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Hoje é primeiro Dia da Discriminação Zero. Essa nova data inaugurada pela Unaids vem de encontro com o objetivo da organização de zerar o número de novas infecções pelo HIV e de mortes em decorrência da aids. E isso só será possível sem discriminação.

Neste 1º de Março de 2014, você já pode contribuir com a campanha. É só dar um like na página Facebook.com/ZeroDiscrimination ou escolher uma das borboletas símbolo da campanha e usá-la na sua foto de perfil no Facebook. Você também pode entrar na conversa no Twitter, com a hashtag #zerodiscrimination. Faça alguma coisa! Sem transformação, a discriminação não vai acabar.

Brasil Post

Com um tratamento que funciona perfeitamente e uma vida que é plenamente normal, o preconceito e a discriminação acabam por ser a pior parte da vida de um soropositivo. No entanto, pela minha experiência desde o diagnóstico, posso dizer que hoje eles são pontuais. E vou tentar apontar exatamente aonde estão.

Muitos juntam discriminação e preconceito num mesmo grupo. Mas aqui eu vou separá-los, por entender que existe uma diferença sutil entre as duas definições. Segundo o dicionário, preconceito é um “conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados”. É o famoso “pré conceito”, termo autoexplicativo. É até ingênuo, pois presume que o agente teve pouca matéria-prima para emitir seu parecer mas, por alguma razão, emitiu assim mesmo. Por sua vez, discriminar é “tratar de modo preferencial, geralmente com prejuízo para uma das partes”. Em certo sentido, é mais grave, pois não é preciso falhar em ter os conhecimentos adequados. Na discriminação não há ingenuidade: é possível discriminar mesmo possuindo conhecimentos que sugiram o contrário.

As razões que levam alguém a discriminar me escapam. Entretanto, é o que acontece. E é situável geograficamente. Segundo o relatório da Unaids de outubro passado, 41 países ou territórios restringem o tempo de estadia, impedem a entrada ou deportam viajantes com HIV. Fazem parte deste grupo: Austrália, Cuba, Emirados Árabes Unidos, Egito, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Paraguai, República Dominicana, Rússia, Singapura, Síria, Taiwan e o território britânico das Ilhas Turks e Caicos, entre outros.

Isso quer dizer que todo portador do vírus, seja com o intuito de turismo ou trabalho, não pode simplesmente comprar uma passagem e arrumar as malas. Antes disso, deve verificar em sites como o HIV Restrictions ou no último mapa compilado pela Unaids (abaixo) se o seu destino é um país em que ele ou ela é bem-vindo, permitindo a sua entrada e permanência pelo tempo desejado.

A ONU classifica essas medidas segregatórias como uma violação às Diretrizes Internacionais sobre HIV/Aids e Direitos Humanos. Segundo a organização, “qualquer restrição à liberdade de movimento ou escolha de residência com base na suspeita ou real status de HIV, incluindo triagem de viajantes internacionais, é discriminatória. Nos países que envolvem testes obrigatórios e falta de confidencialidade, há também a violação dos direitos à liberdade e privacidade. Muitos migrantes não são informados que estão sendo testados para o HIV, não são informados dos resultados, se informados não são aconselhados e não são encaminhados a serviços médicos — um impacto devastador sobre a saúde e bem-estar”.

Sobre o preconceito, o primo ingênuo da discriminação, há relatos de casos graves, especialmente no começo da epidemia. Já ouvi histórias de casais soropositivos que se viram obrigados a mudar de cidade. Crianças portadoras do HIV tiveram de ser tiradas da escola. Indivíduos que vivem com HIV, ao revelarem sua condição, perderam o contato com amigos e parentes.

Entretanto, nada disso se passou comigo. Foi apenas em dois únicos e pontuais momentos que senti em minha própria pele o que poderia ser o preconceito. No primeiro, um médico dermatologista já com seus 70 anos de idade, a quem visitei a certa altura após o diagnóstico. Uma vermelhidão que irritava a minha pele foi imediatamente diagnosticada pelo doutor como decorrente do HIV, assim que contei ser soropositivo. “É do vírus”, disse ele, olhando de longe, sem me examinar ou tocar. O segundo caso foi com uma jovem estudante de 24 anos, com quem saí no ano passado. Quando contei a ela sobre o HIV sua reação inicial foi de pânico, que perdurou por uma longa semana. O final não foi tão feliz, com uma carta que deixou na portaria de meu prédio, recheada de palavras chorosas de despedida.

Por me enxergar como igual, um semelhante ao médico e à jovem, eu simplesmente não entendia por que a compreensão deles era tão diferente da minha. Afinal, não há HIV na superfície da pele — aliás, com a alta eficácia dos antirretrovirais, o vírus mal está no sangue! Além disso, com camisinha e os conhecimentos médicos que descrevi em meu primeiro post, eu sabia que poderia me relacionar amorosa e sexualmente com qualquer pessoa sem oferecer risco algum de transmissão do vírus.

Dito isso, num insight, eu compreendi o que se passava: ambos o médico e a jovem sentiam medo, que é aquele sentimento que habita nos lugares sombrios da nossa mente. Para resolvê-lo, era preciso trazer luz — e rápido, antes que este se tornasse maior. Era preciso esclarecer as coisas. Explicar e me fazer entender, com conhecimentos sólidos a respeito da realidade do HIV e mostrando a vida normal que um soropositivo tem hoje. E foi isso o que eu fiz.

Insisti com o dermatologista que ele estava errado, explicando que seu colega infectologista já havia descartado completamente a possibilidade da vermelhidão ter sido causada pelo vírus. Afinal, minha contagem de células CD4 do sistema imunológico e meu quadro clínico descartavam completamente a possibilidade de doenças oportunistas. Vencido pelos meus argumentos, o doutor finalmente decidiu me examinar e a pomada que terminou por me receitar, contra uma dermatite típica dos meses de verão, funcionou perfeitamente! A jovem, por sua vez, entrou em contato comigo alguns meses depois. Me contou que leu, aprendeu e confirmou o que eu havia dito a ela a respeito do estudo HPTN 052, o mesmo que citei em meu primeiro post, e sobre a abrangente margem de segurança oferecida pelo uso da camisinha. Com isso, ela estava disposta a me reencontrar. (Mas não continuamos o relacionamento por motivos que devo contar num outro momento.)

Com a conclusão dessas histórias, ficou evidente para mim que existe remédio para o preconceito. E esse remédio é a informação. Do mesmo modo, para a discriminação também há tratamento. Em 2012, 40 CEOs, presidentes, executivos e diretores de empresas se uniram na defesa dos portadores de HIV em nossa luta contra as restrições segregatórias de viagem. Nessa lista, diga-se de passagem, figuram representantes de empresas que são verdadeiros pesos pesados, como: Coca-Cola, Gap, Getty Images, Heineken, Johnson & Johnson, Levi Strauss & Co., National Basketball Association (NBA), Pfizer, Thomson Reuters, Y&R e MTV International, entre outros. É tarde demais para ser pessimista.

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Outro dia, enquanto andava de metrô, escutei um casal conversando. Um deles dizia:

“– Hoje os jovens não usam mais camisinha porque ouvem dizer por aí que para o tratar o HIV basta tomar uns remedinhos.”

Vamos por partes. Antes, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais. Isso mostra que os medicamentos para disfunção erétil devem estar funcionando! Mas será que sugere que o medo do HIV realmente sumiu? Eu acho que não.

Acho que o medo continua, e ele não é (mais) capaz de conscientizar sobre o uso do preservativo. Nos dias de hoje, assustar não adianta. É preciso informar. Falar a real. E muito claramente.

Digo isso porque quando eu não usei camisinha, não fiz isso consciente de como era a vida de um soropositivo. Então, eu não sabia se bastaria tomar uns remedinhos ou não. Sequer sabia que havia remédios para o HIV, quais são e o que eles fazem. As aulas de educação sexual que tive na escola nunca me explicaram isso, mas apenas se detinham sobre o uso da camisinha. Então, a verdade é que eu simplesmente não pensava no vírus e nem nas suas implicações. Só fui fazer isso depois do diagnóstico.

Então, quase sem conhecimento algum, quando li “HIV positivo” no resultado do meu teste eu tive um choque. Morri de medo do HIV — ou, melhor dizendo, morri de medo dele me matar! Mas aprendi que não precisa ser assim. Com o passar do tempo, fui percebendo que eu tinha muitos mitos e preconceitos sobre o que era o HIV, a aids, o tratamento, o diagnóstico e até mesmo a prevenção. Concluí que era interessante aprender sobre tudo isso para compreender sobre a minha condição e, também, para explicar às pessoas a minha volta. E é isso o que faço aqui.

Na minha experiência como soropositivo entendi que o HIV, em todos os seus aspectos, está muito ligado à duas constantes: o cuidado e o tempo. O medo do HIV diminui, se é que não some por completo, quando entendemos que os problemas surgem se essas duas constantes não forem respeitadas. Aliás, elas estão presentes em todas as etapas relacionadas ao vírus: prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na prevenção, como sabemos, o principal cuidado é a camisinha. O uso dela torna o sexo seguro. No entanto, em situações excepcionais em que ocorrer falha, rompimento ou não uso da camisinha durante a penetração, a profilaxia pós-exposição pode ser indicada, depois de uma avaliação médica. A profilaxia só funciona se iniciada em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantida corretamente e seguindo as instruções médicas ao longo de todos os dias das semanas seguintes, mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais desagradáveis que podem surgir. Se não houver indicação médica para a profilaxia ou se o prazo de 72 horas for perdido, o jeito é seguir para o diagnóstico.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. A razão disso é bem simples: quanto mais tempo o organismo ficar exposto ao vírus, sem cuidado, pior. Afinal, se a habilidade do HIV é danificar o sistema imune, quanto mais tempo ele tiver livre para isso, maior será o dano causado. Em números: aproximadamente 25% das pessoas que demoram a se diagnosticar podem vir a não recuperar totalmente o seu sistema imune, grupo que pode ter complicações a longo prazo e do qual talvez eu faça parte, enquanto mais de 10% das pessoas diagnosticas tão tardiamente que já apresentam aids não sobrevivem nas semanas seguintes. Portanto, o melhor é fazer o teste logo!

Mas o diagnóstico também depende do tempo. Somente quando terminar o período da “janela imunológica”, que nada mais é que o tempo que o seu organismo leva para produzir anticorpos contra o vírus, é que o resultado do teste é preciso. Nem um dia antes. As informações disponíveis sobre o período da janela imunológica, no entanto, são um pouco contraditórias, variando entre 30 e 60 dias. Meu médico, o Dr. Esper Kallás, um dos mais respeitados infectologistas do País, é da opinião que os testes de hoje apresentam resultados plenamente confiáveis com 30 dias da suposta exposição ao vírus.

Se o resultado do teste vier “positivo” ou “reagente”, o cuidado passa a ser feito todos os dias. E é aqui que entram os tais “remedinhos.” Eles são chamados de antirretrovirais. Têm a habilidade de inibir os processos que o vírus usa para entrar nas células CD4 do sistema imunológico que estão no sangue. Como o vírus é esperto e usa vários processos, o tratamento consiste numa combinação de antirretrovirais, e é por isso que é apelidado de “coquetel.”

No meu caso, o coquetel que tomo consiste em três antirretrovirais cujos comprimidos não são tão grandes e podem ser tomados todos juntos, de uma única vez e antes de dormir. Entretanto, existem mais de vinte antirretrovirais diferentes que formam diferentes combinações de coquetel. Algumas combinações incluem um maior número de comprimidos, outras não. Alguns comprimidos são maiores que outros. E alguns coquetéis devem ser administrados em maior frequência por dia que outros. É comum que, no começo do tratamento, surjam efeitos colaterais desagradáveis. Em geral, náusea, vômitos e diarreia. Mas é verdade também que estes costumam passar completamente com o tempo.

Como qualquer condição de saúde, mesmo sob tratamento o HIV ainda pode trazer algumas complicações para quem o porta. Com o tempo, o vírus pode desenvolver resistência aos antirretrovirais. Se isso acontece, troca-se de coquetel. Ainda assim, a resistência é algo que costuma surgir no longo prazo ou em pessoas que violam o cuidado necessário, não tomando o coquetel corretamente todos os dias. Embora cada vez mais raras, complicações pelo uso prologando dos antirretrovirais também podem surgir.

Por isso, para prevenir e manter a certeza de que está tudo indo bem é que fazemos exames regulares, a cada três ou quatro meses. Além dos exames comuns de um check up, fazemos dois outros exames a mais: um deles que avalia como anda o sistema imune e outro que conta o número de vírus que se encontra no sangue. Entretanto, os antirretrovirais de hoje são tão eficientes que na maioria dos casos essa contagem não pode ser feita porque nenhum vírus é encontrado. E o resultado do exame vem “indetectável.” Sempre que um tratamento de HIV é bem sucedido, é isso o que acontece. E a grande maioria dos tratamentos hoje é sim bem sucedida, como é o caso de 76% dos soropositivos que tomam antirretrovirais no Brasil. Eu mesmo, por exemplo, sou indetectável desde o primeiro mês de tratamento, há três anos, e desde então permaneço assim.

Sob tratamento, sem o vírus detectável no sangue ao longo de mais de seis meses e sem a presença de outras DSTs, a transmissibilidade do HIV é reduzida em 96%. Com camisinha, tudo se torna tão seguro que um soropositivo pode namorar com um soronegativo ou outro soropositivo, seja homem, mulher, travesti, transexual ou transgênero, sem que os parceiros tenham que ter qualquer medo do vírus.

Portanto, na prática, o que muda na vida de um soropositivo é a necessidade de fazer os exames rotineiramente e de tomar os remédios todos os dias. Fazendo as contas, se cada visita tri ou quadrimestral ao laboratório de exames leva mais ou menos duas horas e ao infectologista outras duas, e se considerarmos que o tempo de tomar os remédios é de 10 segundos por dia — duração mais que justa para se pegar um copo d’água e engolir os comprimidos — então, o HIV consome no máximo apenas 10 horas da vida de um soropositivo por ano.

Nas outras 8.750 horas deste mesmo ano, nossa vida não é nada diferente da sua. Tomamos café. Pegamos trânsito ouvindo Mílton Jung no Jornal da CBN. Será que o Pizzolato vai ser extraditado? Reclamamos do calor. É segunda feira? Tem vídeo novo do Porta dos Fundos! O horóscopo diz que hoje é um dia de “sensações vagas, arrepios e pressentimentos.” Atualizamos o status no Facebook. Lamentamos a morte de Philip Seymour Hoffman, grande ator! Lemos as notícias. O Papa defende a virgindade. Não, não foi dessa vez que acertamos a Mega Sena. Almoçamos arroz, feijão, salada de batata e carne. Trabalhamos. Depois, #partiu academia. Mas não gostamos de BBB. Compramos pipoca para assistir “Até Que a Sorte Nos Separe 2.” Ficamos indignados com Woody Allen e, depois, fazemos as pazes com ele. Acho que agora não gostamos muito é da Mia Farrow. E esses torcedores do Corinthians? Imagina na copa?! William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional. Lemos um livro do Dalai Lama. Hoje tem balada! E dormimos no sofá com a TV ligada.

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Aceitei o convite. Sou agora um dos blogueiros do Brasil Post, uma associação do Huffington Post com a Editora Abril. No primeiro post que publico neste novo espaço, conto da minha trajetória até aqui. Nada que você, leitor do blog, já não conheça. Apenas julguei apropriado me apresentar por lá, a um novo público com novos leitores.

Brasil Post

No dia 18 de outubro de 2010, por volta das 9 horas da manhã, descobri que sou soropositivo. Faz, portanto, pouco mais de três anos que convivo conscientemente com o vírus da aids, o HIV.

O meu diagnóstico se deu acidentalmente, no primeiro check up de rotina que fiz em minha vida, aos 26 anos de idade. Sim, foi inesperado e foi um susto. A primeira coisa que pensei foi que iria morrer. Essa foi, aliás, uma das perguntas que logo fiz ao médico infectologista que visitei, um dia após do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, doutor?”

“— Não, hoje não morre mais.”

Depois de me examinar, procurando por nódulos na garganta, axilas e atrás dos joelhos, o doutor me explicou que eu faria alguns exames. Disse também que, de acordo com os resultados destes, eu começaria um tratamento que deveria aderir diariamente, até o fim de minha vida ou até que descubram a cura. Me garantiu que minha situação de saúde não era alarmante e que, apesar de considerada uma “doença grave” o HIV não é, já há algum tempo, considerado mais como uma “doença letal”.

Ele não perguntou detalhes sobre a origem da minha infecção. Aliás, nunca médico algum fez esta pergunta. Mas, embora isto seja irrelevante do ponto de vista médico, com o tempo compreendi que esta é uma questão que suscita, sim, bastante curiosidade do público leigo. Por alguma razão, uma das primeiras perguntas que um soronegativo ou um indivíduo de sorologia desconhecida isto é, aquele ou aquela que nunca fez o teste de HIV é exatamente esta: como você pegou HIV?

Ouvi essa pergunta de três mulheres com quem saí depois de receber o meu diagnóstico. Por opção minha, e contrariando a sugestão de meu infectologista, eu preferi contar sobre a minha condição sorológica antes de qualquer relação sexual com elas. Como consequência, percebi que acabei criando certa subversão do status quo dos relacionamentos atuais. Afinal, no mundo de hoje, onde o sexo não mais é consequência da intimidade mas parte do processo de criação desta, não é simples encontrar os meios de revelar algo que, no fundo, é nada mais que algo importante e pessoal.

Como contar sem criar medo e pânico? Qual o momento certo? Quem são as pessoas certas e dispostas a ouvir tal revelação? Estas são as perguntas que rondam a mente de todo o soropositivo e soropositiva que pretende contar antecipadamente sobre sua condição sorológica a qualquer parceiro. No pensar demais sobre elas, algumas mulheres sentiram-se enroladas e rejeitadas e distanciaram-se de mim, o parceiro lento em avançar para o sexo. Percebi, então, que esta não era uma equação tão simples. A única solução, ao que me parece, é ser claro e direto, fazendo transpassar em minha fala a mesma tranquilidade que passei a ter com o vírus: com os devidos cuidados, ele não é nada demais nem contra mim e nem contra com quem faço sexo.

Com isso, levantei os pontos mais importantes a serem incluídos nos mesmo discurso da assustadora revelação, que é afinal dizer “eu tenho HIV”. Assim, às três mulheres com quem saí desde que fiquei solteiro, adiantei que bastaria usarmos camisinha para que a relação fosse completamente segura. Questionado sobre os riscos e o que fazer caso a camisinha estourasse, expliquei que minha carga viral isto é, a quantidade de vírus circulante no sangue é indetectável há exatos dois anos e onze meses e que não tenho qualquer outra doença sexualmente transmissível.

Nessas condições, conforme esclarecido pelo estudo HPTN 052, que analisou diversos casais sorodiscordantes, o risco de transmissão do HIV sem o uso de preservativo é reduzido em 96%. Logo, incluindo-se nessa conta o uso do preservativo, que possui estimada eficácia de 99%, a chance de transmissão do vírus é, digamos, quase a mesma de ser atingido por um cometa. A partir deste importante estudo, aliás, conclui-se também que transar com um indivíduo de sorologia positiva para o HIV desde que este esteja em tratamento, com carga viral indetectável há mais de 6 meses e sem nenhuma outra DST é mais seguro do que transar com um indivíduo de sorologia desconhecida. A razão disso é muito simples e lógica. Um indivíduo de sorologia desconhecida é, potencialmente, um portador não-tratado de HIV ou outra DST. Sem tratamento, sua carga viral pode ser alta, especialmente em casos de infecção recente, o que é, sabidamente, o estado mais crítico e arriscado para a transmissão do vírus.

Feito este discurso, duas das três mulheres escolheram em prosseguir com o relacionamento. Uma delas, o fez apenas após confirmar as informações com um médico. A outra, talvez por não ter feito isso, sentiu-se amedrontada e, depois da relação sexual, repetiu três vezes o teste de HIV todos negativos.

Minha ex-namorada, com quem, sem saber que estava infectado pelo vírus, transei diversas vezes ao longo de três anos sem preservativo, também não foi contaminada pelo HIV. Um milagre, sem dúvida alguma. Mas eu sou daqueles que acredita que milagres também têm explicação científica: aprendi depois que, uma vez que minha carga viral era naturalmente baixa, as chances de transmissão também eram baixas. Além disso, por ser descendente direta de europeus nórdicos, é bastante possível que ela seja naturalmente imune ao vírus, graças à mutação CCR5 Delta 32, que não confere às células CD4 do sistema imunológico o principal conector que o vírus usa para estabelecer a infecção.

De tão eficaz, um transplante de medula óssea a partir de um doador com esta mesma mutação a um paciente soropositivo que sofria de leucemia lhe conferiu, até o que se afere até o momento, a condição de primeiro curado do HIV no mundo. Timothy Ray Brown, também conhecido com “o Paciente de Berlim”, não faz mais uso de medicamentos antirretrovirais e não apresenta mais traços de infecção pelo vírus. A cura de Timothy foi reconhecida pela comunidade científica como “cura esterilizante”, isto é, ela eliminou a presença do vírus de seu organismo.

Outros 16 pacientes no mundo também são considerados curados. Quatorze soropositivos que participaram do estudo francês intitulado Coorte VISCONTI, uma bebê do estado americano do Mississippi, cuja mãe não sabia ser soropositiva, e um indivíduo alemão de 67 anos de idade são considerados pacientes “em remissão” ou “curados funcionalmente”, isto é, possuem o vírus, mas em quantidade tão insignificante que este não consegue estabelecer uma infecção propriamente dita.

Esses casos são importantes porque, além de oferecer uma compreensão sobre os avanços no tratamento e na pesquisa da cura do HIV, fazem-nos lembrar da eficácia significativa da profilaxia. A bebê do Mississippi, por exemplo, foi tratada com antirretrovirais imediatamente após seu nascimento, mesmo antes que se identificasse seu status sorológico. Este procedimento é similar ao que, no Brasil, é oferecido pela rede pública a todos aqueles que passam por uma clara situação de risco chamado de profilaxia pós-exposição. Se administrada em até 72 horas da possível exposição ao vírus e mantida pelo paciente seguindo as corretas orientações médicas ao longo das semanas seguintes, ela pode prevenir completamente a infecção do HIV. Graças à grande eficácia dos antirretrovirais, também discute-se hoje o uso da profilaxia pré exposição, isto é, o uso destes medicamentos para situações de conhecida ou premeditada exposição ao risco, como, por exemplo, no caso de casais sorodiscordantes que querem ter filhos, mas não têm obtido sucesso ou não possuem recursos para a inseminação artificial ou, nos casos em que o parceiro soropositivo é o homem, a inseminação artificial com lavagem de sêmen.

Noutras palavras, a ciência e a medicina já oferecem condições plenamente seguras para que todos convivam bem o HIV. Temer o vírus é natural, mas não é preciso temer quem o porta. Enquanto soropositivos devem se tratar, todos devemos sempre nos prevenir. Por sua vez, aqueles que não sabem qual é exatamente sua condição sorológica devem procurar sabê-la, em prol de sua própria saúde e do controle da epidemia no mundo.

É preciso ter em mente que basta usar a camisinha para se proteger e que a falha, a qual bem sei que é tão humana, virá. Nessas condições, lembre-se da profilaxia e não exponha parceiros e parceiras ao risco até ter ciência de seu estado de saúde. No caso de um eventual diagnóstico positivo você certamente vai chorar e sentir medo, claro. Mas, com o tempo, garanto, perceberá que este vírus não muda tanta coisa em sua vida nada além da necessidade de cuidar da saúde, tomar as medicações todos os dias e fazer os exames de controle a cada três ou quatro meses. E, quando resolver contar a parceiros e parceiras sobre sua condição sorológica, ouvirá, assim como eu ouço “como você pegou HIV?” A resposta, pura e simples, é apenas: transei sem camisinha.

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Em minha última visita ao Dr. Esper Kallás, como sempre, acabamos falando muito mais coisas além de meus exames. Antes de falar sobre o meu CD4, discutimos os avanços na pesquisa da cura e esclarecemos tudo o que você precisa saber a respeito dos testes de diagnóstico e a janela imunológica.

Eu acabara de tomar um delicioso café na Avenida Paulista, quando segui em direção ao consultório do doutor. Atravessei o saguão do prédio e entrei no elevador. Estava dez minutos adiantado. Na sala de espera, me dirigi ao balcão da secretária e logo me deparei com o Dr. Esper, que estava em pé diante da porta de sua sala.

“— Entre logo, Jovem!”, acenou o doutor.

“— Dessa vez parece até que faz mais de três meses”, disse eu. “Preciso confessar que senti sua falta, doutor!”

“— É bom te ver, Jovem!”

Em seguida, Dra. V. entrou na sala, trazendo uma lata de Coca-Cola e três copos.

“— Servido?”, ofereceu a doutora, enquanto se sentava conosco.

“— Sim, obrigado.”

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Parte I, a pesquisa da cura

“— E então, o que achou da Superinteressante de Agosto?”, perguntou o doutor, apontado para a capa da revista.

“— Nem li”, respondi. “Ando um pouco desinteressado pelas notícias, doutor.”

“— Ah! Faz bem! Na matéria, sabe qual medicamento eles sugerem que será o medicamento da cura?”

“— Qual?”

“— O Vorinostat!”

“— E ele não é promissor?”, perguntei, surpreso.

“— Na melhor das hipóteses, ele é prova de conceito, Jovem”, explicou a Dra. V. “Isso quer dizer que vai servir para fomentar o desenvolvimento de algum outro medicamento. Mas o Vorinostat certamente não será o remédio da cura.”

“— E por que não?”

“— Porque a taxa de transcrição que ele oferece, de sete vezes, é muito baixa em virologia. Se fosse em bactérias seria suficiente, mas não é o caso”, prosseguiu a doutora.

“— A transcrição é o processo que faz expressar o vírus latente?”

“— Exatamente. É o que faz o vírus escondido nos reservatórios sair. E essa taxa precisa ser muito mais alta que isso para ser significativa em virologia. Portanto, o que os estudos que utilizaram o Vorinostat mostraram é que é possível fazer expressar o vírus latente. Mas precisamos de algo mais potente”, completou o doutor.

“— O Panobinostat?”

“— Também não. A taxa de transcrição deste é apenas um pouco mais elevada que a do Vorinostat”, respondeu ele.

“— Então qual?”

“— Eu apostaria no brasileiro que está sendo testado em macacos“, disse o doutor.

“— Então, na melhor das hipóteses, ainda temos algo como 20 anos pela frente?”

“— Não, Jovem! Se tudo der certo, em 10 anos temos um medicamento que pode, quem sabe, fazer expressar grande parte do vírus latente.”

“— Que maravilha, doutor!”

“— Mas, claro, temos que aguardar os resultados de todos os estudos. E o que os seus leitores acharam da matéria da Superinteressante?”

“— A grande maioria não ficou entusiasmada com a matéria, não. Agora, com o blog colaborativo, eles estão ainda mais antenados nos estudos e já previam que aquela manchete era exagero para vender a revista”, respondi.

“— Eles acompanham os estudos de perto, né?”

“— Bastante! Um leitor, inclusive, foi assistir à palestra do Dr. Michael Lederman.”

“— Ah, sim! Mostrei o seu blog e o comentário daquele leitor para ele. Ficou contente por um lado e decepcionado por não ter uma palestra que possa ser compreendida por todos. Disse que cometemos a falha de não nos comunicarmos bem com a sociedade, algo que seu blog cumpre bem.”

“— Mas ainda há algumas coisas a serem esclarecidas doutor”, prossegui. “Precisamos de algo claro e definitivo a respeito de janela imunológica. Pois isso deixa os pacientes em diagnóstico loucos!”

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Parte II, testes e janela imunológica

“— A própria informação sobre janela imunológica apresentada no site do Ministério da Saúde está desatualizada e, portanto, errada. Já disse isso para eles e em breve deve ser corrigido. A janela imunológica não é de 120 dias. Com 30 dias, a contar da relação desprotegida, a janela imunológica vale para todos os testes de HIV”, disse o doutor.

“— O que é que varia entre os testes, então? E por que há tantos testes diagnósticos? Qual a diferença entre Teste Rápido, ELISA, Western blot e PCR? E por que existem dois PCRs: quantitativo e qualitativo?”

“— Cada um desses testes examina coisas diferentes:

Teste Rápido e ELISA (ou Sorologia para HIV) são testes de detecção anticorpos. Portanto, uma vez que examinam anticorpos, o organismo do paciente precisa já ter reagido à presença do HIV para que o teste dê positivo. A média desse tempo de reação é de 22 dias, e, quando isso acontece, dá-se o que chamamos de soroconversão. Hoje em dia, o ELISA disponível no Brasil é apenas o de 4ª geração. Portanto, os pacientes não precisam se preocupar com isso: se fizeram o teste ELISA no Brasil, ele é de 4ª geração.

Antígeno P24 é um teste que, no Brasil, sempre acompanha o teste ELISA, mesmo que o pedido médico não especifique isso. Como o próprio nome já diz, o P24 não examina anticorpos, mas o antígeno, que é um pedacinho do vírus. Assim, para que o P24 dê positivo, basta que este pedaço do vírus seja encontrado.

Western blot também é um exame de anticorpos. Ele é considerado um teste confirmatório do diagnóstico porque é mais preciso que o ELISA. Enquanto o Teste Rápido e o ELISA examinam o anticorpo contra o HIV como um todo, o Western blot consegue enxergar anticorpos específicos contra cada proteína que compõe o vírus.

PCR Quantitativo, por sua vez, é a mesma coisa que Carga Viral. Ele mede a quantidade de vírus no sangue, através da presença do seu RNA.

PCR Qualitativo também examina o RNA do HIV, mas, em virtude de sua metodologia, ele não é capaz de quantificar o vírus. Ao invés disso, ele apenas dá um resultado ‘positivo’ ou ‘negativo’ para a presença de RNA do HIV. Antigamente, o Qualitativo era mais preciso que Quantitativo, pois conseguia examinar até 25 cópias de vírus. Hoje, ambos costumam ter a mesma precisão, o que fez com que o PCR Qualitativo não fizesse mais tanto sentido e acabasse caindo em desuso.”

“— Se o Teste Rápido e o ELISA examinam anticorpos, por que não se usa apenas o Teste Rápido?”

“— Porque o ELISA é mais sensível e preciso e o Teste Rápido é oferecido apenas pela rede pública, nos CTAs, onde os profissionais são treinados para amparar o paciente de um eventual diagnóstico positivo. O Teste Rápido é usado porque muitos dos pacientes que faziam o ELISA nunca vinham buscar seu resultado. Com um resultado imediato esse cenário mudou, o que é um grande avanço em epidemiologia. De fato, é mais difícil que uma pessoa se disponha a passar pelo período de angústia que o tempo de espera pelo resultado do ELISA pode representar, quando um teste parecido pode dar essa resposta em minutos.”

“— E a janela imunológica é igual para todos os testes de diagnóstico?”, perguntei.

“— Deixe-me abrir um PDF que contém um gráfico que vai responder bem a esta pergunta”, respondeu o doutor, abrindo o documento na tela de seu computador.

Testes e Janela Imunológica

“— Veja”, prosseguiu ele. “O PCR é sensível à presença do vírus a partir de 10 dias da relação desprotegida; o Antígeno P24, a partir de 15 dias; o ELISA e o Teste Rápido são sensíveis à infecção a partir de 20 dias; e o Western blot, entre 25 a 28 dias. Com 30 dias da relação desprotegida, portanto, todos estes testes são sensíveis a um eventual diagnóstico positivo.”

“— Então por que o PCR não é sugerido logo?”

“— Porque, uma vez que o PCR detecta o RNA viral a partir de 25 ou 50 cópias, ele é dependente da quantidade de vírus no organismo e, por isso, pode não detectar casos em que o paciente é um controlador de elite.

Portanto, por mais sensível que um teste seja, não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito imediatamente após a relação desprotegida, porque a quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.”

“— A janela de 30 dias é a definitiva, então?”

“— Sim. Ela só é maior se o paciente fez profilaxia. Nesse caso, naturalmente, a referência não é mais a relação desprotegida: contam-se 30 dias a partir do término da profilaxia.”

“— E casos de falsos positivo e negativo? Existem? São comuns ou raros?”

“— São raros. Eles representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Parte III, o meu CD4

Nossa conversa foi interrompida por gritos que atravessavam o vidro da janela fechada.

“— Esses manifestantes!”, reclamou o doutor. “Fui às passeatas e estou de acordo com várias das revindicações, mas protestar em frente a um hospital é demais! Isso não se faz!”

Da janela de seu consultório, víamos a polícia, a imprensa e os manifestantes bloqueando a entrada do Hospital Sírio Libanês.

“— Vou fechar a cortina para que você não apareça nos jornais”, brincou o doutor, antes de medir minha pressão arterial e auscultar meu coração. “12 por oito. Tudo em ordem, Jovem! E os exames?”, perguntou, enquanto eu vestia a camisa e voltávamos para a mesa.

“— Fiz no mesmo laboratório, doutor.”

O Dr. Esper logo abriu os resultados na tela de seu computador.

“— Carga viral indetectável, colesterol bom, triglicérides ótimo, vitamina D melhorou…”

“— Troquei a suplementação. Estou tomando DePura.”

“— Então continue! Está tudo ótimo…”, prosseguiu ele, descendo até o resultado dos linfócitos. “A única coisinha é a sua contagem de CD4, em 330”, disse o doutor, batendo com a caneta sobre a tela do computador. “Mas, não é nada alarmante.”

“— Sim, já estou me acostumando com isso. Minha única dúvida quanto a esse assunto é bem objetiva: em outubro do ano passado, quando atingi o recorde de maior contagem de CD4 desde o diagnóstico, com 436 células, você me disse que era muito bom, pois isso me livrava da possibilidade de ser um não-respondedor imunológico, certo?”

“— Certo. E você agora nota que aquele resultado, de 436, parece ser um resultado de exceção, é isso?”, completou o doutor, olhando para mim.

“— Sim, é isso. Se aquele é um resultado de exceção, eu sou então um não-respondedor?”, perguntei.

“— Jovem, a sua contagem é de fato mais baixa, mas, note que isso também se passa com a sua contagem total de linfócitos, e não só de CD4. Enquanto isso, a sua porcentagem de CD4 é boa, em 29%”, disse o doutor.

“— E a relação CD4/CD8, estável em torno de 0,7, também é boa”, completou a Dra. V. “Acima de 0,5 já consideramos saudável.”

“— Muito bem! Então, nos vemos só daqui a três meses?”, disse eu, me despedindo dos dois.

“— Ou volte antes, e tomamos um café!”, respondeu o doutor, me cumprimentando já na porta de sua sala, diante do consultório todo vazio e já com algumas luzes apagadas.

“— Quero participar. Me avise, doutor!”, disse Dra. V. ao Dr. Esper, enquanto me acompanhava até a porta.

“— Então, nos vemos em breve!”, disse aos doutores.

Utilidade pública. Este não é um post sobre mim, é sobre você. Sim, você mesmo(a), que tanto me pergunta se sexo oral deve ou pode ser feito com ou sem preservativo, receptiva ou ativamente, em um(a) soropositivo(a). Para começar, vou traduzir o texto que a Dra. Debby Herbenick escreveu para um popular site norte-americano. Ela é médica, autora de cinco livros sobre amor e sexo e parece ser uma especialista no assunto.

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DSTs podem ser transmitidas por sexo oral?

Dra. Debby Herbenick

Sim. Quase tudo o que se pode transmitir através de penetração também pode ser transmitido por sexo oral. Herpes? Sim. Clamídia e gonorreia? Sim. (Ambas são infecções causadas por bactérias e podem ser tratadas com antibióticos, mas há cada vez mais casos de gonorreia resistente à antibióticos, e você não quer uma infecção como estas.) O HIV também pode ser transmitido por sexo oral. No entanto, esta é uma forma de baixo risco de transmissão de HIV (a transmissão é muito mais fácil e comum através de sexo anal e vaginal). Sífilis também pode ser transmitida por sexo oral. O HPV está relacionado com alguns cânceres no cérebro e no pescoço, e sua transmissão por via oral é um tema de crescente discussão científica, sobre o qual aguardamos mais estudos e pesquisas.

Dito isso, nem todos usam camisinha ou preservativo para sexo oral durante o sexo oral. Se a transmissão de DST por sexo oral preocupa você, considere o uso de camisinha e preservativos apropriados ou, pelo menos, faça o deste de DSTs a cada novo(a) parceiro(a) ou a cada rompimento de relacionamento, para que você possa entrar numa próxima relação ciente do seu status sorológico para as diversas doenças.

O mesmo se aplica ao anilingus. Se seu parceiro ou sua parceira tem alguma doença sexualmente transmissível (DST), como gonorreia, clamídia, herpes ou HIV, você pode contrair esta DST depois de fazer anilingus (que é o estímulo oral da região anal) nele ou nela. Se a pessoa que faz o anilingus tiver herpes (herpes oral) então ele ou ela pode transmiti-lo para aquele(a) cujo ânus está sendo estimulado. Hepatite A e B também pode ser transmitida por anilingus. Felizmente, qualquer um pode fazer exames de DST e de hepatites. Qualquer um também pode ser vacinado contra hepatites — algo a se conversar com seu médico, se você planeja visitar o ânus de alguém num futuro próximo.

Por fim, há outras coisas além de DSTs — como parasitas — que podem transmitidas pelo anilingus. Ainda assim, em grande parte, o anilingus é bastante seguro não costuma apresentar incidentes, além de ser fonte de divertimento e prazer.

Como tornar o anilingus ainda mais seguro? Preservativos para sexo oral ou camisinhas cortadas ao meio, longitudinalmente, podem servir de barreira entre a boca e o ânus. Acrescente lubrificante à base de água na parte do preservativo ou da camisinha que estiver em contato com o ânus, para deixar tudo mais escorregadio e prazeroso.

A Dra. Debby Herbenick é autora de Sex Made Easy e Great In Bed, é co-diretora do Center for Sexual Health Promotion in the School of Public Health-Bloomington da Indiana University (IU) onde trabalha como pesquisadora. Ela também é educadora sexual na The Kinsey Institute for Research in Sex, Gender and Reproduction, onde escreve e grava um podcast da coluna Kinsey Confidential e coordena o programa educacional. Ela é PhD em Comportamento de Saúde, coordenando um mestrado em Educação em Saúde Pública na IU e um bacharelado em psicologia na University of Maryland, College Park. Além disso, é educadora sexual certificada pela American Association of Sex Educators, Counselors and Therapists.

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Se você prefere a opinião de especialistas brasileiros, já adianto que a recomendação é quase sempre a mesma: use camisinha mesmo no sexo oral. Já no que diz respeito aos riscos, a resposta é geralmente evasiva. Meu primeiro infectologista, o Dr. O., recomendou o uso de camisinha no sexo oral, porque, segundo ele, haveria “comprovados casos de transmissão de HIV entre lésbicas”. Na hora, acabei não levantando a questão sobre o uso de vibradores e acessórios.

O Dr. E., meu atual infectologista, é menos veemente. Segundo ele, o risco de transmissão por sexo oral é teoricamente possível e, como médico, ele deve sempre sugerir o uso de proteção. No entanto, também disse que não há caso comprovado na literatura médica de transmissão de HIV por sexo oral. O que há, segundo ele, são diversos pacientes que afirmam ser esta a única possível origem de suas infecções. No entanto, em geral, quando estes casos são analisados mais a fundo encontram-se outras formas mais prováveis de rota de infecção, como o mau uso ou o rompimento da camisinha durante o sexo anal.

Para avaliar se o preservativo foi rompido ou não, recorro à sugestão de minha mãe. Quando eu ainda era um adolescente e ganhava de meus pais minha primeira camisinha — sim, aquela mesma que eu deveria sempre ter usado — ouvi dela um eficiente conselho:

Depois de ejacular, vá ao banheiro e retire a camisinha com cuidado. Em seguida, na pia, encha-a de água, enrole a base e aperte-a, como um balão. Se vazar ou espirrar água por algum ponto, você já sabe se houve alguma fissura na borracha ou não.

Dr. Jairo Bouer faz menos rodeios. Em seu blog, ele já respondeu à várias perguntas sobre esse tema. E em todas as respostas ele sempre recomenda o uso de camisinha. Por outro lado, ele também ressalva que o risco de um homem que recebe o sexo oral contrair HIV ou outra DST de quem nele pratica o sexo oral é muito baixo. Já o contrário, segundo ele, não é verdadeiro: uma pessoa, homem ou mulher, que fizer sexo oral em outra mulher deve sempre usar proteção ao fazê-lo, pois o risco ali seria um pouco maior. Assim como a Dra. Debby, o Dr. Jairo também sugere que a camisinha seja cortada longitudinalmente quando for usada para sexo oral em mulheres. E, em qualquer caso de sexo oral, ele recomenda camisinhas com sabor ou, pelos menos, sem espermicida — uma vez que este pode trazer um gosto ruim a este momento prazeroso.

Há algum tempo, eu pesquisei e postei aqui alguns dados sobre os riscos de transmissão. Claro, estas são meras estimativas e constantemente debatidas, questionadas e recalculadas pelos médicos. Na época, o que eu encontrei foi nada além de uma única matéria, publicada em fevereiro de 2001, pelo site About:

Sexo anal receptivo (passivo)

0,8% a 3,23%

+

Sexo anal insertivo (ativo)

0,08% a 0,32%

Sexo vaginal receptivo (homem para mulher)

0,1% a 0,0001%

Sexo vaginal insertivo (mulher para homem)

0,00001% ou menor

Sexo oral

Menor que as anteriores

Se considerarmos que, depois disso, a Suíça divulgou um estudo que diz que um soropositivo em tratamento não oferece riscos de transmissão, e que o tratamento antirretroviral oferece redução de 96% no risco de transmissão, então, podemos concluir que os riscos apresentados na tabela acima podem ser consideravelmente menores em se tratando de um(a) soropositivo(a) em tratamento.

No meu caso, a srta. J. e eu, mesmo depois do meu diagnóstico, continuamos fazendo sexo oral um no outro sem proteção. Assim como eu, ela estava plenamente ciente dos riscos, tendo participado das duas consultas, com o Dr. O. e com o Dr. E., quando eles emitiram as opiniões que eu cito acima. E ela continua soronegativa. Não usar proteção no sexo oral é um entendimento meu e da srta. J., pessoal, e não se trata de nenhuma recomendação, sugestão e muito menos de um modelo de referência. Vale ressaltar que, como descendente direta de europeus nórdicos, é possível que ela faça parte de 1% da população européia que naturalmente apresenta a mutação inibidora do CCR5, citada pelo Dr. Esper Kallás nesta matéria aqui.

Não há, portanto, conclusão final. Talvez seja legal sugerir que os riscos, as pesquisas e as possibilidades de uso ou desuso do preservativo no sexo oral sejam conhecidos pelos parceiros sexuais. Assim, qualquer decisão pode ser de maneira consciente, antes de abrir a boca… para emitir qualquer opinião, claro!

Foi no dia 18 de outubro de 2010 que descobri que sou soropositivo, que tenho o vírus da aids, o HIV. Portanto, faz pouco mais de quatro meses.

Não sei porque começo este blog. Não sei se vou continuar com ele. Não sei se vou escrever com constância, inconstância ou se jamais escreverei novamente. Não sei se faço isso apenas para desabafar, para pedir ajuda e conselhos ou trocar informações com soropositivos e soropositivas mais experientes, para ouvir a mim mesmo ou para ajudar aos outros jovens soropositivos como eu. Essa ideia, de escrever um blog sobre esse assunto, o momento que estou vivendo, tem rodado a minha cabeça. E só o fato de ter chegado a estas linhas já me traz certo alívio. Então, pronto! Está lançado o blog.

Sem festa. Nesses quatro meses, ouvi de algumas pessoas sobre o lado positivo do meu diagnóstico soropositivo — sem trocadilhos. Segundo elas, haveria motivos para comemorar. Talvez haja. Meu diagnóstico veio antes de qualquer manifestação da aids. Minha carga viral era naturalmente tão baixa que em um mês de tratamento passou a ser “indetectável”, isto é, muito próxima de zero. No jargão que aprendi nesses tempos, eu já “zerei” meus exames.

No entanto, o início desse blog, nessa terça-feira de Carnaval, não vem motivado por estes pontos positivos. Como sou um novo soropositivo, tenho feito os exames de controle mês a mês. Desde o início do tratamento com os antirretrovirais, já foram dois controles. O primeiro controle teve resultados bons, conforme descrevi acima. Já no segundo controle, um resultado ruim. Tive hoje a informação que meu CD4 tem sua contagem mais baixa do que antes do início do tratamento.

Vou explicar. Em dezembro, logo após o diagnóstico, fiz uma série de exames com a finalidade de, nas palavras de meu infectologista, “fotografar” meu organismo antes do tratamento. Dentre eles, fiz também exames os quais devo me acostumar a fazer por toda a vida ou até que descubram a cura pra o HIV: a contagem de CD4 e CD8, carga viral ou PCR quantitativo para HIV e hemograma. À época, meu CD4 era de 255. Segundo o laboratório, para a minha idade, o ideal seria que os linfócitos T CD4, as células de proteção mais atingidas pelo HIV, tivessem uma contagem de, pelo menos, 650.

Posso estar enganado, mas lembro-me de ter ouvido de algum dos inúmeros médicos que tenho visitado — infectologista, psiquiatra, psicólogo, gastro-coloproctologista e dermatologista — de que o Ministério da Saúde tem uma determinação que diz que contagens de CD4 inferiores a 500 devem começar o tratamento imediatamente. Segundo meu “infecto” — infectologista, para os íntimos — uma contagem de 350 já alguma traz segurança. E sua expectativa, dado meus ótimos primeiros exames, era de que este mês minha contagem já fosse essa.

Mas não foi. Obtive um resultado de 215 linfócitos CD4 por mm³ de sangue. Não, ainda não tenho o conhecimento ou experiência para analisar esse resultado. Sei apenas é que a previsão médica era a de um resultado melhor.

Passei o mês de janeiro lendo muitas notícias e sites sobre HIV. Sem sair muito de casa, foi o máximo que fiz. E encontrei pouca coisa. Ou pouco que realmente interessasse. Nenhum livro. Ou quase: o único que me pareceu ser interessante continha a “oração para a cura interior” no final — nada contra, apenas não era o que estava procurando. Num futuro post, quem sabe, escrevo mais sobre o que encontrei neste mês de pesquisa.

Também passei o mês de janeiro sofrendo bastante com os efeitos colaterais dos remédios. “Melhor que morrer”, você pensa. Eu também penso. E acho que é só por isso que tomo as enormes pílulas todos os dias. Medo de morrer.

Essa foi, aliás, a primeira pergunta que fiz ao meu infecto, um dia depois do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, Dr.?”

“— Não, hoje não morre mais.”