Sonhos que vieram do meu inconsciente e contos ficcionais que saíram da minha imaginação.

 “Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

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Em algum dia logo depois do Ano Novo, sonhei que voltava à casa onde passei a minha infância, para uma breve visita. Precisava ir lá agora, já adulto, buscar uma carta que, por alguma razão desconhecida, havia sido endereçada para mim ainda naquele tão antigo endereço. Como é comum em muitos sonhos, pelo menos nos meus, não me recordo de tudo: não sei, por exemplo, quem é que escreveu a carta e muito menos como é que fiquei sabendo que esta carta estava lá — mas isto também não é o mais importante.

casa

O fato é que, quando me dei por mim, já caminhava naquela rua, próxima à praça arredondada que tinha a enorme figueira ao canto. Cumprimentei o mesmo guarda da rua, que não havia envelhecido em nada, e cheguei diante do portão da casa, o qual já não era mais o mesmo: em seu lugar havia uma recepção moderna, que mais parecia com a entrada de um escritório, com um balcão de pedra escura e, atrás dele, uma secretária, sentada diante da tela de um computador e com monitores de segurança que vigiavam a casa. Ela sorriu.

“– Vim buscar uma carta”, expliquei. “Eu morava aqui quando era pequeno e, não sei porquê, alguém ainda mantinha este como o meu endereço.”

“– Só um instante, por favor”, respondeu educadamente a secretária.

sonho

Enquanto aguardava, recuei do balcão. Queria observar a casa onde passei tanto tempo de minha vida. Sabia que era natural que ela estivesse diferente, reformada por seus donos subsequentes, mas a verdade é que a casa não estava tão mudada assim. Afora a recepção moderna e, percebia agora, as novas janelas, menores que as anteriores, tão grandes, tudo permanecia igual! As paredes continuavam das mesmas cores, o jardim permanecia o mesmo, como se as plantas sequer tivessem crescido. Lá atrás, a mesma árvore balançava com o vento. No segundo andar, o quarto de paredes de vidro — uma antiga varanda, que fora coberta por vidraças provavelmente ainda pelo donos anteriores aos meus pais — permanecia, tal e qual, ainda um quarto de brinquedos. De longe, pude perceber o vulto de duas crianças que saltitavam lá dentro, assim como eu fazia quando era pequeno, ao lado de meus irmãos.

bowie

Minha nostalgia foi interrompida pelo novo dono da casa, que veio à porta chamado pela recepcionista. Era um homem jovem, negro de cabelos rastafari e com uma tatuagem no rosto bastante parecida com a capa do disco Aladdin Sane, de David Bowie. O homem sorriu com simpatia, mas não me convidou para entrar na casa. Ele apenas me entregou a carta, me cumprimentou com um forte aperto de mãos e, então, disse:

“– A vida é assim, Jovem.”

Saí de lá sem saber ao certo ao que é que ele se referia — talvez, pensei, às coisas que sempre mudam. Quando dobrei a esquina da rua da antiga casa, acordei do sonho. De olhos abertos, ainda deitado na cama, pensei que 2016 foi o primeiro ano em que não me recordei do meu diagnóstico no dia de seu aniversário. No último ano, o dia 18 de outubro foi como qualquer outro dia. O primeiro dia, desde o meu diagnóstico, a seis anos atrás, em que não fiz as contas do tempo do meu diagnóstico.