame descartável poderia ser usado para pacientes com HIV para monitorar seu próprio tratamento. Além disso, a tecnologia poderia permitir que pacientes com HIV que estão em locais remotos fossem monitorados de maneira mais eficiente.

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Este dispositivo USB pode medir a quantidade de HIV na corrente sanguínea.

Um novo estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostra que o dispositivo não só é muito preciso, como pode produzir um resultado em menos de 30 minutos. A tecnologia mede a quantidade de vírus na corrente sanguínea, o que é crucial para monitorar o tratamento de um paciente com HIV. A quantidade de vírus no sangue não pode ser detectada pelos testes de HIV que usam anticorpos, pois estes só podem dizer se uma pessoa foi infectada ou não.

Os exames atuais para detectar a quantidade de vírus levam pelo menos três dias para ficar prontos, às vezes mais tempo, e envolvem o envio de uma amostra de sangue para um laboratório. Em muitas partes do mundo, em especial aquelas com número mais elevado de infecções pelo HIV, esses exames não estão disponíveis.

O tratamento atual para o HIV, a terapia antirretroviral, reduz os níveis de vírus no sangue para próximo de zero. No entanto, em alguns casos, a medicação pode parar de funcionar — eventualmente porque o HIV desenvolveu resistência aos medicamentos. A primeira indicação disso é um aumento dos níveis de vírus na corrente sanguínea. Além disso, a monitoração regular dos níveis de vírus permite que os profissionais de saúde verifiquem se o paciente está tomando a medicação corretamente. A interrupção da medicação aumenta as chances de resistência aos medicamentos contra o HIV.

 

Monitoração da carga viral é crucial

“Monitorar a carga viral é crucial para o sucesso do tratamento antirretroviral.”

O Dr. Graham Cooke, autor sênior dessa pesquisa do Departamento de Medicina do Imperial College London, explicou: “O tratamento para o HIV melhorou drasticamente nos últimos 20 anos — ao ponto de que muitos diagnosticados com a infecção agora têm uma expectativa de vida normal. No entanto, monitorar a carga viral é crucial para o sucesso do tratamento antirretroviral. Contudo, o exame muitas vezes requer equipamentos caros e complexos, que podem levar alguns dias para produzir um resultado. Mas agora nós simplificamos tudo isso: o aparelho que tinha o tamanho de uma fotocopiadora grande encolheu para a um pequeno drive USB.”

Dr. Cooke também disse que esta tecnologia, embora esteja nos estágios iniciais, pode vir a permitir que os pacientes monitorem regularmente seus níveis de vírus, da mesma forma que pessoas com diabetes verificam seus níveis de açúcar no sangue. A tecnologia pode ser particularmente importante em regiões remotas da África Subsaariana, que podem não ter acesso fácil à instalações de exames laboratoriais. Descobrir rapidamente se um paciente, particularmente um bebê, está infectado com o vírus é crucial para a sua saúde a longo prazo e para a sobrevivência.

O dispositivo produz o resultado do exame em menos de 30 minutos.

O dispositivo, que usa um chip de telefone celular, só precisa de pequena amostra de sangue. Essa amostra é colocada em um ponto no drive USB. Se houver algum vírus HIV na amostra, é desencadeada uma mudança na acidez a qual o chip transforma em um sinal elétrico. Este sinal é enviado para o USB, que produz o resultado em um programa de computador ou em algum aplicativo de um dispositivo eletrônico.

Nos últimos experimentos, a tecnologia analisou 991 amostras de sangue com 95% de precisão. O tempo médio para produzir um resultado foi de 20,8 minutos. A equipe também está pesquisando se o dispositivo pode ser usado para outros vírus, como o da hepatite. A tecnologia foi desenvolvida em conjunto com a empresa DNA Electronics, que também a está utilizando para desenvolver um dispositivo capaz de detectar sepse bacteriana e fúngica e resistência a antibióticos.

“Este é um ótimo exemplo de como uma nova tecnologia tem o potencial de transformar a maneira como os pacientes com HIV são tratados.”

Chris Toumazou, fundador da DNA Electronics, presidente executivo e professor do Departamento de Engenharia Elétrica e Eletrônica da Imperial College London, acrescentou: “Este é um ótimo exemplo de como uma nova tecnologia de análise tem o potencial de transformar para rápida, precisa e portátil a maneira como os pacientes com HIV são tratados. Na DNA Electronics, já estamos aplicando esta tecnologia altamente adaptável para enfrentar ameaças globais à saúde, onde o tratamento é crítico, o tempo é curto e precisa funcionar corretamente já na primeira vez.”

Por Kate Wighton em 10 de novembro para Imperial College London


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O anúncio da chegada do Dolutegravir ao SUS (Sistema Único de Saúde), na manhã desta quarta-feira (28), em Brasília, foi festejado pelos ativistas da aids. “Desde o ano passado, vínhamos reivindicando isso”, disse Vando Oliveira, coordenador da RNP+Ceará (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids do Ceará). Pedro Chequer, ex-diretor do Departamento de Aids, disse que a medida traz ao país a perspectiva da sustentabilidade da política de aids. Richard Parker, diretor-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), enfatizou que o Brasil diminui, com a decisão, a distância que o separa de países ricos na área da terapia antirretroviral. Veja o que mais ativistas, especialistas e os dois médicos que estiveram à frente do estudo da droga no Brasil, Ricardo Diaz e José Valdez Madruga, falam:

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Pedro Chequer, médico, co-fundador e ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais: “ Um dos princípios que regem a lei que estabeleceu o acesso a antirretrovirais é a atualização permanente do elenco terapêutico. Na medida em que surgem novos medicamentos, eles devem ser incluídos no elenco com objetivo de melhorar a atenção e prolongar a vida do paciente. O surgimento do Dolutegravir e sua incorporação representam, efetivamente, o cumprimento da lei e uma clara demonstração de que a política adotada em relação à terapia contra aids se mantém. Isso nos cria a perspectiva da sustentabilidade da política e a garantia de que o paciente no Brasil vai ter acesso ao que há de mais moderno, com menos efeitos colaterais.”

Richard Parker, diretor-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids): “ O avanço para incorporar novos medicamentos é um ganho. Temos um grande risco acontecendo agora no Brasil e em outros países que não são os mais ricos e estão ficando atrasados na incorporação de novos antirretrovirais. Isso significa que temos o acesso de duas classes. De primeiro mundo e de terceiro mundo, o que é ruim. O princípio de acesso a medicamentos é o de que todos os humanos têm os mesmos direitos. Então, é um avanço ver o Ministério da Saúde partindo para caminhar nessa direção.”

Regina Bueno, ativista facilitadora da Rede Jovem Rio +, do grupo Pela Vidda Rio e da Pastoral da Aids Rio: “Hoje, a nossa primeira linha tem o 3 em 1, que já foi descontinuado há muito tempo nos Estados Unidos e na Europa, porque traz efeitos colaterais sérios, especialmente por meio do Efavirenz. Os jovens da nossa rede que fazem uso dele reclamam de insônia, sonolência. Então, a chegada do Dolutegravir é boa porque é um remédio bem menos tóxico, segundo os centros internacionais de pesquisas. Isso permite mais acessibilidade e permeabilidade quanto à adesão. Porque o que se quer é barrar a transmissão do HIV, zerando a carga viral. Se há menos efeitos colaterais, há mais adesão. Mas é preciso informar sobre isso, principalmente os profissionais de saúde na atenção básica, que está sendo recomendada pelos protocolos do Ministério da Saúde como primeiro atendimento.”

Veriano Terto Jr., coordenador de projetos da ABIA: “É um passo importante no sentido de atualizar o elenco de medicamentos disponíveis, especialmente para as pessoas recém diagnosticadas. Nós damos muito boas-vindas porque até o ano passado era quase um tabu falar desse medicamento, que parecia ser algo impossível . Num primeiro parecer da Conitec [Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS], ele foi rejeitado. Depois, nas oficinas, quando falávamos dele, éramos vistos como visionários ou que estávamos falando mal dos medicamentos já existentes na primeira linha. Não era nada disso, a gente só queria mostrar que era viável e, com um pouco de pressão política, o Dolutegravir poderia ser adotado e melhorar a qualidade de vida de muita gente.”

Eduardo Barbosa, coordenador do CRD (Centro de Referência da Diversidade) e da área de assistência do CRT (Centro de Referência e Tratamento em DST/Aids de SP): “Com a chegada do dolutegravir, a gente tem um avanço significativo na perspectiva de buscar melhor terapia para o indivíduo. É mais uma possibilidade de quebrar algumas barreiras na adesão ao tratamento e na retenção dos pacientes no serviço. Então, essa incorporação é superimportante.”

Vando Oliveira, coordenador da RNP+Ceará: “Já chegou tarde, pois, em outros países mais adiantados, o Dolutegravir é adotado desde 2013. Temos registro de vários pacientes que estão precisando dessa medicação no Brasil. Inclusive, esta semana, estamos acompanhando um. Ele está internado e faz nove meses que espera o medicamento. Estávamos apreensivos com esse caso, mesmo depois de uma judicialização. Estou falando de um caso, mas são vários. Então, a chegada do Dolutegravir é algo legal para o movimento social.”

Carlos Duarte, do Fórum de Ongs/Aids do Rio Grande do Sul: “A incorporação de qualquer medicamento de primeira linha é fundamental porque reduz a probabilidade de efeitos colaterais. Quanto mais de ponta, melhor para todo o mundo, para a pessoa vivendo com HIV, para o serviço de saúde que vai ter menos intercorrência.”

William Amaral, ativista, do Comitê Comunitário de Acompanhamento do Ipec da Fiocruz: “É o resultado de uma luta que já vem desde o ano passado devido a defasagem do nosso consenso. Precisamos de outros avanços para conseguirmos nos igualar ao consenso terapêutico do primeiro mundo. É necessária a entrada do TAF, nova formulação do Tenofovir. E tem outros já em uso lá fora que ainda não são incorporados aqui. Lá, eles não usam mais AZT, Efavirenz. É importante a entrada desse novo medicamento? É. Mas a gente não pode esmorecer. Temos de continuar cobrando do Ministério da Saúde e da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) que se posicione publicamente para a incorporação das novas drogas.”

José Araújo Lima, do Mopaids e do Epah (Espaço de Atenção Humanizada): “Não tem como não reconhecer a importância da chegada do Dolutegravir, uma cobrança que as ONGs vêm fazendo há muito tempo. Mas há fatores que devem ser ressaltados: a entrada desse medicamento está longe de tornar o consenso brasileiro satisfatório em razão da sua grande desatualização. Quando a diretora do Departamento [Adele Benzaken] informa que a “entrega será a partir de janeiro de forma gradativa” impede que o controle social faça acompanhamento e cobrança na sua implementação. O Ministério diz que não haverá “impacto financeiro” um raciocínio equivocado quando deveria ser interpretado como um grande impacto na vida das pessoas vivendo com HIV/aids. O que move o governo é a economia e não vida.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foesp (Fórum de Ongs/Aids do Estado de São Paulo): “Esta ação do governo é resultado de uma reivindicação da sociedade civil, que vem cobrando há tempos melhores tratamentos. Recordo quando pautávamos o assunto, na gestão passada, e éramos acusados de irresponsáveis pela questão dos custos e o que vemos agora é que faltou vontade política. Nossa luta ainda continuará pelo melhor acesso ao tratamento que estiver disponível.”

Pedro Villardi, coordenador de projetos da ABIA e coordenador do GTPI (Grupo de Trabalhos sobre Propriedade Intelectual): “Já tem quase dois anos que a ABIA e o GTPI vêm demandando o Dolutegravir como opção para a primeira linha. É um remédio bem tolerado, tem menos efeitos colaterais. Incorporá-lo num contexto em que a gente começa a tratar pessoas assintomáticas é fundamental. Agora, um fator preocupante é sobre a sustentabilidade no tratamento, por causa do preço. Demandamos que o governo faça as ações necessárias para que a universalidade e a integralidade sejam garantidos.”

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Os médicos/pesquisadores — eles fazem parte da Câmara Técnica para Avaliação de Novos Medicamentos Antirretrovirais, composta por infectologistas dos mais respeitados centros de tratamento do estado de São Paulo. Estiveram à frente das pesquisas sobre o Dolutegravir e sempre foram defensores de sua incorporação ao SUS. Veja o que dizem Ricardo Diaz, da Unifesp, e José Valdez Madruga, do CRT:

Ricardo Diaz, pesquisador da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo): “É um grande avanço, que aproxima a gente do mundo desenvolvido em relação ao tratamento inicial de HIV. Mas ainda não acaba com a defasagem quanto a essa classe que é a de inibidores de integrase. Temos o Raltegravir, para resgate, mas o Elvitegravir ainda está sendo registrado na Anvisa. Também não temos ainda o novo Tenofovir, que é menos tóxico, com menos efeitos colaterais. Porém, o mais potente é o Dolutegravir e estou feliz pela incorporação deste. Vai melhorar muito a qualidade de vida das pessoas, especialmente pela possibilidade de substituir o Efavirenz droga que, a cada dia, fica mais provada sua relação com efeitos terríveis.”

José Valdez Madruga, do CRT: “A chegada do Dolutegravir à primeira linha de tratamento é um grande avanço. Este medicamento é potente e bem tolerável. A incorporação de inibidores da integrase na primeira linha também era um reivindicação da SBI, já tínhamos pedido ao Ministério da Saúde a atualização do protocolo. Lembrando que pesquisas comprovaram que essa é a melhor classe de medicamentos, com menos efeitos colaterais a curto e longo prazos. A droga também é primeira linha nos Estados Unidos, na União Europeia e indicada pelo Internacional Aids Society. No entanto, gostaríamos que o Raltegravir também estivesse em primeira linha de tratamento, assim, o médico poderia analisar caso a caso. Estudos comprovaram que o Raltegravir causa menos interações medicamentosas e há dados de dez anos de uso. Não há dados, por exemplo, sobre segurança renal e óssea do Dolutegravir. Por isso, é importante ter as duas opções. Não tenho nada contra o Dolutegravir, considero muito importante este passo. Hoje, inclusive, já recebi ligações de pacientes querendo trocar o esquema, eles ouviram o pronunciamento do ministro. Mas é preciso calma, a droga estará disponível só em 2017 e no primeiro momento para os que estarão iniciando o tratamento.”

Em 28 de setembro pela Redação da Agência de Notícias da Aids

 


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Um pequeno número de pessoas infectadas com o HIV produzem anticorpos com um efeito surpreendente: não são apenas anticorpos dirigidos contra a própria cepa do vírus, mas também contra diferentes subtipos de HIV que circulam em todo o mundo. Pesquisadores da Universidade de Zurique e do Hospital Universitário de Zurique agora revelam quais fatores são responsáveis para que o corpo humano produza tais anticorpos amplamente neutralizantes, abrindo novos caminhos para o desenvolvimento de uma vacina contra o HIV.

A partir das pesquisas já feitas sobre o HIV, sabemos que cerca de um 1% das pessoas infectadas produzem estes anticorpos que combatem diferentes cepas do vírus. Estes anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs) contra o HIV ligam-se às estruturas na superfície do vírus, as quais variam pouco e são idênticas dentre as diferentes cepas virais. Apelidado de “picos”, estes complexos de açúcar e proteína são as únicas estruturas de superfície que se originam a partir do vírus e que podem ser atacadas pelo sistema imunológico por meio de anticorpos. Devido ao seu alto impacto, estes anticorpos constituem uma ferramenta promissora para o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o HIV.

 

Carga viral, a diversidade de vírus e a duração da infecção incentivam a produção de anticorpos

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Uma equipe suíça de pesquisadores liderados pela Universidade de Zurique e pelo Hospital Universitário de Zurique realizou um extenso estudo sobre os fatores responsáveis pela produção de anticorpos amplamente neutralizantes contra o HIV. Eles examinaram cerca de 4.500 pessoas infectadas com o HIV que estão registradas no Swiss Cohort Study e no Zurich Primary HIV Infection Study e identificaram 239 pessoas capazes de produzir esses anticorpos.

Em primeiro lugar, três características específicas da doença são importantes: a quantidade de vírus presente no corpo, a diversidade dos tipos de vírus encontrados e a duração da infecção por HIV não tratada. “Nosso estudo nos permitiu mostrar pela primeira vez que cada um destes três parâmetros — carga viral, a diversidade de vírus e duração da infecção — influencia de maneira independente no desenvolvimento de anticorpos amplamente neutralizantes”, explica Huldrych Gunthard, professor de doenças infecciosas no Hospital Universitário de Zurique. “Portanto, nós não temos necessariamente que considerar todos os três parâmetros para a concepção de uma vacina contra o HIV. Isto é especialmente importante no que diz respeito à administração da vacina — não seria possível imitar uma infecção não tratada de HIV com uma vacina.”

 

Negros produzem anticorpos amplamente neutralizantes com mais frequência

Um segundo fator diz respeito à etnia: pacientes negros que vivem com HIV formam anticorpos amplamente neutralizantes mais frequentemente do que as pessoas brancas — independentemente dos outros fatores analisados no estudo. Para Alexandra Trkola, professora de virologia médica no Hospital Universitário de Zurique, esta surpreendente descoberta precisa ser estudada mais de perto: “Primeiro de tudo, precisamos entender mais precisamente o significado e o impacto dos fatores genéticos, geográficos e sócio-econômicos de pessoas de diferentes etnias sobre a formação destes anticorpos.”

 

Diferentes subtipos de vírus influenciam o local de ligação dos anticorpos

O terceiro fator envolve a influência do subtipo de vírus na formação de anticorpos. Enquanto a frequência da produção de anticorpos permanece inalterada, os pesquisadores mostraram que o subtipo de vírus tem uma forte influência sobre o tipo de anticorpo formado. O subtipo B do HIV é mais susceptível de levar à produção de anticorpos dirigidos contra a região da superfície do vírus, através do qual o vírus se liga às células imunitárias humanas (o local de ligação é chamado de CD4). Em contraste, o subtipo B não favorece à produção de anticorpos que se ligam ao açúcar dos picos de vírus (chamados de V2). Características estruturais específicas sobre a superfície do vírus afetam, assim, a especificidade da ligação dos anticorpos, de acordo com o subtipo de vírus.

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“Nossos resultados mostram como diferentes fatores impulsionam a formação de anticorpos que, grosso modo, combatem diferentes cepas virais”, conclui Trkola. “Isso vai abrir um caminho sistemático para o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o HIV.”

 

Swiss HIV Cohort Study

O Swiss HIV Cohort Study, lançado em 1988, contém dados de mais de 19.000 pessoas infectadas com HIV na Suíça. A rede inclui os cinco hospitais universitários suíços, dois hospitais maiores cantonais, hospitais menores e vários médicos particulares que tratam de pacientes com HIV. O Swiss HIV Cohort Study também tem um banco biológico com mais de 1,5 milhões de amostras.

Atualmente, mais de 9.000 pessoas são tratadas dentro do Swiss HIV Cohort Study — o que representa cerca de 75% de todas as pessoas tratadas com terapia antirretroviral na Suíça. Além de tratamento de alta qualidade, o objetivo do Swiss HIV Cohort Study é a realização de pesquisas multidisciplinares integradas, tanto no setor básico como no clínico. O Swiss HIV Cohort Study é predominantemente financiado pela Swiss National Science Foundation.

Em 26 de setembro de 2016 por MedicalXpress

Mais informações: Peter Rusert et al. Determinants of HIV-1 broadly neutralizing antibody induction, Nature Medicine (2016). DOI: 10.1038/nm.4187. Referência: Nature MedicineFonte: University of Zurich


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Abivax, uma empresa de biotecnologia que quer usar o sistema imunológico para eliminar doenças virais, concluiu um segundo marco importante em seu projeto estratégico de inovação, chamado CaReNa.

Iniciado em 2013, este projeto colaborativo, liderado pela Abivax e com a participação de CNRS e Theradiag, pretende desenvolver novas soluções terapêuticas e de diagnóstico que visam combater as interações proteicas com o RNA do HIV. O custo total do projeto é de 18,2 milhões de Euros, dos quais 13,6 milhões serão aportados pela Abivax. O projeto tem a ajuda da Bpifrance com empréstimos reembolsáveis e subsídios, no total de 7,3 milhões de Euros, dos quais 5,2 milhões são usados em operações da Abivax. Até agora, a empresa recebeu 3,4 milhões e 1,8 milhão devem ser aportados até o final de 2018.

A conclusão deste segundo marco no CaReNa é a consequência dos progressos alcançados no desenvolvimento do projeto emblemático da companhia, a ABX464, um candidato terapêutico em estágio de estudo clínico que pode vir a se tornar uma parte essencial na cura funcional do HIV/aids.

A Abivax desenvolveu a ABX464 usando sua plataforma tecnológica antiviral única e patenteada, criada em colaboração com o CNRS e do Instituto Curie, dedicada a produzir pequenas moléculas antivirais com um novo modo de ação. A plataforma é baseada em sistemas de rastreamento biológico, construída para que possamos compreender os processos envolvidos nas emendas do RNA viral dentro das células hospedeiras humanas, as quais podem revelar a capacidade de compostos químicos desenvolvidos pela da Abivax para inibir as interações entre RNA e proteína.

A ABX464 é uma pequena molécula pioneira e com propriedades únicas de ação. Ela não apenas demonstrou ser capaz de inibir a replicação virai in vitro e in vivo, como também em induzir uma redução de longa duração da carga viral do HIV, após a interrupção do tratamento, em modelos animais. Como resultado, os cientistas acreditam que esta molécula pode ser a primeira de uma nova classe de medicamentos antirretrovirais, os quais podem vir a conduzir a uma cura funcional para pacientes com HIV.

A ABX464 está atualmente em estudos clínicos de fase intermediária e pode ser aprovado para uso em pacientes já em 2020. Em 2014, dois estudos de Fase I realizados em indivíduos saudáveis demonstrou que o produto foi bem tolerado nas doses terapêuticas previstas. Em 2015, um estudo de fase IIa em 80 pacientes infectados com o HIV mostraram a primeira evidência da atividade da ABX464 em seres humanos. Os dados deste estudo de escalonamento de dose, controlado por placebo, apresentados em fevereiro 2016 durante a CROI (Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas), em Boston, e em julho 2016 durante a 21ª Conferência de Aids, em Durban, África do Sul, demonstraram a segurança e eficácia da ABX464 em monoterapia no tratamento de pacientes infectados com o HIV não tratados previamente. Uma redução da carga viral de pelo menos 0,5 log (mais do que 68% de redução) foi observada em 1 paciente entre 6 sob 75mg, 2 pacientes de 6 no grupo de 100mg e 4 pacientes de 6 sob 150mg. Não houve variação significativa na carga viral nos 6 pacientes que receberam placebo. Os efeitos indesejáveis observados foram aqueles normalmente observados no contexto de tratamentos antivirais.

Para demonstrar o efeito de longa duração em pacientes com HIV, um segundo estudo de Fase IIa foi iniciado na Espanha, França e Bélgica. Conhecido como ABX464-004, este estudo foi concebido para demonstrar o efeito a longo prazo da ABX464 que havia sido observada anteriormente, durante os estudos pré-clínicos, sobre a carga viral. O novo estudo pretende recrutar 28 pacientes que vivem com HIV, cuja infecção está bem controlada com Darunavir, um dos medicamentos referência tratamentos antirretrovirais contra a aids. ABX464 está sendo administrada em 21 destes pacientes em adição ao seu tratamento antirretroviral normal. Os 7 pacientes restantes recebem placebo em adição ao seu antirretroviral. Após 28 dias, todos os tratamentos são interrompidos e o estudo, em seguida, mede o tempo até o reaparecimento do vírus no sangue destes pacientes. O principal critério de eficácia do estudo é o momento de rebote da carga viral. Este rebote tem sido estudado e demonstrado que provêm dos “reservatórios de HIV”, as áreas em que o vírus está escondido no corpo e que não é afetada pelos diferentes tipos de antirretrovirais atuais. Os resultados preliminares deste estudo estarão disponíveis antes do final de 2016.

“A validação que recebemos da Bpifrance para a conclusão deste segunda importante etapa do CaReNa representa um reconhecimento dos avanços alcançados no desenvolvimento da ABX464 e traz um financiamento adicional para avançar em nossas metas futuras”, disse o Dr. Hartmut Ehrlich, professor e CEO da Abivax. Somos gratos a Bpifrance, que tem apoiado o projeto desde o início e continua a nos trazer recursos importantes para este programa de desenvolvimento e expansão da nossa plataforma de tecnologia antiviral.”

 

Sobre a Abivax:

A Abivax é uma empresa inovadora de biotecnologia, focada em estimular o sistema imunológico para eliminar doenças virais. a Abivax utiliza três plataformas tecnológicas para o desenvolvimento de medicamentos: antiviral, adjuvante e uma plataforma de hiper-imunes. O ABX464, seu composto mais avançado, está atualmente na fase II de estudos clínicos e é uma pequena molécula antiviral oral pioneira em bloquear a replicação do HIV através de um único mecanismo de ação. Além disso, a Abivax está avançando em estudos pré-clínicos contra outros alvos virais, coom chikungunya, ebola e dengue, bem como um adjuvante (um intensificador imune). Vários desses compostos estão previstos para entrar desenvolvimento clínico dentro dos próximos 12 a 18 meses.

Em 13 de setembro de 2016 por BusinessWire

 

HuffPost Brasil

Nós não morremos mais de aids. Nós não vamos viver menos que uma pessoa que não tem HIV. Com tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, nós não transmitimos o HIV através de relação sexual. Temos o código genético do vírus integrado em algumas células, mas provavelmente seremos a geração de soropositivos que vai experimentar a cura.

É verdade, muitas pessoas com HIV ainda morrem por conta de complicações decorrentes da aids, porém, a maioria delas são aquelas que não tem acesso ao tratamento antirretroviral, infelizmente, como ainda é o caso de muitas regiões na África, por exemplo, ou aquelas que foram diagnosticados tarde, já no hospital, com algum doença oportunista relacionada à aids.

Por hora, também é verdade que ainda vivemos um pouco menos que as pessoas que não têm HIV. Uma pessoa soropositiva e que alcançou 50 anos de idade entre os anos de 2006 a 2014 tem uma expectativa de vida de 72,5 anos, enquanto uma pessoa soronegativa pode esperar viver até os 80,2 anos. Todavia, uma pessoa soropositiva que fez 50 anos de idade entre 1996, o ano em que a terapia antirretroviral combinada de três medicamentos foi implementada, a 1999 poderia esperar viver somente até aos 67,8 anos. Para olhar para o futuro, colocamos esses números num gráfico e assim podemos presumir, sem exageros, que a atual geração de jovens soropositivos não vai viver menos que soronegativos.

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Sobrevida, em anos, entre as pessoas de 50 anos de idade com e sem HIV.

O mesmo vale para a incidência de cânceres, relacionados e não-relacionados à aids, que ainda têm uma taxa mais elevada entre as pessoas que vivem com HIV do que entre as pessoas soronegativas. Uma das possíveis razões para essa taxa mais elevada é a inflamação crônica, um assunto pontual ainda não totalmente compreendido pelos médicos e cientistas, a qual é um pouco maior em soropositivos e que, a longo prazo, acredita-se, pode trazer complicações ligadas à uma série de doenças, incluindo cardiovasculares, autoimunes, doenças hepáticas, renais e câncer.

Ainda assim, os gráficos já mostram, nos dias de hoje, um declínio das taxas de câncer entre soropositivos. Projetando para o futuro, não é exagerado concluir que em breve teremos a mesma taxa de incidência de cânceres que os soronegativos.

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Neste gráfico, a linha azul mostra a incidência de cânceres não relacionados com aids, enquanto a linha verde mostra a incidência de tipos de câncer relacionados à aids, ao longo do tempo.

As pessoas com HIV que serviram como referência para os gráficos acima são aquelas que passaram pelo começo da epidemia de HIV/aids, quando não havia tratamento e, quando este surgiu, ainda era muito agressivo, tóxico e, muitas vezes, não tão eficaz.

Aliás, de tão agressivos e ineficazes, os primeiros tratamentos antirretrovirais não foram capazes de salvar a vida da pequena Kat Schurmann, filha adotiva do casal Schurmann, cuja história está no filme brasileiro Pequeno Segredo, que concorre agora por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Kat nasceu em 1992, antes do surgimento da terapia antirretroviral, infectada com o HIV por transmissão vertical, nome que se dá à transmissão do HIV durante a gravidez, parto ou amamentação de uma mãe soropositiva. Ela faleceu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos de idade, devido à complicações decorrentes do HIV.

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Hoje, para viver quase como soronegativos, ainda precisamos dos antirretrovirais. São o mesmo tipo de medicamentos que aqueles implementados em 1996, embora, atualmente, eles sejam mais modernos, mais simples de ingerir e menos tóxicos — por isso, com menos efeitos colaterais, incluindo ausência de lipodistrofia, uma condição comum decorrente dos primeiros coquetéis de antirretrovirais, que faz com que a gordura corporal seja realocada pelo organismo de maneira desproporcional.

Hoje, para controlar o HIV precisamos somente de um comprimido por dia, o qual é composto por três medicamentos diferentes, que inibem os processos que o vírus usa para se replicar dentro do organismo. Em breve, esse único comprimido deve passar a conter apenas dois ou, quem sabe, um único medicamento antirretroviral, o que deve reduzir ainda mais a toxicidade destes medicamentos e, muito possivelmente, melhorar ainda mais os indicadores que falamos acima.

Os antirretrovirais atuais são muito mais avançados que aqueles a que Kat Schurmann teve acesso. Com eles, não é difícil manter o vírus no sangue em quantidade tão baixa que é indetectável, mesmo pelos exames mais precisos de laboratório. No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico, aproximadamente 88% das pessoas que vivem com HIV e que fazem tratamento antirretroviral no país têm carga viral indetectável.

Sob tratamento antirretroviral e com o vírus indetectável no sangue, também não há vírus detectável no fluído pré-ejaculatório e há em baixa quantidade no sêmen. Isso provavelmente é o que faz com que, desde o começo da epidemia, nunca tenha sido observada uma única transmissão sequer a partir de pessoas que vivem com HIV, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral do HIV indetectável no sangue, muito embora já tenham sido feitos longos e extensos estudos entre milhares de casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV) que optam por não fazer uso do preservativo. No último destes estudos, o Partner, foram acompanhados 1.166 casais sorodiscordantes, vários deles homossexuais, em 75 centros clínicos espalhados por 14 países europeus e, assim como nos estudos similares anteriores, não foi documentada uma única transmissão do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Zero transmissão.

Essa realidade faz com que a concepção natural, sem inseminação artificial, sem camisinha, já seja uma opção para casais sorodiscordantes que planejam ter filhos. Portanto, no sexo, soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável já são como soronegativos. “Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe”, explicou Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em 2015. “É mais poderoso que a camisinha.”

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Por conta desta eficácia do tratamento como prevenção na transmissão do HIV, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, estabeleceu uma meta, que determina que “90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu status; que 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral; e que 90% das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral suprimida e não mais possam transmitir o vírus”.

A Suécia foi o primeiro país a alcançar essa meta. Se ela for alcançada por mais países, a epidemia de HIV/aids será virtualmente controlada até 2030, com apenas 200 mil infecções por ano, ante as 2,1 milhões de novas infecções em 2015. Restarão com HIV no mundo as atuais 36,7 milhões de pessoas soropositivas, aproximadamente, dentre as quais eu estou incluído.

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Em 2030, qual será a diferença entre soropositivos e soronegativos? Se os gráficos acima estiverem certos, muito pouco: continuaremos a não morrer de aids, teremos uma expectativa de vida igual a de soronegativos e, ao invés de um comprimido por dia composto por três medicamentos, provavelmente teremos uma única pílula composta por um único antirretroviral — quem sabe, administrável em doses mais espaçadas que a atual dose diária. Para ser aprovado pelas autoridades de saúde, esse tratamento terá de continuar a manter a nossa carga viral indetectável e, por isso, continuaremos incapazes de transmitir o HIV.

Até lá, esperamos que viajantes com HIV não sejam mais deportados ou impedidos de entrar em alguns países, como ainda acontece hoje. Esperamos que mulheres com HIV na Rússia não sejam mais presas por não revelar sua condição sorológica aos seus parceiros e que elas não sejam mais esterilizadas à força em Uganda, tal como tem acontecido enquanto você lê esse texto. Esperamos que não hajam mais leis criminalizantes, que ainda hoje punem desproporcionalmente aqueles que vivem com HIV — como em alguns estados americanos, por exemplo, que já chegaram à condenar soropositivos que cuspiram ou morderam outras pessoas a 35 anos de prisão, e nos Emirados Árabes, onde um soropositivo está preso há mais de 10 anos por ter HIV.

Enfim, esperamos, tal como a meta proposta pelo Unaids, que nos próximos anos não haja mais estigma, discriminação e preconceito contra quem vive com HIV. Nesse cenário, o que é que restará de diferente?

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“Carregamos cerca de 100.000 pedaços de DNA que vieram de retrovírus, conhecidos como retrovírus endógenos. No total, eles compõe estimados 5 a 8% de todo o genoma humano”, explica uma matéria da National Geographic, de 2015, que teve a colaboração de Carl Zimmer, autor do livro A Planet of Viruses.

“Os cientistas sabem que esta fusão aconteceu porque os vírus têm genes distintos. Quando os cientistas vasculham o genoma humano, às vezes se deparam com um trecho de DNA que carrega marcas de um vírus. O tipo mais fácil de vírus de reconhecer são os retrovírus, um grupo que inclui o HIV. Retrovírus fazem cópias de si mesmos infectando as células e, em seguida, usando uma enzima para inserir seus genes no DNA da célula hospedeira. Em seguida, a célula lê o DNA inserido e faz novas moléculas que se montam em novos vírus.

“Na maioria das vezes, os retrovírus se comportam como outros vírus, saltando de um hospedeiro para outro. Mas, por vezes, um retrovírus vai parar no genoma de um óvulo ou do esperma. Se, em seguida, ele terminar em um novo embrião, então o embrião vai levar uma cópia do vírus em cada uma de suas células, incluindo o seu próprio óvulo ou esperma. E assim por diante, de pais para filhos, aos netos.

“Não há como ter certeza de que estamos livres de novos retrovírus endógenos e se o HIV ou outros novos retrovírus irão dar um jeito e integrar nossos nossos genes” — se isso acontecer, bem, então os soronegativos é que vão ficar mais parecidos com soropositivos.


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A sobrevida estimada a partir dos 50 anos entre as pessoas que vivem com HIV na Dinamarca quase duplicou, passando de 11,8 anos, entre 1996 a 1999, para 22,8 anos, entre 2006 a 2014. Porém, a sobrevida estimada das pessoas soropositivas ainda é menor do que pessoas da mesma idade e sexo na população da Dinamarca.

A expectativa de vida com o HIV tem aumentado dramaticamente nos últimos anos, como as pessoas tomando combinações antirretrovirais mais fortes, mais seguras e mais convenientes. Alguns estudos sugerem que as pessoas com HIV estão vivendo quase tanto tempo quanto as pessoas sem HIV. Contudo, a análise da sobrevida projetada é complicada e nem todos os estudos constataram que as pessoas com HIV têm a mesma expectativa de vida que soronegativos. Por exemplo, um estudo da Califórnia descobriu que a diferença entre a expectativa de vida de 24.768 pessoas com HIV e 257.600 sem HIV caiu de 44 anos, entre 1996 a 1997, para apenas 12 anos, em 2011. Essa diferença persistiu mesmo em pessoas soropositivas relativamente saudáveis, que começaram terapia antirretroviral com uma contagem de CD4 acima de 500.

Por causa do aumento da sobrevida com HIV, pessoas com 50 anos ou mais representam uma proporção crescente de grupos de pessoas com HIV. E ainda pouco se sabe sobre a expectativa de vida com o HIV em pessoas com 50 anos ou mais. Para abordar esta questão, pesquisadores na Dinamarca realizaram um estudo de âmbito nacional de pessoas soropositivas pareadas por idade e sexo, comparando com pessoas sem HIV.

 

Como funcionou o estudo:

Todos que estão em tratamento contra a infecção pelo HIV na Dinamarca vão para algum dos oito centros de HIV, onde os cuidados de saúde, incluindo a terapia antirretroviral, são gratuitos. Desde janeiro de 1995, a Dinamarca mantém registros médicos eletrônicos de todas essas pessoas, incluindo dados sobre o tratamento antirretroviral, a contagem de CD4 e carga viral. Outros registros no país incluem dados atualizado regularmente sobre todos os residentes dinamarqueses que foram internados em algum hospital na Dinamarca, além de dados sobre mortes, emigração e imigração.

Este estudo avaliou as pessoas infectadas pelo HIV que atingiram a idade de 50 anos entre janeiro de 1996 e maio de 2014 e viveram durante pelo menos um ano depois de testar positivo para o HIV. Os pesquisadores compararam cada pessoa soropositiva à 6 pessoas da mesma idade e sexo na população comum. A equipe de pesquisa também identificou um grupo de pessoas soropositivas “bem tratadas” entre 2006 e 2014, que tinham tomado a terapia antirretroviral durante pelo menos 1 ano, tinham carga viral abaixo de 500 cópias e uma contagem de CD4 igual ou superior a 350 depois de tomar antirretrovirais durante 1 ano e, também, que não tinham sido diagnosticadas com qualquer doença relacionada à aids ou doença grave não-relacionada à aids. Os pesquisadores compararam cada uma dessas pessoas bem-tratadas com HIV à 6 pessoas na população comum que não tinham infecção pelo HIV ou qualquer outra doença grave.

A equipe de pesquisa usou os registros nacionais para determinar o tempo de 50 anos de idade e morte por qualquer causa, data de saída Dinamarca e data da última visita médica registrada para pessoas com HIV. Eles utilizaram um método estatístico padrão para determinar a sobrevivência de pessoas que entraram no grupo de estudo em três períodos: 1996-1999, 2000-2005 e 2006-2014. Esta análise deu aos pesquisadores uma taxa de mortalidade por todas as causas. Os pesquisadores também calcularam a razão da taxa de mortalidade comparando a mortalidade no grupo de pessoas HIV ao grupo da população em geral.

 

O que o estudo descobriu:

O estudo identificou 2.440 pessoas soropositivas de 50 anos de idade ou mais e 14.588 pessoas na população em geral combinadas com o grupo com HIV por idade e sexo. No grupo com HIV, 530 pessoas (21,7%) morreram durante o período do estudo, em comparação com 1.388 pessoas (9,5%) na população em geral.

Entre as pessoas com HIV, a média de sobrevivência estimada a partir de 50 anos de idade aumentou de 11,8 anos em 1996-1999 para 17,8 anos no período 2000-2005 e para 22,5 anos em 2006-2014. Para o grupo de comparação da população em geral, a sobrevida mediana de 50 anos de idade foi de 30,2 anos ao longo de todo o período do estudo. Em outras palavras: uma pessoa soropositiva de 50 anos de idade em 1996-1999 poderia esperar viver até aos 67,8 anos, enquanto uma pessoa soropositiva de 50 anos de idade em 2006-2014 poderia esperar viver até os 72,5 anos. Contudo, o grupo com HIV e 50 anos de idade em 2006-2014 não alcançou a população em geral, que poderia esperar viver até aos 80,2 anos.

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Para todo o período do estudo, 1996-2014, os pesquisadores compararam a chance de morte por qualquer causa relacionado ao HIV contra causas não relacionados ao HIV em grupos etários agrupados por 5 anos, expressando a razão da taxa de mortalidade. Em comparação com pessoas compatíveis na população em geral, as pessoas de 50 a 55 anos de idade com HIV tiveram 3,8 vezes mais chance de morte durante todo o período do estudo. A maior chance de morte com o HIV cresceu menos nos grupos etários mais velhos. Contudo, o grupo de 75 a 80 anos de idade com HIV ainda tinham 1,6 vezes mais chance de morte do que as pessoas compatíveis na população em geral. A razão da taxa de mortalidade, comparando as taxas de mortalidade em pessoas com e sem HIV foram mais elevadas em 1996-1999 e caíram em todas as faixas etárias em 2000-2005 e 2006-2014.

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Em seguida, os pesquisadores se concentraram nas 517 pessoas com HIV “bem tratadas”, que não tinham sido diagnosticadas com uma doença relacionada à aids e não tinham qualquer doença grave não-relacionada à aids um ano depois de começar a terapia antirretroviral. Os pesquisadores combinaram as 3.192 pessoas na população em geral que não têm uma doença grave por idade e sexo.

A sobrevida média estimada a partir de 50 anos de idade no grupo com HIV foi de 25,6, em comparação com 34,2 anos no grupo de comparação da população em geral. Em outras palavras: pessoas com 50 anos de idade e relativamente saudáveis com HIV poderiam esperar viver até aos 75,6 anos, em comparação com 84,2 anos na população em geral. Comparando as taxas de mortalidade em pessoas soropositivas com a população em geral, a taxa de mortalidade de 1,7 significa que as pessoas de 50 anos de idade relativamente saudáveis com HIV tiveram uma taxa de mortalidade 70% maior.

 

O que estes resultados significam para você:

Este estudo nacional da Dinamarca descobriu que pessoas de 50 anos de idade com HIV podem esperar viver mais tempo se completaram 50 anos em 2006-2014 do que aqueles que completaram 50 anos de idade em 2000-2005 — e muito mais do que aqueles que completaram 50 anos de idade em 1996-1999. Pessoas soropositivas de 50 de idade e mais velhas que evitaram aids e doença graves não-relacionadas à aids por conta da terapia antirretroviral podem esperar viver ainda mais tempo.

Ainda assim, os grupos com HIV ainda não alcançaram a expectativa de vida de pessoas na população em geral na Dinamarca, na mesma idade e sexo. A recente comparação de 24.768 pessoas soropositivas na Califórnia e 257.600 pessoas sem HIV descobriram resultados semelhantes.

Grandes estudos como estes mostram que as recentes melhorias na terapia antirretroviral e cuidados de saúde para o HIV estão ajudando as pessoas soropositivas a viver muito mais tempo com a infecção. Contudo, as pessoas soropositivas ainda enfrentam mais desafios de saúde do que as pessoas sem HIV. Estes desafios incluem taxas mais elevadas de algumas doenças graves, como doenças cardíacas, câncer, diabetes e doença renal ou hepática. Pessoas soropositivas devem trabalhar com seus médicos para cuidar de doenças não-relacionadas à aids que podem representar alguma ameaça específica e tomar medidas para reduzir as chances de contrair essas doenças. Soropositivos que já têm uma doenças não-relacionadas à aids podem tomar medidas para controlá-las.

A coisa mais importante que você pode fazer para viver mais tempo mesmo com o HIV é tomar todos os seus antirretrovirais regularmente, exatamente como seu prescrito pelo médico. Se você tem dificuldade para tomar as pílulas regularmente, fale com o seu médico a respeito de encontrar maneiras de melhorar a ingestão do comprimido. Às vezes, pode ser possível mudar para uma combinação antirretroviral na qual se sente mais confortável de tomar.

Cuidar bem da sua saúde geral é importante para todas as pessoas com HIV, mais especialmente para pessoas com 50 anos de idade ou mais. Muitas doenças graves tornam-se mais frequentes à medida que uma pessoa envelhece, tenha esta pessoa HIV ou não. Este estudo concluiu que pessoas com 50 anos ou mais que controlam a sua infecção pelo HIV e evitam a aids e doenças graves não-relacionadas à aids podem esperar viver mais tempo do que as pessoas que adquirem essas doenças.

Por The Center for Aids Information & Advocacy para The Body Pro em setembro de 2016


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Desde a implementação da terapia antirretroviral combinada, a tendência de surgimento de câncer em pessoas que vivem com HIV tem mudado. As taxas de alguns tipos de câncer, como o Sarcoma de Kaposi, diminuíram. Outros, no entanto, como o câncer anal, têm de fato aumentado nos últimos anos. O que está acontecendo e o que as pessoas que vivem com HIV devem saber sobre seu risco para o câncer, à medida que envelhecem?

Em uma sessão na Conferência Internacional de Aids 2016, o Dr. Benigno Rodríguez resumiu o que os pesquisadores sabem sobre o risco de desenvolvimento de certos tipos de câncer entre as pessoas na América do Norte que vivem com HIV. Aqui está o que nós aprendemos.

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Neste gráfico, a linha azul mostra a incidência de cânceres não relacionados com aids, enquanto a linha verde mostra a incidência de tipos de câncer relacionados à aids, ao longo do tempo.

No geral, a taxa de incidência de cânceres relacionados com a aids diminuiu ao longo do tempo, desde cerca de meados do ano 2000. Isto não é surpreendente, uma vez que menos pessoas que vivem com o HIV têm ou vão desenvolver aids, graças aos tratamentos mais eficazes. Ao mesmo tempo, a taxa de incidência de cânceres não relacionados à aids tem aumentado ao longo do tempo. Cânceres relacionados à aids incluem o Sarcoma de Kaposi e Linfoma não-Hodgkin. Cânceres não relacionados com a aids incluem câncer de pulmão e fígado.

 

Risco de câncer para pessoas vivendo com HIV na era da terapia antirretroviral:

Em um estudo publicado na revista Annals of Internal Medicine, os pesquisadores analisaram as tendências no risco de câncer em uma população de mais de 86.000 pessoas que vivem com HIV e compararam-na ao risco de câncer de quase 200.000 pessoas soronegativas.

Em resumo, segundo Rodríguez, as pessoas que vivem com HIV tiveram maiores taxas de todos os tipos de câncer analisados, mesmo na era da terapia antirretroviral. Por exemplo, a taxa de incidência, por 100.000 pessoas-ano, de desenvolver Linfoma não-Hodgkin foi de 154 para as pessoas que vivem com o HIV e 13 para as pessoas soronegativas. Outras comparações da taxa de incidência estão listadas na tabela, abaixo:

Taxa de incidência entre pessoas vivendo com HIV Taxa de incidência entre soronegativos
Sarcoma de Kaposi  130 0,2
Linfoma não-Hodgkin 154 13
Câncer de pulmão 129 45
Câncer anal 60 1
Câncer colorretal 36 28
Câncer de fígado 46 11
Linfoma Hodgkin 34 2
Melanoma 16 15
Cavidade oral / Câncer de faringe 34 18
Morte 3686 833

Estes são os valores brutos das taxas de incidência, os quais, no entanto, podem ser influenciados por diversos fatores que não são levados em consideração em relatórios de risco. Por exemplo: as pessoas no grupo soropositivo têm idades diferentes, vivem com HIV há quantidades diferentes de tempo, estão tomando medicamentos diferentes e assim por diante.

 

Risco de alguns tipos de câncer diminuiu ao longo do tempo devido a terapia antirretroviral:

O risco de desenvolver cânceres relacionados à aids, incluindo Sarcoma de Kaposi e Linfoma não-Hodgkin, diminuíram drasticamente entre pessoas vivendo com HIV na América do Norte. No entanto, o risco global ainda é muito maior entre pessoas que vivem com HIV, em comparação com as pessoas que são soronegativas.

 

Risco de alguns tipos de câncer aumentou ao longo do tempo, mesmo sob antirretrovirais:

Em parte porque as pessoas estão vivendo mais, o risco de desenvolver alguns tipos de câncer durante a vida tem aumentado. Pessoas que vivem com HIV — aquelas que vivem até 75 anos de idade — têm se mostrado mais propensas a desenvolver câncer de pulmão, anal, colorretal, de fígado e cavidade oral / câncer de faringe nos anos mais recentes do que eram na segunda metade da década de 1990.

Aqui está a taxa de risco para o desenvolvimento de cada tipo de câncer aos 75 anos de idade para cada tipo de câncer. Você pode ver que o maior risco para estes cânceres está, de fato, nos anos mais recentes.

Anos recentes (2005 – 2009) 2000-2004 1996-1999
Câncer de pulmão 3,7 3,0 1,8
Câncer anal 1,7 1,4 0,6
Câncer colorretal 1,3 0,7 0,4
Câncer de fígado 1,4 0,9 0,4
Cavidade oral / Câncer de faringe 1,0 0,6 0,5

 

Comparação com as pessoas soronegativas:

Para alguns tipos de câncer, como o Sarcoma de Kaposi, Linfoma não-Hodgkin, Linfoma Hodgkin e câncer anal, o risco para as pessoas soropositivas é muito diferente (maior) do que para as pessoas que são soronegativas.

Para outros, incluindo o câncer de pulmão, câncer colorretal, melanoma e cavidade oral / câncer de faringe, o risco é mais similar entre pessoas soropositivas e soronegativas. Por tudo isso, o risco de desenvolvê-los aos 75 anos aumentou desde a década de 1990.

 

Por que o risco aumentou?

O sistema imunológico é provavelmente responsável por mediar o risco de câncer, explica Rodriguez. “Há décadas nós temos falado — quase há tanto tempo quanto a duração da epidemia — sobre o papel do sistema imunológico”, disse ele.

O estudo Start, que analisou o efeito do tratamento antirretroviral iniciado imediatamente após o diagnóstico de HIV contra o tratamento iniciado mais tarde, traz insights. As pessoas que receberam o tratamento imediatamente — e assim melhoraram a sua saúde imunológica com a terapia antirretroviral — mostraram um risco muito menor de desenvolver Sarcoma de Kaposi, linfoma maligno e cânceres não relacionados com a aids.

Os pesquisadores também investigaram o papel do sistema imunológico em contribuir para o risco de câncer, comparando risco de desenvolver câncer entre respondedores e não-respondedores à vacina da hepatite B. (“Respondedores” têm sistemas imunológicos que geram a resposta imune protetora diante de uma vacina.) Um estudo, com cerca de 1.500 pessoas, descobriu que respondedores à vacina apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver câncer ao longo de 20 anos de acompanhamento, em comparação com os não-respondedores à vacina. Isso contribui para evidenciar que as pessoas com sistemas imunes em melhor funcionamento podem ter menor risco de desenvolver câncer.

O controle da replicação viral entre as pessoas que vivem com o HIV também pode ser a chave, disse Rodríguez. Um estudo, que ele compartilhou, mostrou que o risco de desenvolver Linfoma não-Hodgkin após oito anos de alcançar a supressão viral foi significativamente maior entre as pessoas que tiveram suas cargas virais novamente detectáveis, para níveis de mais de 500 cópias/mL. Pessoas que mantiveram suas cargas virais indetectáveis (menos de 50 cópias/mL) tiveram menor risco, enquanto as pessoas com cargas virais entre 51 a 500 cópias/mL estavam no meio.

 

O que aprendemos até agora?

Embora as pessoas que vivem com HIV pareçam estar sob maior risco de desenvolver alguns tipos de câncer, existem maneiras de reduzir este risco. A terapia antirretroviral universal e iniciada cedo é fundamental, assim como continuamente verificar que o tratamento está funcionando para manter a carga viral baixa e a saúde imunológica alta.

Mais exames e tratamento agressivo para muitos cânceres não relacionados à aids podem ser recomendados, disse Rodríguez, além de reduzir a inflamação residual e ativação imune, quando possível.

Por Emily Newman para Beta Blog em 31 de agosto de 2016

Fonte: Rodríguez, B. Cancer trends in North America over the past decade. Aids 2016, TUSY0805.