Artigos originais do Jovem Soropositivo.

“Tudo começou em outubro de 2016, com uma dor de garganta que insistia em permanecer. Creditei estes sintomas ao clima quente na rua e ao ar condicionado frio na sala do escritório onde trabalho, na qual eu passava longas horas do meu dia sob um forte estresse que vinha se agravando ao longo do ano. Ainda assim, eu pensava que tudo isso era mais um momento difícil — o qual, no final, seria totalmente superado. Mas não foi.

Percebi também que eu estava emagrecendo, talvez em demasiado, mas ponderava que talvez isso fosse resultado da nova dieta sugerida pelo nutricionista, naquela última (e cara) consulta. ‘Estava com os músculos definidos’, dizia a mim mesmo diante do espelho. Havia também uma dor no corpo que não melhorava, há cerca de três anos, mas que julgava ser emocional — a ansiedade dos perfeccionistas. Me automedicava e, no final, ‘ficava tudo bem’. Até que não ficou mais.

Vivia um relacionamento amoroso paralelo, que administrava com certa dificuldade (sim, já tinha sido ‘pego no flagra’ por meu companheiro, mas numa situação que depois foi ‘contornada’). Minha testosterona continuava a todo vapor. Era compulsivo por sexo, e sabia disso. Às vezes imaginava que um dia a conta chegaria, mas também refletia que uma vez que me cuidava (e era até meio neurótico com isso), no final, ‘tudo daria certo’. Mas não deu.

Decidi procurar um endocrinologista, julgando estar sofrendo de algum problema na tireoide. Fiz os exames receitados por ele, e todos estavam bons. Mas eu não melhorava. Me auto-diagnostiquei com candidíase oral. Depois, com gengivite. A dor de garganta continuava. Aftas surgiram na boca. Eu voltava ao médico e fazia todos os exames — menos o mais temido por mim: o teste de HIV.

Em janeiro de 2017, logo depois do réveillon, amanheci com diarreia. No médico, fui diagnosticado com gastroenterite. Fiz os exames, todos — menos o próprio. Já sentia suores noturnos, há cerca de um mês. Era hora de fazer o teste de HIV. Nunca passei por nada parecido: uma aflição, uma angústia, um medo que não consigo expressar com palavras e que durou o final de semana inteiro. Em visita ao infectologista, apenas solicitei um pedido para o teste de HIV. Fiz, sabendo que se o laboratório ligasse pedindo para refazê-lo, já teria ali o meu diagnóstico.

Recebi a ligação 15 minutos antes do prazo final da entrega do exame. Lembro-me bem: estava no meio de uma consulta com um psiquiatra. Naquela altura, 10 quilos mais magro. No trabalho, pedi licença por depressão. Agora, não me reconheço. Não sei mais quem sou. Tenho medo de morrer e de deixar as pessoas que dependem de mim em desamparo — não fosse isso, acho que já tinha dada por terminada a minha missão.

Em pouco tempo, perdi a forma física. Perdi a libido e, agora, tenho alternado entre períodos de aparente tranquilidade a momentos de grande desespero. Tenho a sensação de que já tenho a minha sentença de morte. Espero apenas que ela não seja lenta e dolorosa. Queria que fosse diferente. Queria acordar e constatar que tudo não passou de um pesadelo. Queria não precisar pensar: ‘Por que comigo?’, ‘Logo eu, que me cuidei tanto?’

Decidi não contar à minha família. Só meu companheiro e dois amigos sabem. Meu companheiro me deu todo apoio e nunca questionou como isso aconteceu. Sinceramente, não sei o que seria de mim sem ele! Tirei um grande peso dos ombros quando ele fez o teste de HIV: está saudável! Falta agora o teste do amante, que também tem muito medo do resultado.

Me preocupo que outras pessoas descubram que eu tenho HIV, que me depare com algum conhecido ao buscar a medicação. Mesmo assim, não demorei para retornar ao infectologista e pedir que ele receitasse a medicação. Queria começar o tratamento logo. De alguma forma, sentia que estava correndo contra o tempo. Antes mesmo do resultado confirmatório, que recebi dez dias depois, já estava em tratamento antirretroviral.

Meu médico disse que quanto menos eu souber a respeito do HIV, mais fácil será de encará-lo. Mas eu não segui seu conselho: não há o que eu não saiba sobre a doença. Voltei a fazer ginástica e tenho vivido um dia de cada vez. Em junho, volto ao médico para fazer análise da carga viral. Procuro não criar expectativas, mas, confesso que, se estiver indetectável, será um alívio!

Dizem que não há mal que dure para sempre e que todas as alegrias e tristezas são efêmeras. Assim espero. Embora ainda me sinta frágil e inseguro, vou em breve assumir um novo compromisso profissional. E vou seguindo a vida. Um dia de cada vez.”

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O que é felicidade, e como podemos ter um pouco dela? Matthieu Ricard, um bioquímico que virou monge budista, diz que podemos treinar nossas mentes em hábitos de bem-estar para gerar um verdadeiro sentimento de serenidade e realização.

Matthieu Ricard
Monge, autor, fotógrafo
Às vezes chamado de “o homem mais feliz do mundo”, Matthieu Ricard é monge budista, autor e fotógrafo. Veja sua biografia completa.

“Olá, Jovem.

Necessito dividir a minha história porque li poucos relatos de mulheres, porque preciso desabafar. Espero que possa me compreender e me ajudar. É difícil saber por onde começar.

“Já fazia dez dias que eu estava com os remédios em casa e não tinha coragem de começar a tomá-los.”

Acho que tudo começou há mais ou menos sete meses, quando conheci o seu blog. Eu estava desesperada, procurando informações relacionadas ao HIV. Tinha acabado de descobrir minha sorologia positiva, em 10 de maio de 2016, e foi através do seu blog que tirei muitas dúvidas no decorrer desses meses — e te agradeço por isso. Comecei a tomar a medicação ‘3 em 1’, no dia 1º de dezembro, quando por acaso vi uma reportagem sobre o dia Mundial de Luta Contra a Aids — este foi o empurrão que eu precisava, pois já fazia dez dias que eu estava com os remédios em casa e não tinha coragem de começar a tomá-los.

“Abriu em mim uma porta para a ilusão de que eu nunca teria HIV.”

Tenho 33 anos, sou do Rio Grande do Sul. Estava casada há dois anos, com um homem mais jovem. Nossa relação parecia ser respeitável e saudável — e, quando digo ‘saudável’, me refiro ao fato de que, logo nos dois primeiros meses de namoro, fizemos o teste de HIV e demais doenças sexualmente transmissíveis. Todos resultaram negativo. E acho que foi neste momento que me senti muito feliz, achando que estava imune a tudo. Abriu em mim uma porta para a ilusão de que eu nunca teria HIV, pois achava que tinha encontrado alguém em quem eu podia confiar e com quem eu não precisaria mais usar preservativos, uma vez que estávamos em um relacionamento sério e fiel e já falávamos sobre ter um filho. Acredito que muitos indivíduos passam por esta situação: confiar sua saúde à outra pessoa, não é mesmo?

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No decorrer do relacionamento tivemos briga e uma breve separação, por besteiras que envolvem qualquer casamento. Voltamos em seguida, como de fato acontece com qualquer um. Mas foi nos meses seguintes que comecei a desconfiar que ele estava me traindo. Procurando no computador, encontrei um site de sexo no histórico do navegador. Coloquei o e-mail dele e sua senha e, então, fui levada para uma página cheia de mensagens que ele trocara com pessoas com quem vinha fazendo sexo, com quem ele estava se relacionando durante todo o nosso casamento. Descobri que ele era bissexual.

Me desesperei quando li uma conversa na qual ele indagava sobre a suspeita da pessoa com quem ele estava saindo ter HIV. E não tinha como contar isso a ninguém. Liguei pra ele falando o que havia descoberto, mas ele negava tudo. Nos separamos. Ficamos sem nos falar por algum tempo. Esperei o período de janela imunológica e o convenci a ir fazer o teste.

“Ele ficou em silêncio, antes de desabar em choro, pedindo desculpas, até me contar do resultado positivo no teste de HIV.”

Foi o pior dia da minha vida quando vi a cara dele ao sair da sala. Ele ficou em silêncio, antes de desabar em choro, pedindo desculpas, até me contar do resultado positivo no teste de HIV. Enquanto ele chorava, saí correndo e fui fazer o meu teste, o qual também deu reagente. Meu mundo desabou. O que eu ia fazer agora? Eu queria morrer.

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Cheguei em casa e comecei a procurar na internet. Descobri o seu blog e, aos poucos, fui me acalmando. Percebi também que, por mais que não fosse alienada, eu era totalmente leiga no assunto. Consegui respirar com mais alívio, mas confesso que a dor, a culpa e a vergonha ainda me perseguem. Não tenho coragem de falar sobre isso com quase ninguém: as únicas pessoas que sabem são os médicos do SUS e meu ex. Sequer tive coragem de contar para meu médico do plano particular, pois toda minha família se consulta com ele — e tenho a certeza de que eles não entenderiam e me julgariam. Desde o meu diagnóstico, vivo nesta prisão interna. Não estou trabalhando. Fico quase 24 horas em casa sozinha. Me isolei totalmente.

Por outro lado, acho que consegui me manter racional. Convenci meu ex a fazer todos os exames necessários, a fim de saber quanto tínhamos de CD4 e carga viral. Meu primeiro exame deu 649 células/mm³ de sangue e 26 mil cópias do vírus. Esperei mais 3 meses e fiz novamente o exame de carga viral, que veio em 27 mil. Meu médico me convenceu que era melhor começar a fazer o tratamento antirretroviral. Eu sabia que quanto mais cedo, melhor.

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Peguei os frascos de remédio, decidida a aderir ao tratamento. Mas, quando cheguei em casa, perdi toda a coragem. O medo tomou conta de mim: tinha medo dos efeitos colaterais que eu poderia sentir, ainda mais sozinha e sem ter ninguém para recorrer. Como eu disse, tomei essa coragem no dia 1º de dezembro. Passadas algumas horas, senti tontura. Minha boca ficou molhada, mas os lábios estavam secos. Um gosto estranho. Minha barriga ficou inchada. Será que não me alimentei muito bem? Nos últimos dias a tontura já foi menor, embora minha barriga continue muito inchada. Tive vontade de vomitar. Acordei no meio da noite com muita sede.

“Enquanto não existe a cura, quero chegar ao indetectável.”

Peço desculpas se escrevi demais. A verdade é que queria deixar registrado aqui que nunca devemos depositar a nossa saúde nas mãos de outra pessoa, por mais que confiemos nela. Todos falhamos. Todos tempos nossos medos e segredos. Aprendi que devemos continuar nos prevenindo sempre e que, em caso de falha, sempre há uma saída — eu, agora, estou tentando encontrar a minha. Enquanto não existe a cura, quero chegar ao indetectável, para nunca sentir a culpa que vi nos olhos de meu ex, por ter transmitido esta doença para alguém, por ter descoberto que ele estava com HIV e que o passou para mim.

Obrigada por poder te escrever, Jovem. Já me sinto um pouco melhor em dividir a minha história.”


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Alex, 27, é diretor de marketing. Ele foi diagnosticado aos 23 anos e fez aqui um relato franco e emotivo da vida antes do HIV, do terrível dia do diagnóstico e de como agora ele está vivendo uma vida normal.

 

Pré-HIV

Minha primeira experiência com o teste de HIV foi com um médico em Norfolk tirando meu sangue e dizendo “você é gay então você provavelmente tem HIV” e, em seguida, me entregando um folheto sobre ser soropositivo. Ninguém quer escutar isso com 16 anos! Mas ele estava errado: cinco dias depois eu recebi o resultado dizendo que eu era soronegativo. No entanto, a experiência foi tão ruim que eu não fiz o teste novamente por um bom tempo depois disso.

 

Os sinais

Passei alguns anos vivendo em Londres antes de voltar para Norwich, onde a vivia muito bem – mantinha uma dieta saudável e ia sempre à academia para perder peso. Foi então notei que a perda de peso foi realmente muito dramática e que eu constantemente ficava resfriado. Aliás, não fui só eu que percebeu — meu chefe, no trabalho, disse: “Alex, você é a pessoa mais em forma que eu conheço!”

Me sentindo cansado e com erupção cutânea por todo o meu corpo, fui a um clínica médica, onde me deram algumas doses de penicilina. Depois de mais alguns exames que não deram resultado, meu médico me pediu para fazer um teste de HIV. Voltei ao hospital onde fiz meu primeiro teste de HIV, um dia antes de começar em um novo emprego — e muito feliz por essa mudança.

Na segunda-feira, eu estava no meu primeiro dia no trabalho novo, quando recebi um telefonema. Era o resultado do meu teste, que veio positivo. Eu tinha HIV. O primeiro pensamento que atravessou minha mente foi que eu não poderia ter filhos. (Agora sei que não é verdade, que posso ter filhos.)

 

O diagnóstico

Em geral, um diagnóstico nunca é revelado pelo telefone. Mas meu diagnóstico era diferente da maioria. Recebi uma mensagem de texto do National Health Service, pedindo-me para ligar para um número específico por volta das 17:15h.

Quando liguei, pediram-me para ir visitá-los, mas expliquei que estava em Londres e que não poderia voltar naquela hora a Norwich, às 17h em plena segunda-feira!Eu me lembro que estava passando em frente ao Costa Coffee em Tottenham Court Road. A verdade é que, naquele momento, o pensamento de que eu era positivo sequer passou pela minha cabeça. Foi então que ele me disse:

“– Sinto muito por ter que lhe dizer isso, mas seu teste deu positivo.”

Levei um momento para processar essa informação. Então, caiu a ficha. Me lembro da sensação de meu coração pulsando e da minha mente girando fora de controle. Eu só queria era chegar em casa, estar em algum lugar seguro. Tentei ligar para meu namorado, mas ele não respondeu. Liguei novamente e ele atendeu. Meu namorado soube instantaneamente a razão da minha ligação (ele sabia que eu havia feito o teste de HIV) e disse apenas:

“– Vá pra casa. Eu estou saindo do trabalho agora.”

Durante minha viagem de metrô, eu não senti nada. Estava entorpecido. Comecei a ler o jornal, sem dar importância para as notícias. Ao chegar em casa, tentei fingir que estava tudo bem, fazendo tarefas quotidianas, como esvaziar a máquina de lavar louça. Foi quando meu namorado chegou que eu desabei, e chorei como nunca tinha chorado antes.

No dia seguinte ao diagnóstico, fui até o hospital durante o horário de almoço. Hoje, sei que ir ao hospital fazer exames é rotina, mas o que não era rotina era o médico me levar correndo para a emergência. Meu exame de sangue mostrou uma contagem de plaquetas tão baixa que eu estava com trombocitopenia. A contagem habitual de plaquetas no corpo humano é de 150.000 a 450.000 plaquetas por microlitro de sangue, a minha contagem estava em 7.000. Mais tarde, descobrimos que isso estava acontecendo porque o HIV estava atacando as plaquetas e matando-as, então as únicas plaquetas que havia no meu corpo eram muito novas. Se eu tivesse sofrido uma lesão nessas condições, poderia ter sido fatal.

Eu tinha aids avançada e estava em estado crítico. Tudo o que eu podia pensar na época era o fato de que eu estava apenas na minha pausa para o almoço do meu novo emprego e não parecia que eu poderia voltar para o escritório em breve.

 

A reação do meu parceiro

Ele entrou na porta e eu sabia que se eu olhasse para ele nos olhos, eu iria desabar. E foi o que aconteceu. Ele me deitou na cama e me segurou enquanto eu chorava. Eu não conseguia pensar no futuro. Hoje, não tenho idéia do que teria acontecido se ele não estivesse. Meu parceiro foi maravilhosamente solidário e protetor. Nós estávamos juntos há alguns meses e, depois disso, ficamos juntos por mais um ano, antes de terminar por razões em nada relacionadas com o HIV. Durante todo o processo, ele foi incrível. Quando me disseram que eu estava seriamente doente, ele sugeriu que eu fosse morar com ele.

 

Reação no trabalho

Todos me apoiaram muito quando voltei ao trabalho, mas eu havia mentindo para eles. Eu estava tão envergonhado que não queria correr o risco de que pensassem qualquer coisa ruim a meu respeito. Disse a eles que tinha uma “anomalia imunológica” — uma história que os médicos do hospital me ajudaram a criar. Como eu trabalhava para uma pequena empresa, sem um departamento de RH, meu chefe era a pessoa que eu teria de contar. E eu simplesmente não queria fazer isso. Não queria que ninguém soubesse.

Só fui contar sobre o HIV em meu novo emprego, onde recebi um apoio incrível. Eles me dão a flexibilidade que eu preciso para gerenciar minha condição, e sou muito grato por isso. Quem vive com HIV no Reino Unido pode se beneficiar da Equality Act 2010, porém, apenas se revelar sua condição sorológica. Ou seja, para ser protegido pela lei, você tem que revelar que tem HIV.

Passei uma semana no hospital e, por isso, tive que inventar uma história para meus pais, porque eu simplesmente não queria contar a eles que tinha sido diagnosticado com HIV. Felizmente eu me recuperei. Logo comecei o tratamento antirretroviral. Depois de apenas oito semanas eu estava indetectável.

 

Reação de minha mãe e meu pai

Eu contei a meus pais há cerca de um ano, quando me senti preparado para isso. Eu estava solteiro nesta altura e ainda estava reconstruindo minha vida com eles, depois de uma ruptura bastante grosseira. Embora trabalhando para o Terrence Higgins Trust, ainda sentia medo da rejeição, algo que é quase paralisante — eu ainda tinha dificuldade em contar às pessoas que tinha HIV.

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Alex agora trabalha como voluntário no Terrence Higgins Trust. (Imagem: Terrence Higgins Trust)

Divulgar o status é como sair do armário como gay, mas possivelmente dez vezes pior. Meus pais são pessoas incríveis, carinhosas e atenciosas, que têm me apoiado por toda minha vida. Mesmo assim, contar sobre o HIV foi assustador. Quando contei à minha mãe, ela ficou chocada. Então, fiz o que sempre faço, que é ir para o modo educacional. Como eu sei de todos os fatos, é difícil não começar a falar sobre ser indetectável e viver uma vida normal.

Minha mãe foi se deitar, dizendo que precisava de tempo para processar essa informação. No dia seguinte, discutimos: ela estava muito chateada por eu não ter lhe dito mais cedo, ter contado que eu estava em uma condição de risco de vida e que ela não sabia, que eu lutei tanto contra tudo isso sem ela ao lado.  A reação de meu pai foi muito semelhante. Ambos se sentiram magoados por não terem sido capazes de me proteger em um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer tudo de novo, meus pais saberiam desde o primeiro dia. Não tenho ideia de por que não pensei que eles poderiam dar apoio. Mas sei que o estigma em torno do HIV é forte e é assustador.

Por outro lado, fazer o teste não é assustador. Agora que eu sei que meu status de soropositivo, faço tratamento e estou indetectável, sinto um peso fora dos meus ombros, porque sei que não posso transmitir o vírus.

 

Viver com HIV

Dizer que é fácil viver com HIV seria uma mentira. Mas não é mais uma sentença de morte. Viver com HIV significa levar mais algumas em consideração. Com um novo emprego, por exemplo, tenho que considerar cuidadosamente se o novo empregador será simpático com a minha condição. Quando saio de férias para viajar, tenho que verificar e me certificar de que o país de destino aceita viajantes com HIV e levando a minha medicação. Há alguns países para os quais não posso ir, especialmente no Oriente Médio (o que já afetou meu trabalho). Eu tive que visitar um psicólogo para trabalhar com questões de autoestima associadas ao estigma. Tive que experimentar alguns tipos diferentes de medicação para encontrar aquelas com menos efeitos colaterais.

Sempre me lembrarei de alguém me dizendo: “Chega uma hora que você para de pensar no HIV todos os dias”, ao que minha resposta foi: “Mas as pílulas que eu tomo todos os dias são um lembrete diário do que eu tenho dentro de mim”. Porém, agora posso dizer com 100% de certeza que eles estavam certos. O HIV não é mais um fator importante em minha vida. Sim, os relacionamentos são difíceis, uma vez que ainda há muito medo entre as pessoas que são soronegativas e, sim, os relacionamentos nem sempre funcionam como esperado. Mas também é verdade que algumas vezes nos damos bem com caras soronegativos e algumas vezes com caras soropositivos. Só estou feliz por saber minha condição e oferece risco para mais ninguém.

Ser diagnosticado com HIV acabou sendo um momento real na minha vida, partir do qual eu comecei a tomar o controle dela. Me fez crescer muito rapidamente e assumir a responsabilidade pelas minhas ações. Comecei a me respeitar como um adulto e como profissional. Como fui diagnosticado aos 24 anos de idade, deu-me algo para lutar. Algo que vou continuar a fazer até vencer esta condição ou, pelo menos, até terminar o estigma.

 

Olhando para o futuro

Sou uma pessoa muito afortunada, que tem uma família surpreendente, amigos maravilhosos e um trabalho que amo. Estou prestes a me mudar de Londres novamente, desta vez para ir para Brighton, algo que estou realmente ansioso para fazer. Espero viver uma vida longa e feliz, fazendo o que amo ao lado das pessoas que amo.

Infelizmente, com o Brexit, não há mais clareza sobre cuidados de saúde universais. Posso ser limitado quanto a onde posso viver, mas eu não vou deixar que isso amorteça os meus sonhos de explorar o continente.

Em termos de futuro do HIV, quero viver em um mundo onde nós consigamos parar a propagação do HIV — e, espero, onde possamos ser curados dele. Se todos fossem testados e se pudéssemos garantir que todos os diagnosticasos positivos recebam medicação — e, portanto, tornem-se incapazes de transmitir –, seríamos capazes de interromper a propagação do HIV em questão de anos. Por isso, exorto todas as pessoas a fazerem o teste!

Em 21 de novembro de 2016 por  para o Metro.co.uk

“Olá, Jovem.

Não sei como iniciar esse assunto — nem mesmo se deveria fazer isso —, mas senti a necessidade de estabelecer esse contato contigo. Você nem deve ter o conhecimento da minha existência antes desse e-mail, mas você foi de fundamental importância para o meu bem-estar, hoje, 11 dias após meu diagnóstico de portador do vírus HIV. Creio que você receba inúmeras mensagens como essa, diariamente, e, por mais que essa seja apenas mais uma, a vontade de compartilhar com você essa gratidão após a leitura de todos os artigos e relatos pessoais foi maior — e aqui estou eu.

Vou começar falando de mim: me chamo M. e tenho 21 anos. Foi no dia 26 de outubro de 2016. Acho que esse acaba se tornando um dia inesquecível para qualquer um, até para os mais esquecidos ou desnaturados com datas. Mas, enfim, numa tarde após fazer o meu primeiro teste rápido de DSTs — que quis fazer por mera curiosidade —, recebi a notícia que mudou minha vida e tem me causado inúmeras sensações, sentimentos e incertezas, desde então.

Antes disso, já havia doado sangue algumas vezes e acabava acompanhando minha saúde por meio dos resultados disponibilizados ali. Sempre deu negativo para o HIV, como eu sempre esperava. Mesmo me expondo poucas vezes ao risco de contrair a doença, sempre esteve presente aquela sensação de imunidade, de que nunca acontecerá conosco, de que nossos parceiros não se encaixam nos perfis de quem é soropositivo. No entanto, aconteceu. Sem querer ficar preso aos motivos que levaram a isso, mas na minha caminhada desde que descobri o diagnóstico, escrevo essa mensagem.

A minha sexualidade já era um tabu aqui em casa — sou gay — e sempre senti que meus pais e irmã desconfiavam, até mesmo pela minha colaboração em deixar rastros, mensagens com um ex visualizadas pela minha irmã, por exemplo, que certamente reforçavam a suspeita deles. Essa foi uma das minhas maiores preocupações quando fui notificado do resultado do exame de HIV: não poderia dar mais essa decepção aos meus pais, que já não aceitavam a minha homossexualidade. Mas não consegui esconder a tristeza — e também o sentimento de culpa — depois da notícia. Por ainda morar com meus pais, pensei se deveria contar a alguém de mais confiança, minha mãe, pelo menos. Não conseguiria levar isso sozinho. Não dá! Ela merecia saber ao menos dessa vez o que se passava na minha vida, de verdade.

Foi então que, voltando ao posto de saúde no dia seguinte, conversei com a psicóloga e concluí que contar para a minha mãe seria a atitude mais madura, por mais que doesse e fosse a última coisa que desejaria fazer. E o fiz. Compartilhei com ela a notícia da minha sorologia no mesmo dia, à noite, quando disse que precisava explicar o motivo de estar tão triste. Ela desabou com o que ouviu. Chorou, chorou muito. Mas disse que me amava antes de tudo, e isso foi a melhor resposta para provar que fiz a coisa certa.

Após ler e reler vários, senão todos, os seus artigos, consegui me tranquilizar e ver que não seria o fim do mundo, como até então eu imaginava. Será possível, sim, ter uma vida normal e saudável daqui pra frente: só preciso me cuidar e aderir ao tratamento de forma responsável. A propósito, no dia de Halloween, dei início ao tratamento com o 3 em 1, recomendado pelo meu médico. Não senti nada além de uma leve tontura pela manhã seguinte e, talvez, uma sonolência durante os demais dias, que segue até hoje. Mas nada que me atrapalhe a ter a vida que já vinha tendo.

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Ainda me pego as vezes fazendo a clássica pergunta: ‘Por que eu?’. Mas logo caio em mim e percebo como não há respostas para situações como essa e que só me resta me cuidar e não me deixar abatido por isso. Essa é minha única opção. Eu sou maior, mais forte que esse vírus.

Abraços,
M.”


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Norman Garmezy, um psicólogo da Universidade de Minnesota, acompanhou milhares de crianças em suas quatro décadas de pesquisa. Mas um garoto em particular o marcou. Ele tinha nove anos, uma mãe alcoólatra e um pai ausente. Todos os dias, chegava à escola com o mesmo sanduíche: duas fatias de pão, sem nada dentro. Em sua casa, não havia outros alimentos e ninguém que pudesse preparar alguma coisa. Mesmo assim, conforme Garmezy se lembra, o garoto queria ter certeza de que “ninguém sentiria pena dele e de que ninguém saberia da inaptidão de sua mãe”. Todos os dias, sem falta, ele entrava com um sorriso no rosto e um “sanduíche de pão” guardado em sua lancheira.

“Você consegue identificar crianças que estão sob tensão mas que estão dando a volta por cima?”

O garoto com o sanduíche de pão fazia parte de um grupo especial de crianças. Ele pertencia a uma coorte de crianças — a primeira de muitas — a quem Garmezy iria identificar como tendo sucesso, até se superando, apesar de circunstâncias incrivelmente difíceis. Estas crianças exibiram um traço ao qual Garmezy mais tarde referiria como “resiliência”. (Ele é amplamente creditado como o primeiro a estudar este conceito em um ambiente experimental.) Durante muitos anos, Garmezy visitou escolas em todo o país, com foco em regiões economicamente deprimidas, onde seguiu um protocolo padrão. Ele organizava reuniões com o diretor da escola, ao lado de um assistente social ou uma enfermeira, e fazia a mesma pergunta: há aqui alguma criança cuja origem chamou atenção — uma criança que parecia estar no caminho de se tornar uma criança problemática —, mas a qual, em vez disso, tornou-se surpreendentemente uma fonte de orgulho? “O que eu estava perguntando era: ‘Você consegue identificar crianças que estão sob tensão mas que estão dando a volta por cima?'”, contou Garmezy, em uma entrevista concedida em 1999. “Havia sempre uma longa pausa depois da minha pergunta, antes que a resposta viesse. Se eu tivesse dito: ‘Há crianças nesta escola que parecem estar não estar bem?’, não haveria demora na resposta. Mas, ao perguntar por crianças que eram adaptáveis e boas cidadãs na escola, mesmo vindo de uma origem bastante perturbada, eu trazia uma pergunta complemente nova. Foi assim que comecei.”

Resiliência é um desafio para os psicólogos. Não é possível dizer se você a tem ou não a partir de um teste psicológico qualquer, mas pela forma como a sua vida se desenrola. Se você tiver a sorte de nunca experimentar qualquer tipo de adversidade, não saberemos se você é resiliente. É somente quando você se depara com obstáculos, estresse e outras ameaças ambientais que a resiliência, ou a falta dela, emerge: Você sucumbe ou você supera?

O estresse resultante da adversidade crônica pode ser menor, mas “exerce um impacto repetido e cumulativo”.

Ameaças ambientais podem vir de várias formas. Algumas são o resultado do baixo nível socioeconômico e de condições domésticas desafiadoras. (Essas são as ameaças estudadas no trabalho de Garmezy.) Muitas vezes, tais ameaças — pais com problemas psicológicos ou outros tipos de problemas, exposição à violência ou maus tratos, ser criança de um divórcio problemático — são crônicas. Outras ameaças são agudas: experimentar ou testemunhar um encontro violento e traumático, por exemplo, ou sofrer um acidente. O que importa é a intensidade e a duração do agente estressor. No caso de estressores agudos, a intensidade é geralmente alta. O estresse resultante da adversidade crônica, segundo Garmezy, pode ser menor, mas “exerce um impacto repetido e cumulativo sobre os recursos e sobre a adaptação e persiste por muitos meses, muitas vezes até por um tempo consideravelmente mais longo.”

Antes do trabalho de Garmezy a respeito da resiliência, a maioria das pesquisas sobre trauma e eventos negativos da vida tinham o foco inverso. Ao invés de olhar para as áreas de força, olhavam para as áreas de vulnerabilidade, investigando as experiências que tornam as pessoas suscetíveis a resultados ruins em suas vidas (aquilo que leva as crianças a serem “perturbadas”, segundo Garmezy). O trabalho de Garmezy abriu a porta para o estudo dos fatores protetores: os elementos de fundo ou da personalidade de um indivíduo que poderiam permitir o sucesso, apesar dos desafios que enfrentavam. Garmezy se aposentou da pesquisa antes de chegar a conclusões definitivas — sua carreira foi interrompida por Alzheimer de início precoce —, mas seus alunos e seguidores foram capazes de identificar elementos que se dividiam em dois grupos: fatores psicológicos individuais e fatores externos ambientais, a disposição de um lado e a sorte do outro.

(Ilustração por Gizem Vural)

Em 1989, uma psicóloga do desenvolvimento chamada Emmy Werner publicou os resultados de um projeto longitudinal de trinta e dois anos. Ela havia acompanhado um grupo de seiscentas e noventa e oito crianças, em Kauai, no Havaí, desde o nascimento até a terceira década de vida. Ao longo do caminho, ela os monitorou para qualquer exposição ao estresse: estresse materno no útero, pobreza, problemas na família e assim por diante. Dois terços das crianças tinham origens que eram, essencialmente, estáveis, bem-sucedidas e felizes; um terço era classificado como “em risco”. Assim como Garmezy, ela logo descobriu que nem todas as crianças em risco reagiam ao estresse da mesma maneira. Dois terços delas “desenvolveram sérios problemas de aprendizagem ou de comportamento aos dez anos de idade, ou tiveram registros de delinquência, problemas de saúde mental ou gravidez na adolescência, até os dezoito anos de idade”. Mas o terço restante se transformou em “jovens adultos competentes, confiantes e carinhosos”. “Eles haviam alcançado o sucesso acadêmico, doméstico e social — e estavam sempre prontos para capitalizar as novas oportunidades que surgiam.

O que tornava estas crianças resilientes? Uma vez que os indivíduos desta amostra tinham sido acompanhados e testados consistentemente por três décadas, Werner tinha um tesouro de dados à sua disposição. Ela descobriu que vários elementos previam a resiliência. Alguns elementos tinham a ver com sorte: uma criança resiliente poderia ter um forte vínculo com um cuidador, alguém que lhe oferecesse apoio, um pai, professor ou outra figura de mentor. Mas um outro conjunto bastante grande de elementos era psicológico e tinha a ver com a maneira como as crianças reagiam ao meio ambiente. Desde cedo, as crianças resilientes tendiam a “lidar com o mundo sob seus próprios termos”. Eram autônomas e independentes, buscavam novas experiências e tinham uma “orientação social positiva”. “Embora não fossem especialmente inteligentes, estas crianças usavam quaisquer habilidades que tivessem de maneira eficiente”, escreveu Werner. Talvez o mais importante, as crianças resilientes tinham aquilo que os psicólogos chamam de “locus interno de controle”: elas acreditam que são elas, e não as circunstâncias, que afetam suas realizações. As crianças resilientes tornam-se como orquestradores de seus próprios destinos. De fato, em uma escala que mediu o locus interno de controle, elas marcaram um desvio de mais de dois pontos acima do padrão.

Qual lado da equação pesa mais, da resiliência ou dos estressores? Os estressores podem se tornar tão intensos que a resiliência é esmagada.

Werner também descobriu que a resiliência poderia mudar ao longo do tempo. Algumas crianças resilientes foram especialmente azaradas: experimentaram fortes estressores múltiplos em pontos vulneráveis e sua resiliência evaporou. Resiliência, ela explicou, é como um cálculo constante: Qual lado da equação pesa mais, da resiliência ou dos estressores? Os estressores podem se tornar tão intensos que a resiliência é esmagada. A maioria das pessoas, em suma, tem um ponto de ruptura. Por outro lado, algumas pessoas que não eram resilientes quando eram crianças de alguma forma aprenderam as habilidades de resiliência. Elas foram capazes de superar adversidades mais tarde na vida e passaram a florescer tanto quanto aqueles que tinham sido resilientes o tempo todo. Isto, naturalmente, levanta a questão de como a resiliência pode ser aprendida.

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(Ilustração por Boyoun Kim)

George Bonanno é psicólogo clínico na Columbia University’s Teachers College; ele dirige o Laboratório de Perda, Trauma e Emoção e tem estudado a resiliência há quase vinte e cinco anos. Garmezy, Werner e outros mostraram que algumas pessoas são muito melhores do que outras em lidar com a adversidade; Bonanno, por sua vez, tem tentado descobrir de onde essa variação pode vir. A teoria da resiliência de Bonanno começa com uma observação: todos nós possuímos o mesmo sistema fundamental de resposta ao estresse, que evoluiu ao longo de milhões de anos e que compartilhamos com outros animais. A grande maioria das pessoas é muito boa em usar esse sistema para lidar com o estresse. Quando se trata de resiliência, a questão é: por que algumas pessoas usam o sistema com mais frequência ou eficácia do que outras?

“Os eventos não são traumáticos até que os vivenciemos como traumáticos.”

Um dos elementos centrais da resiliência, segundo Bonanno, é a percepção: você conceitua um evento como traumático ou como uma oportunidade de aprender e crescer? “Os eventos não são traumáticos até que os vivenciemos como traumáticos”, disse Bonanno, em dezembro. “Chamar algo de ‘evento traumático’ desmente esse fato.” Ele cunhou um termo diferente: EPT, ou evento potencialmente traumático, que ele argumenta ser mais preciso. A teoria é direta. Qualquer evento assustador, não importa o quão negativo possa parecer, tem o potencial de ser traumático ou não para a pessoa que o está experimentando. (Bonanno foca em eventos negativos agudos, nos quais podemos ser seriamente prejudicados, enquanto outros que estudam a resiliência, incluindo Garmezy e Werner, olham mais amplamente.) Considere algo terrível, como a morte repentina de um amigo próximo: você pode ficar triste, mas também pode encontrar uma maneira de interpretar esse evento como algo cheio de significado — talvez, isso leve a uma maior consciência sobre uma determinada doença, digamos, ou a laços mais estreitos com a comunidade —, fazendo com que este evento possa não ser visto como um trauma. (De fato, Werner descobriu que os indivíduos resilientes eram muito mais propensos a relatar ter fontes de apoio espiritual e religioso do que aqueles que não eram.) A experiência não é inerente ao evento, mas reside na interpretação psicológica do evento.

É por essa razão, segundo Bonanno, que os eventos “estressantes” ou “traumáticos” em si e por si mesmos não têm muito poder preditivo quando se trata de resultados da vida. “Os dados epidemiológicos prospectivos mostram que a exposição a eventos potencialmente traumáticos não prevê seu desdobramento posterior”, disse ele. “Só é preditivo se há uma resposta negativa.” Em outras palavras, viver a adversidade, seja ela endêmica ao seu ambiente ou em decorrência de um evento negativo agudo, não garante que você vai sofrer adiante. O que importa é se essa adversidade se torna traumatizante.

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(Ilustração por Rebekka Dunlap)

“Podemos nos tornar mais ou menos vulneráveis de acordo com a forma como pensamos sobre as coisas.”

A boa notícia é que a interpretação positiva pode ser ensinada. “Podemos nos tornar mais ou menos vulneráveis de acordo com a forma como pensamos sobre as coisas”, disse Bonanno. Em pesquisas feitas em Columbia, o neurocientista Kevin Ochsner mostrou que ensinar as pessoas a pensar com estímulos de maneiras diferentes — reestruturando-os em termos positivos quando a resposta inicial é negativa ou de forma menos emocional quando a resposta inicial é emocionalmente “intensa” — muda a maneira como eles experimentam e reagem ao estímulo. Você pode treinar as pessoas para melhor regular suas emoções, e este treinamento parece ter efeitos duradouros.

Um trabalho semelhante foi feito com relação aos estilos de explicação — as técnicas que usamos para explicar eventos que aconteceram conosco. Martin Seligman, psicólogo da Universidade da Pensilvânia foi pioneiro no campo da psicologia positiva: ele descobriu que treinar as pessoas a mudar seus estilos de explicação de interno para externo (“Eventos ruins não são minha culpa”), de global para específico (“Isso é uma coisa pequena, e não uma indicação maciça de que tudo está errado com a minha vida”) e de permanente para impermanente (“Eu posso mudar a situação, em vez de assumir que ela é fixa”), levou ao sucesso psicológico e a menor propensão à depressão. O mesmo vale para o locus de controle: um locus mais interno não está ligado somente à menor percepção de estresse e de melhor desempenho, mas também à mudanças positivas no bem-estar psicológico e no desempenho objetivo do trabalho. As habilidades cognitivas que sustentam a resiliência, portanto, parecem poder ser de fato aprendidas ao longo do tempo, criando resiliência onde não havia nenhuma.

“Nós podemos criar ou exagerar estressores muito facilmente em nossas próprias mentes. Esse é o perigo da condição humana.”

Infelizmente, o oposto também pode ser verdade. “Podemos nos tornar menos resilientes ou menos propensos a ser resilientes”, diz Bonanno. “Nós podemos criar ou exagerar estressores muito facilmente em nossas próprias mentes. Esse é o perigo da condição humana.” Os seres humanos são capazes de preocupação e ruminação: podemos pegar uma coisa pequena e explodi-la em nossas cabeças, revivê-la mais e mais, nos deixando loucos até o ponto em que aquela coisa pequena passa a ser a maior coisa que já aconteceu. Em certo sentido, é uma profecia autorrealizável.

Se você enquadrar a adversidade como um desafio, você se tornará mais flexível e capaz de lidar com ele, de seguir em frente, aprender com ele e crescer. Se você se concentrar na adversidade como uma ameaça, um evento potencialmente traumático, ela se tornará um problema duradouro e você se torna mais inflexível e mais propenso a ser afetado negativamente.

Em dezembro, a New York Times Magazine publicou um ensaio chamado “O Profundo Vazio da Resiliência”, o qual dizia que esta palavra é agora usada em todos os lugares, muitas vezes de forma a drená-la de seu significado e a ligá-la a conceitos vagos, como “caráter”. Mas a resiliência não tem de ser um conceito vazio ou vago. Na verdade, décadas de pesquisas revelaram muito sobre como ela funciona. Estas pesquisas mostram que a resiliência é, em última análise, um conjunto de habilidades que podem ser ensinadas. Nos últimos anos, adotamos esse termo negligentemente — mas nosso uso desleixado não significa que ele não tenha sido útil e definido com precisão. É hora de investir tempo e energia para entender o que significa realmente “resiliência”.

maria-konnikovaMaria Konnikova é uma escritora colaboradora do New Yorker, onde escreve regularmente sobre psicologia e ciência. Ela é a autora do best-seller do Times “Mastermind: How to Think Like Sherlock Holmes”, que foi nomeado para um Prêmio Agatha de Melhor Não-Ficção, e “The Confidence Game”, sobre a psicologia do contra.
Em 11 de fevereiro de 2016 por  para The New Yorker

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Está no ar o aplicativo Amigos Positivos Messenger: um espaço de interação entre soropositivos e sorodiscordantes, sem preconceito. O aplicativo tem salas de bate-papo individuais, em grupo e uma sala exclusiva para os leitores do Diário de um Jovem Soropositivo. O download é totalmente gratuito. Registre-se na rede Amigos Positivos e baixe o aplicativo em seu iPhone, iPad, Android, tablet ou smartphone.

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HuffPost Brasil

Nós não morremos mais de aids. Nós não vamos viver menos que uma pessoa que não tem HIV. Com tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, nós não transmitimos o HIV através de relação sexual. Temos o código genético do vírus integrado em algumas células, mas provavelmente seremos a geração de soropositivos que vai experimentar a cura.

É verdade, muitas pessoas com HIV ainda morrem por conta de complicações decorrentes da aids, porém, a maioria delas são aquelas que não tem acesso ao tratamento antirretroviral, infelizmente, como ainda é o caso de muitas regiões na África, por exemplo, ou aquelas que foram diagnosticados tarde, já no hospital, com algum doença oportunista relacionada à aids.

Por hora, também é verdade que ainda vivemos um pouco menos que as pessoas que não têm HIV. Uma pessoa soropositiva e que alcançou 50 anos de idade entre os anos de 2006 a 2014 tem uma expectativa de vida de 72,5 anos, enquanto uma pessoa soronegativa pode esperar viver até os 80,2 anos. Todavia, uma pessoa soropositiva que fez 50 anos de idade entre 1996, o ano em que a terapia antirretroviral combinada de três medicamentos foi implementada, a 1999 poderia esperar viver somente até aos 67,8 anos. Para olhar para o futuro, colocamos esses números num gráfico e assim podemos presumir, sem exageros, que a atual geração de jovens soropositivos não vai viver menos que soronegativos.

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Sobrevida, em anos, entre as pessoas de 50 anos de idade com e sem HIV.

O mesmo vale para a incidência de cânceres, relacionados e não-relacionados à aids, que ainda têm uma taxa mais elevada entre as pessoas que vivem com HIV do que entre as pessoas soronegativas. Uma das possíveis razões para essa taxa mais elevada é a inflamação crônica, um assunto pontual ainda não totalmente compreendido pelos médicos e cientistas, a qual é um pouco maior em soropositivos e que, a longo prazo, acredita-se, pode trazer complicações ligadas à uma série de doenças, incluindo cardiovasculares, autoimunes, doenças hepáticas, renais e câncer.

Ainda assim, os gráficos já mostram, nos dias de hoje, um declínio das taxas de câncer entre soropositivos. Projetando para o futuro, não é exagerado concluir que em breve teremos a mesma taxa de incidência de cânceres que os soronegativos.

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Neste gráfico, a linha azul mostra a incidência de cânceres não relacionados com aids, enquanto a linha verde mostra a incidência de tipos de câncer relacionados à aids, ao longo do tempo.

As pessoas com HIV que serviram como referência para os gráficos acima são aquelas que passaram pelo começo da epidemia de HIV/aids, quando não havia tratamento e, quando este surgiu, ainda era muito agressivo, tóxico e, muitas vezes, não tão eficaz.

Aliás, de tão agressivos e ineficazes, os primeiros tratamentos antirretrovirais não foram capazes de salvar a vida da pequena Kat Schurmann, filha adotiva do casal Schurmann, cuja história está no filme brasileiro Pequeno Segredo, que concorre agora por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Kat nasceu em 1992, antes do surgimento da terapia antirretroviral, infectada com o HIV por transmissão vertical, nome que se dá à transmissão do HIV durante a gravidez, parto ou amamentação de uma mãe soropositiva. Ela faleceu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos de idade, devido à complicações decorrentes do HIV.

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Hoje, para viver quase como soronegativos, ainda precisamos dos antirretrovirais. São o mesmo tipo de medicamentos que aqueles implementados em 1996, embora, atualmente, eles sejam mais modernos, mais simples de ingerir e menos tóxicos — por isso, com menos efeitos colaterais, incluindo ausência de lipodistrofia, uma condição comum decorrente dos primeiros coquetéis de antirretrovirais, que faz com que a gordura corporal seja realocada pelo organismo de maneira desproporcional.

Hoje, para controlar o HIV precisamos somente de um comprimido por dia, o qual é composto por três medicamentos diferentes, que inibem os processos que o vírus usa para se replicar dentro do organismo. Em breve, esse único comprimido deve passar a conter apenas dois ou, quem sabe, um único medicamento antirretroviral, o que deve reduzir ainda mais a toxicidade destes medicamentos e, muito possivelmente, melhorar ainda mais os indicadores que falamos acima.

Os antirretrovirais atuais são muito mais avançados que aqueles a que Kat Schurmann teve acesso. Com eles, não é difícil manter o vírus no sangue em quantidade tão baixa que é indetectável, mesmo pelos exames mais precisos de laboratório. No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico, aproximadamente 88% das pessoas que vivem com HIV e que fazem tratamento antirretroviral no país têm carga viral indetectável.

Sob tratamento antirretroviral e com o vírus indetectável no sangue, também não há vírus detectável no fluído pré-ejaculatório e há em baixa quantidade no sêmen. Isso provavelmente é o que faz com que, desde o começo da epidemia, nunca tenha sido observada uma única transmissão sequer a partir de pessoas que vivem com HIV, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral do HIV indetectável no sangue, muito embora já tenham sido feitos longos e extensos estudos entre milhares de casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV) que optam por não fazer uso do preservativo. No último destes estudos, o Partner, foram acompanhados 1.166 casais sorodiscordantes, vários deles homossexuais, em 75 centros clínicos espalhados por 14 países europeus e, assim como nos estudos similares anteriores, não foi documentada uma única transmissão do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Zero transmissão.

Essa realidade faz com que a concepção natural, sem inseminação artificial, sem camisinha, já seja uma opção para casais sorodiscordantes que planejam ter filhos. Portanto, no sexo, soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável já são como soronegativos. “Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe”, explicou Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em 2015. “É mais poderoso que a camisinha.”

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Por conta desta eficácia do tratamento como prevenção na transmissão do HIV, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, estabeleceu uma meta, que determina que “90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu status; que 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral; e que 90% das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral suprimida e não mais possam transmitir o vírus”.

A Suécia foi o primeiro país a alcançar essa meta. Se ela for alcançada por mais países, a epidemia de HIV/aids será virtualmente controlada até 2030, com apenas 200 mil infecções por ano, ante as 2,1 milhões de novas infecções em 2015. Restarão com HIV no mundo as atuais 36,7 milhões de pessoas soropositivas, aproximadamente, dentre as quais eu estou incluído.

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Em 2030, qual será a diferença entre soropositivos e soronegativos? Se os gráficos acima estiverem certos, muito pouco: continuaremos a não morrer de aids, teremos uma expectativa de vida igual a de soronegativos e, ao invés de um comprimido por dia composto por três medicamentos, provavelmente teremos uma única pílula composta por um único antirretroviral — quem sabe, administrável em doses mais espaçadas que a atual dose diária. Para ser aprovado pelas autoridades de saúde, esse tratamento terá de continuar a manter a nossa carga viral indetectável e, por isso, continuaremos incapazes de transmitir o HIV.

Até lá, esperamos que viajantes com HIV não sejam mais deportados ou impedidos de entrar em alguns países, como ainda acontece hoje. Esperamos que mulheres com HIV na Rússia não sejam mais presas por não revelar sua condição sorológica aos seus parceiros e que elas não sejam mais esterilizadas à força em Uganda, tal como tem acontecido enquanto você lê esse texto. Esperamos que não hajam mais leis criminalizantes, que ainda hoje punem desproporcionalmente aqueles que vivem com HIV — como em alguns estados americanos, por exemplo, que já chegaram à condenar soropositivos que cuspiram ou morderam outras pessoas a 35 anos de prisão, e nos Emirados Árabes, onde um soropositivo está preso há mais de 10 anos por ter HIV.

Enfim, esperamos, tal como a meta proposta pelo Unaids, que nos próximos anos não haja mais estigma, discriminação e preconceito contra quem vive com HIV. Nesse cenário, o que é que restará de diferente?

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“Carregamos cerca de 100.000 pedaços de DNA que vieram de retrovírus, conhecidos como retrovírus endógenos. No total, eles compõe estimados 5 a 8% de todo o genoma humano”, explica uma matéria da National Geographic, de 2015, que teve a colaboração de Carl Zimmer, autor do livro A Planet of Viruses.

“Os cientistas sabem que esta fusão aconteceu porque os vírus têm genes distintos. Quando os cientistas vasculham o genoma humano, às vezes se deparam com um trecho de DNA que carrega marcas de um vírus. O tipo mais fácil de vírus de reconhecer são os retrovírus, um grupo que inclui o HIV. Retrovírus fazem cópias de si mesmos infectando as células e, em seguida, usando uma enzima para inserir seus genes no DNA da célula hospedeira. Em seguida, a célula lê o DNA inserido e faz novas moléculas que se montam em novos vírus.

“Na maioria das vezes, os retrovírus se comportam como outros vírus, saltando de um hospedeiro para outro. Mas, por vezes, um retrovírus vai parar no genoma de um óvulo ou do esperma. Se, em seguida, ele terminar em um novo embrião, então o embrião vai levar uma cópia do vírus em cada uma de suas células, incluindo o seu próprio óvulo ou esperma. E assim por diante, de pais para filhos, aos netos.

“Não há como ter certeza de que estamos livres de novos retrovírus endógenos e se o HIV ou outros novos retrovírus irão dar um jeito e integrar nossos nossos genes” — se isso acontecer, bem, então os soronegativos é que vão ficar mais parecidos com soropositivos.