A bebê do Mississippi foi o primeiro caso de uma recém-nascida que estaria curada funcionalmente do HIV, graças à terapia antirretroviral iniciada em até 30 horas após o parto. No entanto, alguns anos depois, o HIV voltou a ser encontrado em seu organismo.

Inevitavelmente, a cura do HIV vai precisar envolver uma vacina capaz de melhorar a habilidade natural do organismo para controlar o vírus. Pelo menos, é isso o que foi discutido no seminário Steps, durante a 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, de acordo com o Aidsmap. Giulio Maria Corbelli, membro do European Aids Treatment Group (EATG) disse que “a pesquisa da cura nos lembra da importância do envolvimento do paciente, desde as primeiras fases do desenvolvimento de tratamento e prevenção.”

 

A cura do HIV: um objetivo elusivo

Giulia Marchetti, da Universidade de Milão, abriu o seminário com uma apresentação geral sobre as vacinas contra o HIV, especialmente as vacinas terapêuticas. Ela chamou a atenção para um paradoxo desconfortável na cura do HIV: por um lado, existem casos como o da “Bebê do Mississippi” e dos “Pacientes de Boston”, em que, respectivamente, a jovem paciente foi tratada poucas horas depois da infecção inicial e nos quais os pacientes com câncer tiveram seu sistema imunológico aparentemente todo substituído. Em ambos os casos, apesar dos repetidos estudos que não conseguiram encontrar o menor vestígio de DNA do HIV no meio das células, o vírus, mesmo assim, voltou.

Timothy Ray Brown

Por outro lado, temos o caso de Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim” — com quem conversei pessoalmente em Lisboa. Já faz uma década desde o procedimento que levou Timothy à cura e, até agora, não há qualquer sinal do HIV em seu organismo. Também temos, ainda segundo Giulia Marchetti, o caso dos controladores de elite: os raros soropositivos que são capazes de controlar a carga viral do HIV mesmo sem tomar antirretrovirais. Por fim, há ainda os casos dos “controladores pós-tratamento”, como os dos pacientes da coorte Visconti, entre outros relatados na Alemanha e na França, que sugerem que algumas pessoas que recebem o tratamento cedo podem, posteriormente, serem capazes de passar por longos períodos sem tratamento e sem retorno da carga viral do HIV — estes foram casos espontâneos e ainda não sabemos exatamente porque é que isso acontece com algumas pessoas e não com outras.

Apesar destes casos pontuais de sucesso, as tentativas de induzir o controle viral sem ajuda da terapia antirretroviral não têm sido inteiramente bem sucedidas. Em um estudo com uma vacina terapêutica espanhola, os cientistas conseguiram manter alguns pacientes fora dos antirretrovirais por um longo período de tempo e sem rebote do HIV. Mas estudos semelhantes tiveram resultados decepcionantes. Outros estudos, ainda in vitro ou em animais, tiveram resultados mais animadores, com vacinas e medicamentos indicando que pelo menos a supressão viral por longos períodos pode ser possível, senão a cura completa do HIV.

 

Como sabemos qual estratégia é que vai funcionar?

É quase impossível prever antecipadamente qual abordagem contra HIV realmente vai funcionar. O Dr. Felipe Garcia, do Hospital da Universidade de Barcelona, um dos pesquisadores colaboradores da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV, disse que o problema das vacinas contra o HIV é que “aquilo que protege não é capaz de controlar e aquilo que controla não é capaz de proteger”.

O que ele quer dizer com isso é que, por um lado, os chamados anticorpos amplamente neutralizantes e as vacinas que os geram — as vacinas de células B — podem bloquear completamente a infecção pelo HIV nas células, mas tendem a perder a eficácia rapidamente, uma vez que o HIV é capaz de mutar o suficiente para desenvolver resistência a estas estratégias. Mesmo assim, uma destas ferramentas, chamada Pro 140, levou à supressão da carga viral por mais de um ano. Experiências com combinações de anticorpos amplamente neutralizantes que já existem, incluindo algumas com design inovador, mostraram maior eficácia em estudos em humanos e em macacos. Entretanto, estes anticorpos foram injetados passivamente, funcionando tal como medicamentos, sem induzir o corpo a produzir estes anticorpos por conta própria, tal como uma vacina faz.

As vacinas que estimulam uma resposta imune das células contra o HIV — as vacinas de células T — poderiam, potencialmente, gerar uma resposta imune muito mais duradoura contra HIV. No entanto, até agora, essa resposta se mostrou muito fraca e estreita, pelo menos nos estudos em humanos, sem produzir mais do que uma ligeira redução na carga viral — geralmente, uma redução de três a dez vezes (0,5 a 1log) no tamanho do reservatório de células latentemente infectadas pelo HIV. Um estudo com uma vacina em macacos levou à reduções de carga viral muito mais significativas e até à uma aparente cura em cerca de metade dos macacos — o problema é que esta vacina parece ser complicada de se adaptar em humanos.

Garcia citou um modelo matemático que sugere que uma resposta imune teria que produzir uma redução contínua de dez mil vezes nas células infectadas (4 logs) para produzir uma remissão que dure toda uma vida. Ele acrescentou que um problema fundamental nos estudos de vacinas contra o HIV é o fato de que ainda não temos correlatos reais de imunidade: estudos que previram a eficácia de outras vacinas no passado não têm funcionado no caso das vacinas contra o HIV. “Só depois que uma resposta imune é validada por um estudo”, disse Garcia, “é que podemos tirar uma conclusão.”

Estes correlatos de eficácia ou imunidade emergiram em estudos clínicos de grande escala, disse ele. No caso das vacinas contra o HIV, isto é um problema, uma vez que estes estudos são muito caros: o estudo RV144, o único estudo de fase III sobre eficácia, envolveu 16 mil participantes e custou 100 milhões de euros. Foram necessários múltiplos estudos para encontrar uma vacina eficaz contra o HIV e estima-se que mais de 35 mil voluntários por ano sejam necessários nos testes de vacinas contra o HIV de fase I a III, em todo o mundo, para atingir seu objetivo final.

Foi preciso encontrar um jeito mais fácil de selecionar quais das novas vacinas são as melhores candidatas para desenvolvimento, explicou Garcia, e as vacinas terapêuticas trouxeram essa solução, com estudos que não necessitaram de muitas pessoas. Mesmo assim, em um estudo que ele participou da pesquisa, o RISVAC02, foram selecionados 3056 voluntários, dos quais apenas 41 eram candidatos elegíveis e, destes, só 30 foram matriculados no estudo. Outra alternativa tem sido utilizar uma vasta gama de proteínas diferentes num único estudo, caso uma delas mostre eficácia. Em um estudo de vacinas de células dendríticas, no qual Garcia foi o pesquisador principal, avaliou-se a atividade de mais de 50 mil moléculas.

 

Estratégias combinadas

A possibilidade de combinar estratégias tem sido uma tarefa formidável para os pesquisadores de vacinas, que têm mais chances de ver sua vacina ser bem sucedida. Dentre as estratégias recentemente estudadas, estão:

O Dr. Felipe Garcia tem mais interesse nesta última. “As células dendríticas são a primeira linha de defesa contra a infecção. Elas capturam moléculas estranhas e as apresentam para as células do sistema imunológico como antígenos. É preciso acompanhar estas células dendríticas, porque se estas células não alertam o corpo sobre a infecção, o corpo não sabe disso”, disse ele. “O problema com o HIV é que ele desenvolveu a habilidade de se ligar à célula dendrítica, que então os transporta para dentro dos gânglios linfáticos como um Cavalo de Troia. Isso significa que, se desenvolvermos uma vacina que se associe às células dendríticas, podemos gerar uma forte resposta imune celular nos gânglios linfáticos, que é exatamente onde é preciso que ela aconteça.”

Além de fazer parte da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV — um consórcio que reúne 39 parceiros de onze países europeus, quatro da África subsaariana e um dos Estados Unidos que apoia o estudo de diversas estratégias de vacinas preventivas, que incluam vetores virais melhorados, versões modificadas de proteínas do envelope do HIV e vacinas de células dendríticas —, Garcia também é o principal pesquisador no consórcio HIVACAR, que envolve três diferentes estratégias de vacinas terapêuticas que serão usadas em pessoas soropositivas, separadamente e em combinação. A primeira se concentra no desenvolvimento de antígenos direcionados não apenas contra as partes estáveis do vírus, mas também contra o perfil genético do HIV de cada indivíduo — trata-se de uma vacina verdadeiramente individualizada. A segunda etapa é a injeção de anticorpos amplamente neutralizantes. E a terceira inclui moléculas de RNA mensageiro, um procedimento já utilizado em medicamentos experimentais contra o câncer, injetadas após os antígenos e anticorpos contra o HIV. Essa sequência visa sensibilizar as células dendríticas para os antígenos do HIV e estimular ainda mais uma resposta imune que, esperara-se, possa matar as células infectadas pelo HIV dentro dos reservatórios, aonde outras estratégias não conseguiram chegar.

Gânglios linfáticos.

Estas vacinas serão aplicadas intranodicamente — isto é, injetadas nos gânglios linfáticos — com a esperança de que a vacinação direta no local de integração e replicação do HIV inicie uma resposta imune mais forte contra HIV e, espera-se, reduza a replicação do vírus até o ponto em que os indivíduos possam ser retirados da terapia antirretroviral. Os protocolos da HIVACAR estão em estudos de fase I e II, avaliando sua segurança e imunogenicidade, com resultados esperados para 2021.

 

Outras abordagens

O seminário também contou com detalhes sobre o estudo River, parte do consórcio britânico CHERUB. Este estudo reúne combinações de inoculações iniciais com vacinas baseadas em vetores com doses subsequentes de medicamentos denominados inibidores de HDAC para verificar se as duas estratégias funcionam melhor juntas. Os inibidores de HDAC, que despertaram as células dormentes do reservatório de HIV, estavam entre os primeiros fármacos experimentados como agentes de cura do HIV. No entanto, embora eles tenham se mostrado capazes de reverter a latência viral, não produziram uma diminuição útil no tamanho do reservatório de HIV. Espera-se que, ao estimular o sistema imunológico para reconhecer o vírus que é produzido pelas células despertadas do reservatório, essa diminuição do reservatório seja alcançada. O River inlcui 50 voluntários de seis regiões da Inglaterra e deve anunciar seus resultados no próximo ano.

O seminário também trouxe uma atualização sobre a coorte ICISTEM, que reúne pacientes soropositivos com câncer que receberam transplantes de medula óssea — uma abordagem de cura semelhante à de Timothy Ray Brown e dos pacientes de Boston. O ICISTEM conseguiu coletar dados de 23 pacientes, 11 dos quais morreram. Seis pacientes dos 12 restantes foram acompanhados ao longo de dois anos: em cinco deles, as células-tronco da medula óssea transplantada sem HIV substituiu rapidamente as células cancerosas e infectadas pelo HIV. Testes ultrassensíveis não encontraram RNA do HIV no sangue desses pacientes e a carga viral deles se aproxima de zero. Outros testes também não encontraran DNA de HIV nas células do reservatório.

Os pacientes ICISTEM foram curados? Nós ainda não sabemos. Embora os pesquisadores não tenham conseguido encontrar uma única cópia do DNA do HIV em um milhão de células do reservatório destes pacientes, o verdadeiro teste será tirá-los da terapia antirretroviral, o que ainda não foi feito.

 

Envolvendo a comunidade

Fred Verdult é uma pessoa vivendo com HIV que vive na Holanda e que usou sua experiência em publicidade e marketing para fazer uma série de pesquisas de opinião dentro da comunidade de pessoas com HIV, especialmente sobre a pesquisa de cura do HIV e o seu potencial. Ele descobriu que 72% dos seus entrevistados, num grupo de 457 pessoas com HIV, acreditam que uma cura para o HIV seria “muito importante” e apenas 6% achavam que não seria importante.

Quando os entrevistados foram perguntados sobre qual seria a maior desvantagem de viver com o HIV, 91% responderam que era o risco dos possíveis efeitos adversos prejudiciais à saúde no futuro, como efeitos colaterais decorrentes do longo uso da terapia antirretroviral ou problemas de saúde devido à inflamação crônica. 66% disseram se incomodar com os efeitos colaterais dos medicamentos, e outros 66% disseram sofrer com ansiedade sobre o risco de infectar alguém.

Verdult disse que a questão de quando interromper o tratamento é um importante problema ético na pesquisa da cura do HIV — um dilema que já está sendo considerado pelo ICISTEM. Outro dilema é o seguinte: quando a cura chegar, quem devem ser os primeiros beneficiados com ela? Eticamente, se fosse preciso escolher quais pessoas deveriam se beneficiar primeiro da cura do HIV, deveríamos logicamente chamar primeiro as pessoas cronicamente infectadas que sofreram mais que a maioria, por anos de imunossupressão e de terapia subótima contra o HIV — primeiro a entrar, primeiro a sair. No entanto, pelo que se sabe hoje, estas provavelmente serão as pessoas mais difíceis de curar, portanto, com a exceção dos pacientes com câncer, a pesquisa da cura concentrou-se nas pessoas infectadas mais recentemente, com sistemas imunes ainda intactos. Isso pode levar a cura que beneficie antes os últimos infectados — últimos a entrar, primeiros a sair. Será que é justo?

Por fim, há ainda a questão do tratamento como prevenção e da profilaxia pré-exposição (PrEP), que podem trazer grande redução na incidência de HIV no mundo todo — tal como já tem sido observado em São Francisco, por exemplo. Se essa tendência se mantiver, será que o interesse científico e dos financiadores das pesquisas da cura vai diminuir?

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Uma criança sul-africana de nove anos de idade, que foi diagnosticada soropositiva já no primeiro mês de idade e que recebeu um tratamento anti-HIV ao longo de 40 semanas, mantém o vírus controlado sem a necessidade de antirretrovirais há oito anos e meio, de acordo com o que os cientistas relataram na 9th IAS Conference on HIV Science (IAS 2017), em Paris, e publicado no Aidsmap.

Esta criança sul-africana é agora o terceiro exemplo de uma criança que iniciou o tratamento do HIV logo após o nascimento, interrompeu o tratamento depois de meses ou anos e mostrou conseguir controlar a infecção pelo HIV por um período prolongado, sem a necessidade de medicamentos antirretrovirais.

A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses.

Os outros dois casos de crianças que atualmente estão controlando a infecção sem a necessidade de antirretrovirais são: uma criança francesa, diagnosticada aos três meses de idade e tratada por mais ou menos 5 ou 7 anos, e a “Bebê do Mississippi”, tal como ficou conhecida, que começou a receber tratamento 30 horas após o nascimento e nele permaneceu por 18 meses, antes de interrompê-lo. A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses, antes do reaparecimento do vírus.

A criança sul-africana apresentada na IAS 2017 foi tratada por um curto período após o nascimento, como participante do estudo CHER, que comparou duas estratégias de tratamento precoce para bebês com HIV na África austral. A criança foi diagnosticada no primeiro mês de idade e iniciou o tratamento aos dois meses de idade com Lopinavir, Ritonavir, Zidovudina (AZT) e Lamivudina por 40 semanas. Depois, interrompeu o tratamento no primeiro ano de idade. A criança tinha uma carga viral indetectável, abaixo de 20 cópias/ml, no momento da interrupção do tratamento.

Depois disso, a criança foi testada a cada três meses até seus quatro anos de idade, para verificar a sua contagem de células CD4. Análises das amostras de sangue armazenadas mostram que a criança manteve sua carga viral indetectável durante todo esse período. O teste feito aos 9 anos de idade mostram que o HIV ainda se mantém indetectável e que o número de células que contêm o DNA do HIV, o reservatório viral, não mudou desde a interrupção do tratamento.

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV, indicando que seu sistema imunológico é capaz de montar uma resposta contra o vírus, enquanto não possui resposta de células CD8 contra o HIV. Isso pode significar que níveis muito baixos de vírus estão presentes, mas não podem ser detectados pelos métodos atualmente disponíveis. Nenhum vírus competente de replicação foi isolado usando dois métodos diferentes para cultivar vírus de células potencialmente infectadas.

“Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”

Pesquisadores da África do Sul e dos Estados Unidos ainda estão tentando explicar como a criança é capaz de controlar o HIV. Eles são cautelosos em não descrever o caso como uma cura — em vez disso, dizem que a infecção pelo HIV na criança está em remissão, controlada por fatores que ainda precisam ser entendidos. “Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”, disse a Dra. Caroline Tiemessen do laboratório do Centro de HIV e DSTs do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis, em Joanesburgo, o qual está estudando o sistema imunológico desta criança.

Um grande estudo chamado IMPAACT P1115 está testando a hipótese de que a terapia antirretroviral em recém-nascidos infectados pelo HIV iniciada dentro de 48 horas do nascimento pode permitir o controle a longo prazo da replicação do HIV, mesmo após o tratamento ser interrompido, possivelmente levando à remissão do HIV. O IMPAACT P1115 começou em 2014 e inscreveu 42 crianças infectadas pelo HIV. As primeiras crianças podem tornar-se elegíveis para o tratamento antirretroviral no final de 2017.


Referência: Violari A et al. Viral and host characteristics of a child with perinatal HIV-1 following a prolonged period after ART cessation in the CHER trial. 9th IAS Conference on HIV Science, Paris, 23-26 July, 2017, abstract TuPDB0106.


Por Liz Highleyman para o Beta em 11 de agosto de 2015

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Uma adolescente francesa com HIV que tem conseguido manter sua carga viral indetectável há 12 anos sem tratamento antirretroviral foi o principal assunto durante a 8ª Conferência Internacional da Aids Society, que aconteceu no mês passado, em Vancouver. Embora ninguém esteja se referindo ao seu caso como uma cura, ele certamente levanta questões interessantes sobre o “controle pós-tratamento” e pode oferecer pistas a respeito da cura funcional e da remissão do HIV a longo prazo.

Asier Saez-Cirion
Asier Saez-Cirion

Asier Saez-Cirion, do Instituto Pasteur de Paris, descreveu o caso durante uma coletiva de imprensa que aconteceu antes da conferência, no simpósio “A Caminho da Cura”. A jovem, que agora tem 18 anos de idade, foi infectada pelo HIV durante ou antes do parto. Sua mãe, que recebeu os primeiros cuidados médicos somente no final da gravidez, apresentava carga viral alta no momento do parto e, por isso, a bebê recebeu preventivamente doses de Zidovudina (AZT) logo após o nascimento. Depois de seis semanas sob AZT, sua carga viral aumentou a um nível alto, comprovando que ela de fato estava infectada. O tratamento com a terapia antirretroviral foi então iniciado, aos três meses de idade.

Com aproximadamente seis anos idade, a criança foi retirada do acompanhamento médico e do tratamento. Quando retornou, um ano depois, a carga viral em seu sangue estava indetectável, apesar da criança não estar sob terapia antirretroviral. Assim, ela foi mantida sem tratamento. Aos 12 anos de idade ela apresentou um “blip” significativo de replicação viral, que alcançou 500 cópias/ml, e então novamente retornou a níveis indetectáveis.

Hoje, a jovem contabiliza 12 anos sem tratamento e com carga viral indetectável no plasma sanguíneo, de acordo com testes ultrassensíveis, capazes de medir 4 cópias/ml. Sua contagem de células T CD4 se mantém alta e estável. Contudo, os pesquisadores conseguem detectar o DNA do HIV (o material genético viral) em suas células — e células isoladas podem ser reativadas e produzir vírus em laboratório –, mostrando que ela não foi curada.

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional.”

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional”, alertou Saez-Cirion durante a coletiva. “A maioria dos pacientes soropositivos, crianças ou adultos, perdem o controle da infecção sempre que interrompem o tratamento, mesmo que este tenha sido iniciado cedo.”

“Esta jovem continua infectada pelo HIV e é impossível prever como seu estado de saúde se comportará com o passar do tempo”, explicou Jean-François Delfraissy, diretor da Agence Nationale de Recherche sur le Sida (ANRS). “O caso dela, contudo, constitui mais um forte argumento a favor do início imediato da terapia antirretroviral em todas as crianças nascidas de mães soropositivas.”

O que esse caso nos diz?

No ano passado, nós tivemos notícias decepcionantes na busca pela cura do HIV. Em julho de 2014, cientistas anunciaram que a “Bebê do Mississippi” — uma criança que muitos especialistas acreditavam estar curada do HIV — ainda tinha o vírus. Além disso, dois pacientes em Boston que receberam transplantes de medula óssea e que não mostravam qualquer sinal do HIV em seu sangue e nas células brancas, tiveram um rebote alguns meses depois da interrupção do tratamento antirretroviral.

Com isso, Timothy Brown, o “Paciente de Berlim”, continua a ser a única pessoa aparentemente curada do HIV. Quase há uma década, Brown recebeu transplantes de medula óssea para tratar leucemia, usando as células de um doador com uma mutação natural (CCR5-delta-32) que protege as células T da infecção pelo HIV. Embora Brown tenha interrompido o tratamento antirretroviral, o HIV não voltou. Depois de mais de sete anos de testes, os cientistas não foram capazes de detectar vírus competente a replicação em seu plasma sanguíneo, nas células do sangue periférico ou em qualquer outro lugar pesquisado.

A jovem francesa não entra para o rol das pessoas curadas pelo HIV, mas faz parte de um pequeno grupo chamado de “controladores pós-tratamento”, (assim como os franceses da Coorte Visconti) os quais aparentam ser capazes de controlar o vírus mesmo depois de interromper o tratamento antirretroviral.


Leia o artigo completo em BETAblog.org


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Uma cura para a infecção pelo HIV é um dos objetivos finais de longo prazo da pesquisa científica atual. A ciência está progredindo, aumentando as esperanças e os desafios.

AVAC

Noções básicas sobre a cura

O termo “cura” refere-se a uma estratégia ou um grupo de estratégias que possa eliminar o HIV do corpo de uma pessoa ou permanentemente controlar o vírus e torná-lo incapaz de causar doença. Dois tipos de “cura” estão sendo pesquisadas. Uma por “esterilização”, que possa eliminar completamente o vírus do corpo. Outra “funcional”, que possa suprimir a carga viral do HIV, mantendo-a abaixo do nível de detecção sem o uso de antirretrovirais. Nesta última, o vírus não seria eliminado do corpo, mas estaria efetivamente controlado e sem risco de transmissão. É difícil distinguir estes tipos de curas e, por isso, alguns estão usando o termo “remissão”, emprestado do campo do câncer, e que geralmente é definido como a ausência de pronta recuperação do vírus detectável por algum período de tempo após a interrupção de medicamentos. Este período de tempo ainda não está definido pela comunidade científica.

É importante saber que os cientistas ainda estão debatendo e descobrindo o que significa estar biologicamente curado do HIV. Apesar de alguns possíveis casos de curas funcionais terem sido relatados, leva tempo para ter a certeza de que o HIV não pode causar doença, uma vez que sabemos que mesmo níveis muito baixos de vírus abaixo do limite de detecção podem aumentar o risco de certas doenças e, em última instância, levar à aids.

Quais tipos de estratégia de cura estão sendo pesquisadas hoje?

cureFactsheetDownloadHá quatro estratégias principais sendo exploradas. Cada uma dessas estratégias tem uma abordagem diferente diante do desafio fundamental da infecção pelo HIV: a habilidade que o vírus tem de se esconder em células que não estão ativas e nem se dividindo. Contanto que as células não estejam se dividindo, o vírus não cria cópias de si mesmo e, nessas condições, é considerado como sendo um “vírus latente”. As células que carregam vírus latente são, coletivamente, referidas como “reservatórios virais”. A maior parte do reservatório viral está nas células de memória T CD4+, que são projetadas para viver no corpo indefinidamente. Uma cura verdadeiramente eficaz terá que eliminar esses reservatórios virais ou garantir que o vírus que é ativado a partir destas células em repouso não restabeleça a infecção no organismo.

“Chutar e matar”: Esta estratégia de duas etapas visa liberar (ou chutar) o vírus para fora das células em repouso e, depois, seguir com um abate eficaz das células infectadas. Muitos dos agentes capazes de chutar, considerados hoje como possíveis alternativas, são atualmente usados ​​no tratamento de câncer. O componente capaz de matar pode incluir uma vacina terapêutica, se uma eficaz vier a ser desenvolvida, ou outras intervenções capazes de melhorar a resposta imunitária contra o HIV.

Manipulação genética: Esta estratégia visa modificar as células de uma pessoa para que o HIV não possa infectá-la. Isto pode ser feito alterando os genes de células do sistema imune de uma pessoa. Os genes são as instruções para a arquitetura da célula. Uma alteração que remova um receptor ou uma proteína chave, utilizada pelo HIV para instalar a infecção, pode tornar a célula resistente à infecção. A terapia génica tem como alvo muitos dos mesmos alvos utilizados no tratamento. Uma vez que o HIV precisa estar dentro de células para copiar a si mesmo, tal estratégia pode efetivamente impedir que o HIV se espalhe pelo organismo. A terapia genética mais avançada é tecnologicamente complexa: envolve a retirada de células T CD4 de indivíduos soropositivos e, em seguida, sua modificação com um método que desativa o gene que codifica o receptor CCR5, o qual a maioria das variantes do HIV usa como apoio para entrar nas células.

Transplantes de células-tronco: As células-tronco hematopoiéticas, produzidas na medula óssea, são a fonte de todas as células sanguíneas no corpo. Transplantes de células-tronco são usados para tratar doenças potencialmente fatais, como o câncer. Eles têm um elevado risco de efeitos colaterais. No caso notável de Timothy Brown, que foi aparentemente curado do HIV, ele recebeu um transplante de células-tronco para tratamento de câncer. Seu transplante continha células que não poderiam ser infectadas pelo HIV, porque lhes faltava o receptor CCR5 em sua superfície. Transplantes de células-tronco são precedidos por um processo chamado de condicionamento, no qual o sistema imune do indivíduo é eliminado, para dar espaço para o sistema doador e diminuir a probabilidade de rejeição do transplante. Em indivíduos soropositivos, o condicionamento elimina muitas células infectadas pelo HIV. Transplantes de células-tronco são o último recurso para pessoas com câncer ou HIV. Esta estratégia não é reproduzível em larga escala.

Vacinas terapêuticas: As vacinas terapêuticas são concebidas para aumentar ou induzir respostas imunes contra o HIV em alguém que já está infectado com o vírus. A maioria destas vacinas é destinada a aumentar a potência das células que naturalmente são capazes de matar o HIV, como, por exemplo, células T CD8+ específicas para o HIV e células Natural Killer (NK). A esperança é que as respostas imunológicas induzidas por vacinas possam contribuir para o controle do vírus na ausência de tratamento antirretroviral e, talvez, também ajudem a eliminar as células infectadas de forma latente.

Quais são os desafios relacionados à pesquisa da cura?

Há muitas questões que dificultam a pesquisa da cura. Em primeiro lugar, não há nenhuma maneira clara para medir o reservatório do HIV. As duas abordagens principais são para medir o número de cópias de RNA do HIV no sangue ou o número de cópias de DNA do HIV nas células. Mas medir apenas o RNA do HIV no sangue não detecta as cópias virais já integradas nas células em repouso, enquanto medir o DNA do HIV não significa, necessariamente, ter uma imagem precisa, uma vez que as tecnologias disponíveis e mais baratas não conseguem distinguir o vírus em fase de replicação. Um teste mais preciso, o exame de crescimento viral quantitativo, requer a utilização de um grande número de células e não pode ser feito a partir de uma simples coleta de sangue.

Um segundo grande desafio é que as estratégias de cura atualmente sob pesquisa carregam riscos e benefícios desconhecidos. Descobrir como comunicar teses incógnitas para os potenciais participantes de estudos será uma parte importante de qualquer estudo clínico da cura. Para testar se uma pessoa foi de fato curada, é preciso interromper o tratamento antirretroviral, para que, se houver um eventual aumento da carga viral, este possa ser medido. Não existem diretrizes padronizadas a respeito da duração da interrupção de tratamento que minimizem os riscos para os participantes do estudo e para seus parceiros. Finalmente, as estratégias de cura podem vir a ser diferentes para homens, mulheres e crianças — diferenças biológicas entre os sexos e diferenças entre sistemas imunes adultos e pediátricos sugerem que é improvável que haja uma única abordagem de cura para todos.

O que acontece depois?

A pesquisa da cura está em expansão, com uma gama de estudos previstos ou em curso. Clique aqui para ver uma lista desses estudos.

Como ativistas podem se envolver?

Muitas das estratégias de pesquisa a ser desenvolvidas exigem equipamentos caros e formação específica para sua administração. Para alcançar o sucesso podem, ser necessários recursos adicionais. Esses recursos não estão disponíveis na maioria das partes do mundo. Os ativistas podem aumentar a conscientização em torno da necessidade destas tecnologias, a fim de prepararem-se para futuros estudos de cura em humanos.

Pesquisas sobre a cura

A pesquisa da cura do HIV está crescendo — incluindo estudos clínicos cujos projetos exigirão participação da comunidade informada. A AVAC está trabalhando com parceiros para tornar isso possível. Para mais informações, veja:

 

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Para salvar vidas, o tratamento antirretroviral por si só não é suficiente. Suprimir o HIV e manter a carga viral indetectável é o que importa.

Noções básicas sobre o Tratamento como Prevenção

Desde 1996, a terapia antirretroviral, usando uma combinação de medicamentos, tem ajudado a manter milhões de pessoas que vivem com o HIV vivas e saudáveis. Hoje, os antirretrovirais também são amplamente vistos como a pedra fundamental de uma resposta abrangente de prevenção. Isto é baseado em evidências de estudos entre casais sorodiscordantes (em que uma pessoa está vivendo com o HIV e outra não), nos quais o parceiro soropositivo que faz uso de antirretrovirais mostrou ter significativamente reduzidas suas chances de transmissão do vírus. Há também evidências de que a terapia antirretroviral reduz o risco de transmissão do HIV a partir de mulheres através da amamentação e há uma série de estratégias que utilizam os antirretrovirais, individualmente ou em combinações, para reduzir o risco de transmissão do HIV durante a gravidez e o parto.

TasPfactsheetDownloadO termo “Tratamento como Prevenção” (ou TasP, do inglês Treatment as Prevention) é por vezes utilizado para descrever a ampla função dos antirretrovirais como uma intervenção que apresenta benefício para a saúde do indivíduo e como uma ferramenta de prevenção. No entanto, esta designação pode ser confusa, especialmente nos momentos em que terapia antirretroviral é observada exclusivamente sob o ponto de vista do benefício clínico. Na verdade, sempre que um indivíduo que vive com HIV está em tratamento antirretroviral e apresenta supressão virológica (a carga viral indetectável), há o benefício da prevenção, mesmo que esta não seja a razão pela qual o indivíduo optou estar em tratamento. É importante notar que, atualmente, a decisão de um indivíduo com HIV começar a terapia antirretroviral é baseada em vários fatores, incluindo as diretrizes de tratamento de acordo com as recomendações da região onde vive. Estas diretrizes podem levar em conta fatores como a saúde clínica do indivíduo, a coinfecção com outras doenças e infecções oportunistas, contagem de células T e testes de carga viral. Não existe qualquer evidência relevante a respeito da redução do risco de transmissão através do compartilhamento de seringas quando carga viral é indetectável. Os dados sobre o efeito do tratamento como a prevenção estão limitados a indivíduos cujo principal risco de contrair o HIV é através da exposição sexual.

Hoje, a resposta global à aids está sendo moldada por campanhas que visam ampliar o acesso ao tratamento antirretroviral, para ambos os benefícios clínicos e de prevenção. Em junho de 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atualizou suas diretrizes para incluir os benefícios do tratamento como prevenção, e sugere que os países ofereçam antirretrovirais para todos os indivíduos soropositivos com contagens de células CD4 igual ou inferior à 500 e, para grupos específicos, como mulheres grávidas ou amamentando e pessoas soropositivas em relacionamento sorodiscordante, independentemente da contagem de células CD4. Em meados de 2014, o Unaids lançou a meta “90-90-90” para acabar com a epidemia de aids até 2030, a qual exige que 90% das pessoas que vivem com HIV saibam da sua condição, 90% dos indivíduos que sabem de sua condição positiva para o HIV estejam em tratamento antirretroviral e 90% dos indivíduos em tratamento tenham alcançado a supressão virológica, até o ano de 2020.

Ativistas têm um papel fundamental a desempenhar, para garantir que o acesso ao tratamento seja expandido sempre com direito de escolha, sob programas liderados pela comunidade, isentos de coerção e com atenção para uma gama completa de outras estratégias de prevenção necessárias para começar a acabar com a aids.

Quais são os dados sobre antirretrovirais e a prevenção do HIV?

Os primeiros dados vêm de um estudo conhecido como HPTN 052, que envolveu 1.763 casais sorodiscordantes (um parceiro soropositivos e um soronegativo) e observou o tratamento como prevenção em vários países. A pergunta principal era: se o parceiro soropositivo iniciar o tratamento, isso pode ajudar a reduzir o risco de transmissão sexual do HIV para o parceiro soronegativo? Esse efeito é durável? O HPTN 052 descobriu que a terapia iniciada imediatamente reduziu o risco de transmissão do HIV em 96%. Outro estudo, conhecido como PARTNER, encontrou igualmente elevados níveis de proteção no contexto de sexo anal entre casais heterossexuais e gays sorodiscordantes. Uma série de outros estudos clínicos e observacionais de dados estão em andamento, muitos dos quais levam em conta o benefício prevenção e também da expansão do acesso ao tratamento. Esses dados contribuem com os esforços para expandir o acesso global aos antirretrovirais.

Quão realista é a meta “90-90-90” e a sugestão de usar antirretrovirais para começar a acabar com a epidemia de HIV?

O HPTN 052 mostrou um benefício poderoso. No entanto, existem muitos desafios na implantação do tratamento como uma estratégia de prevenção, incluindo as lacunas atuais na cobertura de antirretrovirais para pessoas que são clinicamente elegíveis para eles, baixas taxas de testagem para o HIV, desafios para manter as pessoas sob tratamento, questões científicas adicionais sobre a exata relação entre a carga viral no sangue e o risco de transmissão do HIV e a falta de consenso em torno do melhor momento para os indivíduos iniciarem o tratamento. Estes desafios exigem pesquisas adicionais, bem como discussões políticas e comunitárias.

Pesquisas sobre o Tratamento como Prevenção

Em um dado país, diz-se que a epidemia alcançou seu “ponto de inflexão” quando o número de novas infecções anuais pelo HIV cai abaixo do aumento anual de pacientes começando a terapia antirretroviral. A cobertura de tratamento é importante. Primeiro, o país tem que atingir a cobertura tratamento em cerca de 66% para que um cálculo válido sobre o ponto de inflexão possa ser feito. A qualidade do acompanhamento médico também importa muito, uma vez que não basta apenas começar o tratamento, mas se manter nele e atingir a supressão virológica, importantes para a saúde individual e pública.

Para os ativistas da prevenção, há uma série de questões para acompanhar e amplificar em torno da implementação, monitorização e pesquisa relacionada com o tratamento como prevenção. Para aprender mais:



A aids pode ser curada?

Cientistas cada vez mais perto de vencer o assassino.

Por em 22 de dezembro de 2014
A pesquisa atual tem como alvo a capacidade do HIV de ficar dormente nas células T de memória. Ilustração por Harry Campbell.

Era uma manhã de inverno, em 1981, e minha esposa acabara de voltar para casa, depois de seu turno no centro médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), quando me contou de um novo e desconcertante caso. Queenie era um garoto de programa de 18 anos de idade, com cabelos tingidos de acaju. Ele chegou ao pronto-socorro com febre alta e tosse, sintomas de uma pneumonia comum, para a qual foi tratado com antibióticos. Mas os médicos identificaram um micróbio em seus pulmões, chamado Pneumocystis carinii. Este micróbio é conhecido por causar uma rara infecção por fungos, vista em crianças sob severa desnutrição ou em adultos que passam por transplantes de órgãos e quimioterapia.

Diversos especialistas do hospital foram designados para compreender a razão de sua infecção. Queenie tinha uma contagem de plaquetas criticamente baixa, a qual o deixou susceptível à hemorragia e eu fui chamado para examiná-lo. Ele estava deitado de lado e respirava com dificuldade. Seus lençóis estavam encharcados de suor. Uma infecção de herpes tinha feito tantas bolhas sobre sua pele que os cirurgiões tiveram que cortar segmentos necrosados de suas coxas. Seus pulmões começaram a falhar e ele foi colocado num respirador. Pouco depois, Queenie faleceu, por insuficiência respiratória.

Ele era um dos muitos casos desta mesma e rara pneumonia que vinham sendo vistos por todo os Estados Unidos. Michael Gottlieb, imunologista da UCLA, estudou o sangue de alguns destes pacientes e fez uma importante observação: todos eles tinham perdido quase todas suas células T auxiliadoras, as quais protegem contra infecções e cânceres. Em junho de 1981, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) publicaram os casos de Gottlieb no Relatório Semanal sobre Morbidez e Mortalidade e, em julho, o Dr. Alvin Friedman-Kien, da Universidade de Nova York, reportou que 26 homens homossexuais em Nova York e na Califórnia tinham recebido diagnóstico de sarcoma da Kaposi, um câncer dos linfonodos e vasos sanguíneos. Estes casos também eram estranhos: o sarcoma de Kaposi afetava tipicamente homens idosos do leste europeu, de ancestrais judeus e mediterrâneos.

Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

Acabei cuidando dos pacientes com sarcoma de Kaposi. Eu era o mais jovem da equipe e não tinha qualquer expertise sobre o tumor. Entretanto, nenhum dos professores seniores queria este trabalho. Meu primeiro paciente, um bombeiro de meia-idade apelidado de Bud, era um homossexual que não “saíra do armário” e vivia em Los Angeles. Pouco antes de chegar ao hospital, ele encontrara tumores em suas pernas que mais pareciam cerejas maduras. Depois, também apareceram em seu tronco, em seu rosto e em sua boca. Apesar das fortes doses de quimioterapia, tratamento padrão para o sarcoma de Kaposi avançado, seus tumores cresciam, deixando-o desfigurado antes de matá-lo, em menos de um ano. Em 1982, homens com linfomas altamente agressivos começaram a chegar ao hospital. Eles também não respondiam à quimioterapia. Os pacientes morriam por uma variedade de doenças que venciam seus sistemas imunes devastados. Todos os meus pacientes tinham um problema em comum, o qual o CDC, naquele ano, chamou de síndrome da imunodeficiência adquirida, ou AIDS. Os cientistas ainda não sabiam o que a causava.

No ano seguinte, dois times de cientistas — um liderado por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e outro liderado por Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland — publicaram artigos na revista Science que descreviam um novo retrovírus nos nódulos linfáticos e nas células do sangue dos pacientes com aids. Este retrovírus tinha um jeito pernicioso de se reproduzir: inserindo permanentemente cópias de DNA do seu genoma dentro do núcleo da célula de seu hospedeiro, sequestrando o maquinário da célula para seu próprio propósito. Quando o retrovírus sofre mutação, o que frequentemente acontece, sua prole é mais difícil de ser afugentada pelo corpo ou por vacinas. Era amplamente aceito que doenças causadas por retrovírus fossem incuráveis. Em maio de 1986, depois de muita disputa sobre os créditos da descoberta (os franceses finalmente levaram o Nobel em 2008), um comitê internacional de cientistas concordou no nome HIV, ou vírus da imunodeficiência humana. Ao final daquele ano, cerca de 25 mil dos quase 29 mil casos de aids entre americanos haviam morrido.

O HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna.

Desde então, o HIV foi transformado numa condição tratável, uma das grandes vitórias da medicina moderna. Em 1987, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o AZT, uma droga desenvolvida para tratar câncer e que acabou nunca indo para o mercado, para uso em pacientes com HIV. No começo, seu preço era exorbitantemente alto e era prescrito em altas toses, as quais se provaram tóxicas e geraram protestos na comunidade gay. Ainda assim, o AZT mostrou-se capaz de adentrar no DNA do vírus assim que este se formava e por isso continuou a ser usado, mas em doses menores. Hoje os cientistas já desenvolveram mais de 30 remédios antirretrovirais que impedem o HIV de se reproduzir nas células T auxiliadoras.

A ideia de combinar os medicamentos num “coquetel” veio em meados dos anos 90, espelhando como os oncologistas tratavam o câncer. Células cancerígenas, assim como partículas de HIV, podem mutar rápido o suficiente para escapar de medicamentos que têm um único alvo. O regime de tratamento — TARV, de terapia altamente eficaz com antirretrovirais — foi colocado em estudos clínicos por cientistas proeminentes, como David Ho, do Instituto Aaron Diamond, em Nova York. Eu prescrevi o coquetel para um de meus pacientes, David Sanford, e menos de um mês depois de iniciá-lo sua febre cessou, suas infecções desapareceram, sua energia voltou e ele começou a ganhar peso. O HIV em sua corrente sanguínea despencou para um nível indetectável, e ali ficou. Mais tarde, em um artigo vencedor do Pulitzer, Sanford escreveu: “É mais provável que eu morra atropelado por um caminhão do que de aids” — uma máxima que hoje é válida para a maioria das pessoas que vivem com HIV nos Estados Unidos. Nos últimos cinco anos, dentre as dezenas de pacientes com HIV que eu trato, nenhum deles morreu da doença.

Ainda há obstáculos enormes. 35 milhões de pessoas no mundo estão vivendo com o vírus. Na África subsaariana, onde são reportados a maioria dos novos casos, 63% das pessoas elegíveis ao tratamento não o recebem; e aqueles que recebem frequentemente não o recebem por completo. Nos Estados Unidos, um ano de TARV custa milhares de dólares por paciente e os efeitos colaterais a longo prazo podem ser debilitantes.

Hoje, os cientistas têm falado cada vez mais sobre a cura. Sabemos sobre o HIV tanto o quanto sabemos sobre alguns cânceres: seus genes foram sequenciados, seu método de infiltrar nas células do hospedeiro foi decifrado e suas proteínas foram mapeadas tridimensionalmente. Uma importante descoberta foi alcançada em 1997: o vírus consegue permanecer dormente em células de vida longa, intocável pelos medicamentos atuais. Se conseguirmos de maneira segura e financeiramente acessível eliminar este reservatório viral, nós finalmente conseguiremos derrotar o HIV.

Ward 86, o primeiro ambulatório de aids americano, foi aberto no San Francisco General Hospital em 1º de janeiro de 1983. Recentemente, fui até lá para encontrar Steven Deeks, um expert em ativação imune crônica e inflamação decorrente do HIV. Deeks, um professor da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), também é coordenador de estudo SCOPE, que acompanha um grupo de 2 mil homens e mulheres HIV positivos, nos quais ele mede os efeitos de longo prazo de viver com o vírus. A cada ano, amostras de sangue são enviadas para laboratórios de todo o mundo. A missão de Deeks é catalogar os danos que o HIV faz nos tecidos e testar novas drogas que podem ajudar.

“Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”

Sua ala ocupa o sexto andar de um prédio art déco que fica na parte norte do campus da UCSF. Encontrei Deeks em seu escritório, vestindo uma camisa de flanela e tênis New Balance. Ele explicou suas preocupações sobre o coquetel. “Os medicamentos antirretrovirais são projetados para bloquear a replicação viral do HIV e fazem isso muito bem”, ele disse. Mas não permitem que muitos pacientes se recuperem por completo. O sistema imune se recupera o suficiente para prevenir a aids, mas, uma vez que o vírus persiste, o sistema imune precisa manter uma resposta discreta porém constante. Isso cria inflamações crônicas, as quais danificam os tecidos.

A inflamação é exacerbada pelos efeitos colaterais dos medicamentos. Os primeiros tratamentos causavam anemia, danos nos nervos e lipodistrofia — o emagrecimento dos membros e da face e depósitos de gordura em volta da barriga. A lipodistrofia ainda é um problema sério. Deeks observou que muitos pacientes do estudo SCOPE têm altos níveis de colesterol e triglicérides, o que pode levar a danos nos órgãos. Uma consequência séria são as doença cardíacas, as quais parecem ser causadas pela inflamação das paredes das artérias. Deeks também viu em seus pacientes cânceres no pulmão, no fígado e na pele. Num eco dos primeiros dias da epidemia, ele notou que muitos pacientes de meia-idade desenvolvem doenças associadas com a velhice: doenças nos ossos e nos rins e possíveis efeitos neurocognitivos. Uma melhor definição para aids, segundo Deeks, seria “doença da inflamação adquirida”.

Ele me apresentou para um de seus pacientes, a quem vou chamar de Gordon. Um homem alto, cordial e com óculos sem aro levantou-se para apertar a minha mão e eu percebi sua barriga protuberante. Ele é HIV positivo há quase 40 anos e se disse sortudo por estar vivo: “Meu parceiro de dez anos, que tinha a mesma cepa de HIV, que comia a mesma comida, visitava os mesmos médicos e tomou os mesmos remédios do começo da epidemia, morreu em junho de 1990, quase 25 anos atrás.”

Ele me disse: “Não estou mais preocupado com o vírus. Estou mais preocupado com meu organismo e com o envelhecimento precoce.” Em 1999, aos cinquenta anos de idade, ele descobriu que os depósitos de gordura tinham constrito significativamente a circulação sanguínea de uma importante artéria que alimenta o ventrículo esquerdo de seu coração. Ele começou a experimentar dores incapacitantes ao andar, pois o suprimento de sangue para seu tecido ósseo tinha diminuído — uma condição chamada de necrose avascular. Em 2002, fez sua primeira cirurgia para colocar uma prótese no quadril e, em 2010, fez a segunda. Seus músculos diminuíram e manter-se sentado pode ser desconfortável; para isso ele usa cuecas acolchoadas com espuma. A cada dois anos, recebe injeções de ácido poliláctico no rosto, o qual substitui a perda de conexão dos tecidos.

A longevidade de Gordon e as dezenas de medicamentos que ele tomou para ficar vivo exemplificam a experiência de milhões de pacientes infectados com aids. Seu tratamento custa quase 100 mil dólares por ano. Embora seja coberto por asseguradoras e pelo Estado da Califórnia, ele chama a isso de “preço do resgate: seu dinheiro ou sua vida.” Para Deeks, a pergunta é: “Será que o mundo pode encontrar recursos para criar um sistema que ofereça, diariamente, medicamentos antirretrovirais para 35 milhões de pessoas, muitas das quais em regiões muito pobres?” Ele duvida. E é por isso que está concentrado em encontrar a cura. “Nossa filosofia é que, para alcançar a cura do HIV, precisamos descobrir onde e por que o vírus persiste”, disse.

Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez?

Em 1997, em meio à euforia decorrente da TARV, as pessoas começaram a pensar seriamente sobre a cura. Mais cedo ou mais tarde, todas as células infectadas morrem por conta própria. Poderiam os medicamentos certos e na combinação certa derrotar o vírus de vez? Naquele ano, David Ho publicou um artigo na revista Nature, no qual ele previa matematicamente que um paciente sob regime de TARV poderia vencer o vírus detectável em 28 à 37 semanas. Nesta mesma edição da revista havia um artigo de opinião bastante diferente, escrito por Robert Siliciano, hoje pesquisador na Johns Hopkins School of Medicine. Usando um teste incomum e extremamente sensível, Siliciano localizou o HIV num tipo de célula T auxiliadora que provê memória para nossos sistemas imunes e que pode viver por décadas. Células T de memória são de importância ímpar: elas reconhecem os antígenos nas infecções e orquestram respostas rápidas. Mas o vírus provou ser ainda mais esperto. Ele permanece dormente nas cadeias de DNA do hospedeiro, intocado pelo coquetel de medicamentos, e, se este for interrompido, ele pula de volta à vida, degradando então o sistema imunológico.

Aos 62 anos de idade, esguio e discreto, Siliciano é muito conceituado na pequena comunidade de pesquisadores de HIV. Ele conheceu sua esposa e colaboradora, Janet, nos anos 70, quando ela ainda era estudante de graduação na Johns Hopkins, onde estudava as proteínas que as células T soltam quando se deparam com micróbios. Hoje com 59 anos de idade, cabelos ruivos cacheados e um sotaque de New Jersey, Janet se juntou ao laboratório de Bob quando seu artigo foi publicado na Nature. Ela disse que a ideia do artigo foi dele, mas Bob disse que foi Janet quem desenvolveu a ideia ao longo de sete anos, acompanhando os níveis de vírus dormente em pacientes tratados consistentemente com TARV. Os dados que ela coletou confirmaram a tese: o vírus pode sobreviver por tempo quase indeterminado. “Nós calculamos que demoraria 70 anos de TARV contínua para que todas as células T de memória morressem”, ela disse.

Siliciano me contou sobre a primeira vez em que viu um vírus latente emergir de uma célula T de memória de um paciente com HIV e em TARV. O paciente achava que estava curado. “Ele havia sido biopsiado em todos os lugares imagináveis e ninguém conseguia encontrar qualquer vírus”, disse Siliciano. Os pesquisadores colheram vinte tubos de sangue do paciente, isolaram as células T e separaram-nas em vários compartimentos. O espécime foi então misturado com células de pacientes não infectados. Se as células T saudáveis fossem infectadas, o vírus se reproduziria e seria expelido. A detecção do vírus seria sinalizada pela mudança da cor do tubo de ensaio para azul. Siliciano se lembra de estar sentado em sua mesa, conversando com um visitante, quando um estudante entrou em sua sala, num pulo: “Os tubos estão ficando azuis!” Ele disse que “foi um momento muito estranho, porque era a confirmação de uma hipótese — o que é empolgante — mas também era um desastre. Todo mundo chegou à mesma conclusão: as células persistiram infectadas apesar da terapia antirretroviral.”

O laboratório de Siliciano ocupa o oitavo andar do Miller Research Building, na Johns Hopkins School of Medicine. O time de 26 pesquisadores — entre técnicos, estudantes, colegas e professores — trabalha num espaço amplo e arejado, numa instalação de Nível 3 de Biossegurança, na ala norte do edifício. Lá, eles manipulam espécimes de seus pacientes HIV positivos e de muitos outros. Num ambiente com pressão do ar negativa, os pesquisadores colhem amostras de sangue de uma incubadora e as colocam numa capela de fluxo laminar, a qual cria uma corrente de ar. Nada sai do edifício sem ser duplamente ensacado e esterilizado.

Grande parte da pesquisa atual sobre aids parte da descoberta fundamental dos Silicianos, a respeito dos reservatórios de HIV. O mesmo acontece com o trabalho deles hoje em dia. Usando químicos potentes, os Silicianos foram capazes de atrair o HIV para fora de seu esconderijo nas células T de memória, avaliar o alcance do vírus dentro do corpo e começar a mapear onde mais ele poderia estar escondido.

Alguns anos atrás, começaram a prestar atenção aos “blips”, pequenos e repentinos aumentos na carga viral que podem acontecer de vez em quando no sangue de pacientes em TARV. Os médicos estavam preocupados que os blips pudessem ser partículas de vírus que se tornaram resistentes à TARV e assim escaparam das células. Os Silicianos pensavam diferente: as partículas virais teriam sido soltas por células infectadas de maneira latente e que agora foram ativadas. Eles analisaram o sangue de pacientes com blips a cada dois ou três dias ao longo de três ou quatro meses. Sua hipótese mostrou-se correta: o vírus não tinha se tornado resistente aos medicamentos, apenas estava dormente nos reservatórios das células T de memória. Ele poderia ser liberado do reservatório de maneira intermitente, mesmo quando o paciente tomava remédios antirretrovirais.

Embora os cientistas tenham sido castigados pela descoberta de que o regime de medicamentos sozinho não seria capaz de levar à cura, eles recentemente descobriram três casos fora do comum que os encorajaram a continuar tentando. O primeiro caso foi Timothy Ray Brown.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune.

Brown é conhecido como o Paciente de Berlim, uma vez que foi nesta cidade que ele se tornou a única pessoa a ser curada do HIV. Em 2006, mais de uma década depois que descobriu ser HIV positivo, ele recebeu um diagnóstico, não relacionado com o vírus, de leucemia mielóide aguda, um câncer de medula óssea. Depois do tratamento inicial, sua leucemia voltou. Brown precisava de um transplante de medula óssea. Seu hematologista, Gero Huetter, teve a criativa ideia de usar um doador com uma mutação genética que desliga a proteína CCR5, uma porta de entrada do HIV nas células T auxiliadoras. Em 7 de fevereiro de 2007, Brown recebeu o transplante. Um ano depois, ele repetiu o procedimento. Em 2009, as biópsias de seu cérebro, nódulos linfáticos e intestino mostraram que o vírus não tinha voltado e que sua contagem de células T estava de volta ao normal.

A cura de Brown foi espetacular, mas difícil de ser reproduzida. Seu médico teve de destruir todas as suas células do sangue duas vezes, com radiação e quimioterapia, e reconstruir seu sistema imune duas vezes, com células de medula óssea transplantadas. Foi muito perigoso e dispendioso. Os pesquisadores se perguntaram se poderiam produzir uma versão simplificada deste procedimento. Em 2013, médicos do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, reportaram o resultado de um estudo no qual dois pacientes HIV positivos sob TARV receberam transplantes de medula óssea para tratar seus linfomas. Seus doadores, diferentemente do doador de Brown, não tinham a mutação do CCR5 e a quimioterapia a que foram submetidos foi menos intensa. A TARV foi interrompida alguns anos depois dos transplantes e o vírus permaneceu indetectável por meses, para então ressurgir.

Em julho último, vieram os resultados de um terceiro caso. Em 2010, uma menina conhecida como a Bebê do Mississippi nasceu de uma mãe HIV positiva que não tomou antirretrovirais. A bebê tinha o vírus no sangue. 30 horas após o parto, a recém-nascida foi colocada sob terapia antirretroviral. Em algumas semanas, sua carga viral caiu para abaixo do limite de detecção. A bebê tinha 18 meses de idade quando o tratamento foi então interrompido, contra recomendação médica. Por dois anos, o sangue da menina não apresentou qualquer sinal do vírus e os pesquisadores especularam que o tratamento precoce com TARV poderia ter prevenido o HIV de formar um reservatório dormente. No entanto, 27 meses depois da interrupção dos medicamentos, a criança testou positivo para o vírus. Embora os pesquisadores tenham ficado impressionados que a intervenção precoce tenha banido temporariamente o HIV, ela não foi curada.

Em agosto, Janet e Robert Siliciano escreveram sobre os pacientes de Boston e a Bebê do Mississippi na revista Science, afirmando que os casos confirmavam que os pesquisadores estão no caminho certo no combate à infecção latente. O Paciente de Berlim era um exemplo ainda mais complexo. Karl Salzwedel, chefe de patogênese e pesquisa básica na Divisão de Aids do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, me contou que, até o caso de Timothy Brown, “não estava claro como é que nós iríamos nos livrar dos últimos pedaços de vírus que permanecem nos reservatórios.” O caso de Brown trouxe “uma prova de conceito: é possível erradicar o HIV latente do corpo, ainda que seja a partir de um método arriscado e tóxico. Ainda assim, é uma prova de conceito.”

A nova peça central no esforço americano de curar o HIV está no Martin Delaney Collaboratories. Financiado pelos Natiotal Institutes of Health (NIH) em 2011, esses laboratórios colaborativos foram formulados para ligar laboratórios clínicos, centros de pesquisa e empresas farmacêuticas. O apoio federal é de 70 milhões de dólares pelos primeiros cinco anos, sob a premissa de cooperação e comunicação aberta entre todas as partes. Salzwedel me contou que o NIH financiou três pedidos e que “cada um deles estava abordando uma estratégia de erradicar o HIV de maneira diferente”, melhorando o sistema imune dos pacientes, manipulando geneticamente o gene CCR5 e destruindo os reservatórios. Estas representam diferentes respostas à tese de Siliciano e das lições aprendidas com Timothy Brown.

Mike McCune, chefe da Divisão de Medicina Experimental da UCSF, pesquisa meios através dos quais o HIV pode ser erradicado do corpo pelo próprio sistema imune. Ele foi atraído por uma observação feita nos primeiros dias da epidemia: bebês nascidos de mães com HIV eram infectados no útero apenas em 5 a 10% das vezes, mesmo embora eles sejam expostos ao vírus ao longo da gestação. Mais recentemente, McCune e seus colegas observaram que o sistema imune fetal, em desenvolvimento, não reage contra as células da mãe, as quais podem facilmente atravessar a placenta e alcançar os tecidos fetais. Ao invés disso, o feto produz células T especializadas que suprimem respostas inflamatórias contra a mãe e podem também prevenir respostas inflamatórias contra o HIV, bloqueando assim o avanço rápido do vírus no útero e poupando a criança.

“Há um yin e yang no sistema imune.”

McCune trabalhou por muitos anos com Steven Deeks e o estudo SCOPE. Quando conversei com ele em São Francisco, ele disse: “Há um yin e yang no sistema imune. Estamos tentando recapitular o balanço orquestrado encontrado no feto.” McCune agora está trabalhando em intervenções que podem vir a prevenir a inflamação contra o HIV em adultos, numa tentativa de imitar parcialmente o equilíbrio encontrado no útero. Ele também está desenvolvendo métodos que podem vir a permitir que o sistema imune reconheça melhor e destrua o vírus, assim que este se manifestar. Estes estudos estão sendo conduzidos em primatas, não humanos, e podem chegar a testes em humanos entre um a dois anos.

Em Seattle, um grupo liderado por Hans-Peter Kiem e Keith Jerome está adotando uma abordagem mais futurista. Usando uma enzima chamada Dedo de Zinco, eles estão alterando geneticamente o sangue e as células da medula óssea a fim de desativar o CCR5, a porta de entrada do HIV nas células T. Os pesquisadores vão modificar as células fora do corpo e, assim, quando forem devolvidas, parte das células da corrente sanguínea serão resistentes à infecção pelo HIV. Com o tempo, eles esperam, estas células vão se propagar e o paciente vai aos poucos construir um sistema imune que é resistente ao vírus. Estes pacientes podem ainda ter um pequeno reservatório de HIV, mas seus corpos serão capazes de regular a infecção.

O maior laboratório colaborativo, com mais de 20 membros, é liderado por David Margolis, da Universidade da Carolina do Norte. Margolis, um expert em doenças infecciosas, tem como alvo os reservatórios. Sua estratégia, a qual passou a ser conhecida como “chutar e matar”, é de reativar os vírus dormentes, desmascarando as células que os carregam para que possam ser destruídas. Em 2012, ele publicou os resultados de um estudo clínico com a droga Vorinostat, a qual foi originalmente desenvolvida para tratar cânceres nas células T, agora testada no tratamento de choque contra o HIV. Em outubro último, a ideia de “chutar e matar” estava sendo amplamente discutida quando o time de colaboradores se reuniram no NIH, ao lado de centenas de outros pesquisadores, diversos acadêmicos e leigos interessados. Margolis e sua equipe falaram de novos meios de expulsar o vírus para fora da dormência.

A fase de matança é mais desafiadora, uma vez que as células que receberam o “chute” trazem poucos antígenos contra o HIV, que são as bandeiras tóxicas hasteadas por partículas patogênicas antes do ataque. Uma das abordagens da estratégia de matança vem de um tipo pouco comum de HIV positivo, que pode carregar o vírus por décadas sem ser incomodado por ele. Chamados “controladores de elite”, possuem células T citotóxicas, ou células NK, de natural killer, que atacam as células produtoras de vírus. O objetivo é tornar todos os pacientes HIV positivos em controladores de elite através de “vacinação terapêutica”, a qual poderia permitir que os pacientes produzissem suas próprias células T citotóxicas.

Os cientistas também estão tentando desligar uma molécula chamada PD-1, a qual o corpo usa para restringir o sistema imune. Desativar a PD-1 tem funcionado em estudos clínicos em pacientes com melanoma e câncer de pulmão. Um paciente parece ter sido curado de hepatite C com uma única injeção de um bloqueador de PD-1 produzido pela Bristol-Myers Squibb.

Grupos fora destes laboratórios colaborativos e que também estão testando meios de alcançar a cura da aids compartilham seus resultados com as equipes do NIH. Em paralelo com o grupo de Seattle, Carl June, diretor de pesquisa translacional do Centro de Câncer de Abramson, na Universidade da Pensilvânia, e seus colegas têm usado engenharia genética para fechar a porta do CCR5. Na edição de março último do New England Journal of Medicine, eles reportaram sobre seu estudo clínico mais recente, o qual mostrou que células T modificadas podem sobreviver por anos em pessoas com HIV. Um trabalho similar em desligar o CCR5 está sendo feito pela Calimmune, uma empresa sediada na Califórnia devotada à busca da cura da aids. (Um de seus fundadores é David Baltimore, que recebeu o prêmio Nobel pela descoberta transcriptase reversa, uma enzima crucial na reprodução retroviral.) Grupos na Dinamarca e na Espanha também tiveram progresso e, em 2012, pesquisadores na França analisaram o estudo Visconti, o qual pôs a intervenção precoce recebida pela Bebê do Mississippi num estudo formal. Um pequeno grupo de 14 pacientes HIV positivos foi logo tratado, semanas após a infecção, e então a TARV foi interrompida. Eles permaneceram livres do vírus por vários anos.

Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Hoje, é curável em 9 de 10 casos.

A luta contra a aids está seguindo uma trajetória similar à luta contra vários cânceres. Quando eu ainda era jovem, nos anos 50, a leucemia infantil era quase sempre fatal. Finalmente, foram desenvolvidos medicamentos capazes de levar o câncer à remissão, em meses ou anos. Mas o câncer sempre voltava. Nos anos 70, cientistas descobriram que células leucêmicas permaneciam dormentes no sistema nervoso central e, com isso, desenvolveram tratamentos direcionados, capazes de eliminar estas células. Hoje, a leucemia infantil é curável em 9 de 10 casos.

Em julho último, na 20ª Conferência Internacional de Aids, em Melbourne, na Austrália, Sharon Lewin, um expert em doenças infecciosas da Universidade Monash, disse: “Neste momento, nós provavelmente estamos diante de alcançar remissão a longo prazo.” Muitos especialistas concordam que a remissão é factível e que, em algum momento, nós seremos capazes de desmamar nossos pacientes da atual terapia vitalícia.

Até mesmo os cientistas mais céticos a respeito da aids acreditam que a remissão é o próximo passo, que precede a cura. Robert Siliciano me disse que “O primeiro objetivo é reduzir o reservatório. E isso não apenas pelo indivíduo mas em prol da saúde pública.” Quando uma pessoa puder ficar fora da TARV, os recursos de seu tratamento poderão ser alocados para pacientes que ainda precisam de tratamento.

David Margolis acredita que sua estratégia de “chutar e matar” vai funcionar, embora possa levar 10 a 20 anos. Os Silicianos concordam que é preciso pesquisar mais. “Chutar e matar”, segundo eles, vai precisar de mais do que uma única droga, como o Vorinostat. O regime ideal não pode ser identificado até que fique claro qual o tamanho dos reservatórios de vírus latente. E os Silicianos ainda não desenvolveram um método de medição preciso para isso. Até agora, o único jeito de determinar se uma cura foi alcançada tem sido acompanhar pacientes que estão fora do tratamento por anos. “Quanto mais aprendemos, mais perguntas temos”, disse Janet.

Ainda assim, as perguntas que têm sido respondidas têm surpreendido os cientistas. Na UCLA, durante os primeiros e brutais anos da epidemia, eu nunca teria imaginado que, no futuro, os pacientes chegariam aos seus 80 anos de idade. Uma doença fatal foi domada e hoje é uma doença crônica. O próximo passo é encontrar a cura. Os cientistas são inatamente cautelosos, pois, ao longo dos anos, aprenderam com a aids que é preciso ter humildade. A ciência atua em torno de um núcleo de incertezas, no qual se encontram contratempos, mas também a esperança.

Jerome Groopman, escritor da equipe desde 1998, escreve principalmente sobre medicina e biologia.



Cientistas descobrem maneira de expulsar o HIV de células infectadas

Por Alice Park @aliceparkny em 21 de junho de 2014

A técnica aborda o problema dos reservatórios de HIV escondidos no corpo e pode vir a ser uma nova maneira de combater a infecção viral

Uma vez que o HIV entra no organismo, ele não quer mais sair. Toda estratégia que os cientistas desenvolveram ou estão desenvolvendo para combater o vírus — de poderosos medicamentos anti-HIV à vacinas promissoras que agem contra ele — sofre do mesmo problema. Nenhuma consegue desentocar todo vírus no organismo e o HIV tem a tendência de se esconder, permanecendo inerte por anos, até irromper e causar a doença.

Nenhuma estratégia conseguiu desentocá-lo, até hoje. Kamel Khalili, diretor do Comprehensive NeuroAIDS na Temple University School of Medicine, e seus colegas, usaram uma nova técnica de edição genética para recortar o vírus das células nas quais ele havia infectado — fazendo-o voltar a seu estado pré-infecção. A estratégia é baseada na detecção e ligação do material genético do HIV e representa a primeira plataforma anti-HIV que poderia encontrar até mesmo vírus dormentes isolados dentro de células imunes.

Ainda mais encorajador é o fato de que os cientistas também usaram este sistema para proteger as células saudáveis ​​de ser infectadas, através da construção de bloqueios genéticos que repelem o material genético do HIV. “É o que chamamos de uma cura por esterilização”, diz Khalili.

Seu trabalho foi feito em células humanas infectadas pelo HIV em uma cultura de células em laboratório. No entanto, ele acredita que os resultados são robustos o suficiente para seguirem para testes com animais e, eventualmente, em pacientes humanos.

A chave para a estratégia é a técnica de edição de gene conhecida como CRISPR, uma maneira de cortar o DNA com precisão, em locais pré-especificados. A CRISPR atua como uma tesoura molecular customizável que pode ser programada para encontrar certas sequências de DNA e, em seguida, utilizando uma enzima, fazer cortes nesses locais. Como o HIV é um retrovírus, seu material genético vem sob a forma de RNA; o vírus coopta a célula de um hospedeiro para transformar seu RNA em DNA, o qual, em seguida, é inserido no genoma da própria célula. Então, os genes do HIV, que ele precisa para sobreviver, são produzidos pela célula.

Khalili projetou um CRISPR que reconhece o início e o fim do DNA do HIV e, em seguida, viu a enzima cortar o genoma de HIV para fora da célula. “Eu tenho trabalhado com HIV quase desde o dia 1 [da epidemia] e nós desenvolvemos uma série de moléculas que podem suprimir a transcrição ou diminuir a replicação do vírus. Mas eu nunca vi esse nível ou erradicação”, diz ele. “Quando você remove os genes virais de cromossomos, você basicamente converte as células ao seu estado pré-infecção.”

A vantagem do sistema reside no fato de que o CRISPR pode reconhecer os genes virais onde quer que estejam — em células infectadas ativas ou dormentes. Estratégias baseadas nos medicamentos atuais só podem atingir as células que se dividem e liberam cópias do HIV, razão pela qual o vírus ativo se torna indetectável, mas, depois,  [se interrompido o tratamento antirretroviral] os níveis de HIV podem subir novamente. Esse é o caso da bebê Mississippi, que nasceu soropositiva e recebeu um poderoso coquetel anti-HIV horas após seu nascimento. Ela parecia estar funcionalmente curada do HIV. O vírus não pode ser detectado por quase quatro anos, mas depois voltou.


 Brasil Post

As lágrimas não foram só na Copa. Nos últimos dias, pesquisadores que acompanham a “bebê do Mississippi”, suposto caso de cura ou remissão do HIV, encontraram sinais do vírus em seu organismo. Depois de mais de dois anos sem fazer uso da terapia antirretroviral, a criança, hoje com 4 anos de idade, apresenta carga viral, que é a quantidade de vírus medida no sangue, detectável.

A criança nasceu prematuramente numa clínica do Mississippi, em 2010, a partir de uma mãe portadora do HIV que só foi diagnosticada positiva para o vírus no momento do parto e, portanto, não recebeu tratamento antirretroviral adequado durante a gestação. Se uma mãe portadora do HIV é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus para o bebê é inferior a 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso e a criança começou a tomar antirretrovirais. Entretanto, no caso dela, houve uma pequena e fundamental diferença.

Em geral, bebês recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de antirretrovirais para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não são infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa em seus pequenos organismos. Até o caso da bebê do Mississippi, o senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que eles não seriam curados de qualquer maneira.

A Dra. Hannah Berry Gay, pediatra da Universidade de Mississippi. (Jay Ferchaud/AP)

No entanto, a Dra. Hannah Gay, astuta pediatra da bebê, pensou diferente. Julgando que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção, ela tomou a ousada decisão de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas antirretrovirais. A bebê recebeu o agressivo tratamento já com 30 horas de idade, mesmo antes dos resultados de seus testes de HIV — os quais, alguns dias depois, confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi então mantida em terapia antirretroviral, mas o tratamento foi descontinuado aos 18 meses, quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento.

A surpresa veio 5 meses depois, quando a bebê foi novamente avaliada e, mesmo com a prolongada interrupção do tratamento, o HIV não foi detectado. Ao longo dos 3 anos seguintes, sob acompanhamento de médicos e cientistas, a criança não apresentou qualquer sinal da infecção pelo HIV, mesmo sem tomar remédios antirretrovirais. Este resultado surpreendente levantou a esperança de que uma cura tinha sido alcançada e, melhor, que esta poderia ser replicada em outros casos semelhantes de recém-nascidos.

Com isso, o National Institutes of Health, órgão americano que financia diversas linhas de pesquisa da cura da infecção pelo HIV, planejou um estudo clínico controlado em 12 países. O objetivo é replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Agora, os pesquisadores envolvidos neste ensaio clínico terão de levar a reviravolta em conta: durante a última visita médica de rotina, descobriu-se que a bebê do Mississippi voltou a ter sinais da presença do HIV. Ela não está curada. O exame de carga viral, repetido e confirmado, detectou 16.750 cópias de vírus por mililitro de sangue. Além disso, suas células CD4 do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, diminuíram de quantidade, num claro sinal de que a infecção pelo HIV voltou a se estabelecer. Também foi feito um sequenciamento genético do vírus, o qual indicou que a infecção da criança é a mesma daquela adquirida da mãe, anos atrás.

Segundo o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, esta “certamente é uma reviravolta decepcionante para a criança, a equipe médica envolvida em seu atendimento e para a comunidade que pesquisa HIV/aids. Cientificamente, este acontecimento nos faz lembrar que ainda temos muito mais a aprender sobre os meandros da infecção pelo HIV e onde o vírus se esconde no corpo. O National Institutes of Health continua empenhado em avançar com a pesquisa da cura para a infecção pelo HIV.”

A criança voltou a tomar os medicamentos antirretrovirais e a última informação é a de que ela passa bem, sem sofrer com efeitos colaterais. Ela continua a receber acompanhamento médico da Dra. Hannah Gay, especialista em HIV pediátrico do Centro Médico da Universidade do Mississippi, em Jackson, e quem esteve envolvida nos cuidados da criança desde o seu nascimento.

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Caso da bebê do Mississippi abre uma nova porta na pesquisa da cura do HIV

em 20 de junho de 2014

Anthony F. Fauci é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas no National Institutes of Health.

Avanços espetaculares no tratamento de HIV/aids têm salvado milhões de vidas ao redor do mundo. Hoje, alguém com 20 anos de idade que seja infectado pelo HIV e comece a tomar medicamentos anti-HIV pode ter uma expectativa próxima do normal. Este sucesso estrondoso é moderado pelo fato de que estas drogas que salvam vidas não curam. Embora o vírus possa ser suprimido, ele não pode ser eliminado do organismo.

Isso traz enormes implicações econômicas, pois 35 milhões de pessoas vivem com HIV e milhões continuam a se infectar a cada ano. Além disso, as drogas anti-HIV apresentam um grau variável de efeitos colaterais por conta de sua toxicidade, o que faz com que seja difícil para muitas pessoas aderir ao tratamento vitalício. Daí vem a questão: o HIV pode ser curado? Isto é, uma pessoa cujo tratamento suprimiu o vírus a níveis indetectáveis pode descontinuar o tratamento sem que o vírus reapareça?

Uma das principais razões que faz com que o HIV continue incurável é a de que, assim que a pessoa é infectada, forma-se um reservatório de células infectadas pelo HIV, as quais podem estar escondidas em diversas localizações ao longo do corpo, tais como os gânglios linfáticos, intestino e até mesmo o cérebro.

Embora os medicamentos possam suprimir o HIV, o vírus escondido nestas células latentes reaparece se o tratamento for interrompido. Infelizmente, muitos adultos não sabem que estão infectados por meses ou anos, altura em que o lastro de células infectadas pelo HIV já é grande. Pesquisadores estão trabalhando para erradicar este reservatório, ou ao menos diminuí-lo. Uma teoria é a de que o tratamento logo após a infecção pode impedir a formação dos reservatórios ou, quem sabe, torná-los suscetíveis à eliminação.

O caso da “bebê do Mississippi” reforça essa teoria. Ela nasceu prematuramente numa clínica no Mississippi em 2010, a partir de uma mãe soropositiva que não recebeu tratamento anti-HIV durante a gravidez. Se uma mãe soropositiva é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus ao bebê é menor do que 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso.

Soropositivo desde 1981, Michael Deighan, co-dono da gráfica Nightsweats & T-cells, exibe as pílulas que toma diariamente para combater a doença. (AMY SANCETTA/ASSOCIATED PRESS)

Consequentemente, a bebê recebeu um agressivo tratamento anti-HIV quando tinha 30 horas de idade. Alguns dias depois, testes de alta sensibilidade confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi mantida em terapia anti-HIV por 18 meses, mas o tratamento foi descontinuado quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento. Ainda assim, quando a criança foi avaliada cinco meses depois, o HIV não foi detectado. A criança, hoje com 3 anos, continua sem apresentar sinais da infecção mesmo sem tomar remédios anti-HIV, levantando esperança de que uma cura tenha sido alcançada.

Este resultado notável aconteceu quase que por acidente, graças a um astuto pediatra que determinou que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção e, com isso, tomou a decisão ousada de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas anti-HIV. Em geral, recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de drogas anti-HIV para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não foram infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa. O senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que, de qualquer maneira, eles não seriam curados.

No entanto, a provável cura observada no caso do Mississippi mudou essa relação custo-benefício e trouxe importantes perguntas para os pesquisadores. Teria sido um desfecho animador num caso isolado? Ou será que fornecer terapia ideal e imediata a recém-nascidos sob risco de infecção traz a possibilidade de cura, ao evitar que o HIV crie um lastro permanente?

A possibilidade de alcançar a cura de milhares de crianças é importante demais para não ser buscada vigorosamente. O National Institutes of Health vai em breve lançar um ensaio clínico controlado em 12 países, incluindo os Estados Unidos. O estudo tem como objetivo replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero. É esperado que este estudo prove que o tratamento imediato de recém-nascidos infectados pelo HIV pode protegê-los de uma terapia anti-HIV vitalícia, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Enquanto isso, precisamos trabalhar ainda mais para alcançar todas as mulheres infectadas pelo HIV, especialmente as grávidas, com tratamento e cuidado de saúde — tanto para elas quanto para qualquer criança que estejam esperando.



Tirando o Atraso com a Pesquisa da Cura e Patogênese na CROI 2014

Por Richard Jefferys do Treatment Action Group

Além dos estudos mencionados em posts anteriores (um possível segundo caso de cura pediátrica, a terapia genética da Sangamo e as limitações dos agentes de reversão de latência), a CROI 2014 contou com uma miscelânea de apresentações relacionadas à patogênese e pesquisa da cura. Webcasts de todas as sessões da conferência estão on-line, e muitos documentos já estão disponíveis em formato PDF. Breves resumos de alguns estudos notáveis ​​são anexados abaixo, com links para webcasts e documentos, sempre que possível. Resumos dos documentos que não estão disponíveis em formato PDF podem ser encontrados no livro da conferência.

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