Biovir é um antirretroviral da classe dos inibidores nucleosídeo da transcriptase reversa (ITRN) composto por 150 mg de Lamivudina e 300 mg de Zidovudina (AZT) que se administra como parte da terapia antirretroviral no contra o HIV.

Quem depende do Biovir e do Raltegravir para lutar contra o HIV está em alerta. A quantidade atual dos dois medicamentos está insuficiente. A infectologista Mylva Fosi, do Programa Municipal de DST/Aids, afirmou, na manhã desta sexta-feira, durante a reunião ordinária do Fórum de ONGs Aids de São Paulo, que a previsão é de que o estoque dure apenas até o dia 10 de maio.

O diretor do Programa Municipal de DST/Aids, Artur Kalichman, afirmou que já entrou em contato com o Ministério da Saúde alertando que o estoque está muito curto. A justificativa é de que um dos componentes químicos destes medicamentos são fornecidos por fábricas na China que passaram por problemas técnicos. “A expectativa é de que vamos receber o Biovir antes deste fatídico dia 10”, afirma. Quanto ao Raltegravir, a previsão é de que, no máximo, até dia 27 de abril seus componentes já estejam no Brasil.

Segundo Mylva, a quantidade de Biovir tem sido sinônimo de problema há algum tempo. Ela relembrou que o prazo entre o remédio chegar na Furp (Fundação para o Remédio Popular), o almoxarifado central, e estar disponível para o paciente, leva um tempo. Por isso, ainda está sendo cogitado o fracionamento do Biovir.

Até a normalização do estoque, as novas terapias também acabam sendo atingidas pelo problema. A orientação é de não podem ser iniciados novos tratamentos com esses remédios que estão em falta, sendo necessária a indicação de uma outra terapia.

 

Boa Notícia

Pacientes que tomam o antirretroviral Abacavir relatam muitas reações alérgicas ao medicamento. Esses efeitos colaterais se tornaram um impasse porque o Abacavir é uma alternativa ao AZT e ao Tenofovir .

Mylva explicou que, hoje, já se consegue prever a reação alérgica através de um exame, que não se encontrava disponível para os pacientes brasileiros. A boa notícia é que esse procedimento acaba de ser incluído no contrato de genotipagem e, agora, pode ser realizado no laboratório de genoma, antes mesmo de o paciente iniciar a medicação. “Assim, ele se torna um recurso de diagnóstico a mais que pode facilitar o manejo de outras drogas e trazer opções de terapias aos pacientes”, explica a infectologista.

 

Enfraquecimento do Movimento Social

“O movimento está se perdendo porque não tem ideias consolidadas”, disse Carla Diana, da Articulação Nacional de Luta Contra Aids. Ela ressaltou que é importante fortalecer o movimento não apenas enquanto corpo, mas enquanto fonte de iniciativas e ideias. “É importante lembrar que este espaço é um local de participação política. Ás vezes se torna um espaço para preencher cadeira. Quando algum membro representa o Fórum em um evento externo, é a voz dessas organizações que está em pauta” completa.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp também argumentou afirmando que é preciso ter o cuidado de ir para esses eventos representando um grupo, porque alguns mas acabam levando pautas individuais.

Para tanto, Margarete Preto, do Projeto Bem-me-Quer sugeriu que uma saída possível seja a articulação prévia aos eventos para que os ativistas possam se organizar e se posicionar, levando pautas mais pertinentes nos encontros nacionais e também até governo.

“Independente de esquerda ou direita a briga político-partidária é um lugar perigoso. Ela faz com que as principais pautas se percam. Alguns problemas são de outras gestões, de outros governos. A gente tem a prática do que é viver com aids e temos a possibilidade de mudar e seguir em frente”, finalizou Cláudio Pereira, do Grupo de Incentivo à vida.

 

Próximos Desafios

Também foi destaque na reunião, a aposentadoria de pessoas vivendo com HIV. Ficou estipulado que cada uma das ONGs do Fórum fará levantamento para saber como estão sendo feitas as chamadas para perícia no INSS, já que muitas pessoas estão sendo desaposentadas.

Neste cenário de desafios, Artur Kalichman expôs sobre o número de mortes por aids em São Paulo. “Não era para mais ninguém ter aids, muito menos morrer da doença. Hoje, morrer de aids representa uma falha.”

No últimos 10 anos, os casos de aids começaram a cair entre gays brancos. No entanto, entres gays negros, os índices continuaram a subir. A vulnerabilidade também fica evidente no número de mortes por aids neste mesmo período. Enquanto o índice caiu para aqueles que são brancos, o número de mortes permaneceu estável para a população negra.

Em São Paulo, estima-se que 218 mil pessoas vivem com HIV. Desse total, 184 mil já foram diagnosticadas, mas apenas 117mil estão com carga viral suprimida. Isso significa que o desafio maior é saber porque as pessoas que já sabem que estão infectadas, não estão sendo atingidas e se mantendo na rede de saúde.

Além disso, Artur relembrou a importância de se trabalhar com o público heterossexual. 81% das pessoas que morreram de aids nos últimos 10 anos eram heterossexuais. Essa informação pode ser explicada pela falsa premissa de que somente homossexuais contraem HIV, tornando a doença ainda mais estigmatizante.

 

Por Um Brasil Sem Hepatites

A reunião também foi oportunidade para o lançamento oficial a Revista Por Um Brasil sem Hepatites, produzida pelo Projeto Bem-Me-Quer em parceria com a Agência de Cooperação Internacional – Coalition Plus da França.

A revista contém um conjunto de informações sobre a resposta governamental no combate a Hepatite C em três municípios do estado de São Paulo (Santos, Sorocaba e a capital), além de dados epidemiológicos, cartografia social de usuários dos serviços de saúde, articulação política e ativismo internacional.

O objetivo do projeto é que todas essas ações e estratégias possam ser um modelo norteador para que outras Secretarias de Saúde e outras ONGs de todo Brasil aprimorem suas estratégias de atenção a esse agravo e qualificar a resposta.

Fonte: Agência de Notícias da Aids
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Acontece uma estranha sensação depois de ler “reagente” no resultado do teste de HIV. Pelo vírus incurável, a presunção de que a vida jamais será a mesma e, por sua história, a certeza do sofrimento, com um novo corpo alterado pela doença e seu tratamento. A vontade de arrancar de si um micróbio que, agora, é inarrancável e, por isso, a frustração. A nova identidade, de soropositivo.

Esse é um sentimento que só se esvai com o tempo, quando, pouco a pouco, percebemos que o tratamento não é tão terrível, que o corpo não muda por causa dele, que a doença é controlada, que, com os remédios, o vírus não mais se replica em nosso organismo. Não nos sentimos doentes. Nos olhamos no espelho e vemos alguém saudável. A história da epidemia da aids não é mais aquela que assistimos na televisão nos anos 80 e 90. É outra. Hoje, no dia a dia, podemos esquecer do vírus, tão pequeno. E a nova identidade não é mais necessária — se fosse, logo aprendemos que não importa tanto o soropositivo, mas o indetectável.

Contudo, o vírus persevera, escondido, dentro de alguma célula de memória do sistema imune que nos faz lembrar que, embora não estejamos doentes, tampouco estamos curados. Como uma pequena semente distante da terra, o vírus não germina, mas está lá, pronto para fazer o mal caso o tratamento seja abandonado. Uma lembrança distante, e forte, do torvo momento do diagnóstico e de todo o assombroso momento que experimentamos quando recebemos aquele resultado reagente do teste de HIV. O vírus, controlado, é uma fagulha de sofrimento potencial, que faísca sempre que remexemos no assunto do diagnóstico. Contar para alguém que somos HIV positivo é um desses momentos. Um dos últimos redutos do trauma que o vírus traz, ainda resistente à toda a normalidade que a vida de soropositivo e indetectável pode oferecer.

Quando chega a hora de contar, é como se o HIV deixasse de ser pequeno. Como uma memória acendida, vem à tona e cresce. Enxergamo-lo grande, como se estivesse bem de perto, como se pudéssemos avistá-lo a partir de algum olho que habita dentro daquela célula de memória do sistema imune. Então, vemos que o vírus ainda está lá. Pronto para assustar a quem contarmos que temos HIV. Pronto para despertar, no outro, a memória do pavoroso passado da epidemia de aids, seu antigo conceito de doença monstruosa que, embora não o seja mais, é revivida no estigma, discriminação e preconceito. O pesadelo do soropositivo, hoje, é este.

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Quando na manhã seguinte acordei de sonhos intranquilos, era impossível não lembrar dos dias após o meu diagnóstico. Antes de me levantar, olhei pela janela, tentando discernir se a textura do mundo real era a mesma do pesadelo que acabava de acordar, logo depois da primeira noite em que experimentei uma rejeição amorosa por causa da minha condição sorológica, por causa do HIV. Uma negativa que encerrava bruscamente o romance, numa mensagem que dizia:

“Jovem, eu acho melhor não nos vermos mais.”

Nesses sonhos intranquilos, estava o Dr. O., meu primeiro infectologista. Em seu consultório, todo branco e com poucos objetos, ele prescrevia meus primeiros antirretrovirais: Lamivudina, AZT, o primeiro antirretroviral do mundo contra o HIV, e o potente Kaletra. Lembrei do gosto metálico destes remédios, que surgia na boca logo após as primeiras doses deglutidas. E da diarreia incessante que se sucedeu e perdurou, sem trégua, pelos quatro meses seguintes. A manhã de hospitalização por vômito incessante. A irritação na pele e o dermatologista que preferiu não tocar nelas, examinando-as à distância de sua mesa, assim que informei ser portador do vírus. As calças defecadas no meio da rua. A anemia. Os quilos sumindo na balança. As pernas finas e as nádegas murchas, pela súbita magreza.

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Um corpo novo, enfim transformado pelo forte tratamento a que o doutor insistia em me submeter, sem deixar espaço para qualquer alternativa. Amigos comentavam meu emagrecimento repentino e minha mãe, quando a encontrava, chorava escondida pelos cantos, aterrorizada pela minha nova aparência, tão semelhante aos soropositivos que viveram os anos do começo da epidemia. Me sentia desumanizado, e, agora, naquela manhã, depois de rejeitado por causa do HIV, voltava a me sentir assim, pela primeira vez desde o diagnóstico. Compreendi que, por causa do HIV, eu causava repugnância. Era como a de um inseto, sujo e contaminado. Uma barata, ou, quem sabe, uma aranha peçonhenta, tal como aquela retratada nas primeiras peças publicitárias de prevenção ao HIV.

“— Mas, quando conheceu essa menina, você já não tinha mais a aparência alterada pelos efeitos colaterais dos medicamentos, certo?”, perguntou B., a jovem jornalista de sotaque sulista que me entrevistava. “Já tinha retomado sua aparência saudável, como está hoje, não?”

“— Sim, eu estava ótimo há muito tempo. Bastou mudar de médico: meu novo infectologista, o Dr. Esper, trocou meu coquetel logo em nossa primeira consulta. De Kaletra para Efavirenz. No dia seguinte, exatamente 24 horas depois, a diarreia cessou, finalmente, depois de quatro meses. Voltei a comer. A anemia sarou. Ganhei peso. E entendi que o começo, o diagnóstico, não precisava ser nem de perto tão trágico como foi. O primeiro médico foi duro comigo por alguma razão que me escapa até hoje. Não precisava ser assim. Percebi que a vida depois do diagnóstico podia voltar a ser completamente normal, em todos os aspectos — exceto, eu aprendia àquela altura, pela rejeição amorosa por causa do HIV.”

“— Você nunca mais encontrou essa menina que o rejeitou?”, perguntou B.

“— Nos encontramos, sim, um mês depois. Ela me ligou no meio da noite. Acontecia uma festa em sua casa e ela provavelmente já tinha bebido alguns drinks. Insistia para que eu fosse visitá-la. Quando me dei conta, estava em seu quarto. Ela se despia rapidamente e dizia: ‘Vamos para a cama agora! Mas será essa a única vez que iremos transar!’, me deixando então tão nervoso que acabei broxando na nossa pouco romântica noite de núpcias”, contei, tentando trazer um pouco de humor à conversa.

Mas não foi possível: B. não sorria. A luz do pôr do sol penetrava lateralmente pela janela de vidro, acendendo ainda mais seus cabelos louros e incidindo precisamente em seus olhos azuis. Não pude deixar de notar, ali, algumas lágrimas, contidas, que se acumulavam no canto inferior das pálpebras. Ela então virou o rosto, como se tentasse disfarçar. E escreveu algo em seu bloco de notas, antes de fechá-lo.

“— Sabe, há muito tempo, eu tive um namorado com HIV”, confessou a jornalista. “Eu tinha dezoito anos e ele era um pouco mais velho. Namoramos por anos e ele nunca me contou que tinha o vírus. Descobri por acaso, porque encontrei seus remédios enquanto viajávamos juntos para praia, escondidos em sua nécessaire. Questionei pra que eram e ele disse que eram vitaminas. Mas não pareciam vitaminas. Algum tempo depois, a irmã dele acabou vindo me contar que eram remédios de HIV.”

“— Que história…”, suspirei.

“— E também não teve um final feliz, como a tua.”

“— O que você fez, quando descobriu que ele tinha HIV?”

“— Eu terminei o namoro”, disse B., num suspiro. “Mas tenho para mim que terminei porque ele mentiu”, completou. “Sabe, quando encontrei seu blog, achei que tu foste ele, este meu ex-namorado soropositivo. Depois que rompemos, ele sumiu. Ouvi dizer, por outras pessoas, que ele parou de se cuidar. E por muito tempo eu me senti culpada por isso. Foi buscando informações sobre ele e sobre o HIV que caí no teu blog.”

Sua tristeza já não se continha. B. não chorava, mas também não escondia as poucas lágrimas que começavam a escorrer de seus olhos. Ela já não mais parecia uma profissional a entrevistar seu objeto de pesquisa. E sua aparência de jornalista foi gradativamente desvanecendo.

“— B., isso não é exatamente uma entrevista, é?”, questionei.

“— Não. Me desculpe. Não é”, respondeu ela. “Mas não estou desapontada por confirmar que você não é ele. É muito bom conhecê-lo.”

Assim como num filme, o texto pode cortar para o ponto que interessa ao espectador. Em geral, isso quer dizer que, a partir do que sucede o encontro, o tempo voa na tela. Suprime-se o caminhar ao lado, quando fomos em direção ao parque, agora conversando amenidades. Deixa-se de lado que paramos sobre a ponte, que liga os dois lados daquele oásis arborizado no meio da Avenida Paulista, cortados pela retilínea alameda. A conversa sentados sobre o banco de madeira, debaixo da copa das árvores que batiam com o vento frio. E o caminhar para o bar, já à noite, aonde uma banda tocava jazz. Depois de alguma cervejas, nos beijamos. B. aproveitou para perguntar como funcionava meu tratamento, os riscos de transmissão e se a camisinha bastava para que o sexo comigo fosse seguro.

Seguimos juntos para seu hotel, ela cambaleando com as pernas, enquanto me ocorria que, talvez, a total abertura e divulgação da minha condição sorológica era mesmo a melhor opção. O dilema, de quando e como contar que tenho HIV, seria substituído pela praticidade de um filtro prévio, natural, através do qual só se aproximariam as pessoas em que o estigma, a memória antiga do que é o HIV/aids, já estivesse superado. Dessa maneira, não poderia haver preconceito! E muito menos rejeição amorosa! Uma nova vida de soropositivo, isenta de sofrimento por causa do HIV, se desabrocharia para mim.

“– Qual é o número do seu quarto, B.?”, perguntei, percebendo que ela já se recostava em meu ombro, ébria.

Abri a porta e depositei o cartão magnético no interruptor; as luzes se acenderam. Dei a ela dois copos d’água e a recostei na cama. Tirei seus sapatos. Puxei o lençol sobre seu corpo. Me preparava para deixar o quarto de seu hotel, depois de apagar as luzes, quando B. se levantou e virou em minha direção:

“– Onde você pensa que vai?”, perguntou ela, incisiva. “Durma comigo!”

“– B., você está bêbada”, respondi.

“– Só um pouco. Mas com a água já estou bem melhor. Fique aqui. Deite comigo.”

Depois de pouco pensar, fechei a porta.

Camisinha

Na manhã seguinte, acordamos nus e entrelaçados. Sua pele alva mesclava com seus cabelos louros. Algumas pintas. Seus seios acompanhavam o movimento de sua respiração sonolenta, erguendo-se para cima e para baixo. Lembrei de toda a noite anterior. Do tato, do cheiro e dos gemidos. O orgasmo. Foi quando B. abriu os olhos.

“– Estamos nus!”, exclamou ela, depois de recobrar a consciência por um instante.

“– Sim”, respondi.

“– Nós transamos?”

“– Sim. Você não lembra?!”, perguntei, surpreendido.

“– Não! Não lembro!”

“– B., você insistiu para que eu ficasse. Disse que não havia bebido muito e queria…”

“– Você usou camisinha?”, interrompeu ela.

“– Claro que usei camisinha.”

“– Cadê? Onde está a camisinha?”, questionou, assustada.

“– Joguei no lixo do banheiro.”

“– Então deve estar lá…”, sugeriu ela.

“– Sim, está lá”, respondi, percebendo em sua face que ainda faltava alguma comprovação.

“– Você pode ir lá pegar e me mostrar?”

O pequeno banheiro do hotel não dava muito espaço para manobras. Ali, ainda nu e de cócoras, me espremi debaixo da pia, com as costas viradas para a privada. B. plantou-se na porta, como se averiguasse meu procedimento. Tirei a tampa do pequeno cesto e me pus a procurar pela camisinha usada.

“– Enrolei dentro de um pouco de papel higiênico”, expliquei.

Um a um, desdobrava os papéis do lixo, vigiado pelos olhos de B., enquanto dali começava a exalar um cheiro de urina ressecada. Desviei as mãos dos restos de cabelo. E avistei um outro papel com um rastro de fezes. Foi quando senti algo estranho. Um incômodo. Me dei conta que, ali, agachado e remoendo pelo lixo, eu era tal e qual o jovem Gregor Samsa, o personagem de Franz Kafka, quem, depois de sonhos intranquilos, acordou transformado numa barata. Um inseto asqueroso para quem o primeiro benefício é a acusação. Para seres assim, é necessária a prova de boa conduta. Mas eu não queria ser Gregor Samsa.

“– A camisinha está no lixo, bem aqui, em algum lugar”, apontei. “Mas os excrementos do resto do lixo são seus, e eu não me sinto confortável em revirar por eles”, expliquei, depois de me levantar, lavar as mãos e por a me vestir.

Antes de fechar a porta, B. sentenciou:

“– Jovem, eu acho melhor não nos vermos mais.”

kafka

Por que somos postos em condição tão desumana? Não deveria a camisinha selar todo o medo e prevenir (também) o preconceito? É justo nos adiantar a desconfiança, só por causa da sorologia positiva? Será que as campanhas de prevenção do começado da epidemia estavam certas: somos mesmos criaturas tão asquerosas, quanto insetos peçonhentos? É assim que o mundo dos soronegativos, que por tanto tempo fiz parte, nos enxerga?

Preferi pensar que não e, meses depois — e depois de receber uma carta de B. pedindo desculpas pelo ocorrido, propondo selar as pazes e, quem sabe, voltar a nos ver — conheci R., para quem contei logo de cara que era portador do HIV. Percebi seu rosto paralisado por um instante, como se a minha revelação fosse a última coisa que pudesse passar por sua cabeça. Seus olhos arregalados e queixo levemente caído. R. então se levantou e disse que precisava dar uma volta. Retornou muitas horas depois, quase no fim do dia, com o veredito:

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Depois, pôs-se a disparar perguntas: a origem da minha infecção, como funcionava meu tratamento, os riscos de transmissão e o que ela deveria fazer para que o sexo comigo fosse seguro. Por último, perguntou sobre como deveria fazer para ter filhos comigo.

“– Filhos?!”, retruquei, assustado, com queixo caído e os olhos arregalados. Afinal, essa era a última coisa que passava pela minha cabeça.