Carga viral ou PCR Quantitativo para o HIV é um exame que conta indiretamente a quantidade de vírus presente no organismo através da quantificação de RNA viral presente no plasma sanguíneo. Esse processo é feito por amostragem. O ideal é que a carga viral seja sempre “indetectável”, “indeterminada”, “zero” ou próxima disso.

Em novembro de 2011, escrevi um post sobre o risco de transmissão do HIV. Hoje, faço sua atualização. Finalmente, o Centros de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês: Centers for Disease Control and Prevention — CDC) publicou uma tabela clara e atualizada a respeito dos riscos de transmissão do vírus. Para nós, talvez mais importante que a própria tabela seja o texto que a antecede. Traduzo tudo isso abaixo.

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Risco de Transmissão do HIV

O risco de contrair HIV varia muito, dependendo do tipo de exposição. Algumas exposições, como a exposição ao HIV durante uma transfusão de sangue, apresentam um risco muito maior de transmissão do que outras exposições, como sexo oral. Para algumas exposições, o risco de transmissão, embora biologicamente plausível, é tão baixo que não é possível fornecer um número preciso.

Diferentes fatores podem aumentar ou diminuir o risco de transmissão. Por exemplo, fazer uso de terapia antirretroviral (os medicamentos para tratar a infecção pelo HIV) pode reduzir o risco de uma pessoa infectada pelo HIV em transmitir a infecção para outro em até 96%¹, e uso consistente do preservativo reduz o risco de contrair ou transmitir o HIV em torno de 80%². Com a camisinha e terapia antirretroviral combinadas o risco de contrair HIV através de exposição sexual é reduzido em 99,2%³. No entanto, ter uma doença sexualmente transmissível (DST) ou um alto nível de vírus HIV no sangue (o que acontece nas fases iniciais e finais da infecção) pode aumentar o risco de transmissão.

A tabela abaixo relaciona o risco de transmissão por 10.000 exposições e por tipos de exposição.

Probabilidade Estimada de Contrair HIV de uma Fonte Contaminada por Ato, por Exposição

Tipo de Exposição Risco por 10.000
Exposições
Parentérica³
Transfusão de sangue 9.250
Compartilhamento de seringas para uso de drogas 63
Percutâneo (com agulha) 23
Sexual³
Sexo anal receptivo 138
Sexo anal insertivo 11
Sexo pênis-vaginal receptivo
8
Sexo pênis-vaginal insertivo 4
Sexo oral receptivo baixo
Sexo oral insertivo baixo
Outros*
Mordendo negligenciável4
Cuspindo negligenciável
Arremessando fluidos corporais (incluindo sêmen ou saliva) negligenciável
Compartilhando brinquedos sexuais negligenciável

* A transmissão do HIV através destas vias de exposição é tecnicamente possível, mas é improvável e não bem documentada.

Referências

¹ Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, et al; HPTN 052 Study Team. Prevention of HIV-1 Infection with early antiretroviral therapy. N Engl J Med 2011;365(6):493-505.

² Weller SC, Davis-Beaty K. Condom effectiveness in reducing heterosexual HIV transmission (Review). The Cochrane Collaboration. Wiley and Sons, 2011.

³ Patel P, Borkowf CB, Brooks JT. Et al. Estimating per-act HIV transmission risk: a systematic review. AIDS. 2014. doi: 10.1097/QAD.0000000000000298.

4 Pretty LA, Anderson GS, Sweet DJ. Human bites and the risk of human immunodeficiency virus transmission. Am J Forensic Med Pathol 1999;20(3):232-239.

Última atualização da página: 01 de maio de 2014. Fonte de conteúdo: Centros de Controle e Prevenção de Doenças

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É razoável existir algum descompasso entre o conhecimento leigo e o que os médicos e cientistas sabem. Eu mesmo era um completo ignorante a respeito de HIV e aids e, quando recebi o diagnóstico positivo, morri de medo de meu futuro. Foram preciso horas e mais horas de conversa com meu médico e tantas outras de pesquisa em fontes confiáveis para que esse medo diminuísse ou fosse delimitado ao seu devido lugar. No entanto, com o que aprendi desde então, percebi que no que diz respeito ao HIV e aids o descompasso do conhecimento leigo entre o médico e científico é gigantesco. Melhor dizendo, é abissal. E é aqui que nasce o medo injustificado, responsável pelo estigma, o preconceito e a discriminação. Agora, já é tempo disso tudo acabar.

Na última semana, esteve bastante em pauta uma conversa entre os participantes do “BBB14”, na qual ficou claro o profundo desconhecimento a respeito da epidemia, da vida de um soropositivo nos dias de hoje e do risco de transmissão do vírus. Um dos participantes disse que uma pessoa que vive com HIV “geralmente não dura mais de 40 anos”, ao que uma participante sugeriu “matar todo mundo”. Por fim, ela ainda diz-se irritada pelo fato da origem da doença ter vindo por “um idiota que foi transar com um macaco.”

Vamos por partes. Sim, o HIV veio de fato do macaco, mas não necessariamente por via sexual. Acredita-se que o hábito de algumas tribos africanas de se alimentarem deste animal, em processos que envolviam grande contato com seu sangue, é que tenha possibilitado a mutação do SIV, o vírus da imunodeficiência símia, para o HIV, o vírus da imunodeficiência humana. Como se sabe há algum tempo, a proximidade do homem com qualquer animal é sempre passível de criar condições de adaptação de vírus e bactérias entre as espécies, tal como aconteceu recentemente com as gripes suína e aviária.

Já a sugestão de “matar todo mundo” para acabar com a epidemia não é tão simples assim. Ela teria de vir acompanhada de testagem compulsória de todo e qualquer ser humano. Afinal, acredita-se que para cada soropositivo diagnosticado existam três que não foram diagnosticados. Com isso, surgem aqui dois problemas. O primeiro é o mais evidente: em grande parte do planeta, costuma ser ilegal matar, que dirá matar portadores de enfermidades. Em segundo, pelo menos no Brasil, também é ilegal realizar a testagem compulsória e inclusive exigir o teste de HIV para admissão em emprego ou contratação de qualquer bem e serviço.

Matar apenas os voluntariamente diagnosticados também não resolveria em nada. Pois, como já é sabido pela comunidade médica e científica, aqueles que fazem o diagnóstico e se cuidam não são o problema. Ao contrário: aqueles que vivem com o vírus e não sabem, pois não fazem o teste de HIV e portanto não se cuidam, é que são os maiores responsáveis pela transmissão do HIV. E digo isso sem qualquer exagero e com respaldo de importantes pesquisas científicas.

Dois grandes estudos, HPTN 052 e PARTNER, têm mostrado que o tratamento antirretroviral “reduz drasticamente a transmissão do HIV”, conforme explica o pesquisador, infectologista e imunologista (e meu médico), Dr. Esper Kallás. Segundo ele: “No estudo HPTN 052, dos 39 casos de pessoas que contraíram o vírus, 11 se infectaram de outra pessoa que não seu parceiro sexual fixo que estava no estudo. Isso foi comprovado com análises genéticas do vírus, num procedimento restrito à pesquisas científicas. A conclusão é que é fundamental sempre fazer sexo com proteção, independentemente da pessoa com quem se relaciona. Ainda assim, a única infecção que aconteceu em quem era parceiro de alguém positivo para o HIV e que vinha se tratando se deu na fase inicial do uso dos remédios, quando a quantidade de vírus ainda vinha diminuindo. Isso reforça a clara relação entre a quantidade de vírus no corpo e a possibilidade de transmissão.”

Vale lembrar que o HPTN 052 analisou mais de 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV) ao longo de 78 semanas. O PARTNER, por sua vez, inclui 800 casais sorodiscordantes nos quais o parceiro soropositivo faz tratamento antirretroviral há pelo menos cinco anos. Estes já relataram mais de 30 mil relações sexuais, muitas das quais sem preservativo. E, até agora, em dois anos de estudo, não foi identificado um único caso sequer de transmissão do HIV entre os participantes. Ambos os estudos contrariam bastante a cartilha da Fifa que recomenda a abstinência sexual como forma de evitar o HIV — e segue sendo distribuída nas escolas, mesmo indo contra a postura brasileira nas ações de prevenção, a qual sempre teve como base o uso do preservativo.

Mas o mais curioso desta discussão que se deu no “BBB14” é que ela é muito similar ao que se sucedeu em 1987, numa pequena cidade de 5600 habitantes do estado da Virgínia Ocidental, nos EUA. À época, o jovem Mike Sisco tinha acabado de ser diagnosticado positivo para o HIV e retornava para sua cidade com o objetivo de passar seus últimos dias ao lado da família. Com o calor, ele resolveu dar um pulo na piscina pública da cidade, o que acabou gerando um grande alvoroço: mães correram para tirar seus filhos da água e o prefeito ordenou a interdição da piscina, para esterilizá-la. A história ganhou grande repercussão e foi parar na TV, no programa de Oprah Winfrey, onde um médico foi convidado para participar e esclarecer à população que Mike não representava uma ameaça. Mesmo assim, neste programa que aconteceu há 27 anos, pelo menos dois dos moradores entrevistados sugeriram que soropositivos deveriam ser colocados em quarentena, e um deles acrescentou que, feito isso, “a natureza cuidaria de extinguir todos os portadores do vírus da face da Terra.” Mike Sisco terminou por deixar a cidade e viveu ainda por mais sete anos.

Desde então, o tratamento melhorou enormemente e a nossa expectativa de vida também. Hoje, contrariando o brother, não é verdade que um soropositivo “não dura mais de 40 anos”. Um estudo recente analisou 22.937 participantes e concluiu que, pelo menos no continente norte-americano, a expectativa de vida dos soropositivos já é quase a mesma dos soronegativos. Uma das exceções, isto é, os que ainda não tem a expectativa tão próxima do normal, diz respeito ao grupo no qual eu estou inserido: aqueles que iniciaram o tratamento antirretroviral com contagem de células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, em número menor que 350. A contagem saudável dessas células é de pelo menos 500 e sua quantidade costuma decair de acordo com o tempo de exposição sem tratamento ao vírus. Ainda assim, conforme explica o Dr. Esper, “este é um assunto em evolução, já que os avanços vêm se acumulando ano após ano. Isso significa que teremos que constantemente rever os dados de expectativa de vida, cuja tendência é a de se equiparar com os que não vivem com HIV.”

Com tudo o que aprendi a respeito de HIV e aids desde meu diagnóstico, entendo que a melhor forma de controlar a epidemia é usando camisinha, inclusive debaixo dos edredons da casa mais vigiada do País. E paredão, só mesmo dentro do BBB. Fora dali, eliminar quem quer que seja não é a solução. Ao contrário: é preciso motivar o maior número de pessoas a cuidarem de sua saúde, fazendo voluntariamente o teste de HIV. Para tanto, todo indivíduo precisar ter consciência de que existe vida depois de um eventual diagnóstico positivo e que, conforme a Dra. Rosana Richtmann explicou aos brothers, essa vida pode sim ser completamente normal. Para isso, quanto antes for feito o teste de HIV, melhor. “Fazer o teste é o método mais efetivo para controlar a doença: diminui a mortalidade de quem tem o vírus e reduz o risco da transmissão”, afirma Alexandre Grangeiro, sociólogo que atua na área da prevenção na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em uma excelente matéria publicada no portal MdeMulher.

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A semana do Carnaval foi de festa para quem vive com HIV, mesmo longe dos desfiles e dos bloquinhos. Entre os dias 3 a 6 de março, aconteceu a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2014, em Boston, uma das mais importantes conferências de HIV e aids do mundo. Cientistas de todo o globo se reuniram para apresentar os avanços obtidos em suas pesquisas.

Para começar, temos um possível caminho para a cura que tem se mostrado muito promissor. Conforme matéria do New York Times, 12 voluntários que vivem com o vírus tiveram suas células CD4+ do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, retiradas, modificadas em laboratório e reintroduzidas nestes mesmos indivíduos. Nesse processo, o conector CCR5, que é o mais usado pelo HIV para se infiltrar na célula CD4+, foi suprimido. Como consequência, as células modificadas se tornaram imunes ao vírus, tal como acontece naturalmente nos indivíduos portadores da mutação CCR5 Delta 32, encontrados em geral no norte da Europa. O estudo se mostrou seguro e eficiente em manter a carga viral (que é a quantidade de vírus medida no sangue) indetectável por 12 semanas. E, agora, deve seguir adiante com mais voluntários. O único porém é que, como o procedimento envolve a alteração de DNA, a Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula os estudos médicos nos Estados Unidos, exige um acompanhamento destes voluntários pelos próximos 15 anos.

Mas para alguns a cura não está tão longe assim. Ou até já chegou. Muito possivelmente temos hoje mais uma bebê curada do vírus, além da “Bebê do Mississippi” — que já está com 3 anos de idade e continua sem sinal da presença do HIV em seu organismo. Ambas foram submetidas a um tratamento com os mesmos remédios que tomamos, os antirretrovirais. A diferença é que o tratamento foi iniciado logo após o parto, em até 48 horas, e mantido por um tempo determinado. O procedimento foi uma saída encontrada pelos médicos para o caso delas, em que a mãe foi diagnosticada soropositiva apenas no momento do parto, e que acabou dando certo. Agora, um estudo com 60 bebês nas mesmas condições deve ser iniciado e, se bem sucedido, o protocolo de tratamento para os 250 mil bebês infectados no momento do parto a cada ano deve ser revisto.

A ideia deste procedimento veio da profilaxia pós-exposição, medida comumente administrada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Ela consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantidos ao longo de um mês. É tal como fazer tratamento de HIV sem ter tido ainda resultado positivo para o HIV.

E, por falar em tratamento, ele também caminha para melhoras. Hoje tomamos algo entre duas doses de 4 a 7 comprimidos por dia. Nas décadas passadas, eram 30. No entanto, em breve, poderemos ter apenas uma única dose por mês: as empresas farmacêuticas GlaxoSmithKline e Johnson & Johnson estão desenvolvendo uma injeção para tratamento do HIV que pode ser administrada mensalmente. Os testes devem começar já nos próximos meses e os resultados são esperados para 2016. Se bem sucedidos, podem mudar para sempre a forma como tomamos os medicamentos para o vírus. Outro tratamento que possivelmente também está prestes a mudar é da hepatite C, doença que afeta quatro vezes mais indivíduos que o HIV. Sua coinfecção com o vírus da aids é um complicador no tratamento das duas doenças e, por isso, esteve na pauta da CROI deste ano. A novidade é que os cientistas identificaram as estruturas do HCV, vírus causador da hepatite, e, com isso, podem vir a desenvolver uma vacina, conforme relatado na revista Nature.

Outra injeção que acaba de ser testada em macacos sugere que é possível, com doses periódicas, prevenir a infecção pelo HIV. Essa injeção contém medicamentos que, nos animais, mostrou ter duração de 11 semanas. Como ela não estimula a imunização do organismo ao vírus, o procedimento é considerado uma profilaxia pré-exposição (ou PrEP), isto é, usa medicamentos para tratar o HIV como forma de prevenir o HIV. O estudo foi divulgado na Science, uma das mais respeitadas publicações do meio científico.

Por fim, também foi apresentado na CROI 2014 um estudo que está prestes a se juntar ao HPTN 052 como um grande aliado dos soropositivos. Este, conforme já contei aqui, mostra claramente que não é preciso temer contrair o vírus do portador de HIV que faz o diagnóstico e se cuida. Para alcançar suas sólidas conclusões, o HPTN 052 analisou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV), em sua maioria heterossexuais e ao longo de 78 semanas. Feito isso, concluiu que sempre que o parceiro soropositivo está em tratamento antirretroviral, com carga indetectável há pelo menos 6 meses e sem nenhuma coinfecção com outra DST, o risco de transmissão do vírus é reduzido em 96%. Em 2011, a revista Science nomeou o HPTN 052 como a “descoberta científica do ano”, vindo de encontro com o famoso Swiss Statement, a declaração feita em 2008 pela Comissão Nacional de Aids da Suíça, a qual afirmava que o uso do tratamento antirretroviral na prevenção de novas infecções era plenamente eficaz e atestava que uma pessoa com HIV que segue o seu tratamento de forma consistente, conforme prescrito e não tem nenhuma outra DST “não coloca seu parceiro soronegativo em risco de transmissão por contato sexual.”

Com isso, o HPTN 052 ajudou a descriminalizar a transmissão não-intencional do HIV e a reduzir o estigma contra os soropositivos. E agora ele não está sozinho. De acordo o AidsMap, o novo estudo PARTNER, apresentado na CROI, pretende ir mais longe e responder às perguntas deixadas em aberto pelo HPTN 052. Ele ainda está em andamento, com previsão de conclusão para 2017, mas seus resultados preliminares já são bastante promissores. Um dos objetivos do PARTNER é atestar se a redução de 96% no risco de transmissão, já aferida em casais heterossexuais, se aplica também aos homossexuais e ao sexo anal, que é a maneira de sexo que apresenta mais alta transmissibilidade. Para isso, 40% dos voluntários dessa pesquisa são casais homossexuais. Todos os casais participantes do estudo, homo ou heterossexuais, são sorodiscordantes, não fazem sexo com preservativo em todas as relações e o parceiro soropositivo está sob tratamento antirretroviral há pelo menos 5 anos.

Durante o acompanhamento inicial dos participantes, verificou-se que 94% dos participantes soropositivos homossexuais estavam com carga viral indetectável no início do estudo, contra 85% dos heterossexuais soropositivos. Também aferiu-se que homossexuais usam camisinha com mais frequência que heterossexuais. Aliás, todos os casais sorodiscordantes heterossexuais transaram sem camisinha, nas quais o parceiro soronegativo afirmou haver ejaculação pelo sexo vaginal em 72% das vezes. Por sua vez, 70% dos parceiros soronegativos homossexuais afirmaram fazer sexo anal receptivo, no qual 40% das vezes incluía ejaculação. Uma proporção significativa dos casais heterossexuais afirmou fazer sexo anal. O sexo desprotegido fora do relacionamento estável mostrou-se mais comum entre homossexuais. Talvez por conta disso, 16% dos homossexuais apresentaram outras DSTs, como sífilis ou gonorreia, contra 3 a 4% dos heterossexuais. Contudo, contrariando o estudo HPTN 052, a presença de outras DSTs não se mostrou uma variável importante na transmissibilidade do HIV para estes participantes.

As descobertas feitas até o momento são interessantíssimas. Durante o estudo aconteceram transmissões do vírus, sim, mas única e exclusivamente entre aqueles que “pularam a cerca.” Noutras palavras, o vírus veio do parceiro que não estava no estudo, o que foi comprovado por testagem genética do HIV de cada uma das infecções. Conclui-se então que os parceiros com quem os participantes transaram fora do estudo eram soropositivos sem tratamento e, portanto, muito possivelmente com carga viral alta. Entre os casais voluntários do estudo que não tiveram relações sexuais fora do relacionamento e cujos parceiros estáveis positivos para o HIV estavam com carga viral inferior à 200 cópias/ml de sangue, não houve um único caso sequer transmissão do vírus, mesmo sem uso do preservativo em todas as relações sexuais.

Evidentemente, trata-se ainda de uma aferição preliminar e de uma amostragem do que ocorre no mundo real. Ainda assim, quando a Dra. Alison Rodger, que apresentou o estudo na CROI, foi indagada sobre o que o PARTNER nos diz a respeito da possibilidade de alguém com carga viral indetectável ​​transmitir HIV, ela disse:

“– Nossa melhor estimativa é que é zero.”

Entretanto, ainda existe a pior estimativa. E, no pior cenário, a análise estatística mostra que as chances de transmissão pelo sexo sem preservativo ainda são consideráveis, sim: de 2% ao ano para o sexo vaginal com ejaculação, de 2,5% para o sexo anal receptivo e de 4% para o sexo anal receptivo com ejaculação, nos casos em que o parceiro soronegativo é o receptivo. Para evitar esse risco, o único jeito é usar camisinha, a qual é plenamente segura. Portanto, a lição a ser tirada de ambos os estudos, HPTN 052 e os resultados preliminares do PARTNER, é que com consciência de seu estado de saúde, o uso de antirretrovirais num eventual diagnóstico positivo e carga viral suprimida associados ao uso da camisinha, fica, de fato, muito mais que plenamente seguro. E se você não sabe o status sorológico do seu parceiro sexual, a solução é a mesma: use camisinha. Com ela, o risco sempre foi e continua sendo próximo de zero.

Para escrever este post, agradeço a contribuição de meus leitores e colaboradores no blog Soropositivos.com, que me ajudaram a reunir todas as fontes e matérias citadas aqui.

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Outro dia, enquanto andava de metrô, escutei um casal conversando. Um deles dizia:

“– Hoje os jovens não usam mais camisinha porque ouvem dizer por aí que para o tratar o HIV basta tomar uns remedinhos.”

Vamos por partes. Antes, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais. Isso mostra que os medicamentos para disfunção erétil devem estar funcionando! Mas será que sugere que o medo do HIV realmente sumiu? Eu acho que não.

Acho que o medo continua, e ele não é (mais) capaz de conscientizar sobre o uso do preservativo. Nos dias de hoje, assustar não adianta. É preciso informar. Falar a real. E muito claramente.

Digo isso porque quando eu não usei camisinha, não fiz isso consciente de como era a vida de um soropositivo. Então, eu não sabia se bastaria tomar uns remedinhos ou não. Sequer sabia que havia remédios para o HIV, quais são e o que eles fazem. As aulas de educação sexual que tive na escola nunca me explicaram isso, mas apenas se detinham sobre o uso da camisinha. Então, a verdade é que eu simplesmente não pensava no vírus e nem nas suas implicações. Só fui fazer isso depois do diagnóstico.

Então, quase sem conhecimento algum, quando li “HIV positivo” no resultado do meu teste eu tive um choque. Morri de medo do HIV — ou, melhor dizendo, morri de medo dele me matar! Mas aprendi que não precisa ser assim. Com o passar do tempo, fui percebendo que eu tinha muitos mitos e preconceitos sobre o que era o HIV, a aids, o tratamento, o diagnóstico e até mesmo a prevenção. Concluí que era interessante aprender sobre tudo isso para compreender sobre a minha condição e, também, para explicar às pessoas a minha volta. E é isso o que faço aqui.

Na minha experiência como soropositivo entendi que o HIV, em todos os seus aspectos, está muito ligado à duas constantes: o cuidado e o tempo. O medo do HIV diminui, se é que não some por completo, quando entendemos que os problemas surgem se essas duas constantes não forem respeitadas. Aliás, elas estão presentes em todas as etapas relacionadas ao vírus: prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na prevenção, como sabemos, o principal cuidado é a camisinha. O uso dela torna o sexo seguro. No entanto, em situações excepcionais em que ocorrer falha, rompimento ou não uso da camisinha durante a penetração, a profilaxia pós-exposição pode ser indicada, depois de uma avaliação médica. A profilaxia só funciona se iniciada em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantida corretamente e seguindo as instruções médicas ao longo de todos os dias das semanas seguintes, mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais desagradáveis que podem surgir. Se não houver indicação médica para a profilaxia ou se o prazo de 72 horas for perdido, o jeito é seguir para o diagnóstico.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. A razão disso é bem simples: quanto mais tempo o organismo ficar exposto ao vírus, sem cuidado, pior. Afinal, se a habilidade do HIV é danificar o sistema imune, quanto mais tempo ele tiver livre para isso, maior será o dano causado. Em números: aproximadamente 25% das pessoas que demoram a se diagnosticar podem vir a não recuperar totalmente o seu sistema imune, grupo que pode ter complicações a longo prazo e do qual talvez eu faça parte, enquanto mais de 10% das pessoas diagnosticas tão tardiamente que já apresentam aids não sobrevivem nas semanas seguintes. Portanto, o melhor é fazer o teste logo!

Mas o diagnóstico também depende do tempo. Somente quando terminar o período da “janela imunológica”, que nada mais é que o tempo que o seu organismo leva para produzir anticorpos contra o vírus, é que o resultado do teste é preciso. Nem um dia antes. As informações disponíveis sobre o período da janela imunológica, no entanto, são um pouco contraditórias, variando entre 30 e 60 dias. Meu médico, o Dr. Esper Kallás, um dos mais respeitados infectologistas do País, é da opinião que os testes de hoje apresentam resultados plenamente confiáveis com 30 dias da suposta exposição ao vírus.

Se o resultado do teste vier “positivo” ou “reagente”, o cuidado passa a ser feito todos os dias. E é aqui que entram os tais “remedinhos.” Eles são chamados de antirretrovirais. Têm a habilidade de inibir os processos que o vírus usa para entrar nas células CD4 do sistema imunológico que estão no sangue. Como o vírus é esperto e usa vários processos, o tratamento consiste numa combinação de antirretrovirais, e é por isso que é apelidado de “coquetel.”

No meu caso, o coquetel que tomo consiste em três antirretrovirais cujos comprimidos não são tão grandes e podem ser tomados todos juntos, de uma única vez e antes de dormir. Entretanto, existem mais de vinte antirretrovirais diferentes que formam diferentes combinações de coquetel. Algumas combinações incluem um maior número de comprimidos, outras não. Alguns comprimidos são maiores que outros. E alguns coquetéis devem ser administrados em maior frequência por dia que outros. É comum que, no começo do tratamento, surjam efeitos colaterais desagradáveis. Em geral, náusea, vômitos e diarreia. Mas é verdade também que estes costumam passar completamente com o tempo.

Como qualquer condição de saúde, mesmo sob tratamento o HIV ainda pode trazer algumas complicações para quem o porta. Com o tempo, o vírus pode desenvolver resistência aos antirretrovirais. Se isso acontece, troca-se de coquetel. Ainda assim, a resistência é algo que costuma surgir no longo prazo ou em pessoas que violam o cuidado necessário, não tomando o coquetel corretamente todos os dias. Embora cada vez mais raras, complicações pelo uso prologando dos antirretrovirais também podem surgir.

Por isso, para prevenir e manter a certeza de que está tudo indo bem é que fazemos exames regulares, a cada três ou quatro meses. Além dos exames comuns de um check up, fazemos dois outros exames a mais: um deles que avalia como anda o sistema imune e outro que conta o número de vírus que se encontra no sangue. Entretanto, os antirretrovirais de hoje são tão eficientes que na maioria dos casos essa contagem não pode ser feita porque nenhum vírus é encontrado. E o resultado do exame vem “indetectável.” Sempre que um tratamento de HIV é bem sucedido, é isso o que acontece. E a grande maioria dos tratamentos hoje é sim bem sucedida, como é o caso de 76% dos soropositivos que tomam antirretrovirais no Brasil. Eu mesmo, por exemplo, sou indetectável desde o primeiro mês de tratamento, há três anos, e desde então permaneço assim.

Sob tratamento, sem o vírus detectável no sangue ao longo de mais de seis meses e sem a presença de outras DSTs, a transmissibilidade do HIV é reduzida em 96%. Com camisinha, tudo se torna tão seguro que um soropositivo pode namorar com um soronegativo ou outro soropositivo, seja homem, mulher, travesti, transexual ou transgênero, sem que os parceiros tenham que ter qualquer medo do vírus.

Portanto, na prática, o que muda na vida de um soropositivo é a necessidade de fazer os exames rotineiramente e de tomar os remédios todos os dias. Fazendo as contas, se cada visita tri ou quadrimestral ao laboratório de exames leva mais ou menos duas horas e ao infectologista outras duas, e se considerarmos que o tempo de tomar os remédios é de 10 segundos por dia — duração mais que justa para se pegar um copo d’água e engolir os comprimidos — então, o HIV consome no máximo apenas 10 horas da vida de um soropositivo por ano.

Nas outras 8.750 horas deste mesmo ano, nossa vida não é nada diferente da sua. Tomamos café. Pegamos trânsito ouvindo Mílton Jung no Jornal da CBN. Será que o Pizzolato vai ser extraditado? Reclamamos do calor. É segunda feira? Tem vídeo novo do Porta dos Fundos! O horóscopo diz que hoje é um dia de “sensações vagas, arrepios e pressentimentos.” Atualizamos o status no Facebook. Lamentamos a morte de Philip Seymour Hoffman, grande ator! Lemos as notícias. O Papa defende a virgindade. Não, não foi dessa vez que acertamos a Mega Sena. Almoçamos arroz, feijão, salada de batata e carne. Trabalhamos. Depois, #partiu academia. Mas não gostamos de BBB. Compramos pipoca para assistir “Até Que a Sorte Nos Separe 2.” Ficamos indignados com Woody Allen e, depois, fazemos as pazes com ele. Acho que agora não gostamos muito é da Mia Farrow. E esses torcedores do Corinthians? Imagina na copa?! William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional. Lemos um livro do Dalai Lama. Hoje tem balada! E dormimos no sofá com a TV ligada.

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Aceitei o convite. Sou agora um dos blogueiros do Brasil Post, uma associação do Huffington Post com a Editora Abril. No primeiro post que publico neste novo espaço, conto da minha trajetória até aqui. Nada que você, leitor do blog, já não conheça. Apenas julguei apropriado me apresentar por lá, a um novo público com novos leitores.

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No dia 18 de outubro de 2010, por volta das 9 horas da manhã, descobri que sou soropositivo. Faz, portanto, pouco mais de três anos que convivo conscientemente com o vírus da aids, o HIV.

O meu diagnóstico se deu acidentalmente, no primeiro check up de rotina que fiz em minha vida, aos 26 anos de idade. Sim, foi inesperado e foi um susto. A primeira coisa que pensei foi que iria morrer. Essa foi, aliás, uma das perguntas que logo fiz ao médico infectologista que visitei, um dia após do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, doutor?”

“— Não, hoje não morre mais.”

Depois de me examinar, procurando por nódulos na garganta, axilas e atrás dos joelhos, o doutor me explicou que eu faria alguns exames. Disse também que, de acordo com os resultados destes, eu começaria um tratamento que deveria aderir diariamente, até o fim de minha vida ou até que descubram a cura. Me garantiu que minha situação de saúde não era alarmante e que, apesar de considerada uma “doença grave” o HIV não é, já há algum tempo, considerado mais como uma “doença letal”.

Ele não perguntou detalhes sobre a origem da minha infecção. Aliás, nunca médico algum fez esta pergunta. Mas, embora isto seja irrelevante do ponto de vista médico, com o tempo compreendi que esta é uma questão que suscita, sim, bastante curiosidade do público leigo. Por alguma razão, uma das primeiras perguntas que um soronegativo ou um indivíduo de sorologia desconhecida isto é, aquele ou aquela que nunca fez o teste de HIV é exatamente esta: como você pegou HIV?

Ouvi essa pergunta de três mulheres com quem saí depois de receber o meu diagnóstico. Por opção minha, e contrariando a sugestão de meu infectologista, eu preferi contar sobre a minha condição sorológica antes de qualquer relação sexual com elas. Como consequência, percebi que acabei criando certa subversão do status quo dos relacionamentos atuais. Afinal, no mundo de hoje, onde o sexo não mais é consequência da intimidade mas parte do processo de criação desta, não é simples encontrar os meios de revelar algo que, no fundo, é nada mais que algo importante e pessoal.

Como contar sem criar medo e pânico? Qual o momento certo? Quem são as pessoas certas e dispostas a ouvir tal revelação? Estas são as perguntas que rondam a mente de todo o soropositivo e soropositiva que pretende contar antecipadamente sobre sua condição sorológica a qualquer parceiro. No pensar demais sobre elas, algumas mulheres sentiram-se enroladas e rejeitadas e distanciaram-se de mim, o parceiro lento em avançar para o sexo. Percebi, então, que esta não era uma equação tão simples. A única solução, ao que me parece, é ser claro e direto, fazendo transpassar em minha fala a mesma tranquilidade que passei a ter com o vírus: com os devidos cuidados, ele não é nada demais nem contra mim e nem contra com quem faço sexo.

Com isso, levantei os pontos mais importantes a serem incluídos nos mesmo discurso da assustadora revelação, que é afinal dizer “eu tenho HIV”. Assim, às três mulheres com quem saí desde que fiquei solteiro, adiantei que bastaria usarmos camisinha para que a relação fosse completamente segura. Questionado sobre os riscos e o que fazer caso a camisinha estourasse, expliquei que minha carga viral isto é, a quantidade de vírus circulante no sangue é indetectável há exatos dois anos e onze meses e que não tenho qualquer outra doença sexualmente transmissível.

Nessas condições, conforme esclarecido pelo estudo HPTN 052, que analisou diversos casais sorodiscordantes, o risco de transmissão do HIV sem o uso de preservativo é reduzido em 96%. Logo, incluindo-se nessa conta o uso do preservativo, que possui estimada eficácia de 99%, a chance de transmissão do vírus é, digamos, quase a mesma de ser atingido por um cometa. A partir deste importante estudo, aliás, conclui-se também que transar com um indivíduo de sorologia positiva para o HIV desde que este esteja em tratamento, com carga viral indetectável há mais de 6 meses e sem nenhuma outra DST é mais seguro do que transar com um indivíduo de sorologia desconhecida. A razão disso é muito simples e lógica. Um indivíduo de sorologia desconhecida é, potencialmente, um portador não-tratado de HIV ou outra DST. Sem tratamento, sua carga viral pode ser alta, especialmente em casos de infecção recente, o que é, sabidamente, o estado mais crítico e arriscado para a transmissão do vírus.

Feito este discurso, duas das três mulheres escolheram em prosseguir com o relacionamento. Uma delas, o fez apenas após confirmar as informações com um médico. A outra, talvez por não ter feito isso, sentiu-se amedrontada e, depois da relação sexual, repetiu três vezes o teste de HIV todos negativos.

Minha ex-namorada, com quem, sem saber que estava infectado pelo vírus, transei diversas vezes ao longo de três anos sem preservativo, também não foi contaminada pelo HIV. Um milagre, sem dúvida alguma. Mas eu sou daqueles que acredita que milagres também têm explicação científica: aprendi depois que, uma vez que minha carga viral era naturalmente baixa, as chances de transmissão também eram baixas. Além disso, por ser descendente direta de europeus nórdicos, é bastante possível que ela seja naturalmente imune ao vírus, graças à mutação CCR5 Delta 32, que não confere às células CD4 do sistema imunológico o principal conector que o vírus usa para estabelecer a infecção.

De tão eficaz, um transplante de medula óssea a partir de um doador com esta mesma mutação a um paciente soropositivo que sofria de leucemia lhe conferiu, até o que se afere até o momento, a condição de primeiro curado do HIV no mundo. Timothy Ray Brown, também conhecido com “o Paciente de Berlim”, não faz mais uso de medicamentos antirretrovirais e não apresenta mais traços de infecção pelo vírus. A cura de Timothy foi reconhecida pela comunidade científica como “cura esterilizante”, isto é, ela eliminou a presença do vírus de seu organismo.

Outros 16 pacientes no mundo também são considerados curados. Quatorze soropositivos que participaram do estudo francês intitulado Coorte VISCONTI, uma bebê do estado americano do Mississippi, cuja mãe não sabia ser soropositiva, e um indivíduo alemão de 67 anos de idade são considerados pacientes “em remissão” ou “curados funcionalmente”, isto é, possuem o vírus, mas em quantidade tão insignificante que este não consegue estabelecer uma infecção propriamente dita.

Esses casos são importantes porque, além de oferecer uma compreensão sobre os avanços no tratamento e na pesquisa da cura do HIV, fazem-nos lembrar da eficácia significativa da profilaxia. A bebê do Mississippi, por exemplo, foi tratada com antirretrovirais imediatamente após seu nascimento, mesmo antes que se identificasse seu status sorológico. Este procedimento é similar ao que, no Brasil, é oferecido pela rede pública a todos aqueles que passam por uma clara situação de risco chamado de profilaxia pós-exposição. Se administrada em até 72 horas da possível exposição ao vírus e mantida pelo paciente seguindo as corretas orientações médicas ao longo das semanas seguintes, ela pode prevenir completamente a infecção do HIV. Graças à grande eficácia dos antirretrovirais, também discute-se hoje o uso da profilaxia pré exposição, isto é, o uso destes medicamentos para situações de conhecida ou premeditada exposição ao risco, como, por exemplo, no caso de casais sorodiscordantes que querem ter filhos, mas não têm obtido sucesso ou não possuem recursos para a inseminação artificial ou, nos casos em que o parceiro soropositivo é o homem, a inseminação artificial com lavagem de sêmen.

Noutras palavras, a ciência e a medicina já oferecem condições plenamente seguras para que todos convivam bem o HIV. Temer o vírus é natural, mas não é preciso temer quem o porta. Enquanto soropositivos devem se tratar, todos devemos sempre nos prevenir. Por sua vez, aqueles que não sabem qual é exatamente sua condição sorológica devem procurar sabê-la, em prol de sua própria saúde e do controle da epidemia no mundo.

É preciso ter em mente que basta usar a camisinha para se proteger e que a falha, a qual bem sei que é tão humana, virá. Nessas condições, lembre-se da profilaxia e não exponha parceiros e parceiras ao risco até ter ciência de seu estado de saúde. No caso de um eventual diagnóstico positivo você certamente vai chorar e sentir medo, claro. Mas, com o tempo, garanto, perceberá que este vírus não muda tanta coisa em sua vida nada além da necessidade de cuidar da saúde, tomar as medicações todos os dias e fazer os exames de controle a cada três ou quatro meses. E, quando resolver contar a parceiros e parceiras sobre sua condição sorológica, ouvirá, assim como eu ouço “como você pegou HIV?” A resposta, pura e simples, é apenas: transei sem camisinha.

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