Movimento faz ato em defesa do SUS no Rio de Janeiro


Pela Vidda RJ

A manutenção do Sistema Único de Saúde e mais investimento e qualidade para a saúde pública no Brasil. Foi isso que reivindicou o Grupo Pela Vidda-RJ, em ato realizado no último dia 23, em frente à Igreja da Candelária, no Centro do Rio de Janeiro. Com palavras de ordem, como “Um SUS melhor para o Brasil” e “O SUS é do povo brasileiro”, faixas com artigos da Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa que Vive com HIV e aids, placas, cartazes, velas e apitos, cerca de 50 participantes se manifestaram em defesa do SUS, da democracia, do respeito e pelo fim do preconceito e do estigma.

“Onde eu vou fazer meu tratamento e meus exames, se o SUS acabar ou sua qualidade diminuir?”

Durante o ato, os manifestantes destacaram a importância do Sistema Único de Saúde para a população brasileira e sua importância para a luta contra a aids. Pessoas que vivem com HIV estiveram na manifestação e perguntaram: “onde eu vou fazer meu tratamento e meus exames, se o SUS acabar ou sua qualidade diminuir?”.

“Nós do movimento de luta contra aids ficamos muito preocupados com essas falas, que colocam em dúvida a continuidade do serviço.”

“Esse ato é contra todos que estão pensando em privatizar, terceirizar e acabar com o SUS. Estamos próximos de completar 30 anos de uma luta por direitos e por inclusão. O SUS não é só saúde, ele incluiu a população. Quase 80% da população brasileira tem atendimento no SUS, em um dos três níveis: atenção básica, secundária ou terciária. E nós do movimento de luta contra aids ficamos muito preocupados com essas falas, que colocam em dúvida a continuidade do serviço. Esse ato quer chamar a atenção da população, pois nós não podemos permitir que uma conquista do povo brasileiro seja sucateada. Saúde é direito, saúde não é mercadoria. A gente tem que chamar todos para que se conscientizem do que está acontecendo no país, independente de partido, ideologia, de convicções, nós temos que defender a sociedade e os nossos direitos”, destacou Marcio Villard, coordenador do Pela Vidda-RJ.

Foto: Larissa Cargnin
Foto: Larissa Cargnin

“Precisamos estar unidos para não deixar acontecer esse levante contra a cidadania.”

Representantes da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids – ABIA, também estiveram presentes. A escolha da Candelária para o ato não foi a toa: “a Candelária é um símbolo de luta, palco de uma das maiores chacinas dessa país, e nós precisamos usar esse espaço como espaço de luta e de busca por cidadania. Precisamos estar unidos para não deixar acontecer esse levante contra a cidadania, contra os direitos individuais, coletivos e difusos. Porque a gente precisa de um Brasil livre, diverso, autônomo e inclusivo para todos e todas”, completa Marcio.

A manifestação é um dos eventos que marcam os 27 anos do Grupo Pela Vidda-RJ, celebrado hoje (24). Durante o ato, as drag queens do Mix da Prevenção distribuíram kits de prevenção. Cerca de 10 drags distribuíram 5 mil kits para as pessoas que passavam a pé e de carro pela Avenida Presidente Vargas, uma das principais vias da cidade.

Pela Assessoria de Imprensa do Grupo Pela Vidda-RJ

Malhação tem nova série original no Gshow sobre casais sorodiferentes


UNAIDS_BRASIL

A Malhação: Seu Lugar no Mundo lançou neste sábado, 2 de abril, uma nova série original chamada Eu Só Quero Amar, cujo tema central será a vida de casais sorodiferentes (quando dos parceiros um vive com HIV e o outro não). A série, que é um misto de documentário e ficção, é fruto da parceria entre o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) e a área de Responsabilidade Social da Globo, iniciada com o lançamento da campanha Viver Melhor, em setembro de 2015.

O ponto de partida da série é o casal Henrique e Camila, interpretado pelos atores Thales Cavalcanti e Manuela Llerena. Henrique vive com HIV e namora Camila na trama da série teen. Depois de uma história conturbada e cheia de obstáculos, os dois resolveram bancar a relação enfrentando até mesmo a resistência dos pais de Camila.

O objetivo da série é aprofundar para o público jovem o debate sobre esta relação e principalmente sobre a vida de um casal sorodiferente, desde os desafios no convívio social — como enfrentamento do estigma e da discriminação — até a vivência de uma sexualidade saudável e bem informada.

Manuela e Thales gravam as primeiras cenas da série original do Gshow 'Eu Só Quero Amar' (Foto: Maria Eduarda Freitas/Gshow)
Manuela e Thales gravam as primeiras cenas da série original do Gshow ‘Eu Só Quero Amar’ (Foto: Maria Eduarda Freitas/Gshow)

Desde o final de dezembro, o UNAIDS tem prestado consultoria à produção da série Malhação: Seu Lugar no Mundo para apoiar o autor da trama, seus roteiristas e produtores tanto no refinamento da linguagem quanto nas sugestões de temas e histórias reais capazes de apoiar as cenas com os personagens envolvidos direta e indiretamente com a questão do HIV na série.

“Pela primeira vez na história da televisão brasileira, estamos indo além de prevenção, testagem e tratamento do HIV.”

“Pela primeira vez na história da televisão brasileira, estamos indo além de prevenção, testagem e tratamento do HIV. Estamos falando também de sexualidade, estigma e discriminação — e diretamente para o público jovem, que é o mais afetado hoje no país”, afirma Georgiana Braga-Orillard, diretora do UNAIDS no Brasil. “Estamos muito felizes que Emanuel Jacobina tenha iniciado o debate e que, juntos, tenhamos conseguido aprofundá-lo desta forma. A parceria com o Gshow na criação desta série veio coroar este esforço de uma forma muito especial.”

“A parceria com o UNAIDS é fundamental para que contribua para mudanças positivas de comportamento.”

“Nossa estratégia é mobilizar o país para temas socialmente relevantes. Assim, a parceria com o UNAIDS é fundamental para que essa mensagem de respeito, tolerância, esclarecimento e de harmonia no convívio entre casais sorodiferentes alcance o maior número possível de pessoas e assim contribua para mudanças positivas de comportamento”, destacou Bia Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo.

Cada sábado do mês de abril contará com um novo episódio da série, totalizando cinco episódios. Inspirada na obra de Emanuel Jacobina – autor desta temporada Malhação: Seu Lugar no Mundo –, a série para a internet tem como roteiristas Filipe Lisboa e Giovana Moraes, e colaboração de Gabriel Estrëla (Projeto Boa Sorte), jovem ator, cantor e diretor vivendo com HIV. A direção geral é de Leonardo Nogueira. A produção também contou com apoio de consultoria do UNAIDS Brasil.

Pela assessoria de imprensa do UNAIDS Brasil.

Seminário de HIV e Direito(s)

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Data: 29 de fevereiro de 2016

Local: Faculdade de Direito da USP — Largo São Francisco, 95, São Paulo/SP

Objetivo: Promover o diálogo sobre o impacto da desigualdade, da discriminação e da criminalização do HIV no enfrentamento à epidemia de aids, assim como discutir o papel do sistema de justiça na promoção e defesa de direitos humanos e na busca da Zero Discriminação.

Horário Programação
9:00h

Abertura

Conrado Hübner Mendes (USP)

Georgiana Braga-Orillard (Diretora do UNAIDS no Brasil)

9:15h

Mesa 1 – Discriminação e criminalização do HIV

Moderador: Conrado Hübner Mendes (USP)

1) Georgiana Braga-Orillard (UNAIDS): Criminalização do HIV no Brasil e no mundo

2) Nara Santos (UNODC): Drogas, sistema judiciário e vulnerabilidade ao HIV

3) Rodrigo Augusto T. da Silva (Defensoria SP): Discriminação contra pessoas com HIV/aids e desafios da legislação (Lei Federal 12984/14 e Lei Estadual 11.999/02)

10:45h Intervalo
11:00h Mesa 2 – Populações vulneráveis, discriminação e direitos

Moderadora: Sheila Neder (USP)

1) Rafaelly Wiest (ABGLT): Transfobia e direitos da população trans no Brasil

2) Pierre Freitaz (Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV): Juventude, Direitos e HIV

3) Maria Berenice Dias (OAB): O papel da OAB na proteção da diversidade sexual (A confirmar)

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Não precisamos voltar a atacar o HIV com preconceito e terrorismo

HuffPost Brasil
Texto escrito por Gabriel Estrëla

Desde 2012, no Brasil, é possível ter acesso ao tratamento de profilaxia pós-exposição ao HIV em situações de sexo sem preservativo, ou em caso de acidentes em relação a este. O tratamento já existia desde a década de 90, foi estendido para vítimas de violência sexual em 2011 e para qualquer acidente sexual no ano seguinte. Foi apenas em 2015, no entanto, que o Ministério da Saúde lançou um documento que padroniza a prática médica em relação à PEP: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

O PCDT serve como um referencial para que esse atendimento seja o melhor possível, considerando a realidade brasileira, e, desde seu lançamento, vários centros de saúde já fazem a dispensa de antirretroviral para profilaxia pós-exposição.

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Recentemente, ainda, o Ministério preparou uma plataforma online (também disponível como aplicativo) para que as pessoas acessem mais informações sobre a profilaxia e possam procurar uma unidade de atendimento próximo a elas. Parece um grande avanço, não é?

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Mas, ainda assim, durante o primeiro carnaval em que a PEP vem sendo amplamente difundida, vimos pelas ruas e pelas redes sociais um homem vestido em lycra roxa com uma gigantesca camisinha emoldurando seu rosto. (Sem falar que seu nome, “Homem-Camisinha”, gera resultados de pesquisa no Google que pode constranger os desavisados…) Embora os vídeos sejam bem intencionados, atuais e até eficazes, é um absurdo que o Ministério não faça um esforço maior para que as pessoas conheçam a PEP.

Poderia fazer um artigo inteiro, ainda, sobre o infeliz slogan “a vida continua depois do carnaval” — minha vida também continuou depois do diagnóstico de HIV, e eu passo muito bem, obrigado!

A última coisa que precisamos é voltar a atacar o HIV com preconceito e terrorismo. Vivemos num novo tempo, e já falei sobre isso aqui. Não podemos mais permitir que a camisinha seja nossa única aposta para um sexo seguro (ainda que seja, tecnicamente, a melhor aposta). Vivemos em um país em que 95% da população entende a camisinha como a forma mais eficiente de prevenção e, ainda assim, mais de 60% não a utilizam de forma consistente.

Camisinha

Precisamos fazer mais. Precisamos ir além da camisinha. Recentemente, no Projeto Boa Sorte, começamos a falar sobre a Prevenção Combinada. O conceito é justamente o que promete: combinar vários fatores de prevenção para que possamos ter o sexo mais seguro possível (e não ficarmos dependentes apenas de um invólucro de látex que ninguém nos ensinou realmente a usar).

A PEP é um desses fatores de prevenção. “Ah! Mas é melhor prevenir do que remediar…” Não é simples assim. A PEP também é prevenção… por meio de medicamentos. Se alguém tiver uma situação de risco pode procurar uma unidade de atendimento em até 72 horas, para discutir sobre a necessidade da profilaxia. O médico deve avaliar o tipo de exposição com detalhes (duração da exposição, intensidade da atividade sexual, se houve sangramento, se havia lubrificação natural ou artificial, qual foi a modalidade de sexo, se houve ejaculação… pode perder a vergonha e contar tudo pro médico porque ele tem o dever de ser ético e manter seu sigilo!). Além disso, deve conversar também sobre a sorologia dos envolvidos — se fazem testagem, quando foi a última, se tem alguma outra DST, se já tomou PEP ou, quando disponível, se toma PrEP (a profilaxia pré-exposição). Caso algum dos dois seja HIV positivo, tem ainda de perguntar sobre a adesão ao tratamento, se o faz corretamente, se está indetectável e há quanto tempo.

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Só com todas essas informações em mãos o médico estará apto a conversar sobre PEP com o paciente. E eu disse: conversar. O médico pode aconselhar como for, mas a decisão final ainda é do paciente. Caso decida embarcar na ideia, você deve tomar os antirretrovirais (geralmente Lamivudina e Tenofovir, Atazanavir e Ritonavir — em três comprimidos) durante 28 dias. Os efeitos colaterais costumam ser apenas um amarelado nos olhos, que vai embora com a ingestão de muita água — mas algumas pessoas já relataram enjôos. Durante 3 meses você faz o acompanhamento com o médico, mesmo depois do fim do tratamento, para continuar fazendo testagem.

Em caso de acidente, o médico deve conversar com você sobre a camisinha, ensinar a colocar ela direitinho. Ele também pode conversar com você sobre a camisinha feminina (que você coloca na hora que tá fazendo a maquiagem e vai despreocupada pra festa). E, em caso de não usar camisinha, seja por preferência sua, o médico precisa sim te apresentar outros elementos de prevenção, como o lubrificante (e, em breve, a PrEP), além de insistir que você se teste com frequência.

A PEP é ainda pouco conhecida, mas tem se popularizado cada vez mais. Aos pouquinhos, vai se tornando uma alternativa válida de prevenção e os mitos em volta dela vão desmoronando, um a um. Vamos juntos?

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Gabriel Estrëla é artista, ativista do HIV/aids e idealizador do Projeto Boa Sorte.

Participe da construção da nova Declaração Política sobre HIV/Aids


UNAIDS_BRASIL

Durante o mês de junho de 2016, acontecerá em Nova Iorque a Reunião de Alto Nível sobre HIV/Aids, após a qual será emitida uma Declaração Política que delineará as linhas estratégicas da resposta ao HIV nos próximos anos.

Trata-se de uma das maiores oportunidades de incidência política no futuro próximo. As Declarações Políticas sobre HIV/Aids são importantes (ver as Declarações de 2011 2006), pois têm sido historicamente a base para programas mundiais que têm feito a diferença na epidemia do HIV, como a já alcançada meta 15 por 15 (colocar em 15 milhões de pessoas até 2015). A incidência política tem sido chave para a inclusão de metas claras e ambiciosas sobre prevenção, tratamento, direitos humanos e financiamento.

Faça ouvir a sua voz sobre o conteúdo da Declaração Política da Reunião de Alto Nível sobre HIV/aids e participe da pesquisa aqui. O prazo para preencher a pesquisa vai até 18 de fevereiro.

Publicado pelo Unaids Brasil em 12 de fevereiro de 2016

2º turno do Top Blog

TOPBLOG2015_TOP100O Diário de um Jovem Soropositivo é um dos 100 finalistas do Prêmio Top Blog 2015, um concurso entre blogs voltados ao público brasileiro, na editoria Saúde e Bem-estar, direcionada a temas como alimentação, atividade física, medicina, entre outros relacionados. Vote aqui! Começou hoje o 2º turno!

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De acordo com o regulamento dessa competição, o período de votação do Primeiro Turno pelo Júri Popular, representado pelos internautas por meio de voto eletrônico, vai até o dia 18/12/2015, às 18h (horário de Brasília).

No dia 11/01/2016, será divulgada a lista dos 100 blogs mais votados em cada editoria, que passam para o Segundo Turno da votação pelo Júri Popular. Os votos do Primeiro Turno não serão computados para o Segundo Turno. Os blogs que não se classificarem entre os 100 blogs mais votados de cada editoria ainda podem concorrer no Segundo Turno à premiação pelo Júri Técnico, formado por profissionais atuantes nos segmentos relacionados às editorias.

A divulgação dos finalistas será no dia 20/04/2016. Os três blogs vencedores pela votação do Júri Popular e os três blogs vencedores pela avaliação do Júri Técnico serão premiados assim:

  • Primeiro colocado recebe 12.000 pontos Multiplus, badge digital, certificado e troféu;
  • Segundo colocado recebe 6.000 pontos Multiplus, badge digital e certificado;
  • Terceiro colocado recebe 3.000 pontos Multiplus, badge digital e certificado.

Manifesto dos Médicos Residentes do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

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“O Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER), fundado em 1880 com o objetivo de combater a epidemia de varíola que assolava o Estado de São Paulo, à época aberto apenas em tempos de surtos, se consolidou ao longo dos anos como o maior serviço de infectologia da América Latina. Serviu de sentinela e fiel combatente às grandes epidemias como difteria, febre tifóide, peste bubônica, gripe espanhola, sarampo e meningite. Atualmente, é considerado referência nacional e internacional em moléstias infecciosas e principal centro de cuidado e atenção ao paciente que convive com o HIV.

Temos vivido momentos angustiantes no que diz respeito à falta de insumos básicos para o bom atendimento dos pacientes.

O Brasil vive um momento crítico do ponto de vista político e econômico. Historicamente, a saúde pública vem sendo sucateada, culminando com piora importante nos últimos anos e tornando-se inaceitável nos últimos meses. O Emílio Ribas também vem sofrendo. Apesar da tentativa de melhorias na qualidade da infraestrutura, temos vivido momentos angustiantes no que diz respeito à falta de insumos básicos para o bom atendimento dos pacientes. Temos como exemplo a irregularidade do abastecimento da farmácia com drogas fundamentais no manejo de doenças graves, a falta frequente de material essencial para realização de procedimentos e o frequente não funcionamento de exames diagnósticos como ressonância e broncospia. Não bastasse, agora corremos o risco de perder especialistas fundamentais no manejo de doentes graves. Profissionais como ortopedista, endocrinologista e nefrologista, que possuem contrato temporário com o Instituto terão seus contratos encerrados no dia 20/12/2015.

O decreto governamental nº 61.466 de 02/09/2015 suspendeu todas as nomeações do Estado.

Na tentativa de contornar o problema foi realizado concurso público em abril de 2015 para que essas especialidades dessem continuidade ao atendimento. No entanto, com o decreto governamental nº 61.466 de 02/09/2015 que suspendeu todas as nomeações do Estado, esses profissionais não puderam ser contratos. Números significativos de pacientes sairão prejudicados com essa medida. Em um ano, a nefrologia atende mais de 180 pacientes e realiza mais de 1.000 sessões de diálise. Tratam-se de doentes críticos, de alta complexidade, com infecções pelo HIV, choque séptico, meningite, leptospirose e outras. Com a endocrinologia temos cerca de 4.500 consultas por ano. São pacientes com comorbidades metabólicas decorrentes de infecções crônicas pelo HIV ou hepatite que são referenciados ao Emílio Ribas pela expertise desses profissionais. Portanto, estamos em uma corrida contra o tempo para tentar reverter essa decisão.

A Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR) propôs um pacote de solicitações para a melhoria dos hospitais que oferecem residência médica e dos programas de ensino. Na negativa dos órgãos governamentais responsáveis [incluindo a gestão estadual, representada pelo governador Geraldo Alckmin, e a Secretaria Estadual de Saúde, representada pelo Dr. David Uip], a ANMR optou por iniciar paralisação em âmbito nacional. Nós, Residentes do IIER, após ampla discussão em Assembléia Geral do dia 08/12/2015, optamos por não aderir ao movimento nacional por questões ideológicas e pela urgência de nossos problemas. Caminharemos em paralelo buscando priorizar as questões que colocam em risco iminente a assistência e a vida dos pacientes do nosso serviço. Ademais, considerando:

  • O Regimento Interno da Residência Médica do IIER, Capítulo V — Dos Deveres Dos Médicos Residentes, Art. 34o, que diz: ‘O médico residente deve zelar pelo nome do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por seus equipamentos hospitalares e pela unidade de seu Corpo Clínico e demais recursos humanos.’
  • O Art. 24 do Código de Ética Médica (CEM), que diz: É direito do médico: ‘Suspender suas atividades, individual ou coletivamente, quando a instituição pública ou privada para a qual trabalhe não oferecer condições mínimas para o exercício profissional ou não o remunerar condignamente, ressalvadas as situações de urgência e emergência, devendo comunicar imediatamente sua decisão ao Conselho Regional de Medicina’.

Nos sentimos impelidos a nos manifestar. Estabelecemos, portanto, que [a partir de 08/12/015] permaneceremos em Paralisação Geral dos Médicos Residentes até que se cumpra:

  1. Nomeação imediata dos profissionais já aprovados em Concurso Público, para manutenção do quadro atual de médicos.
  2. Elaboração de planos de manutenção preventiva para os aparelhos de diagnóstico por imagem e de endoscopia/broncoscopia. Considerando ainda:
    • O parecer no 20/2002 do Conselho Federal de Medicina, que diz: ‘A deflagração de movimento paredista por médicos residentes que exercem o seu aprendizado em emergência, urgência, UTIs ou atividades afins deve obedecer o recomendado nas normas e princípios éticos citados, e o número de médicos que irá manter essas atividades em funcionamento, em respeito ao art. 35 do CEM…’
    • Art. 35 do CEM, que diz: ‘Deixar de atender em setores de urgência e emergência, quando for de sua obrigação fazê-lo, colocando em risco a vida de pacientes, mesmo respaldado por decisão majoritária da categoria.’

Garantiremos o atendimento aos pacientes nos setores de urgência e emergência.

Garantiremos o atendimento aos pacientes nos setores de urgência e emergência (Pronto Socorro e Unidade de Terapia Intensiva) com escala mínima de 30% do número de residentes de cada setor. [A distribuição de antirretrovirais não será afetada com a greve. Ela tem ocorrido normalmente em nossa farmácia.] Conforme determinação da COREME deste Instituto, tomada no dia 07/12/2015 em Assembléia Geral Extraordinária, estão suspensas todas as atividades da Residência Médica. Contamos com o apoio de toda a população para que esse grave problema da saúde pública seja resolvido. [Na segunda-feira, 14/12/2015, às 14:30h, acontece um abraço coletivo no Emílio Ribas e uma manifestação com faixas e cartazes.] O Emílio Ribas pede socorro! Não mande embora seu médico!”

Carta de um leitor: sobre ser soropositivo

“1ºde dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, nunca passa sem notícias incríveis, mas também com algumas narrativas insuportáveis. Fico imaginando como seria se eu, naquela tarde de setembro de 2014, quando resolvi fazer o teste, tivesse lido essas reportagens, mal escritas e preconceituosas, sobre como é conviver com o HIV hoje em dia. Muito provavelmente, teria tanto medo que deixaria para fazer o teste em outra hora. Afinal, estava assintomático — o que eu não sabia é que estava com poucas células CD4 e prestes a desenvolver uma doença oportunista.

‘Há coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Lembro-me da primeira carta que mandei para você, Jovem, falando com tanto sofrimento sobre como era descobrir ser portador do HIV. Nela, contei da reação violenta que tive frente às profissionais de saúde, quando disseram para mim o resultado do teste rápido. Lembro do suor frio percorrendo todo o corpo, da boca seca, da taquicardia e do apoio insuficiente que recebi dos profissionais. Poucos minutos antes do teste, a assistente social havia desejado que ninguém fosse soropositivo para o HIV, mas o que ela esqueceu de dizer foi: ‘se alguém descobrir que é HIV positivo, não se preocupe demais, pois há muitas coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Essa última frase rescrevi em minha imaginação, como uma reparação pessoal à profissional do CTA, que foi incapaz de solucionar a contradição interna do próprio corpo dos agentes de saúde e que é resolvida, acredito eu, quase sempre de forma singular pelos pacientes, com muita dor e sentimentos de perda e de luto. Razão que faz com que muitas pessoas hoje não sejam testadas e, diante dessa realidade, não acho nem um pouco condenável que as pessoas fujam dos testes de HIV. É como se furassem nossos dedos e não soubessem nos dizer coisas tão simples, como: ‘sua expectativa de vida permanece intacta, você pode ter filhos, pode viajar para países que antigamente não poderia e, se for mulher, num futuro próximo, além de gestar seus filhos, irá poder amamentá-los também.’

Hoje, me pergunto exatamente isso: por que razão esse ótimo prognóstico é deixado de lado? O que faz de todo o dispositivo de saúde incapaz de acolher essas demandas? Ainda estou tentando saber disso. Não é nem um pouco incomum as pessoas relatarem mudanças substantivas em suas vidas, às vezes, até para a melhor, quando descobrem o HIV.

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Ongina, uma drag queen que participou do programa RuPaul’s Drag Race em sua primeira temporada, disse, certa vez, que depois que o medo da morte foi se tornando medo de outras coisas inerentes a estar viva, ela entendeu que poderia usar isso como um ponto de apoio para desatar grande parte das suas neuroses. Hoje, casada com um rapaz, e vivendo a vida menos como drag queen e mais como designer, ela tem se dedicado a ser porta-voz no combate ao estigma. Inclusive, ocupou esse lugar durante algum tempo, acolhida pela marca de cosméticos M·A·C, onde a venda do batom Viva Glam é integralmente convertida para o combate ao estigma e para financiar o tratamento de HIV/aids.

Hoje, grande parte do que eu entendo fazer parte de ser soropositivo vem e veio de pessoas como estas, incríveis, as quais, anonimamente ou não, usam de suas posições com a finalidade de provocar mudanças no quadro das discursividades disponíveis a respeito da epidemia — como bem coloca a série publicada no blog, com o nome de Literatura pós-coquetel. Talvez, essa coisa que a gente chama de ‘ser soropositivo’ para mim tenha ficado mesmo confusa. Afinal, sou soropositivo para hepatite B, tanto quanto para o HIV. Sou igualmente soropositivo para caxumba, rubéola, catapora, meningite e influenza, de acordo com o meu cartão de vacinação, no qual constata que estou imunizado contra essas doenças.

No campo prático, dos reconhecimentos sociais, nesse curto tempo de ser soropositivo para o HIV, vi (ou li) muitas pessoas ocuparem posições, cargos e funções tão distintas quanto possíveis, de modo que ‘ser soropositivo’ é menos alguma coisa com a qual devamos nos identificar integralmente, do que uma contingência experienciada num mundo micro-orgânico. Tenho inclusive deixado de dizer que estou doente, passando a comunicar para os meus amigos e familiares que eu tenho uma ‘condição crônica de saúde’ e que, uma vez medicado e fazendo os acompanhamentos devidos, posso fazer tudo o que alguém não infectado pelo HIV faz. Inclusive, um imunologista, do qual não vou lembrar o nome, uma vez disse que, assim que o paciente atinge níveis indetectáveis de vírus no sangue, recuperando, posteriormente, seu sistema imune, a fisiologia de quem é soropositivo e soronegativo passa a ser muito, mas muito, similar, funcionalmente apresentando capacidades igualmente satisfatórias no combate a outros patógenos.

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No entanto — e acho que é por isso que te escrevo, Jovem — existem dois lugares hoje ocupados no combate ao HIV: um deles é a manutenção do estado de medo e alerta quanto ao aumento das novas infecções pelo HIV, o outro é a garantia, dos que já se encontram infectados, de que, desde que haja adesão ao tratamento, este iniciado o quanto antes a fim de logo chegar ao indetectável, eles devem e podem seguir com suas vidas. No primeiro caso, o discurso é feito para soronegativos, provocando respostas de medo quando alguém lhes comunica as letras agá, i e vê. O segundo, desfazendo os embaraços da primeira narrativa, convencendo as pessoas infectadas de que elas irão ficar bem. Esse vai-e-vem, que toma lugar sempre que alguém é infectado, me parece ser um tanto complicado, na medida em que exige recursos psíquicos e emocionais que nem todos possuem, a fim de desatar, pelos próprios pacientes, esses furos da propaganda de prevenção ao HIV/aids — contudo, se somos nós que fazemos esse esforço, por qual razão existe uma política de saúde coletiva?

A despeito de considerar imensamente importante a distribuição gratuita dos antirretrovirais para a população, a tarefa é muito maior. Tudo se passa como se nós fôssemos parâmetros para os quais a população não infectada devesse ter como um horizonte negativo, ruim, aquilo que não se deve ser. Isso inclusive se reproduziu em palavras de queridos amigos, os quais, sem saber usar corretamente as palavras, me colocaram num lugar de não desejável, afinal ‘ninguém quer ter isso pro resto da vida.’ De um lado, a estratégia de convencimento de que soronegativos devem se afastar de soropositivos para o HIV e, de outro lado, a reparação de que soropositivos podem viver uma vida tão ordinária e comum como a dos nossos duplos, os soronegativos. No fim das contas, me parece que existe uma má ambiguidade no interior das políticas que produzem modos de sofrimentos tão intensos quanto aquele que eu mesmo produzi, na primeira carta que escrevi para você, Jovem.

Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços.

Já no campo das tecnologias médicas, todo esse medo faz com que se produza em mim um curto-circuito cognitivo. Cada vez mais, estamos ocupando lugares antes impossíveis a qualquer homem e mulher diagnosticado positivo para o HIV, como, por exemplo, era o caso nos anos 80. Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços, bem no espírito do seu texto Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV. Mas como conciliar essas duas coisas tão difíceis: de um lado, uma das epidemias mais mortais da história da humanidade, especialmente durante os anos 80, e, hoje, uma condição crônica, tratável, com um prognóstico em pé de igualdade com soronegativos?

Às vezes, penso que a cura e o desejo para que ela apareça o mais rápido possível não seja para remediar nossos corpos ‘atormentados’ pelo HIV e ‘torturados’ pelos antirretrovirais: estamos vivendo muito bem, obrigado, tendo filhos, namorando, sofrendo, transando, sendo despedidos, sendo contratados, viajando o mundo como nunca antes na história da epidemia. Afora os pequenos riscos que corremos pela inflamação persistente devido à permanência dos reservatórios de RNA pró-viral em nossos linfonodos, pulmões e intestinos, somos como qualquer um. E a indústria farmacêutica, tida como grande vilã por ‘desejar’ que as pessoas fiquem dependentes dos antirretrovirais, está bolando estratégias de uma medicação que baixa para níveis ainda menores nossa inflamação basal. Com antirretrovirais cada vez menos tóxicos, um tratamento eficiente e que minimiza ou mesmo extingue possíveis complicações futuras, por que razão ainda estamos ansiando pela cura, como se estivéssemos presos em uma sala de resultados de teste dos anos 80? Muito trabalho ainda vem por aí, não só dos laboratórios, mas de campanhas que coloquem isso como prioridade.

O que você acha dessa história toda? Como te parece isso? No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, me senti confortável em escrever para você querendo saber um pouco mais das suas posições em relação a esse problema.

Um grande abraço,

V.”