Brasil Post

É razoável existir algum descompasso entre o conhecimento leigo e o que os médicos e cientistas sabem. Eu mesmo era um completo ignorante a respeito de HIV e aids e, quando recebi o diagnóstico positivo, morri de medo de meu futuro. Foram preciso horas e mais horas de conversa com meu médico e tantas outras de pesquisa em fontes confiáveis para que esse medo diminuísse ou fosse delimitado ao seu devido lugar. No entanto, com o que aprendi desde então, percebi que no que diz respeito ao HIV e aids o descompasso do conhecimento leigo entre o médico e científico é gigantesco. Melhor dizendo, é abissal. E é aqui que nasce o medo injustificado, responsável pelo estigma, o preconceito e a discriminação. Agora, já é tempo disso tudo acabar.

Na última semana, esteve bastante em pauta uma conversa entre os participantes do “BBB14”, na qual ficou claro o profundo desconhecimento a respeito da epidemia, da vida de um soropositivo nos dias de hoje e do risco de transmissão do vírus. Um dos participantes disse que uma pessoa que vive com HIV “geralmente não dura mais de 40 anos”, ao que uma participante sugeriu “matar todo mundo”. Por fim, ela ainda diz-se irritada pelo fato da origem da doença ter vindo por “um idiota que foi transar com um macaco.”

Vamos por partes. Sim, o HIV veio de fato do macaco, mas não necessariamente por via sexual. Acredita-se que o hábito de algumas tribos africanas de se alimentarem deste animal, em processos que envolviam grande contato com seu sangue, é que tenha possibilitado a mutação do SIV, o vírus da imunodeficiência símia, para o HIV, o vírus da imunodeficiência humana. Como se sabe há algum tempo, a proximidade do homem com qualquer animal é sempre passível de criar condições de adaptação de vírus e bactérias entre as espécies, tal como aconteceu recentemente com as gripes suína e aviária.

Já a sugestão de “matar todo mundo” para acabar com a epidemia não é tão simples assim. Ela teria de vir acompanhada de testagem compulsória de todo e qualquer ser humano. Afinal, acredita-se que para cada soropositivo diagnosticado existam três que não foram diagnosticados. Com isso, surgem aqui dois problemas. O primeiro é o mais evidente: em grande parte do planeta, costuma ser ilegal matar, que dirá matar portadores de enfermidades. Em segundo, pelo menos no Brasil, também é ilegal realizar a testagem compulsória e inclusive exigir o teste de HIV para admissão em emprego ou contratação de qualquer bem e serviço.

Matar apenas os voluntariamente diagnosticados também não resolveria em nada. Pois, como já é sabido pela comunidade médica e científica, aqueles que fazem o diagnóstico e se cuidam não são o problema. Ao contrário: aqueles que vivem com o vírus e não sabem, pois não fazem o teste de HIV e portanto não se cuidam, é que são os maiores responsáveis pela transmissão do HIV. E digo isso sem qualquer exagero e com respaldo de importantes pesquisas científicas.

Dois grandes estudos, HPTN 052 e PARTNER, têm mostrado que o tratamento antirretroviral “reduz drasticamente a transmissão do HIV”, conforme explica o pesquisador, infectologista e imunologista (e meu médico), Dr. Esper Kallás. Segundo ele: “No estudo HPTN 052, dos 39 casos de pessoas que contraíram o vírus, 11 se infectaram de outra pessoa que não seu parceiro sexual fixo que estava no estudo. Isso foi comprovado com análises genéticas do vírus, num procedimento restrito à pesquisas científicas. A conclusão é que é fundamental sempre fazer sexo com proteção, independentemente da pessoa com quem se relaciona. Ainda assim, a única infecção que aconteceu em quem era parceiro de alguém positivo para o HIV e que vinha se tratando se deu na fase inicial do uso dos remédios, quando a quantidade de vírus ainda vinha diminuindo. Isso reforça a clara relação entre a quantidade de vírus no corpo e a possibilidade de transmissão.”

Vale lembrar que o HPTN 052 analisou mais de 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV) ao longo de 78 semanas. O PARTNER, por sua vez, inclui 800 casais sorodiscordantes nos quais o parceiro soropositivo faz tratamento antirretroviral há pelo menos cinco anos. Estes já relataram mais de 30 mil relações sexuais, muitas das quais sem preservativo. E, até agora, em dois anos de estudo, não foi identificado um único caso sequer de transmissão do HIV entre os participantes. Ambos os estudos contrariam bastante a cartilha da Fifa que recomenda a abstinência sexual como forma de evitar o HIV — e segue sendo distribuída nas escolas, mesmo indo contra a postura brasileira nas ações de prevenção, a qual sempre teve como base o uso do preservativo.

Mas o mais curioso desta discussão que se deu no “BBB14” é que ela é muito similar ao que se sucedeu em 1987, numa pequena cidade de 5600 habitantes do estado da Virgínia Ocidental, nos EUA. À época, o jovem Mike Sisco tinha acabado de ser diagnosticado positivo para o HIV e retornava para sua cidade com o objetivo de passar seus últimos dias ao lado da família. Com o calor, ele resolveu dar um pulo na piscina pública da cidade, o que acabou gerando um grande alvoroço: mães correram para tirar seus filhos da água e o prefeito ordenou a interdição da piscina, para esterilizá-la. A história ganhou grande repercussão e foi parar na TV, no programa de Oprah Winfrey, onde um médico foi convidado para participar e esclarecer à população que Mike não representava uma ameaça. Mesmo assim, neste programa que aconteceu há 27 anos, pelo menos dois dos moradores entrevistados sugeriram que soropositivos deveriam ser colocados em quarentena, e um deles acrescentou que, feito isso, “a natureza cuidaria de extinguir todos os portadores do vírus da face da Terra.” Mike Sisco terminou por deixar a cidade e viveu ainda por mais sete anos.

Desde então, o tratamento melhorou enormemente e a nossa expectativa de vida também. Hoje, contrariando o brother, não é verdade que um soropositivo “não dura mais de 40 anos”. Um estudo recente analisou 22.937 participantes e concluiu que, pelo menos no continente norte-americano, a expectativa de vida dos soropositivos já é quase a mesma dos soronegativos. Uma das exceções, isto é, os que ainda não tem a expectativa tão próxima do normal, diz respeito ao grupo no qual eu estou inserido: aqueles que iniciaram o tratamento antirretroviral com contagem de células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, em número menor que 350. A contagem saudável dessas células é de pelo menos 500 e sua quantidade costuma decair de acordo com o tempo de exposição sem tratamento ao vírus. Ainda assim, conforme explica o Dr. Esper, “este é um assunto em evolução, já que os avanços vêm se acumulando ano após ano. Isso significa que teremos que constantemente rever os dados de expectativa de vida, cuja tendência é a de se equiparar com os que não vivem com HIV.”

Com tudo o que aprendi a respeito de HIV e aids desde meu diagnóstico, entendo que a melhor forma de controlar a epidemia é usando camisinha, inclusive debaixo dos edredons da casa mais vigiada do País. E paredão, só mesmo dentro do BBB. Fora dali, eliminar quem quer que seja não é a solução. Ao contrário: é preciso motivar o maior número de pessoas a cuidarem de sua saúde, fazendo voluntariamente o teste de HIV. Para tanto, todo indivíduo precisar ter consciência de que existe vida depois de um eventual diagnóstico positivo e que, conforme a Dra. Rosana Richtmann explicou aos brothers, essa vida pode sim ser completamente normal. Para isso, quanto antes for feito o teste de HIV, melhor. “Fazer o teste é o método mais efetivo para controlar a doença: diminui a mortalidade de quem tem o vírus e reduz o risco da transmissão”, afirma Alexandre Grangeiro, sociólogo que atua na área da prevenção na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em uma excelente matéria publicada no portal MdeMulher.

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Porta dos Fundos lança sua primeira série, que fala de aids com humor

Com apoio de ativistas, grupo une cenas cômicas com informações sobre os soropositivos

João Fernando – O Estado de S. Paulo

“Eu tenho aids, p… Sou soropositivo, entendeu?”, grita Beto, personagem vivido por Gregório Duvivier, para uma de suas ex-parceiras sexuais. É assim, direto ao assunto, que o Porta dos Fundos vai tratar da doença em Viral, série de quatro episódios, com 15 minutos cada um, que o canal de humor da internet lançará no dia 4 de abril. [Continue lendo.]

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A semana do Carnaval foi de festa para quem vive com HIV, mesmo longe dos desfiles e dos bloquinhos. Entre os dias 3 a 6 de março, aconteceu a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI 2014, em Boston, uma das mais importantes conferências de HIV e aids do mundo. Cientistas de todo o globo se reuniram para apresentar os avanços obtidos em suas pesquisas.

Para começar, temos um possível caminho para a cura que tem se mostrado muito promissor. Conforme matéria do New York Times, 12 voluntários que vivem com o vírus tiveram suas células CD4+ do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, retiradas, modificadas em laboratório e reintroduzidas nestes mesmos indivíduos. Nesse processo, o conector CCR5, que é o mais usado pelo HIV para se infiltrar na célula CD4+, foi suprimido. Como consequência, as células modificadas se tornaram imunes ao vírus, tal como acontece naturalmente nos indivíduos portadores da mutação CCR5 Delta 32, encontrados em geral no norte da Europa. O estudo se mostrou seguro e eficiente em manter a carga viral (que é a quantidade de vírus medida no sangue) indetectável por 12 semanas. E, agora, deve seguir adiante com mais voluntários. O único porém é que, como o procedimento envolve a alteração de DNA, a Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula os estudos médicos nos Estados Unidos, exige um acompanhamento destes voluntários pelos próximos 15 anos.

Mas para alguns a cura não está tão longe assim. Ou até já chegou. Muito possivelmente temos hoje mais uma bebê curada do vírus, além da “Bebê do Mississippi” — que já está com 3 anos de idade e continua sem sinal da presença do HIV em seu organismo. Ambas foram submetidas a um tratamento com os mesmos remédios que tomamos, os antirretrovirais. A diferença é que o tratamento foi iniciado logo após o parto, em até 48 horas, e mantido por um tempo determinado. O procedimento foi uma saída encontrada pelos médicos para o caso delas, em que a mãe foi diagnosticada soropositiva apenas no momento do parto, e que acabou dando certo. Agora, um estudo com 60 bebês nas mesmas condições deve ser iniciado e, se bem sucedido, o protocolo de tratamento para os 250 mil bebês infectados no momento do parto a cada ano deve ser revisto.

A ideia deste procedimento veio da profilaxia pós-exposição, medida comumente administrada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Ela consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantidos ao longo de um mês. É tal como fazer tratamento de HIV sem ter tido ainda resultado positivo para o HIV.

E, por falar em tratamento, ele também caminha para melhoras. Hoje tomamos algo entre duas doses de 4 a 7 comprimidos por dia. Nas décadas passadas, eram 30. No entanto, em breve, poderemos ter apenas uma única dose por mês: as empresas farmacêuticas GlaxoSmithKline e Johnson & Johnson estão desenvolvendo uma injeção para tratamento do HIV que pode ser administrada mensalmente. Os testes devem começar já nos próximos meses e os resultados são esperados para 2016. Se bem sucedidos, podem mudar para sempre a forma como tomamos os medicamentos para o vírus. Outro tratamento que possivelmente também está prestes a mudar é da hepatite C, doença que afeta quatro vezes mais indivíduos que o HIV. Sua coinfecção com o vírus da aids é um complicador no tratamento das duas doenças e, por isso, esteve na pauta da CROI deste ano. A novidade é que os cientistas identificaram as estruturas do HCV, vírus causador da hepatite, e, com isso, podem vir a desenvolver uma vacina, conforme relatado na revista Nature.

Outra injeção que acaba de ser testada em macacos sugere que é possível, com doses periódicas, prevenir a infecção pelo HIV. Essa injeção contém medicamentos que, nos animais, mostrou ter duração de 11 semanas. Como ela não estimula a imunização do organismo ao vírus, o procedimento é considerado uma profilaxia pré-exposição (ou PrEP), isto é, usa medicamentos para tratar o HIV como forma de prevenir o HIV. O estudo foi divulgado na Science, uma das mais respeitadas publicações do meio científico.

Por fim, também foi apresentado na CROI 2014 um estudo que está prestes a se juntar ao HPTN 052 como um grande aliado dos soropositivos. Este, conforme já contei aqui, mostra claramente que não é preciso temer contrair o vírus do portador de HIV que faz o diagnóstico e se cuida. Para alcançar suas sólidas conclusões, o HPTN 052 analisou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV), em sua maioria heterossexuais e ao longo de 78 semanas. Feito isso, concluiu que sempre que o parceiro soropositivo está em tratamento antirretroviral, com carga indetectável há pelo menos 6 meses e sem nenhuma coinfecção com outra DST, o risco de transmissão do vírus é reduzido em 96%. Em 2011, a revista Science nomeou o HPTN 052 como a “descoberta científica do ano”, vindo de encontro com o famoso Swiss Statement, a declaração feita em 2008 pela Comissão Nacional de Aids da Suíça, a qual afirmava que o uso do tratamento antirretroviral na prevenção de novas infecções era plenamente eficaz e atestava que uma pessoa com HIV que segue o seu tratamento de forma consistente, conforme prescrito e não tem nenhuma outra DST “não coloca seu parceiro soronegativo em risco de transmissão por contato sexual.”

Com isso, o HPTN 052 ajudou a descriminalizar a transmissão não-intencional do HIV e a reduzir o estigma contra os soropositivos. E agora ele não está sozinho. De acordo o AidsMap, o novo estudo PARTNER, apresentado na CROI, pretende ir mais longe e responder às perguntas deixadas em aberto pelo HPTN 052. Ele ainda está em andamento, com previsão de conclusão para 2017, mas seus resultados preliminares já são bastante promissores. Um dos objetivos do PARTNER é atestar se a redução de 96% no risco de transmissão, já aferida em casais heterossexuais, se aplica também aos homossexuais e ao sexo anal, que é a maneira de sexo que apresenta mais alta transmissibilidade. Para isso, 40% dos voluntários dessa pesquisa são casais homossexuais. Todos os casais participantes do estudo, homo ou heterossexuais, são sorodiscordantes, não fazem sexo com preservativo em todas as relações e o parceiro soropositivo está sob tratamento antirretroviral há pelo menos 5 anos.

Durante o acompanhamento inicial dos participantes, verificou-se que 94% dos participantes soropositivos homossexuais estavam com carga viral indetectável no início do estudo, contra 85% dos heterossexuais soropositivos. Também aferiu-se que homossexuais usam camisinha com mais frequência que heterossexuais. Aliás, todos os casais sorodiscordantes heterossexuais transaram sem camisinha, nas quais o parceiro soronegativo afirmou haver ejaculação pelo sexo vaginal em 72% das vezes. Por sua vez, 70% dos parceiros soronegativos homossexuais afirmaram fazer sexo anal receptivo, no qual 40% das vezes incluía ejaculação. Uma proporção significativa dos casais heterossexuais afirmou fazer sexo anal. O sexo desprotegido fora do relacionamento estável mostrou-se mais comum entre homossexuais. Talvez por conta disso, 16% dos homossexuais apresentaram outras DSTs, como sífilis ou gonorreia, contra 3 a 4% dos heterossexuais. Contudo, contrariando o estudo HPTN 052, a presença de outras DSTs não se mostrou uma variável importante na transmissibilidade do HIV para estes participantes.

As descobertas feitas até o momento são interessantíssimas. Durante o estudo aconteceram transmissões do vírus, sim, mas única e exclusivamente entre aqueles que “pularam a cerca.” Noutras palavras, o vírus veio do parceiro que não estava no estudo, o que foi comprovado por testagem genética do HIV de cada uma das infecções. Conclui-se então que os parceiros com quem os participantes transaram fora do estudo eram soropositivos sem tratamento e, portanto, muito possivelmente com carga viral alta. Entre os casais voluntários do estudo que não tiveram relações sexuais fora do relacionamento e cujos parceiros estáveis positivos para o HIV estavam com carga viral inferior à 200 cópias/ml de sangue, não houve um único caso sequer transmissão do vírus, mesmo sem uso do preservativo em todas as relações sexuais.

Evidentemente, trata-se ainda de uma aferição preliminar e de uma amostragem do que ocorre no mundo real. Ainda assim, quando a Dra. Alison Rodger, que apresentou o estudo na CROI, foi indagada sobre o que o PARTNER nos diz a respeito da possibilidade de alguém com carga viral indetectável ​​transmitir HIV, ela disse:

“– Nossa melhor estimativa é que é zero.”

Entretanto, ainda existe a pior estimativa. E, no pior cenário, a análise estatística mostra que as chances de transmissão pelo sexo sem preservativo ainda são consideráveis, sim: de 2% ao ano para o sexo vaginal com ejaculação, de 2,5% para o sexo anal receptivo e de 4% para o sexo anal receptivo com ejaculação, nos casos em que o parceiro soronegativo é o receptivo. Para evitar esse risco, o único jeito é usar camisinha, a qual é plenamente segura. Portanto, a lição a ser tirada de ambos os estudos, HPTN 052 e os resultados preliminares do PARTNER, é que com consciência de seu estado de saúde, o uso de antirretrovirais num eventual diagnóstico positivo e carga viral suprimida associados ao uso da camisinha, fica, de fato, muito mais que plenamente seguro. E se você não sabe o status sorológico do seu parceiro sexual, a solução é a mesma: use camisinha. Com ela, o risco sempre foi e continua sendo próximo de zero.

Para escrever este post, agradeço a contribuição de meus leitores e colaboradores no blog Soropositivos.com, que me ajudaram a reunir todas as fontes e matérias citadas aqui.

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Antes de publicar esse post, encaminhei-o para meu médico infectologista, o Dr. Esper Kallás. Segundo ele:

A base da informação é verdadeira. No entanto, este é um assunto em evolução, já que os avanços vêm se acumulando ano após ano. Isso significa que teremos que constantemente rever os dados de expectativa de vida, cuja tendência é a de se equiparar com os que não vivem com HIV.

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Maior expectativa de vida para as pessoas pessoas vivendo com HIV na América do Norte

Estudos grandes, primeiramente na Europa Ocidental, EUA e Austrália, mostraram que a potente combinação da terapia antirretroviral (comumente chamada de ARV ou TARV) trouxe uma enorme melhora na saúde das pessoas soropositivas. No Canadá e em outros países de renda alta, as infecções relacionadas com a aids são incomuns em pessoas com HIV que estão sob cuidados de antirretrovirais. Como resultado, os pesquisadores esperam, cada vez mais, que um jovem adulto infectado pelo HIV e que começa o tratamento logo após a infecção, faz seu tratamento todos os dias exatamente como recomendado pelo médico e não possui problemas de saúde coexistentes não tratados — como dependência química, depressão, esquizofrenia ou coinfecção com o vírus da hepatite C — possa viver por várias décadas.

Até recentemente a análise de expectativa de vida para um grande número de pessoas que vivem com HIV no Canadá e nos EUA não estava disponível. Agora, um consórcio de pesquisadores de todo o continente reuniu estes dados. Os pesquisadores descobriram que, em geral, a expectativa de vida para os portadores do HIV aumentou ao longo da última década e está se aproximando de pessoas soronegativas. No entanto, nem todos os grupos principais afetados pelo HIV experimentam o mesmo grau de expectativa de vida. Neste boletim, vamos explicar quais grupos são afetados e oferecer possíveis razões para as diferenças observadas.

Detalhes do Estudo

Pesquisadores de toda a América do Norte analisaram a base de dados NA-ACCORD a respeito de 22.937 participantes que iniciaram a terapia antirretroviral entre 1 de Janeiro de 2000 e 31 de Dezembro de 2007.

O perfil médio dos participantes é o seguinte:

• 77% homens, 23%mulheres

Os participantes tinham as seguintes idades:

• 20 a 34 anos: 25%
• 35 a 44 anos: 42%
• 45 a 54 anos: 25%
• 55 anos ou mais: 8%

Rota de infecção:

• usuários de drogas intravenosas: 20%
• homens que fazem sexo com homens (HSH): 39%
• outras, rotas não especificadas de transmissão: 41%

Raça/etnia:

• Caucasianos: 38%
• Outros: 62%

Contagem de CD4+ quando a terapia antirretroviral foi iniciada:

• inferior à 350 células: 72%
• 350 células ou mais: 28%

Resultados Globais

Um total de 1.622 pessoas morreram durante o estudo. Detalhes sobre a causa da morte não foram fornecidos.

Em geral, a frequência das mortes é maior nos grupos de pessoas com as seguintes características:

• histórico de uso de drogas injetáveis
• não-caucasianos
• pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral com contagem de CD4+ em 350 ou inferior

Os Números da Expectativa de Vida

Baseado na análise dos dados, o time de pesquisadores previu que a média de expectativa de vida de um indivíduo americano ou canadense de 20 anos de idade que começa a tomar antirretrovirais logo após a infecção deve ser de aproximadamente 70 anos de idade. Entretanto, este é apenas um número médio. Alguns grupos terão expectativas de vida menores. Abaixo, seguem as expectativas de vida de um indivíduo de 20 anos de idade nos diferentes grupos em 2009, comparando-as com soronegativos. Ao final dos números, fornecemos explicações para estes resultados.

• Homens soronegativos no Canadá: 80 anos
• Homens soronegativos nos EUA: 77 anos
[Homens soronegativos no Brasil: 71 anos]

• Mulheres soronegativas no Canadá: 84 anos
• Mulheres soronegativas nos EUA: 82 anos
[Mulheres soronegativas no Brasil: 78 anos]

Sexo:

• Homens soropositivos: 62 anos
• Mulheres soropositivas: 64 anos

Rota de infecção:

• Usuários de drogas intravenosas: 49 anos
• HSH: 77 anos
• Outros grupos: 70 anos

Raça/etnia:

• Caucasianos: 72 anos
• Outros: 58 anos

Contagem de CD4+ quanto a terapia antirretroviral foi iniciada:

• Inferior à 350 células: 59 anos
• 350 células ou mais: 75 anos

Estes dados devem ser comparados à época em que a terapia antirretroviral começou a ser oferecida, quando, em média, soropositivos de países de renda alta viviam 10 a 12 anos após o diagnóstico.

Explicação para as Lacunas

Mulheres

A expectativa de vida global das mulheres soropositivas neste estudo mostrou-se inferior a de HSH e de mulheres soronegativas. Os pesquisadores sugeriram algumas possibilidades para essa descoberta. É possível que “mulheres estejam iniciando o tratamento depois que [alguns] homens.” O estudo incluiu um número grande de mulheres com histórico de uso de drogas intravenosas. Em geral, pessoas que usam drogas injetáveis apresentam a pior expectativa de vida do que os não usuários, independentemente da condição sorológica para o HIV. É possível que as mulheres deste estudo tiveram menor acesso à educação, menor renda, podem ter experimentando maior estigma e isolamento social do que HSH soropositivos, além de maior dificuldade com o sistema de saúde [o que não acontece no Brasil, onde o acesso aos medicamentos é universal e gratuito].

Não é mencionado pelo estudo os diversos papéis muitas vezes desempenhados pelas mulheres, incluindo cuidado de crianças, outros membros da família e do ambiente doméstico, além de trabalho remunerado. Em virtude disso, as mulheres muitas vezes são obrigadas a priorizar o cuidado de outros em detrimento de si mesmas. Todos esses fatores podem ter impacto global na saúde e na expectativa de vida mostrada por este estudo.

Usuários de drogas injetáveis

Os pesquisadores sugeriram que os seguintes fatores influenciaram na baixa expectativa de vida dos usuários de drogas injetáveis neste estudo:

• coinfecções, tais como com hepatite C (HCV)
• dificuldade em manter a adesão ao tratamento
• efeito desestabilizante do uso de drogas
• ambiente doméstico instável
• baixa renda

Raça/Etnia

O time de pesquisadores concluiu que as diferenças na expectativa de vida de pessoas não-caucasianas refletem inúmeros fatores, tais como “condições socioeconômicas e acesso a serviços de saúde.” Os pesquisadores descobriram que no começo do estudo a lacuna entre as expectativa de vida era enorme — de 23 anos. Entretanto, ao final do período de pesquisa essa lacuna foi reduzida para 9 anos.

Contagem de CD4+ no início do tratamento

As pesquisas do presente estudo reforçam as recomendações atuais no Canadá e nos EUA [e também no Brasil] de que soropositivos devem iniciar o tratamento o mais cedo possível, independentemente de sua contagem de CD4+.

Pontos Fracos e Pontos Fortes

É possível que os pesquisadores tenham subestimado os avanços recentes e futuros em tecnologia, medicina e tratamento, os quais podem estender ainda mais a expectativa de vida daqueles que vivem com HIV.

Também é possível que, no futuro, soropositivos desenvolvam problemas de saúde relacionados à idade mais rapidamente do que soronegativos. Isso pode reduzir ou estagnar a expectativa de vida.

Os pesquisadores não foram capazes de acompanhar todos os participantes de 20 anos de idade até os seus 70. Esta é uma limitação razoável, uma vez que a terapia antirretroviral só se tornou disponível em 1996 na maioria dos países de renda alta. Entretanto, outras bases de dados têm monitorado a saúde de soropositivos que começaram o tratamento em 1996 (apenas quatro anos antes do início do presente estudo) e encontraram tendências similares à presente análise dos dados da NA-ACCORD. Os pesquisadores do presente estudo usaram metodologia similar àquela usada para estimar a média de expectativa de vida de soronegativos. Portanto, as descobertas deste estudo são razoáveis e baseadas nas tendências atuais.

Os Benefícios do Cuidado Constante

Tenha em mente que, comparado a soronegativos, muitos soropositivos no Canadá e em países similares estão sob ótimas condições de tratamento médico. Eles visitam infectologistas diversas vezes ao ano. Com este grau de vigilância médica é possível detectar qualquer complicação no início, antes que se torne grave, o que é mais um fator que pode ajudar a prolongar a expectativa de vida de pessoas que vivem com HIV.

Referência

Samji H, Cescon A, Hogg RS, et al. Closing the Gap: Increases in life expectancy among treated HIV-positive individuals in the United States and Canada. PLoS One. 2013 Dezembro 18;8(12):e81355.

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Hoje é primeiro Dia da Discriminação Zero. Essa nova data inaugurada pela Unaids vem de encontro com o objetivo da organização de zerar o número de novas infecções pelo HIV e de mortes em decorrência da aids. E isso só será possível sem discriminação.

Neste 1º de Março de 2014, você já pode contribuir com a campanha. É só dar um like na página Facebook.com/ZeroDiscrimination ou escolher uma das borboletas símbolo da campanha e usá-la na sua foto de perfil no Facebook. Você também pode entrar na conversa no Twitter, com a hashtag #zerodiscrimination. Faça alguma coisa! Sem transformação, a discriminação não vai acabar.

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Com um tratamento que funciona perfeitamente e uma vida que é plenamente normal, o preconceito e a discriminação acabam por ser a pior parte da vida de um soropositivo. No entanto, pela minha experiência desde o diagnóstico, posso dizer que hoje eles são pontuais. E vou tentar apontar exatamente aonde estão.

Muitos juntam discriminação e preconceito num mesmo grupo. Mas aqui eu vou separá-los, por entender que existe uma diferença sutil entre as duas definições. Segundo o dicionário, preconceito é um “conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados”. É o famoso “pré conceito”, termo autoexplicativo. É até ingênuo, pois presume que o agente teve pouca matéria-prima para emitir seu parecer mas, por alguma razão, emitiu assim mesmo. Por sua vez, discriminar é “tratar de modo preferencial, geralmente com prejuízo para uma das partes”. Em certo sentido, é mais grave, pois não é preciso falhar em ter os conhecimentos adequados. Na discriminação não há ingenuidade: é possível discriminar mesmo possuindo conhecimentos que sugiram o contrário.

As razões que levam alguém a discriminar me escapam. Entretanto, é o que acontece. E é situável geograficamente. Segundo o relatório da Unaids de outubro passado, 41 países ou territórios restringem o tempo de estadia, impedem a entrada ou deportam viajantes com HIV. Fazem parte deste grupo: Austrália, Cuba, Emirados Árabes Unidos, Egito, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Paraguai, República Dominicana, Rússia, Singapura, Síria, Taiwan e o território britânico das Ilhas Turks e Caicos, entre outros.

Isso quer dizer que todo portador do vírus, seja com o intuito de turismo ou trabalho, não pode simplesmente comprar uma passagem e arrumar as malas. Antes disso, deve verificar em sites como o HIV Restrictions ou no último mapa compilado pela Unaids (abaixo) se o seu destino é um país em que ele ou ela é bem-vindo, permitindo a sua entrada e permanência pelo tempo desejado.

A ONU classifica essas medidas segregatórias como uma violação às Diretrizes Internacionais sobre HIV/Aids e Direitos Humanos. Segundo a organização, “qualquer restrição à liberdade de movimento ou escolha de residência com base na suspeita ou real status de HIV, incluindo triagem de viajantes internacionais, é discriminatória. Nos países que envolvem testes obrigatórios e falta de confidencialidade, há também a violação dos direitos à liberdade e privacidade. Muitos migrantes não são informados que estão sendo testados para o HIV, não são informados dos resultados, se informados não são aconselhados e não são encaminhados a serviços médicos — um impacto devastador sobre a saúde e bem-estar”.

Sobre o preconceito, o primo ingênuo da discriminação, há relatos de casos graves, especialmente no começo da epidemia. Já ouvi histórias de casais soropositivos que se viram obrigados a mudar de cidade. Crianças portadoras do HIV tiveram de ser tiradas da escola. Indivíduos que vivem com HIV, ao revelarem sua condição, perderam o contato com amigos e parentes.

Entretanto, nada disso se passou comigo. Foi apenas em dois únicos e pontuais momentos que senti em minha própria pele o que poderia ser o preconceito. No primeiro, um médico dermatologista já com seus 70 anos de idade, a quem visitei a certa altura após o diagnóstico. Uma vermelhidão que irritava a minha pele foi imediatamente diagnosticada pelo doutor como decorrente do HIV, assim que contei ser soropositivo. “É do vírus”, disse ele, olhando de longe, sem me examinar ou tocar. O segundo caso foi com uma jovem estudante de 24 anos, com quem saí no ano passado. Quando contei a ela sobre o HIV sua reação inicial foi de pânico, que perdurou por uma longa semana. O final não foi tão feliz, com uma carta que deixou na portaria de meu prédio, recheada de palavras chorosas de despedida.

Por me enxergar como igual, um semelhante ao médico e à jovem, eu simplesmente não entendia por que a compreensão deles era tão diferente da minha. Afinal, não há HIV na superfície da pele — aliás, com a alta eficácia dos antirretrovirais, o vírus mal está no sangue! Além disso, com camisinha e os conhecimentos médicos que descrevi em meu primeiro post, eu sabia que poderia me relacionar amorosa e sexualmente com qualquer pessoa sem oferecer risco algum de transmissão do vírus.

Dito isso, num insight, eu compreendi o que se passava: ambos o médico e a jovem sentiam medo, que é aquele sentimento que habita nos lugares sombrios da nossa mente. Para resolvê-lo, era preciso trazer luz — e rápido, antes que este se tornasse maior. Era preciso esclarecer as coisas. Explicar e me fazer entender, com conhecimentos sólidos a respeito da realidade do HIV e mostrando a vida normal que um soropositivo tem hoje. E foi isso o que eu fiz.

Insisti com o dermatologista que ele estava errado, explicando que seu colega infectologista já havia descartado completamente a possibilidade da vermelhidão ter sido causada pelo vírus. Afinal, minha contagem de células CD4 do sistema imunológico e meu quadro clínico descartavam completamente a possibilidade de doenças oportunistas. Vencido pelos meus argumentos, o doutor finalmente decidiu me examinar e a pomada que terminou por me receitar, contra uma dermatite típica dos meses de verão, funcionou perfeitamente! A jovem, por sua vez, entrou em contato comigo alguns meses depois. Me contou que leu, aprendeu e confirmou o que eu havia dito a ela a respeito do estudo HPTN 052, o mesmo que citei em meu primeiro post, e sobre a abrangente margem de segurança oferecida pelo uso da camisinha. Com isso, ela estava disposta a me reencontrar. (Mas não continuamos o relacionamento por motivos que devo contar num outro momento.)

Com a conclusão dessas histórias, ficou evidente para mim que existe remédio para o preconceito. E esse remédio é a informação. Do mesmo modo, para a discriminação também há tratamento. Em 2012, 40 CEOs, presidentes, executivos e diretores de empresas se uniram na defesa dos portadores de HIV em nossa luta contra as restrições segregatórias de viagem. Nessa lista, diga-se de passagem, figuram representantes de empresas que são verdadeiros pesos pesados, como: Coca-Cola, Gap, Getty Images, Heineken, Johnson & Johnson, Levi Strauss & Co., National Basketball Association (NBA), Pfizer, Thomson Reuters, Y&R e MTV International, entre outros. É tarde demais para ser pessimista.

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Outro dia, enquanto andava de metrô, escutei um casal conversando. Um deles dizia:

“– Hoje os jovens não usam mais camisinha porque ouvem dizer por aí que para o tratar o HIV basta tomar uns remedinhos.”

Vamos por partes. Antes, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais. Isso mostra que os medicamentos para disfunção erétil devem estar funcionando! Mas será que sugere que o medo do HIV realmente sumiu? Eu acho que não.

Acho que o medo continua, e ele não é (mais) capaz de conscientizar sobre o uso do preservativo. Nos dias de hoje, assustar não adianta. É preciso informar. Falar a real. E muito claramente.

Digo isso porque quando eu não usei camisinha, não fiz isso consciente de como era a vida de um soropositivo. Então, eu não sabia se bastaria tomar uns remedinhos ou não. Sequer sabia que havia remédios para o HIV, quais são e o que eles fazem. As aulas de educação sexual que tive na escola nunca me explicaram isso, mas apenas se detinham sobre o uso da camisinha. Então, a verdade é que eu simplesmente não pensava no vírus e nem nas suas implicações. Só fui fazer isso depois do diagnóstico.

Então, quase sem conhecimento algum, quando li “HIV positivo” no resultado do meu teste eu tive um choque. Morri de medo do HIV — ou, melhor dizendo, morri de medo dele me matar! Mas aprendi que não precisa ser assim. Com o passar do tempo, fui percebendo que eu tinha muitos mitos e preconceitos sobre o que era o HIV, a aids, o tratamento, o diagnóstico e até mesmo a prevenção. Concluí que era interessante aprender sobre tudo isso para compreender sobre a minha condição e, também, para explicar às pessoas a minha volta. E é isso o que faço aqui.

Na minha experiência como soropositivo entendi que o HIV, em todos os seus aspectos, está muito ligado à duas constantes: o cuidado e o tempo. O medo do HIV diminui, se é que não some por completo, quando entendemos que os problemas surgem se essas duas constantes não forem respeitadas. Aliás, elas estão presentes em todas as etapas relacionadas ao vírus: prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na prevenção, como sabemos, o principal cuidado é a camisinha. O uso dela torna o sexo seguro. No entanto, em situações excepcionais em que ocorrer falha, rompimento ou não uso da camisinha durante a penetração, a profilaxia pós-exposição pode ser indicada, depois de uma avaliação médica. A profilaxia só funciona se iniciada em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantida corretamente e seguindo as instruções médicas ao longo de todos os dias das semanas seguintes, mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais desagradáveis que podem surgir. Se não houver indicação médica para a profilaxia ou se o prazo de 72 horas for perdido, o jeito é seguir para o diagnóstico.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. A razão disso é bem simples: quanto mais tempo o organismo ficar exposto ao vírus, sem cuidado, pior. Afinal, se a habilidade do HIV é danificar o sistema imune, quanto mais tempo ele tiver livre para isso, maior será o dano causado. Em números: aproximadamente 25% das pessoas que demoram a se diagnosticar podem vir a não recuperar totalmente o seu sistema imune, grupo que pode ter complicações a longo prazo e do qual talvez eu faça parte, enquanto mais de 10% das pessoas diagnosticas tão tardiamente que já apresentam aids não sobrevivem nas semanas seguintes. Portanto, o melhor é fazer o teste logo!

Mas o diagnóstico também depende do tempo. Somente quando terminar o período da “janela imunológica”, que nada mais é que o tempo que o seu organismo leva para produzir anticorpos contra o vírus, é que o resultado do teste é preciso. Nem um dia antes. As informações disponíveis sobre o período da janela imunológica, no entanto, são um pouco contraditórias, variando entre 30 e 60 dias. Meu médico, o Dr. Esper Kallás, um dos mais respeitados infectologistas do País, é da opinião que os testes de hoje apresentam resultados plenamente confiáveis com 30 dias da suposta exposição ao vírus.

Se o resultado do teste vier “positivo” ou “reagente”, o cuidado passa a ser feito todos os dias. E é aqui que entram os tais “remedinhos.” Eles são chamados de antirretrovirais. Têm a habilidade de inibir os processos que o vírus usa para entrar nas células CD4 do sistema imunológico que estão no sangue. Como o vírus é esperto e usa vários processos, o tratamento consiste numa combinação de antirretrovirais, e é por isso que é apelidado de “coquetel.”

No meu caso, o coquetel que tomo consiste em três antirretrovirais cujos comprimidos não são tão grandes e podem ser tomados todos juntos, de uma única vez e antes de dormir. Entretanto, existem mais de vinte antirretrovirais diferentes que formam diferentes combinações de coquetel. Algumas combinações incluem um maior número de comprimidos, outras não. Alguns comprimidos são maiores que outros. E alguns coquetéis devem ser administrados em maior frequência por dia que outros. É comum que, no começo do tratamento, surjam efeitos colaterais desagradáveis. Em geral, náusea, vômitos e diarreia. Mas é verdade também que estes costumam passar completamente com o tempo.

Como qualquer condição de saúde, mesmo sob tratamento o HIV ainda pode trazer algumas complicações para quem o porta. Com o tempo, o vírus pode desenvolver resistência aos antirretrovirais. Se isso acontece, troca-se de coquetel. Ainda assim, a resistência é algo que costuma surgir no longo prazo ou em pessoas que violam o cuidado necessário, não tomando o coquetel corretamente todos os dias. Embora cada vez mais raras, complicações pelo uso prologando dos antirretrovirais também podem surgir.

Por isso, para prevenir e manter a certeza de que está tudo indo bem é que fazemos exames regulares, a cada três ou quatro meses. Além dos exames comuns de um check up, fazemos dois outros exames a mais: um deles que avalia como anda o sistema imune e outro que conta o número de vírus que se encontra no sangue. Entretanto, os antirretrovirais de hoje são tão eficientes que na maioria dos casos essa contagem não pode ser feita porque nenhum vírus é encontrado. E o resultado do exame vem “indetectável.” Sempre que um tratamento de HIV é bem sucedido, é isso o que acontece. E a grande maioria dos tratamentos hoje é sim bem sucedida, como é o caso de 76% dos soropositivos que tomam antirretrovirais no Brasil. Eu mesmo, por exemplo, sou indetectável desde o primeiro mês de tratamento, há três anos, e desde então permaneço assim.

Sob tratamento, sem o vírus detectável no sangue ao longo de mais de seis meses e sem a presença de outras DSTs, a transmissibilidade do HIV é reduzida em 96%. Com camisinha, tudo se torna tão seguro que um soropositivo pode namorar com um soronegativo ou outro soropositivo, seja homem, mulher, travesti, transexual ou transgênero, sem que os parceiros tenham que ter qualquer medo do vírus.

Portanto, na prática, o que muda na vida de um soropositivo é a necessidade de fazer os exames rotineiramente e de tomar os remédios todos os dias. Fazendo as contas, se cada visita tri ou quadrimestral ao laboratório de exames leva mais ou menos duas horas e ao infectologista outras duas, e se considerarmos que o tempo de tomar os remédios é de 10 segundos por dia — duração mais que justa para se pegar um copo d’água e engolir os comprimidos — então, o HIV consome no máximo apenas 10 horas da vida de um soropositivo por ano.

Nas outras 8.750 horas deste mesmo ano, nossa vida não é nada diferente da sua. Tomamos café. Pegamos trânsito ouvindo Mílton Jung no Jornal da CBN. Será que o Pizzolato vai ser extraditado? Reclamamos do calor. É segunda feira? Tem vídeo novo do Porta dos Fundos! O horóscopo diz que hoje é um dia de “sensações vagas, arrepios e pressentimentos.” Atualizamos o status no Facebook. Lamentamos a morte de Philip Seymour Hoffman, grande ator! Lemos as notícias. O Papa defende a virgindade. Não, não foi dessa vez que acertamos a Mega Sena. Almoçamos arroz, feijão, salada de batata e carne. Trabalhamos. Depois, #partiu academia. Mas não gostamos de BBB. Compramos pipoca para assistir “Até Que a Sorte Nos Separe 2.” Ficamos indignados com Woody Allen e, depois, fazemos as pazes com ele. Acho que agora não gostamos muito é da Mia Farrow. E esses torcedores do Corinthians? Imagina na copa?! William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional. Lemos um livro do Dalai Lama. Hoje tem balada! E dormimos no sofá com a TV ligada.

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