Uma injeção mensal para controlar o HIV mostrou-se tão eficaz quanto os atuais comprimidos antirretrovirais diários, de acordo com um estudo da GlaxoSmithKline, a GSK. Esse estudo abre caminho para um novo e mais simples regime de tratamento.

A injeção experimental com dois antirretrovirais, Cabotegravir e Rilpivirina, mostrou-se capaz de suprimir o HIV em uma coorte de adultos que não tinham experimentado o tradicional regime oral diário de três medicamentos. No estudo, os adultos com HIV foram, primeiro, colocados em um programa de 20 semanas com comprimidos diários para suprimir o vírus, antes deste tratamento ser substituído pelas injeções mensais. Após 48 semanas, as injeções mantiveram uma taxa de supressão similar ao comprimidos orais.

Os resultados reforçam um importante estudo anterior, que envolveu adultos que estavam usando um esquema oral de três medicamentos para controlar o vírus. John C. Pottage, diretor médico da ViiV Healthcare, uma subdivisão da GSK, disse que o estudo forneceu mais evidências de que uma injeção de ação prolongada pode vir a ser uma alternativa à terapia oral diária para pessoas que já atingiram a supressão viral.

“Este regime pode transformar o tratamento contra o HIV, reduzindo a quantidade de vezes que uma pessoa recebe o tratamento num ano: de 365 para 12”, disse ele. “Trabalhar em novos métodos de tratamento contra o HIV, incluindo terapias injetáveis ​​de ação prolongada, faz parte do nosso objetivo de tornar o HIV uma parte cada vez mais insignificante na vida das pessoas que vivem com o HIV.”

A ViiV Healthcare, que também é propriedade da Pfizer e da Shionogi, espera que este trabalho no desenvolvimento de terapias com dois medicamentos ajude a empresa a competir com a Gilead Sciences, farmacêutica norte-americana que domina o mercado de US$ 26 bilhões ao ano.

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Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou o início da distribuição de medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco da infecção pelo HIV antes da exposição ao vírus, a chamada “profilaxia pré-exposição” (PrEP) no Sistema Único de Saúde (SUS). A oferta da PrEP deve começar dentro de 180 dias, a contar a publicação do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a PrEP, prevista para acontecer na segunda-feira, dia 29 de Maio. O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros, na última quarta-feira, dia 24, durante sua participação na Assembleia Mundial de Saúde realizada em Genebra, na Suíça.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a PrEP seja oferecida a todas as pessoas que estão sob “risco substancial de contrair HIV”. África do Sul, Austrália, Canadá, Escócia, Estados Unidos, França, Lesoto, Malawi, Nova Zelândia, Peru, Quênia, Suécia, Tailândia, Tanzânia, Taiwan, Zâmbia, Zimbábue já aprovaram o uso da PrEP, enquanto outros países avaliam a sua implementação. A Inglaterra está agora conduzindo um estudo da viabilidade no país, depois do National Health Service ter sido obrigado judicialmente pela Corte de Apelação, em Londres, a considerar a PrEP.

Ricardo Vasconcelos

Aproveitei o tema para conversar com Ricardo Vasconcelos, médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Ricardo é coordenador do SEAP HIV, um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV, e participou de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e o PrEP Brasil. Atualmente, Ricardo está cursando doutorado com PrEP na FMUSP e é coordenador médico do estudo HPTN 083, um ensaio clínico que avalia a eficácia e segurança da PrEP injetável intramuscular com o medicamento antirretroviral Cabotegravir. Ricardo participa continuamente de processos de formação acadêmica e difusão de informação envolvendo alunos de graduação da USP, ONGs e seminários de educação comunitária na temática de HIV e ISTs no Brasil.

Jovem Soropositivo — Ricardo, o que é PrEP?

“A PrEP é uma maneira de estar bem protegido do HIV”

Ricardo Vasconcelos — PrEP vem da sigla inglesa para profilaxia pré-exposição (pre exposure prophylaxis) e se refere a uma das novas estratégias biomédicas que utiliza medicamentos para proteger uma pessoa da infecção pelo HIV. Conceitualmente, PrEP é o uso de antirretrovirais diariamente por uma pessoa que não vive com HIV, mas que vive situações de vulnerabilidade para que a infecção ocorra, com o objetivo de mantê-la livre do vírus. Podemos simplificar a definição de situações de vulnerabilidade como não conseguir se proteger de maneira eficaz e continuada apenas com as estratégias tradicionais de prevenção, tal como o uso do preservativo. A PrEP é uma maneira de estar bem protegido do HIV sem que suas parcerias precisem concordar ou até mesmo saber que o indivíduo a está utilizando.

JS — Quais antirretrovirais fazem parte da PrEP e com que frequência precisam ser tomados para prevenir o HIV?

RV — A primeira combinação de antirretrovirais que se mostrou eficaz para a PrEP foi a associação de Tenofovir com Emtricitabina, coformulados em um único comprimido, comercialmente conhecido como Truvada, que deve ser tomado diariamente. Já existem outras drogas em fase de pesquisa que também se mostraram eficazes para PrEP, como a Dapivirina, por exemplo, administrada em mulheres na forma de anel vaginal impregnado pelo antirretroviral, que deve ser trocado mensalmente; ou o Cabotegravir, que é aplicado a cada dois meses em injeções intramusculares. Quando esses últimos estudos estiverem concluídos, teremos disponível um amplo cardápio de prevenção contra o HIV, que contemplará muito mais pessoas, considerando diferentes contextos de vulnerabilidade e capacidade de adesão às estratégias.

JS — Se a PrEP consiste no “uso de antirretrovirais diariamente por uma pessoa que não vive com HIV” para “mantê-la livre do vírus”, então estamos dando remédio para uma pessoa que não está doente?

RV — Exato. Isso é o que chamamos de profilaxia: o uso de alguma estratégia com o objetivo de evitar um desfecho não desejado. Assim como recomendamos o uso de Aspirina para que uma pessoa tenha suas chances de desenvolver um infarto reduzidas, ou usamos a pílula anticoncepcional para evitar uma gravidez indesejada.

JS — Parece que existe alguma semelhança entre a PrEP e a pílula anticoncepcional, não acha? Com um comprimido antirretroviral por dia, previne-se o HIV. Com uma pílula anticoncepcional por dia, evita-se a gravidez. Em seu tempo, a pílula anticoncepcional foi vista como uma “revolução”, que deu mais autonomia às mulheres para decidirem se queriam ou não engravidar. Você acha que a PrEP também pode ser vista como revolucionária dentro da prevenção do HIV?

“Dar autonomia para uma pessoa gerir seus riscos é sem dúvida uma revolução.”

RV — Sim, a pílula anticoncepcional permite que as mulheres tenham total controle sobre o risco de engravidar. Uma mulher que opta por tomá-la não depende mais da negociação com seu parceiro a respeito do uso do preservativo, do coito interrompido, da tabelinha ou do que quer que seja. Ela sabe que, ao tomar uma pílula por dia, estará evitando, de maneira bastante eficaz, uma gestação indesejada, mesmo que tenha relações desprotegidas. Dar autonomia para uma pessoa gerir seus riscos é sem dúvida uma revolução. Mas também existe uma reação negativa a essa revolução. Tanto na época do início do uso das pílulas anticoncepcionais quanto agora, com a PrEP, parte da população enxerga uma estratégia dessas como algo que vai ser usado por pessoas que “não se cuidam” ou que “só querem saber de transar com todo mundo sem camisinha”, e julga negativamente quem as usa.

JS — Michael Weinstein, diretor da Aids Healthcare Foundation, disse que a PrEP é perigosa para a saúde pública porque pode encorajar as pessoas a sair por aí fazendo sexo sem camisinha. O que você diria em resposta a Michael Weinstein?

RV — Diria que essa é uma preocupação constante entre todos que estudam PrEP no mundo. A isso se dá o nome de “compensação de risco”: a desinibição de comportamentos sexuais de maior vulnerabilidade por conta do uso da PrEP, o que poderia aumentar a incidência das outras ISTs, por exemplo, uma vez que o antirretroviral só oferece proteção contra o HIV. No entanto, o que vemos é que a maior parte da literatura publicada mostra que a população que tem indicação para o uso de PrEP, devido ao seu comportamento de vulnerabilidade, já apresentava história de múltiplas ISTs mesmo desde antes do início da PrEP.

“Alguns dos usuários até aumentam o uso de preservativo”

Por isso, a vinculação destas pessoas a um programa de PrEP tem um efeito extremamente positivo nesse aspecto: com o rastreamento frequente das outras ISTs, é possível fazer diagnóstico e tratamento precoce destas. Além disso, com o aconselhamento periódico de gestão de vulnerabilidades feito por profissionais da saúde, observamos que alguns dos usuários até aumentam o uso de preservativo, reduzindo a incidência de outras ISTs. Então, mesmo que de fato ocorra algum grau de compensação de risco por parte dos usuários de PrEP, teremos eles vinculados a um serviço de saúde, coisa que não acontecia previamente, e, assim, poderemos resolver prontamente as ISTs que surgirem, até mesmo as assintomáticas.

JS — Quem pode se beneficiar da PrEP?

RV — Qualquer pessoa que esteja vulnerável ao HIV por não conseguir utilizar de maneira consistente o preservativo em relações sexuais com parcerias nas quais exista risco significativo de transmissão do vírus. Isso inclui, por exemplo, alguém que tenha relações desprotegidas com parceiros casuais. Também, pessoas que vivem contextos em que a negociação do uso da camisinha é dificultada por conta de violência, como no caso de profissionais do sexo ou situações de discriminação. Por fim, para casos em que situações em que há uso de drogas e outras substâncias psicoativas, antes ou durante o sexo, façam com que haja falha no uso correto do preservativo.

Nesses exemplos que dei, é preciso ter claro que não se está recomendando que a pessoa pare de usar o preservativo, mas que se associe a ele a PrEP, uma vez que, nesses contextos, a PrEP é talvez a estratégia de prevenção que mais vai ser eficaz em manter o indivíduo livre do HIV.

JS — Quanto custa e quem paga pela PrEP no Brasil?

RV — Existem atualmente duas farmácias que vendem o Truvada no mercado privado, importado por 290 reais ao mês. Investir menos de 10 reais por dia para se manter livre do HIV pode parecer pouco para alguns, mas, considerando que os grupos chave de mais alta vulnerabilidade no País acabam sendo vítimas também de exclusão social e de direitos, esse valor torna proibitivo o acesso à PrEP. Por causa disso, o anúncio pelo Ministério da Saúde da incorporação da PrEP ao nosso sistema público de saúde deve ser aplaudido. Fruto de um longo trabalho, essa medida poderá ser decisiva no enfrentamento da epidemia de HIV e na redução dos novos casos da doença no País.

JS — Isso quer dizer que o dinheiro público será usado para pagar um medicamento para alguém que não pode ou não consegue usar camisinha?

RV — Sim. Fingir que as pessoas que não podem ou não conseguem usar o preservativo de maneira consistente não existem é um erro. Garantir uma política pública que os ampare considerando suas particularidades é bom não só para eles mais para todo o Brasil, pois, com menos pessoas se infectando todos os anos, a vulnerabilidade de toda a população diminui.

JS — O que é o PrEP Brasil e quais resultados obteve?

RV — O PrEP Brasil é um projeto demonstrativo da PrEP que está sendo feito no Brasil desde 2014. Um projeto demonstrativo é um tipo de estudo que está entre um projeto de pesquisa clínica, que serve, por exemplo, para saber se um remédio funciona ou não, e como seria sua implantação no sistema público de saúde. É um “piloto”. O objetivo do PrEP Brasil era avaliar qual seria o conhecimento sobre PrEP e a aceitação/adesão da PrEP entre aqueles pertencentes aos grupos de maior vulnerabilidade ao HIV no País, como os homens que fazem sexo com outros homens e mulheres trans/travestis.

“A população mais vulnerável ao HIV no Brasil não só aceita a PrEP, como também adere aos comprimidos da maneira correta.”

Nesse aspecto, tivemos resultados excelentes com o estudo: mais de 60% dos entrevistados desses grupos em risco de infecção acabaram iniciando a PrEP, sendo preditores de aceitação da estratégia, por ter um conhecimento prévio sobre a PrEP ou por ter tido um maior número de relações desprotegidas no ano anterior à entrevista. Isso mostra que a população que mais tem chance de se infectar aceita bem a recomendação do uso a PrEP. Entre aqueles que entraram em PrEP, com adesão aos comprimidos prescritos, a dosagem dos medicamentos prescritos que foi verificada também foi excelente: 78% dos participantes estavam tomando mais do que quatro comprimidos por semana — o que já é suficiente para atingir a proteção máxima. O PrEP Brasil demonstrou que a população mais vulnerável ao HIV no Brasil não só aceita a PrEP, como também adere aos comprimidos da maneira correta.

JS — Por que, no Brasil, a PrEP só será distribuída entre os grupos de alta prevalência do HIV — ou entre os “grupos de risco”, tal como tem sido publicado nas notícias veiculadas na imprensa, como Folha de S. Paulo e Veja?

RV — “Grupo de risco” é um conceito que não utilizamos mais na compreensão da epidemia de HIV, por conta do estigma e da culpa que recaem sobre esses grupos populacionais e por causa da falsa sensação de não existência de risco nos demais grupos da sociedade. Por isso, hoje preferimos a abordagem que compreende as peculiaridades e as vulnerabilidades que os grupos chave de alta prevalência apresentam. São grupos chave: os homens que fazem sexo com outros homens, trabalhadores(as) do sexo e pessoas trans, os quais, junto com os casais sorodiscordantes, usuários de drogas e população privada de liberdade, apresentam as maiores concentrações de pessoas vivendo com HIV no País.

O Protocolo Clínico que guiará a distribuição da estratégia no nosso sistema público de saúde, num primeiro momento, prioriza esses grupos chave de alta prevalência e suas parcerias, mas somente quando existir história de relações sexuais penetrativas desprotegidas. O simples fato de pertencer a um desses grupos, sem que haja situações com risco significativo de transmissão do vírus, não significa que existe ali alta vulnerabilidade ao HIV e, por isso, não há indicação para uso da PrEP.

Uma vez que os recursos e o número de comprimidos da PrEP são limitados, optou-se por iniciar implementação da PrEP entre aqueles que mais estão se infectando, onde a sua distribuição terá maior impacto no controle da epidemia. Essa é a recomendação feita pela Organização Mundial da Saúde.

JS — Então, os casais sorodiscordantes podem receber a PrEP? Isso quer dizer que estes casais fazem parte do grupo mais vulnerável a contrair o HIV?

RV — Sim, os parceiros de pessoas que vivem com HIV serão contemplados com a PrEP distribuída pelo Ministério da Saúde, sempre que relatarem relações desprotegidas com seus parceiros. Esse contexto é considerado de alta vulnerabilidade quando a carga viral do soropositivo está detectável ou é desconhecida, fatos associados à má adesão ao tratamento antirretroviral para quem vive com HIV e aos acompanhamentos recomendados. Já nos casos em que há boa adesão ao tratamento por parte do parceiro soropositivo que vive uma relação sorodiscordante, com manutenção da sua carga viral indetectável, não existe risco significante de transmissão do vírus por via sexual desprotegida.

“O Ministério deixa disponível a PrEP para qualquer casal sorodiscordante que tenha relações sem camisinha”

Para não haver dificuldade na determinação de quem vai e quem não vai receber a PrEP, e para garantir a possibilidade da associação de estratégias de prevenção (seguindo o princípio da “prevenção combinada”), sem que uma estratégia se sobreponha à outra, o Ministério deixa disponível a PrEP para qualquer casal sorodiscordante que tenha relações sem camisinha e que tenha interesse.

JS — A PrEP é mais segura do que a camisinha?

RV — Em relação a quê? Em relação ao controle da transmissão do HIV? Sim. Se, para uma comunidade com 1.000 pessoas que apresentam alta vulnerabilidade ao HIV, é utilizada uma campanha de prevenção que utiliza unicamente a recomendação do uso do preservativo em todas as relações sexuais, observaremos uma redução de cerca de 80% no número de novos casos de infecções, em comparação com um período anterior em que não era utilizada nenhuma prevenção.

“A efetividade da recomendação do uso camisinha não é de 100%, porque sempre teremos situações em que ela não será usada corretamente”

A efetividade da recomendação do uso camisinha não é de 100%, porque sempre teremos situações em que ela não será usada corretamente, seja porque o indivíduo não conseguiu usar, não desejou usar ou mesmo porque ao usar ela se rompeu. O fato é que a camisinha não é algo bem aceito da mesma maneira por todas as pessoas. Se, para essa população, for utilizada uma campanha de prevenção que associa a recomendação de preservativos com a PrEP, para aqueles que sabidamente tem problemas com o uso da camisinha, é possível chegar aos zero novos casos de infecção por HIV. Isso aconteceu, por exemplo, no projeto demonstrativo permanente Kaiser, nos Estados Unidos. Associar a recomendação de PrEP para aqueles que não conseguem manter o uso consistente do preservativo é, antes de qualquer coisa, reconhecer que nem todas as pessoas conseguem usar a camisinha de maneira perfeita — e isso, por si só, é uma maneira de dialogar melhor com o público que mais precisa de uma campanha de prevenção.

Entretanto, se a pergunta se refere às outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a PrEP não é nada segura, uma vez que ela só protege do HIV. Por isso, quando recomendamos a PrEP para aqueles que já não estão usando a camisinha adequadamente, estamos conseguindo fazer com que pelo menos a vulnerabilidade ao HIV caia. Além disso, o aconselhamento oferecido durante o acompanhamento da PrEP poderá fazer com que, com o tempo, o uso do preservativo melhore, reduzindo também a vulnerabilidade às outras ISTs, fato que já foi demonstrado em ensaios clínicos.

JS — Como sabemos que a PrEP é segura e eficaz na prevenção do HIV? Quantos estudos foram feitos e qual o número de pessoas acompanhadas nestes estudos? Existe no mundo algum caso de infecção pelo HIV em uma pessoa que estava tomando PrEP corretamente?

RV — Sim, o uso da PrEP para evitar a infecção por HIV em pessoas vulneráveis é considerado bastante eficaz, garantindo uma redução de quase 100% entre aqueles que aderem corretamente aos comprimidos. Além disso, a PrEP é segura, pois não apresenta nenhum evento adverso grave, desde que realizado o acompanhamento recomendado. Esses dados vêm de quatro grandes ensaios clínicos multicêntricos randomizados e de dezenas de projetos demonstrativos, como o PrEP Brasil, realizados em diversos países. Até hoje, tivemos no mundo cerca de 150.000 pessoas que entraram em PrEP. Destes, sem contar os indivíduos que não estavam aderindo corretamente aos comprimidos prescritos, foram relatados apenas quatro casos de infecção pelo HIV apesar do uso da PrEP.

“Nenhuma estratégia resolverá, sozinha, a questão da prevenção”

O fato de haver casos de falha da PrEP não deve ser encarado como motivo para abandonarmos essa estratégia, mas deve servir para nos lembrar que nenhuma estratégia — seja ela a camisinha, a PrEP ou a próxima que ainda vai ser descoberta — resolverá, sozinha, a questão da prevenção, controlando todos os novos casos de HIV no mundo. A associação de estratégias é que poderá resolver. Precisamos compreender que as melhores estratégias de prevenção para um indivíduo são aquelas que ele consegue utilizar de maneira correta e continuada. Preconceitos e julgamentos só funcionam como barreiras para que essas pessoas consigam encontrar as estratégias que melhor funcionarão dentro de cada contexto individual.


POZ

“Dependendo de quando testar positivo para o HIV, você pode estar diante de até oito décadas de tratamento”, diz Tim Horn, do Treatment Action Group. “Precisamos de medicamentos mais gentis, amáveis, melhores e mais baratos.”

Novos tratamentos antirretrovirais que estão a caminho incluem:

  • Medicamentos dois-em-um orais. A ViiV Healthcare e Janssen começaram estudos de fase III de um regime de dois medicamentos por via oral que incluem Dolutegravir e Rilpivirina.
  • Tratamento de ação prolongada. Uma formulação injetável de ação prolongada de Cabotegravir da ViiV e Janssen se mostrou promissora em um estudo recente de fase IIb. A combinação, administrada a cada oito semanas, está entrando em estudo de fase III e pode chegar ao mercado em 2019. O Cabotegravir também está sob pesquisa como PrEP, também administrado a cada oito semanas, com uma possível aprovação em 2020. Mais atrás no camino está o MK-8591, da Merck, um antirretroviral que pode precisar apenas de administração oral semanal ou injetável mensal, e que pode funcionar como PrEP ou como parte de um regime de tratamento.
  • Anticorpos monoclonais. Infusões de anticorpos monoclonais, ou clonados, podem tornar-se uma alternativa aos antirretrovirais. Um deles, chamado VRC01, tem se mostrado uma grande promessa, combatendo com sucesso o HIV em um estudo de fase I. O anticorpo está agora em estudos de fase III como PrEP, administrado a cada oito semanas, com resultados esperados para 2022. Dois outros anticorpos, incluindo PRO 140 e Ibalizumab, os quais entraram recentemente em estudos de fase III como tratamento.
  • Tratamentos para inflamação crônica. Encontrar formas de reduzir a inflamação que está associada mesmo ao HIV bem controlado poderia reduzir o risco de várias condições associadas ao envelhecimento. Um grande estudo clínico controlado com placebo, chamado REPRIEVE, está observando a possibilidade de administrar Estatina, uma classe de medicamentos usados para controlar o colesterol,  às pessoas com HIV, a fim de reduzir o risco de doenças, incluindo ataques cardíacos ou câncer. Os resultados são esperados em 2021.
  • Novas classes de antirretrovirais. Pesquisadores estão desenvolvendo novos inibidores de maturação, tais como o BMS-955176, bem como inibidores de ligação orais, tais como Fostemsavir, que agem contra o HIV bitrópico, o vírus que tem conectores para ambos os co-receptores CCR5 e CXCR4 das células do sistema imune. O único inibidor de fixação oral já aprovado, Selzentry (Maraviroc), funciona apenas para o vírus trópico CCR5.
  • Comprimidos genéricos combinados. Com vários antirretrovirais perdendo a proteção das patentes nos próximos anos, os fabricantes de genéricos devem começarem a produzir comprimidos de combinação genéricos nos Estados Unidos. As questões mais importantes incluem se os genéricos vão realmente ser muito mais baratos e se os planos de saúde [nos Estados Unidos] darão preferência sobre medicamentos de marca, mesmo se estes últimos tiverem toxicidades mais baixas. Também pode haver comprimidos de combinação mista, contendo ambos medicamentos genéricos e de marca.
  • Cura. Um pequeno exército de cientistas está explorando vários caminhos para dar um nocaute total no HIV. A aproximação da combinação provavelmente será necessário para o sucesso. Em geral, os especialistas acreditam que a cura ainda está muitos anos, senão décadas, adiante. Nesse ínterim, este campo de estudo pode produzir maneiras de melhorar os tratamentos existentes e mitigar ainda mais os efeitos nocivos do vírus.
Por Benjamin Ryan em 24 de junho de 2016 para Poz

 


financial times

Faz somente um ano desde que a GlaxoSmithKline estava considerando um spin-off [distribuir quotas de um novo negócio aos acionistas atuais] da sua unidade de HIV, como forma de aumentar o valor para os acionistas descontentes. A opção foi rejeitada e, agora, o negócio, conhecido como ViiV Healthcare, está desempenhando um papel cada vez mais importante nos esforços para levar a farmacêutica britânica ao crescimento econômico.

Na última semana, a GSK relatou ter tido progresso positivo com um novo tratamento de ação prolongada que está em desenvolvimento pela ViiV, enquanto seus medicamentos já existentes seguem expandindo a participação no mercado global de HIV, de US$ 20 bilhões por ano, sobre seus rivais, incluindo a Gilead Sciences. A contribuição da ViiV para os lucros operacionais da GSK aumentou de 16% em 2014 para 29% no ano passado, e foi previsto pela UBS que chegue à quase metade até 2020.

Em parte, isto é reflexo do declínio dos negócios com medicamentos respiratórios da GSK, outrora poderosos, enquanto a onda de crescimento da ViiV acelerou a mudança. As vendas de medicamentos para o HIV aumentaram 54% no ano passado, para £ 2,3 bilhões, em comparação com uma queda de 7% em negócios de produtos farmacêuticos mais amplos. Os lucros operacionais da Viiv subiram 72%, para £ 1,7 bilhão, em comparação com uma queda de 12% em negócios de produtos farmacêuticos mais amplos.

Alexandra Hauber, analista da UBS, diz que a ViiV é “crucial” para a promessa de retomada de crescimento da GSK ao longo dos próximos cinco anos, uma vez que seu medicamento Advair, líder de vendas para tratar asma, agora enfrenta a concorrência dos genéricos. “A principal razão que faz os investidores poderem ter certeza de que a GSK conseguirá cumprir suas metas para 2020 é a ViiV”, diz ela.

Para os críticos de Sir Andrew Witty, executivo-chefe da GSK, a crescente dependência do grupo em um negócio que ele anteriormente estava disposto a se desfazer parcialmente é evidência de confusão estratégica. Seus aliados dizem que a avaliação do futuro da ViiV foi um exercício saudável, o qual chamou a atenção para a carteira oferecida pelo HIV e terminou com todas as partes — direção, conselho e a maioria dos investidores — em acordo de que este era um negócio bom demais para desistir.

As raízes da GSK no mercado de HIV são profundas. Uma das suas empresas predecessoras, Burroughs Wellcome, foi responsável pelo AZT, o primeiro medicamento aprovado pelos reguladores dos Estados Unidos para tratar o HIV, em 1987 — e foco do filme Clube de Compras Dallas (2013), vencedor de três Oscar.

No entanto, a GSK ficou para trás da Gilead na onda seguinte de medicamentos e, entre 2002 e 2013, viu sua fatia de mercado cair de 40% para 11%. Em 2009, a decisão de combinar os ativos relativos ao HIV da GSK com a Pfizer numa joint venture, batizada de ViiV, inicialmente não conseguiu reverter o declínio. Contudo, em 2014, o negócio — 78% detido pela GSK — estava começando a recuperar o espaço perdido e, no ano passado, sua fatia de mercado subiu para 17%.

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A recuperação foi impulsionada pelo Dolutegravir, um inibidor da integrase vendido sob a marca Tivicay e como parte de um comprimido de combinação de três-em-um chamado Triumeq. Estes produtos têm diminuído a vantagem clínica da Gilead, mas mesmo a GSK ficou surpresa com a rapidez com que esse produto decolou. As vendas de Tivicay e Triumeq foram de £ 1,3 bilhão no ano passado e a UBS espera que chegue a £ 4,9 bilhões em 2020 — com uma margem de lucro de 75%, maior do que qualquer outro produto da GSK.

Hauber diz que o potencial poderia ser ainda maior se a ViiV conseguisse tornar o Dolutegravir a espinha dorsal de novas combinações de duas drogas que oferecem alternativas “mais simples e mais seguras” para as formulações atuais de três medicamentos. A mais avançada dessas terapias duplas está em fase final de estudos. “Temos de demonstrar que a estratégia de terapia com dois medicamentos que estamos seguindo pode cumprir sua promessa”, diz Dominique Limet, executivo-chefe da ViiV. “É cedo, mas, se funcionar, será algo transformador.”

Uma oportunidade ainda maior poderia vir de tratamentos de ação prolongada, cujo objetivo é substituir as pílulas diárias por uma injeção administrada uma vez a cada quatro ou oito semanas. O primeiro produto desse tipo — desenvolvido pela ViiV em parceria com a Johnson & Johnson — suprimiu com sucesso o vírus HIV em mais de 90% dos pacientes, em estudos de fase intermédia, detalhados na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI 2016), em Boston, na terça-feira.

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No entanto, muitos participantes do estudo relataram dor associada com as injeções, levando alguns analistas a questionar como o produto poderia ser adotado em larga escala. “Em poucas palavras: acreditamos que o número de pacientes que irão optar por injeções dolorosas, no lugar de comprimidos diários e indolores, é pequeno e representa um risco limitado para a perspectiva da Gilead”, disse Geoffrey Porges, da Leerink Partners.

A GSK tem procurado ampliar sua linha de pesquisa e desenvolvimento com a aquisição de diversos medicamentos experimentais da Bristol-Myers Squibb em um negócio de US$ 1,5 bilhão, num acordo firmado em dezembro e completado nesta semana.

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E pode haver mais investimentos adiante. A GSK reservou um passivo de £ 2 bilhões em seu balanço para reaver as opções de venda da Pfizer e de seu outro parceiro, a Shionogi, do Japão, para que estas vendam suas participações na Viiv ao grupo britânico. Nesse mês, Sir Andrew deu a entender que a GSK estava ansiosa por um acordo, dizendo que ele era “certamente um comprador” se surgir uma oportunidade de assumir o controle total.

É improvável que a ViiV consiga ter tudo o que quer na corrida para a próxima geração de medicamentos contra o HIV, mas Hauber diz que os investidores ainda vão apreciar bastante ver a “GSK desafiar como nunca a Gilead”.

Tratamento preventivo:

A GlaxoSmithKline tem o objetivo de fazer como a Gilead Sciences e também oferecer um tratamento que possa impedir as pessoas de contrair o vírus HIV. A ViiV Healthcare, unidade do grupo do Reino Unido, publicou esta semana resultados globais encorajadores de um estudo clínico em estágio inicial sobre um medicamento injetável chamado Cabotegravir, que já demonstrou fornecer 100% de proteção contra a infecção pelo HIV em estudos pré-clínicos feitos em animais.

A Gilead tem liderado o caminho dos medicamentos profiláticos contra o HIV, com a sua pílula oral Truvada, provando mais de 90% de eficácia na prevenção da infecção quando tomada diariamente. A ViiV quer produzir uma alternativa mais duradoura, que precisa ser injetada apenas uma vez cada oito ou 12 semanas.

Ainda há muito para a ViiV provar — os dados divulgados nesta semana só fornecem informações sobre a segurança do medicamento —, com um estudo mais amplo planejado para demonstrar sua eficácia. Perguntas sobre o apelo de um tratamento mais durável ser capaz de superar a dor da injeção, com 98% dos participantes do estudo relatando desconforto na picada do Cabotegravir, também permanecem.

O uso da chamada profilaxia pré-exposição, ou “PrEP”, para evitar a infecção pelo HIV, tem causado controvérsia, com os críticos argumentando que irá prejudicar o uso do preservativo e, portanto, aumentar a propagação de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas a Organização Mundial da Saúde e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos têm apoiado o uso do Truvada por pessoas sob alto risco de contrair HIV.

Dominique Limet, executivo-chefe da ViiV, disse que tratamentos preventivos podem ter um grande impacto se amplamente adotados em regiões como a África subsaariana, onde o HIV continua a avançar. “Nós já estamos observando o afrouxamento do… sexo seguro”, disse ele. “Temos que trabalhar de mãos dadas com a comunidade médica e organismos de saúde pública [para promover práticas mais seguras].”

Por Andrew Ward para o Financial Times em 25 de fevereiro de 2016


street-insider

A Janssen Sciences Ireland formalizou sua colaboração com a ViiV Healthcare na fase III para o desenvolvimento e comercialização de um regime de duas drogas de ação prolongada: formulações injetáveis ​​de Rilpivirina (inibidor não nucleosídeo da transcriptase reversa da Janssen) e Cabotegravir (da ViiV Healthcare).

Janssen (empresa farmacêutica da Johnson & Johnson) e ViiV Healthcare vieram trabalhar em conjunto no desenvolvimento deste regime depois de uma série de acordos para estudos clínicos, durante vários anos. Sob este novo acordo, o estudo de fase III, para avaliar a eficácia, segurança e tolerabilidade do regime, será liderado pela ViiV Healthcare com o apoio da Janssen. Com a fase III concluída, bem sucedida, e com a aprovação das agências reguladoras, cada empresa vai fabricar e distribuir individualmente suas formulações farmacêuticas.

“Estamos comprometidos em fazer a diferença para as pessoas afetadas pelo HIV.”

“Apesar do grande progresso no desenvolvimento dos atuais tratamentos contra o HIV, o fardo da administração diária dos remédios para o HIV continua a ser grande e representa um desafio para garantir que as pessoas que vivem com o HIV mantenham uma carga viral indetectável”, diz Paul Stoffels, diretor científico da Johnson & Johnson mundial e da Janssen Pharmaceutical Companies. “Estamos comprometidos em fazer a diferença para as pessoas afetadas pelo HIV. A perspectiva de desenvolvimento de novas terapias, tais como formulações de ação prolongada acessíveis, podem oferecer esperança para os milhões de afetados pelo HIV em todo o mundo.”

Na 32ª semana de um estudo de fase IIb (LATTE 2, NCT02120352), a pesquisa do regime de ação prolongada injetável, administrado a cada 4 ou 8 semanas, mostrou eficácia comparável a um regime oral diário de três medicamentos para o HIV (em um estudo sobre Cabotegravir e dois inibidores nucleósidos da transcriptase reversa). Se desenvolvido e aprovado pelas autoridades reguladoras com sucesso, as pessoas que vivem com HIV que estão com supressão virológica poderiam ter uma opção alternativa ao regime padrão, oral diário de três terapias medicamentosas.

“Temos o potencial de desenvolver o primeiro medicamento de ação prolongada.”

“Enquanto trabalhamos em direção ao nosso objetivo de longo prazo de desenvolvimento de uma vacina preventiva contra o HIV, estamos animados em continuar a apoiar as pessoas que vivem com o HIV através de melhorias inovadoras”, disse Wim Parys, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Janssen. “Através desta colaboração, nós temos o potencial de desenvolver o primeiro medicamento de ação prolongada, injetável de dois regimes de medicamentos, como uma opção inovadora para o tratamento de manutenção do HIV.”

Desde o início da epidemia do HIV, quase 75 milhões de pessoas foram infectadas com o vírus. Estima-se que 35 milhões de pessoas vivem atualmente com HIV no mundo, com 2,5 milhões de pessoas sendo infectadas a cada ano.

Sobre o estudo LATTE 2

LATTE 2 foi um estudo multicêntrico, aberto e de 96 semanas de duração, iniciado na fase IIb, para investigar a segurança e eficácia deste primeiro regime injetável de ação prolongada que combina Rilpivirina e Cabotegravir para manter a supressão da carga viral. O LATTE 2 incluiu adultos (n=309), que, após atingir supressão virológica através do tratamento oral com uma dose diária de 30mg de Cabotegravir associado a dois inibidores nucleósidos da transcriptase reversa (n=286, 93%), foram subsequentemente randomizados para um dos três braços do estudo para receber injeções de Cabotegravir e Rilpivirina injetáveis a cada 4 semanas (n=115), 8 semanas (n=115) ou a continuar com o tratamento oral convencional (n=56).

Na 32ª semana, as taxas de supressão viral (RNA do HIV-1 inferior à 50 cópias/ml) para pacientes que receberam a terapia de manutenção das duas drogas de ação prolongada, administradas a cada 8 semanas (95%) ou em intervalos de 4 semanas (94%), eram comparáveis ​​às taxas observadas em pacientes que continuaram com o regime oral de três fármacos (91%). Os pacientes que estavam no grupo que recebeu as doses a cada 4 semanas relataram mais eventos adversos, alguns deles levando à suspensão (5%; n=6), em comparação com aqueles que receberam injecção a cada 8 semanas (2%; n=2) ou que continuaram com o tratamento oral (2%, n=1). O efeito adverso mais comum relatado pelos pacientes foi dor no local da injeção (93% dos receptores de injeção). Dois pacientes no braço no grupo de 8 semanas (e nenhuma no braço de 4 semanas) se retiraram devido à intolerância da injeção. Dois pacientes preencheram critérios de falha virológica definida pelo protocolo, um deles no grupo de 8 semanas e outro no grupo de tratamento oral; nenhum paciente tinha provas de resistência aos medicamentos. Os resultados do estudo LATTE 2, cofinanciado pela Janssen e ViiV Healthcare, serão apresentados no futuro em uma conferência científica.

Em 7 de janeiro de 2016 pelo StreetInsider.com