Quem depende do Biovir e do Raltegravir para lutar contra o HIV está em alerta. A quantidade atual dos dois medicamentos está insuficiente. A infectologista Mylva Fosi, do Programa Municipal de DST/Aids, afirmou, na manhã desta sexta-feira, durante a reunião ordinária do Fórum de ONGs Aids de São Paulo, que a previsão é de que o estoque dure apenas até o dia 10 de maio.

O diretor do Programa Municipal de DST/Aids, Artur Kalichman, afirmou que já entrou em contato com o Ministério da Saúde alertando que o estoque está muito curto. A justificativa é de que um dos componentes químicos destes medicamentos são fornecidos por fábricas na China que passaram por problemas técnicos. “A expectativa é de que vamos receber o Biovir antes deste fatídico dia 10”, afirma. Quanto ao Raltegravir, a previsão é de que, no máximo, até dia 27 de abril seus componentes já estejam no Brasil.

Segundo Mylva, a quantidade de Biovir tem sido sinônimo de problema há algum tempo. Ela relembrou que o prazo entre o remédio chegar na Furp (Fundação para o Remédio Popular), o almoxarifado central, e estar disponível para o paciente, leva um tempo. Por isso, ainda está sendo cogitado o fracionamento do Biovir.

Até a normalização do estoque, as novas terapias também acabam sendo atingidas pelo problema. A orientação é de não podem ser iniciados novos tratamentos com esses remédios que estão em falta, sendo necessária a indicação de uma outra terapia.

 

Boa Notícia

Pacientes que tomam o antirretroviral Abacavir relatam muitas reações alérgicas ao medicamento. Esses efeitos colaterais se tornaram um impasse porque o Abacavir é uma alternativa ao AZT e ao Tenofovir .

Mylva explicou que, hoje, já se consegue prever a reação alérgica através de um exame, que não se encontrava disponível para os pacientes brasileiros. A boa notícia é que esse procedimento acaba de ser incluído no contrato de genotipagem e, agora, pode ser realizado no laboratório de genoma, antes mesmo de o paciente iniciar a medicação. “Assim, ele se torna um recurso de diagnóstico a mais que pode facilitar o manejo de outras drogas e trazer opções de terapias aos pacientes”, explica a infectologista.

 

Enfraquecimento do Movimento Social

“O movimento está se perdendo porque não tem ideias consolidadas”, disse Carla Diana, da Articulação Nacional de Luta Contra Aids. Ela ressaltou que é importante fortalecer o movimento não apenas enquanto corpo, mas enquanto fonte de iniciativas e ideias. “É importante lembrar que este espaço é um local de participação política. Ás vezes se torna um espaço para preencher cadeira. Quando algum membro representa o Fórum em um evento externo, é a voz dessas organizações que está em pauta” completa.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp também argumentou afirmando que é preciso ter o cuidado de ir para esses eventos representando um grupo, porque alguns mas acabam levando pautas individuais.

Para tanto, Margarete Preto, do Projeto Bem-me-Quer sugeriu que uma saída possível seja a articulação prévia aos eventos para que os ativistas possam se organizar e se posicionar, levando pautas mais pertinentes nos encontros nacionais e também até governo.

“Independente de esquerda ou direita a briga político-partidária é um lugar perigoso. Ela faz com que as principais pautas se percam. Alguns problemas são de outras gestões, de outros governos. A gente tem a prática do que é viver com aids e temos a possibilidade de mudar e seguir em frente”, finalizou Cláudio Pereira, do Grupo de Incentivo à vida.

 

Próximos Desafios

Também foi destaque na reunião, a aposentadoria de pessoas vivendo com HIV. Ficou estipulado que cada uma das ONGs do Fórum fará levantamento para saber como estão sendo feitas as chamadas para perícia no INSS, já que muitas pessoas estão sendo desaposentadas.

Neste cenário de desafios, Artur Kalichman expôs sobre o número de mortes por aids em São Paulo. “Não era para mais ninguém ter aids, muito menos morrer da doença. Hoje, morrer de aids representa uma falha.”

No últimos 10 anos, os casos de aids começaram a cair entre gays brancos. No entanto, entres gays negros, os índices continuaram a subir. A vulnerabilidade também fica evidente no número de mortes por aids neste mesmo período. Enquanto o índice caiu para aqueles que são brancos, o número de mortes permaneceu estável para a população negra.

Em São Paulo, estima-se que 218 mil pessoas vivem com HIV. Desse total, 184 mil já foram diagnosticadas, mas apenas 117mil estão com carga viral suprimida. Isso significa que o desafio maior é saber porque as pessoas que já sabem que estão infectadas, não estão sendo atingidas e se mantendo na rede de saúde.

Além disso, Artur relembrou a importância de se trabalhar com o público heterossexual. 81% das pessoas que morreram de aids nos últimos 10 anos eram heterossexuais. Essa informação pode ser explicada pela falsa premissa de que somente homossexuais contraem HIV, tornando a doença ainda mais estigmatizante.

 

Por Um Brasil Sem Hepatites

A reunião também foi oportunidade para o lançamento oficial a Revista Por Um Brasil sem Hepatites, produzida pelo Projeto Bem-Me-Quer em parceria com a Agência de Cooperação Internacional – Coalition Plus da França.

A revista contém um conjunto de informações sobre a resposta governamental no combate a Hepatite C em três municípios do estado de São Paulo (Santos, Sorocaba e a capital), além de dados epidemiológicos, cartografia social de usuários dos serviços de saúde, articulação política e ativismo internacional.

O objetivo do projeto é que todas essas ações e estratégias possam ser um modelo norteador para que outras Secretarias de Saúde e outras ONGs de todo Brasil aprimorem suas estratégias de atenção a esse agravo e qualificar a resposta.

Fonte: Agência de Notícias da Aids
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A ANAIDS – Articulação Nacional de Luta contra a Aids, manifesta o seu apoio aos cidadãos e às cidadãs da Venezuela em virtude da crise humanitária que esse país vem passando e pede ao governo medidas para o acolhimento dessas pessoas.

A carta foi dirigida às instituições listadas abaixo:

UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids;
OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde;
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados;
GNP+ Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV/Aids;
Ministério da Saúde do Brasil – Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais; e
Governo de Roraima.


 

Prezados Senhores e Senhoras,

A ANAIDS, Articulação Nacional de Luta Contra a Aids, colegiado que reúne os Fóruns de ONGs/AIDS dos Estados do Brasil, Redes e Movimentos de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, está extremamente preocupada com a situação da República da Venezuela, notadamente no que se refere ao acesso à saúde e em especial à assistência e prevenção do HIV/Aids.

Além das notícias publicadas cotidianamente, chama-nos a atenção a quantidade de refugiados venezuelanos que cruzam a fronteira, em especial no estado de Roraima, demonstrando a grave situação que atravessam os venezuelanos em geral, pressionando o sistema de saúde, assistência social, e de educação das cidades brasileiras da Região Norte.

Por tratar-se de uma crise sabidamente humanitária precisamos dedicar maior seriedade, já que as demandas do capital têm produzido pobreza, doença e miséria não apenas na Venezuela mais em todo o mundo. Os refugiados são pessoas que estão migrando para o Brasil, não por desejo próprio, mas sim em função de diversos e complexos motivos ligados a questões de crise política e econômica em seu País.

Sendo este, um fato já de conhecimento global, cabe a nós a preocupação em especial sobre a interrupção dos tratamentos com antirretrovirais junto à população soropositiva. O cessar desta política acarretará uma rápida deterioração da saúde das pessoas que dela necessitam. Estima-se atualmente haver mais de 80.000 pessoas vivendo com HIV/aids (PVHAs) na Venezuela, o que nos remete a entender que a situação das PVHAs, não se trata de uma questão isolada, mas está diretamente introduzida num quadro de enfraquecimento geral da saúde pública no País, onde 80% desta população não estão sendo tratadas, o que coloca o país entre os piores do mundo para soropositivos.

Diante do exposto acima, solicitamos ao Poder Executivo do Brasil e aos governos dos Estados brasileiros, em especial o de Roraima, que façam todos os esforços possíveis para acolher estes refugiados e prover suas necessidades, incluindo as de saúde, já que a maior parte das famílias recém-chegadas estão vivendo em situações precárias, compreendendo questões relacionadas à segurança física, falta de documentação, violência sexual e de gênero, exploração de trabalho, abusos de autoridade, falta de moradia, configurando por consequência, uma total inacessibilidade a direitos e serviços básicos de uma forma geral. É, neste sentido, que nos posicionamos e questionamos quais medidas e encaminhamentos o Brasil tem adotado acerca do assunto, garantindo respeito integral aos direitos humanos dos migrantes e seu pleno acesso aos serviços.

O povo brasileiro é acolhedor e formado por várias ondas históricas de imigrantes e certamente apoiará as iniciativas, com a certeza de que as medidas adotadas tenham caráter igualitário e não ameacem o direito da população brasileira no que tange ao acesso a serviços sociais e de saúde dos quais necessitam.

Por fim, ressaltamos que a ANAIDS coordena um movimento pautado pela solidariedade como premissa geral para combater o HIV/aids. As populações vulneráveis ao HIV/aids e as pessoas com HIV/aids sabem o que é sofrer estigma e discriminação. Não podemos permitir que à penosa situação que atravessam nossos vizinhos, devido a postura do Governo venezuelano em resposta as sanções econômicas capitaneadas pelos Norte-americanos, seja acrescentada a discriminação por procurar em outro país, o bem-estar que infelizmente não conseguem encontrar na sua nação.

Certos de que a crise venezuelana passa a ser desta maneira nossa também, colocamo-nos à disposição para colaborar no que estiver ao nosso alcance.

Assinam a carta:

Carla Diana e Carla Almeida
Secretaria Política

Georgina Machado e Fábio Dayan
Secretaria Executiva

Thania Arruda
Secretaria de Comunicação

 

ANAIDS – Articulação Nacional de Luta Contra a Aids
articulacao.nacional@gmail.com
(18) 98102-4787


Fonte: Gestos em 16 de fevereiro de 2018

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT.

O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e do público em vários países. 120 Batimentos Por Minuto estreia hoje, 4 de janeiro de 2018.

“Eu amei esse filme. Não tem como eu ama-lo mais. Eu me emocionei do início ao fim. Campillo contou uma história sobre heróis, que salvaram muitas vidas”, disse emocionado o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes.

https://www.facebook.com/imovision/videos/10159779262065357/

O Centro de Referência e Treinamento-DST/AIDS-SP (CRT-DST/AIDS) é uma unidade de referência normativa, de avaliação e de coordenação do Programa Estadual para Prevenção, Controle, Diagnóstico e Tratamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Estado de São Paulo.

A Secretaria de Estado da Saúde, por meio do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, lança nota técnica “Indetectável igual a Intransmissível”. A nota informa gestores, profissionais da saúde, sociedade civil e população geral, que as pessoas vivendo com HIV/aids com carga viral indetectável há pelo menos seis meses e boa adesão ao tratamento tem um risco insignificante de transmitir o vírus pela via sexual.

Esta afirmação se baseia em recentes estudos com resultados sólidos e conclusivos – HPTN 052, e Partner, de 2016, e Opposites Attract, de 2017 –, os quais têm levado à atualização da mensagem sobre transmissibilidade por parte de autoridades como o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Sociedade Internacional de Aids (IAS), da Suíça. Infecções sexualmente transmissíveis (IST) e possíveis pequenos aumentos transitórios na carga viral (conhecidos clinicamente como “blips”) não influenciam a transmissibilidade nestes casos, de acordo com os estudos. Considera-se carga viral indetectável a quantidade de vírus inferior a 40 cópias por ml de sangue.

“Pessoas que vivem com o HIV, se tomarem seus medicamentos e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”

Esta novidade traz impacto positivo na vida das pessoas vivendo com HIV/aids sob vários aspectos. “Pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”, declara Artur Kalichman, coordenador do Programa Estadual DST/Aids-SP. A notícia traz impacto positivo na adesão ao tratamento e, em especial, as pessoas vivendo com HIV/aids sorodiscordantes que desejam ter filhos. “Será possível também realizar planejamento familiar com mais tranquilidade”, comenta.

“Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem efeitos positivos sobre a sorofobia”

Para Maria Clara Gianna, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP, os profissionais de saúde e de comunicação em saúde devem fornecer orientação atualizada e acurada às pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) sobre o risco de transmissão neste cenário. “Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem potenciais efeitos positivos sobre a sorofobia (estigma) e sorofobia internalizada (autoestigma), direitos sexuais e reprodutivos, testagem, vinculação aos serviços de saúde e adesão ao tratamento”, observa.

As pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) devem receber também aconselhamento sobre fatores que influenciam a opção entre o uso deste método de prevenção ao HIV isoladamente ou a sua associação a outros métodos de gerenciamento de risco e de prevenção, como preservativo e uso de profilaxia pós-exposição (PEP) ou profilaxia pré-exposição (PrEP) pelo parceiro HIV-negativo. “Esses fatores incluem acordos de confiança do casal, adesão ao antirretroviral e decisões sobre o gerenciamento de risco para IST e gravidez.

Em qualquer situação, deve ser respeitada a autonomia da pessoa vivendo com HIV/aids e de seu(sua) parceiro(a) e deve ser garantido o acesso a diagnóstico e tratamento de IST, outros métodos de prevenção ao HIV, métodos anticoncepcionais e acompanhamento pré-natal”, comenta Rosa de Alencar, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP. Para as pessoas que, por qualquer razão, não estejam com a carga viral indetectável, deve ser reforçado que o preservativo é um método eficaz de prevenção e que estará em breve disponível a profilaxia pré-exposição (PrEP) para uso pelo parceiro HIV negativo.


*Nota Técnica 02/2017/CRT-PE-DST/AIDS/SES-SP. Informações adicionais: www.crt.saude.sp.gov.br | Disque DST/Aids: 0800 16 25 50

Almir Nascimento

Almir Nascimento tem 59 anos de idade. Foi dono do bar e restaurante Paparazzi, antes de integrar a organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo em 1999 e 2000, anos em que o Movimento Gay da cidade ganhou bastante notoriedade. Entre 2009 a 2013, foi presidente da Associação Brasileira de Turismo GLS. Há 19 anos é proprietário da da sauna Wild Thermas Club. Desde julho, voltou a integrar a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e é um dos organizadores do 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, no dia 28 de novembro — a primeira vez que a Parada Gay de São Paulo vai falar sobre a prevenção ao HIV.

Conheci Almir em uma reunião que aconteceu em setembro deste ano, no bairro dos Jardins, em São Paulo, depois de ter sido convidado para colaborar com a iniciativa da Parada do Orgulho GLBT em uma campanha sobre a prevenção do HIV. Quando cheguei, ele já estava na sala, sentado de costas para a janela, vestindo uma camisa social xadrez e calça jeans, quando se levantou para me cumprimentar, com um aperto de mão firme e um olhar sorridente. Almir parece ser daquelas pessoas que escuta mais do que fala. Pelo menos, foi assim naquela reunião, na qual ele ouviu atentamente aos que estavam ali presentes — entre eles, o youtuber Gabriel Estrëla, do Projeto Boa Sorte, e o médico infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador de um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV, que participou dos estudos iPrEX e PrEP Brasil. No pouco que falou naquele dia, Almir reconheceu que era hora de incluir o HIV e a aids na pauta da Parada Gay, algo que não foi feito até hoje. Conversei novamente com Almir nos últimos dias, quando tomamos um café num bairro da região central de São Paulo.

Jovem Soropositivo — A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo nunca abordou oficialmente o tema do HIV e da aids. Por que essa mudança agora?

Almir Nascimento — O índice da epidemia está explodindo, novamente, especialmente entre os jovens homens gays. Não era para estarmos ainda falando de aumento do número de casos, de campanhas que ainda precisam ser feitas. Já era altura da epidemia estar controlada. Mas parece que estamos sempre patinando, patinando… Se a Parada tivesse feito isso há vinte anos, o quanto ela já não poderia ter conseguido? Se a gente já tivesse feito um trabalho para os jovens que hoje estão se infectando e que não têm informação sobre o HIV, o quanto a gente não poderia ter ajudado? Enfim, a Parada optou por outro caminho, foram outras conquistas. Mas eu acho que a Parada pode fazer alguma coisa, sim.

Você diz isso num tom de mea culpa?

É mea culpa da minha parte, não da Parada e nem da Associação. Dentro da comunidade gay, sempre foi falado da epidemia de HIV. Muitos associados e muitas pessoas próximas viviam e vivem com HIV. Então, sempre se falou sobre isso dentro da comunidade.

Mesmo assim, é verdade, a Parada nunca teve um evento dela própria voltado para a prevenção e conscientização sobre o HIV. O que tivemos foram vários parceiros, incluindo as ONGs que trabalham com HIV e aids, como Fórum ONG/Aids, Pela Vidda, GIV e GAPA, que foram parceiros da Associação. Então, quando chegava a época da Parada, os parceiros procuravam a Associação para fazer alguma ação. A Parada acreditava e acredita nesses parceiros, que faziam e fazem importantes ações de prevenção durante os eventos.

Mas a Parada nunca assumiu para si essa função, porque, embora muita gente imagine que sejamos uma baita organização, a verdade é que somos um pequeno grupo que faz um evento para milhões de pessoas. Durante a 4ª Parada, por exemplo, nós éramos cinco: um presidente e quatro diretores — claro, além dos vários voluntários. Hoje, mudou-se um pouco o estatuto e temos um grupo um pouco maior: um total de 18 pessoas, todos voluntários, sem ganhar nada pelo trabalho na Associação e, por isso, têm de ter seus próprios trabalhos. Então, é uma organização frágil, que mal dava conta de fazer o que tinha de fazer para a Parada acontecer. Por isso, incluir mais um evento, voltado somente ao HIV, nunca tinha sido possível.

Parada do Orgulho GLBT de São Paulo de 2014 (Foto: Ben Tavener / Brazil Photo Press).

E o que mudou?

O que mudou é que eu, voltando para a organização da Parada, disse: “eu gostaria muito de fazer isso”. Para mim é fundamental que a Associação faça alguma coisa e resgate esses vinte anos em que não trouxe diretamente essa discussão. Você falou em mea culpa… é isso! Temos que aproveitar essas milhares de pessoas na rua para isso também. Eu fui convidado para voltar para a Parada recentemente, em julho de 2017, e, agora, vamos fazer esse evento: o 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, já na semana que vem, dia 28 de novembro. Esse evento vai passar a fazer parte do calendário anual da Associação.

Teve alguma razão pessoal para essa sua motivação?

Eu acho que foi a preocupação e, também, uma vontade que eu trago há vinte anos de fazer alguma coisa nesse sentido. Mas a verdade é que, até agora, eu não achava que tinha forças e nem legitimidade para, sozinho, fazer isso. Eu sempre tive negócios voltado para o público gay: tenho hoje uma sauna gay, que este ano está fazendo dezenove anos de existência, e, durante esse tempo, nunca houve lá dentro mais do que três campanhas de prevenção ao HIV. Como empresário, eu nunca fiz isso. Claro, sempre ofereci preservativos e gel lubrificante para os clientes, mas nunca fiz uma campanha propriamente dita, com cartazes de divulgação e conscientização sobre o assunto.

Como funciona essa distribuição de preservativos dentro da sauna?

Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde me fornece os preservativos e géis lubrificantes gratuitamente, que estão dispostos em vários pontos do estabelecimento. Se o cara está com tesão e quer transar, é muito fácil ele pegar a camisinha e usá-la. Mas antes, até doze ou treze anos atrás, não era assim: o programa municipal ainda não tinha esse serviço. Então, eu mesmo é que comprava os preservativos e os distribuía na sauna, sem custo adicional para os clientes. Hoje é maravilhoso termos essa parceria com a Secretaria, mas não é a mesma coisa que uma campanha: cartazes e folders com explicações, informações e referências. Campanhas assim fizeram muita falta.

Algo próximo disso aconteceu quando o Dr. Ricardo Vasconcelos veio nos procurar: ele precisava de 500 voluntário para participar de um estudo sobre PrEP e deixou vários folhetos lá na sauna. Sei que muitos clientes meus foram participar desse estudo. E, agora, o Dr. Ricardo será um dos palestrantes desse 1º Encontro de Saúde.

O que você acha da profilaxia pré-exposição (PrEP) e das outras alternativas de prevenção, como a profilaxia pós-exposição (PEP) e o tratamento como prevenção (TasP)?

Eu considero isso um marco. Com tantas opções de prevenção, uma pessoa bem informada só se infecta se quiser! Hoje, uma pessoa pode se prevenir antes, durante ou depois — quer coisa melhor? Mas quantas pessoas não sabem que essas alternativas existem? Falta informar as pessoas que essas alternativas existem! E é aí que mora o problema: as campanhas atuais não alcançam todo mundo.

Por que a Parada resolveu falar sobre isso para os jovens? Porque eles são difíceis de serem alcançados, eles são fluídos. Ontem, a novidade era o Facebook, hoje são os grupos de WhatsApp — os pais deles estão no Facebook, mas não no grupo de WhatsApp. Existem muitos grupos voltados para sexo e fetiches, conheço vários deles. Por exemplo, alguém que gosta de bareback ou leather cria um grupo e esse grupo bomba, com mil mensagens, duas mil mensagens. Mas aí um dos participantes cria um subgrupo, com um fetiche mais específico, por exemplo, de bareback com homens que usam barba ou sexo com militares. Em uma semana, o grupo anterior começa a minguar e perder seus participantes, que migraram para os novos subgrupos de WhatsApp, com novos temas e fetiches. E assim por diante.

Como vamos fazer campanha para pessoas que estão em grupos tão segmentados? As pessoas precisam entender que essa é a realidade, isso existe, e que é um problema a educação e informação chegar neles. Precisamos pensar em como fazer isso. Pensando bem, nestes mais de trinta anos de epidemia, deveríamos ter feito muito mais campanhas, discussões e eventos tentando atingir os mais diferentes grupos, canais e tipos de pessoas.

Além deste 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, quais outras iniciativas dentro desse assunto a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo planeja fazer?

Uma coisa muito legal que vai acontecer em março de 2018 é um Encontro dos Organizadores de Paradas do Brasil. Juntos, vamos tentar criar uma força motivadora para tornemos o segmento mais forte. Nossa ideia é conhecer mais profundamente o movimento de Paradas, trocar experiências e saber um pouco das particularidades e especificidades de cada Parada. Além disso, esperamos que propostas e experiências legais, tal como este Encontro sobre Saúde/Prevenção, sejam levadas e adotadas em todas as Paradas do Brasil. Há sete anos, havia cerca 400 paradas no País. Hoje eu não tenho ideia de quantas existam — são muitas!

Quando você entrou na organização da Parada, qual era o tamanho do evento? Quantas pessoas participaram?

Eu participei como diretor da Associação na 4ª Parada, em 1999, até a 5ª Parada, no ano 2000. A 4ª Parada foi  um marco no Movimento: foi a “Parada dos 100 mil”, que a gente também chama de a “Parada da Virada”. Foi quando a Associação conseguiu levar 100 mil pessoas para a rua. A partir de então, a imprensa, a sociedade e o Estado começaram a olhar e a falar: “quem é esse grupo que consegue levar 100 mil pessoas à rua?” Até então, o Movimento existia mas era muito pequeno e muito dividido. O Movimento só ganhou a importância que tem hoje quando levou 100 mil pessoas à rua.

A partir daí, as pessoas perceberam que este era um grupo organizado. E eu estava justamente nessa Parada da Virada. Foi uma revolução! Na época, a diretoria da Associação tinha como presidente o Beto de Jesus — que, justiça seja feita, montou um grupo muito forte, dinâmico e bastante diversificado. Por exemplo, ele convidou o jornalista Fernando Estima para ser o assessor de imprensa da Associação. Também convidou a mim e ao atual diretor do Museu da Diversidade Franco Reinaldo — ambos empresários com negócios voltado para o público LGBT. Convidou o arquiteto Renato Baldin, o Nélson Matias e o Reinaldo Damião — militantes do movimento LGBT —, bem como o Ideraldo Beltrame e a Fátima Tassinari, além de outros colaboradores. Criou-se ali uma sinergia bem legal e, de repente, estávamos todos empenhados em ajudar, trabalhar e construir pautas, agenda e eventos para que o Movimento se fortalecesse e para que a Parada acontecesse. Foram dois anos incríveis!

Com cada vez mais pessoas participando da Parada…

Pois é, na 5ª Parada o público já foi de  200 mil pessoas. Foi um crescimento geométrico. Na 6ª Parada foram 500 mil pessoas. Foi uma coisa louca, o público cresceu ano a ano, até chegar nos milhões que temos hoje. Mas o que importa é que o Movimento LGBT se consolidou, a Associação da Parada se fortaleceu e tudo o que a Parada faz ganha uma enorme repercussão. Agora, esperamos que essa repercussão aconteça com o Encontro de Saúde/Prevenção para Jovens LGBT.

O que te motivou a entrar na organização da Parada?

Acho que foram as questões do Movimento LGBT. O Movimento LGBT não quer ser diferente, não quer ser especial: apenas queremos direitos iguais e que as nossas diferenças sejam respeitadas. Por que não ter uma lei de herança entre casais que funcione tal como funciona com casais heterossexuais? A adoção, por exemplo: por que um casal gay não pode adotar uma criança tal como um casal hétero? Por que eu e meu parceiro não podemos ter os mesmos direitos  de um casal convencional? Por que não podemos, por exemplo, partilhar um plano de saúde ou de previdência? Hoje já conseguimos muitos destes direitos, mas naquela época ainda não era assim. Percebemos que, quanto mais gente o Movimento levasse para as ruas, maior seria a força para negociar e barganhar esses direitos. Era preciso nos tornarmos visíveis, porque, até então, o público LGBT era invisível para as leis e para a sociedade.

Quando você percebeu que era gay?

Eu acho que tinha 11 anos de idade. Foi quando eu percebi que gostava de caras, que os homens me atraíam. Era a época da minissaia, em 1969. Lembro que os meus amiguinhos ficavam loucos vendo as pernas da professora de matemática. E eu achava mais interessante o tesão deles vendo as pernas da professora do que a professora em si. Era aquela molecada, todos com 11 ou 12 anos de idade, descobrindo a sexualidade, ficando de pau duro toda hora… E eu achava eles mais atraentes de pau duro do que a professora! [Risos] Isso tudo no interior de São Paulo, imagina? Sou nascido em Pirajú, perto de Ourinhos.

Eu vim de uma família muito religiosa, então, até os 19 anos eu fiquei bem quietinho, estudava a Bíblia, fui ser missionário, etc. Durante esse tempo, a minha sexualidade ficou adormecida. Até que vim para São Paulo, trabalhar como missionário aqui. Foi quando passei a ter contatos com a cidade e, claro, foram várias descobertas. Acabei me afastando da vida religiosa.

Foi nessa época que você “saiu do armário”?

Não podemos esquecer que estamos falando do final dos anos 70, começo dos 80: o Brasil estava em plena ditadura militar. Havia muita repressão, inclusive em São Paulo. Então, não tinha muito como “sair do armário” — eu tinha assumido a minha sexualidade para mim, mas não publicamente. Minha família nunca me questionou sobre a minha sexualidade. Eu comecei a namorar muito cedo, viajávamos bastante para o interior, na casa dos meus pais, e dormíamos no quarto. Ninguém nunca perguntou nem questionou nada!

Quais você acha que foram os principais avanços nos direitos LGBT, daquela época até os dias de hoje? 

Tiveram muitos avanços, mas eu acho que ainda falta bastante coisa. O que a gente vê hoje em dia é que nem toda família aceita um jovem que é parte da população LGBT. Então, muitos deles saem de casa cedo demais, o que faz com que a educação e a escola sejam interrompidas. O ideal seria que as pessoas aceitassem as diferenças e pudessem conviver com elas.

Outra coisa que aconteceu nestes vinte anos: as religiões fundamentalistas aumentaram muito, tanto em número de pessoas quanto em sua representatividade. Elas se organizaram e hoje ocupam cargos no legislativo municipal, estadual e no Congresso Nacional. Sabemos da visão equivocada que eles têm da homossexualidade e da falta de respeito às diferença.

Houveram várias conquistas, mas a força contrária, reacionária, também cresceu. Para mim, não seria nenhuma novidade que essas forças reacionários no ano que vem, nas eleições de 2018, se essas pessoas conseguirem ocupar altos cargos no Executivo — vide a prefeitura do Rio de Janeiro, com o Marcelo Crivella (PRB). Outro exemplo é o Jair Bolsonaro (PSC), que não é evangélico mas é apoiado por eles, que é um dos líderes nas pesquisas de intenção de voto para presidente.

O que você está dizendo é que, ao mesmo tempo em que houveram várias vitórias em relação aos direitos LGBT, também se cresceu a resistência a estes direitos?

Sim, é a lei da ação e reação. Isso faz parte: na medida em que a pauta progressista avança, a reacionária não fica quieta e se mobiliza também. A própria fala do Bolsonaro, quando ele fala a respeito de mulheres, gays e lésbicas, é sempre em tom muito pejorativo. Não há o mínimo de respeito nas falas dele. Ele é truculento. Além disso, vemos agora essa volta da censura nas peças de teatro e em exposições onde há nus. Há uma onda conservadora avançando — devagar, mas muito preocupante.

Você acha que a Parada corre algum risco?

Não sei se chegaria a tanto. Censura, não. Acho que a Parada pode ser verbalmente atacada. Seus recursos podem ser cortados, suprimidos. Mas o principal são as conquistas que alcançamos ao longo dos anos: será que elas podem regredir? Claro que podem! De vinte anos para cá, os governos sempre foram de esquerda ou de centro-esquerda, então a pauta era mais progressista, mais social, de direitos para as minorias. Durante esse tempo, embora estivesse afastado da Associação, eu percebia que existia parceira: haviam canais que foram sendo aberto com os parceiros institucionais. Mas, agora, este ano, temos o exemplo da Parada do Rio de Janeiro, que não recebeu apoio e nem verba institucional — foi por muito pouco que o evento não deixou de acontecer!

Quem são os principais apoiadores da Parada de São Paulo?

O evento faz parte do calendário oficial da cidade São Paulo — portanto, é um evento da cidade. Durante a semana da Parada, São Paulo fica lotada de turistas! Há vários anos as pesquisas mostram que o comércio vende muito mais na época da Parada. Tanto as lojas da Rua 25 de março, com seu comércio mais popular, como as lojas da Rua Oscar Freire, com comércio de luxo, batem recordes de venda. A ocupação de hotéis e pousadas é de 100%. Então, é muito interessante para a cidade ter um evento como esse. Há muitos anos, a Prefeitura de São Paulo apoia a Parada, não diretamente com dinheiro, mas na infraestrutura do evento: segurança, gradeamento e palco, por exemplo.

O Governo do Estado nos ajuda também. A Feira da Diversidade que a Parada fez no ano passado recebeu apoio do Governo Estadual para a montagem e estrutura do evento. Foi dele a ajuda na escolha dos locais, como teatros e auditórios, para vários eventos, como o Prêmio da Diversidade, o Ciclo de Debates e os Jogos da Diversidade.

O que é que você acha que precisa mudar no País em relação aos direitos LGBT? 

Em relação aos direitos LGBT, a questão do nome social das travestis e transexuais: quem pautou essa mudança na lei foi a Coordenadoria  da Diversidade Sexual da  Cidade de São Paulo. Isso foi legal, sensacional, mas isso aconteceu à partir de demandas do movimento LGBT. Sobre a criminalização da homofobia: essa agenda deveria também incluir a implantação de políticas públicas para educação e trabalho da população LGBT. São muitas as demandas!

Qual você acha que é o cenário ideal para as minorias, como as pessoas LGBT e para quem vive com HIV?

Acho que precisamos falar, discutir e rediscutir assuntos como saúde, cuidados e prevenção. Incessantemente.

No dia 28 de novembro de 2017, das 18h às 20h, acontece em São Paulo o 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, realizado pela Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT), responsável pela maior parada do orgulho LGBT do mundo. Este evento foi organizado por Almir Nascimento, um dos novos diretores da ONG, e é uma das primeiras etapas de uma importante e contínua ação da APOGLBT ligada à saúde e a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e aids.

A ideia é que este evento passe a ocorrer anualmente, sempre na mesma data, próximo ao dia 1º de dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Este primeiro encontro conta com a participação do Programa Municipal de IST/Aids de São Paulo, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de SP, do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde e também o Projeto Boa Sorte, o Fórum de Ongs Aids do Estado de São Paulo e o site Menino Gay.

Inscreva-se agora para participar!

Mesa de Abertura:
“Atualização sobre a situação atual e tendências da epidemia de HIV e IST entre a população LGBT”.
  • Rodrigo Pinheiro, do Fórum Ongs Aids do Estado de São Paulo, sobre “Panorama das ONGs de aids no Estado de São Paulo – Desafios”
  • Cláudia Regina Garcia, Presidente da Parada do Orgulho LGBT do Estado de São Paulo, sobre a “Importância do encontro de saúde/prevenção para a APOGLBT de SP”
  • Georgiana Braga-Orillard, Diretora do Unaids Brasil, sobre a Importância do evento da Parada em resposta à epidemia de IST/Aids
Mesa Redonda:
  • Gerson Pereira, do Departamento de Vigilância Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, sobre a “Atualização sobre a situação atual e tendências da epidemia de HIV e IST entre a população LGBT”
  • Ivone de Paula, do Programa Estadual/CRT — DST/Aids do Estado de São Paulo, sobre “Discussão das novas estratégias de prevenção para o enfrentamento dessas epidemias com foco nos segmentos mais jovens”
  • Maria Cristina Abbatem Coordenadora do Programa Municipal DST/Aids.
    Tema: “Como está a PEP no Município de São Paulo, como será a implantação da PrEP”
  • Matheus Emílio, do site Menino Gay, sobre “As mídias sociais na luta contra a aids”
  • Gabriel Estrela, do Projeto Boa Sorte, sobre “Acolhimento, estigma e preconceito”
  • Ricardo Vasconcelos, médico infectologista da FMUSP e do PrEP Brasil, sobre “Jovens e prevenção combinada”
Inscreva-se agora para participar!
I Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT em São Paulo
Realização APOGLBT SP (www.paradasp.org.br)
Dia: 28 de novembro de 2017
Horário: das 18h às 20h
Local: Aliança Francesa
Rua General Jardim, 182 – Centro – SP – Entrada Franca.
Ficha de inscrição: https://goo.gl/forms/Q5z2O63GACA0GQdy1
Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/122522791773103
Parceiros: Centro de Referência e Treinamento DST/Aids – SP, Programa Municipal de DST/Aids – Secretaria Municipal de Saúde, Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, Museu da Diversidade, Fórum Ongs Aids do Estado de São Paulo, Projeto Boa Sorte, Menino Gay. Apoiadores: Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, ONG Koinonia, Aliança Francesa de São Paulo, Canto Produções. Agradecimentos: Sr. Marco Prado, Diário de um Jovem Soropositivo.

O Unaids Brasil lançou, durante o 11º Congresso de HIV/Aids, em Curitiba, a tradução adaptada de seu Guia de Terminologia, um documento com recomendações sobre o uso de palavras cientificamente precisas e que promovem direitos humanos universais e a dignidade do indivíduo. Um dos objetivos do guia é também o de facilitar a compreensão dos principais temas relacionados ao HIV e à aids, bem como ao estigma e à discriminação.

“A linguagem não é neutra. E no contexto do HIV, essa afirmação nunca foi tão verdadeira”, explica Georgiana Braga-Orillard, Diretora do Unaids no Brasil. “As palavras que escolhemos e a forma como comunicamos nossos pensamentos e opiniões têm um efeito profundo na compreensão das mensagens. A escolha cuidadosa da linguagem, portanto, desempenha um papel importante na sustentação e no fortalecimento da resposta ao HIV, para que ela seja construída sobre uma base livre de estigma e de discriminação.”

Expressões como “pessoa vivendo com HIV” estão gradualmente substituindo outros termos, como “vítima de aids”, ou termos correlatos. “Termos como ‘vítima da aids’ implicam que o indivíduo é impotente, sem controle sobre sua vida”, disse Alistair Craik, que coordena o Guia de Terminologia do Unaids original, elaborado em inglês. “Por isso, é preferível usar ‘pessoas vivendo com HIV’”, acrescentou.

Neste caso, como explica o Guia de Terminologia do Unaids, e expressão “pessoa vivendo com HIV” tem o objetivo de evidenciar o protagonismo que a pessoa que vive com HIV tem diante de sua vida, na busca por saúde, dignidade e plenitude no exercício de seus direitos. O termo atual relega, portanto, ao HIV apenas um papel de coadjuvante nesse processo. Da mesma forma, expressões de conotação bélica, como “luta contra a aids” e “combate à aids” perdem espaço para termos mais inclusivos, mais abrangentes e menos bélicos, como “resposta à aids”.

Segundo o Unaids, as diretrizes de terminologia têm como objetivo promover o uso de palavras que respeitem e empoderem os indivíduos. Elas também fornecem conselhos aos escritores e jornalistas para evitar erros comuns. Por exemplo, “vírus da aids” não deve ser escrito porque é cientificamente errado. “Não há ‘vírus da aids’”, explica o Guia. “Aids, a síndrome de imunodeficiência adquirida, é uma síndrome de infecções oportunistas e doenças que, em última instância, é causada pelo HIV”.

O documento também ressalta um erro comum, no uso da expressão “pessoas infectadas com a aids”, uma vez que a aids não é o fator infectante, e sim o vírus, conhecido como HIV. Além disso, o Guia explica que, uma vez que a palavra “HIV” vem do inglês human immunodeficiency virus, cujo significado em português é “vírus da imunodeficiência humana”, é incorreto escrever o “vírus HIV” ou “vírus do HIV”, por se tratar de uma redundância.

Estes exemplos mostram um pouco do que os leitores vão encontrar no Guia de Terminologia do Unaids. Trata-se de um breve conjunto de recomendações visa promover uma linguagem sensível ao gênero, não discriminatória, culturalmente apropriada e que promova os direitos humanos universais. O Unaids enfatiza que suas recomendações terminológicas devem ser consideradas um trabalho contínuo, à medida que novas questões e dinâmicas emergem frequentemente.

“Hoje meu marido foi à clínica e eles disseram que não têm remédio e que não estão recebendo nenhum”, diz uma postagem no site russo Pereboi.ru, onde há uma sala de bate-papo para soropositivos. “Me sinto muito mal e, mesmo assim, não recebo tratamento. Eles disseram que está faltando antirretroviral e que os remédios vão apenas para os casos mais terríveis”, escreveu Marina, de Tomsk, na Sibéria. “Tenho uma criança para criar e não quero morrer.”

“No início do ano 2000, não havia nenhum tratamento”

Os problemas com a distribuição de medicamentos contra o HIV/aids já são endêmicos na Rússia, forçando os pacientes a procurar soluções tal como no filme Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), cujo enredo se passa na década de 1980, nos Estados Unidos. Ao invés de Ron Woodroof, personagem vivido pelo ator Matthew McConaughey, um dos protagonistas russos chama-se Aleksei Yaskovich: em 2010, ele criou a Aptechka, uma organização não-governamental para distribuição de antirretrovirais em Kursk, cidade próxima ao lado europeu do país. “Quando fui diagnosticado com HIV, no início do ano 2000, não havia nenhum tratamento”, explica Yaskovich. “Meu médico me disse: ‘Se você viver três anos, terá sorte’. Naquela época, era realmente assustador. Agora, sabemos que os remédios existem e que não estamos recebendo eles por causa de alguns bloqueios burocráticos.”

“As pessoas estavam morrendo”

Há sete anos, Yaskovich notou que o sistema do Ministério da Saúde russo usado na distribuição de medicamentos vitais para o tratamento do HIV produzia frequentes situações de esgotamento de estoque, geralmente na metade de cada ano, deixando os pacientes com HIV com lacunas fatais no tratamento. “As pessoas estavam morrendo”, diz Yaskovich. “Eles tiravam os remédios de alguns pacientes e os entregavam a outros. Mulheres grávidas e crianças tinham prioridade.”

Foi então que as pessoas que vivem com HIV na Rússia começaram a se organizar. Pacientes cujo regime de tratamento tinha sido trocado enviavam seus medicamentos excedentes e antigos para Yaskovich, que cuidava da sua redistribuição. No início, Yaskovich os guardava na geladeira de sua casa. “Estava cheio de pílulas, caixas e potes de comprimidos”, lembra. “Minha mãe estava ficando incomodada! Eu ainda tinha metade de uma mala cheia de comprimidos de Kaletra.”

“Recebíamos doações de medicamentos das mães daqueles que morriam”

Nem sempre as doações vinham diretamente de pessoas com HIV. “Recebíamos doações de medicamentos das mães daqueles que morriam”, diz Svetlana Prosvirina, diretora da organização Kaliningrad e coordenadora local da Aptechka. “Lembro-me da primeira vez: um amigo meu morreu de uma overdose e sua mãe nos deu vários frascos de antirretrovirais. Aparentemente, o rapaz havia se metido seriamente nas drogas e esqueceu do tratamento. Foi assim que, pela primeira vez, preenchemos o estoque da nossa pequena farmácia.”

Um protesto contra a falta de medicamentos antirretrovirais, em Moscou, em dezembro de 2011. “O que aconteceu em 2011 está acontecendo novamente agora, em 2017”, diz um ativista.

Noutras vezes, os medicamentos vêm diretamente dos fabricantes, através de pessoas que simpatizam com a causa. “Tudo é feito através de contatos pessoais”, diz Ivan, que pediu para não ser identificado por trabalhar em uma clínica estatal. “Um amigo me chama e diz: ‘Temos algumas caixas que podemos compartilhar. Traga um carro.’ Como eu não tenho carro, vou com duas mochilas e um carrinho de compras. Em seguida, enviamos os medicamentos para Biisk, Rubtsovsk e Barnaul.”

A Rússia é praticamente o único país desenvolvido onde o número de novas infecções por HIV e o número de mortes relacionadas à aids continuam a aumentar. Segundo uma matéria do New York Times, publicada em 2016, os casos de HIV/aids já ultrapassam um milhão de pessoas. Para efeitos de comparação, o Brasil  tem 830 mil pessoas vivendo com HIV/aids e o Unaids estima que o número de mortes relacionadas à aids no País foi de 14.000, em 2016. Em contraste, na Rússia, os números do governo mostram que 1.529 pessoas morreram de aids em 2005, 10.611 em 2013 e, no ano passado, 18.577. Neste ano, os ativistas russos acreditam que o número de mortes provavelmente será superior a 20 mil.

“Esta já pode ser considerada uma ameaça para toda a nação”

Esses números podem ser ainda maiores, uma vez que os dados oficiais não são compartilhados com órgãos internacionais, como o Unaids, e nem sempre podem ser confirmados. Há disparidades entre as informações disponíveis. A Avert.org, por exemplo, traz uma estimativa diferente: segundo eles, o número de mortes relacionadas à aids, em 2014, na Rússia, foi de 24 mil pessoas.

Uma das únicas referências oficiais do real tamanho da epidemia russa parece vir de Vadim Pokrovsky, antigo chefe do Centro Federal contra a Aids, com sede em Moscou: segundo ele, há cerca de 850 mil russos vivendo com HIV e um total de 220 mil mortes decorrentes da aids desde o final da década de 1980. Pokrovsky estima que pelo menos outros 500 mil casos de HIV ainda não foram diagnosticados. A soma desses números representa aproximadamente 1% da população russa, de 143 milhões de pessoas, o que é suficiente para ser considerado uma epidemia. “Esta já pode ser considerada uma ameaça para toda a nação”, diz Pokrovsky, observando que o número de casos está aumentando cerca de 10% ao ano. Em 2016, estimaram-se 100 mil novas infecções, cerca de 275 por dia. Trata-se da maior epidemia de HIV/aids da Europa e uma das maiores taxas de infecção do mundo.

“É difícil dizer quantas pessoas estamos ajudando”

“É difícil dizer exatamente quantas pessoas estamos ajudando”, diz Yulia Vereshchagina, da ONG Pacientes no Controle, a Pereboi.ru, de São Petersburgo. “Muitos dos pacotes de medicamentos vão para mais de uma pessoa. Às vezes, um pacote serve para até cinco pessoas.” Segundo o Ministério da Saúde russo, a provisão de gastos com antirretrovirais em 2017 foi de 17 bilhões de rublos (cerca de US$ 296 milhões), que serviram para comprar tratamento para 235 mil soropositivos. Os ativistas estimam que isto cobriu cerca de um terço da demanda e, em setembro, o governo adicionou mais 4 bilhões de rublos.

Com a escassez, a Aptechka tem trabalhado ativamente. “Nós não estamos apenas ajudando com medicamentos, mas também estamos encorajando as pessoas a escrever queixas à [agência estatal de proteção ao consumidor] Rospotrebnadzor”, diz Ivan. “Nós lhes dizemos para não esperar. Em Barnaul, quando as pessoas começaram a escrever, houve algum avanço.”

“Nada vai melhorar. O que aconteceu em 2011 está acontecendo de novo em 2017”

Yaskovich continua a procurar soluções, mas ele não vê o futuro com otimismo. “Penso em criar algum mecanismo on-line onde os gerentes de todas as farmácias no país possam publicar em tempo real as informações sobre quais medicamentos eles têm, quando expiram e assim por diante”, disse ele em uma entrevista à RFE. “Muitos acreditam que, com a substituição de importações [resultado das sanções ocidentais contra a Rússia e as imposições de Moscou], começaremos a produzir nós mesmos os antirretrovirais e, assim, tudo vai melhorar. Isso é uma ilusão. Nada vai melhorar! Não vejo nenhuma melhoria na situação. O que aconteceu em 2011 está acontecendo de novo, agora, em 2017.”

Protestos contra o presidente Vladimir Putin, em Londres.

De fato, o problema na distribuição de antirretrovirais na Rússia não parece ser decorrente das sanções internacionais, mas do próprio presidente russo, Vladimir Putin, que permanece em silêncio diante da epidemia de HIV/aids. Segundo ativistas, sua postura é de indiferença com as vítimas, austeridade financeira com a oferta de tratamento e hostilidade aos fundos estrangeiros — em 2016, o Ministério da Justiça investigou diversas ONGs envolvidas na luta contra a aids, simplesmente porque receberam apoios vindos do exterior.

Apesar da epidemia russa também afetar consideravelmente heterossexuais, principalmente os usuários de drogas injetáveis, os soropositivos russos ainda enfrentam um estigma comum na década de 1980. Autoridades de saúde pública e a própria Igreja Ortodoxa Russa entoam “valores familiares” como a solução para a epidemia de HIV/aids. Cirilo I, patriarca da igreja, exortou a “educação moral”, enfatizando que o “estabelecimento de valores familiares, ideais de castidade e fidelidade conjugal” devem estar na vanguarda da contenção do vírus. Tanto o governo quanto a igreja se opõem à educação sexual para crianças. Um alto funcionário do governo chegou a afirmar que a literatura clássica era a melhor professora. Além disso, o Estado também é inflexível ao uso de metadona no tratamento de toxicodependentes, classificando este medicamento como uma solução “narcoliberal” — em outros países, a metadona é normalmente utilizada para tratar e monitorar pacientes infectados pelo compartilhamento de seringas.

“As pessoas precisam entender que só conseguirão lutar contra o HIV se estiverem do mesmo lado que Putin”

É sob este mesmo espírito que a homossexualidade é fortemente oprimida na Rússia. Anton Krasovsky, apresentador de um talk show de televisão, foi demitido em janeiro de 2013, depois de publicamente se assumir homossexual. “Como não estamos falando sobre a luta contra Putin, mas de uma luta contra um vírus, as pessoas precisam entender que só conseguirão lutar contra o HIV se estiverem do mesmo lado que Putin”, disse Krasovsky. “É impossível mudar a situação sem chegar a algum tipo de acordo.”

Tatiana Vinogradova e seu marido Andrei Skvortsov, soropositivo, usaram seu casamento para ajudar a quebrar a imagem do HIV como intratável.

Enquanto isso, em São Petersburgo, o casal Tatiana Vinogradova e Andrei Skvortsov pressionam o governo para enfrentar a epidemia. Vinogradova é uma ativista da terceira geração de soropositivos: sua avó, especialista em doenças infecciosas, tratou um dos primeiros pacientes com HIV em São Petersburgo, no final da década de 1980, e pressionou as autoridades da cidade para criar um centro de apoio às pessoas com aids. Skvortsov, por sua vez, é ex-viciado em drogas, ex-condenado e soropositivo. Juntos, eles criaram a Pacientes no Controle, em 2010, com o objetivo de persuadir, pressionar e envergonhar o governo federal e os governos locais para que ofereçam o tratamento antirretroviral.

“Reconhecer que isto é uma epidemia é admitir que o governo deixou o problema sair do controle nos últimos 30 anos”

O casal também tenta usar seu próprio casamento para ajudar a quebrar o estigma de que o HIV é uma praga incurável e restrita a toxicodependentes, gays e outras minorias. Uma das estratégias do casal é sempre se referir à situação usando o termo “epidemia”, contrariando a interpretação oficial do governo. “Reconhecer que isto é uma epidemia é admitir que o governo deixou o problema sair do controle nos últimos 30 anos”, explica Vinogradova. “A Rússia é assim: para funcionar, as coisas têm de vir do alto escalão para baixo” — algo que, em relação ao HIV/aids na Rússia, parece nunca acontecer.

“Os programas de prevenção não funcionam e a cobertura não é suficiente para frear a epidemia”

Ativistas e especialistas sempre voltam à falta de apoio governamental como a principal origem do problema. De acordo com as recomendações do Unaids, para reduzir a propagação do HIV, pelo menos 90% dos soropositivos diagnosticados devem receber tratamento antirretroviral. Na Rússia, pouco mais de 37% recebem esses remédios. “Os programas de prevenção não funcionam e a cobertura não é suficiente para frear a epidemia”, explica Vinay P. Saldanha, diretor regional do Unaids na Europa Oriental e Ásia Central. A Rússia é um dos cinco países que representam quase metade das novas infecções mundiais, ao lado da África do Sul, Nigéria, Índia e Uganda.

Cartaz com Vinogradova e Skvortsov, em São Petersburgo, encorajando as pessoas a fazerem o teste de HIV.

Um dos pequenos avanços na prevenção do HIV na Rússia parece estar nas campanhas de testagem de HIV. Uma destas publicidades é apoiada por Svetlana Medvedeva, esposa do ex-presidente russo Dmitri Medvedev. Outras são feitas por Vinogradova e Skvortsov — o casal é surpreendentemente aberto sobre a sua vida sexual, enfatizando que o fato de ele estar sob tratamento antirretroviral significa que ela permanece soronegativa, mesmo sem o uso de preservativos. No cartaz, eles encaram um ao outro. “Eu sei que não há barreiras para o amor”, diz o texto. “HIV não é um obstáculo para a criação de uma família. É possível viver uma vida longa com HIV.”


Na semana em que são lembrados os 20 anos da morte de Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), ativistas de todo o Brasil estarão nas ruas denunciando o descaso com que gestores dos três níveis (União, Estados e Municípios) têm tratado a epidemia de aids. A criação de uma falsa ideia de controle levou a um recrudescimento no número de mortes por aids no Brasil, hoje são duas a cada hora. Além de manifestações de rua, estão previstas ações nas redes sociais e atividades nas sedes das ONGs.

Assistimos ao crescimento da aids, principalmente entre jovens e nas populações vulneráveis, com o aumento de mortes e de casos, na contramão dos dados globais. Reconhecemos as conquistas obtidas nas últimas três décadas, fruto da mobilização social e da pressão política, mas não podemos fugir à atual realidade, em que estas mesmas conquistas estão, a cada dia, ameaçadas em função do retrocesso e da falta de comprometimento que se abate sobre as políticas de saúde em geral e do enfrentamento à epidemia de aids em específico.

As organizações comunitárias que trabalham com o tema sentem de perto esta realidade, recebendo cotidianamente em suas sedes pessoas que escapam muito dos perfis mostrados nas reportagens. São jovens, negros, pobres, muitos com coinfecções e outras doenças oportunistas e que aguardam nas filas dos serviços públicos pela oportunidade de tratamento, às vezes sem recursos mínimos para se deslocar até a unidade de saúde. Soma-se a isto a falta de financiamento de todas estas ações e a ameaça de final da destinação específica para aids, jogando os recursos num caixa único, sem definição de prioridades e ao gosto do gestor.

Em todo o Brasil a população vivendo com HIV passou de 700 mil para 830 mil entre 2010 e 2015, com 15 mil mortes de aids por ano, quase duas mortes por hora.

Em todo o Brasil a população vivendo com HIV passou de 700 mil para 830 mil entre 2010 e 2015, com 15 mil mortes de aids por ano, quase duas mortes por hora. Por outro lado, os recentes episódios em todo o país de falta dos medicamentos antirretrovirais, cujo acesso universal é garantido por lei e sinônimo dos bons resultados alcançados pela resposta à aids no Brasil, exigem uma reação da sociedade.

Preocupados com este quadro, ativistas ligados às ONG e a redes de pessoas vivendo com HIV/aids se mobilizam em todos os estados dia 09 de agosto para chamar a atenção da sociedade brasileira para o problema. É preciso combater o preconceito e a aidsfobia que ganham cada vez mais vulto no Brasil. Caso contrário, teremos um quadro extremamente negativo da atual realidade de quem vive com HIV e aids em nosso país.

O momento é de luta e mobilização e não de ufanismos. Não vivemos em nenhum “País das Maravilhas”

O momento é de luta e mobilização e não de ufanismos. Não vivemos em nenhum “País das Maravilhas”. Há muito o Brasil não se configura como exemplo de combate à epidemia e muito ainda precisa ser feito para garantir um mínimo de qualidade de vida e de respeito à legislação que assegura o acesso à saúde como “um direito de todos e um dever do Estado”.

(Movimentos do Ceará, Pernambuco, Maranhão e São Paulo já confirmaram atividades para a semana da mobilização. No Ceará, o Fórum de ONGs Aids do Estado fará uma manifestação em frente ao Hospital São José, nesta terça-feira, dia 8, às 9h. Em São Paulo, o ato será realizado na quinta-feira, dia 10, às 18h, em frente à sede da prefeitura. Do dia 10 ao dia 12, delegações de ONG dos Estados da região sudeste estarão reunidas no Encontro Regional Sudeste de ONG/Aids.)


Fonte: Articulação Nacional de Aids — Anaids. Texto elaborado a partir do Manifesto preparado pelo Fórum de ONGs Aids do Estado de São Paulo (Foaesp) e Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+).