Antirretoviral (ou ARV) é o nome do tipo de medicamento usado para o tratamento de infecções por retrovírus, principalmente o HIV.

No tratamento contra o HIV, os antirretrovirais são administrados diariamente em um regime de drogas combinadas, conhecido como “coquetel”, terapia antirretroviral ou ainda terapia altamente eficaz com antirretrovirais (TARV ou HAART, do inglês Highly Active Antiretroviral Therapy)

No Brasil, a distribuição destes medicamentos é universal e gratuita. Mais informações sobre os tipos de antirretrovirais estão disponíveis em no Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

Outro dia, enquanto andava de metrô, escutei um casal conversando. Um deles dizia:

“– Hoje os jovens não usam mais camisinha porque ouvem dizer por aí que para o tratar o HIV basta tomar uns remedinhos.”

Vamos por partes. Antes, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais. Isso mostra que os medicamentos para disfunção erétil devem estar funcionando! Mas será que sugere que o medo do HIV realmente sumiu? Eu acho que não.

Acho que o medo continua, e ele não é (mais) capaz de conscientizar sobre o uso do preservativo. Nos dias de hoje, assustar não adianta. É preciso informar. Falar a real. E muito claramente.

Digo isso porque quando eu não usei camisinha, não fiz isso consciente de como era a vida de um soropositivo. Então, eu não sabia se bastaria tomar uns remedinhos ou não. Sequer sabia que havia remédios para o HIV, quais são e o que eles fazem. As aulas de educação sexual que tive na escola nunca me explicaram isso, mas apenas se detinham sobre o uso da camisinha. Então, a verdade é que eu simplesmente não pensava no vírus e nem nas suas implicações. Só fui fazer isso depois do diagnóstico.

Então, quase sem conhecimento algum, quando li “HIV positivo” no resultado do meu teste eu tive um choque. Morri de medo do HIV — ou, melhor dizendo, morri de medo dele me matar! Mas aprendi que não precisa ser assim. Com o passar do tempo, fui percebendo que eu tinha muitos mitos e preconceitos sobre o que era o HIV, a aids, o tratamento, o diagnóstico e até mesmo a prevenção. Concluí que era interessante aprender sobre tudo isso para compreender sobre a minha condição e, também, para explicar às pessoas a minha volta. E é isso o que faço aqui.

Na minha experiência como soropositivo entendi que o HIV, em todos os seus aspectos, está muito ligado à duas constantes: o cuidado e o tempo. O medo do HIV diminui, se é que não some por completo, quando entendemos que os problemas surgem se essas duas constantes não forem respeitadas. Aliás, elas estão presentes em todas as etapas relacionadas ao vírus: prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na prevenção, como sabemos, o principal cuidado é a camisinha. O uso dela torna o sexo seguro. No entanto, em situações excepcionais em que ocorrer falha, rompimento ou não uso da camisinha durante a penetração, a profilaxia pós-exposição pode ser indicada, depois de uma avaliação médica. A profilaxia só funciona se iniciada em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantida corretamente e seguindo as instruções médicas ao longo de todos os dias das semanas seguintes, mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais desagradáveis que podem surgir. Se não houver indicação médica para a profilaxia ou se o prazo de 72 horas for perdido, o jeito é seguir para o diagnóstico.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. A razão disso é bem simples: quanto mais tempo o organismo ficar exposto ao vírus, sem cuidado, pior. Afinal, se a habilidade do HIV é danificar o sistema imune, quanto mais tempo ele tiver livre para isso, maior será o dano causado. Em números: aproximadamente 25% das pessoas que demoram a se diagnosticar podem vir a não recuperar totalmente o seu sistema imune, grupo que pode ter complicações a longo prazo e do qual talvez eu faça parte, enquanto mais de 10% das pessoas diagnosticas tão tardiamente que já apresentam aids não sobrevivem nas semanas seguintes. Portanto, o melhor é fazer o teste logo!

Mas o diagnóstico também depende do tempo. Somente quando terminar o período da “janela imunológica”, que nada mais é que o tempo que o seu organismo leva para produzir anticorpos contra o vírus, é que o resultado do teste é preciso. Nem um dia antes. As informações disponíveis sobre o período da janela imunológica, no entanto, são um pouco contraditórias, variando entre 30 e 60 dias. Meu médico, o Dr. Esper Kallás, um dos mais respeitados infectologistas do País, é da opinião que os testes de hoje apresentam resultados plenamente confiáveis com 30 dias da suposta exposição ao vírus.

Se o resultado do teste vier “positivo” ou “reagente”, o cuidado passa a ser feito todos os dias. E é aqui que entram os tais “remedinhos.” Eles são chamados de antirretrovirais. Têm a habilidade de inibir os processos que o vírus usa para entrar nas células CD4 do sistema imunológico que estão no sangue. Como o vírus é esperto e usa vários processos, o tratamento consiste numa combinação de antirretrovirais, e é por isso que é apelidado de “coquetel.”

No meu caso, o coquetel que tomo consiste em três antirretrovirais cujos comprimidos não são tão grandes e podem ser tomados todos juntos, de uma única vez e antes de dormir. Entretanto, existem mais de vinte antirretrovirais diferentes que formam diferentes combinações de coquetel. Algumas combinações incluem um maior número de comprimidos, outras não. Alguns comprimidos são maiores que outros. E alguns coquetéis devem ser administrados em maior frequência por dia que outros. É comum que, no começo do tratamento, surjam efeitos colaterais desagradáveis. Em geral, náusea, vômitos e diarreia. Mas é verdade também que estes costumam passar completamente com o tempo.

Como qualquer condição de saúde, mesmo sob tratamento o HIV ainda pode trazer algumas complicações para quem o porta. Com o tempo, o vírus pode desenvolver resistência aos antirretrovirais. Se isso acontece, troca-se de coquetel. Ainda assim, a resistência é algo que costuma surgir no longo prazo ou em pessoas que violam o cuidado necessário, não tomando o coquetel corretamente todos os dias. Embora cada vez mais raras, complicações pelo uso prologando dos antirretrovirais também podem surgir.

Por isso, para prevenir e manter a certeza de que está tudo indo bem é que fazemos exames regulares, a cada três ou quatro meses. Além dos exames comuns de um check up, fazemos dois outros exames a mais: um deles que avalia como anda o sistema imune e outro que conta o número de vírus que se encontra no sangue. Entretanto, os antirretrovirais de hoje são tão eficientes que na maioria dos casos essa contagem não pode ser feita porque nenhum vírus é encontrado. E o resultado do exame vem “indetectável.” Sempre que um tratamento de HIV é bem sucedido, é isso o que acontece. E a grande maioria dos tratamentos hoje é sim bem sucedida, como é o caso de 76% dos soropositivos que tomam antirretrovirais no Brasil. Eu mesmo, por exemplo, sou indetectável desde o primeiro mês de tratamento, há três anos, e desde então permaneço assim.

Sob tratamento, sem o vírus detectável no sangue ao longo de mais de seis meses e sem a presença de outras DSTs, a transmissibilidade do HIV é reduzida em 96%. Com camisinha, tudo se torna tão seguro que um soropositivo pode namorar com um soronegativo ou outro soropositivo, seja homem, mulher, travesti, transexual ou transgênero, sem que os parceiros tenham que ter qualquer medo do vírus.

Portanto, na prática, o que muda na vida de um soropositivo é a necessidade de fazer os exames rotineiramente e de tomar os remédios todos os dias. Fazendo as contas, se cada visita tri ou quadrimestral ao laboratório de exames leva mais ou menos duas horas e ao infectologista outras duas, e se considerarmos que o tempo de tomar os remédios é de 10 segundos por dia — duração mais que justa para se pegar um copo d’água e engolir os comprimidos — então, o HIV consome no máximo apenas 10 horas da vida de um soropositivo por ano.

Nas outras 8.750 horas deste mesmo ano, nossa vida não é nada diferente da sua. Tomamos café. Pegamos trânsito ouvindo Mílton Jung no Jornal da CBN. Será que o Pizzolato vai ser extraditado? Reclamamos do calor. É segunda feira? Tem vídeo novo do Porta dos Fundos! O horóscopo diz que hoje é um dia de “sensações vagas, arrepios e pressentimentos.” Atualizamos o status no Facebook. Lamentamos a morte de Philip Seymour Hoffman, grande ator! Lemos as notícias. O Papa defende a virgindade. Não, não foi dessa vez que acertamos a Mega Sena. Almoçamos arroz, feijão, salada de batata e carne. Trabalhamos. Depois, #partiu academia. Mas não gostamos de BBB. Compramos pipoca para assistir “Até Que a Sorte Nos Separe 2.” Ficamos indignados com Woody Allen e, depois, fazemos as pazes com ele. Acho que agora não gostamos muito é da Mia Farrow. E esses torcedores do Corinthians? Imagina na copa?! William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional. Lemos um livro do Dalai Lama. Hoje tem balada! E dormimos no sofá com a TV ligada.

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Aceitei o convite. Sou agora um dos blogueiros do Brasil Post, uma associação do Huffington Post com a Editora Abril. No primeiro post que publico neste novo espaço, conto da minha trajetória até aqui. Nada que você, leitor do blog, já não conheça. Apenas julguei apropriado me apresentar por lá, a um novo público com novos leitores.

Brasil Post

No dia 18 de outubro de 2010, por volta das 9 horas da manhã, descobri que sou soropositivo. Faz, portanto, pouco mais de três anos que convivo conscientemente com o vírus da aids, o HIV.

O meu diagnóstico se deu acidentalmente, no primeiro check up de rotina que fiz em minha vida, aos 26 anos de idade. Sim, foi inesperado e foi um susto. A primeira coisa que pensei foi que iria morrer. Essa foi, aliás, uma das perguntas que logo fiz ao médico infectologista que visitei, um dia após do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, doutor?”

“— Não, hoje não morre mais.”

Depois de me examinar, procurando por nódulos na garganta, axilas e atrás dos joelhos, o doutor me explicou que eu faria alguns exames. Disse também que, de acordo com os resultados destes, eu começaria um tratamento que deveria aderir diariamente, até o fim de minha vida ou até que descubram a cura. Me garantiu que minha situação de saúde não era alarmante e que, apesar de considerada uma “doença grave” o HIV não é, já há algum tempo, considerado mais como uma “doença letal”.

Ele não perguntou detalhes sobre a origem da minha infecção. Aliás, nunca médico algum fez esta pergunta. Mas, embora isto seja irrelevante do ponto de vista médico, com o tempo compreendi que esta é uma questão que suscita, sim, bastante curiosidade do público leigo. Por alguma razão, uma das primeiras perguntas que um soronegativo ou um indivíduo de sorologia desconhecida isto é, aquele ou aquela que nunca fez o teste de HIV é exatamente esta: como você pegou HIV?

Ouvi essa pergunta de três mulheres com quem saí depois de receber o meu diagnóstico. Por opção minha, e contrariando a sugestão de meu infectologista, eu preferi contar sobre a minha condição sorológica antes de qualquer relação sexual com elas. Como consequência, percebi que acabei criando certa subversão do status quo dos relacionamentos atuais. Afinal, no mundo de hoje, onde o sexo não mais é consequência da intimidade mas parte do processo de criação desta, não é simples encontrar os meios de revelar algo que, no fundo, é nada mais que algo importante e pessoal.

Como contar sem criar medo e pânico? Qual o momento certo? Quem são as pessoas certas e dispostas a ouvir tal revelação? Estas são as perguntas que rondam a mente de todo o soropositivo e soropositiva que pretende contar antecipadamente sobre sua condição sorológica a qualquer parceiro. No pensar demais sobre elas, algumas mulheres sentiram-se enroladas e rejeitadas e distanciaram-se de mim, o parceiro lento em avançar para o sexo. Percebi, então, que esta não era uma equação tão simples. A única solução, ao que me parece, é ser claro e direto, fazendo transpassar em minha fala a mesma tranquilidade que passei a ter com o vírus: com os devidos cuidados, ele não é nada demais nem contra mim e nem contra com quem faço sexo.

Com isso, levantei os pontos mais importantes a serem incluídos nos mesmo discurso da assustadora revelação, que é afinal dizer “eu tenho HIV”. Assim, às três mulheres com quem saí desde que fiquei solteiro, adiantei que bastaria usarmos camisinha para que a relação fosse completamente segura. Questionado sobre os riscos e o que fazer caso a camisinha estourasse, expliquei que minha carga viral isto é, a quantidade de vírus circulante no sangue é indetectável há exatos dois anos e onze meses e que não tenho qualquer outra doença sexualmente transmissível.

Nessas condições, conforme esclarecido pelo estudo HPTN 052, que analisou diversos casais sorodiscordantes, o risco de transmissão do HIV sem o uso de preservativo é reduzido em 96%. Logo, incluindo-se nessa conta o uso do preservativo, que possui estimada eficácia de 99%, a chance de transmissão do vírus é, digamos, quase a mesma de ser atingido por um cometa. A partir deste importante estudo, aliás, conclui-se também que transar com um indivíduo de sorologia positiva para o HIV desde que este esteja em tratamento, com carga viral indetectável há mais de 6 meses e sem nenhuma outra DST é mais seguro do que transar com um indivíduo de sorologia desconhecida. A razão disso é muito simples e lógica. Um indivíduo de sorologia desconhecida é, potencialmente, um portador não-tratado de HIV ou outra DST. Sem tratamento, sua carga viral pode ser alta, especialmente em casos de infecção recente, o que é, sabidamente, o estado mais crítico e arriscado para a transmissão do vírus.

Feito este discurso, duas das três mulheres escolheram em prosseguir com o relacionamento. Uma delas, o fez apenas após confirmar as informações com um médico. A outra, talvez por não ter feito isso, sentiu-se amedrontada e, depois da relação sexual, repetiu três vezes o teste de HIV todos negativos.

Minha ex-namorada, com quem, sem saber que estava infectado pelo vírus, transei diversas vezes ao longo de três anos sem preservativo, também não foi contaminada pelo HIV. Um milagre, sem dúvida alguma. Mas eu sou daqueles que acredita que milagres também têm explicação científica: aprendi depois que, uma vez que minha carga viral era naturalmente baixa, as chances de transmissão também eram baixas. Além disso, por ser descendente direta de europeus nórdicos, é bastante possível que ela seja naturalmente imune ao vírus, graças à mutação CCR5 Delta 32, que não confere às células CD4 do sistema imunológico o principal conector que o vírus usa para estabelecer a infecção.

De tão eficaz, um transplante de medula óssea a partir de um doador com esta mesma mutação a um paciente soropositivo que sofria de leucemia lhe conferiu, até o que se afere até o momento, a condição de primeiro curado do HIV no mundo. Timothy Ray Brown, também conhecido com “o Paciente de Berlim”, não faz mais uso de medicamentos antirretrovirais e não apresenta mais traços de infecção pelo vírus. A cura de Timothy foi reconhecida pela comunidade científica como “cura esterilizante”, isto é, ela eliminou a presença do vírus de seu organismo.

Outros 16 pacientes no mundo também são considerados curados. Quatorze soropositivos que participaram do estudo francês intitulado Coorte VISCONTI, uma bebê do estado americano do Mississippi, cuja mãe não sabia ser soropositiva, e um indivíduo alemão de 67 anos de idade são considerados pacientes “em remissão” ou “curados funcionalmente”, isto é, possuem o vírus, mas em quantidade tão insignificante que este não consegue estabelecer uma infecção propriamente dita.

Esses casos são importantes porque, além de oferecer uma compreensão sobre os avanços no tratamento e na pesquisa da cura do HIV, fazem-nos lembrar da eficácia significativa da profilaxia. A bebê do Mississippi, por exemplo, foi tratada com antirretrovirais imediatamente após seu nascimento, mesmo antes que se identificasse seu status sorológico. Este procedimento é similar ao que, no Brasil, é oferecido pela rede pública a todos aqueles que passam por uma clara situação de risco chamado de profilaxia pós-exposição. Se administrada em até 72 horas da possível exposição ao vírus e mantida pelo paciente seguindo as corretas orientações médicas ao longo das semanas seguintes, ela pode prevenir completamente a infecção do HIV. Graças à grande eficácia dos antirretrovirais, também discute-se hoje o uso da profilaxia pré exposição, isto é, o uso destes medicamentos para situações de conhecida ou premeditada exposição ao risco, como, por exemplo, no caso de casais sorodiscordantes que querem ter filhos, mas não têm obtido sucesso ou não possuem recursos para a inseminação artificial ou, nos casos em que o parceiro soropositivo é o homem, a inseminação artificial com lavagem de sêmen.

Noutras palavras, a ciência e a medicina já oferecem condições plenamente seguras para que todos convivam bem o HIV. Temer o vírus é natural, mas não é preciso temer quem o porta. Enquanto soropositivos devem se tratar, todos devemos sempre nos prevenir. Por sua vez, aqueles que não sabem qual é exatamente sua condição sorológica devem procurar sabê-la, em prol de sua própria saúde e do controle da epidemia no mundo.

É preciso ter em mente que basta usar a camisinha para se proteger e que a falha, a qual bem sei que é tão humana, virá. Nessas condições, lembre-se da profilaxia e não exponha parceiros e parceiras ao risco até ter ciência de seu estado de saúde. No caso de um eventual diagnóstico positivo você certamente vai chorar e sentir medo, claro. Mas, com o tempo, garanto, perceberá que este vírus não muda tanta coisa em sua vida nada além da necessidade de cuidar da saúde, tomar as medicações todos os dias e fazer os exames de controle a cada três ou quatro meses. E, quando resolver contar a parceiros e parceiras sobre sua condição sorológica, ouvirá, assim como eu ouço “como você pegou HIV?” A resposta, pura e simples, é apenas: transei sem camisinha.

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Foi no dia 18 de outubro de 2010 que descobri que sou soropositivo, que tenho o vírus da aids, o HIV. Portanto, faz pouco mais de quatro meses.

Não sei porque começo este blog. Não sei se vou continuar com ele. Não sei se vou escrever com constância, inconstância ou se jamais escreverei novamente. Não sei se faço isso apenas para desabafar, para pedir ajuda e conselhos ou trocar informações com soropositivos e soropositivas mais experientes, para ouvir a mim mesmo ou para ajudar aos outros jovens soropositivos como eu. Essa ideia, de escrever um blog sobre esse assunto, o momento que estou vivendo, tem rodado a minha cabeça. E só o fato de ter chegado a estas linhas já me traz certo alívio. Então, pronto! Está lançado o blog.

Sem festa. Nesses quatro meses, ouvi de algumas pessoas sobre o lado positivo do meu diagnóstico soropositivo — sem trocadilhos. Segundo elas, haveria motivos para comemorar. Talvez haja. Meu diagnóstico veio antes de qualquer manifestação da aids. Minha carga viral era naturalmente tão baixa que em um mês de tratamento passou a ser “indetectável”, isto é, muito próxima de zero. No jargão que aprendi nesses tempos, eu já “zerei” meus exames.

No entanto, o início desse blog, nessa terça-feira de Carnaval, não vem motivado por estes pontos positivos. Como sou um novo soropositivo, tenho feito os exames de controle mês a mês. Desde o início do tratamento com os antirretrovirais, já foram dois controles. O primeiro controle teve resultados bons, conforme descrevi acima. Já no segundo controle, um resultado ruim. Tive hoje a informação que meu CD4 tem sua contagem mais baixa do que antes do início do tratamento.

Vou explicar. Em dezembro, logo após o diagnóstico, fiz uma série de exames com a finalidade de, nas palavras de meu infectologista, “fotografar” meu organismo antes do tratamento. Dentre eles, fiz também exames os quais devo me acostumar a fazer por toda a vida ou até que descubram a cura pra o HIV: a contagem de CD4 e CD8, carga viral ou PCR quantitativo para HIV e hemograma. À época, meu CD4 era de 255. Segundo o laboratório, para a minha idade, o ideal seria que os linfócitos T CD4, as células de proteção mais atingidas pelo HIV, tivessem uma contagem de, pelo menos, 650.

Posso estar enganado, mas lembro-me de ter ouvido de algum dos inúmeros médicos que tenho visitado — infectologista, psiquiatra, psicólogo, gastro-coloproctologista e dermatologista — de que o Ministério da Saúde tem uma determinação que diz que contagens de CD4 inferiores a 500 devem começar o tratamento imediatamente. Segundo meu “infecto” — infectologista, para os íntimos — uma contagem de 350 já alguma traz segurança. E sua expectativa, dado meus ótimos primeiros exames, era de que este mês minha contagem já fosse essa.

Mas não foi. Obtive um resultado de 215 linfócitos CD4 por mm³ de sangue. Não, ainda não tenho o conhecimento ou experiência para analisar esse resultado. Sei apenas é que a previsão médica era a de um resultado melhor.

Passei o mês de janeiro lendo muitas notícias e sites sobre HIV. Sem sair muito de casa, foi o máximo que fiz. E encontrei pouca coisa. Ou pouco que realmente interessasse. Nenhum livro. Ou quase: o único que me pareceu ser interessante continha a “oração para a cura interior” no final — nada contra, apenas não era o que estava procurando. Num futuro post, quem sabe, escrevo mais sobre o que encontrei neste mês de pesquisa.

Também passei o mês de janeiro sofrendo bastante com os efeitos colaterais dos remédios. “Melhor que morrer”, você pensa. Eu também penso. E acho que é só por isso que tomo as enormes pílulas todos os dias. Medo de morrer.

Essa foi, aliás, a primeira pergunta que fiz ao meu infecto, um dia depois do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, Dr.?”

“— Não, hoje não morre mais.”