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Sete em cada dez pessoas diagnosticadas positivas para o HIV e que começam a fazer o tratamento antirretroviral recuperam sua contagem de células CD4 para um patamar acima de 500 células/mm³. É isso o que relatam pesquisadores franceses em um estudo divulgado recentemente: quanto maior a contagem de células CD4 e maior a relação CD4/CD8 no momento do início do tratamento, melhor será a recuperação de CD4.

O estudo usou informações do Banco de Dados Hospitalar Francês sobre HIV, observando pacientes que iniciaram seu primeiro tratamento entre 2006 e 2014 e então alcançaram e mantiveram carga viral indetectável em até seis anos de acompanhamento. Todos estes pacientes começaram o tratamento com uma contagem de células CD4 inferior à 500 células/mm³ e uma carga viral superior a 50 cópias/ml. Além disso, todos os pacientes considerados no estudo tinham pelo menos uma medição da relação CD4/CD8 feita seis meses antes de iniciar o tratamento. Estabeleceu-se que a “recuperação de CD4” seria definida por duas contagens de CD4 sucessivas de pelo menos 500 células/mm³, após confirmação de duas cargas virais consecutivas com menos de 50 cópias/ml. Pessoas com esquemas triplos, duplos ou em monoterapia foram incluídas.

Dos 23.188 pacientes observados, 6.050 preencheram os critérios do estudo. 66% dos participantes eram homens, dos quais aproximadamente um terço era originário da África Subsaariana. Ao iniciar o tratamento, a média de idade entre os participantes era de 38,6 anos, a carga viral média do HIV-1 era de 52.257 cópias/ml, a contagem média de CD4 era de 275 células/mm³ e a média da relação CD4/CD8 era de 0,3.

O resultado foi o seguinte: no geral, 69,7% dos participantes tiveram recuperação de CD4 após seis anos de carga viral indetectável; apenas 12,1% não atingiram a recuperação do CD4 no sexto ano de carga viral indetectável. Nesse sentido, o estudo concluiu que quanto maior a contagem de CD4 e quanto maior a proporção de CD4/CD8 ao iniciar o tratamento, maior a chance de recuperação do CD4. (A relação CD4/CD8 é um marcador do sistema imunológico tão importante quanto a contagem de células CD4. Quanto mais próximo de 1 for a relação CD4/CD8, melhor.)

Célula CD4.

Os pesquisadores identificaram ainda outros fatores que foram significativa e moderadamente associados à recuperação da contagem de células CD4:

  • Idade: indivíduos com mais de 60 anos apresentaram menor probabilidade de recuperação de CD4 do que pessoas mais jovens;
  • Homens que fazem sexo com homens, mulheres e homens heterossexuais que não são da África Subsaarian têm uma probabilidade maior de recuperação de CD4 do que mulheres e homens heterossexuais que são da África Subsaariana;
  • Indivíduos com coinfecção por hepatite B ou C ou aids ao iniciar o tratamento tiveram menor probabilidade de recuperação de CD4.

A influência dos antirretrovirais no resultado da recuperação do CD4 também foi analisada. Começar com uma combinação tripla baseada em inibidores não-nucleosídeos da transcriptase reversa (como Efavirenz, Nevirapina e Etravirina), em vez de uma combinação baseada em inibidores de protease (como Atazanavir, Darunavir, Fosamprenavir, Indinavir, Lopinavir/r, Nelfinavir, Ritonavir, Saquinavir e Tipranavir), foi associada a uma menor probabilidade de recuperação de CD4. Mas não houve diferença ao começar com outros regimes, incluindo regimes baseados em inibidores da integrase, principalmente o Raltegravir, de acordo com o presente estudo.

Quanto maior a carga viral no momento de início da terapia antirretroviral, maiores as chances de recuperação do CD4. Isso pode parecer surpreendente, mas é algo que já foi documentado em vários estudos anteriores. O fenômeno pode ser explicado pela liberação no sangue, após a eficácia do tratamento antirretroviral, de células CD4 que foram mobilizadas no tecido linfóide para combater a intensa replicação viral e a inflamação. No entanto, o tempo necessário para a carga viral ser suprimida não foi associado à recuperação de CD4.

Resumindo, os pesquisadores franceses afirmam que os dois principais fatores de recuperação de CD4 são: uma alta contagem de CD4 e uma alta proporção de CD4/CD8 no momento de início do tratamento antirretroviral. Por isso, quanto mais cedo for feito diagnóstico e mais rápido for iniciado o tratamento, melhor.

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O documentário de longa-metragem “Carta Para Além dos Muros” acaba de divulgar seu trailer. Com data de estreia prevista para abril de 2019, o filme refaz a cronologia da epidemia de aids no Brasil, através de um debate envolvente sobre a evolução do tratamento antirretroviral e os desafios que ainda enfrentamos em relação ao estigma e discriminação.

O documentário investiga o porquê da evolução no tratamento do HIV não vir acompanhada da mudança de mentalidade em relação à infecção. Um dos depoimentos retratados no filme, da imunologista Márcia Rachid, resume bem este desafio: “falar de HIV hoje tem o mesmo mistério de 35 anos atrás. Não pode!”.

André Canto, o diretor, entrevistou especialistas, pessoas que vivem com HIV, personalidades e autoridades. Estão no documentário nomes como os ministros da saúde que foram chave para que o Brasil se tornasse uma referência na resposta à epidemia, José Serra e José Gomes Temporão; os médicos Dráuzio Varella, Ricardo Tapajós, Ricardo Vasconcelos e Rosana Del Bianco; a apresentadora Marina Person; Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, além de jovens que se tornaram a nova voz desta epidemia, entre tantos outros entrevistados, incluindo o autor deste blog.

“Contar a história da epidemia de aids significa tocar nos medos e nas memórias soterradas de pelo menos duas gerações. Dezenas de milhões de pessoas chegaram à vida adulta no Brasil dominadas pelo pavor de serem infectadas pelo HIV. Os gays viveram um medo duplo, tanto pela doença, que no início os afetava quase que exclusivamente, quanto pela discriminação que já sofriam. Uma combinação que só contribuiu para aumentar ainda mais o clima de incompreensão acerca do HIV”, explica Canto.

“Apesar de todos os avanços no tratamento e no entendimento da doença, muito desse medo e dessa incompreensão ainda persiste. O filme não é um trabalho psicanalítico, nem um relatório informativo sobre o HIV e a aids. Ele se propõe a ser um estopim, para tocar algo que permanece inconsciente no espectador, para mobilizá-lo, para instigá-lo a uma reflexão importante e incontornável sobre o HIV em nossa sociedade, para provocar uma mudança de postura e perspectiva sobre a história da aids e sobre a realidade atual do HIV”, conclui o diretor.

O futuro ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse em entrevista ao Globo que tem ressalvas quanto às atuais políticas de controle à epidemia de HIV no Brasil. Suas falas não se distanciam das declarações anteriores feitas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. Ao contrário, a entrevista recente de Mandetta ao Globo vai ao encontro da breve entrevista de Bolsonaro feita em 2010, ao programa CQC: “O Estado deve tratar de doentes infortúnios e não de vagabundos que se drogam ou adquirem aids por vadiagem. Uma pessoa que vive na vida mundana depois vai querer cobrar do poder público um tratamento que é caro!”

Diante de Jair Bolsonaro, Onyx Lorenzoni passa microfone a Mandetta na reunião que oficializou seu nome na tarde desta terça

Mas afinal quem é Mandetta? Luiz Henrique Mandetta é médico formado pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro (RJ). No começo dos anos 1990, fez residência no serviço de Ortopedia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul — serviço que era chefiado por seu pai, o também ortopedista Hélio Mandetta, que foi vice-prefeito de Campo Grande, nos anos 1960. Mandetta ainda fez especialização em ortopedia infantil em Atlanta, nos Estados Unidos. Nos anos 1990, trabalhou durante um ano como médico do Exército, no posto de tenente, durante o correspondente ao serviço militar obrigatório da época.

Entrou para a política em 2005, assumindo a Secretaria de Saúde da cidade de Campo Grande, no governo de Nelson Trad Filho (MDB). Antes, de 2001 a 2004, foi presidente da Unimed de Campo Grande. Em 2010, candidatou-se para seu primeiro cargo público, o de deputado federal. Em 2014, reelegeu-se, com 57,3 mil votos. Naquele ano, o deputado recebeu uma doação de R$ 100 mil da Amil, valor que representa menos de 5% dos R$ 2,1 milhões que ele declarou ter arrecadado naquele ano.

Pesaram na indicação ao cargo de ministro da saúde os apoios de entidades da área médica e de hospitais filantrópicos, como as Santas Casas, além de deputados ligados à área da saúde e que apoiarão o governo Bolsonaro. Mandetta também teve o aval do ministro extraordinário da transição, Onyx Lorenzoni (DEM-RS). A indicação de Mandetta foi oficializada numa reunião com representantes do setor de saúde e parlamentares ligados ao tema. O futuro ministro será um dos poucos ministros da saúde fumantes a assumir a pasta. Ele comandará a pasta com um dos maiores orçamentos da Esplanada: em 2019 a reserva prevista para o Ministério da Saúde é de cerca de R$ 128 bilhões.

Mandetta responde a um inquérito que investiga suposta fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois, por conta de seu trabalho como secretário de Saúde de Campo Grande. A investigação gira em torno da implementação de um sistema de prontuário eletrônico, cujo pagamento foi feito e o sistema não teria sido instalado. O futuro ministro nega irregularidades: ele afirma que a implementação do projeto foi descontinuada por uma decisão posterior da prefeitura.

O futuro ministro, em foto de 1999, antes de entrar para a política

O futuro ministro afirmou não acreditar na efetividade das campanhas de prevenção e educação continuada em escolas ou unidades básicas de saúde. Para o futuro ministro, conversas sobre sexualidade, como aquelas envolvendo métodos de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis, devem ser abordadas pelas famílias — não pelo governo.

“Sexualidade é uma questão para tratar dentro de casa”, disse ele, ao ser perguntado sobre campanhas de prevenção em escolas e unidades de saúde. “Há pessoas que não querem usar preservativo. Mudar esse comportamento exige diálogo entre gerações, dentro das famílias”, acrescentou Mandetta. “O que precisamos fazer é instrumentalizar as famílias. Você não pode esperar que o Estado diga que esse ou aquele comportamento é sexualmente correto.”

O futuro ministro ainda questionou a atual distribuição gratuita e universal de antirretrovirais no Brasil: “O país começou a trabalhar muito a questão do medicamento. E a aids passou a ser, na cabeça dessa geração, uma doença com a qual é possível conviver. Houve uma banalização da doença. E aceitamos isso como se fosse uma coisa natural. ‘Ah, deixa, vamos comprar remédios para todo mundo’. Precisa dosar melhor.”

Luiz Henrique Mandetta

De acordo com o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ronald Ferreira, as opiniões do novo ministro soam um alerta: “Elas podem indicar mudanças na política de distribuição de medicamentos e na realização de campanhas de prevenção, duas áreas nas quais a atuação do ministério é fundamental.” Na opinião de ativistas e infectologistas, as posições do novo ministro podem antecipar uma guinada conservadora no programa de HIV e aids do ministério e prejudicar o alcance de campanhas de prevenção.

Para Alexandre Grangeiro, pesquisador da USP e conselheiro da Associação Brasileira de Interdisciplinaridade de Aids (Abia), há outro problema: Bolsonaro já declarou à imprensa que o novo ministro da Saúde terá de “tapar os ralos e economizar recursos”. Existe o temor de que essa ambição provoque mudanças na política de assistência farmacêutica do ministério.

A atual de distribuição de antirretrovirais tem custos relevantes para os cofres públicos: em 2017, a compra destes medicamentos custou ao Ministério da Saúde cerca de R$1,1 bilhão. A oferta de universal e gratuita de antirretrovirais no Brasil vem desde 1996, quando o governo passou a disponibilizar na rede pública o tratamento com antirretrovirais a todas as pessoas que vivem com HIV. A estratégia sempre foi elogiada internacionalmente, pois, além de tratar quem sofre com o vírus também previne a sua transmissão e, assim, ajuda a controlar a epidemia.

O combate à aids será um dos principais desafios que o novo governo enfrentará no campo da saúde. Números recentes do Brasil mostram que, contrariando a tendência mundial de queda, cresceram os casos de HIV no país, sobretudo em meio a jovens entre 20 e 24 anos e homens que fazem sexo com homens.

O potencial de transmissão sexual do HIV quando uma pessoa que vive com HIV faz tratamento antirretroviral e mantém sua carga viral indetectável é “insignificante”, confirmou a Agência de Saúde Pública do Canadá, em uma revisão feita para o Departamento de Justiça do país. Além disso, as autoridades canadenses afirmaram que risco de transmissão do HIV, a partir de uma pessoa em tratamento antirretroviral mas sem carga viral indetectável, é “baixo” — seguindo a definição de carga viral indetectável representa uma contagem inferior à 200 cópias/ml.

As expectativa das autoridades canadenses é que essas afirmações, baseadas em evidências científicas, ajudem a reduzir a criminalização da não divulgação da condição sorológica generalizada no Canadá. Lá, as pessoas podem ser processadas por não revelarem o seu estado soropositivo quando se envolvem em atividades sexuais que representam alguma “possibilidade realista” de transmissão do HIV.

Para isso, a Agência de Saúde Pública do Canadá realizou uma revisão sistemática, a fim de identificar as revisões de estudos que contém dados que permitissem calcular o risco absoluto de transmissão sexual do HIV entre parceiros sexuais sorodiscordantes. Foram incluídos estudos publicados até abril de 2017. Como os autores reconhecem, isso significa que alguns dos dados recentes mais importantes, parte final dos estudos Parter 2 e Opposites Attract, não estão incluídos. Todavia, uma vez que não ocorreu qualquer caso de transmissão do HIV a partir de pessoas com cargas virais indetectáveis ​​nesses estudos, adicionar os dados destes estudos simplesmente acrescentaria que apontam na mesma conclusão. Diante disso, as autoridades canadenses diferenciaram alguns cenários possíveis:

No primeiro deles, o parceiro sexual soropositivo faz tratamento antirretroviral e tem sua carga viral suprimida, indetectável. Nesse caso, baseando a estimativa nos dados mais antigos dos estudos Partner e Opposites Attract, nos quais pessoas com cargas virais abaixo de 200 cópias/ml foram monitoradas a cada seis meses e, no fim das contas, apresentaram zero transmissão do HIV. Se os dados mais recentes do Partner 2 e Opposites Attract fossem incluídos, o intervalo de confiança seria ainda maior, mas, mesmo assim, a estimativa pontual de 0,00 não mudaria. Por isso, os autores descrevem o risco de transmissão nestas circunstâncias como “insignificante” — mesmo sem uso do preservativo.

O segundo cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral e apresenta níveis variados de carga viral. Diante de situações assim já foram observadas algumas transmissões do HIV em estudos científicos: foram 23 transmissões, comprovadas geneticamente, em 10.511 pessoas-ano de acompanhamento. A incidência estimada de 0,22 transmissões por 100 pessoas-ano é quase insignificante. Entretanto, as pessoas nessas coortes geralmente apresentavam altos níveis de adesão ao tratamento e altos níveis de supressão da carga viral, o que quer dizer que o potencial de risco de transmissão, nesses casos, pode ter sido subestimado.

O terceiro e cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral, tem níveis variados de carga viral e usa preservativos. Para calcular este risco, as autoridades se basearam em uma revisão sistemática feita em 2012, que modelou o efeito combinado da terapia antirretroviral e dos preservativos, em conjunto, para derivar os riscos por ato. Foi observada uma variação de 0,003 transmissões por mil atos para o sexo vaginal insertivo e 0,11 transmissões por mil atos  para sexo anal receptivo. Estes riscos foram descritos como “baixo”.

A quarta situação diz respeito ao sexo com uso de preservativos com um parceiro soropositivo que não faz tratamento antirretroviral. Aqui, as autoridades apontaram para as conclusões de uma revisão da Cochrane Collaboration, de 2012, que ainda fornece as melhores evidências sobre essa questão: ela constatou que entre casais sorodiscordantes que relataram “sempre” usar preservativos, havia 1,14 transmissões de HIV por 100 pessoas-ano. As autoridades canadenses descrevem esse risco como “baixo”.

O Departamento de Justiça do Canadá compreendeu as conclusões das autoridades médicas e declarou: “A lei criminal não deve ser aplicada a pessoas vivendo com HIV que tenham praticado atividade sexual sem revelar sua condição, desde que tenham sua carga viral suprimida (ou seja, com menos de 200 cópias/ml de sangue), uma vez que não há uma possibilidade realista de transmissão do HIV nessas circunstâncias.”

Procura-se homens e mulheres que vivem com HIV, residentes no Brasil, de 18 a 25 anos de idade, que tenham adquirido o vírus através de sexo sem uso de preservativo e dispostos a participar de campanha publicitária de uma conhecida marca de preservativos. A campanha será veiculada em todo território nacional ao longo de três meses, em celebração ao Dia Mundial de Combate à Aids, 1º de dezembro. A participação é remunerada. O candidato deve estar disposto a contar sua história e falar sobre como adquiriu o HIV. Para participar, entre em contato preenchendo o formulário abaixo:

Uma injeção mensal para controlar o HIV mostrou-se tão eficaz quanto os atuais comprimidos antirretrovirais diários, de acordo com um estudo da GlaxoSmithKline, a GSK. Esse estudo abre caminho para um novo e mais simples regime de tratamento.

A injeção experimental com dois antirretrovirais, Cabotegravir e Rilpivirina, mostrou-se capaz de suprimir o HIV em uma coorte de adultos que não tinham experimentado o tradicional regime oral diário de três medicamentos. No estudo, os adultos com HIV foram, primeiro, colocados em um programa de 20 semanas com comprimidos diários para suprimir o vírus, antes deste tratamento ser substituído pelas injeções mensais. Após 48 semanas, as injeções mantiveram uma taxa de supressão similar ao comprimidos orais.

Os resultados reforçam um importante estudo anterior, que envolveu adultos que estavam usando um esquema oral de três medicamentos para controlar o vírus. John C. Pottage, diretor médico da ViiV Healthcare, uma subdivisão da GSK, disse que o estudo forneceu mais evidências de que uma injeção de ação prolongada pode vir a ser uma alternativa à terapia oral diária para pessoas que já atingiram a supressão viral.

“Este regime pode transformar o tratamento contra o HIV, reduzindo a quantidade de vezes que uma pessoa recebe o tratamento num ano: de 365 para 12”, disse ele. “Trabalhar em novos métodos de tratamento contra o HIV, incluindo terapias injetáveis ​​de ação prolongada, faz parte do nosso objetivo de tornar o HIV uma parte cada vez mais insignificante na vida das pessoas que vivem com o HIV.”

A ViiV Healthcare, que também é propriedade da Pfizer e da Shionogi, espera que este trabalho no desenvolvimento de terapias com dois medicamentos ajude a empresa a competir com a Gilead Sciences, farmacêutica norte-americana que domina o mercado de US$ 26 bilhões ao ano.

Um dos destaques da Conferência de Outono da British HIV Association, a BHIVA, foi a possível segunda cura do HIV por esterilização, tal como aquela alcançada pelo “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown.

O caso envolve um homem soropositivo que foi submetido a um transplante bem sucedido de células estaminais alogênicas a partir de um dador não homozigoto para delta-32 de CCR5, a mutação genética natural que impede a infecção pelo HIV. Sua terapia antirretroviral foi interrompida 15 meses após o transplante, depois de aprovação ética, e, nos 12 meses seguintes, o HIV permaneceu indetectável em todos os métodos diagnósticos, incluindo análises de crescimento do DNA pro-viral e o DNA total e integrado do HIV nas células CD4. Mais detalhes serão apresentados a uma futura conferência médica. Por enquanto, isso é tudo o que sabemos!

Uma criança soronegativa recebeu um transplante de fígado de sua mãe soropositiva e, até agora, não tem qualquer evidência de infecção por HIV, além de uma resposta muito fraca de anticorpos contra o vírus, apesar de extensivos testes de HIV.

Pesquisadores sul-africanos publicaram na revista Aids a respeito do caso e disseram que não conseguem esclarecer se a criança eliminou o HIV ou se o vírus está profundamente oculto no organismo da criança, possivelmente apenas no fígado. Este é o primeiro caso relatado de um transplante a partir de um doador soropositivo para um receptor soronegativo e levanta a questão: é possível nesse caso evitar a transmissão do HIV com profilaxia?

A mãe da criança foi diagnosticada com HIV aproximadamente seis meses antes de engravidar e iniciou o tratamento antirretroviral com um regime de Efavirenz, Tenofovir e Lamivudina, seis semanas antes da concepção. Seu filho recebeu profilaxia com Nevirapina durante seis semanas após o nascimento e subsequentemente testou  negativo para o HIV.

Foi então que, aos seus sete meses de idade, a criança foi encaminhada para o Centro Médico Wits Donald Gordon, em Johannesburgo, África do Sul, onde foi diagnosticada com atresia biliar, uma doença hepática infantil na qual os dutos biliares são estreitados ou bloqueados, impedindo a bile de drenar do fígado e, assim, levando a danos nesse órgão. A única solução apontada foi um transplante de fígado.

O tempo médio de espera para um transplante de fígado pediátrico no Centro Médico Wits Donald Gordon é de 49 dias. Mas após 181 dias ainda não havia fígado disponível para o transplante. A criança foi então internada, com um sangramento que oferecia risco de vida. Nesse momento, a equipe médica decidiu por uma nova alternativa: sugerir que sua mãe fosse a doadora de fígado, nesse caso, de parte de seu fígado. O procedimento precisou de aprovação ética — e essa aprovação chegou quando a criança tinha 13 meses de idade.

Um medicamento chamado Metilprednisona foi administrado como imunossupressor durante a operação e, depois da cirurgia, corticosteroides orais foram administrados por seis meses após o transplante, para evitar a rejeição de órgãos. Outro medicamento, chamado Tacrolimus, também foi prescrito e ainda está sendo tomado pela criança, também para evitar a rejeição do fígado transplantado. Para prevenir a transmissão do HIV, foi prescrito um regime de Raltegravir, Lamivudina e Abacavir, iniciado no dia anterior ao transplante.

Para monitorar o status da infecção pelo HIV da criança, foram realizados testes de anticorpos contra o HIV, DNA do HIV e RNA do HIV. A criança testou negativo em todos eles, antes do transplante. Depois da cirurgia, a criança testou positivo para anticorpos contra o HIV, em 43 dias após o transplante, e continuou com testando positivo até o 379º dia, embora os anticorpos tenham caído rapidamente para níveis quase indetectáveis, indicando falta de replicação do HIV para estimular respostas de anticorpos.

Nenhum DNA ou RNA do HIV foi detectado no plasma sanguíneo. Um teste Western Blot realizado 225 dias após o transplante e deu resultado indeterminado. O ensaio mostrou que os anticorpos para as proteínas do núcleo do HIV, p24, p40, p55 e p65, eram detectáveis, porém, nenhum anticorpo para as proteínas do envelope foi detectado. Nenhum DNA pró-viral pode ser detectado em células mononucleares do sangue periférico ou leucócitos amostrados no 225º dia, sugerindo que nenhuma célula infectada pelo HIV persiste no organismo da criança ou, talvez, que tão poucas células foram infectadas que elas se mantém indetectáveis ​​nas amostras de sangue coletadas.

Os pesquisadores dizem que há diversas explicações possíveis para estes resultados. Uma destas explicações é a de que, embora seja verdade que um reservatório de HIV possa ter sido estabelecido após o transplante, ele é indetectável pelos testes atuais.

Outra possibilidade é que a infecção esteja confinada às células do fígado doado transplantado e que nenhuma célula receptora tenha sido infectada. Neste cenário, as respostas de anticorpos estão sendo produzidas por células B maternas no tecido hepático do doador, para antígenos produzidos pelas células hepáticas doadoras.

Uma terceira possibilidade é que a criança esteja montando uma resposta de anticorpos ao antígeno do HIV produzido pelas células hepáticas maternas. Nos dois cenários em que o fígado materno é a fonte do antígeno, a resposta de anticorpos em declínio sugere que a produção de antígeno é insuficiente para manter um alto nível de anticorpos.

Os investigadores do estudo dizem que a única maneira de determinar se a criança ainda está infectada pelo HIV pode ser parar o tratamento antirretroviral e monitorar a recuperação da carga viral. No entanto, é necessária mais discussão sobre a ética dessa abordagem.

Os especialistas em fígado Jurgen Rockstroh e Francisco Gonzalez-Scarano dizem que é provavelmente ético interromper o tratamento antirretroviral em algum momento, “uma vez que não se pode justificar uma vida toda de terapia antirretroviral sem a prova de sua necessidade”. Também dizem que o caso não traz evidências suficientes para que a doação de órgãos a partir de soropositivos torne-se corriqueira. Ao invés disso, o caso traz informação sobre como a transmissão do HIV pode ser evitada em circunstâncias como esta.

Por hora, a criança deve permanecer em terapia antirretroviral contínua por dois anos. Os pesquisadores esperam realizar mais transplantes, agora com amostragem e monitoramento mais intensivos.

Um grupo de pesquisadores utilizou, pela primeira vez, infusões de anticorpos para produzir uma supressão prolongada da carga viral do HIV sem terapia antirretroviral.

No pequeno estudo, nove de um total de onze pessoas com HIV que receberam três infusões de dois anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs), foram capazes de interromper sua terapia antirretroviral por uma média de cinco meses. No final do estudo, duas dessas pessoas ainda estavam fora do tratamento e mantendo a indetectabilidade viral (uma delas com alguns blips) mais de sete meses após a última infusão de anticorpos. Os outros sete mantiveram cargas virais indetectáveis ​​por períodos entre 10 e 21 semanas (média de 14 semanas) e permaneceram fora dos antirretrovirais por uma média de 16 semanas.

Duas pessoas, no entanto, tinham cargas virais que reapareceram rapidamente após a última infusão de anticorpos e quase imediatamente reiniciaram os antirretrovirais. Descobriu-se que ambos tinham resistência preexistente a um dos dois anticorpos usados ​​e que isso não havia sido detectado quando eles foram originalmente selecionados para o estudo.

Em um segundo estudo, os mesmos anticorpos foram administrados em sete pessoas que ainda não estavam tomando o tratamento para o HIV. Quatro destes sete responderam, dois a apenas uma dose dos anticorpos. Suas cargas virais reduziram em média 2,2 logs (uma redução de cerca de 200 vezes) por uma média de cerca de três meses. Isto não foi suficiente para produzir indetectabilidade viral persistente em três das quatro pessoas, mas uma pessoa iniciou o estudo com a carga viral mais baixa (menos de 1000 cópias/ml) manteve uma carga viral inferior a 20 cópias/ml durante oito semanas.

Estes estudos são os mais bem sucedidos em uma série usando bNAbs como candidatos a drogas antirretrovirais. Os dois anticorpos escolhidos para estes estudos atuaram como inibidores de entrada, ligando-se e bloqueando diferentes partes da proteína gp120, que o HIV usa para se ligar às células.

Esses anticorpos se desenvolvem naturalmente em algumas pessoas com infecção crônica pelo HIV, mas o HIV desenvolve facilmente a resistência a eles individualmente e, até agora, os estudos que utilizam os anticorpos isoladamente não tiveram nenhum efeito. Os dois anticorpos estudados, chamados 3BNC117 e 10-1074, foram escolhidos por seus perfis de resistência superiores e persistência no corpo.

O resultado destes estudos é a primeira demonstração de que a terapia dupla de anticorpos pode funcionar como uma alternativa à terapia antirretroviral.