“Quero compartilhar com vocês parte da minha história. Quero ajudar alguém que, assim como eu, se deparou com um diagnóstico tão desolador — não só pelo choque que qualquer doença séria e incurável traz ao indivíduo, mas sobretudo por um enfraquecido sistema imunológico, tal como o meu quando da descoberta.

Almejando ser mais didático, vou descrever minha trajetória separando as esferas pessoal e profissional, para tentar dimensionar e, assim, fazê-los compreender a real extensão de tudo o que senti ao ser diagnosticado positivo para o HIV. A exatidão desse sentimento que vem com o diagnóstico não se mensura apenas por aquilo que vivenciamos à época do resultado, mas por tudo aquilo que sempre acreditamos e perseguimos ao longo da nossa trajetória: o impacto (que imaginamos) daquele diagnóstico para o futuro de nossas vidas ou, ao menos, os efeitos dele projetados sobre o nosso futuro.

Inicialmente, friso que cresci em uma cidade pequena, pacata, do interior. Tive uma adolescência permeada de preconceitos e autopreconceitos, intrínsecos, próprios de todo ser humano que se cresce em comunidades pouco desenvolvidas e é educado no seio de uma família religiosa.

Para mim, essa não foi uma história que descreva como ruim, não foi!, mas posso dizer que me fez sofrer o bastante para aceitar a minha sexualidade. Tive que vencer muitos preconceitos próprios, ao ponto da minha primeira relação sexual com o gênero que me atrai ter acontecido somente aos meus 21 anos idade.

Foi a partir daí, registrando esse marco como libertador, que decidi seguir a minha vida assim: me tornado alguém que me fizesse feliz, liberto de todas as neuras, seguindo as minhas crenças pessoais e sempre me adaptando diante do dogma que ainda carregava, desde os tempos de igreja. Hoje, acredito que Deus me ama do jeito que sou, apenas me quer de coração puro, sem maldade, sem buscar o mal ao próximo, sendo uma pessoa justas, assim como ele. Essa é a minha forma de pensar e viver bem minha vida, sem perder a minha fé e com todo respeito à opiniões contrárias. Viva a liberdade de consciência e de crença!

Também segui buscando minha felicidade em outro aspecto importante para mim: o corpo, através daquilo que alguns chamam de ‘culto ao corpo’. Aos 23 anos, em 2008, me tornei um praticante esportista muito dedicado. Viciado: treinava três horas por dia. Tinha o sonho de chegar ao fisiculturismo e até fazia dietas consideradas por alguns como ‘extremas’.

Mas foi saindo da faculdade que recebi um convite de trabalho que muito me auxiliaria à realização do meu sonho profissional, em termos de experiência na carreira que desejava seguir. Não pensei duas vezes e, ao longo de um ano, suspendi a musculação e me concentrei neste outro projeto. Durante esse período, confesso, comecei a me sentir mal por ficar muito magro, de músculos murchos, e com uma barriguinha que nunca antes me acompanhara. Senti a queda na autoestima. E foi exatamente nesse momento que veio o diagnóstico positivo para o HIV.

O diagnóstico me fez pensar em desistir de tudo, como se todos os meus sonhos caíssem por água abaixo. Fiquei desolado, extremamente arrasado. E temeroso diante do futuro do relacionamento que acabava de se iniciar.

Tudo começou em 2016, quando viajei para a praia, em outro Estado. Lá, conheci alguém que me encantou. Ele era incrível! Me cativava com seu jeito de tratar, me olhar… Regressei de viagem com uma daquelas paixonites, sabe? Era como se tivesse retornado à adolescência: continuamos a nos comunicar via WhatsApp e sempre mantendo diálogo como se namorássemos a sério, como se, no dia seguinte, ou a qualquer hora, pudéssemos nos encontrar. Tivemos crises de ciúmes, brigas, discussões de relacionamento — tudo à distância.

Foi em abril de 2017 que combinamos de nos reencontrar pessoalmente. Nessa mesma viagem, noivamos, com direito à aliança em jantar e a oficialização da seriedade da nossa relação. Estava decidido: casaríamos em agosto! Mas começava aí a necessidade de organizar o evento, a vida e o relacionamento e, dentre estes assuntos, o plano de fazermos todos os exames de infecções sexualmente transmissíveis. Foi então que, em meados de 2017, fui até um laboratório na minha cidade e solicitei o tal teste de HIV.

Certo de que não havia nada de errado comigo, com um histórico de apenas dois curtos relacionamentos anteriores, ainda pedi que minha sobrinha buscasse o resultado dos exames para mim. Ocupado com o trabalho, segui meu dia normalmente, até o momento em que recebi a ligação do laboratório: não era possível que entregassem os resultados a qualquer pessoa que não fosse eu, pois a doutora precisava conversar comigo. Disseram que algo estava errado e era preciso repetir o exame.

Abri o computador e descrevi a situação para o Google. Não demorou para descobrir que o argumento do laboratório era um provável indicativo de que o teste de HIV tinha vindo com resultado positivo e, por isso, era preciso confirmá-lo com uma nova amostra de sangue. Era isso, sem dúvida: um resultado positivo.

Passaram-se três dias, inundados de choro, até que eu criasse coragem para repetir o teste de HIV. E não o fiz por conta própria, mas por apoio de minha mãe, que se aproximou e perguntou o que é que se passava. Em meio à lágrimas e choro, contei que precisava refazer um exame e que havia grande chances de eu ser soropositivo.

‘– Filho, se o resultado vier positivo, nós vamos enfrentá-lo e pronto!’, disse ela.

Foi num ambiente reservado do laboratório, para onde fui levado por um atencioso profissional que percebeu a minha aflição, que repeti o teste de HIV. Alguns dias depois, veio a  confirmação: reagente para HIV.

Um susto, sim, mas já começava a suportar a ideia de conviver com o vírus, até então impossível de aceitar. Atribuo isso ao fato de que, naqueles dias entre a última coleta de sangue e o resultado, li bastante, o máximo que consegui, sobre o HIV — grande parte deste conteúdo, sim, aqui no Diário de um Jovem Soropositivo. Talvez, mal saiba seu autor que seu trabalho neste blog salva vidas. A ele, sou eternamente grato. Foi através desta iniciativa que compreendi melhor a vida de um soropositivo e num momento em que tudo era desconhecido. Percebi o quanto somos ignorantes a respeito do assunto! Li relatos fantásticos que muito me confortaram e percebi  também como faltam campanhas educativas acerca do tema em nosso país.

Ao que me parece, a maior dificuldade da vida com HIV é vencer o preconceito, decorrente da falta de conhecimento da população em geral. E falo por experiência própria, momentos em que eu mesmo tive preconceito. Lembro que, certa vez, conversava no trabalho com um rapaz soropositivo assumido e, enquanto ele me relatava um assunto qualquer, a única coisa que se passava pela minha cabeça era: Como que esse cara fez isso consigo mesmo? Como que ele deixou isso acontecer com ele? Por que ele não se cuidou? Era a minha ignorância, decorrente do fato de eu nada saber sobre o HIV.

Agora, saberia meu noivo tudo o que era preciso sobre o HIV? Essa era uma pergunta que eu temia responder e, descobria eu, deveria inclusive ser postergada. Meus exames subsequentes mostram que minha saúde requisitava muita atenção: meu CD4 estava em 76, quando o mínimo esperado é 500.

Reduzi a intensidade de meus treinos na academia. Suspendi as dietas. Continuei sem fumar, sem beber, sem ir à balada. E iniciei imediatamente o tratamento antirretroviral com Dolutegravir, Tenofovir e Lamivudina, além de Bactrim, para evitar infecções e doenças oportunistas. Aqui, noto que praticamente não tive efeitos colaterais — a não ser os psicológicos: todas as noites acordava às 4 horas da manhã, com aquele turbilhão de coisas na mente.

Em novembro de 2017 minha contagem do CD4 subiu para 291. Em Março de 2018 chegou a 325. E, agora, em agosto de 2018, meu CD4 está em 451. Deus é muito bom! Tenho certeza que, em breve, meu CD4 estará muito acima de 500. Tenho fé! Sei que a vida pode sim voltar ao normal.

Mas e o casamento? O teste de HIV dele veio negativo. E o meu positivo, disse ele, jamais seria empecilho. Nosso amor é muito maior, percebo hoje, casado há um ano.

Sou muito feliz no meu casamento. Amo meu parceiro e ele a mim. Temos um casamento muito transparente, sem segredos e, principalmente, com muito respeito. Somos pelo nosso casamento, sempre apoiando um ao outro. Meu marido me estimula e encoraja a retomar minhas metas profissionais. Assim, voltei a estudar para concursos. Tenho uma rotina diária de estudos, com muita dedicação.

Essa é minha nova vida. Nela, percebo que o vírus não pode nos anular. Temos que juntar forças e seguir com nossos projetos e sonhos, ainda que por caminhos diversos daqueles idealizados outrora. É assim! E, para quem acredita, com fé em Deus e a bênção dele nas nossas vidas.”

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“Quando escrevi o texto Recorte o seu HIV percebi que este soou um tanto otimista para alguns leitores. Entretanto, sustentar uma visão otimista desvinculada da realidade nunca foi minha intenção. Sou partidário do realismo, sem poliana, como disse um leitor. Convencer os outros também nunca foi minha pretensão. Penso que recortar o HIV do seu espaço e tempo é medida concreta, realista e necessária.

Olhar para ele com os olhos do passado é um erro, mas, ainda assim, é uma opção pessoal. Não é a minha escolha particular. Mas pode ser a sua. Afinal, é você quem decide como interpretar essa questão íntima. Contudo, me senti em débito com aqueles que leram o texto. Afinal, se o vírus e a contaminação não foram capazes de impedir uma análise “otimista”, então o que seria? O Dólar. Minha resposta é: o Dólar. Mas por que?

Vou tentar percorrer um caminho de reflexão lógica — e, ao mesmo tempo, me manter calmo para não passar mal do estômago. Se você estivesse aqui, acho que me apoiaria em você para entrar nesse percurso escuro, porque vou lhe apontar uma monstruosidade horrenda, abjeta, vil e repugnante. Algo que eu tenho medo, que drena quase todas as minhas esperanças, porque é apenas a unha desse animal fétido e asqueroso. Então me ajude. Me dê licença, vou apertar a sua mão e pode doer. Sigamos.

Você já deve ter ouvido falar da CROI. É uma das mais importantes conferências do mundo sobre o HIV. Ocorre uma vez por ano e tem enorme repercussão mundial na área. Profissionais das melhores universidades do mundo e pesquisadores das mais importantes farmacêuticas são convocados para palestrar nesse evento. Recentemente, na CROI 2018, que ocorreu no mês de março, em Boston, houve a apresentação de uma pesquisa desenvolvida em Harvard: trata-se de um estudo absolutamente inédito e que chegou a um estágio em direção à cura que nenhum outro estudo chegou. Gerou um inédito precedente científico. Com uma combinação de dois anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes, o PGT121 e o Agonist GS-9620, os quais conseguiram a supressão viral sem utilização de antirretrovirais, só com os anticorpos, e por longo prazo, em um grupo de macacos Reshus infectados com o s-HIV, similar ao HIV humano. Isso nunca foi alcançado antes. Os estudos foram conduzidos em Harvard sob a liderança do médico Dan Barouch. Essa pesquisa, aliás, está em andamento.

A questão é que, uma das empresas que lidera o aporte financeiro para essa pesquisa e várias outras, é a Gilead Sciences, uma das maiores empresas do mundo que desenvolve medicamentos para tratar a infecção pelo HIV. Obviamente, pelo porte empresarial, trata-se de uma S/A, de capital aberto, isto é, uma empresa que possui ações na bolsa de valores, principalmente na bolsa Nasdaq, em Nova York, a maior bolsa de valores do mundo.

Pois bem. Apenas para se ter uma ideia, essa empresa faturou, em um ano comum, 14 bilhões de dólares com a venda de medicamentos antirretrovirais no planeta. Vamos lembrar, para não vulgarizar os números, que 1 bilhão equivale a 999 milhões de dólares, mais 1. A Gilead arrecadou 14 bilhões de dólares em 12 meses. Isso só é possível graças à estratégia da empresa, que consiste em financiar grupos de pesquisas, geralmente ligados à universidades, e comprar os direitos sobre a pesquisa. Em seguida, realizam os registros desses domínios científicos formalizando as patentes dos medicamentos. E vem fazendo isso há anos, assim como suas concorrentes.

Porém, ocorreu um caso emblemático na história recente dessa empresa. Durante anos ela investiu milhões de dólares em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos contra a Hepatite C. Investiu muito e arrecadou uma fortuna gigantesca. O modelo de financiar pesquisas e registrar patentes foi tão bem-sucedido que, após alguns anos, conseguiram um feito inédito contra a Hepatite C: desenvolveram um medicamento que promoveu a sua cura. Sim. A cura. A Gilead Sciences conseguiu esse feito maravilhoso para todos os seres humanos — uma conquista notável, meritória, honrosa e que recebeu elogios de todo o mundo. Exceto do mercado financeiro.

Com a cura, os pacientes passaram a ficar independentes dos medicamentos para essa enfermidade que, até então, era crônica e demandava medicamentos de uso contínuo. Assim, apesar dos bilhões arrecadados nos primeiros anos, o gráfico de arrecadação passou a diminuir à medida em que os pacientes se curavam; com os anos, menos pacientes passaram a comprar o medicamento. Esse gráfico do declínio no lucro está, nesse ano, em uma curva descendente se comparado com os anos em que a doença era crônica.

E os investidores da empresa, que compram suas ações na bolsa de valores, perceberam que a Gilead Sciences diminuiu o lucro sobre esse medicamento à medida que os anos passaram. O mercado consumidor do medicamento reduziu à proporção em que as pessoas se curaram. Basicamente, do ponto de vista puramente financeiro, a ação da empresa passou a valer menos na bolsa de valores, pois ela já não lucra tanto quanto na época em que a doença era crônica e a venda dos medicamentos contínua.

Dessa forma, para o mercado financeiro, a cura não foi o melhor negócio para a empresa, embora tenha gerado um inestimável benefício para a vida dos pacientes e para a humanidade. Diante disso, a questão que se coloca é: em nosso mundo, vale mais o bem que se realiza para a humanidade ou os dólares que se arrecadam? Infelizmente, a resposta é até dispensável, de tão óbvia. Estamos começando a ver a primeira imagem, ainda fosca, daquela anomalia bizarra, abjeta e repugnante que mencionei no começo, quando pedi a sua mão porque estava com medo. O cheiro de enxofre é forte e a náusea já me toma conta. Mas, sigamos.

Ver a especulação financeira em risco é algo tão perturbador para o mercado que uma importante corretora de valores, com milhares de investidores nos EUA, e que emite análises semanais do mercado cambial americano e mundial — a Motley Fool — publicou, em 8 de março desse ano, um artigo sobre a Gilead Sciences afirmando que: “as vezes a cura é pior do que a infecção”. Segundo o autor, de grande influência no mercado americano, esse aforismo poderia ser aplicado à Gilead Sciences por ter encontrado e disponibilizado a cura da Hepatite C. Ao que parece, para o analista, ao invés de curar as pessoas, a saída poderia ser manter o ser humano enfermo e poder lucrar com isso, ano após ano, morte após morte. E o que isso tem a ver conosco?

Como sabemos, o HIV ainda não tem cura. Nem funcional, nem esterilizante. No entanto, não há como negar que o caminho é promissor. Há várias frentes de pesquisa sendo desenvolvidas no mundo, em diferentes universidades. E a Gilead Sciences patrocina grande parte deles. Em tempo: você leu sobre o excelente congresso que ocorre em abril de 2018, na USP, sobre patogênese do HIV? O folder está no blog. Tenha a curiosidade de verificar quem são os patrocinadores do evento, no site do evento. Voltando. Como disse acima, essa empresa financia parte daquele estudo sobre os anticorpos neutralizantes, que parece ser um dos mais promissores até hoje. Além de muitos outros pelo mundo.

Ocorre que a situação do HIV hoje lembra muito ao mercado financeiro o episódio da cura da Hepatite C. E sob o aspecto puramente financeiro e mercantil, a cura do HCV (Hepatite C) não foi bem vista no mundo financeiro. O mercado está atento aos movimentos dessa importante farmacêutica mundial. Tanto que, em outro artigo, citando expressamente o resultado inédito das pesquisas com anticorpos monoclonais divulgadas no CROI 2018, a agência Motley Fool novamente pressionou a Gilead Sciences perante os investidores. Apresentou aos clientes uma análise de investimentos intitulada: “Estaria a Gilead tentando se colocar fora do mercado?”. E, no início do texto, o mais assustador: “Você acha que a Gilead Sciences aprendeu a lição sobre a Hepatite C, em que curar pacientes está fazendo com que a receita da empresa diminua à medida que cada tratamento bem-sucedido resulta em um mercado menor de pacientes para trabalhar. Mas está de volta com uma cura potencial para o HIV.” Só um pouco. Vou ali vomitar e já retorno.

Atualmente, no mundo, duas grandes empresas lideram e rivalizam, dólar a dólar, o mercado de antirretrovirais para o tratamento do HIV. São elas: GlaxoSmithKline (GSK) e a Gilead Sciences. Esporadicamente alguma outra empresa disputa no chão lamacento alguma moeda caída desse duopólio. No entanto, se efetivamente não houver nada no subterrâneo; se não existir um esgoto fétido ligando essas duas grandes empresas, temos que agradecer a existência de uma concorrência no mercado. O fato de não existir apenas uma empresa no domínio, muda completamente o cenário para nós, desde que isso seja real. E tudo indica que é.

Na verdade, essa disputa gera uma verdadeira corrida para quem consegue o medicamento mais rentável. Ocorre que este medicamento, nos dias atuais, para vender mais, precisa ser mais eficiente, com menos efeitos e com melhor posologia. E esse caminho vai se estreitando, porque as patentes vão vencendo, os genéricos entram no mercado, diluem os lucros, até que a disputa esteja com medicações extremamente eficazes e busquem a cura, etapa que estamos atualmente. Quem lançar primeiro, fatura mais.

Graças a essa disputa, que ocorre par e passo entre as empresas, temos, todos os anos, vários medicamentos novos e mais eficazes sendo aprovados nos EUA pelo FDA (Food and Drug Administration), e que acabam chegando aos pacientes do Brasil, ainda que com considerável atraso. Confira-se, por exemplo, a disputa de mercado que existe entre os mais recentes medicamentos para pacientes naïve (virgens de tratamento) entre a GSK e a Gilead. O medicamento Juluca vs. Bictegrvir. O Juluca é da GSK. O Bic é da Gilead. Esses medicamentos são absolutamente revolucionários do ponto de vista da toxicidade a longo prazo. Praticamente são atóxicos e sem efeitos, para a grande maioria.

Mas, como eu disse, para isso ser real, ou seja, para que a disputa conduza à cura, deve haver efetivamente a concorrência. É preciso que exista duas ou mais empresas rivais. Nesse ambiente de adversários reais, ainda que haja uma eventual tentativa de acordo para atrasar a cura ou o lançamento de uma nova medicação, a trapaça não é improvável. Afinal, representa lucro. Mas, para todo esse raciocínio fazer sentido, não pode haver uma única empresa. Não pode haver acordo subterrâneo. Não pode haver fraude. E, nesse contexto, reitero, não tenho medo do vírus. Tenho medo do Dólar.

Um grande abraço.
Allpe”

[dropcap]P[/dropcap]ensar e escrever algo útil em relação ao HIV é, sem exceção, enfrentar uma multiplicidade de questões e problemas. São tantos que não consigo enumerá-los sem ser omisso. Posso exemplificar alguns, os mais comuns, mas nem sempre os mais importantes para você, que ora me lê. Estigma, homossexualidade, história trágica que a doença imprimiu na humanidade, imagens de pessoas como cadáveres adiados, tratamento com muitos remédios diários, efeitos colaterais, expectativa de vida após o diagnóstico, etc.

[dropcap]N[/dropcap]enhuma dessas questões me interessa, isoladamente, nesse texto. Em outros, possivelmente. Vou me dar o direito de, nessa oportunidade, não abordar o HIV do ponto de vista histórico; de não falar dos países que ainda são assolados pela falta de medicamentos; de não falar daqueles casos de resistência viral pela irregular adesão ao tratamento, etc. Vou pular tudo. Apenas nesse texto. Aqui, vou propor um outro exercício mental. Quero recortar o HIV do espaço e do tempo. Quero que você olhe para o vírus, exclusivamente hoje, enquanto seus olhos passam essas linhas, descontextualizando ele de toda sua carregada história pregressa. Vamos olhar sem (pre)conceitos, sem história evolutiva, sem análise da evolução medicamentosa, sem estigma, sem nada. Ele só. O vírus isolado de seu contexto.

[dropcap]F[/dropcap]ui diagnosticado há poucos meses. Não mais do que três. A situação não foi das mais fáceis. Mas qual seria? Vou lhe poupar dos detalhes, nesse texto, mas lhe garanto que ocorreu com todos os requintes e detalhes que permitiriam uma grande dramatização. Com todos os motivos que justificariam uma vitimização eterna e um sem número de lamúrias contra a vida e contra Deus.

Mas… será mesmo uma grande desgraça? Desde o dia do diagnóstico, como é de se esperar, estudei muito sobre o tema. Muito. Até cansar. Agora, estudo cansado mesmo, mas estudo. Sim, é uma necessidade conhecer o que ocorre, para não acabar como na idade média, em que um raio era símbolo de uma vingança divina. Afinal, ninguém tinha no horizonte a possível explicação para o fenômeno. Era um mito, um milagre, uma manifestação ou vingança divina. Era. Sem conhecimento, tendemos a mistificar as coisas (caminho que eu respeito, mas não se aplica à minha interpretação particular sobre a infecção).

Textos em inglês são sempre os mais completos, pois é possível pesquisar países que lideram os estudos científicos atuais sobre a “enfermidade”, como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália — embora esse último seja menos adiantado do que a França e Espanha. Aliás, aqui cabe um parêntesis. Durante os estudos, percebi que, na internet, tem muito lixo sobre o assunto. Muito lixo, mesmo. A começar pelas matérias desatualizadas. Assim, se me permite uma sugestão fundamental, selecione no Google o último ano ou o último mês nas ferramentas de pesquisa. Esqueça o resto! Não leia. Artigos de 2016 ou início de 2017 já não mantém qualquer ligação com a atualidade da ciência sobre do tema. Assim, você já conseguirá se livrar de bastante bobagem.

Voltando. Hoje, o que proponho é recortar o HIV do espaço e do tempo. Não vamos olhar sua história trágica, suas vítimas, seus estigmas. Não quero enaltecer sua importância, a partir do seu número tétrico ou da trágica história que cerca essa infecção. Ao contrário. Na análise de hoje, mais consciente e racional do que propriamente humanista, quero olhar para o HIV hoje, agora. Apenas ele. E, nessa tarefa, não posso chegar à conclusão de que ele é uma desgraça. Longe de mim desejá-lo ou subestimar sua gravidade. Não é isso. A questão é que, hoje, o HIV não pode mais ser interpretado pelas pessoas como uma ameaça insuperável, algo absolutamente terrível, uma catástrofe na vida, o fim. Nada disso hoje retrata o HIV de hoje. Aliás, presentificar a trágica história do vírus para mostrar sua importância só colabora com a manutenção do estigma. Daí a proposta desse texto. Recorte o seu HIV e olhe para ele e para você, a sós.

[dropcap]E[/dropcap]u tomo duas pílulas, uma vez por dia. Claro, poderia ser apenas uma pílula se não houvesse a mesquinha, porém inafastável, questão das patentes da indústria farmacêutica. Mas, ainda assim, seriam três compostos em uma pílula — portanto, uma questão apenas estética, uma aparente melhoria. No fim das contas, são dois comprimidos. Não são onze. Não são oito. Não são cinco. Também não estou dizendo que quem toma onze, oito ou cinco está perdido e é o fim. Não. Estou apenas recortando o HIV de sua história para olhar para ele hoje, agora. A própria expressão coquetel perdeu sentido, uma vez que, na minha opinião, só recarrega o estigma. Afinal, só quem trata o HIV toma coquetel, ainda que centenas de outras enfermidades crônicas demandem mais comprimidos diários. Coquetel de uma pílula? De duas? Não me parece adequado e não gosto da nomenclatura; cheira mal, me projeta para o passado, para o ultrapassado.

Ingiro as duas pílulas, com ou sem comida, à noite, antes de dormir, uma vez por dia. Não tenho qualquer efeito colateral. E todas as medicações atuais são assim. Só casos raros terão efeitos colaterais. E, ainda assim, serão passageiros, temporários, durando duas a três semanas. Sim, eu já as tive; mas nada demais. Nada. Uma leve dor de cabeça que não se apresenta mais e que ocorreu eventualmente. Nada que se comparasse à dor de cabeça que já tive inúmeras vezes por excessos durante uma noite de vinho ou cerveja, situação corriqueira antes do diagnóstico.

[dropcap]E[/dropcap]m trinta dias após o início dos medicamentos, fiquei indetectável. Trinta dias. Ou seja, em trinta dias deixei de ter o vírus circulando no sangue, deixei transmitir o vírus, passei a impedir o comprometimento de minha saúde, iniciei a recuperação de minha defesa (de 323 células T-CD4 fui para 516). E olha que, pelos meus médicos, nos quais tenho grande confiança, sou um progressor rápido, pois não tenho a infecção há mais de 3 anos (desde meu último exame negativo) e já estava com uma carga relativamente baixa de T-CD4. Mas vamos adiante. O ponto não é esse.

A questão é que, hoje, ainda que a sua situação seja completamente diferente da minha, cabe ao indivíduo decidir se sua vida será um martírio ou se o HIV será apenas uma pequena parte de sua existência, mas não o todo. Apenas um vírus ou uma vida inteira, que tem infinitas possibilidades e é oceanicamente maior e mais ampla. Cabe a você, e a mim, a decisão de aderir ao tratamento, manter-se ou manter-nos com o vírus suprimido, mudar um pouco da sua atitude em relação a saúde. Ou não. Todavia, reconheço, toda vez que a escolha é dada ao ser humano, há grande pavor. Afinal, a liberdade é, também, amedrontadora. Dá medo ser livre. Ter a escolha é ter a responsabilidade, e isso dá medo.

Quero dizer que o HIV já foi visto também como uma doença do comportamento. Nesse contexto, como posso ficar de bem com a vida, diante de comportamento que é reprovado por todos? (Estigma, preconceito e culpa). Como posso ficar de bem com a vida diante de uma infecção que já foi, no passado, tão grave e tão carregada de preconceito? A culpa, aqui, é inimiga da liberdade e, claro, aprisiona. A pessoa não consegue superar a situação de se culpar e se reconciliar com a vida, porque, apesar de ser livre e ter essa opção, não consegue exercê-la, não supera o autopreconceito e entra no círculo de se auto acusar, julgar e condenar, terminando presa, mentalmente.

Porém, cientificamente analisando, hoje você pode olhar para o HIV com a liberdade de quem está de bem com a vida, pleno e completo. É, amigo, você pode escolher — isso não dá medo?! O amigo poderia me interromper, aqui, com a questão: “mas os remédios, a longo prazo, poderão lhe causar um problema cardíaco, no fígado, nos rins, nos ossos?” Ao que eu me curvo, assentindo, mas observo com as seguintes questões: e naquelas milhões de pessoas que tem hipertensão? E naquelas milhões de pessoas estão acima do peso? E naqueles que estão abaixo do peso? E naqueles que vivem em grandes centros, com poluição diária sendo inalada? E naqueles que estão no campo, entupindo-se de sementes transgênicas? Ou seja, meu amigo, o futuro não é previsível nem para mim nem para ninguém. Nem para o atleta, nem para o sedentário.

[dropcap]E[/dropcap]u sei. O exercício de recortar o HIV pode não ser fácil para aquele que tem resistência viral, quiçá por já sofrer com a infecção desde a época em que a medicação era pesada e sem tanta eficácia. Mas tenho a certeza de que este, se conseguir recortar o seu HIV da história e olhar para ele com atualidade e raciocínio, também sentirá um alívio. Sim, um alívio: a grande parte do peso negativo que a visão do HIV carrega é devido ao olhar que se tinha, no passado, sobre a infecção. Deve-se a uma interpretação que, hoje, é intempestiva, anacrônica, fora da atualidade, passada, ultrapassada.

E digo mais. Se formos analisar o que está acontecendo hoje no universo da pesquisa científica, com avançados estudos clínicos, que apresentam ganhos reais inéditos, seja na posologia (com possibilidade de medicamentos semanais ou bimestrais), seja na cura (seja funcional, seja esterilizante) aí, então, a alívio é ainda maior. CRISPR, anticorpos monoclonais de amplo espectro, técnicas de reversão de latência exitosas, mecanismos epigenéticos, identificação de novas linhas medicamentosas, etc.

Porém, para ser fiel ao propósito inicial desse texto, o objetivo não é olhar para o futuro, ainda que iminente, muito próximo, e nem para o passado. Mas, sim, olhar para o presente. Recortar o HIV e o analisar o hoje. Sem passado e sem futuro, este como esperança. Tire os sapatos. Vamos pisar no chão da realidade. Vamos cuidar da adesão e deixar de lado os estigmas que advém da história, do passado, dos conceitos ultrapassados. Olhe para hoje. Adesão ótima é vida igual. Já temos isso. Aqui. Agora. Amigo, recorte o seu HIV do espaço e do tempo. Vai ser gratificante.

Um abraço.
AJ”